51. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 15: AYOOLA, FAYOLA E BINTU - 15.1. O REENCONTRO
15. AYOOLA, FAYOLA E BINTU
15.1. O REENCONTRO
1. A JORNADA
Enquanto Ife, Amara, Abayomi e Ayane
tomavam seu caminho, munidas apenas
da fé que as sustentaria na jornada da vida,
Ayoola e Fayola, as gêmeas, e Bintu, sua melhor
amiga, seguiam juntas e unidas, e carregavam
consigo, como se fosse o mais precioso
tesouro, os papéis que Tchissola deixara,
com anotações de Antônia, em que se misturavam
trechos das Escrituras, palavras inspiradas,
ensaios teológicos e considerações dela própria,
além de receitas de mezinhas e encantamentos,
em diferentes línguas, todas com garantia certa
de eficácia e rendimento, e, de tempos em tempos,
elas paravam à beira do caminho,
entre uma escala
e outra, e se entretinham a ler o que estava escrito,
e ficavam boquiabertas com o conhecimento
ali guardado, e com tanta sabedoria, que duvidavam
tivesse origem humana, pois mais pareciam
lições dadas por algum anjo, ao longo de alguma
santa e misteriosíssima Liturgia, e assim abriu-se
para elas um mundo novo, que lhes falava de Deus, mas
de um Deus vivo e próximo, que jamais haviam visto,
pois esse Deus era feito das
imagens deixadas
por santas e santos que viveram em séculos distintos,
e assim representavam um caleidoscópio de visões
que se completavam e, conquanto tão diferentes,
nunca divergiam, formando o corpo de uma doutrina
coerente, que apontava como uma bússola firme
sempre o mesmo norte, na pessoa de Cristo. (16-5-26)
tomavam seu caminho, munidas apenas
da fé que as sustentaria na jornada da vida,
Ayoola e Fayola, as gêmeas, e Bintu, sua melhor
amiga, seguiam juntas e unidas, e carregavam
consigo, como se fosse o mais precioso
tesouro, os papéis que Tchissola deixara,
com anotações de Antônia, em que se misturavam
trechos das Escrituras, palavras inspiradas,
ensaios teológicos e considerações dela própria,
além de receitas de mezinhas e encantamentos,
em diferentes línguas, todas com garantia certa
de eficácia e rendimento, e, de tempos em tempos,
e outra, e se entretinham a ler o que estava escrito,
e ficavam boquiabertas com o conhecimento
ali guardado, e com tanta sabedoria, que duvidavam
tivesse origem humana, pois mais pareciam
lições dadas por algum anjo, ao longo de alguma
santa e misteriosíssima Liturgia, e assim abriu-se
para elas um mundo novo, que lhes falava de Deus, mas
de um Deus vivo e próximo, que jamais haviam visto,
por santas e santos que viveram em séculos distintos,
e assim representavam um caleidoscópio de visões
que se completavam e, conquanto tão diferentes,
nunca divergiam, formando o corpo de uma doutrina
coerente, que apontava como uma bússola firme
sempre o mesmo norte, na pessoa de Cristo. (16-5-26)
2. A CONTEMPLAÇÃO
de um dom de ciência e de uma iluminação
pela graça que transforma a inteligência.
E, como o objeto da contemplação é uma presença
pessoal, a verdadeira contemplação implica
o reencontro e a reciprocidade entre o espírito
e o objeto dessa contemplação; ela implica
a fé como adesão pessoal à presença pessoal
do Deus que se revela[1]”, mas essa contemplação
sem palavras, pois ela transcende tudo
o que pode ser dito, e assim ela está além
de toda teologia que pode ser “ensinada”,
e ela se apoia na Encarnação do Verbo,
esse mistério em que Deus se faz homem,
não para ser compreendido, mas para indicar
um Caminho, de modo que ela fornece,
as palavras inefáveis que Paulo ouviu
no Terceiro Céu (que não são permitidas
ao homem repetir[2]), quando ultrapassou
a oposição entre o céu sensível e o inteligível,
que representa o próprio divino e o incriado,
e assim, embora a teologia oscile entre
essa contemplação e a ciência, ela deve
buscar transcender os conceitos, embora,
se veja obrigada a raciocinar – o que constitui
um permanente risco – pois diante dela
se apresenta a tentação de aprisionar
numa esfera de pensamentos aquilo para o que,
ao contrário, o pensamento deveria se abrir.
3. A LUZINHA NA NOITE
A cada dia, após a jornada (que as levaria aonde?,
a que novos horizontes?, a que nova odisseia?),
Ayoola, Fayola e Bintu improvisavam uma cabana
onde pudessem passar a noite, e juntavam as mãos
numa oração comum, concentradas na esperança
de que lhes respondesse o Espírito em suas almas,
suas entranhas, subisse o calor que já haviam
experimentado, uma ou outra vez, e que as movia,
palavra por palavra, dia após dia, no caminho
que escolheram seguir, e que nenhuma delas sabia
para que lugar, desse mundo vastíssimo, as levava.
se há Deus, por que não podemos conhecê-lo?, como
é possível comunicarmo-nos com ele?, como chegarmos
até onde ele vive – sempre tão distante e indiferente,
envolto em mistérios insolúveis, mesmo para os mais crentes –
se existe Deus, onde encontrá-lo?, e, principalmente,
de que nos serve todo o aparato deixado a nós pelos santos,
se tudo se resume a pronunciar palavras que, se cálidas,
se consoladoras, não são por isso menos vazias do que
dizermos qualquer coisa, de que adianta esfolarmos
os joelhos em penitência, se ele permanece mudo,
se ele, esse tudo, é nada, e se esse nada é o mesmo tudo?
Ayoola buscava a Deus, do barro do chão às estrelas
do firmamento, mas só lhe respondia o mesmo silêncio,
e ela sentia-se cada vez mais oca, a mera máquina
de carne e ossos, apenas animada por algum sopro
vindo sabe-se lá de onde, que lhe tocava o coração
e a mantinha em pé, e viva, e ciente de sua existência
efêmera, esse serzinho que nasce num dia e que,
como a flor do campo, basta que passe o vento e
desaparece sem deixar lembrança do que a que veio.
encarrega as estrelas de alegrarem o coração da gente,
os contornos de uma nova serra distante recortavam
o manto da noite, mal se distinguindo na escuridão,
e ali, em meio ao nada, via-se tremular uma luzinha,
como se alguém ali vivesse, ao pé de um fogo,
sob uma lamparina, um toco de vela, uma candila,
e Ayoola ficou contemplando o minúsculo brilho,
pela curiosidade, misturada com a certeza, de que
alguém ali viveria, e que certamente haveria ali
uma tapera, onde a esperava o destino, esse destino
que até ali a trouxera, como uma brisa leva uma folha,
como um fio d’água desce correnteza abaixo levando
nos braços uma pétala, como se para ali a levasse
irresistivelmente a necessidade instalada no fundo
de seu coração, pelo Espírito, naquela hora calada. (18-5-26)
4. A TAPERA NA SERRA
da madrugada, Ayoola levantou-se em silêncio
e, sem dizer nada, se pôs a caminho na direção
de onde vinha a luzinha, e enveredou por trilhas
pouco pisadas, onde o mato fazia sumir o rastro
de quem por ali quiçá um dia passara, e assim
uma vertente inclinada, e grimpando entre rochas
ela via o horizonte lá embaixo, de onde subia
um aceno de fumaça da fogueira do acampamento
onde Fayola e Bintu preparavam um café bem forte,
se perguntando onde teria ido Ayola, e se preparavam
para coletar frutas, raízes e o que fosse, para o almoço,
até que se deparou, pouco acima, com uma choça
de barro e paus, coberta de palha, e para lá se dirigiu,
e foi-se chegando e batendo palmas para anunciar
sua chegada, mas ninguém respondeu, e então,
tomando coragem, ela marchou até um pátio
recente, e espiou ao redor, e não vendo ninguém
nem nada, atravessou na direção da choupana
e chegando à porta gritou, “Ó de casa!”, e não tendo
resposta alguma, inclinou-se pela abertura da porta
e divisou, no interior, uma rede, um baú velho,
um banco, uma tosca mesa e uma bilha d’água,
e na parede um velho crucifixo, e numa prateleira
uma bíblia, tocos de lápis e folhas amareladas
de papel grosso, e, pendente do teto, uma lamparina,
como esperado, e Ayoola permaneceu ali, em pé,
a observar, e subitamente se deu conta de que era ela
que era observada e, voltando-se subitamente,
deparou-se, no umbral da porta, com um ancião
encurvado, vestido como uma espécie de monge,
apoiado a um bastão de goiabeira com uma forquilha
na ponta, e fitinhas coloridas, vermelhas e brancas,
mas o velho não dava o menor sinal de perigo,
pelo contrário, tudo nele exalava doçura e mansuetude,
e seus olhos não denunciavam sequer curiosidade,
como se ele esperasse a visita de alguém, que era ela,
e o velho se adiantou dois passos e, estendendo a mão
fez-lhe um gesto de bênção, e a seguir foi se sentar
na rede, e apontou-lhe o banco, como a dizer,
“Sente”, e enquanto ela o fazia, permaneceu calado. (19-5-26)
qualquer coisa, menos aquele estranho velho,
que despertava nela um sentimento cálido,
como se fosse um avozinho, um antepassado,
alguém muito distante, saído das sombras
do tempo para se apresentar naquele século
como um personagem original e inusitado,
“Bom dia” – e imediatamente sentiu-se boba,
e repetiu, “Bom dia, paizinho”, e lhe pareceu
melhor colocado – e o velho abriu um sorriso,
e perguntou a ela, “Quer água, filha?”, e ela
respondeu automaticamente um “Sim”,
e o velho apenas continuou sorrindo e estendeu
a mão, e apontou-lhe a bilha, sem dizer mais
palavra, e Ayoola estava cada vez mais afoita
e constrangida, e então falou, “Meu nome
é Ayoola, quer dizer ‘Alegria com Riqueza’,
é Iorubá, de África, mas por essas paragens
também me chamam Firmina, e eu...”, mas
filha, eu sei, sei quem você é e de onde veio”,
e deu uma risadinha que deixou Ayoola
ainda mais sem jeito, e ela repuxou a saia,
e cruzou os pés, olhando para o chão, sem saber
o que pensar de si, do velho ou daquele momento,
e o velho disse, “Minha amiga vem chegando
da feira, eu já não tenho idade para ir à vila,
e ela tem me ajudado muito desde que veio,
trazida por um passarinho, até essa tapera
onde o tempo não passa e o mundo gira ao redor
como giram as mariposas em torno da lamparina”,
como se alguém não quisesse assustar os bichos,
como se seus pés descalços acariciassem o chão,
ao invés de pisá-lo, como se atravessasse o ar,
mais do que respirá-lo, como se se banhasse
na luz, mais do que ser por ela iluminada,
não segurou um grito, e engasgou-se com a água,
e levantou-se tremendo e cheia de alegria, pois
naquele umbral, contra a luz do sol da manhã
que a tudo coloria, tornando o mundo mais belo,
ela reconheceu a figura querida de sua mais antiga
e fiel amiga, aquela que julgava morta: Eyelo. (18-5-26)
6. A VOLTA DE EYELO
que a recebeu com carinho de irmã, e, cheias de saudades
e com lágrimas a lhes escorrerem pelo rosto, as duas
se abraçaram com força, e assim ficaram por momentos,
até que se soltaram, permanecendo de mãos dadas,
enquanto as mercadorias que Eyelo trouxera da feira
se espalhavam pelo chão da tapera, e então elas
se puseram a catar as coisas, e viram que se partira
a vasilha com azeite, e ficaram muito aturdidas com isso,
da algibeira, dizendo, “Outra hora vão vocês duas à vila,
e busquem outro jarrinho de óleo, e não se apressem,
pois já sei que têm muito a conversar, e é isso que é
a coisa mais importante nesse momento”, e balançou-se
na rede como se fosse um menino e, parando um pouco,
disse a Eyelo, “Dá-me o rolo de fumo, menina”, e ela
lhe entregou o pedido, e, com uma faquinha, ele se pôs
a cortar o fumo bem fininho, e meteu-o no fornilho
uma brasa da fogueira, filha”, e tomando da brasa que
lhe estendeu Eyelo, acendeu o cachimbinho e ficou
pitando por longos momentos, como se esquecido
da vida e da presença das duas mulheres naquele
lugar que, mais do que um lar, se parecia com um ninho,
onde morava aquele estranho passarinho barbudo,
que parecia se divertir com tudo o que acontecia
e não se perturbava com nada, e menos ainda com
o espanto de Ayoola, que estava cada vez mais aturdida,
como pela presença naquela capela de sua amiga Eyelo,
que parecia tão à vontade como se vivesse ali desde sempre,
e que agora se colocara ao lado do velho, a lhe fazer cafuné,
e a olhava com o carinho de sempre, como se tudo fosse
absolutamente normal, a ponto de que Ayoola começou
a se sentir mais confortável, e se animou a perguntar
as coisas que a levaram até ali, e não eram mera curiosidade. (22-5-26)
para buscar óleo para o velho, e conversavam
pelo caminho, e Ayoola perguntava como Eyelo
fôra parar ali, naquela tapera perdida na serra,
e Eyelo contou-lhe que, depois da morte de Pio,
andou sem rumo por muitos dias, sempre
se escondendo, e cheia de dúvidas a respeito
de Deus, de si mesmo e dos destinos que
e que, numa noite em que suas perguntas
se tornaram mais excruciantes, ela contemplava
o céu em busca de respostas, e viu, na serra,
uma luzinha que denunciava ali a existência
de uma casa, onde haveria de morar alguém,
e que, naquele momento, ela teve a certeza
de que ali encontraria as respostas que tanto
procurava, e decidiu-se a subir a encosta
onde o velho morava, e que, ali chegando,
não viu ninguém num primeiro instante, e que
ela adentrou a cabana, perscrutando, e assustou-se
com a aparição do velhinho, mas que este
logo a deixou tranquila, pois em seu semblante
havia uma extrema bondade, e ele a convidou
a que ficasse ali, porque ele aguardava outras
pessoas, que haveriam de vir a qualquer hora,
parecia saber de tudo o que acontecia no mundo,
e que, perguntado por Eyelo quem era ele, respondeu,
“Eu sou aquele de quem foi dito, ‘Se eu quero que ele viva
até que eu venha, o que é que você tem com isso?’[3]”,
palavras que a deixaram estupefata, e assim
ela insistiu na pergunta, e ele então disse, “João, filha,
esse é o meu nome”, e ela voltou a perguntar, “João,
o Apóstolo, o Evangelista?”, e ele respondeu, “João,
o Teólogo, o que escreveu o Apocalipse”, e Ayoola
pois esta falara com tanta sinceridade, séria,
que não era possível que estivesse brincando,
e ademais, Ayoola confiava na mente de sua amiga
e conhecia a profundidade de seu coração, e assim
murmurou em voz baixa, como aquiescendo, “João,
o Teólogo, o que escreveu o Apocalipse”, e ficou
por um tempo matutando, enquanto as duas
desciam a montanha, e tomavam o caminho
Fayola e Bintu, e assim todas se encontraram,
e estiveram abraçadas longamente, e logo
se puseram a contar as novidades, e decidiram
ir todas juntas à vila, e dali seguiriam juntas
para a tapera do velho, fosse ele quem fosse,
pois era ali, junto àquele que viveria até quando
quisesse Cristo, que elas encontrariam muitas
das respostas que cada qual tinha a respeito
de Deus, do mundo, de tudo e de suas vidas. (22-5-26)
]
[1]
Vladimir Lossky, Ensaios sobre a Teologia Mística da Igreja do Oriente, I - A
Teologia Cristã entre ciência e contemplação.
[2] 2
Coríntios 12: 4.
[3]
João 21: 22, 23.
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