42. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 14: TCHISSOLA - 14.4. EYELO
EYELO
1. QUANDO O PADRE PIO ABRIU OS OLHOS
Padre Pio abriu lentamente os olhos, muito devagar,
sentindo a vista embaçada e a cabeça latejante,
e dores por todo o corpo, e aos poucos começou
a recobrar a consciência, e viu diante de si, contra o sol,
um vulto, como que de anjo ou algo parecido,
muito próximo do seu rosto, e firmando a visão
entendeu que se tratava de uma face de mulher,
de uma mulher negra com grandes olhos brilhantes,
um rosto como tão belo nunca havia visto antes,
e então novamente perdeu a consciência, mergulhando
nas imagens confusas de um assalto, de homens
que o agarraram exigindo moedas de ouro e prata,
que ele nunca teve, e que reviraram todas as suas coisas
e, não achando nada, moeram-no de pancadas,
dadas com gosto e arte e gargalhadas, e deixando-o
mais morto do que vivo à beira da estrada, enquanto
levavam-lhe o burro, a carroça e qualquer outra coisa
que tivessem encontrado, não lhes importando
o pouco valor da carga roubada, e ali ficou Padre Pio
inerte, sem conseguir esboçar um gesto até abrir
os olhos, naquele momento, e se deparar com o anjo
que o mirava, na figura de jovem mulher negra que,
entre compadecida e curiosa, trouxe-lhe um pano
molhado, passando-o em sua testa, limpando o sangue,
a poeira, a saliva que lhe escorrera da boca seca,
e a seguir lhe apresentou uma cabaça com água
para que bebesse, e Pio tentou erguer a mão e o braço,
mas se deu conta de que este estava quebrado, e o anjo
falou-lhe ao ouvido, “não se mexa, fique quieto, não
piore as coisas, eu estou aqui ao seu lado”. (20-3-26)
sentindo a vista embaçada e a cabeça latejante,
e dores por todo o corpo, e aos poucos começou
a recobrar a consciência, e viu diante de si, contra o sol,
um vulto, como que de anjo ou algo parecido,
muito próximo do seu rosto, e firmando a visão
entendeu que se tratava de uma face de mulher,
um rosto como tão belo nunca havia visto antes,
e então novamente perdeu a consciência, mergulhando
nas imagens confusas de um assalto, de homens
que o agarraram exigindo moedas de ouro e prata,
que ele nunca teve, e que reviraram todas as suas coisas
e, não achando nada, moeram-no de pancadas,
dadas com gosto e arte e gargalhadas, e deixando-o
levavam-lhe o burro, a carroça e qualquer outra coisa
que tivessem encontrado, não lhes importando
o pouco valor da carga roubada, e ali ficou Padre Pio
inerte, sem conseguir esboçar um gesto até abrir
os olhos, naquele momento, e se deparar com o anjo
que o mirava, na figura de jovem mulher negra que,
entre compadecida e curiosa, trouxe-lhe um pano
molhado, passando-o em sua testa, limpando o sangue,
e a seguir lhe apresentou uma cabaça com água
para que bebesse, e Pio tentou erguer a mão e o braço,
mas se deu conta de que este estava quebrado, e o anjo
falou-lhe ao ouvido, “não se mexa, fique quieto, não
piore as coisas, eu estou aqui ao seu lado”. (20-3-26)
2. A SULAMITA
Anos de Seminário em Lisboa, os melhores professores,
noites adentro queimando as pestanas à luz de velas
até decorar por inteiro volumes e mais volumes, pesados,
densos, parecendo feitos de pedra de granito, os grandes
Doutores da Igreja a acachapá-lo com sua sabedoria
imensa, e questões de fé, irrespondíveis, e os dogmas,
e Números, e o estranhíssimo Cântico dos Cânticos
(quantas madrugadas insones nos braços imateriais
daquela que disse, “eu sou a muralha, e meus seios
e Betsabé, meu Deus, Betsabé que se banhava, ai!,
por cuja causa pereceu seu marido Urias à traição,
e Isaías e todos os Profetas, e depois Mateus, Marcos,
Lucas, João e ainda Paulo, Pedro, Tiago, Judas, e por fim
incompreensível, e depois ainda Agostinho, Bento,
e Tomás de Aquino com toda sua filosofia teológica,
e São Boaventura, e sei-lá mais quem, e missas, jejuns,
vigílias, sermões, ladainhas, jaculatórias, salmodias,
confissões e eucaristias, os joelhos esfolados do chão
a promessa de castidade, pobreza, santidade, os olhos
sempre voltados para o chão ou para o céu, para o chão
ou para o céu, e então, de repente, como um raio que vem
esses lábios, a mão suave que me toca a face, a voz doce
que sussurra, “não se mexa, está quebrado”, o sol que cega,
onde estou?, quem sou eu?, para onde vou agora?, quero
saber seu nome, subitamente, o tempo parou nessa estrada,
que me toque ela outra vez com suas mãos de fada,
e que me olhe com seus olhos de feitiço, e que eu
me entregue aos seus cuidados, e que desperte, meu Deus,
que eu desperte de algum modo, pois sinto-me desfalecer
ainda e outra vez, atirado aos rochedos dessa costa
como o navio em que atravessei o oceano, naufragado. (20-3-26)
3. NÃO REPARE SE SOU NEGRA
Padre Pio despertou mais uma vez de seu delírio
e observou que ao seu lado, um pouco afastada
estava ainda a jovem que vira em sonhos, ocupada
em buscar gravetos para preparar um fogo, e ferver
panos e trapos tirados de suas próprias roupas
para pensar suas feridas, que eram tantas, e ela
fazia tudo com grande esmero e habilidade,
como se estivesse acostumada a esse tipo de serviço,
e Pio ficou a olhá-la de longe, já mais consciente
sobre quem era e aonde estava, e viu que a moça,
muito nova, era de fato a coisa mais bela
que ele jamais imaginara existir, e que sua Betsabé
tão sonhada não lhe chegava aos pés, assim como
era mais negra e mais formosa do que as tendas
de Cedar e os pavilhões de Salma[2], e Pio sentiu
desejos de fazer para ela pingentes de ouro
cravejados de prata, fosse ela açucena entre espinhos,
e ele falou então, em alta voz, “Pomba minha,
que se aninha nos vãos do rochedo, na fenda
dos barrancos... Deixe-me ver a sua face, deixe-me
ouvir a sua voz, pois a sua face é tão formosa
deixe-me ouvir a sua voz, pois a sua face é tão formosa
e tão doce a sua voz!”, e viu que a moça se assustou,
e voltando-se para ele, reprimiu-lhe o arroubo,
dizendo, “O que você olha na Sulamita, enquanto
ela baila entre dois coros?”, e Pio surpreendeu-se
de que a negra menina soubesse o mesmo poema
que ele lhe declamava, mas ela riu-se, e continuou
a preparar a tala para envolver-lhe o braço em pedaços,
e aproximou-se dele, e com um estirão que o fez
gritar de dor, recolocou os ossos no lugar, e fixou
com um pedaço de madeira enrolado nos panos
embebidos em infusões de ervas estranhas,
e se afastou novamente, e então perguntou-lhe
o nome, e ele disse “Pio”, e ela riu-se outra vez,
dizendo “Isso é o que fazem os passarinhos!”,
e então falou, com aquela voz que ele já não mais
esqueceria, “Meu nome é Eyelo”, e recitou outra vez,
“Ah! Se você fosse meu irmão, amamentado
aos seios de minha mãe! Encontrando você lá fora,
eu o beijaria, sem ninguém me desprezar, e
o levaria e introduziria na casa de minha mãe,
e você me iniciaria, e eu lhe daria a beber vinho
perfumado e licor de minhas romãzeiras[3]”, e então
ela riu mais alto, e disse, “Mas meu nome é Eyelo,
não repare se sou negra... Mas não foi o sol
que me queimou[4]! Hahaha! Vim de mais longe
do que você pensa, passei por coisas que você
não sabe, e há muito tempo não sei aonde vou.” (20-3-26)
e observou que ao seu lado, um pouco afastada
estava ainda a jovem que vira em sonhos, ocupada
em buscar gravetos para preparar um fogo, e ferver
panos e trapos tirados de suas próprias roupas
para pensar suas feridas, que eram tantas, e ela
fazia tudo com grande esmero e habilidade,
como se estivesse acostumada a esse tipo de serviço,
sobre quem era e aonde estava, e viu que a moça,
muito nova, era de fato a coisa mais bela
que ele jamais imaginara existir, e que sua Betsabé
tão sonhada não lhe chegava aos pés, assim como
era mais negra e mais formosa do que as tendas
de Cedar e os pavilhões de Salma[2], e Pio sentiu
desejos de fazer para ela pingentes de ouro
cravejados de prata, fosse ela açucena entre espinhos,
dos barrancos... Deixe-me ver a sua face, deixe-me
ouvir a sua voz, pois a sua face é tão formosa
deixe-me ouvir a sua voz, pois a sua face é tão formosa
e tão doce a sua voz!”, e viu que a moça se assustou,
e voltando-se para ele, reprimiu-lhe o arroubo,
dizendo, “O que você olha na Sulamita, enquanto
que ele lhe declamava, mas ela riu-se, e continuou
a preparar a tala para envolver-lhe o braço em pedaços,
e aproximou-se dele, e com um estirão que o fez
gritar de dor, recolocou os ossos no lugar, e fixou
com um pedaço de madeira enrolado nos panos
embebidos em infusões de ervas estranhas,
o nome, e ele disse “Pio”, e ela riu-se outra vez,
dizendo “Isso é o que fazem os passarinhos!”,
e então falou, com aquela voz que ele já não mais
esqueceria, “Meu nome é Eyelo”, e recitou outra vez,
“Ah! Se você fosse meu irmão, amamentado
eu o beijaria, sem ninguém me desprezar, e
o levaria e introduziria na casa de minha mãe,
e você me iniciaria, e eu lhe daria a beber vinho
perfumado e licor de minhas romãzeiras[3]”, e então
ela riu mais alto, e disse, “Mas meu nome é Eyelo,
não repare se sou negra... Mas não foi o sol
que me queimou[4]! Hahaha! Vim de mais longe
do que você pensa, passei por coisas que você
não sabe, e há muito tempo não sei aonde vou.” (20-3-26)
4. OS CONSPIRADORES
Na vila, os homens estavam reunidos na casa
do Corregedor, em grande alvoroço, para discutir
graves questões que diziam respeito a tudo e todos,
e, estando todos presentes, o Alcaide tomou a palavra,
pedindo a quem soubesse notícias do enviado da Cúria,
que viria averiguar a situação de Dom Bernardo,
pois os fatos ocorridos recentemente já tinham ecoado longe,
e a suposta loucura do bispo preocupava as autoridades
para além dos estreitos limites dos interesses dos munícipes,
o Mestre de Campo respondeu em voz soturna e baixa,
sendo o assunto reservado e privativo daquela mesa,
“Tenho averiguado de boa fonte que o dito emissário
sofreu um acidente de percurso, ao longo de sua viagem,
já bem próximo dessa vila, ao que parece, tendo ele
se desviado da boa estrada para uma trilha qualquer,
pois foram encontradas algures, sem ele, suas bagagens,
além de uma carroça com seu burro, e cartas administrativas
que deveriam com urgência ser entregues aos aqui presentes,
acerca de nosso querido Dom Bernardo, acometido,
como os senhores aqui sabem, de febres e delírios,
desde que lhe fugira a negra Joaninha, raptada
por indivíduos desconhecidos, que foram mortos
pela milícia que os perseguiu, enfim caiu doente
Dom Bernardo, pelo choque que sua boa alma sentira,
embora o cuidemos com todo o esmero, e com tudo
o que está ao nosso possível alcance para curá-lo”,
e o Tesoureiro acrescentou, “Pois, como sabeis, embora
a conduta pessoal de nosso querido Dom Bernardo,
sem que eu queira de modo algum censurá-lo,
não fosse exemplar, pela fraqueza de sua carne
quando se tratava das escravas que mantinha,
dos impostos aqui pagos era notória, e sempre pudemos
contar com ele nos acertos de contas, encarregando-se
o bom bispo de guardar bem guardado o dinheiro,
aos cuidados de sua eclesiástica legislatura, até
que se dissipassem quaisquer dúvidas que os senhores
administradores da Coroa pudessem manifestar,
em suas frequentes visitas”, e o Procurador falou,
o amado Bernardo, a quem temos mantido ocupado
com suas traduções do latim, para que passe tranquilo
seu tempo de resguardo, até que decidamos como fazer
para substituí-lo no cargo por alguém de nossa escolha
e mais estrita confiança, para que, algo mudando,
tudo continue como está”, e o Sargento-Mor,
não há o que temer, pois as novas que nos deram
as milícias dão conta de que, se não morreu no ‘acidente’,
pouco faltou para se despedir desse mundo, inda mais
em lugar tão ermo posto, onde, de modo algum
conseguiria qualquer auxílio ou socorro”, e então
de sua própria lavra, e serviram-se todos, entre sorrisos
e amenidades, e pouco faltou para que, brindando
ao sucesso do ‘acidente’, cantassem as canções
libertinas que tanto eram de seu agrado: “Ó preta,
traz-me o ouro que tu tens guardado, catita preta,
que a tranca deste cofre já a tenho arrebentado!”. (24-3-26)
5. QUE HINO DIGNO DE LOUVOR POSSO OFERECER-TE?
Alheio a esses acontecimentos, Padre Pio tinha
preocupações de outro naipe, além daquelas
relativas à sua própria saúde e sobrevivência,
e via-se num dilema inesperado, pois em anos
de fidelidade aos princípios de seu apostolado,
encontrava-se agora diante de uma tentação
e um desafio desproporcionados, e o que sentia
as certezas, punha à prova sua determinação
mais entranhada, e o fazia rever tudo o que aprendera,
tentando reler as leituras do seminário em sua mente,
ao mesmo tempo em que buscava, nas entrelinhas
dos textos de ordenações rígidas e intermináveis,
qualquer coisa que lhe servisse de desculpa,
justificação, perdão ou o que fosse que o confortasse,
ou – quem sabe? – lhe permitisse dar-se ao luxo
de sentir – quem sabe? – amor, quem sabe carinho,
quem sabe alguma forma nova para ele, de cuidado.
não tinha ideia de onde saíra, e que tratava dele
com a naturalidade de quem sabia seu ofício,
aquela mulher que falava um latim melhor que o seu,
que tinha o conhecimento de todo o conteúdo da Bíblia,
aquela mulher negra, quase um milagre, ia e vinha,
e seu corpo coleava num ritmo que Pio não suspeitava
sequer que existiria, e seus olhos sorriam para ele,
como se lhe importasse a mínima sua condição
de padre, e para ela ele era não mais que um menino,
machucado e faminto, confuso e entristecido, apenas
e talvez mais um, talvez nem o maior, nem o mínimo. (24-3-26)
e se movia como um sonho, e era leve como a mais leve pluma,
e perfumada como a brisa, e ele lutava contra si mesmo,
e a comparava... a quem?, à Sulamita, a Betsabé, a quem,
afinal?, quem sabe, ó suprema heresia, à própria Virgem,
fosse ela negra e não judia (mas, quem o disse?), pois nem
por um segundo duvidava Pio da virgindade da menina, tão nova,
tão pura, tão inocente, que ele daria seu braço direito
para atestar, preciso fosse, a integridade de seu seio, o celeste
pulsar de seu coração, o perfume de seus pensamentos,
e tudo o mais que houvesse naquela alma e naquele corpo
de permeio, que o levava além de todo o universo conhecido.
Padre Pio lembrava-se confusamente do Hino à Virgem
que era cantado apenas nas mais especiais ocasiões, e que
ele sempre achara belíssimo, e agora, com mais razão ainda,
e corava e tremia só em pensar em tamanha e tremenda heresia,
mas ainda assim, cantava baixinho, “Impressionado pela beleza
Gabriel clamou a ti, Ó Virgem: Que hino digno de louvor
posso oferecer-te? Como posso chamar-te? Estou em dúvida
e maravilhado. Mas, como me foi ordenado, clamo a ti: Alegra-te,
Ó cheia de graça[5]”, e Pio prostrava-se no chão, o rosto por terra,
a derramar lágrimas de confusão, até ouvir o chamado, “Ê!,
que fazes aí deitado? Levanta-te e anda, que já vais curado,
e dá-me esse braço, pois ainda tenho que tratar-te o machucado”,
e Eyelo ria-se de sua falta de jeito, e Pio sentia-se o último
de todos os homens, mas também o que mais havia amado. (25-3-26)
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