47. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 14: TCHISSOLA - 14.9. EYELO E O PASSARINHO
EYELO E O PASSARINHO
1. EU QUERO ESSA MORTE
“Eu quero essa morte ao teu lado, amado Passarinho!”,
disse Eyelo cheia de amor, e Pio sorriu pacificamente, e disse,
“Minha amada, tu és para mim toda a humanidade, e apesar
do abismo ontológico que nos separa de Cristo, és tu, mulher,
simbolicamente identificada com Eva primeiro, e depois,
resgatada, por Maria, que intercedes junto a Deus por todos,
pois carregas contigo o milagre do Filho, e por isso a amo
tanto quanto amo o próprio Cristo, mas de outro modo, assim
como celebramos Maria à sua maneira, como quando,
nas bodas de Caná ela intercedeu ao perceber que faltaria
vinho, e disse “eis que acaba o vinho”, como intercede também
por nós junto ao seu Filho, quando percebe que se nos acaba
o vinho da fé em nossas vidas, e então Jesus nos enche
os odres com a água da vida e a transforma em seu sangue,
para que o bebamos, e obtenhamos a remissão de nossos
erros e o caminho da vida eterna”, e, tomando em suas mãos
as mãos de Eyelo, completou, “Sim, amada Sulamita, vem
comigo, pois sentir-te ao meu lado é ter a certeza de que
‘uma só é a minha pomba, sem defeito, uma só a preferida
pela mãe que a gerou e vendo-a, as jovens a felicitam,
e rainhas e concubinas a louvam: Quem é essa que desponta
como aurora, bela como a lua, como aurora, bela como a lua,
fulgurante como o sol, terrível como esquadrão com bandeiras
desfraldadas?’, e os olhos cegos de Pio encheram-se
de lágrimas, e Eyelo beijou-os com tanta ternura, que ele
sentiu como se a visse, e em seu pensamento ela brilhava
mais do que o sol, mais do que a lua, mais do que a própria
luz criada que, desde o atentado, lhe tinha sido negada. (14-4-26)
disse Eyelo cheia de amor, e Pio sorriu pacificamente, e disse,
“Minha amada, tu és para mim toda a humanidade, e apesar
do abismo ontológico que nos separa de Cristo, és tu, mulher,
simbolicamente identificada com Eva primeiro, e depois,
resgatada, por Maria, que intercedes junto a Deus por todos,
tanto quanto amo o próprio Cristo, mas de outro modo, assim
como celebramos Maria à sua maneira, como quando,
nas bodas de Caná ela intercedeu ao perceber que faltaria
vinho, e disse “eis que acaba o vinho”, como intercede também
o vinho da fé em nossas vidas, e então Jesus nos enche
os odres com a água da vida e a transforma em seu sangue,
para que o bebamos, e obtenhamos a remissão de nossos
erros e o caminho da vida eterna”, e, tomando em suas mãos
comigo, pois sentir-te ao meu lado é ter a certeza de que
‘uma só é a minha pomba, sem defeito, uma só a preferida
e rainhas e concubinas a louvam: Quem é essa que desponta
como aurora, bela como a lua, como aurora, bela como a lua,
fulgurante como o sol, terrível como esquadrão com bandeiras
desfraldadas?’, e os olhos cegos de Pio encheram-se
de lágrimas, e Eyelo beijou-os com tanta ternura, que ele
sentiu como se a visse, e em seu pensamento ela brilhava
mais do que o sol, mais do que a lua, mais do que a própria
luz criada que, desde o atentado, lhe tinha sido negada. (14-4-26)
2. DESDE QUE O HOMEM CONNTEMPLA A DEUS NA MULHER
E o Padre Pio, com a voz embargada e tremendo
de emoção, tomou em suas mãos as mãos de Eyelo,
e recitou, quase num sussurro, e como a pedir perdão
a Deus por ousar amar tanto quanto a amava: “Pureza,
há séculos disse um poeta que conheci em livros
proibidos nos tempos do Seminário, e que recitarei
para ti, como se falasse comigo mesmo, pois
é preciso que eu compreenda minimamente
o amor que sinto, e o que você representa
para mim, perdido que estou nesse labirinto:
‘Desde que o homem contempla a Deus na mulher,
sua contemplação aplica-se sobre o que é passivo;
se ele O contempla em si mesmo, em vista do fato
de que a mulher provém do homem, ele O contempla
naquilo que é ativo; e desde que ele O contemple apenas,
sem a presença de uma forma qualquer saída de si,
sua contemplação corresponde a um estado
de passividade perante Deus, sem intermediário.
Portanto, sua contemplação de Deus na mulher é
a mais perfeita, pois é então Deus enquanto
simultaneamente ativo e passivo que ele contempla,
enquanto na contemplação puramente interior,
ele não O contempla senão em modo passivo.
Também o Profeta – sobre ele a bênção e a paz –
amou as mulheres por causa da perfeita contemplação
de Deus nelas. Não seria possível jamais contemplar
a Deus diretamente na ausência de todo suporte
sensível ou espiritual, pois Deus, na sua Essência
absoluta, é independente dos mundos.
Ora, como a realidade divina é inatingível sob este aspecto
da Essência, e como não há contemplação senão na substância,
a contemplação de Deus nas mulheres é a mais intensa
e a mais perfeita; e a união mais intensa na ordem sensível,
que serve de suporte a esta contemplação, é o ato conjugal.
Este ato corresponde à projeção da Vontade divina
sobre aquele que Ele “criou em sua Forma”, no momento
mesmo em que ele o criou, para aí reconhecer-Se,
e Ele o desenvolveu e o conformou harmoniosamente
e lhe insuflou Seu espírito, que não é outro que a Si mesmo,
de tal forma que o exterior do homem primordial
é criatura e seu interior é Deus. Sendo assim, Deus
dotou o homem da faculdade de dispor deste templo,
[o corpo humano], da mesma forma como Deus
‘dispõe da ordem, do céu’ – que é o grau supremo de existência
– ‘até a terra’ – que é o que há de mais baixo, o elemento
terra ocupando a base da hierarquia dos elementos[1]’”.
E Pio encolhia-se, sem saber com agir diante
daquele incomensurável desconhecido, cuja goela
abria-se à sua frente, sem que ele pudesse resistir-lhe,
ainda que o desejasse mais do que tudo no mundo,
ainda que por Eyelo desse até o que não tinha,
como entregara para Deus a sua vida e a sua vista,
que o Espírito agora lhe devolvia, na forma da mulher
que engolira sua alma, para devolvê-la à vida. (16-4-26)
de emoção, tomou em suas mãos as mãos de Eyelo,
e recitou, quase num sussurro, e como a pedir perdão
a Deus por ousar amar tanto quanto a amava: “Pureza,
há séculos disse um poeta que conheci em livros
proibidos nos tempos do Seminário, e que recitarei
para ti, como se falasse comigo mesmo, pois
é preciso que eu compreenda minimamente
o amor que sinto, e o que você representa
para mim, perdido que estou nesse labirinto:
se ele O contempla em si mesmo, em vista do fato
de que a mulher provém do homem, ele O contempla
naquilo que é ativo; e desde que ele O contemple apenas,
sem a presença de uma forma qualquer saída de si,
sua contemplação corresponde a um estado
de passividade perante Deus, sem intermediário.
Portanto, sua contemplação de Deus na mulher é
a mais perfeita, pois é então Deus enquanto
simultaneamente ativo e passivo que ele contempla,
enquanto na contemplação puramente interior,
ele não O contempla senão em modo passivo.
Também o Profeta – sobre ele a bênção e a paz –
amou as mulheres por causa da perfeita contemplação
de Deus nelas. Não seria possível jamais contemplar
a Deus diretamente na ausência de todo suporte
sensível ou espiritual, pois Deus, na sua Essência
absoluta, é independente dos mundos.
Ora, como a realidade divina é inatingível sob este aspecto
da Essência, e como não há contemplação senão na substância,
a contemplação de Deus nas mulheres é a mais intensa
e a mais perfeita; e a união mais intensa na ordem sensível,
que serve de suporte a esta contemplação, é o ato conjugal.
Este ato corresponde à projeção da Vontade divina
sobre aquele que Ele “criou em sua Forma”, no momento
mesmo em que ele o criou, para aí reconhecer-Se,
e Ele o desenvolveu e o conformou harmoniosamente
e lhe insuflou Seu espírito, que não é outro que a Si mesmo,
de tal forma que o exterior do homem primordial
é criatura e seu interior é Deus. Sendo assim, Deus
dotou o homem da faculdade de dispor deste templo,
[o corpo humano], da mesma forma como Deus
‘dispõe da ordem, do céu’ – que é o grau supremo de existência
– ‘até a terra’ – que é o que há de mais baixo, o elemento
terra ocupando a base da hierarquia dos elementos[1]’”.
daquele incomensurável desconhecido, cuja goela
abria-se à sua frente, sem que ele pudesse resistir-lhe,
ainda que o desejasse mais do que tudo no mundo,
ainda que por Eyelo desse até o que não tinha,
como entregara para Deus a sua vida e a sua vista,
que o Espírito agora lhe devolvia, na forma da mulher
que engolira sua alma, para devolvê-la à vida. (16-4-26)
3. QUEM SENTE O PURO AMOR
Então Eyelo cobriu-o com seu corpo, e disse,
com toda a paixão que a inundava,
“Que pensas tu, minh’alma entristecida?
Porque amas deste dia a escuridão,
se, pra voar até a clara mansão,
asa possuis, de penas guarnecida?[2]”,
mas Pio, ainda relutante, balançou a cabeça,
“A hora soa, o dia finda, os dias vão-se,
eu estou ainda[3]”, ao que Eyelo respondeu,
“Ah! Queres poetar, e ainda com poetas
nem sequer nascidos? Pois toma! ‘Não te é
possível ser – apenas podes dissipar-te;
ficar, não – da terra, agita-se qualquer parte;
não podes amontoar – todo ouro se torna chumbo;
agarrar, nada – tudo teu se esvai em fumo;
saber, não podes ter – um engano logo vem;
podes somente amar. Amar te cai bem[4]’”,
e Pio retrucou, “O pássaro escolhe a árvore;
como pode a árvore escolher o pássaro?[5]”,
e Eyelo riu e disse, “Queres ir assim tão longe?
Digo-te então, que ‘A grama não se move
se não houver vento[6]’... Mas olha para mim,
tua Pureza, olha com teus olhos cegos,
toca-me o rosto, os cabelos, minha pele,
meu seio, e eu te digo, ‘como uma doce e
rubra maçã, que brilha no alto dos ramos,
no cimo mesmo de tudo, esquecida
dos que andavam na colheita; esquecida não,
é que não conseguiram atingi-la[7]’ e ouve
o que disse o poeta, ‘Quem sente o puro amor
deve descer para categorias e afeições
que os sentidos consigam apreender
– ou jaz um grande príncipe entre grilhões.
Voltemos, pois, aos corpos, a que vejam
os fracos nosso afeto dado a lume;
os mistérios do amor na alma vicejam,
mas são lidos no corpo, o seu volume’”[8],
e Pio, num último esforço, ainda contradisse,
com num rasgo de resignação e renúncia
obstinada, mas totalmente doída e contrária
à sua vontade mais íntima, “O que foi é o que será:
o que acontece é o que há de acontecer. Não há
nada de novo sob o sol. Se é encontrada alguma
coisa da qual se diz: ‘Veja: isto é novo’, ela já existia
nos tempos passados. Não há memória do que é
antigo, e nossos descendentes não deixarão
memória junto daqueles que virão depois deles[9]”,
mas Eyelo, contrapôs, “Eu sou do meu amado,
seu desejo o traz para mim. Venha, meu amado,
vamos ao campo, vamos pernoitar debaixo dos cedros,
madrugar pelas vinhas. Vamos ver se a vinha floresce,
se os botões estão se abrindo, se as romãzeiras vão florindo:
aí lhe darei o meu amor... As mandrágoras exalam seu perfume;
à nossa porta há frutos de todo tipo: frutos novos, frutos secos,
que eu tinha guardado, meu amado, pra você[10]”,
e, antes que Pio pudesse esboçar o menor gesto,
colou seus lábios aos dele num beijo longo e ardente,
e, roubando-lhe as vestes gastas, e, colocou-se
sobre ele e abriu-lhe a alma para um voo luminoso,
por alturas que Pio sequer suspeitava existissem,
e guiou-o numa vertigem em que se fundiam
seus corpos e suas peles se tornavam uma,
e só afrouxou seu abraço quando todos os frutos
da árvore maravilhosa que viceja num recanto
secreto do Paraíso, haviam sido colhidos. “16-4-26)
com toda a paixão que a inundava,
“Que pensas tu, minh’alma entristecida?
se, pra voar até a clara mansão,
asa possuis, de penas guarnecida?[2]”,
“A hora soa, o dia finda, os dias vão-se,
“Ah! Queres poetar, e ainda com poetas
nem sequer nascidos? Pois toma! ‘Não te é
ficar, não – da terra, agita-se qualquer parte;
não podes amontoar – todo ouro se torna chumbo;
agarrar, nada – tudo teu se esvai em fumo;
saber, não podes ter – um engano logo vem;
podes somente amar. Amar te cai bem[4]’”,
e Eyelo riu e disse, “Queres ir assim tão longe?
Digo-te então, que ‘A grama não se move
tua Pureza, olha com teus olhos cegos,
meu seio, e eu te digo, ‘como uma doce e
no cimo mesmo de tudo, esquecida
dos que andavam na colheita; esquecida não,
é que não conseguiram atingi-la[7]’ e ouve
que os sentidos consigam apreender
– ou jaz um grande príncipe entre grilhões.
Voltemos, pois, aos corpos, a que vejam
os fracos nosso afeto dado a lume;
os mistérios do amor na alma vicejam,
mas são lidos no corpo, o seu volume’”[8],
com num rasgo de resignação e renúncia
obstinada, mas totalmente doída e contrária
à sua vontade mais íntima, “O que foi é o que será:
nada de novo sob o sol. Se é encontrada alguma
coisa da qual se diz: ‘Veja: isto é novo’, ela já existia
nos tempos passados. Não há memória do que é
antigo, e nossos descendentes não deixarão
memória junto daqueles que virão depois deles[9]”,
vamos ao campo, vamos pernoitar debaixo dos cedros,
madrugar pelas vinhas. Vamos ver se a vinha floresce,
se os botões estão se abrindo, se as romãzeiras vão florindo:
aí lhe darei o meu amor... As mandrágoras exalam seu perfume;
à nossa porta há frutos de todo tipo: frutos novos, frutos secos,
que eu tinha guardado, meu amado, pra você[10]”,
colou seus lábios aos dele num beijo longo e ardente,
e, roubando-lhe as vestes gastas, e, colocou-se
sobre ele e abriu-lhe a alma para um voo luminoso,
por alturas que Pio sequer suspeitava existissem,
e guiou-o numa vertigem em que se fundiam
seus corpos e suas peles se tornavam uma,
e só afrouxou seu abraço quando todos os frutos
da árvore maravilhosa que viceja num recanto
secreto do Paraíso, haviam sido colhidos. “16-4-26)
4. O DESPERTAR DE PIO
Pio despertou e esfregou os olhos cegos, sentido
por toda parte o perfume de Eyelo, misturado
ao cheiro doce das frutinhas muçambê, ao canto
dos pássaros, ao calor do sol que lhe afagava
o rosto e o corpo, e então lembrou-se de que
estava nu, e tateando ao redor encontrou suas
roupas, e vestiu-se apressadamente, quando ouviu
a voz de Eyelo muito próxima, sussurrando
ao seu ouvido, “Não de apresse, Passarinho,
ainda há frutos que não foram colhidos, e sentiu
os braços fortes e macios enlaçarem-se
ao seu corpo, e viu-se atirado ao chão, e outra vez
o torvelinho tomou de assalto a sua consciência,
e outra vez Eyelo se tornou tudo ao mesmo tempo,
e outra vez ele perdeu a noção do tempo, do espaço,
e até de quem era, e só despertou quando ela,
colocando sua cabeça no colo, afagou-lhe
os cabelos, e assim esteve durante muito tempo
a cantarolar velhas cantigas de ninar, cantigas
de amor e enlevo, numa língua para ele desconhecida,
até que ouviram vindo as vozes de Tchissola e Grilo,
e Pio vestiu-se novamente, mas Eyelo permaneceu
como estava, apenas se colocando por trás dele,
e continuou a acariciá-lo, enquanto saudava
os dois que chegavam, e que traziam novidades
da vila e das coisas que se haviam por ali passado. (17-4-26)
por toda parte o perfume de Eyelo, misturado
ao cheiro doce das frutinhas muçambê, ao canto
dos pássaros, ao calor do sol que lhe afagava
o rosto e o corpo, e então lembrou-se de que
estava nu, e tateando ao redor encontrou suas
roupas, e vestiu-se apressadamente, quando ouviu
ao seu ouvido, “Não de apresse, Passarinho,
ainda há frutos que não foram colhidos, e sentiu
os braços fortes e macios enlaçarem-se
ao seu corpo, e viu-se atirado ao chão, e outra vez
o torvelinho tomou de assalto a sua consciência,
e outra vez Eyelo se tornou tudo ao mesmo tempo,
e outra vez ele perdeu a noção do tempo, do espaço,
colocando sua cabeça no colo, afagou-lhe
os cabelos, e assim esteve durante muito tempo
a cantarolar velhas cantigas de ninar, cantigas
de amor e enlevo, numa língua para ele desconhecida,
até que ouviram vindo as vozes de Tchissola e Grilo,
como estava, apenas se colocando por trás dele,
e continuou a acariciá-lo, enquanto saudava
os dois que chegavam, e que traziam novidades
da vila e das coisas que se haviam por ali passado. (17-4-26)
5. OS CAMINHOS DO MILAGRE
E Pio falou, retomando o que já se havia conversado,
“Cristo disse, ‘Mulher, o que existe entre mim e você?’[11],
marcando essa diferença ontológica entre Deus
e os mortais, e não obstante, Maria ordenou
aos servidores, ‘Façam o que ele mandar’, pois
ainda que mortal tinha a autoridade para tanto,
façam o que ele mandar, seja lá o que for, pois
os caminhos do milagre são tortuosos e inesperados,
e ao encher os potes, Jesus os completa até a borda,
pois o que está ali é a plenitude da Graça a substituir
a lei Mosaica, e por isso não cabe nem uma gota
do vinho velho, mas os potes se enchem com essa
água puríssima do Novo Testamento, e a quantidade
de vinho transformado é muitas vezes maior
do que o que poderia vir a ser consumido na festa
que já terminava após três dias, assim como a Graça
é muito maior do que é possível a nós compreender,
absorver ou intuir, e quando a recebemos assim
devemos prová-la, não tirando da superfície, mas indo
ao fundo do pote, onde é mais radical a sua presença,
e sorvendo esse vinho, cuja medida talvez nunca
completemos, como não completamos a mais simples
graça que nos foi dada, que é o fato simples de que
estamos vivos, a extrair desses odres guardados
fora das vistas do noivo e do mordomo, que, conquanto
corretíssimos e experimentados, não sabem, nem fazem
ideia de onde veio tanto vinho, e da qualidade apresentada
quando o natural seria servir o de pior cepa, uma vez
que a festa já vai tarde, a noite avança, e já estão
todos os convivas exaustos e embriagados.” (18-4-26)
“Cristo disse, ‘Mulher, o que existe entre mim e você?’[11],
marcando essa diferença ontológica entre Deus
e os mortais, e não obstante, Maria ordenou
aos servidores, ‘Façam o que ele mandar’, pois
ainda que mortal tinha a autoridade para tanto,
os caminhos do milagre são tortuosos e inesperados,
e ao encher os potes, Jesus os completa até a borda,
pois o que está ali é a plenitude da Graça a substituir
a lei Mosaica, e por isso não cabe nem uma gota
do vinho velho, mas os potes se enchem com essa
água puríssima do Novo Testamento, e a quantidade
de vinho transformado é muitas vezes maior
que já terminava após três dias, assim como a Graça
é muito maior do que é possível a nós compreender,
absorver ou intuir, e quando a recebemos assim
devemos prová-la, não tirando da superfície, mas indo
ao fundo do pote, onde é mais radical a sua presença,
completemos, como não completamos a mais simples
graça que nos foi dada, que é o fato simples de que
estamos vivos, a extrair desses odres guardados
fora das vistas do noivo e do mordomo, que, conquanto
corretíssimos e experimentados, não sabem, nem fazem
ideia de onde veio tanto vinho, e da qualidade apresentada
quando o natural seria servir o de pior cepa, uma vez
que a festa já vai tarde, a noite avança, e já estão
todos os convivas exaustos e embriagados.” (18-4-26)
6. A MINHA FACE NOS TEUS OLHOS
E, voltando-se para Eyelo, Pio continuou,
“Amada Pureza, ‘Espanta-me, em verdade, o que fizemos,
tu e eu até nos amarmos? Não estaríamos ainda criados,
e, infantilmente, sorvíamos rústicos prazeres?
Se alguma vez beleza eu de fato vi, desejei e obtive,
não foi senão um sonho de ti. A minha face nos teus olhos,
e a tua nos meus, aparecem, que os corações veros
e simples nas faces se desenham; onde poderemos
encontrar dois melhores hemisférios, sem o agudo Norte,
nem o declinado Oeste? Só morre o que não foi
proporcionalmente misturado, e se nossos dois amores
são um, ou tu e eu nos amamos tão igualmente que nenhum
abranda, nenhum pode morrer[12]’”, e Pio prosseguiu,
como num arrebatamento, “Deus é prévio, e o que fez
é a razão final de tudo, ‘o qual é a imagem do Deus
invisível, o primogênito anterior à criação, e tudo
foi criado por ele e para ele[13]’, ele É antes de todas as coisas,
e todas as coisas subsistem nele, ele é a aparência
do invisível Deus, não a imagem, mas imagem, e por isso
somos segundo a imagem de Cristo, para que obtenhamos
a semelhança do primeiro gerado (não criado), o que é
antes de todas as coisas, e nele foram criadas todas
as coisas, pois Deus é o Criador do céu e da terra
e Cristo é o primogênito de tudo o que foi construído,
porque nele tudo foi criado nos céus e na terra, os visíveis
e os invisíveis, e ele É antes de todas as coisas, ele está
fora da criação e fora do tempo, e assim tudo está e estará
simultaneamente, eternamente, simplesmente nele,
e assim nele É a Vida – Deus, a natureza de Deus – e
a Vida é a Luz dos homens – a natureza dos homens –
pois nele vivemos, porque ele é Vida, pela iluminação
da Luz incriada, através da qual o homem possui
uma ligação com o Espírito, conectando-se com Deus,
pois, tendo sido extraído da lama, o ser humano
foi feito de uma matéria anterior à própria Criação,
essa Criação que foi criada, enquanto o homem
foi feito e modelado com as mãos de Deus, com
o sopro e a mente de Deus, que o fez como poesia
e nele colocou as joias dos seus carismas, e assim,
ainda que caminhemos na escuridão, somos capazes
de compreender a Luz e dar testemunho dela, e essa
é a única razão de estarmos vivos, e dessa forma
meu único desejo, amada Pureza, Eyelo, é de estar
nesse mundo para testemunhar a Luz divina, já que
a luz natural me foi negada aos olhos, e estou pronto,
se assim quiseres, a empreender essa jornada,
e que Deus nos abençoe, pois doravante será essa
a razão de nossa existência, e o pó de nossas sandálias
ao cabo de cada dia, no percurso dessa jornada”. (18-4-26)
“Amada Pureza, ‘Espanta-me, em verdade, o que fizemos,
e, infantilmente, sorvíamos rústicos prazeres?
Se alguma vez beleza eu de fato vi, desejei e obtive,
não foi senão um sonho de ti. A minha face nos teus olhos,
e a tua nos meus, aparecem, que os corações veros
e simples nas faces se desenham; onde poderemos
encontrar dois melhores hemisférios, sem o agudo Norte,
nem o declinado Oeste? Só morre o que não foi
proporcionalmente misturado, e se nossos dois amores
são um, ou tu e eu nos amamos tão igualmente que nenhum
abranda, nenhum pode morrer[12]’”, e Pio prosseguiu,
invisível, o primogênito anterior à criação, e tudo
foi criado por ele e para ele[13]’, ele É antes de todas as coisas,
e todas as coisas subsistem nele, ele é a aparência
somos segundo a imagem de Cristo, para que obtenhamos
a semelhança do primeiro gerado (não criado), o que é
antes de todas as coisas, e nele foram criadas todas
as coisas, pois Deus é o Criador do céu e da terra
porque nele tudo foi criado nos céus e na terra, os visíveis
e os invisíveis, e ele É antes de todas as coisas, ele está
fora da criação e fora do tempo, e assim tudo está e estará
simultaneamente, eternamente, simplesmente nele,
e assim nele É a Vida – Deus, a natureza de Deus – e
a Vida é a Luz dos homens – a natureza dos homens –
da Luz incriada, através da qual o homem possui
uma ligação com o Espírito, conectando-se com Deus,
pois, tendo sido extraído da lama, o ser humano
foi feito de uma matéria anterior à própria Criação,
essa Criação que foi criada, enquanto o homem
foi feito e modelado com as mãos de Deus, com
o sopro e a mente de Deus, que o fez como poesia
e nele colocou as joias dos seus carismas, e assim,
de compreender a Luz e dar testemunho dela, e essa
é a única razão de estarmos vivos, e dessa forma
meu único desejo, amada Pureza, Eyelo, é de estar
nesse mundo para testemunhar a Luz divina, já que
a luz natural me foi negada aos olhos, e estou pronto,
se assim quiseres, a empreender essa jornada,
e que Deus nos abençoe, pois doravante será essa
a razão de nossa existência, e o pó de nossas sandálias
ao cabo de cada dia, no percurso dessa jornada”. (18-4-26)
[1]
Mohiyd’din Ibn Arabî – A Sabedoria dos Profetas – A sabedoria da
singularidade segundo o Profeta Maomé.
[2] Joachim
du Belay (1525-1560) - Soneto
[3] Guilllaume Appolinaire (1890-1918) – A
Ponte Mirabeau.
[4] Ernest
Bertram (1884-?) - Sentença
[5]
Provérbio Chinês.
[6] Provérbio
Chinês.
[7] Safo
(séc. VII/VI aC) – A noiva (Fragmento 105).
[8] John
Donne (1572-1631) – O êxtase.
[9]
Eclesiastes 9-11.
[10]
Cântico dos Cânticos 7: 11-13.
[11] João
2: 3ss.
[12] Cf.
John Donne – Poemas de Amor - Bom dia.
[13]
Colossenses 1: 15.
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