43. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 14: TCHISSOLA - 14.5. ENCONTROS E MUDANÇAS
ENCONTRO E MUDANÇAS
1. O ENCONTRO
Enquanto Padre Pio se recuperava, deitado
numa esteira de palha que Eyelo improvisara,
chegaram, inesperadamente duas pessoas,
que surgiram da mata vindas de algum lugar,
e que se surpreenderam com sua presença
ali, naquele fim de mundo, num atalho
pelo qual ninguém passava há tempos,
e mais ainda quando Eyelo surgiu,
como vinda
do nada já armada de um pau e pronta
a defender o homem sob seus cuidados,
mas acalmou-se ante a visão dos forasteiros,
uma jovem, negra como ela, e um homem magro
e muito, muito alto, e cujos rostos não denotavam
a menor animosidade, pelo contrário, apenas
simpatia pelo doente, e por ela, Eyelo, a jovem
imediatamente manifestou seu agrado, e lhe disse,
“De onde saíram vocês, pessoas
queridas,
quem são, o que houve com esse pobre moço,
tão combalido, vestindo essas vestes de padre?”,
e Eyelo respondeu, sem muitos detalhes “Somos
viajantes, e meu companheiro sofreu um assalto,
e feriu-se deveras, e agora trato eu dele, assim como,
fosse eu em seu lugar, teria ele me tratado”,
e perguntou, por seu lado, “E vocês, quem são?
De onde vêm? Vão para que lado?”,
e a moça
respondeu, “Chamo-me Tchissola, e esse é Grilo,
meu bem-amado, estamos vindo de longe,
e não vamos especialmente para nenhum lado,
pois nossa vida é errante, e a cada dia nos aponta
o roteiro, sem que o tenhamos pensado”, e então
disse Eyelo, “Esse moço estropiado é o Padre Pio,
que tem nome de passarinho, e eu sou Eyelo,
que tenho também um fado de
peregrino, pois
há muito não tenho lar, e minha vida é andar
sem rumo, por onde houver um caminho”, e então
falou Padre Pio, com voz fraca, “Vim da Província,
a mando da Cúria, e dirigia-me à vila das Mercês
para uma averiguação e diligências, pois chegaram
à capital notícias da demência de um Bispo,
Dom Bernardo da Madre de Deus Tinhorão,
que teria sofrido um grande choque de desgosto
em sua vida, perdendo o rastro de sua mente,
tornando-se ele mesmo estrangeiro
em meio
aos seus pensamentos, e sem condições, físicas
e espirituais de seguir no comando da Igreja
naquela freguesia”, palavras que caíram
como uma bomba diante das duas mulheres,
que se puseram a tremer, como se houvessem visto
uma assombração, alma penada, lobisomem,
boitatá, mula-sem-cabeça ou algum outro tipo
de aparição ou fantasma, e disseram, em uníssono,
“Dom Bernardo! Dom Bernardo!”, e o
Padre Pio
e Grilo voltaram-se para elas, surpreendidos
com tal reação, e uma virou-se para a outra
com espanto, dizendo, “Você o conhece? O pior,
o mais malvado homem do mundo, também
você passou por suas mãos?”, e Tchissola disse,
entre lágrimas, “Voce mea ad Dominum clamavi,
voce mea ad Dominum deprecatus
sum[1]!”,
ao que Eyelo respondeu, “Domine,
clamavi ad te,
exaudi me, intende você meae,
cum clamavero ad te[2]!”,
e as duas exclamaram quase em uníssono, “De profundis
clamavi ad te Domine, exaudi
vocem meam[3]!”,
e
atiraram-se aos braços uma da outra, numa efusão
de lágrimas e risos que deixaram perplexos os dois
homens, enquanto as mulheres gritavam, “Saepe
expuhnaverunt ne a iuventute
mea (...) supra dorsum
meum fabricaverunt aratores, longos duxerunt
sulcos suos[4]!”, e examinavam-se mutuamente
as inúmeras cicatrizes que cada
qual trazia, a ponto
de se esquecerem dos dois rapazes, expondo elas
para que a outra visse, como um arcano secreto,
as partes do corpo que normalmente ficariam cobertas,
como se nenhuma vergonha as toldasse, pela alegria
simples e rara de terem se encontrado assim irmanadas
na dor, no sofrimento e na liberdade, que agora podiam
desfrutar, enquanto novos dias se anunciavam, e uma vida
nova, pela frente, já se desenhava em seus corações e mentes. (25-3-26)
numa esteira de palha que Eyelo improvisara,
chegaram, inesperadamente duas pessoas,
que surgiram da mata vindas de algum lugar,
e que se surpreenderam com sua presença
ali, naquele fim de mundo, num atalho
pelo qual ninguém passava há tempos,
do nada já armada de um pau e pronta
a defender o homem sob seus cuidados,
mas acalmou-se ante a visão dos forasteiros,
uma jovem, negra como ela, e um homem magro
e muito, muito alto, e cujos rostos não denotavam
a menor animosidade, pelo contrário, apenas
simpatia pelo doente, e por ela, Eyelo, a jovem
imediatamente manifestou seu agrado, e lhe disse,
quem são, o que houve com esse pobre moço,
tão combalido, vestindo essas vestes de padre?”,
e Eyelo respondeu, sem muitos detalhes “Somos
viajantes, e meu companheiro sofreu um assalto,
e feriu-se deveras, e agora trato eu dele, assim como,
fosse eu em seu lugar, teria ele me tratado”,
e perguntou, por seu lado, “E vocês, quem são?
respondeu, “Chamo-me Tchissola, e esse é Grilo,
meu bem-amado, estamos vindo de longe,
e não vamos especialmente para nenhum lado,
pois nossa vida é errante, e a cada dia nos aponta
o roteiro, sem que o tenhamos pensado”, e então
disse Eyelo, “Esse moço estropiado é o Padre Pio,
que tem nome de passarinho, e eu sou Eyelo,
há muito não tenho lar, e minha vida é andar
sem rumo, por onde houver um caminho”, e então
falou Padre Pio, com voz fraca, “Vim da Província,
a mando da Cúria, e dirigia-me à vila das Mercês
para uma averiguação e diligências, pois chegaram
à capital notícias da demência de um Bispo,
Dom Bernardo da Madre de Deus Tinhorão,
que teria sofrido um grande choque de desgosto
em sua vida, perdendo o rastro de sua mente,
aos seus pensamentos, e sem condições, físicas
e espirituais de seguir no comando da Igreja
naquela freguesia”, palavras que caíram
como uma bomba diante das duas mulheres,
que se puseram a tremer, como se houvessem visto
uma assombração, alma penada, lobisomem,
boitatá, mula-sem-cabeça ou algum outro tipo
de aparição ou fantasma, e disseram, em uníssono,
e Grilo voltaram-se para elas, surpreendidos
com tal reação, e uma virou-se para a outra
com espanto, dizendo, “Você o conhece? O pior,
o mais malvado homem do mundo, também
você passou por suas mãos?”, e Tchissola disse,
entre lágrimas, “Voce mea ad Dominum clamavi,
e as duas exclamaram quase em uníssono, “De profundis
atiraram-se aos braços uma da outra, numa efusão
de lágrimas e risos que deixaram perplexos os dois
homens, enquanto as mulheres gritavam, “Saepe
meum fabricaverunt aratores, longos duxerunt
sulcos suos[4]!”, e examinavam-se mutuamente
de se esquecerem dos dois rapazes, expondo elas
para que a outra visse, como um arcano secreto,
as partes do corpo que normalmente ficariam cobertas,
como se nenhuma vergonha as toldasse, pela alegria
simples e rara de terem se encontrado assim irmanadas
na dor, no sofrimento e na liberdade, que agora podiam
desfrutar, enquanto novos dias se anunciavam, e uma vida
nova, pela frente, já se desenhava em seus corações e mentes. (25-3-26)
2. DUAS MULHERES
Tchissola e Eyelo cantavam, como se só
existissem
elas no mundo, “Magnificat anima mea Dominum,
et exsultavit spiritus meus in
Deo Salvatori meo[5]!”,
e contavam suas aventuras e desventuras na casa
paroquial, as torturas que sofreram com o terrível
Dom Bernardo, os gritos abafados, suas vozes
silenciadas, o medo permanente, os cruéis castigos,
que pareciam encher de deleite o ‘senhor bispo’,
como o chamavam elas, e Eyelo
contou o modo
como fôra raptada pelo anspeçada Tibério, que
primeiro lhe prometeu amor, para logo começar
a maltratá-la, chegando por fim a tentar vendê-la
no mercado, como uma mercadoria a peso, mas,
não possuindo a documentação, acabou preso,
enquanto ela aproveitou a ocasião para fugir, e fugida
estava e continuará sendo, pois não há lugar onde
uma escravizada possa descansar sua cabeça, e
Tchissola contou-lhe então seu
resgate por Antônia
e Eulália, sua fuga alucinada, cheia de milagres e
histórias que pareciam tiradas do nada, e por fim
seu encontro com Grilo, com quem passara a viver,
e por quem estava irremediavelmente apaixonada,
e as duas olharam para os homens que, admirados,
permaneciam imóveis nos seus lugares, e o Padre Pio
esboçou um gesto, mas calou-se, e Eyelo riu-se
e falou, “Canta, meu Passarinho, que também todos
aqui querem ouvir a tua história, querido e amado Pio!” (26-3-26)
elas no mundo, “Magnificat anima mea Dominum,
e contavam suas aventuras e desventuras na casa
paroquial, as torturas que sofreram com o terrível
Dom Bernardo, os gritos abafados, suas vozes
silenciadas, o medo permanente, os cruéis castigos,
que pareciam encher de deleite o ‘senhor bispo’,
como fôra raptada pelo anspeçada Tibério, que
primeiro lhe prometeu amor, para logo começar
a maltratá-la, chegando por fim a tentar vendê-la
no mercado, como uma mercadoria a peso, mas,
não possuindo a documentação, acabou preso,
enquanto ela aproveitou a ocasião para fugir, e fugida
estava e continuará sendo, pois não há lugar onde
uma escravizada possa descansar sua cabeça, e
e Eulália, sua fuga alucinada, cheia de milagres e
histórias que pareciam tiradas do nada, e por fim
seu encontro com Grilo, com quem passara a viver,
e por quem estava irremediavelmente apaixonada,
e as duas olharam para os homens que, admirados,
permaneciam imóveis nos seus lugares, e o Padre Pio
esboçou um gesto, mas calou-se, e Eyelo riu-se
e falou, “Canta, meu Passarinho, que também todos
aqui querem ouvir a tua história, querido e amado Pio!” (26-3-26)
3. A HISTÓRIA DE PIO
Padre Pio, o Passarinho, surpreendido pela
demanda
de Eyelo, corou, pigarreou e tentou desconversar,
mas ela insistiu irresistivelmente, e ele não teve remédio
senão começar, timidamente, fazendo rodeios, cheio
de reticências, até entrar no assunto, dizendo, “Perdoem-me
se me sinto acabrunhado, porque existem muitas coisas
que me envergonham nessa minha trajetória de vida,
a começar por ser o quinto filho –
bastardo – do senhor
Gonzaga, que veio a ser capitão-mor de Santo Antônio
da Beira Baixa, muito ao sul daqui, e minha mãe, mucama
da casa, foi logo mandada comigo para a fazenda da família
pela senhora, que desejava acima de tudo afastá-la
do marido. Mas o senhor Gonzaga, é preciso que se diga,
nutria uma sincera paixão pela mucama Afonsina, e
conservou-a, e a mim, sob seus cuidados, secretamente,
e quando tive idade enviou-me ao
Seminário, para que
me tornasse Padre, e assim tivesse um futuro que fosse
minimamente garantido, e assim fui-me ao Seminário
do Bom Jesus, onde fui colocado como o último da classe,
por ser o único que não possuía linhagem, e pardo, e assim
fui vítima de todo tipo de zombaria, de maus tratos e abusos,
chegando muitas vezes a ser forçado ao que não queria,
e então, para sobreviver naquele
exílio, passei a estudar
com mais fervor do que meus colegas, e logo destaquei-me,
o que me trouxe aliás mais dissabores no meio da turma,
enciumados que ficaram com o conhecimento e o brilho
intelectual que eles não tinham, e por isso, por qualquer
motivo, fui surrado muitas vezes, e era comum dormir
gemendo entre os lençóis e os travesseiros, e despertar
com marcas pelo corpo, que eu escondia dos professores,
por vergonha delas e para não
piorar os flagelos que
me impunham os companheiros, e assim foram anos,
até que me ordenei sacerdote, indo prestar serviços
na Cúria, pois para isso meu pai mexeu seus palitos, e ali
ganhei a confiança dos superiores, até que fui incumbido
da presente investigação, pois chegavam ali notícias
de que Dom Bernardo não estaria exercendo bem seu ofício,
e pus-me a caminho, mas tive o
azar de cair nas garras
de salteadores, que me despojaram de tudo, deixando-me
semimorto, e, de fato, eu teria morrido, não fossem
os cuidados que recebi dessa moça – e Padre Pio corou –
tão solícita, que já a uma semana trata de meus ferimentos,
me alimenta e aquece, a ponto de que agora, depois de tudo,
começo aa sentir que me voltam as forças, e creio que
em pouco tempo poderei retomar minha viagem e meu destino,
para o qual fui designado e que pretendo exercer com afinco.” (26-3-26)
de Eyelo, corou, pigarreou e tentou desconversar,
mas ela insistiu irresistivelmente, e ele não teve remédio
senão começar, timidamente, fazendo rodeios, cheio
de reticências, até entrar no assunto, dizendo, “Perdoem-me
se me sinto acabrunhado, porque existem muitas coisas
que me envergonham nessa minha trajetória de vida,
Gonzaga, que veio a ser capitão-mor de Santo Antônio
da Beira Baixa, muito ao sul daqui, e minha mãe, mucama
da casa, foi logo mandada comigo para a fazenda da família
pela senhora, que desejava acima de tudo afastá-la
do marido. Mas o senhor Gonzaga, é preciso que se diga,
nutria uma sincera paixão pela mucama Afonsina, e
conservou-a, e a mim, sob seus cuidados, secretamente,
me tornasse Padre, e assim tivesse um futuro que fosse
minimamente garantido, e assim fui-me ao Seminário
do Bom Jesus, onde fui colocado como o último da classe,
por ser o único que não possuía linhagem, e pardo, e assim
fui vítima de todo tipo de zombaria, de maus tratos e abusos,
chegando muitas vezes a ser forçado ao que não queria,
com mais fervor do que meus colegas, e logo destaquei-me,
o que me trouxe aliás mais dissabores no meio da turma,
enciumados que ficaram com o conhecimento e o brilho
intelectual que eles não tinham, e por isso, por qualquer
motivo, fui surrado muitas vezes, e era comum dormir
gemendo entre os lençóis e os travesseiros, e despertar
com marcas pelo corpo, que eu escondia dos professores,
me impunham os companheiros, e assim foram anos,
até que me ordenei sacerdote, indo prestar serviços
na Cúria, pois para isso meu pai mexeu seus palitos, e ali
ganhei a confiança dos superiores, até que fui incumbido
da presente investigação, pois chegavam ali notícias
de que Dom Bernardo não estaria exercendo bem seu ofício,
de salteadores, que me despojaram de tudo, deixando-me
semimorto, e, de fato, eu teria morrido, não fossem
os cuidados que recebi dessa moça – e Padre Pio corou –
tão solícita, que já a uma semana trata de meus ferimentos,
me alimenta e aquece, a ponto de que agora, depois de tudo,
começo aa sentir que me voltam as forças, e creio que
em pouco tempo poderei retomar minha viagem e meu destino,
para o qual fui designado e que pretendo exercer com afinco.” (26-3-26)
4. RECORDAÇÕES DA SENZALA
Tendo dito isso, Pio, o Passarinho, calou-se,
mas
Eyelo e Tchissola começaram a falar, quase a um tempo,
contando-lhe dos cometimentos bárbaros do ‘senhor bispo’,
que por pouco não lhes custaram a vida, e o espanto de Pio
parecia não ter limites, a cada detalhe sórdido que as duas
não lhe escondiam, e mostravam-lhe as cicatrizes do ferro
em brasa, seu brinquedo preferido, das chicotadas e
dos lanhos a faca, que lhes deixavam marcas na carne,
que pareciam excitar especialmente o velho clérigo,
e Eyelo contou-lhe dos bilhetes
que deixou atrás do altar
a Cristo, e de como Bernardo a possuía diante do altar
do modo mais sacrílego, o que corroborou Tchissola,
que falou como encontrou os papeizinhos e de como
escreveu também os seus, que o bispo encontrou
num acaso, decidindo-se a castigá-la de modo nunca visto,
e de como fôra resgatada por Antônia e Eulália, fugindo
pela mata, perseguidas pela milicia que, julgando-as
mortas no precipício, retornaram à vila gabando-se
do extermínio, e Tchissola contou
anda que, por meio
de Grilo, que se fez passar por estrangeiro e se informou
de todos os acontecidos, soube da loucura do bispo,
e de seus acessos, e do modo como os “homens de bem”
da vila o afastaram, como medo que, em seus delírios,
comprometesse os negócios que rendiam bom lucro
a todos, incluindo os senhores de terras e de minas,
os funcionários do governo, o próprio bispo, os padres
e – dizia-se – até o Ouvidor-Geral, os Juízes Ordinários,
os Oficiais da Câmara dos Munícipes, e até mesmo, embora
carecendo de confirmação, um ou dois coroinhas. (26-3-26)
Eyelo e Tchissola começaram a falar, quase a um tempo,
contando-lhe dos cometimentos bárbaros do ‘senhor bispo’,
que por pouco não lhes custaram a vida, e o espanto de Pio
parecia não ter limites, a cada detalhe sórdido que as duas
não lhe escondiam, e mostravam-lhe as cicatrizes do ferro
em brasa, seu brinquedo preferido, das chicotadas e
dos lanhos a faca, que lhes deixavam marcas na carne,
que pareciam excitar especialmente o velho clérigo,
a Cristo, e de como Bernardo a possuía diante do altar
do modo mais sacrílego, o que corroborou Tchissola,
que falou como encontrou os papeizinhos e de como
escreveu também os seus, que o bispo encontrou
num acaso, decidindo-se a castigá-la de modo nunca visto,
e de como fôra resgatada por Antônia e Eulália, fugindo
pela mata, perseguidas pela milicia que, julgando-as
mortas no precipício, retornaram à vila gabando-se
de Grilo, que se fez passar por estrangeiro e se informou
de todos os acontecidos, soube da loucura do bispo,
e de seus acessos, e do modo como os “homens de bem”
da vila o afastaram, como medo que, em seus delírios,
comprometesse os negócios que rendiam bom lucro
a todos, incluindo os senhores de terras e de minas,
os funcionários do governo, o próprio bispo, os padres
e – dizia-se – até o Ouvidor-Geral, os Juízes Ordinários,
os Oficiais da Câmara dos Munícipes, e até mesmo, embora
carecendo de confirmação, um ou dois coroinhas. (26-3-26)
5. A IGREJA
Então Pio balançou a cabeça, como se tudo aquilo
não fosse mais do que a confirmação do que já sabia,
e que sempre soubera, pois já havia assistido a provas
suficientes do envolvimento da Igreja com toda espécie
de vícios, sua conivência, quando não sua iniciativa,
e, na sua hesitante fé – de quem vê todo o acontecido,
impotente para se decidir se caminha, se desce
da carroça sem guia, se abandona o coro dos satisfeitos
e o concílio dos hipócritas, se arrenega a doutrina
falsificada que lhe ensinaram, se denunciava tudo
e cometia suicídio – fez um desabafo, com voz trêmula
e sangue nos olhos, um profundo desânimo e
um tom que misturava honra, temor e desafio:
A Igreja, penso, deveria apenas
mostrar o caminho
para que os fieis sigam a Cristo, como fez João,
quando apontou aos seus discípulos Jesus que passava,
dizendo-lhes, “Eis o Cordeiro de Deus[6]”, e deu
por terminada sua missão, enquanto André e João,
ouvindo-o falar, compreenderam e seguiram Jesus
(e é nesse momento que se passa do Antigo
para o Novo Testamento), e ali Jesus voltou-se,
e vendo-os que o seguiam – como
nós, quando
ouvimos o chamado de nossa própria consciência,
que nos diz, “eis o Cordeiro” – respondeu ao mudo apelo,
dizendo a nós, a quem nos falta a ousadia de interrompê-lo,
“O que procuram?”, pois é Cristo que inicia o diálogo,
pois nós sequer sabemos como dizê-lo, e no máximo
conseguimos inquiri-lo, “Onde moras, Rabi?”,
como quem diz, “Quem és tu, ó Cordeiro?”, qual é
a sua cátedra, seu ponto fixo, onde podemos
encontrar esse tal Cristo, que,
esperamos, nos seja
hospitaleiro, a nos dizer, “Vinde e vede”, e que
nos permita estar com ele, ao menos até o final
desse dia auspicioso, em qualquer lugar que ele diga,
“É aqui que fico, sede benvindos, voltem sempre,
o café está sempre servido, e temos pão de queijo”. (24-3-26)
não fosse mais do que a confirmação do que já sabia,
e que sempre soubera, pois já havia assistido a provas
suficientes do envolvimento da Igreja com toda espécie
de vícios, sua conivência, quando não sua iniciativa,
e, na sua hesitante fé – de quem vê todo o acontecido,
impotente para se decidir se caminha, se desce
da carroça sem guia, se abandona o coro dos satisfeitos
e o concílio dos hipócritas, se arrenega a doutrina
falsificada que lhe ensinaram, se denunciava tudo
e cometia suicídio – fez um desabafo, com voz trêmula
e sangue nos olhos, um profundo desânimo e
um tom que misturava honra, temor e desafio:
para que os fieis sigam a Cristo, como fez João,
quando apontou aos seus discípulos Jesus que passava,
dizendo-lhes, “Eis o Cordeiro de Deus[6]”, e deu
por terminada sua missão, enquanto André e João,
ouvindo-o falar, compreenderam e seguiram Jesus
(e é nesse momento que se passa do Antigo
para o Novo Testamento), e ali Jesus voltou-se,
ouvimos o chamado de nossa própria consciência,
que nos diz, “eis o Cordeiro” – respondeu ao mudo apelo,
dizendo a nós, a quem nos falta a ousadia de interrompê-lo,
“O que procuram?”, pois é Cristo que inicia o diálogo,
pois nós sequer sabemos como dizê-lo, e no máximo
conseguimos inquiri-lo, “Onde moras, Rabi?”,
como quem diz, “Quem és tu, ó Cordeiro?”, qual é
a sua cátedra, seu ponto fixo, onde podemos
hospitaleiro, a nos dizer, “Vinde e vede”, e que
nos permita estar com ele, ao menos até o final
desse dia auspicioso, em qualquer lugar que ele diga,
“É aqui que fico, sede benvindos, voltem sempre,
o café está sempre servido, e temos pão de queijo”. (24-3-26)
com saudade da cozinha do Seminário, para onde
ia, a cada vez que o maltratavam, e se escondia
num canto, a contemplar o Cristo disposto quase
ao teto, enegrecido de fuligem, e ali pensava
em sua mãe, mucama vinda de África, e imaginava
Cristo a descer de seu calvário, e dar-lhe a mão,
há tanto ainda a ser cantado, guarda teus gorjeios
para quando encontrares quem te ouça, porque
ouvidos todos têm, mas pouco ouvem, e sabes
que olhos têm todos e poucos veem, e te digo
ainda, muitos serão os eleitos, Passarinho, mas poucos,
muito poucos, pouquíssimos, os escolhidos[7].” (26-3-26)
6. A HISTÓRIA
“E não que eu pense que a Igreja e os Concílios
sejam coisas perfunctórias, meros penduricalhos
diante de uma fé perfeita, que seria aquela apenas
dos eleitos, como pensavam os Antinomianos,
ou, ao contrário, que à Igreja deveriam pertencer
só os perfeitos, como queriam os Donatistas,
enfim, ou que ela, a Igreja, seria
simplesmente
desnecessária, como dizia Pelágio, para quem
o pecado original não contaminou a humanidade,
sendo o homem capaz de eleger entre bem e mal
sem precisar de Deus, eu penso que, sem a Igreja
e os Padres, estaríamos lançados na mais infernal
confusão, ainda que de boa-fé, como os Euquitas,
que pretendiam que a essência
pudesse ser
conhecida pelos sentidos carnais, e que a Trindade
unir-se-ia às almas humanas, adotando formas
as mais variadas, e que o estado de perfeição
só poderia ser alcançado pela prece, e só por ela,
tornando inútil a Igreja, o Clero, os Padres e
tudo o mais que há nela, ou então os Maniqueístas,
que atribuem a paridade ao bem e
ao mal, ou pior,
como os Ofitas, que consideram a serpente
como sendo o verdadeiro herói da humanidade,
sendo Deus, em verdade, nosso inimigo, e não pára
por aí, se formos para o lado dos Adocionistas,
que dizem que Cristo nasceu humano, mas foi
adotado por Deus aquando de seu Batismo,
ou dos Arianos, que negam a
consubstancialidade
entre o Pai e o Filho, ou dos discípulos de Apolinário,
que distinguiam em Cristo um corpo e uma alma
inferiores, sendo apenas sua mente divina, ou ainda
dos Docetistas, que diziam ser a materialidade
de Cristo mera ilusão, ou dos Macedônios, que
acreditavam ser o Espírito Santo uma mera criação
do Pai e do Filho, ou dos Monofisitas, dos Monotelitas,
dos Nestorianos, dos
Patripassianos, dos Psilântropos,
ou dos Sabelianos, e isso para não mencionar
o Catarismo, o Bogomilismo, os Iconoclastas,
os Irmãos do Livre Espírito, os Henriquianos,
os Hussitas, os Taboritas, e vai saber mais quantos,
dado que a livre imaginação dos
ignorantes
não conhece limites, e as fronteiras do erro são,
acima de tudo, fluídas e pouco discerníveis, e assim
eu insisto, com todos os seus erros e desvios, a Igreja
é, na realidade, mais do que nunca necessária, e,
se me levanto contra os abusos cometidos em nome
da mais nobre doutrina, jamais pensaria em depor
sua autoridade, mas digo, com toda a sinceridade
de um coração que já não tem onde
recostar
a cabeça, digo que é nesse ponto que eu paro,
e deposito aos pés da cruz meu hábito, e, sem
abdicar um milímetro que seja da fé me ensinada,
entrego-me a essa via tresmalhada, eu a ovelha
que, estou certo, será ainda buscada por Cristo,
porque o amo por demais, e por amá-lo não posso
dividi-lo com o cortejo de
frívolos e depravados
que desfilam magníficos na companhia duvidosa
de seus pares gordos e inchados, a pregar boca afora
o que não fazem no privado, e por isso eu, Pio,
que fui e serei Padre (porque fui ordenado), deixo
a batina para quem a souber melhor do que eu usar,
e sigo o meu caminho – e que não me siga ninguém,
porque eu posso, eu devo, eu possivelmente, eu
com toda, firme e serena certeza, estou errado. (30-3-26)
sejam coisas perfunctórias, meros penduricalhos
diante de uma fé perfeita, que seria aquela apenas
dos eleitos, como pensavam os Antinomianos,
ou, ao contrário, que à Igreja deveriam pertencer
só os perfeitos, como queriam os Donatistas,
desnecessária, como dizia Pelágio, para quem
o pecado original não contaminou a humanidade,
sendo o homem capaz de eleger entre bem e mal
sem precisar de Deus, eu penso que, sem a Igreja
e os Padres, estaríamos lançados na mais infernal
confusão, ainda que de boa-fé, como os Euquitas,
conhecida pelos sentidos carnais, e que a Trindade
unir-se-ia às almas humanas, adotando formas
as mais variadas, e que o estado de perfeição
só poderia ser alcançado pela prece, e só por ela,
tornando inútil a Igreja, o Clero, os Padres e
tudo o mais que há nela, ou então os Maniqueístas,
como os Ofitas, que consideram a serpente
como sendo o verdadeiro herói da humanidade,
sendo Deus, em verdade, nosso inimigo, e não pára
por aí, se formos para o lado dos Adocionistas,
que dizem que Cristo nasceu humano, mas foi
adotado por Deus aquando de seu Batismo,
entre o Pai e o Filho, ou dos discípulos de Apolinário,
que distinguiam em Cristo um corpo e uma alma
inferiores, sendo apenas sua mente divina, ou ainda
dos Docetistas, que diziam ser a materialidade
de Cristo mera ilusão, ou dos Macedônios, que
acreditavam ser o Espírito Santo uma mera criação
do Pai e do Filho, ou dos Monofisitas, dos Monotelitas,
ou dos Sabelianos, e isso para não mencionar
o Catarismo, o Bogomilismo, os Iconoclastas,
os Irmãos do Livre Espírito, os Henriquianos,
os Hussitas, os Taboritas, e vai saber mais quantos,
não conhece limites, e as fronteiras do erro são,
acima de tudo, fluídas e pouco discerníveis, e assim
eu insisto, com todos os seus erros e desvios, a Igreja
é, na realidade, mais do que nunca necessária, e,
se me levanto contra os abusos cometidos em nome
da mais nobre doutrina, jamais pensaria em depor
sua autoridade, mas digo, com toda a sinceridade
a cabeça, digo que é nesse ponto que eu paro,
e deposito aos pés da cruz meu hábito, e, sem
abdicar um milímetro que seja da fé me ensinada,
entrego-me a essa via tresmalhada, eu a ovelha
que, estou certo, será ainda buscada por Cristo,
porque o amo por demais, e por amá-lo não posso
que desfilam magníficos na companhia duvidosa
de seus pares gordos e inchados, a pregar boca afora
o que não fazem no privado, e por isso eu, Pio,
que fui e serei Padre (porque fui ordenado), deixo
a batina para quem a souber melhor do que eu usar,
e sigo o meu caminho – e que não me siga ninguém,
porque eu posso, eu devo, eu possivelmente, eu
com toda, firme e serena certeza, estou errado. (30-3-26)
7. A VERDADEIRA FACE
E Pio prosseguiu, sempre em voz baixa,
“Jesus disse, ‘Vinde e vede[8]’ a André e João,
mas depois disse ‘Segue-me’ aos demais,
e eles disseram uns aos outros, ‘Encontramos
o Messias’, porque já o
estavam buscando,
e André, o primeiro chamado, não
guardou
para si o conhecimento, mas correu a dividi-lo
com Simão (Pedro), seu irmão, e assim, a cada
discípulo Jesus chamou de uma maneira,
porque cada um é cada um, e não existe
um modo específico e geral para
que se efetue
esse chamado, e assim, o método que a Igreja
adota para seu ensinamento e nosso aprendizado
tem algo incoerente, e que não funciona direito,
porque cada aluno do seminário recebe
o mesmo conteúdo, dado de modo indiferente,
e então acaba que são poucos os
atingidos
pela verdade contida ali, e essa própria verdade
se oculta debaixo dos véus de uma estranha
autoridade, como uma dançarina que se cobre,
não pelo pudor de sua beleza, mas para disfarçar
as rugas que denunciam sua verdadeira idade.” (27-3-26)
“Jesus disse, ‘Vinde e vede[8]’ a André e João,
mas depois disse ‘Segue-me’ aos demais,
e eles disseram uns aos outros, ‘Encontramos
para si o conhecimento, mas correu a dividi-lo
com Simão (Pedro), seu irmão, e assim, a cada
discípulo Jesus chamou de uma maneira,
porque cada um é cada um, e não existe
esse chamado, e assim, o método que a Igreja
adota para seu ensinamento e nosso aprendizado
tem algo incoerente, e que não funciona direito,
porque cada aluno do seminário recebe
o mesmo conteúdo, dado de modo indiferente,
pela verdade contida ali, e essa própria verdade
se oculta debaixo dos véus de uma estranha
autoridade, como uma dançarina que se cobre,
não pelo pudor de sua beleza, mas para disfarçar
as rugas que denunciam sua verdadeira idade.” (27-3-26)
8. SANTOS SÃO ELES
Pio pousou os olhos em Eyelo, e o rosto dela
parecia
mais iluminado do que de costume, e ele sentiu
que o irremediável abatia-se sobre seu destino,
e que para ele não haveria fugo ou escapatória
que não a de se entregar àquela paixão desmesurada,
ainda mais que as revelações dos últimos momentos
o aplastaram com sua realidade incontestável,
dando azo a tudo o que pensava, e
fazendo poeira
de seu Cristianismo já tão machucado, e tentava
ainda reagir, agarrando-se a qualquer coisa em que
houvesse um dia acreditado, mas Eyelo agigantava-se
diante dele, e ela era o sol que o aquecia, a água
que lhe devolvera a vida, e o solo fértil no qual queria,
enquanto houvesse vida nele, arar com seu arado.
E Pio culpava-se e remoía-se por
tudo e por nada,
e em meio à luta interior que travava, sangrava em lágrimas
e consolava-se pensando nas vidas dos santos homens
(teriam sido eles como ele?, ou eram de outro mundo, teriam
vindo diretamente do Reino para nos disciplinar com seu
irretorquível exemplo, suas almas de aço, forjados
na mais temível forja de todas, aquela do Juízo final),
como aqueles monges de antanho,
mergulhados
no mais inóspito deserto, entre cobras e lagartos,
a se alimentar de areia, bebendo não mais
do que a luz das estrelas, e que esqueceram
toda linguagem humana, com a exceção
da prece que ruminavam noite e dia, os olhos fitos no céu,
a esperar a chuva benfazeja de uma graça,
anos trás ano, a se transformarem
em pergaminhos vivos,
couro e ossos enrugados, e um olhar exausto,
como a dizer, "e eu, Senhor?, e eu, Santo Cristo",
e mais um dia de joelhos, nas pedras cortantes,
mais um dia, e outro e outro, a garganta seca,
comendo seus próprios piolhos, a massacrar o corpo,
(o corpo, coitado, que culpa tem
ele, senão o que
lhe foi imputado, no que pecou ele, senão o imaginário
pecado da alma cansada de se incriminar, que culpa tem
senão a de ter nascido carne, e nesse mundo de Deus,
que uma visão esquisita entregou ao diabo),
pois assim se valoriza e justifica a flagelação,
como se faz aos escravos,
desumanizando-os
para o deleite da chibata, assim o corpo, pobre
corpo, imagem desse Deus cansado de tanto ver
a sua criação despencar cada vez mais baixo, e
mais baixo, e mais baixo (pobre corpo, tão belo,
perfeito em sua pureza inocente, em sua indecência
de ser gente), que ele não compreendia o sentido,
mas – enfim, pensava - santos são
eles, não eu,
que só vivo enredado em meus próprios
pensamentos, incapaz de dar-lhes sentido,
incapaz de fazer dessa poeira da vida
meu próprio alimento, incapaz de dormir
na imundície do chão e despertar limpo
de coração e alma, incapaz de entender
o que não tenho olhos pra ver, nem
ouvidos
que ouçam o chamado, em um coração
aceso, que me conduza para além
desse mísero alqueire que tenho cultivado.
E Eyelo olhava para ele, e vendo a
expressão
daqueles olhos, e o ritmo do peito que arfava,
o Passarinho teve a certeza de que para ela
cantaria a vida inteira, e que para isso teria ele
toda a sua própria vida se preparado. (24-3-26)
mais iluminado do que de costume, e ele sentiu
que o irremediável abatia-se sobre seu destino,
e que para ele não haveria fugo ou escapatória
que não a de se entregar àquela paixão desmesurada,
ainda mais que as revelações dos últimos momentos
o aplastaram com sua realidade incontestável,
de seu Cristianismo já tão machucado, e tentava
ainda reagir, agarrando-se a qualquer coisa em que
houvesse um dia acreditado, mas Eyelo agigantava-se
diante dele, e ela era o sol que o aquecia, a água
que lhe devolvera a vida, e o solo fértil no qual queria,
enquanto houvesse vida nele, arar com seu arado.
e em meio à luta interior que travava, sangrava em lágrimas
e consolava-se pensando nas vidas dos santos homens
(teriam sido eles como ele?, ou eram de outro mundo, teriam
vindo diretamente do Reino para nos disciplinar com seu
irretorquível exemplo, suas almas de aço, forjados
na mais temível forja de todas, aquela do Juízo final),
no mais inóspito deserto, entre cobras e lagartos,
a se alimentar de areia, bebendo não mais
do que a luz das estrelas, e que esqueceram
toda linguagem humana, com a exceção
da prece que ruminavam noite e dia, os olhos fitos no céu,
a esperar a chuva benfazeja de uma graça,
couro e ossos enrugados, e um olhar exausto,
como a dizer, "e eu, Senhor?, e eu, Santo Cristo",
e mais um dia de joelhos, nas pedras cortantes,
mais um dia, e outro e outro, a garganta seca,
comendo seus próprios piolhos, a massacrar o corpo,
lhe foi imputado, no que pecou ele, senão o imaginário
pecado da alma cansada de se incriminar, que culpa tem
senão a de ter nascido carne, e nesse mundo de Deus,
que uma visão esquisita entregou ao diabo),
pois assim se valoriza e justifica a flagelação,
para o deleite da chibata, assim o corpo, pobre
corpo, imagem desse Deus cansado de tanto ver
a sua criação despencar cada vez mais baixo, e
mais baixo, e mais baixo (pobre corpo, tão belo,
perfeito em sua pureza inocente, em sua indecência
de ser gente), que ele não compreendia o sentido,
que só vivo enredado em meus próprios
pensamentos, incapaz de dar-lhes sentido,
incapaz de fazer dessa poeira da vida
meu próprio alimento, incapaz de dormir
na imundície do chão e despertar limpo
de coração e alma, incapaz de entender
que ouçam o chamado, em um coração
aceso, que me conduza para além
desse mísero alqueire que tenho cultivado.
daqueles olhos, e o ritmo do peito que arfava,
o Passarinho teve a certeza de que para ela
cantaria a vida inteira, e que para isso teria ele
toda a sua própria vida se preparado. (24-3-26)
9. O MAIOR MISTÉRIO
“De todos os mistérios do Novo Testamento”,
Padre Pio falava consigo mesmo ao degredado Grilo,
“eu diria, de todos os milagres de toda a Escritura,
nenhum é tão grande quanto tu, ó Virgem Maria,
e não por seres virgem, nem pelo teu virginal parto
envolto em brumas impenetráveis e luz radiosa[9],
nem porque deste à luz o Salvador
do mundo,
mas por teu silêncio de pouquíssimas palavras,
por teres mudado o destino da raça humana
apenas dizendo, ‘Eis aqui a serva do Senhor[10]’,
selando a resposta de cada cristão ao chamado,
tu, envolta no vórtice inconcebível
de um mandato
divino, que não tremeste diante do imenso fado
que te esperava, tu, cuja ausente presença
perpassa todo o Evangelho, que estivestes
em toda parte, sem nem mesmo saíres de casa,
tu que te apresentaste aos pés da
cruz,
que não temeste a soldadesca, que por teu filho
guardastes todas as coisas em teu coração, tu
que fostes preparada e ainda assim tiveste
o privilégio de dizeres ‘não’, quando às cegas
aceitastes as palavras do anjo, tu, Maria,
que te entregaste àquilo de que
nada sabias,
enquanto bordavas a púrpura e o escarlate
do véu do templo e que deixaste a ânfora de água
aos pés da fonte[11], recolhendo-te à tua casa,
a esperar pelo milagre que viria, tu Maria, só tu
és maior do que os santos, os
profetas e os patriarcas,
por teres atravessado calada os séculos que viriam
e, por calada concederes tua própria carne às almas
renovadas pela paixão e a promessa do teu Filho.” (28-3-26)
Padre Pio falava consigo mesmo ao degredado Grilo,
“eu diria, de todos os milagres de toda a Escritura,
nenhum é tão grande quanto tu, ó Virgem Maria,
e não por seres virgem, nem pelo teu virginal parto
envolto em brumas impenetráveis e luz radiosa[9],
mas por teu silêncio de pouquíssimas palavras,
por teres mudado o destino da raça humana
apenas dizendo, ‘Eis aqui a serva do Senhor[10]’,
selando a resposta de cada cristão ao chamado,
divino, que não tremeste diante do imenso fado
que te esperava, tu, cuja ausente presença
perpassa todo o Evangelho, que estivestes
em toda parte, sem nem mesmo saíres de casa,
que não temeste a soldadesca, que por teu filho
guardastes todas as coisas em teu coração, tu
que fostes preparada e ainda assim tiveste
o privilégio de dizeres ‘não’, quando às cegas
aceitastes as palavras do anjo, tu, Maria,
enquanto bordavas a púrpura e o escarlate
do véu do templo e que deixaste a ânfora de água
aos pés da fonte[11], recolhendo-te à tua casa,
a esperar pelo milagre que viria, tu Maria, só tu
por teres atravessado calada os séculos que viriam
e, por calada concederes tua própria carne às almas
renovadas pela paixão e a promessa do teu Filho.” (28-3-26)
10. QUEM ESTÁ PREPARADO?
“Mas
eu pergunto, quem está preparado
para se unir a Deus?, quem se acha em condições
e capacitado para dissolver-se no Absoluto, seja
ele um nada, seja tudo, quem pode dizer, em sã
e límpida consciência, que tem a ciência precisa
da liberdade plena, de despojar-se dessa carcaça
viva, e entregar-se à morte e à não-vida, pelo menos
a não-vida desse mundo, o único que conhecemos,
e por onde caminhou Jesus, o
Deus-homem
que veio para nos trazer alento, por que aqui?,
por que tem que ser aqui, onde estamos atados
a essa carne rebelde e quente, a essa mente
irrequieta e transtornada, a essas ideias loucas
que nos traspassam o ser noite e dia, por que,
em me pergunto, que sentido tem
abandonarmos
tudo o que sabemos, tornando inútil a criação toda,
como se seu propósito positivo seja o ser negada,
como se a maravilha de Deus só existisse para ser
abandonada, desprezada em troca de algum tipo
de vazio azul-metálico, de prateado branco, onde
anjos disputam a primazia com suas asas, frios
e congelados pela ausência neles de qualquer
eros, qualquer volúpia, qualquer sombra de pecado,
que a nós cabe, para que nos
libertemos de nós
mesmos, mas sem negar quem somos, porque outra
coisa não possuímos, e seria inconsequente a via
se tivéssemos que abandonar as chinelas que nos
trouxeram até aqui, a nós dadas pelo próprio Deus,
com a promessa de as multiplicarmos ao longo
dessa estrada, atando e desatando-lhes as correias
conforme as oportunidades, essas chinelas toscas
que amortecem os pedregulhos da
estrada, por causa
de nossa fraqueza – que Deus conhece – de que ele
nos concede, em sua misericórdia, para que
as entreguemos ao final da caminhada, dizendo
‘aqui estão, Senhor, troquei as fivelas, refiz a sola,
engraxei-as e estão agora melhor do que aquelas’,
e Deus nos dirá, ‘muito bem, meu
filho, fruíste
de meus carismas, fizestes a minha alegria, me destes
o dom de tuas lágrimas, de tua felicidade, por teres
vivido por inteiro aquela realidade que te entreguei,
para que nela reinasses, para que fosses mensageiro
de meu Amor, do prazer que senti a cada vez que tu,
filho meu e agora herdeiro, olhaste para o céu,
dizendo ‘obrigado, Senhor, por me
teres feito gente,
aqui estou em tua festa, aqui te trago meus presentes,
que são minha vida, meus pecados e arrependimentos,
aqui estão as horas felizes, as angústias, as dores,
as alegrias, e tudo o mais que a Ti pertence’’, e ele
me dará sua mão, e me conduzirá por campinas,
vales, colinas e prados que, nem de perto, nem de longe,
é capaz de imaginar ou conceber minha mente. (29-3-26)
para se unir a Deus?, quem se acha em condições
e capacitado para dissolver-se no Absoluto, seja
ele um nada, seja tudo, quem pode dizer, em sã
e límpida consciência, que tem a ciência precisa
da liberdade plena, de despojar-se dessa carcaça
viva, e entregar-se à morte e à não-vida, pelo menos
a não-vida desse mundo, o único que conhecemos,
que veio para nos trazer alento, por que aqui?,
por que tem que ser aqui, onde estamos atados
a essa carne rebelde e quente, a essa mente
irrequieta e transtornada, a essas ideias loucas
que nos traspassam o ser noite e dia, por que,
tudo o que sabemos, tornando inútil a criação toda,
como se seu propósito positivo seja o ser negada,
como se a maravilha de Deus só existisse para ser
abandonada, desprezada em troca de algum tipo
de vazio azul-metálico, de prateado branco, onde
anjos disputam a primazia com suas asas, frios
e congelados pela ausência neles de qualquer
eros, qualquer volúpia, qualquer sombra de pecado,
mesmos, mas sem negar quem somos, porque outra
coisa não possuímos, e seria inconsequente a via
se tivéssemos que abandonar as chinelas que nos
trouxeram até aqui, a nós dadas pelo próprio Deus,
com a promessa de as multiplicarmos ao longo
dessa estrada, atando e desatando-lhes as correias
conforme as oportunidades, essas chinelas toscas
de nossa fraqueza – que Deus conhece – de que ele
nos concede, em sua misericórdia, para que
as entreguemos ao final da caminhada, dizendo
‘aqui estão, Senhor, troquei as fivelas, refiz a sola,
engraxei-as e estão agora melhor do que aquelas’,
de meus carismas, fizestes a minha alegria, me destes
o dom de tuas lágrimas, de tua felicidade, por teres
vivido por inteiro aquela realidade que te entreguei,
para que nela reinasses, para que fosses mensageiro
de meu Amor, do prazer que senti a cada vez que tu,
filho meu e agora herdeiro, olhaste para o céu,
aqui estou em tua festa, aqui te trago meus presentes,
que são minha vida, meus pecados e arrependimentos,
aqui estão as horas felizes, as angústias, as dores,
as alegrias, e tudo o mais que a Ti pertence’’, e ele
me dará sua mão, e me conduzirá por campinas,
vales, colinas e prados que, nem de perto, nem de longe,
é capaz de imaginar ou conceber minha mente. (29-3-26)
11. A COMPREENSÃO DE DEUS
“E
quem diz possuir a compreensão de Deus,
comete, não uma heresia, mas uma estupidez,
não uma blasfêmia, mas uma mera idiotice,
e nem mesmo um erro, mas um simples desatino,
pois Deus não pode ser compreendido
por essa mente, com a qual ocultamos
o Espírito, vendando os olhos do coração,
Deus não pode ser entendido senão no mergulho
no mais profundo, escuro e
impenetrável abismo
de nossa própria incompreensão, e é assim,
na estrada dessa forma cega de consciência,
na fé de que algo há, que não sabemos,
que Deus se mostra, não como ele
é,
mas da única forma como o concebemos,
pois ele é mais do que tudo e menos do que nada,
ele é o imenso e o minúsculo, e está totalmente
fora do espaço e infinitamente além do tempo.” (29-3-26)
comete, não uma heresia, mas uma estupidez,
não uma blasfêmia, mas uma mera idiotice,
e nem mesmo um erro, mas um simples desatino,
por essa mente, com a qual ocultamos
o Espírito, vendando os olhos do coração,
Deus não pode ser entendido senão no mergulho
de nossa própria incompreensão, e é assim,
na estrada dessa forma cega de consciência,
na fé de que algo há, que não sabemos,
mas da única forma como o concebemos,
pois ele é mais do que tudo e menos do que nada,
ele é o imenso e o minúsculo, e está totalmente
fora do espaço e infinitamente além do tempo.” (29-3-26)
12. A CURA
“Mas
a Igreja perdeu o dom da cura, sua compreensão
da alma humana, e se perdeu em discussões inúteis,
onde a vaidade encontrou a morada perfeita
manobrando o erro imperceptível aos olhos distraídos,
estendendo suas fronteiras líquidas até o incompreensível,
fornecendo o remédio doce em palavras e discursos,
como se o debate substituísse a realidade,
como se fosse possível curar-se apenas lendo a bula.
E assim os fiéis se perdem em
palavras, e falam
do caminho, pensando estar no Caminho, mas não,
ainda que estejam convencidos do que dizem, falar
não é viver, cheirar não é comer, olhar não é conhecer,
e a coisa mais fácil do mundo é mentir e se enganar,
jurando falar a verdade, e é até possível se juntarmos
as palavras elas fazem sentido, mas – vêm elas
do coração ou apenas os lábios as pronunciam?
Porque as religiões parecem fazer
a abstração do mundo real,
elas se referem a uma idealização da realidade,
fazendo também uma redução da alma humana
a uma ausência de contradições, de processos,
pois enquanto os lábios oram as unhas ainda crescem
as vestes se desgastam, os cabelos se embaraçam,
e vemos então a imagem dos santos
cobertos de pó, excluídos do mundo,
vivendo num mundo inexistente para nós,
onde as únicas realidades que lhes
tocam
são o mais puro nada, o coisa-alguma
que possa ser encontrada aqui,
e nos perguntamos, como pode?, quem são eles,
já não humanos, nem anjos, mas Santos, separados
das coisas mundanas, que estão coladas em nós como carrapatos
estranhos, hirsutos como lobisomens, de olhos fundos
e não poucas vezes esgazeados, que Deus é esse
que eles veem - se é que veem -
esse Deus
que recusa a criação que ele próprio fez,
que alça aos céus uns poucos que tiveram
a paciência de se desmontarem, até não restar mais
do que barba e ossos, e uma catilinária contra si mesmos,
a incriminar-se por tudo, por terem até nascido,
por terem conosco, nós pobres diabos vendidos ao mundo,
o mínimo parentesco, de que se envergonham
e que nos fazem envergonharmo-nos,
sem que tenhamos
o que pôr no lugar, sem que saibamos o truque infalível
de nos abandonarmos, tomarmos nossa cruz e segui-Lo,
a ele, Cristo, esse arcano indecifrável que nos é brandido
como uma bandeira e uma espada contra o mundanismo,
esse mesmo mundanismo que nos sustenta e corrói,
e assim vivemos, mirando a cruz impossível da salvação
e condenados ao mármore gelado do
Sheol, para o desespero
eterno de nossa vida efêmera, para que não desfrutemos
do menor momento de alívio, de um amor retribuído,
da doce fruta comida, de um olhar, uma canção,
um toque de mãos que se entrelaçam, ó Deus!, por que
nos fizeste assim tão fracos, tão ansiosos de Ti,
e ao mesmo tempo tão necessitados, mendigando
um olhar Teu, a qualquer momento menos pensado,
que nos abriria as portas da
compreensão de que,
sim, de que aqui mesmo é o Paraíso, e que andamos
nus ao seu crepúsculo, contemplando os raios
multicoloridos que Tu mesmo criastes, ó Deus,
para nos embevecermos com a beleza da poesia
com que pavimentaste o caminho que a Ti nos leva,
a nós, os ingratos, a quem só falta reconhecermos
que és Tu, sempre Tu, que estás presentes no perfume
que deixastes para nós no mundo, como teu rastro.” (4-4-26)
da alma humana, e se perdeu em discussões inúteis,
onde a vaidade encontrou a morada perfeita
manobrando o erro imperceptível aos olhos distraídos,
estendendo suas fronteiras líquidas até o incompreensível,
fornecendo o remédio doce em palavras e discursos,
como se o debate substituísse a realidade,
como se fosse possível curar-se apenas lendo a bula.
do caminho, pensando estar no Caminho, mas não,
ainda que estejam convencidos do que dizem, falar
não é viver, cheirar não é comer, olhar não é conhecer,
e a coisa mais fácil do mundo é mentir e se enganar,
jurando falar a verdade, e é até possível se juntarmos
as palavras elas fazem sentido, mas – vêm elas
do coração ou apenas os lábios as pronunciam?
elas se referem a uma idealização da realidade,
fazendo também uma redução da alma humana
a uma ausência de contradições, de processos,
pois enquanto os lábios oram as unhas ainda crescem
as vestes se desgastam, os cabelos se embaraçam,
e vemos então a imagem dos santos
cobertos de pó, excluídos do mundo,
vivendo num mundo inexistente para nós,
são o mais puro nada, o coisa-alguma
que possa ser encontrada aqui,
e nos perguntamos, como pode?, quem são eles,
já não humanos, nem anjos, mas Santos, separados
das coisas mundanas, que estão coladas em nós como carrapatos
estranhos, hirsutos como lobisomens, de olhos fundos
e não poucas vezes esgazeados, que Deus é esse
que recusa a criação que ele próprio fez,
que alça aos céus uns poucos que tiveram
a paciência de se desmontarem, até não restar mais
do que barba e ossos, e uma catilinária contra si mesmos,
a incriminar-se por tudo, por terem até nascido,
por terem conosco, nós pobres diabos vendidos ao mundo,
o mínimo parentesco, de que se envergonham
o que pôr no lugar, sem que saibamos o truque infalível
de nos abandonarmos, tomarmos nossa cruz e segui-Lo,
a ele, Cristo, esse arcano indecifrável que nos é brandido
como uma bandeira e uma espada contra o mundanismo,
esse mesmo mundanismo que nos sustenta e corrói,
e assim vivemos, mirando a cruz impossível da salvação
eterno de nossa vida efêmera, para que não desfrutemos
do menor momento de alívio, de um amor retribuído,
da doce fruta comida, de um olhar, uma canção,
um toque de mãos que se entrelaçam, ó Deus!, por que
nos fizeste assim tão fracos, tão ansiosos de Ti,
e ao mesmo tempo tão necessitados, mendigando
um olhar Teu, a qualquer momento menos pensado,
sim, de que aqui mesmo é o Paraíso, e que andamos
nus ao seu crepúsculo, contemplando os raios
multicoloridos que Tu mesmo criastes, ó Deus,
para nos embevecermos com a beleza da poesia
com que pavimentaste o caminho que a Ti nos leva,
a nós, os ingratos, a quem só falta reconhecermos
que és Tu, sempre Tu, que estás presentes no perfume
que deixastes para nós no mundo, como teu rastro.” (4-4-26)
[1] “Minha
voz lança um grande brado ao Senhor, em alta voz imploro ao Senhor”, Salmo 141.
[2]
“Senhor, a Ti clamo, vem logo em meu socorro; escuta a minha voz quando Te
invoco”, Salmo 140.
[3] “Das
profundezas clamo a ti, Senhor, ouve a minha voz”, Salmo 129.
[4]
“Ah, como me perseguiram desde a minha juventude (...) lavraram sobre o meu
dorso os lavradores, nele abriram longos sulcos”, Salmo 128.
[5]
“A minha alma engrandece o Senhor, e meu Espírito exulta em Deus meu salvador”
(Lucas 1: 46-47)
[6]
João 1: 36-39.
[7]
Mateus 22: 14.
[8]
João: 39 ss.
[9]
Protoevangelho de Tiago, XIX: 2.
[10]
Lucas 1: 38.
[11] Protoevangelho
de Tiago, X:2 – XI: 1.
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