13. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 3: AO TEMPO DE TEODORA - 3.2. TEODORA, AS ALMAS E AS PESSOAS

 

3.2. TEODORA, AS ALMAS E AS PESSOAS

 


Onde descobriremos que Teodora se relaciona secretamente com uma quantidade de entidades, das tradições indígenas, negras, caboclas, cristãs... 




“Pois assim como Deus, que é por natureza bom e impassível,
ama todos os seres e todas as suas obras igualmente,
mas glorifica o homem virtuoso porque este está unido a ele
pelo conhecimento [pela vontade], e, em sua bondade,
tem piedade do homem depravado e o traz de volta
instruindo-o no século, também aquele que, por seu próprio movimento,
é bom e impassível, ama a todos os homens igualmente.
 
Ele ama o homem virtuoso por sua natureza e sua boa vontade,
e ama o homem depravado por sua natureza e pela compaixão,
sentindo piedade por ele como por um louco que caminha nas trevas[1]”.

 

 

1.       QUEM DERA!

 

Ai, por que não nasci monja num deserto qualquer,
somente eu, as areias e os insetos, as estrelas
e nem um cachorro por perto, alimentando-me
de alfarrobas e mel silvestre,
e dormindo em pé, sem nunca tomar banho,
sem pentear os cabelos, hirsuta como o João Felpudo,
 
um tipo assustador, uma louca de Deus,
ruminando jaculatórias o dia inteiro, sofrendo de lumbago,
artrose, icterícia, seborreia, vestindo sempre
o mesmo manto suado, surrado, furado,
tendo apenas uma tigela de barro, um pouco de cereal
e a água suja do poço, a cinco quilômetros longe,
 
e a inteira esperança em Deus, só em Deus,
até explodir a alma um dia em luzes de artifícios,
espocando no céu noturno, até desaparecer entre as nuvens
e descansar no seio de Abrahão, como o justo
ao fim de sua jornada e seu destino,
 
mas não, me coube estar aqui, no meio do berreiro do mundo,
sem um minuto de paz, de silêncio,
em que possa orar simplesmente, sem rebuliço,
e sem que possa amar a Deus sinceramente,
silenciosamente, sem esperar nada por isso,
não tendo direito à solidão dos santos, dos sábios,
nem à contemplação dos eleitos, a uma vida de retiro,
de pura compunção, não, nada disso,
 
e – pior – ainda gosto de sanfona, de cantoria,
de festa do Divino, da bebedeira ao final da noite,
carregando à frente e acima a bandeira,
vermelha como o sangue e o vinho, e rir-me no meio de todos,
velhos caboclos encharcados de fé, sem um dente na boca,
repetindo as loas ao sagrado a madrugada toda,
de casa em casa, ao som dos guizos, violões e tamborins,
 
e voltar em exaustão à minha velha cela, isolada do mundo,
mas mergulhada na loucura dos homens, que eu amo,
com seus pés descalços e suas mãos poderosas,
e das mulheres envoltas em panos, que voejam
enquanto suas pernas batem o chão de terra,
seus seios tremem de leite,
e seus cabelos se assanham sob os lenços,
e sei, que em sua santidade, sob os lençóis terão seus momentos,
 
e, para mim, tudo isso é santo, tudo é justo, tudo é puro,
e sei que Cristo está no meio deles, cheio de remendos,
a cantar, "aqui estou a vossos pés" (que são dele mesmo),
e eu o vejo, tenho certeza, é ele mesmo, pois há sinais,
como, ao seu redor, tudo ser mais belo, e não lhe faltar a presença
– porque, como nós, é ele humano, afinal –
e a companhia fiel de um viralatas caramelo.




[1] São Máximo o Confessor, Primeira Centúria sobre o Amor, 25, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 1, Volume 3.



2.       A PROCISSÃO DO FOGARÉU

 


Teodora esgueirou-se às escondidas pelo portão da horta,
à noite, após as horas e o recolher, sem que se dessem conta
a Superiora e as Irmãs adormecidas, e só o soubesse o Cristo,
que a acompanhou até a cidade, para assistir a passagem
dos farricocos[1] encapuzados da Irmandade da Ordem,
na Procissão do Fogaréu na Quinta-feira Santa,
a encenar solenes a prisão do Mestre, com seus cantos,
suas tochas nas mãos, iluminando as sombras,
seus pés descalços sobre as pedras das ruas,
e a fumaça que subia em grandes rolos para o céu,
 
Teodora oculta sob um véu, com sua excitação como de criança,
os olhos arregalados admirados daqueles homens,
a si mesmos chamados "ninguém",
que, em penitência pela humanidade,
carregavam toda a culpa do Calvário, esvaziados de si,
os chapéus pontudos a lhes cobrirem os rostos,
os "ninguém", essa onda sinuosa feita de fogo e dor,
a atravessar a cidade em suas ruas, e lavar os pecados,
um por um, casa por casa, a cada comadre e compadre, noite adentro,
 
e Teodora sonhava-se farricoco ela também,
ela "ninguém", e percorria as ruas e as praças,
e trazia o fogo aos homens, em seus braços,
e expiava seus erros e percalços, e era ela ninguém,
e, como ninguém, livre para voar, acima dos terraços,
dos sonhos dos homens e mulheres, dos suspiros apaixonados,
mais alta que as torres, que os sinos que gemiam pela madrugada,
Teodora, sua alma, quase um fantasma, acima de todas as dores da humanidade,
e regressava ao seu quarto minúsculo, quase alvorada,
afogueada, feliz, justificada, pois “ninguém” deixara o Convento,
essa noite, e “ninguém” lá chegara de madrugada. (12-6-24)

 

 

3.       O SONHO

 


Teodora sonhou que ela era a noite,
e que com seu corpo negro pontilhado de estrelas
envolvia toda a terra, e com seus longos braços
abraçava cada criatura,
carinhando-as com seus dedos, estreitando-as
junto ao seio, sentindo-lhes
o respirar, o bater dos corações, seus sonhos e aflições
 
misturados, aquecidos, apaziguados
pela imensidão do amor que as abrigava, sem palavras,
essa noite enorme que, imóvel, se movia sobre a terra, serena,
em cuja pele preta resplendia um luar de prata,
suave como um camafeu, como o orvalho,
o aroma de Deus,
essa voz sussurrada que, na escuridão, revela aos seus
 
a vida verdadeira, feita desse amor que reinará
quando os homens entenderem a boa nova,
e se deixarem repousar de suas canseiras
no colo generoso dessa negra, que os contém a todos
em seu silêncio maternal, noturno e sem fronteiras. (6-6-24)

 

 

4.       O ZÉ PELINTRA

 


Teodora conversava na encruzilhada com um homem,
que nunca a pequena Maria, recém-chegada, vira por aquela paragem,
um negro de chapéu e terno branco, "advogado dos pobres, santidade",
e Maria enrubesceu com o modo de ser tratada,
"espírito humilde, bondade plena, patrono dos bares,
rei da vida boêmia, santa menina", e Maria punha os olhos no chão de vergonha,
 
enquanto Teodora proseava, muito à vontade,
falando dos desafortunados, dos excluídos da sociedade,
dos que anseiam por justiça e equidade, "advogado" – repetia ele –
"intermediário das demandas dos necessitados, Virgem consagrada",
e Maria já tão sem jeito, nem sabia pra onde olhava,
"sem nunca cobrar dinheiro, sempre de branco e vermelho",
 
e a cada frase do negro, Teodora repetia, "Salve!",
e ele seguia falando, de amor, de caridade, de fazer o bem,
de boa vontade, de sabedoria e de espiritualidade,
e Teodora, "Salve!", até que a tarde caiu, e ele, muito educado,
com uma mesura, beijou a mão de Maria, que só faltou sumir-se na terra,
com as faces em brasa, a respiração descompassada,
suando nas mãos, a boca seca, os pés entrecruzados,
 
e Teodora, "Salve, seu Zé, salve!", "adeus, 'seu' Pilintra, nos vemos
em qualquer parte", e, voltando-se para ela, "irmão nosso, Maria", e
"Bora, menina, que tá ficando tarde", e quando Maria deu por si
o homem tinha sumido que nem chapéu velho,
e a paisagem era ainda a mesma, e ao longe se acendiam
as luzinhas do Convento, e elas apertaram o passo,
e Maria, muito espantada, viu que Teodora jogava fora um cigarro,
que ela nem nunca vira, nem entendia o que se passava,
assim como também não vira chegar o advogado,
nem, ao final, por onde ele embarafustara. (20-6-24)

 

 

5.       ASSOMBRAÇÕES

 


E Maria descobriu então que Teodora conversava
com todo tipo de assombração, que a procuravam à noite,
e com uns conversava por horas, outros alguns minutos,
outros ainda até a alvorada, sempre sorrindo, sempre cortês, desassombrada,
e se recolhia a dormir muito tarde, e às vezes passava toda a noite
e não pregava o olho, e no dia seguinte se levantava disposta,
como se aquilo não fosse nada, e dizia, sentada na cama
ao despertar, no quartinho que era só delas,
 
"São nossos irmãos, Maria, gente aqui da terra,
em busca de um paraíso, que não sabem onde fica,
nem o que é, que será, que era, e de amor eu falo a eles,
e voltam pra casa alegres, e aparecem tempos depois,
e assim eu vou tratando de uns e de outros,
com chá, cachaça e café",
 
e, apontando o Cristo de gesso na cabeceira, que ganhara
há tempos da Superiora, com a recomendação que dele cuidasse
com o mesmo amor que ao Cristo negro da cozinha
dedicava ela, "Esse moço, de pé quebrado,
é ele quem é, só ele é tudo, e, se me visita essa gente simples,
é só porque ele quer, porque a tudo no mundo fez,
cada coisa em seu lugar, e cada um é o que é,
e só ele é tudo em todos, e essa é a nossa fé",
 
e, apontando a serra ao longe, "a maioria mora por ali,
onde você vê uma luzinha, uma fumacinha, uma vela acesa,
é gente que vive sozinha, dentro da natureza",
e mostrando as galinhas no pátio, "eles conversam com os bichos,
as árvores, os riachos, os ventos, e vez ou outra
com os humanos, e com todo tipo de gente",
e, sorrindo pra Maria, "sempre os trate bem, eles todos são bons,
como Deus os fez, como fez a nós, só um pouco diferentes". (20-6-24)
 
“Pois todas as criaturas de Deus são belas em si mesmas.
e não há nelas nada que acuse a criação de Deus[2]”.



[1] Os farricocos (literalmente: “ninguém”) são fiéis que, nas procissões de penitência, vestem túnicas com capuzes (para não serem reconhecidos) e carregam tochas (no caso da Procissão do Fogaréu, que ocorre desde o século XVIII em algumas cidades do interior do Brasil), imagens ou andores.

[2] Nicetas Stethatos, Primeira Centúria, Capítulos Práticos, 50, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2 Volume 2.



6.       OS VIAJANTES

 


Dois viajantes vieram dar ao portão dos fundos do Convento,
tocaram o sino, que Maria atendeu, e veio correndo
chamar Teodora, que cerzia as meias da Madre,
e foi logo vê-los, e os dirigiu até o banco sob a mangueira,
junto ao poço, e sentou-se à sombra com eles,
e entretiveram-se a conversar um pouco.
 
E o primeiro era jovem, alto, louro, bonito e falante,
e apesar das roupas simples, via-se que tinha berço,
havia sido rico um dia, e algum revés da vida o lançara na estrada,
onde desde então vivia, na companhia do outro,
um pobre e velho mendigo, maltrapilho e esfarrapado,
pobre desde que veio ao mundo, mas que até parecia sábio,
por uma ou outra coisa que dizia, e Teodora serviu-lhe água,
molhou seus pés, descalços e cansados, enquanto o outro esperava ao lado.
 
E ficaram a conversar, e Maria se encantava com o jovem alto,
que tinha olhos de sonho, de aventura e romance,
de cavaleiros, de capa e espada, de navios piratas,
de sedução e serenatas, e ela se sentia amolecer por dentro,
e bebia daquela imagem, enquanto Teodora só dava atenção ao mendigo,
que pouco falava, pitava um cachimbo,
e trazia um pão seco e um velho livro na sacola.
 
E o jovem se preocupava com ele, e parecia servi-lo,
com atenção e carinho, enquanto o outro ajeitava os trapos,
pronto a seguir caminho, e Teodora correu ao seu quarto,
e trouxe de lá um chalinho, que ela mesmo fez, de tricô,
e o colocou sobre os ombros do velho, ajeitou-lhe o chapéu
e lhe beijou as mãos, e despediu-se do moço com um aceno de longe,
 
e ficaram as duas a vê-los na estrada, até se sumirem na curva,
e Maria, curiosa, perguntou à Irmã quem era aquele moço,
por quem ela, por pouco, havia se enamorado,
e Teodora, com um gesto de desdém, "Aquele era o Diabo",
fazendo a Irmãzinha recuar, horrorizada com o imprevisto,
"E o outro? E o outro? O velho feio, manco e torto?",
e Teodora, "Aquele? O velho feio, manco e torto?",
com uma lágrima disfarçada no canto do olho,
"Aquele era Cristo". (21-6-24)



7.       O MENDIGO




O homem, maltrapilho, toca o sininho no portão do Convento,
palhaço sem circo, a vida já sem graça há tantos anos,
já nem se lembra da última risada, e apenas traz no bolso,
como um tesouro de glórias passadas, o grande nariz vermelho,
joia amassada que ele carrega, sua verdadeira cara,
 
que ele já não vê no espelho, desde os tempos
em que a máscara branca e a juba lhe concediam o poder
de enfrentar e rir-se dos reis, soberano acima de tudo,
e dos generais, dos cardeais e de todos, enquanto no palco,
com sua mímica, fazia-se ele mesmo de bobo, vazio de si,
para o entretenimento e o consolo dos pobres de espírito,
e de todos os que acreditavam ser o mundo algo mais
do que um enorme nariz, que vestimos ao nascer,
e devolvemos ao deixar o picadeiro, quando,
ao fim da vida, nos vemos tal como somos na coxia,
vazios e despidos de toda existência terrestre,
a mendigar o pão à Irmã que nos abre a porta,
 
essa Teodora que conhecemos desde quando, de menina,
nos aplaudia por sob a lona, escondida, e ria de cada careta,
que (ignorava-o o respeitável público) somente para ela ele fazia,
essa Teodora que o serve com um sorriso, uma lágrima e um bom dia,
que, como ele, esvaziou-se de toda sua vida, para se tornar
aquela que serve, que conforta e entretém as Irmãs outras,
que acreditam elas ter uma existência própria, sem perceber que,
no andor a que chamamos história, nada mais conta,
 
senão nosso nariz de palhaço, vermelho e enorme,
a juba, a bengala e a lona e a cartola,
e esse hábito singelo que ela usa, essa roupa, sempre um pouco suja,
em que cada respingo de gordura é um pouco menos
a pessoa que a veste, e um pouco mais o Amor,
essa mão estendida que ampara, esse olhar que consola, esse sorriso
que alivia toda dor, e que nos lembra que também Cristo,
com seu grande nariz vermelho abobalhado,
andou por essa terra, coberto de suor e de bondade. (4-6-24)

 

 

8.       PADRE FRANÇOIS



Padre François apareceu no Convento
vindo saiba-se lá de onde (dizia-se que da Martinica),
ou como, ou por que, mas veio, pediu guarida,
e arrumaram-lhe um quartinho junto ao galinheiro,
muito limpinho apesar, e ele comia na cozinha,
e rezava a Missa – isso sim, fazia muita falta – e foi ficando,
 
e cada vez menos se parecia com um padre,
desses que se vê em catecismo, embora de batina,
por sinal bem remendada, mas falava latim
e estava sempre sem sapatos, descabelado,
um pouco sujo, barbado, faltando um dente,
mas muito simpático, alegre, risonho,
rindo muito de si mesmo e do mundo,
 
e não era capaz de recitar de cor nenhum profeta,
e parecia não ligar a mínima para a letra da Escritura,
embora se visse que, pela sua vida, seus modos,
sua maneira de ser, era evidentemente um discípulo,
talvez um pouco extremado, de Cristo.
 
E um dia qualquer bebeu um pouco mais do vinho santo,
e abriu seu coração para Teodora e lhe contou,
como se fosse um sonho, que estava certo dia numa barca,
e essa barca estava cheia de pessoas que nunca vira,
embora reconhecesse uma ou outra, como Abrahão, Isaac e Jacó,
 
Davi, Salomão, Roboão, Josafá e Ezequias, Zorobabel,
Eliud e Matã, e, é claro, Moisés, Jó, Seth e Adão,
além de várias mulheres que o pudor o impediu de mencionar,
(Rute?, Hagar?, Betsabé?, Marta?, Madalena?, Maria?)
e toda essa gente se agitava, porque a barca era jogada
pra lá e pra cá pelas ondas do mar encapelado,
 
e o horizonte se cobria de negras nuvens, e o vento contrário
ameaçava rasgar o velame e arrancar os remos,
e se estabelecia o pânico geral, e cada qual clamava por Deus
do modo como melhor achava, na língua que podia,
e então ele, François, viu ao longe a figura conhecida
do Messias, que caminhava distraído em meio às águas,
 
alheio à procela, brincando com a espuma, sem ligar
por pouco que fosse, para o furor dos elementos,
e ele, François, gritou, “é o Senhor!”, mas a turba respondia,
“não, é um fantasma, estamos todos mortos!”,
e era triste ver tão subidas personagens a tremer de medo,
justo eles, cuja intimidade com Deus era o mais que se podia esperar,
 
e então François gritou para a figura entre as vagas, “Senhor!”
e se atirou ao mar, e para sua surpresa, viu-se caminhando
sobre a estrada líquida, como se pavimentada,
e sentiu medo, desequilibrou-se, mas lembrou-se de Pedro
e logo se aprumou, e Cristo se aproximou e deu-lhe a mão,
com um sorriso, enquanto a tempestade se acalmava,
 
e aplacava-se a fúria da maré, e a barca recuperava
seu prumo, velas e remos, e desaparecia na neblina,
enquanto François e Cristo subiam a uma barqueta que passava,
e, com vento favorável, logo alcançaram a praia,
e dali tomaram por um caminho, e pararam para descansar
à sombra de uma azinheira, e quando François acordou
Jesus se fôra, e ele ficou por ali, a pensar na vida,
 
e não chegando a conclusão alguma, restou-lhe a presença
do Mestre, ainda que ausente, e a lembrança da barca
a desaparecer na neblina com toda aquela gente,
e entendeu então que a ele bastava Cristo,
em carne e osso ou pão e vinho, e que de mais nada precisava
nessa vida, para ser humano e seguir em frente.
 
E assim ficou François por quase seis meses no Convento,
contando suas histórias, das andanças que fizera,
de como fôra levado por piratas nas costas da Índia,
de como enfrentara beduínos no Saara,
ou de como o recebera o próprio Papa, assim, daquele jeito,
sujo e descabelado, de alpercatas, em pleno Vaticano,
 
e de como lhe recomendara prudência e caldo de galinha,
como formas de conduzir sua vida e sua escolha por Cristo,
mendigando sua presença nesse mundo, contra a corrente,
e vivendo só de Cristo, e por Cristo, e com Cristo,
como um louco – louco para o mundo, loucura para os gregos,
escândalo para os judeus – mas um louco consciente,
 
até o dia em que, sem se despedir – exceto de Maria do Egito,
com quem se dera muito bem – juntou suas migalhas e se foi
sem sandálias, apenas com sua velha bíblia, um pedaço de pão seco,
um saco sem serventia, e a companhia de Cristo,
que de mais não necessitava, e nem coisa outra pretendia. (6-1-25)


 

8.1. A PALAVRA



 Padre François deixou seus mudos sermões para Teodora,
com a recomendação que os repetisse todos para Maria,
a quem ele amava como a menina dos seus olhos,
como se fosse sua filha, sua neta, sua noiva, sua cria:
 
“Você nunca sabe qual palavra de Cristo vai lhe capturar
– desde que você esteja aberto para ele –
mas, se e quando isso acontecer, agarre-se a essa palavra
e abandone todo o resto, esqueça as Escrituras e tudo o que foi dito
antes e depois delas, incluindo os doutores mais sábios,
os mais santos santos, esqueça tudo
 
e fique somente com essa palavra, mastigue-a e saboreie-a
o mais que puder, passe-a nos dentes e na língua,
encha-a de sua saliva, passeie-a pelo céu da boca, bocheche, tenha-a consigo
pelo máximo de tempo possível, até que essa palavra
passe a fazer realmente parte de você, e você dela,
e então, como quem experimentou uma bebida muito forte,
veja como seu mundo, antes tão firme,
 
balança nos seus alicerces, e partes dele desabam,
simplesmente, sem explicar, enquanto outras
brilham subitamente, indescritivelmente,
e a própria realidade se transforma, mas você não sabe dizer no quê,
ou por quê, ou como, mas você é outra pessoa,
e só então, depois de reaprender a andar, vacilante como um bebê,
 
você – talvez – possa se arriscar a provar mais uma palavrinha,
ao acaso, não escolhida por você, mas pelo Espírito,
e então repetir o processo, desde o começo,
mas – desde já aviso – isso tudo pode levar anos,
e você pode empenhar nisso toda sua existência,
até conseguir sair dessa lonjura em que tem vivido
e chegar mais perto, só um pouquinho mais perto, da essência.
 
Dói? Dói.
Mas não diga depois que eu não lhe dei ciência.
 
Então você andará por aí, sem amarras,
como quem perdeu a razão – e perdeu! –
e nada mais lhe importará, ou lhe importunará,
e seus pés, descalços dos pavimentos humanos,
caminharão sobre a terra, como era no Paraíso,
e deixarão suas pegadas pelo caminho,
 
para que as encontrem outros, que sigam a mesma via,
e para que saibam eles que, sim, loucos há
que deixaram esse mundo, mesmo estando nele,
e que vêm de muito longe para nos trazer seu sorriso,
onde se espelham realidades que não vemos,
que nos provocavam um santo arrepio
de imaginá-las tão reais quanto essas pegadas que vemos,
 
e nos damos as mãos, sem falar nada,
porque o Mestre disse tudo o que há a ouvir,
e nos aquecemos nesse amor, que, para além de mútuo,
é universal, é a Sua própria imagem, e nos perdoamos
uns aos outros, e a toda humanidade, e amamos todos os humanos,
porque todos são bons, eles só não sabem o que fazem.
 
Por isso não discuto, não argumento,
polemizo ou tergiverso, não entro em rinha,
porque ignorantei-me, analfabetizei-me,
desaprendi-me, emburreci-me, atoleimei-me
 
– e quem quererá conversar com um tolo?,
de que serve argumentar com um louco,
um ignorante, alguém que já não busca
as altas razões das mentes brilhantes, as construções
refinadas e os barroquismos dos eruditos,
os mecanismos auto justificados das ciências? –
 
e vivo, mãos dadas ao Mestre, comendo pastel na feira,
lambuzando-me e lambendo os dedos, e rindo da água
que escorre na sarjeta, levando barquinhos de folhas,
tão verdadeiros como os cargueiros, os grandes transatlânticos,
as humildes catraias, as balsas e as traineiras,
 
e meu mundo é um faz-de-conta, uma brincadeira,
e levo tudo a sério, mas como uma criança,
que valoriza, mais do que o concerto dos homens,
a última lambida no bombom ou no brigadeiro,
e nos vem beijar com o boca suja
 – come chocolates, criança, come chocolates! –
e afastamos um pouco o rosto
para não melecarmos demais as bochechas,
 
e eu sou agora essa criança, a que diz, ‘deixa...’,
e afasta as grandes questões da humanidade com o dedo,
com terra e pedaços de insetos sob as unhas,
e dá as costas aos doutos, porque viu um besouro novo sob a moita,
e isso lhe importa mais do que o mundo.” (7-1-25)


 

8.2. O MUNDO



“A companhia de Cristo não nos impede de estar no mundo,
pois estar no mundo não é ser do mundo,
e é preciso estar no mundo, para assistir as maravilhas que ele nos reserva,
e assim caminhamos, extasiados com a beleza da criação,
e consternados com a maldade humana,
e oramos por uma e outra, irmanados com a dor e a doçura,
 
porque somos humanos, afinal,
e nada do que é humano nos é estranho,
e estamos sujeitos, por um mínimo deslize,
a nos igualarmos ao que de pior julgamos,
pois o único tribunal válido não é desse mundo,
e o único juiz isento é aquele inimputável em tudo,
e assim, o que nos resta é amarmos, pois somos um,
não importa quão alto ou baixo estejamos,
 
porque todo vaso igual comporta a mesma terra,
e não somos nós que plantamos as sementes,
mas o Espírito, e só nos cabe
vicejar, na medida do possível, e esperar
que venha a chuva, o orvalho, a sombra e o sol,
e as noites e dias, e toda a azáfama
dos insetos e dos pássaros, que conosco partilham
a mesma realidade, essa, a única coisa que temos,
a única escada que pode nos levar ao céu,
ou nos deixar em qualquer parte do caminho.” (8-1-25) 


 

 8.3. O INTERIOR E O EXTERIOR

 

“Se, conforme o salmista, toda a glória da filha do rei vem de dentro,
por que iríamos buscá-la fora?, e se, de acordo com o Apóstolo,
Deus colocou em nossos corações seu Espírito que clama ‘Abba, Pai’,
como não iremos orar com o Espírito em nossos corações?,
 
e se, enfim, conforme o Senhor dos profetas e dos apóstolos,
o Reino dos céus está dentro de nós, como poderia se colocar
fora deste Reino dos céus aquele que se esforça
por extrair o intelecto daquilo que está no seu interior?,
 
pois o coração reto, disse Salomão, busca o sentido,
que ele afirma em outra parte ser intelectual e divino,
e ao qual nos conduzem todos os Padres, quando dizem:
 
‘A inteligência propriamente intelectual se reveste do sentido intelectual,
e por isso não cessemos de buscar este sentido
em nós e naquilo que não está em nós’[1]”.

 



[1] São Gregório Palamas, Sobre os Santos Hesiquiastas, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume 3



8.4. A SALVAÇÃO

 

“E não, eu não sei o que é a salvação,
nem como se chega a ela, e – quer saber? –
tampouco me interessa, eu penso que essas coisas
só servem para nos desviar da rota,
impondo-nos um mapa cheio de cifras e mistérios,
com símbolos herméticos e arcanos,
 
daqueles com monstros marinhos nos oceanos,
e canibais nas ilhas remotas, e ventos contrários,
soprados por figuras de nuvens, bochechudas e anedóticas, traçadas
em pergaminhos antigos (eu acho) que provavelmente
já perderam a validade,
que talvez – talvez – tenham sido úteis a marinheiros
de outras eras, séculos, idades,
 
mas que estão ilegíveis agora, e rasurados, com anotações à margem,
que, para decifrá-las vai uma vida inteira,
e então eu penso que há um atalho, talvez mais arriscado
(mas o que é mais arriscado do que o mar salgado e ignoto?),
mas mais franco, direto, mais óbvio,
e que dispensa retóricas, silogismos, raciocínios, metáforas,
 
um caminho pedregoso, é certo, mas sincero em seus espinhos,
e, principalmente, um caminho que não fazemos sozinhos,
porque é um caminho de Amor, de um amor sereno,
conforme pregou o Mestre, em poucas palavras,
deixando-nos não mais que um único mandamento,
de amarmos a Deus e ao próximo,
nem mais, nem menos, e isso me basta,
 
e assim, se existe salvação ou não existe,
não é para mim motivo de preocupação ou tormento,
e toda minha vida se resume em buscar esse Amor,
que prometeu o Nazareno,
e, para mim, a vida se resume a essa busca,
e tudo o mais, paradoxalmente, é de menos.” (9-1-25)

                                           

 8.5. UMA ORAÇÃO

 

O Padre François comia com as mãos, lambia os dedos,
depois corria atrás das galinhas só por diversão,
saía na chuva, se molhava inteiro, parecia uma criança,
fazia birra pra comer verdura, depois comia tudo de uma vez,
engasgava e tossia, coçava o pé, roía as unhas,
mexia nas partes, sua roupa era um trapo,
suas sandálias, algum dia o foram...,
 
mas rezava uma missa impecável, num latim perfeito,
e falava grego com a mesma facilidade, e lia os velhos livros
que o monge dera ao Convento, e que Maria do Egito guardava,
e parecia conhecê-los todos, com intimidade,
Barsanulfo, Máximo, Gregório, Crisóstomo,
Isaac o Sírio, Evagro, Palamas, Nicodemos, Ambrósio,
e explicava a teologia rara e profunda desses homens sábios,
 
e depois deixava o corredor do Convento cheio de marcas
de pés sujos de barro, e ia dormir com as galinhas,
no quartinho a ele dedicado, e parecia entreter-se
com o Cristo negro da cozinha, com quem passava horas
em silêncio a conversar o que só ele sabia,
e o Cristo parecia entendê-lo, e trocavam ideias,
 
e, ao final, François se espreguiçava, e se deitava na rede
que ele próprio improvisara, e ficava se balançando
esperando o pôr-do-sol e a noite que se avizinhava,
e assim passava horas, às vezes pitando um cachimbo velho
cheio de fumos aromáticos, às vezes murmurando sozinho,
ou entoando cantos místicos, ou fazendo alguma oração
da qual ninguém sabia o sentido, e no dia seguinte
 
lá estava ele, tomando seu café muito forte, saindo pelos campos,
sumindo-se na distância – para onde, ninguém sabia – e voltando
só perto do meio-dia, e sentava-se à soleira da cozinha,
e ali comia os restos da mesa, e recusava qualquer prato
que não fosse a sobra do que se servia no refeitório,
e depois se recolhia por algumas horas, e depois
buscava Maria do Egito, e se entretinham toda a tarde
 
em conversas bizantinas, num verdadeiro consistório,
e assim se passavam os dias, e, quando chegou a hora,
ele se foi pela estrada, para tristeza e consternação das meninas,
deixando apenas com cada uma elas uma cruzinha de bambu,
muito fininha, e um tercinho de pano, feito com muito amor,
e uma oração escrita, dizendo “Senhor Jesus Cristo,
Filho de Deus, tem piedade de mim pecador”. (10-1-25)

 


 8.6. A ORAÇÃO

 


Padre François mandou que Teodora se sentasse
junto a ele, na soleira do alpendre, e disse
de forma casual, nem um pouco solene,
como era de seu costume, olhando ao longe
algo que somente ele via, e com o rosto contente:
 
“Antes de tudo, é preciso guardar três coisas.
Em primeiro lugar, não se preocupar com nada,
tanto com o que é racional como com o que é irracional e vão,
ou seja, morrer para tudo. Em segundo lugar,
ter uma consciência pura, que não tenha nada que reprová-la.
Em terceiro lugar, não ter nenhum pendor: que seu pensamento
não se volte para nada do que é deste mundo. Então,
se sente num lugar retirado, permaneça calma, só, feche a porta,
recolha seu intelecto para longe de tudo o que for passageiro e vão.
Descanse o queixo sobre seu peito, mantenha-se atenta a si mesma
com seu intelecto e seus olhos sensíveis.
 
Retenha por um momento a respiração, dando um tempo
para que seu intelecto encontre o lugar do coração
e nele permaneça por inteiro. De início, tudo lhe parecerá
tenebroso e duro. Mas depois que você trabalhar sem descanso,
noite e dia, nesta obra de atenção, oh! milagre,
você descobrirá em si uma alegria contínua,
pois o intelecto combatente terá encontrado o lugar do coração,
e verá lá dentro aquilo que jamais havia visto antes
e ignorava por completo, e ele verá este espaço que existe
no interior do coração e verá a si mesmo inteiramente luminoso,
pleno de sabedoria e de discernimento.
 
Daí em diante, de qualquer lado que surja um pensamento,
e antes mesmo que este penetre, seja concebido e se forme,
o intelecto o expulsará e o fará desaparecer em nome de Jesus,
ou seja, com a invocação: ‘Senhor Jesus Cristo, tenha piedade de mim’.
 
É então que ele começará a ter aversão pelos demônios,
travando contra eles um combate sem trégua,
opondo a eles seu ardor natural, expulsando-os,
surrando-os, forçando-os a desaparecer.
 
O que virá a seguir, com a ajuda de Deus,
é algo que você aprenderá sozinha, pela experiência,
graças à atenção do intelecto, e guardando a Jesus
em seu coração, ou seja, a prece ‘Senhor Jesus Cristo,
tenha piedade de mim’. De fato,
um Padre disse: ‘Permaneça em sua cela,
e ela lhe ensinará tudo[1][2]”.
 
“E eu lhe digo, Teodora, que os anjos a trouxeram
a esse mundo: permaneça em sua cozinha,
e ela lhe ensinará tudo”, e, pitando seu cachimbo,
recolheu-se ao seu quartinho, e Teodora
retornou ao fogão, e seu coração pulsava
como pulsa ao sol o fruto maduro.



[1] Sentenças dos Padres do Deserto, Moisés 6.

[2] São Simeão o Novo Teólogo, Dos Três Modos da Prece, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume 4.



8.7. O SANTO ANÔNIMO

 


Um pouco como aqueles antiquíssimos santos,
que se metiam nos desertos de homens
e desapareciam para a sociedade, e se alimentavam
de orações e da caridade dos anjos,
que lhes proviam de água e, vez por outra, algum pão,
que eram analfabetos, e só conheciam da Escritura
uma ou duas palavras de Cristo, nada mais,
 
mas que criam, criam, criam a mais não poder,
e que, munidos apenas dessa certeza, mais que de fé,
enfrentavam o calor dos dias, as noites geladas
e os demônios que eles próprios, em sua solidão, produziam,
e assim passavam a vida, entre o nascer e o pôr de sóis indescritíveis,
e que assim estavam com Deus, com Cristo,
e o Espírito Santo, que os levavam a Paraísos
sobre Paraísos, à visão gloriosa das verdades escondidas,
 
e que de lá regressavam como que lavados
no mar de Tiberíades, colhidos pelas próprias redes santas
que os levariam até a praia, onde Jesus, com toda calma,
sentava-se na areia e, pacientemente, assava um peixinho
na brasa de sua presença amiga, e os convidava,
"sentem-se aqui, comigo, temos tanto a conversar,
é bom nos entretermos entre amigos",
 
enquanto, nas cidades, os homens se digladiam,
disputando sobre quem tem mais razão,
quem mais alto proclama e em bom som diz
a verdade complexa e definitiva, sem saber que
melhor do que ter razão, é ser feliz.

 

 8.8. VEM


 
“Vem, luz verdadeira. Vem, vida eterna.
Vem, mistério escondido. Vem, tesouro sem nome.
Vem, realidade inefável. Vem, felicidade sem fim.
Vem, luz sem poente. Vem, despertar dos que dormem.
Vem, ressurreição dos mortos. Vem, ó Poderoso,
que incansavelmente fazes e refazes
e a tudo transformas por tua simples vontade.
 
Vem, tu que permaneces sempre imóvel
e que a cada instante te moves inteiro e vens a nós,
deitados nos infernos, tu que estás acima dos céus.
 
Vem, alegria eterna. Vem, tu que desejastes
e que desejas minha alma miserável. Vem, tu o Único,
àquela que está só, pois, como vês, estou só.
Vem, tu que me separastes de tudo
e me tornastes solitária nesse mundo.
 
Vem, tu que te tornastes em mim desejo,
que me fizestes desejar-te, a ti que é absolutamente inacessível.
Vem, meu sopro e minha vida. Vem, consolo de minha pobre alma.
Vem, minha alegria, minha glória, minhas delícias sem fim[1]”.


[1] São Simeão o Novo Teólogo, A Prece Mística, Invocação ao Espírito Santo.




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