44. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 14: TCHISSOLA - 14.6, A MISSÃO DE PIO

 

A MISSÃO DE PIO

 

 


1.    A MISSÃO  





A sombra de Eyelo arrancou Pio de seu devaneio,
e ele se recompôs rapidamente, sem tirar os olhos
dela, e assim falou, com uma entonação firme na voz,
“Mas eu fui incumbido de uma missão na vila próxima,
que está sob responsabilidade eclesiástica do bispo
Dom Bernardo da Madre de Deus Tinhorão, sobre quem
pairam acusações e suspeitas, e a Arquidiocese espera
que eu me desincumba da tarefa a mim confiada,
 
para o bem ou para o mal, e não será um braço quebrado
e duas ou três costelas doloridas que me farão recuar
do trabalho ao qual fui delegado”, e assim falando
levantou-se, ainda meio capenga, e se dispôs a enfrentar
a vila inteira, se preciso fosse, mas Tchissola argumentou,
“Bom Padre, tome cuidado, pois Eyelo e eu somos
testemunhas das atrocidades que lá se cometem, e fomos,
nós mesmas, vítimas da crueldade de Dom Bernardo,
 
que agora é tido como louco ou enlouquecido, não importa,
mas que é ainda cúmplice dos poderosos, que se locupletam
com o fruto dos labores da população desamparada,
e que se utilizam da própria Igreja para ocultar seus ganhos
escusos e sua ambição desmesurada pelo dinheiro fácil”,
e então Pio retrucou, “Mas devo ir, seja como for, e se preciso
enfrentarei meio mundo, mas farei meu relatório e o levarei
às autoridades da Capital, ainda que para isso tenha
 
que pagar com minha vida pela audácia”, mas Eyelo disse,
em voz alta, “Isso eu não vou admitir, de modo algum,
que te percas pelo caminho, agora que encontrei,
trazido pelos anjos, meu querido Passarinho – e a moça
corou, e também corou o Padre Pio – e então, se quiser ir,
vá, mas se acautele, e leve consigo o Grilo, que estou certa
há de protegê-lo, pois é homem vivido, e saberá muito bem
e a qualquer hora distinguir o joio do trigo”, e Grilo falou,
 
“Será para mim uma honra, uma alegria, a de poder estar
consigo nessa hora incerta, e de fazermos o certo, ainda
que possamos correr qualquer perigo”, e, tendo sido ditas
essas coisas todas, acordou-se que ao dia seguinte Pio iria,
na companhia de Grilo, até a vila, ficando as duas moças
escondidas nalgum sítio, e oraram todos pelo sucesso
da empreita, e para que ninguém encontrasse Eyelo
e Tchissola em seu esconderijo, distante e protegido. (6-4-26)
 
 



2.     DILIGÊNCIAS 





A chegada de Padre Pio à vila caiu como uma bomba
entre os poderosos locais, que julgavam morto o emissário
da Diocese, o qual, ferido e esmolambado, e acompanhado
de um moço alto e rústico, veio pelo carreiro, mancando
e apoiado num bastão, atravessando a praça para
se apresentar na Igreja, perante o Bispo, tendo sido logo
encaminhado à sede da municipalidade, para dar conta
 
de sua missão, pois “sua santidade encontra-se acamado,
acometido de febre alta, e com delírios acompanhados
de convulsões, que não recomendam visitas, e que não
seja ele, em caso algum, importunado”, e assim, Padre Pio
e seu companheiro Grilo foram alojados num quartinho
estreito e mal iluminado, num albergue já quase fora
 
dos limites urbanizados, onde o proprietário, com cara
facinorosa e modos mal-educados, os recebeu a contragosto,
alojando-os de qualquer maneira e logo correndo à sede
da Casa de Câmara, para receber suas instruções, além,
naturalmente, de um bom dinheiro adiantado, e assim,
ao dia seguinte, Pio e Grilo dirigiram-se à sala de audiência,
para tratar dos assuntos de que fôra encarregado o Padre,
 
a saber, a prestação geral de contas da Diocese, além
de notícias sobre o estado de Dom Bernardo, e a reunião
prolongou-se até metade do dia, e Pio foi convidado
a almoçar com o senhor Alcaide, que serviu frango
acompanhado de um vinho regular, e lhe apontou
num papel com timbre, as obras com as quais estava
 
envolvido “nosso bom bispo”, a saber, um orfanato,
um recolhimento para moças desamparadas, em asilo
para idosos e um pequeno sanatório de alienados, tudo
muito certo e documentado, “conforme se pode observar
nessa papelada, em que estão lançadas as contas
e as despesas, e apontados cada centavo de entradas
e saídas, e mais todas as doações feitas pelos munícipes,
sempre prontos a auxiliar nas obras de santa caridade”,
 
e Pio recolheu os documentos apresentados, prometendo
lê-los ainda nesse mesmo dia, e logo retirou-se dali,
para encontrar Grilo, que comera pão seco com água
servidos pelo estalajadeiro de maus bofes, combinando
com ele uma estratégia, qual fosse, a de que Grilo visitaria,
disfarçadamente, as instalações mencionadas por escrito,
 
enquanto ele, Pio, fazia as contas dos gastos e dos ganhos,
e de tudo o que de mais haveria, e assim se recolheram
ao quartinho fétido, no segundo andar, enquanto, logo
abaixo, parecia haver algum tipo de festa, com música
muito alta e desafinada, e cantoria, gargalhadas e gritos. (6-4-26)
 
 




3.    DOM BERNARDO, O LOUCO  





Ao dia seguinte, Pio se dirigiu à Igreja, e tanto fez,
que conseguiu penetrar no santo edifício, e percorrendo
os cômodos, logo se deparou com os aposentos restritos
de Dom Bernardo, e, apurando o ouvido, pareceu-lhe ouvir
alguma espécie de ladainha, entoada monotonamente
com voz fanhosa, e, prestando mais atenção, distinguiu
 
claramente as palavras que tantas vezes repetira, tempos
atrás, quando ainda estava no Seminário, “Osculetur me
osculo oris sui; quia meliora sunt ubera tua vino, fragrantia
unguentis optima. Oelum effusum nomen tuum; ideo
adolescentulae dilexerunt te![1]”, e Pio aproximou-se
pisando macio e sem ruído até entrever pela abertura
de uma porta, um homem de idade, nu da cintura para cima,
 
que declamava diante de uma parede, na qual estavam
pendurados alguns açoites e ferros de marcar, e o homem
parecia alheio ao próprio mundo, os olhos fixos nos objetos
com os quais se torturavam os negros, e que, de modo algum,
deveriam estar ali, naquela parede, naquele quarto, naquela
situação em que se encontravam, e assim Pio fez um ruído,
como limpando a garganta, e o homem voltou-se surpreso,
 
mas, vendo tratar-se de um padre, ainda que maltrapilho
em sua roupagem, aprumou-se e disse com solenidade,
In qua virtute, aut in quo nomine fecistis hoc vos?[2]”, e
sentou-se, ou se deixou cair, numa cadeira, olhando
com curiosidade para Pio, que, espantado com aquilo,
indagou, quase gaguejando, “D-Dom B-B-Bernardo?”, ao que
 
o homem respondeu, sempre em latim estudado, misturado
com expressões medievais em alemão popular, “Wafna, wafna!
quid fecisti sors turpissima? Nostre vite gaudia abstulisti omnia![3]”,
e Pio, cada vez mais embaraçado, fazia rodeios para perguntar
aquilo para o que fôra enviado (pois quanto à saúde mental
de Dom Bernardo, não havia dúvida de que o assunto estava
mais do que liquidado), mas reuniu coragem, e acabou por
indagar da situação das contas da Diocese, explicando
do modo mais simples a situação, embora desesperançado
 
de ouvir qualquer coisa que prestasse, dado o devaneio
em que parecia submergir-se a mente do bispo, a essa altura
completamente à vontade e desembaraçado, e que falou
num tom de voz empolado, “Quae fremuerunt gentes, et populi
meditati sunt inania?[4]”, e, elevando o tom, quase a berrar,
Astiterunt reges terrae, et príncipes convenerunt in unum,
adversus Dominum et adversus Christum eius?[5]”, e então
 
pareceu se acalmar um pouco, e prosseguiu, “Convenerunt
enim vere in civitate ista adversus sanctum puerum tuum Iesum,
quem unxisti, Herodes, et Pontius Pilatus, cum gentibus, et
populis Israel, facere quae manus tua et consilium tuum
decreverunt fieri.” E puxando Pio pela manga, segredou-lhe
quase num murmúrio, “Et nunc, Domine, respice in minas eorum,
et da servis tuis cum omni fidúcia loqui verbum tuum, in eo
quod manum tuam extendas ad sanitates, et signa, et prodigia
fieri per nomen sancti filii tui Iesu.”, e piscou-lhe um olho,
 
fazendo uma careta de cumplicidade, e Pio entendeu tudo
o que se passava, e desvencilhando-se daquela situação,
deixou o velho bispo a sós com seu conciliábulo, e percorreu
de volta o caminho, não sem antes se deter por um momento
na capela, onde lhe pareceu que também o Cristo do altar,
em seu silêncio de séculos, piscava-lhe também ele um olho,
 
enquanto ainda se ouviam as palavras recitadas de Bernardo,
Vesper adest, iuvenes, consurgite: Vesper Olympo, exspectata
diu vix tandem lumina tollit... Hymen o Hymenaee, Hymen
ades o Hymenaee![6]”, e o entardecer caía melancolicamente
sobre aquela vila de homens gananciosos e desviados. (6-4-26)
 





4.    AS OBRAS... DE CARIDADE?  





Padre Pio encontrou-se com Grilo na estalagem,
e ambos trocaram as impressões do dia, fruto
de suas pesquisas, e Grilo contou-lhe que as obras
de caridade e filantropia, mencionadas nos papéis
da Câmara, simplesmente não existam, ou melhor,
 
o orfanato era uma casa em ruínas, desabitada,
nas aforas da vila, assim como o asilo de idosos
e o hospício de alienados, e finalmente, quanto
à casa de recolhimento de moças, ah, essa existia,
e tanto existia, como ainda era muito frequentada,
 
pois se tratava, simplesmente, do prostíbulo da vila,
em sobrado apartado muito bem construído, e com
instalações de dar inveja à própria estalagem, onde
estavam os dois hospedados, quase como se tivessem
sido para ali recolhidos, e Pio lhe contou de seu encontro
com o bispo, e do modo como, em sua loucura, ele
lhe falara em linguagem cifrada, deixando implícita
 
a maracutaia que envolvia quase toda a vila, do Alcaide
ao anspeçada, passando por juízes, tabeliões, soldados,
donos de minas e fazendas, e mesmo certas senhoras
que, conquanto muito respeitadas, escondiam, como se
por baixo das saias, todo um mundo de desvios, de truques,
de safadezas e vai saber quantas coisas asquerosas mais! (6-4-26)
 
 



5.    OS PODEROSOS  





E os poderosos estavam reunidos, e confabulavam
em voz baixa, como se as paredes tivessem ouvidos,
e dizia o Juiz Corregedor, “Não me agrada a presença
desse estranho, esse Padre Pio, a fuçar os livros em busca
de qualquer erro que nos possa incriminar”, e o Alcaide,
 
“Sim, entreguei-lhe as cópias das Atas, com os cálculos
exatos, tudo lançado direitinho, o orfanato, o recolhimento
das moças, o asilo e o hospício, mas me parece que ficou
pouco convencido”, e o Mestre de Campo, “Soube de fonte
certa que tentou encontrar-se com Dom Bernardo, e se
conseguiu ou não, isso é incerto”, e o Sargento Mór,
 
“De qualquer modo, encontrando-se ou não, que valia
pode ter o depoimento de um alienado?”, e assim
falavam, visivelmente preocupados, “E onde se meteu
o outro, aquele alto, que com ele aqui chegou, e ficou
na mesma estalagem hospedado?”, “Pois dizem que foi
visto perambulando nas aforas da vila, a colher ervas
e caramujos nas casas abandonadas”, “Rapaz esquisito,
 
que fala como estrangeiro, e tem o olhar atravessado”,
“Penso que é vesgo, ou retardado”, e continuavam,
“Precisamos pensar o que faremos com o Padre, pois
sinto perigo no ar, e ele já nos escapou do atentado,
quando levou uma surra de criar bicho e, mesmo com
o braço quebrado, ainda encontrou meio de chegar
à vila, com o ar mais descarado””, “Deixemos que conclua
 
seu trabalho, e então confiscaremos o relatório que prepara
para o Episcopado, tomando ciência de tudo, e depois
cuidaremos dele, de um modo que nunca mais se recupere,
e que fique para sempre inutilizado”, e concordaram todos,
e ergueram um brinde, agradecendo a Deus a boa hora
de terem todos se encontrado, com seus desígnios
de bons piratas, sempre dispostos a assaltar o erário. (7-4-26)
 
 
 



6.      CONVERSAS COM DOM BERNARDO





Entrementes, Pio voltara à casa Episcopal, e conversava
com Dom Bernardo, em sua linguagem hermética, de quem
tinha o juízo preservado em algum canto, mas com acesso
obliterado, e o bispo dizia, “Cuius est imago haec, et
superscriptio?”, e mostrava entre seus dedos um dobrão
de prata, “Dicunt ei: Caesaris. Tunc ait illis: Reddite ergo
qiae sunt Caesaris, Caesaris; et quae sun Dei, Deo[7]”,
 
e se ria, com um risinho infantil, e logo prosseguia, “Vae
autem vobis, scribae et pharisaei hypocritae, vae autem
vobis![8]”, “...et mulier defuncta est! In ressurrectione ergo
cuiús erit de Septem uxor[9]? Hahaha!...”, e começava a
chorar copiosamente, se lamentando, “Ecce tu pulchra
es, amica mea!, ecce tu pulchra es![10]”, e derramava lágrimas,
a ponto de molhar a própria camisola que vestia, e depois,
 
puxando o Padre Pio pela camisa, segredou-lhe em voz
baixa e trêmula, “Tunc congregati sunt príncipes sacerdotum
et seniores populi, in Atrium principis sacerdotum, qui
dicebatur Caiphas: et concilium fecerunt ut Iesum dolo
tenerent, et occiderente[11]”, e então, fitando diretamente
os olhos de Pio, completou, “Tristis est anima mea usque
ad mortem! Sustinete hic, et vigilate![12]”, e então, soltando
a mão que segurava Pio, voltou ao delírio costumeiro,
 
“...et deambularet in solário domus regiae; viditque
Mulierem se levantem, ex adverso super solarium suum:
erat autem mulier pulchra valde...[13]”, e atirou-se na cama,
chorando como uma criança de berço, e Pio afastou-se
e foi embora, com a sensação certa de que alguma coisa
estava sendo tramada contra ele e contra a Arquidiocese. (7-4-26)





7.      O RELATÓRIO





O relatório do Padre Pio à Arquidiocese ficou pronto,
e detalhava em páginas e mais páginas, muito bem
escritas e documentadas (inclusive com testemunhas
que Grilo “entrevistara” casualmente), os abusos
cometidos pelo bispo Dom Bernardo contra suas
jovens escravas, em especial Eyelo e Tchissola, além
dos desvios, principalmente de impostos devidos,
 
acobertados pela Igreja através das supostas instituições
mantidas por ela, sendo o dinheiro guardado e dividido
entre os poderosos da vila, visivelmente empobrecida,
enquanto uns poucos se refestelavam numa riqueza
muito mal adquirida, e Pio relatou tudo, nomes, datas,
quantias, locais, e o fez com tal riqueza de detalhes,
 
que era impossível que se duvidasse da inteireza
e correção daquilo que era contado, e assim, após
duas ou três semanas de árduo trabalho, considerou
cumprida sua tarefa, e se dispôs a deixar a vila
quanto antes, pois o ambiente por ali estava cada vez
mais carregado, e preparou-se para a viagem, mas não
sem antes entregar a Grilo uma cópia completa
do trabalho, com a recomendação de sair antes,
 
e por outros caminhos, dirigindo-se imediatamente
à Arquidiocese na Capital, para entregá-la nas mãos
das autoridades competentes, caso acontecesse
alguma coisa com Pio, ou que algo saísse errado,
e assim despediram-se com um abraço, e Grilo deixou
a estalagem ainda de madrugada, sem fazer barulho,
e tomou a toda pressa por um caminho que estudara,
com o volumoso relatório em mãos, e correndo tanto
quanto podia, como se tivesse o diabo em seu encalço. (7-4-26)
 
 



 
8.     ADEUS À VILA 





O Padre Pio dirigiu-se pela última vez à casa episcopal,
entrando pelos fundos, como fazia, e encontrou o bispo
em sua loucura habitual, a citar trechos inteiros em latim
dos Evangelhos, dos Salmos, das Profecias, num delírio
que não cessava, e com os olhos como que embriagados,
 
recitando, “Vae vobis, scribae et pharisaei hypocratae,
quia comeditis domos viduarum, orationes longas orantes!
Propter hoc amplius accipientis iudicium![14]”, e “Vae vobis,
escribae et pharisaaaaei hypocratae quia símiles estis
sepulchris dealbatis, quae a foris parente hominibus
speciosa, intus vero plena sunt ossibus mortuorum, et
omni spurcitia![15]”, e ele brandia o punho em frente à janela
 
de onde se descortinava a vila mais abaixo, “Sic et vos
a foris quidem paretis hominibus iusti: intus autem pleni
estis hypocrisi et iniquitate! Vae vobis, scribae et pharisaei
hypocratae![16]”, e ao ver Pio, correu para ele, ajoelhou-se
e disse, “Ecce dimidium bonorum meorum. Domine,
do pauperibus: et si quid aliquem defraudavi, reddo
quadruplum![17]”, e então Pio o fez levantar-se e despediu-se
dele, deixando-o a sós no seu mundo particular, mas,
 
ao sair, deparou-se com vários cabeças da vila, que
o esperavam nos fundos da casa, furiosos com a iniciativa
que tivera de procurar Dom Bernardo, e exigindo explicações
de sua conduta, ao que Pio explicou-lhes que se tratava
apenas de caridade, e que o bispo realmente estava louco,
e do que ele dizia nada se aproveitava, e que em seu
relatório havia de recomendar sua remoção, e que
enviassem novo bispo àquela Diocese, ao que os homens
 
prontamente se opuseram, alegando o grande respeito
e o amor que tinham pela eclesial figura, tentando
demovê-lo de seu propósito, enquanto Pio insistia que não
era possível manter em cargo tão importante uma pessoa
que já não dizia coisa com coisa, e cujo juízo estava,
como podia observar quem quisesse, visivelmente alterado,
 
mas os homens continuaram a perorar, e quase lhe arrancando
das mãos o relatório, acabaram por rasgar as páginas em que citava
Dom Bernardo, que caíram ao chão, misturando-se ao pó e barro,
e sendo rapidamente pisadas “involuntariamente” pelos homens,
que, imprecando contra Pio, ainda furiosos, se retiraram,
e ali ficou Pio, a catar as folhas do chão, rasgadas e enlameadas,
 
mas deu de ombros, e considerou que aquilo era já bastante
despedida, e assim correu à estalagem, para juntar seus poucos
pertences, e fazer-se ao largo, como se diz, pois antevia
problemas mais sérios, caso permanecesse na vila por mais
tempo do que a prudência mandava, e Pio tomou a estrada,
com sua matula a tiracolo, e se dispôs a vencer as distâncias
que o separavam da Capital no menor tempo possível. (7-4-26)
 


 
 
9.    A LUZ, A VIDA, A GRAÇA  





Tchissola e Eyelo conversavam na ausência
dos dois homens, num abrigo que improvisaram
à beira de um córrego, afastado da vila, onde
não havia risco de que alguém pudesse achá-las,
e Tchissola dizia, “Veja, querida amiga, que Cristo
curou o cego cuspindo no solo e misturando
sua saliva ao pó da terra[18], veja que ele entregou
a Eucaristia na forma de pão e vinho[19], veja
 
como ele utiliza as coisas criadas como veículos
do divino e do incriado, e o próprio homem
foi tirado da lama, ele não foi criado, como
o resto do universo, mas foi feito com as mãos
de Deus, com o sopro e a mente de Deus, que o fez
como quem faz uma poesia, e nele Deus colocou
suas joias, seus carismas, e por isso o homem
 
é feito de Luz e Vida, de um corpo e uma alma
viva, inseparáveis, entretecidos, uma unidade
trinitária, com a inclusão do Espírito, o coração
espiritual, destinado a brilhar na escuridão,
mas o homem tornou-se treva, incapaz de captar
ou compreender a luz, e por isso Deus envia
seus testemunhos, os testemunhos da Luz,
 
como a Samaritana[20], como João Batista,
que “veio como testemunha, para dar testemunho
da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele,
e ele não era a luz, mas apenas a testemunha da luz,
pois a luz verdadeira, aquela que ilumina todo homem,
estava chegando ao mundo[21]”, pois Deus não excluiu
o mundo, mas amou o mundo[22], pois o mundo foi feito
por Ele, mas o mundo não o reconheceu, e assim
 
a união com Deus, a aceitação dessa Luz, que
ilumina cada homem chegado a esse mundo,
é um sacramento e um mistério, e não diminui
a personalidade, nem a vontade, nem as características
físicas da pessoa que se abre para Deus, mas nega
a treva do individualismo, do egoísmo, desde que
isso seja feito com toda a liberdade, pois só então
 
a pessoa humana se completa em Graça, porque
qualquer coisa que não seja feita de forma livre
e consciente, não tem valor pessoal, ainda que
seja a mais extrema ascese e o mais duro sacrifício,
e o próprio Cristo teve que aceitar a Cruz no Getsêmani[23],
como antes sua Mãe já havia aceitado o Anjo,
que lhe anunciara em espírito a gestação do Filho. (10-4-26)
 
 




10. PASSARINHO, COMO O AMO!





Então Grilo surgiu no acampamento, dando notícias
do desenvolvimento do trabalho na vila, e da situação
do Padre Pio, que temia, justificadamente, pela vida,
e, depois de montar uma matula para viagem, com
pão seco e carne de sol, e retomou o caminho
a toda pressa, deixando Eyelo quase em transe,
de preocupação com seu Passarinho, e ela levantou-se
 
e disse, “Preciso ir em auxílio de Pio, ele é inocente
e não pode enfrentar sozinho os lobos cruéis da vila,
que irão despedaçá-lo como um cordeirinho”, mas
Tchissola ponderou que de nada adiantaria, senão
para complicar ainda mais as coisas, com a presença
da escravizada fugida, que certamente seria presa
e devolvida a Dom Bernardo que, de vingança,
sabe-se lá o que faria, e Eyelo deixou-se cair ao solo,
 
e assim esteve por vários minutos, e depois começou
a chorar, e desabafou tudo o que lhe ia no peito,
dizendo, “Passarinho, Passarinho, como o amo,
como o estimo!, mil vidas teria eu, mil por ele daria,
para voltar a ver seus olhos de menino, para tocar
suas mãos tão puras de mestiço brasileiro, para
beijar-lhe os lábios, para deitar-me com ele, para
lhe dar a minha virgindade tantas vezes perdida,
 
que nunca deixei profanar, como se soubesse, desde
que nasci, que haveria de um dia encontrá-lo, para,
somente em seus braços, ser eu a mulher e a menina
que vim ao mundo para ser, e a seu lado viver a plenitude
do amor máximo que Deus concede ao mundo, para
com ele repartir esse amor com o universo, para com ele
sermos a canção que canta as maravilhas da criação,
e um só coração, unido por um amor tão profano,
aquele tipo de amor que só é compreendido por Cristo!”. (10-4-26)
 
 

[1] Cântico dos Cânticos 1: 1-2. (“Beije-me com os beijos de sua boca! Seus amores são melhores do que o vinho, o odor de seus perfumes é suave, seu nome é como óleo escorrendo, e as donzelas se enamoram de você...”).
[2] Atos, 4: 6 (“Com que poder, ou em nome de quem, vocês fizeram isso?”).
[3] Carmina Burana, Ego Sum Abbas. (Wafna! Wafna! Que fizestes, ó sorte traiçoeira? Destruístes as alegrias de nossas vidas!”)
[4] Atos, 4: 25 (“Por que se amotinam as nações, e os povos planejam em vão?”).
[5] Atos 4: 26 (“Os reis da terra se insurgem e os príncipes conspiram unidos contra o Senhor e contra o seu Messias.”).
[6] Catulo, Triunfo de Afrodite (“Chega a noite, levantem-se jovens: agora é a Véspera do Olimpo, afinal levanta-se a luz tão esperada!”.) Obs. Hímen é o próprio Deus do casamento, ou Himeneu.
[7] Mateus 22: 20-21 (“De quem é a figura e inscrição nesta moeda?” Eles responderam: “É de César.” Então ele disse: “Pois dêem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”)
[8] Mateus 23: 13 (“Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas!”)
[9] Mateus 22: 27-28 (“E morreu também a mulher. Na ressurreição, de qual dos sete ela será mulher?”).
[10] Cântico dos Cânticos 1: 14 (“Como és bela, meu amor, como és bela!”).
[11] Mateus 26: 3-4 (“Naquela ocasião os chefes dos sacerdotes e os líderes religiosos do povo se reuniram no palácio do sumo sacerdote, cujo nome era Caifás, e juntos planejaram prender Jesus à traição e matá-lo”).
[12] Marcos 14: 34 (“Minha alma está numa tristeza de morte. Fiquem aqui e vigiem”).
[13] 2 Samuel, 11: 2 (“Davi, foi passear no terraço do palácio real. Do terraço, ele viu uma mulher tomando banho. Ela era muito bonita”).
[14] Mateus 23: 14 (“Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês exploram as viúvas, e roubam suas casas e, para disfarçar, fazem longas orações! Por isso, vocês vão receber uma condenação mais severa”).
[15] Mateus 23: 27 (“Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e podridão!”)
[16] Mateus 23: 28 (“Assim também vocês: por fora, parecem justos diante dos outros, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e injustiça”).
[17] Lucas 19: 8 (“A metade dos meus bens, Senhor, eu dou aos pobres; e, se roubei alguém, vou devolver quatro vezes mais”).
[18] João 9: 6.
[19] Lucas 22: 19-20.
[20] João 4: 39 (“Muitos samaritanos dessa cidade acreditaram em Jesus, por causa do testemunho que a mulher tinha dado”).
[21] João 1: 7-9.
[22] João 3: 16.
[23] Marcos 14: 36, Mateus 26: 39.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

1. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 1: AS SETE IRMÃS - INTRODUÇÃO

13. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 3: AO TEMPO DE TEODORA - 3.2. TEODORA, AS ALMAS E AS PESSOAS

5. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 1: O CONVENTO - 1.2. CONVERSAS - 3. NOVOS APRENDIZADOS