1. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 1: AS SETE IRMÃS - INTRODUÇÃO
VIDA DE ANTÔNIA
PARTE 1
Onde o autor, confundido em sua defesa, esboça algumas das
principais ideias que nortearam esse livro, antes de iniciar a apresentação dos
personagens propriamente ditos e de suas histórias e registros.
porque Jesus tinha dito: “Eu sou o pão que desceu do céu”.
Nós conhecemos o pai e a mãe dele.
Como é que ele diz que desceu do céu?”.
Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou
não o atrai, e eu o ressuscitarei no último dia”.[1]
depois de ter passado pelos invernos
a que o submeteram os donos do mundo,
e de ter fugido para os desertos,
onde se cobriu do pó das estradas,
da terra de suas alpercatas,
da fumaça e da fuligem das fogueiras
das casas pobres daqueles que o albergaram,
do óleo das máquinas, do carvão das minas,
do betume das embarcações
que o levaram dos salões de mármore
aos barracos levantados à beira de rios
ignotos, em distâncias impensadas,
onde não alcança a maldade,
por ter se coberto de suor,
que lhe escorreu pela face
borrando a maquiagem, desenhando
lágrimas de rímel sincero,
que lhe desceram pelo pescoço,
pelos ombros, pelas costas,
misturando-se com o sangue
das trinta e nove chibatadas,
luz negra que brilha numa escuridão branca,
luz de mãos dadas, de braços em abraços,
dos beijos de mulheres e homens
que o lavaram de Judas,
e lhe devolveram a humanidade,
para que com ela ele misturasse
suas células, inseminando o Espírito
em nossa carne, tornando-nos
irmãos, filhos, coerdeiros
de um reino para o qual nascemos
e esquecemos, e para que nos lembremos
antes que seja tarde. (12-8-25)
AS SETE IRMÃS
SETE
POEMAS PARA UMA APRESENTAÇÃO
envolta em cortinas e véus espessos
de impossibilidades, de incredulidades, de absurdos
que se apresentam com a maior naturalidade,
o Cristianismo, que se esconde atrás de toda essa mata
de criaturas impossíveis, de árvores que falam,
de seres pelo avesso, leões que cantam e pássaros rugentes,
o Cristianismo, que nos propõe que ultrapassemos
a dúvida sistemática das curas improváveis,
a desbiologia da Virgem imaculada,
a volta de um Deus do mundo dos mortos,
o Cristianismo, que se não for ultrapassado
nessas bases que confrontam o mundo natural
e histórico, que se não for superado
nessas barreiras impostas, feitas para afugentar os ricos,
loucura para os gregos, escândalo para os judeus,
e que atira em nossa cara uma mensagem impossível
de amarmos a quem nos odeia, de levantarmos
o outro, com nosso amor,
como se ele fosse uma bandeira,
o Cristianismo, que nos acena com uma vida
que não tem paralelo nesse mundo,
uma vida além das nossas ideias,
esse Cristianismo, que você abraça ou repele,
esse Cristianismo não foi feito para nós,
mas para os perfeitos, os que se atiraram
no mar de todas as incertezas, e que aprenderam
a caminhar sobre as ondas das nossas ilusões desfeitas,
eles, que não sabemos quem são,
que não sabemos onde estão,
que não sabemos onde vão,
e sequer se existem, eles
que já passaram para lá, pulando por sobre o pecado,
do qual se riem, por ser nada,
como nada é tudo aquilo sobre quê insistem
os que menos sabem, mas que se impõem como arautos do fim de tudo,
esse fim que, para eles, deixa tudo como está,
desde que tudo se transforme,
e nada mude. (27-10-25)
2. Parei às margens de Deus, que era um oceano,
seus horizontes infinitos, o vaivém das ondas
que nunca se acaba, a espuma que lambe a praia,
o céu estendido, imenso lençol azul,
pincelado de nuvens ligeiras, onde brilha o sol,
onde brincam gaivotas, que se desprendem das alturas
em gritos de caça,
e se arremessam sobre os cardumes de peixes,
sentei-me ali e me deixei ficar, como quem nada quer,
eu, a paz, a luz que a tudo banhava, o som das ondas,
os pensamentos profundos que acariciam os sentidos,
o gosto do sal na boca,
as lembranças a passear ante meus olhos,
horas ali, placidamente, esperando o sol se pôr
com todos os matizes de vermelhos e laranjas,
tornando-se azul e violeta, até chegar a noite,
e tudo se sumir numa escuridão sem perguntas,
onde somente o som das ondas nos lembra que existimos,
e então, de dentro da noite imensa,
sussurra-me essa voz que eu conheço, e me diz,
suave como a água que banha essa costa,
"entra, a água está ótima". (18-10-25)
3. Acendo uma vela, não sei por que,
espero no Espírito Santo, não sei o que,
e passo os dias a pensar
se Cristo de fato existiu, mas
por que me indago?, e eu respondo,
não sei por quê.
O mundo é grande, o universo, um espanto,
e é tão grande um ano-luz
quanto um nanômetro.
Os mistérios da física, solve-los-á a própria física,
e os da química, a química,
e os astronômicos, a astronomia,
mas ninguém desvendará a alma feminina.
Meu Deus me escapou por entre os dedos
quando tentei segurar-lhe o manto.
Agora olha-me do seu canto
além das nuvens e dos astros,
num lugar onde não o vejo, nem alcanço.
Mas tenho certeza de que existo,
e que sou - só isso.
Amanhã, quando raiar o dia,
a vela que acendi há de brilhar ainda,
e minha prece ecoará
onde só eu a escuto,
e hei de renovar o meu pedido,
como disse alguém vez
alguém que não recordo,
Senhor, sei que a graça é imerecida,
mas dai-me mais alguns
anos de vida, e assim
se você mergulhar no mar profundo,
verá o azul oceano, que se intensifica,
à medida em que mais se aprofunda,
e se aproxima indefinidamente do negro,
sem alcançá-lo jamais, mas sempre tendendo a ele,
mais e mais, numa tensão infinita,
como num abismo que não tem beira nem fundo,
nem régua que possa medi-lo, sempre mais e mais,
num escurecer progressivo, contínuo,
mais misterioso do que o céu da noite mais funda,
e mais negro, sempre mais,
sem nunca alcançar o fim,
pois bem, se quiseres uma imagem,
Deus é assim. (2-8-25)
4. De que me serve a religião?,
pra que tanta demora?, se não puder
senti-la nas minhas entranhas, não em minhas ideias,
não quando oro, mas quando estou distraído,
a olhar o nascer do sol, e, de repente,
sobe aquele calor da alma,
que ferve por dentro e vira o estômago
de cabeça pra baixo, de que serve
a religião, se não for isso, bem ao contrário
daquela promessa inverificável de um Paraíso
do qual ninguém nunca voltou, para assegurá-lo,
dizendo "venham por aqui, conforme demonstrado"
de que serve a religião, se não for
para me religar no instante presente,
agora, que estou vivo e aqui, consciente,
e não para depois de falecido, de terno, sapato e gravata,
ou com aquele velho tailleur guardado,
como se fosse entrar, não no Céu,
mas numa cerimônia de posse de algum juiz,
sei lá, um rei, um presidente?
De que serve a religião, se não for
para bem mais do que me tornar
nada além de uma pessoa, como direi, "decente"?
De que serve a religião, minha gente? (22-6-25)
5. Para onde levam todas essas portas
e dão em labirintos cada vez mais enredados,
onde nos perdemos obrigatoriamente, na busca
dos moinhos que nos torturam o pensamento,
dando volta aos torvelinhos, levantando
toda espécie de poeira e detritos do chão imundo dessa cadeia
em que nos trancamos voluntariamente,
sem perceber que a experiência de Deus,
se verdadeira, cancela todo saber
(não em si, mas enquanto se quer selo da realidade),
e transfere para dentro de cada um o viver
com esse Deus que se torna pessoal, porque vivido
em nossa própria carne, e o transferimos para nossa vida
na mesma medida em que o colocamos no outro,
e no outro, e no outro, e assim indefinidamente,
até que sejamos todos um, amalgamados
na mesma natureza amorosa, que é a nossa,
e para a qual fomos criados. (14-7-25)
6. Os inteligentes que me desculpem,
antes de tudo, ser um pouco - senão completamente -
tolo,
porque Deus não se apresenta facilmente
ao escrutínio,
não se deixa apreender pela lógica,
não se deixa demonstrar ao raciocínio,
e dribla a filosofia, deixando atrás de si
em frangalhos, conceitos, definições, demonstrações,
e outras firulas ao sabor dos tempos e dos dias,
enquanto que aos bobos, aos tolos, aos ingênuos e aos simples
ele se abre por inteiro, de par em par,
como uma janela sobre a paisagem inaudita
de uma natureza diversa, inesperada, mágica
e nunca vista, e brilha como sóis nos horizontes infinitos
que não acabam nunca, e se renovam sempre
na medida em que mais nos despojamos
de nossas vestes, nossa mente, nosso tirocínio,
e nos entregamos à tolice de nele crermos, sabendo
que nossa fé não nos faz melhores, que não somos
mais espertos, nem valemos um centavo a mais
na balança do destino,
mas que apenas e tão somente somos os tolos,
motivo de chacota, escândalo e desprezo
da parte daqueles que têm esse direito,
por terem estabelecido, eles, a régua
com que tudo é medido.
E nós?
Bem, ficamos agradecidos. (4-8-25)
7. Sério, não consigo conceber o Cristianismo
de uma alucinação feroz, sem freios,
fora do Deus de amor devorado por judeus e pagãos,
num banquete de ódio mal disfarçado, não consigo ser cristão
se não for para alucinar, deixar essa terra
e aterrissar nalguma lua de Saturno,
nu de mim, como vim ao mundo,
loucura para os gregos, escândalo para os hebreus,
eu, só sob as estrelas, a me alimentar de gafanhotos
e mel silvestre, vestido
com a pele antediluviana
de um ruminante qualquer, a mente vazia,
o coração sangrando, pingando na arena
como dos mártires que se davam a uma ideia improvável
e pisavam na cena entre leões e feras variadas,
enquanto os aplaudia a turba de terno e gravata,
bem maquiada, as mulheres em modelitos,
enquanto arrancavam eles roupas baratas e as barbas, espumando,
os olhos esgazeados ante a visão do infinito,
não conheço outro Cristianismo que não implique
atravessar o rio e abandonar o barco, e uivar
sob o céu estrelado uma oração feita
apenas de pecados, não concebo Cristo algum
que não tome chuva, que não dance pelado,
esquecido de si e entregue tão somente
à sua própria divindade, maior que o mundo
ao qual foi enviado de si próprio,
não concebo outro Cristianismo fora do transe amoroso
que arrebata a razão e os sentidos,
e nos coloca diante de outra realidade, para a qual
- e isso é o que mais importa -
não estávamos preparados. (3-9-25)
À PROCURA DE UM DEUS PARA O BRASIL
O
BRASIL
“São vastos e belos os nossos campos; porque inundados pelas
torrentes do inverno semelham o oceano em bonançosa calma — branco lençol de
espuma, que não ergue marulhadas ondas, nem brame irado, ameaçando insano
quebrar os limites, que lhe marcou a onipotente mão do rei da criação.
Enrugada ligeiramente a superfície pelo manso correr da
viração, frisadas as águas, aqui e ali, pelo volver rápido e fugitivo dos
peixinhos, que mudamente se afagam, e que depois desaparecem para de novo
voltarem — os campos são qual vasto deserto, majestoso e grande como o espaço,
sublime como o infinito.
E a sua beleza é amena e doce, e o exíguo esquife, que
vai cortando as suas águas hibernais mansas e quedas, e o homem, que sem custo
o guia, e que sente vaga sensação de melancólico enlevo, desprende com mavioso
acento um canto de harmoniosa saudade, despertado pela grandeza dessas águas, que
sulca.
É às águas, e a esses vastíssimos campos que o homem
oferece seus cânticos de amor? Não, por certo. Esses hinos, cujos acentos
perdem-se no espaço, são como notas duma harpa eólia, arrancadas pelo roçar da
brisa, ou como sussurrar da folhagem em mata espessa. Esses carmes de amor e de
saudade, o homem os oferece a Deus.
Depois, mudou-se já a estação; as chuvas desapareceram, e
aquele mar, que viste, desapareceu com elas, voltou às nuvens formando as
chuvas do seguinte inverno, e o leito, que outrora fora seu, transformou-se em
verde e úmido tapete, matizado pelas brilhantes e lindas flores tropicais, cuja
fragrância arrouba e só tem por apreciador algum desgarrado viajor, e por afago
a brisa que vem conversar com elas no cair da tarde — à hora derradeira do seu
triste viver.
E altivas erguem-se milhares de carnaubeiras, que
balançadas pelo soprar do vento recurvam seus leques em brandas ondulações.
Expande-se-nos o coração quando calcamos sob os pés a erva
reverdecida, onde gota a gota o orvalho chora no correr da noite esse choro
algente, que se pendura da folhinha trêmula, como a lágrima de uma virgem
sedutora, e que, arrancada do coração pelo primeiro gemer da saudade se balança
nos longos cílios.
Depois vem a ardentia do sol, e bebe o pranto noturno, e
murcha a flor, que enfeitiçava a relva, porque o astro, que rege o dia,
reassumiu toda a sua soberania; mas ainda assim os campos são belos e
majestosos!
E desce depois o crepúsculo, e logo após a noite bela, e
voluptuosa recamada de estrelas; ou prateada pela lua vagarosa e plácida que
lhe branqueia o tapete de relva, derramando suave claridade pelos leques
recurvados dos palmares.
Então um vago sentimento de amor, e de uma ventura, que
muito longe lobrigamos, arrouba-nos a alma de celestes eflúvios, e doce esperança
enche-nos o coração, outrora mirrado e frio pela descrença, ou pelo ceticismo.
Quem haverá aí que se não sinta transportado ao lançar a vista
por esses vastos páramos ao alvorecer do dia, ou ao arrebol da tarde, e não se
deixe levar por um deleitoso cismar, como o que escuta o gemer da onda sobre
areais de prata, ou o canto matutino de uma ave melodiosa!...
A vista expande-se e deleita-se, e o coração volve-se a
Deus, e curva-se em respeitosa veneração, porque aí está Ele.
O campo, o mar, a abóbada celeste ensinam a adorar o
supremo Autor da natureza, e a bendizer-lhe a mão, porque é generosa, sabia e
previdente.[1]”
[1] Maria Firmina dos Reis, Úrsula
(1859) cap. 1. Prosadora, poeta, compositora e professora, Maria Firmina dos
Reis (1825-1917), é considerada a primeira escritora brasileira. Este livro, produzido em 1859 pela
Tipografia do Progresso, de São Luís, foi o primeiro no Brasil a ser publicado
por uma mulher, e também o primeiro a ter por autora uma pessoa afrobrasileira,
e o nosso primeiro romance abolicionista. (Coleção Acervo Brasileiro, Vol.
2, Jundiaí, 2018).
A IRMÃ TEODORA
só interrompido pelo ferver da água na panela de arroz,
e pelo plicplic da faca sobre a tábua enquanto corta a cebola, o alho e a salsinha.
Sua oração sem palavras são os olhos marejados
pelo vapor ácido da cebola, e que tentam, em meio à névoa de lágrimas,
distinguir a lâmina que separa em finas fatias as saias
que irão dançar no azeite ao ritmo do refogado.
Sua oração são as mãos cansadas no manejo
dos vegetais da sopa, do frango depenado,
do corte das gorduras da carne do guisado,
suas mãos que vieram da horta, sujas de terra,
e carregadas de ervas, de hortaliças, pimentas,
tomilho, coentro, endro e cebolinha.
Sua oração é esse pequeno paraíso, feito de espaço, tempo e silêncio,
e de serviço, sem que para si reste sequer um só momento.
Sua oração muda é o avental já sem cor, de tanta lida,
em que enxuga as mãos, em cujo bojo traz
os tomatinhos colhidos, as jaboticabas tiradas no pé,
frutinhas de todo tipo que dá o pomar do convento,
o avental que nunca está limpo, por mais que o lave,
que é, pensa ela, como a nossa alma,
que requer sempre mais uma lavada, e que, por tanto que se esfregue,
continua manchada.
Sua oração quieta é o sorriso tímido que seu rosto esboça
a esse pensamento, que por um instante
desvia a mente do alho, da faca, da tábua sobre a mesa,
e que, com uma exclamação de dor, vê correr o sangue do dedo,
que leva aos lábios, sentindo o gosto rubro
do corte que lateja.
Sua oração é enrolar o dedo ferido num trapo velho,
enquanto prossegue na tarefa, sem detença,
que a hora corre, e Teodora ainda precisa pôr a mesa.
Sua prece é essa pressa, solitária na cozinha,
enquanto as irmãs se ocupam com cânticos e salmos na capela.
Sua prece é esse olhar, que se detém antes em Deus,
por um segundo, a cada gesto, sem perder a atenção
da tábua, do fogo, da ebulição do arroz e de todo o resto.
O Cristo na parede parece triste e distraído, acostumado que está
ao antigo suplício, que nunca muda,
os pregos, o açoite, as bofetadas, o fel e o cuspe,
enquanto Teodora senta por um momento
e enxuga a testa, assoa o nariz que pinga, funga,
levanta e continua, sem ai nem ui, o trabalho chama,
o leite ferve e derrama, o chão pede quem o varra,
os pratos sujos se enfileiram na pia, as cascas das frutas,
separadas, vão depois aos passarinhos.
Toca o sino do almoço, mas Teodora não pára,
enquanto serve a comida preparada, e tenta preservar
o curativo no dedo acidentado, sem que ninguém
lhe pergunte nada. As irmãs comem falando baixo,
enquanto Teodora tira o lixo e o coloca para fora,
para depois dá-lo aos porcos.
De volta à sua cozinha, olha de lado para o Cristo,
cuja face negra conhece bem, um pouco suja da gordura
que sobe do fogão, e que, ao sol que bate, parece
desenhar uma lágrima no rosto esguio.
Teodora aflora à face outro meio-que-sorriso, e diz pra si,
"Teodora, o que é isso? Estás a figurar Cristo?",
e nessa curta prece se resume toda a vida,
e as horas dormentes entre as paredes da cozinha.
Teodora recompõe o semblante sério, sereno de tão cansado,
limpa as mãos no tecido do avental tão gasto,
e retoma sua prece sem palavras, sua oração de ser
apenas Teodora, sua cozinha, suas panelas,
talheres, tábuas e pratos. (29-5-23)
No universo de cabeça para baixo
de um Convento perdido no interior do Brasil,
no século passado, e no outro, e no outro,
tudo é possível, tudo acontece como se passasse
nos meandros internos do pensamento,
na criação poética de um mundo louco, tudo
é como se fosse real, ainda que não,
e uma sucessão de personagens desfila,
saídos do lápis que Deus esgrime
sobre uma folha de papel amarelado, mas pura e lisa
e cada qual inscreve seu nome numa lista,
e se coloca em seu lugar, perambulando pela vida
ao longo de corredores, caminhos, estradas e vilas,
e portões, pórticos, salas, capelas, pátios, e – por que não? –
de cozinhas, hortas, galinheiros, igrejinhas
perdidas em clareiras na mata, onde os sonhos divinos
se realizam, onde o Paraíso encontra a terra virgem
e mostra seu lado de barro, de um Adão e Eva não nascidos,
de folhas caídas, bichinhos sob as pedras do caminho,
de água que pinga dos beirais e das palmeiras
quando o sol ressurge depois das chuvas,
é nesse lugar que não existe, mas que existe mais
do que os centros das nossas cidades, cheios de carros,
de fumaça, do falso brilho dos cartazes, de rostos vazios
e de pessoas que não são, apenas passam,
é nesse lugar longe de tudo, sem tempo nem espaço,
onde pessoas escravizadas pelos homens e deuses do submundo,
se libertam de suas correntes de maldições e culpas
e correm pelos alpendres e pelos prados, é nesse lugar
onde a fumaça dos fogões colore de negro o Cristo pálido,
onde pés descalços encontram nas encruzilhadas
as cucas, os curupiras, os boitatás e os velhos diabos,
e percorrem juntos os caminhos de Jesus pelos desertos,
desertos de homens, desertos de humanidade, nesse lugar
onde estão todos perdoados, irmanados num céu sem dores,
e mãos negras extraem a água dos poços,
como samaritanas vinte séculos após,
onde a verdade é ensinada sem palavras,
onde a missa é rezada entre os vegetais
que comporão, não os salmos de Davi, mas a sopa
que será servida no refeitório todo branco,
onde Irmãs pálidas como hóstias aguardam
famintas, expectantes e ansiosas,
pela hora em que sejam arrebatadas
pelo cavaleiro negro,
pelo príncipe em seu cavalo branco,
pelo estrangeiro em seu cavalo ruivo,
pelo cavalo, simplesmente,
essas moças pobres, desencaminhadas,
levadas a uma vida que não pediram,
mas que não lhes restava mais nada, essas moças
que foram catequizadas, domadas, disciplinadas,
que foram estupradas, torturadas, esquartejadas,
mortas, sabe-se lá por que, mas que foram também
iluminadas, santificadas, ressuscitadas
– sabe-se lá por que – essas moças
que desembarcaram vindas de toda parte,
que atravessaram o grande mar num tumbeiro
(e ali encontraram a redenção e o horror obsceno),
que chegaram de carroça, a pé, depois de travessias
que lhes custaram meia vida, essas moças,
brancas, mestiças e pretas, isoladas num edifício
perdido em meio ao nada, tendo como portão
uma porteira velha, que conduziria ao paraíso,
saindo da terra, a qualquer hora, bastando para isso,
estar desperta, e pronta para essa outra guerra,
essa outra luta, em que se extingue a pessoa velha
para que nasça a pessoa nova, oculta, nessa hora,
a hora em que toda a realidade se transmuta
e o brilho do sol mostra a face ignota do Deus,
o rosto imutável, infinito, em que todas as faces
se espelham, e esperam o momento de se reconhecerem
e poderem dizer, “eis aqui a serva” como Maria,
“faça-se em mim segundo a Sua vontade”,
e se transformarem assim na própria humanidade,
não essa, mas aquela, a outra, que guarda o segredo
da longevidade eterna, porque conhece o Amor
que vem desde as estrelas, que é uma névoa
que cobre a paisagem e a transfigura no corpo divino,
que perdoa e absorve o próprio diabo,
que multiplica cada raio de sol sobre a terra
e a satura desse orvalho de sangue, tão puro
como a energia vital que nunca termina, o Tao de Deus,
que nos configura e nos realiza, esse Deus
que está mais perto de nós do que nosso próprio umbigo,
e que, pendurado de uma trave no teto da cozinha,
orvalha de gordura o chão de terra batida, em que as alpercatas
deixam as marcas de sua passagem, diligentemente,
entre panelas, facas, vasilhas, bilhas, travessas e jarros,
enquanto sobem ao telhado as orações inocentes
pronunciadas por lábios que nunca mentiram,
enviadas nas pontas dos dedos das mãos que trabalham,
e do alto da cumeeira se lançam ao espaço,
sem esperar resposta, porque são elas próprias, as orações,
as refeições, a labuta, o suor, o azeite, o vinho e o trabalho,
a resposta à pergunta impronunciada, a que não foi feita,
que nunca é feita, porque é tão imensa e desmesurada
que não cabe no peito do homem, esse ser incompleto,
que, para ser um, foi preciso dois serem criados,
e a mulher, essa companheira de mistério e misticismo,
que nasceu acima e junto com o pecado,
imaculada como uma criança, com os olhos
transparentes da verdade sussurrada ao seu ouvido
“vai, caminha, faz de ti o teu destino”,
– e que terão que descobri-lo – essa mulher
que condena o homem e o salva a cada dia,
que lhe dá de beber e o mata, a cada hora,
que o resgata do fosso e o lança ao céu,
e que é, ela própria, um universo à parte,
(e, talvez por isso, tantas mulheres haja nessa história)
essa mulher que é a história de um desalento
para com a raça humana, masculina e branca,
apenas remida de sua incapacidade, pelo amor
de meia dúzia de evas e irmãs, negras, brancas, indígenas
lavadas no manto do Cordeiro, postas a secar
no tronco do martírio de cada vida partilhada entre elas,
que, como abelhas, fazem em silêncio seu voto secreto
nos passos desse Convento imaginário,
onde uma Madre de trezentos anos dobra os joelhos
diante daquelas que preparam a ceia,
que lavam o chão, que cuidam do hoje e do amanhã,
e que, com seus panos amarrados à cabeça,
voam para além de tudo o que sabemos,
e dedicam suas horas e suas vidas ao destino
que as trouxe até ali, longe de tudo,
num tempo oculto, esse lugar que não existe,
mas que, em meio à loucura do século,
em meio ao tenebroso mar de toda pena, toda tortura,
de todos os perigos deixados aqui desde o princípio,
silencioso como o navio na procela, ergue a vela,
lança ao mar sua carga, que já de nada lhe vale,
e ainda resiste, ainda resiste, ainda resiste. (20-1-25)
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