5. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 1: O CONVENTO - 1.2. CONVERSAS - 3. NOVOS APRENDIZADOS
3. NOVOS
APRENDIZADOS
Onde encontramos Maria do Egito às voltas com os livros
deixados pelo monge, e podemos acompanhar seu aprendizado sobre a famosa e
antiquíssima Prece de Jesus (Prece Perpétua ou Prece do Coração), sua prática e
suas experiências, que a levam à contemplação da Luz Incriada, a Luz do Tabor
que Cristo dividiu com Pedro, Tiago e João.
3.1. A
PRECE PERPÉTUA
havia um especial que intrigou de maneira marcante Maria do Egito,
e presenteou-a com noites insones, e com uma permanente dúvida
sobre o que Deus queria, ao colocar em seu destino aquele livro,
que falava de uma oração pequenina, uma prece a Jesus Cristo,
que pregara Paulo, ao ordenar que se orasse sem cessar,
um pedido apenas, nada além, e que ela decorara instantaneamente,
como se a tivesse praticado toda a vida, e repetia, como se fôra
colada à própria respiração, “Senhor Jesus Cristo, filho de Deus,
tem piedade de mim, pecadora”, e nada mais dizia, nem precisava,
como se essas palavras fossem tudo o que há no mundo,
em direção ao Reino de Deus, ao Paraíso, à Terra sem Males,
ao lugar único onde somente o Amor reinasse, soberano,
e onde nunca seria aberta a famosa caixa de Pandora.
e já nem tinha conta do que seria viver sem ela,
e se sentia como que uma andarilha exilada nessa terra distante,
e tendo de seu nada além de sua fé, e, como o personagem do livro,
pela graça de Deus, mulher, e cristã, por ações grande pecadora,
por estado peregrina, sem abrigo, da mais baixa condição,
trazendo, como pertences sobre os ombros exauridos
um saco com pão seco, e no bolso a santa Bíblia, e isto é tudo[1].
a um país interior, desconhecido, onde reinava um silêncio absoluto,
onde ela ouvia pulsar um coração, que era o seu, e sentia
que Deus a escutava, a cada vez que ela repetia a prece,
e que nesse silêncio se continha uma verdade, que de tão grande
não cabia em palavras, nem imagens, nem visões da alma,
de qualquer espécie, e que tudo se passava como mágica,
eram essas que ela teria que passar, por meio da prece que lhe fôra ensinada,
às pequeninas moças que ali viviam, e a Fatumata, que já sabia,
por outros caminhos e horizontes, pelo seu jeito de viver a vida,
e Maria do Egito compreendeu que seu Egito era todo o Universo,
e que, no silêncio de sua alma, ali ela conversava realmente com Cristo.
– ‘Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tenha piedade de mim’ –
é ao mesmo tempo apelo, invocação e confissão de fé,
e ela suscita o Espírito Santo, é a morada de Jesus Cristo,
é a fonte da reflexão espiritual e dos pensamentos divinos,
ela liberta dos pecados, cura as almas e os corpos,
concede a iluminação divina, distribui a piedade de Deus,
concede na iluminação as revelações e as iniciações divinas,
e traz em si a única via de salvação: o nome salutar de nosso Deus,
vale dizer, o nome único de Jesus Cristo Filho de Deus
invocado em nós, que em nenhum outro reside a salvação[2].”
3.2. A
PALAVRA E O ESPÍRITO
“Orígenes: Homilias”, e permaneceu pensativa:
“A letra mata, o Espírito vivifica”, disse São Paulo,
e ela se perguntava, como disse uma dia alguém,
“a menos que as guerras físicas de Israel
como explicar que elas fossem ensinadas pelos Apóstolos de Cristo,
que pregavam a paz, a paz, a paz e nada além?”.
em quem a palavra é a carne, e o Espírito está ali presente,
mas na forma do entendimento; pois a carne é perecível
é corruptível, mas o Espírito permanece, eterno e indestrutível,
e talvez por isso a palavra da Escritura se pareça mais
com os corpos múmios e preservados dos santos,
que lhes guardam a forma, a santidade e a honradez,
mas já não se movem, e que se vestem como antigamente,
em roupas que já não fazem sentido, mas que devem se conservar,
embora seu significado já não esteja em seu sepulcro,
mas nos ensinamentos que deixaram, que ultrapassam os séculos,
que nos alcançam, milênios depois de que hajam morrido,
seu Velho Testamento cada vez mais velho, é apenas um testamento,
um testemunho, que somente aponta para Cristo, que falava por parábolas,
claramente, e que disso dava notícia aos discípulos,
para que esses não se enganassem quanto ao sentido literal do que dizia,
e aprendessem o âmago, não a superfície, e conservassem o que foi dito,
mas o traduzissem na forma de um novo ensinamento dado
– inspirados, sem dúvida, sem o que não teriam valido –
pelo Espírito Santo, em seu interior, onde brilhava a luz incriada
que Cristo mostrou no Tabor, a realidade única de Sua divindade,
transfigurada na lição primordial e última do verdadeiro Amor. (6-2-25)
enquanto Fatumata estava fora colhendo legumes,
e contemplava o Cristo, cada dia mais enegrecido de fumaça,
e se perguntava mil coisas que, ou não tinham resposta,
ou já não faziam sentido, quando de súbito sentiu-se tontear
e, mirando o Crucificado, viu que ele se transfigurava,
que seu rosto resplandecia como o sol,
e as suas vestes se tornavam brancas como a luz,
e que essa Luz, Luz de Luz, invadia toda a casa,
e que ela própria resplandecia, como se não fosse ela,
no nicho de uma capela erigida em sua alma, e ela se deu conta
de que já não sabia quanto tempo se passara, e quando deu por si
lembrou-se de Maria Egipcíaca, a santa, que relatara “por fim,
vi uma Luz radiante vinda de toda parte e brilhando em mim...
depois de uma tempestade violenta, seguiu-se uma calma duradoura...[3]”,
e erguendo os olhos, percebeu um vulto ao seu lado, e era
Fatumata que estava ali, em pé, e a olhava com ar de espanto,
e Maria deu uma desculpa qualquer, sem saber o que falar,
e correu para sua cela, e não fez mais do que atirar-se ao catre,
e ali permanecer, prostrada, numa linha tênue
entre o sonho e a realidade, que não saberia definir,
e só se levantou, muito hesitante, quando a sineta chamou
para o refeitório, onde se estava servindo o jantar.
e é como se ela não conseguisse suportar vê-la,
ela caiu com o rosto por terra, chamou e chorou,
no paroxismo do temor, a tal ponto transtornada
por ver e sentir uma coisa que ultrapassa a natureza,
a razão e o entendimento, e ela se tornou como alguém
cujas entranhas foram incendiadas por um fogo abrasador,
e não conseguiu se dominar e foi inundada
por lágrimas transbordantes que a refrescaram,
enquanto atiçavam cada vez mais o fogo de seu desejo
e cada vez mais lágrimas corriam, e então, banhada nesta torrente
ela própria brilhava com uma luz mais vívida, até que,
depois de inteiramente inflamada ela se tornava como que uma luz
e então se cumpriu o que foi dito: ‘Deus unido aos deuses e dos deuses conhecido’,
ao menos na medida em que ele, Deus, já se encontra unido
àqueles que foram abrasados, e se revelou aos que o conheceram[4]”.
3.4. O
AMOR
que a aguardavam para as orações antes da refeição,
e, caminhando pelos corredores, tudo lhe parecia estranho,
como se ela viesse de outro mundo, como se todo o edifício
fosse de matéria translúcida, como se os santos que olhavam das paredes
a estivessem vendo, como se dissessem, “Maria, Maria”,
a todos eles, e, através deles, a toda a humanidade,
e nesse passo, que parecia não tocar o chão, chegou ao refeitório
e contemplou as Irmãs, e se sentiu de repente invadida
por um tão grande Amor, que não se dirigia a uma nem a outra,
mas que, como quando mergulhamos num lago,
a mesma água nos envolve, e banha a todas, e a todas une
nesse Amor molhado, universal, indistinto e indiferenciado,
onde não há amante, nem amado, mas só o Amor,
que faz com que, naquele momento, naquele Convento,
naquele refeitório, fossem todas uma, em Cristo,
como se só Deus estivesse ali, e todas elas fossem apenas
testemunhas de um mesmo milagre compartilhado.
curiosas, e então começou lentamente o sinal da cruz,
e prosseguiu nas orações habituais, mas tudo estava diferente,
e nem as palavras faziam sentido – tão claras estavam as coisas! –
mas tudo estava explicado, e esse sentimento que a possuía
e toda sua vida, a construção daquele legado, a redimia
de todos os seus erros, que muitos ainda haveria,
mas que se lavavam a cada vez, nesse lago de Amor
onde desde então, e por toda sua existência, Se banharia.
com a terrina de sopa nas mãos, a concha e uma toalha,
e a Superiora sorriu, desajeitada, como quando aquela que ama
encontra, na brisa da janela, num clarão de lua, num pássaro que canta,
a presença invisível e inquestionável da pessoa amada,
Jesus Cristo, na figura negra da Irmã africana, de pé, ali, parada.
3.5. MARIA DO EGITO
continuava imersa em sua piscina de Amor,
e já de si nada sabia, nem desse mundo,
que se tornara todo o mesmo cálice,
e de vez em quando ela despertava, e outras vezes
era sacudida à noite pelo brilho misterioso daquela luz
que vinha de parte alguma e banhava a tudo com sua irradiação divina[5].
as Irmãs se moviam entre nuvens diáfanas
e, quando oravam ou cantavam, algumas elevavam vozes maviosas ao céu,
enquanto outras apenas moviam os lábios, com suas almas vagando
por lugares distantes, e às vezes inóspitos,
mas nada importava, pois não havia paragem onde não as alcançasse o Amor,
onde não fossem acolhidas nesse aprisco infinito do Primeiro Pastor.
o Sinai, Jericó e Belém, e Roma e todo o Egito,
e santos, mártires, heresias e cismas,
e ela ia e vinha pelos séculos envolvida numa luz
que vinha de parte alguma, mais brilhante do que tudo,
como se não existissem o tempo e o espaço,
como se tudo estivesse mergulhado na mesma piscina.
e povos, negros e indígenas escravizados, e populações inteiras dizimadas,
e homens e mulheres queimados, e gente em pedaços,
e uma cruz erguida, onde ela não conseguia reconhecer seu Amado.
coberta de suor, banhada em lágrimas, e seu coração palpitava
e ela permanecia atônita e inconsolável, e corria à cozinha,
onde Fatumata a abraçava, ela tão pequenina,
e ali ela contemplava o Cristo, que a olhava compassivo,
e sussurrava, "Maria", e a ela bastava isso, e encolhida no catre de Joana
ela adormecia, e só regressava à sua cela quando se despedia a madrugada
e um novo dia anunciava sua vinda,
e as celas de cada menina, e prometia a si mesma
não morrer, enquanto existisse seu Convento,
enquanto suas filhas, que tantas vinham e iam,
continuassem a chegar, a olhá-la com seus olhos de criança,
e a esperar dela um não-sei-quê, que as enchesse de amor,
de fé, e de esperança, de confiança
em que a vida seria mais do que isso, que até então viveram,
e que muito mais, e muito mais alto voariam.
3.6. DEUS
É LUZ
o Pai é luz, o Filho é luz, o Espírito é luz;
os três são uma só luz, simples, sem composição,
fora do tempo, numa eterna identidade de dignidade e glória.
e nos é repartido como provindo da luz:
luz é a vida, luz a imortalidade, luz a fonte da vida,
luz a água viva, a caridade, a paz, a verdade, a porta do reino dos céus;
luz é o próprio reino dos céus; luz a câmara nupcial,
o leito nupcial, o paraíso, a volúpia do paraíso,
a terra dos mansos, as coroas da vida,
luz as próprias vestes dos santos;
luz o pão de sua carne imaculada, luz o cálice
de seu sangue precioso, luz sua ressurreição, luz seu rosto;
luz é sua mão, seu dedo, sua boca, luz são seus olhos;
luz o Senhor, sua voz, como luz de luz;
luz o Consolador, a pérola, o grão de mostarda, a verdadeira vinha,
o fermento, a esperança, a fé: luz![6]”.
3.7. CRISTO,
O SACRAMENTO OCULTO
oculto em Deus, que Cristo apresentou para ser conhecido,
a multiforme sabedoria de Deus que, desde a eternidade
já estava presente no Filho – tudo o que está implicado em Cristo
desde o princípio, a encarnação, a redenção, a deificação –
e hoje nós temos o privilégio de nos apresentarmos a Cristo,
com toda confiança e certeza, por nossa fé, que depositamos nele,
para entendermos esse sacramento oculto, que é sua presença,
porque a nós “foi dado o mistério do Reino de Deus, mas aos de fora,
e porque tantas de suas meninas insistiam em viver
numa mesma terra, mas vazia, num entendimento – quase um lembrete –
raso e ligeiro da doutrina, sempre citando essa ou outra parábola,
mas desprovidas de luz, desprovidas da experiência de Deus,
da sua presença – entretanto tão evidente –
talvez por caminharem a sós, na verdade, ou umas com as outras,
mas distantes de Cristo, pois Deus está sempre presente,
e quem não está presente somos nós, que olhamos de fora
que brilha além da escuridão do conhecimento externo,
que não alcançamos nos livros, embora contenham
as chaves secretas, porque erramos de fechadura,
e tentamos todo o tempo forçar uma porta que dá para o nada
– e, no entanto, é só bater, e ser-nos-á aberto o segredo
e apresentado o tesouro, que por nós está guardado
desde antes do princípio, porque Cristo foi o primeiro homem,
homem, como nós, mas pré eterno e sempre existente,
e de suas mãos nasceu tudo o que existe no universo. (17-12-24)
é também a fonte da bondade e esse é o bem,
o bem mais extremo: e ele não seria possível
se lhe faltasse a bondade perfeita, e assim,
a partir do momento em que a Inteligência divina
é a bondade transcendente e perfeita, aquilo que dela provém
(como de uma fonte) não poderia ser outra coisa que o Verbo
pois esta não provém da inteligência, mas do corpo
animado pela inteligência, e não no sentido de uma palavra
que seria interior a nós e que em nós correspondesse a tipos de sons,
e tampouco no sentido de uma palavra que passasse
pelos nossos pensamentos, ainda que sem nenhum som,
e que fosse inteiramente suscitada por impulsos incorpóreos,
e de grandes intervalos de tempo para progredir
em direção ao seu objetivo e para nos conduzir
de uma origem imperfeita a uma realização perfeita, e assim,
antes, ele passa pela palavra que a inteligência colocou em nós
de maneira inata, esta palavra por meio da qual o Criador nos fez
à sua imagem: o conhecimento que sempre acompanha a inteligência[7].”
[1]
Cf. Anônimo, Relatos de um Peregrino Russo, Primeiro Relato, cap. 1.
[2]
São Simeão de Tessalônica, Sobre a Prece Edificante, 236, Filocalia dos
Padres Népticos, Tomo 2, Volume 4.
[3] São Sofrônio de Jerusalém 560-638), Vida
de Santa Maria Egipcíaca.
[4]
Sobre a Luz divina e incriada, cf. São Simeão o Novo Teólogo, Capítulos
Práticos e Teológicos, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume
2.
[5] “Dia e noite, eu deitava meu rosto
sobre o chão e não me levantava até que a bendita Luz me envolvesse,
dissuadindo os pensamentos que me desordenavam” (São Sofrônio de Jerusalém
560-638), Vida de Santa Maria Egipcíaca).
[6]
São Simeão o Novo Teólogo, A Prece Mística, Discurso Teológico 3.
[7]
São Gregório Palamas, Capítulos Físicos, Teológicos, Éticos e Práticos, 35,
Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume 3.
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