46. VIDA DE ANTÔNIA -PARTE 14: TCHISSOLA - 14.8. O JULGAMENTO

 

O JULGAMENTO

 



 
1.     O TRIBUNAL 





Mas, enquanto Pio, o Passarinho, se preparava para partir
com Eyelo em sua peregrinação sagrada, Grilo fôra
até a vila e retornava com novidades, pois o processo
de Dom Bernardo teria as audiências de ouvidorias
realizadas na própria aldeia, e as autoridades da Igreja
estavam convocando testemunhas, em especial
 
aquelas que haviam sofrido os abusos descritos
no relatório do Padre Pio, e que escandalizavam a todos,
pois as vozes corriam o povo, e o tema estava se tornando
cada vez mais momentoso e quente, e, diante disso,
Pio prontificou-se a testemunhar, mas Grilo alertou-o
de que essa audiência trataria exclusivamente dos abusos,
e assim Tchissola e Eyelo se decidiram a comparecer perante
o Juiz eclesiástico para dar seu depoimento, e assim
 
foi feito, e no dia marcado através do intermédio de Grilo
e do Padre Pio, cujo reaparecimento surpreendeu
a muitos, que o julgavam morto ou perdido, as duas
mulheres se sentaram na sala de audiências, e viram
que, além delas, muitas outras haviam saído da sombra
e do anonimato da violência do bispo, e se dispunham
a contar suas histórias, e assim se apresentaram,
 
naquele dia, Benedita, Anastácia, Jesuína, Luzia,
Zeferina, Felipa, Firmina, além das duas, Pureza e
Joana, ou Joaninha, como a chamava Dom Bernardo,
algumas mulheres feitas, outras jovens, outras meninas,
e logo ouviu-se o imperativo, “Silêncio no Tribunal!”,
e o Juiz deu início à sessão, chamando em primeiro
lugar o próprio Dom Bernardo, que adentrou o recinto
com seu olhar distante e esgazeado, e passou a responder
 
as perguntas num latinório que, conquanto perfeito,
não ligava coisa com coisa, e parecia realmente
que sua cabeça já não funcionava a contento, restando,
de tudo o que havia lá dentro, apenas a memória
das coisas, desconectada de qualquer sentido de fato,
e Dom Bernardo respondia à pergunta, “O que tem a dizer
em sua defesa?”, com “Auditu audietis, et non intelligetis,
videntes videbitis, et non videbitis. Incrassatum est
enim cor populis huius![1]”, e, como o Juiz insistisse,
 
Bernardo se levantou, apontando as pessoas da vila
que assistiam ao julgamento, e, fixando o olhar nas suas
antigas escravizadas, disse com eloquência, “Et auribus
graviter audierunt, et oculos suos clauserunt: ne quando
videant oculis, et auribus ajudiant, et corde intelligant,
et convertantur, et sanem eos[2]”, e olhando diretamente
para Tchissola e Eyelo, “Vestri autem beati oculi qui
vidente, et aures vestrae quia audiunt![3]”, e com lágrimas
 
nos olhos, “Amen quippe dico vobis, quia multi prophetae
et iusti cupierunt videre quae videtis, et non viderunt;
et audite quae auditis, et non audierunt![4]”, e sentou-se
apático, e assim foi todo seu depoimento, “Qui habet
aures  audiendi, audiat!...[5]”, e ao final o Juiz pediu
que se retirasse, e passou à audição das testemunhas.
 





2.     DEPOIMENTOS 





Tendo Dom Bernardo deixado a sala de audiências,
escoltado pela guarda, o Juiz se dispôs a ouvir as moças
enfileiradas no banco das testemunhas, mas vendo
suas roupas simples, os pés descalços, as mãos
muitas vezes sujas de terra, os olhares cansados,
duvidou que teria algum proveito nos depoimentos
que teria ainda a escutar, mas, como era obrigado,
 
passou os olhos na lista de chamada e, sem demonstrar
demasiada autoridade, para não intimidar tantas
ex-escravizadas, começando a nova fase do interrogatório,
requisitou a presença, a que lhe pareceu mais bem
preparada e exclamou em voz bem alta e pausada,
“Moça Joana!”, e Tchissola levantou-se, olhando
o Juiz diretamente nos olhos, e pronunciou em voz
alta e clara, sem tremer nem titubear, dizendo,
 
“Meu nome é Tchissola, sou negra Umbundo, vinda
de Angola em África”, e um murmúrio percorreu a sala,
pelo despropósito da negrinha que enfrentava o Juiz,
tão sério em sua capa preta, mas o Juiz, surpreendendo
a todos, arrepanhou a capa, mostrando os braços morenos,
sorriu e declarou, “Meu nome é Manoel Joaquim Vicente
José Bento, da Arquidiocese da Capital dessa Província
das Gerais, filho de Vicente Bento e neto de Adenike
Kiesa, do povo Quimbundo, de Angola, África”, e logo,
voltando-se para o Escrivão, ordenou, “Anote-se nesse
processo o nome verdadeiro da depoente Joana, nominada
 por seus pais como Tchissola, bem como os nomes
originais de cada testemunha, e passemos às suas histórias”,
 
e com delicadeza começou a fazer as perguntas de praxe,
de como, quando, onde, quem, o que e de que modo, e Tchissola
a tudo respondeu, com seriedade e convicção, e logo o Juiz
chamou a testemunha seguinte, e foi logo perguntando
“Moça Pureza, como você quer ser chamada?”, e Eyelo
respondeu com seu próprio nome, e passou a responder
a tudo que lhe era perguntado, e assim se seguiram as outras,
 
Benedita, aliás Ayana, vinda da Etiópia, Anastácia, ou Ife,
Iorubá, Jesuína, na verdade Amara, da etnia Igbo, Luzia,
ou Abayomi, Ioruba também, como Iorubá era Zeferina,
chamada Fayola, como também Felipa, aliás Bintu, e por fim
Firmina, Iorubá, por verdadeiro nome Ayoola, de modo a que
estavam ali presentes ‘Alegria’, ‘Pureza’, ‘Linda Flor’, ‘Amor’,
‘Graça’, ‘A que traz alegria’, ‘A sorte honrada’, a ‘Bonita’ e
a ‘Alegria com riqueza’, e o Juiz coletou cada depoimento,
e a cada uma tratava com cortesia, afeto e respeito,
 
como que encontrasse nelas um tesouro de sua terra distante,
da terra de seus avós, e não escondeu as lágrimas nas horas
mais difíceis de cada uma delas, e a assistência estava
cada vez mais escandalizada, sem que se soubesse se era
pelas histórias contadas, pela presença de tantas negras
na sala falando livremente, se pelo desembaraço e dignidade
de cada qual, ou, finalmente, se pelo fato de o Juiz ter
se declarado francamente mestiço, com sangue negro
 
correndo debaixo daquele manto togado (o que era raro
nos tempos que iam, ainda que Juiz da Igreja e não
do Estado, mas se era como se apresentava, e se chegara
até tão alto cargo tinha que ser respeitado), e ao término
de tudo, ele agradeceu a coragem das testemunhas, e
disse que faria seu relatório de modo reservado, pois haveria
que submetê-lo à Arquidiocese, dada a gravidade do caso,
e assim deu por encerrada a audiência, mas, enquanto
as pessoas se retiravam, reteve Tchissola, Eyelo e o Padre Pio,
e lhes disse à parte que Dom Bernardo estava perdido,
 
pois a Igreja jamais assumiria sua responsabilidade no caso,
e o destino dele seria o mesmo de “todos os que levam
os outros a pecar e os que praticam o mal”, e que ele “será
lançado na fornalha de fogo, nas trevas exteriores, onde
só há choro e ranger de dentes[6]”, e que não seria de se
estranhar se no futuro encontrassem o “senhor bispo”
 
mendigando pelas estradas, com uma canequinha na mão,
no seu delírio costumeiro, e vestido inteiro de trapos,
e completou, “Esta é a justiça dos homens, pois para Deus
não existe diferença entre o santo e o pecador, pois seu
amor vai além de toda a compreensão, se é que me entendem”,
 
e o Juiz despediu-se deles, e beijou as mãos de Tchissola
e Eyelo, para grande espanto das duas, e terminou dizendo,
“Hoje aprendi mais do que em todos os meus anos de estudo,
e com a Graça de Deus, volto a sentir fé na humanidade,
e penso que numa sociedade livre o Amor de Deus encontraria
o solo fértil de que mais precisa, e que é nas mulheres, por toda
a história caladas e injustiçadas, que se encontra o verdadeiro
 
Cristianismo, pois são vocês que trazem o Amor à terra, e o dão
a toda a raça humana, da qual todos são seus filhos, e quero
deixar aqui meu tributo a essas duas mulheres, cuja bravura
contribuiu para restabelecer a justiça e a paz de que esse mundo
tanto precisa”, e Tchissola, agradecendo, disse, “Há uma coisa
que, pelo formato da audiência, não foi dita, mas que deve
ser incluída no juízo que será feito sobre Dom Bernardo, pois
à parte ser o monstro que foi para nós, uma única coisa ele fez,
 
da qual todas se beneficiaram, pois ele nos dava lições bíblicas,
ao seu modo vicioso e desvirtuado, e nos ensinou a todas
o latim e o grego, para algumas até o hebraico, e para outras
ainda os grandes poetas e pensadores do passado”, e o Juiz,
surpreso, disse que essas coisas não constariam no processo,
por terem sido ditas fora dos depoimentos, mas que ele, Juiz,
as levaria em consideração, embora não soubesse no que tal fato
poderia vir a aliviar a pena que haveria de sofrer Dom Bernardo. (12-4-26)
 




 
3.      A LETRA QUE MATA





Mas Padre Pio, o Passarinho, ponderou que, apesar
de Dom Bernardo ter beneficiado suas escravizadas
com os ensinamentos bíblicos e de outros sábios
da Antiguidade, isso absolutamente o tornava
um mestre, no sentido estrito daquilo que é um mestre,
pois ele não só não praticava esses ensinamentos,
 
como – e isso seria o mais importante – nunca mostrou
o caminho para superá-los, para ir além da palavra,
da letra que mata (como dizia Paulo[7]), e a prova maior
disso é que ele próprio estava morto pela letra, pois
era incapaz de ver a Deus no seu próximo, como sabemos
pelo modo como as tratava, de maneira bárbara, cruel
e puramente carnal, pela acumulação de ouro e prata,
pelo modo presunçoso como se pavoneava na vila,
 
e por todas as outras coisas que acabaram por fazê-lo
vítima da própria maldade, pois essa forma de loucura
que o acometeu, e que o fez esquecer-se da própria
língua nacional, expressando-se unicamente em trechos
decorados num idioma incompreensível ao povo, essa
demência que apagou de sua mente o próprio mal
cometido – que podemos entender até mesmo como
uma estranha forma da misericórdia divina, pois seria
 
impossível a alguém viver seus últimos anos com
a consciência das atrocidades cometidas – essa alienação
do espírito é a maior prova de sua incapacidade em cruzar
o umbral do entendimento, esse umbral que, quando
ultrapassado, nos torna verdadeiramente cristãos, pois
é nele que encontramos as verdades que Deus escondeu
aos sábios e aos entendidos, mostrando-as aos pequeninos
e aos humildes, esse umbral que transcende a lógica
humana dos discursos mais eruditos, esse umbral que,
 
em primeiro lugar, nos apontou Maria, quando disse “Eis aqui
a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a sua vontade”,
e, a partir dessa posição incompreensível, tornou possível
a encarnação do próprio Deus nesse mundo, que de outra
forma não se daria, esse umbral que é morte para esse mundo,
a morte verdadeira, que se chama morte sem morte,
morte de tal maneira que lhe deixe a vida inteira,
se lhe couber essa sorte[8]”. (14-4-26)
 

 



[1] Mateus 13: 14-15 (“É certo que vocês ouvirão, porém nada compreenderão. É certo que vocês enxergarão, porém nada verão. 15 Porque o coração desse povo se tornou insensível”).

[2] Ibid. 15 (“Eles são duros de ouvido e fecharam os olhos, para não ver com os olhos, e não ouvir com os ouvidos, não compreender com o coração e não se converter. Assim eles não podem ser curados”).

[3] Ibid. 16 (“Vocês, porém, são felizes, porque seus olhos veem e seus ouvidos ouvem”).

[4] Ibid. 17 (“Eu garanto a vocês: muitos profetas e justos desejaram ver o que vocês estão vendo, e não puderam ver; desejaram ouvir o que vocês estão ouvindo, e não puderam ouvir”)

[5] Ibid. 43. (“Quem tem ouvidos, ouça”)

[6] Cf. Mateus 13: 41-42.

[7] 2 Coríntios 3: 6 (“A letra mata, mas o Espírito vivifica”).

[8] Atribuído ao Padre José de Anchieta.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

1. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 1: AS SETE IRMÃS - INTRODUÇÃO

13. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 3: AO TEMPO DE TEODORA - 3.2. TEODORA, AS ALMAS E AS PESSOAS

5. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 1: O CONVENTO - 1.2. CONVERSAS - 3. NOVOS APRENDIZADOS