41. VIDA DE ANTÔNIA- PARTE 14: TCHISSOLA - 14.3. TCHISSOLA FALA

 

TCHISSOLA FALA

 

 


1.      DAQUI A MIL ANOS






Quando, algum dia aqui a mil anos, encontrarem
essas velhas folhas de papel amarelecido, escritas
a grafite e carvão, a pena e a duras penas, guardadas
quem sabe nalgum velho baú de inutilidades, talvez
haja alguém que se debruce sobre elas, a pensar
em quem as terá escrito, com essa letra horrível
de quem pouco aprendeu a arte, e se surpreenderá
 
em encontrar mencionados pensamentos de autores
sublimes e complicados, misturados às ideias
malformadas e pior formuladas de uma inteligência
primária, e dirá, “Quem foi esse estranho personagem
que versa em língua própria uma filosofia toda errada,
uma teologia inócua, um ideal sem nexo nem propósito,
 
quem terá recebido tais açoites, quem terá nas noites
delirado de tal forma, a enxergar nos espaços siderais
monstros, meteoros, santos, deformidades, anjos,
e toda a maldade humana condensada em meia dúzia,
incluindo figuras ilustres e respeitadas, que nos legou
a história pátria, que terá colecionado tamanho
acervo de barbaridades, oscilando entre o sublime
e o mundano, o horror e a beleza, a fé mais pura
e a mais pura sensualidade da carne...”, enfim,
 
essa pessoa há de se admirar de tudo isso,
que para mim são o dia mais normal da vida, sendo eu,
Tchissola, a soma de todos os erros reduzida a zero
no instante de cada prece pronunciada com o nome
de Jesus nos lábios, eu, a incoerência de quem se quer
gente, sabendo a distância que medeia entre mim
 
e a menor das santidades, mas que insisto, sem ter
por que, nem por quem fazê-lo, senão por mim mesma,
e pelo Cristo que abracei um dia, ensanguentado
até a alma, e cujo cheiro trago comigo, e não posso
esquecê-lo, nem quero, e no delírio que se seguiu
ao dia de conhecê-lo, já não tive mais domínio
 
sobre o ‘eu’ de quem nunca soube o que fazia (atirada
à arena da parte mais ruim da humanidade insana),
esse ‘eu’ que resgatou Cristo, por capricho mero
e voluntário de si mesmo, isso tudo junto senta-se
às vezes, quando há papel, tinta, lápis e oportunidade,
e deita em páginas aleatórias a vida que me escorre
 
por entre os dedos como areia e água, e à qual
me agarro, e construo um castelo à beira de um lago,
em estreitíssima praia, onde encontro sempre um braseiro,
e sobre ele um peixinho, e ao lado a mesma pessoa,
tranquila, amorosa, envolvente e cálida, sentada. (1-3-26)

 

 


 

2.       A FILHA PRÓDIGA






Sou eu a filha pródiga, a que desbaratou a herança
em festa e alegria, e que penou com os porcos,
e comeu com eles, a quem um dia ocorreu
um pensamento, e que foi erguida do chão
e libertada do cativeiro, essa que o Pai recebeu
com festa, com o sacrifício do terneiro, e que o irmão
 
ciumento e traiçoeiro, que nunca deixou a casa
paterna – mas que também nunca lhe pediu nada,
e que agora reclama seu quinhão na graça e na festa – 
esse irmão que me odeia, e que me mataria se pudesse,  
o irmão que não foi chamado para a pagodeira, que
não celebrou a volta do estroina, e que se tornou
mais duro e invejoso quanto maior era o amor do Pai
 
por um e outro, e que se afastou para não participar
da felicidade dos servos da casa, esse irmão
com quem convivi por anos no entorno do bispo,
o mais rancoroso de todos os irmãos, e agora
que o Pai me recebeu de volta, eu os vejo queimaram
de ódio quanto maior o amor que veem, e minha alegria
é para eles motivo de difamação, eu, a perdida,
 
a que fazia perderem-se os homens, e aquele bondoso
senhor bispo, sempre a rondar o altar da igreja, como se
sua salvação dependesse apenas disso, e que me
forçava em sua capela, como se isso em nada o prejudicasse,
justificado que estava pelo pecado de sua ‘Joaninha’,
a quem ele dizia salvar com a vergasta de sua ignomínia,
 
ele e seus irmãos devotos, os servos que o Senhor colherá,
em dia imprevisto e hora ignorada, e os cortará ao meio
e jogará metade aos infiéis[1], assim como despedaçará
a criação inteira, pois Ele não veio trazer paz sobre a terra[2],
mas a dividirá e queimará o joio separado do trigo,
e com este fará um novo pão, o pão celeste, que virá
para formar a humanidade nova, feita de muitas Tchissolas,
 
como eu pecadoras, desavergonhadas, pródigas de festa,
ricas de sensualidade, e completamente apaixonadas
pela Trindade, repletas de Amor e saudade dessa terra
sem males, a Ivy Maraí dos irmãos dessa pátria, frátria,
mátria, onde estamos todas e todos, livres do pecado
que o Cordeiro ergueu e apagou do mundo, o único
 
pecado verdadeiro, o distanciamento de Deus, pelo qual
toda virtude é relativa, toda caridade duvidosa, toda
vela acesa é apagada, e mesmo água mais benta
se torna insalubre, salobra e salgada. (6-3-26)

 



 

3.     O QUE É MAIS FÁCIL DIZER 






O que é mais fácil, dizer: ‘Os teus pecados
estão perdoados’, ou dizer: ‘Levanta-te e anda’?
Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem
tem na terra poder para perdoar pecados,
 – disse, então, ao paralítico – “Levanta-te, pega
a tua cama e vai para a tua casa[3]”, e então
 
o que é mais fácil saber, que os pecados do paralítico
foram perdoados – quem irá garantir? – ou que
o mesmo homem voltou a andar, tomou sua cama
e foi para sua casa? E por quê? Por que ele
tinha que andar? Porque nosso corpo, que é
sagrado, Deus o instituiu como testemunha
de nossa alma, e ele traduz o que ali vai, para
o bem ou para o mal, como disse um poeta um dia,
 
Voltemos pois aos corpos, a que vejam os fracos
nosso afeto dado a lume; os mistérios do amor
na alma vicejam, mas são lidos no corpo,
o seu volume.[4]”, e foi assim que Cristo
foi encarnado, para que o víssemos e ouvíssemos,
para que Ele não fosse apenas uma ideia, bem
ou mal amanhada, e daí provém também seu suplício,
um Deus que sofreu na carne o martírio, que deu
testemunho vido de suas palavras, e foi coerente
com seu projeto até o final, e é daí que vêm também
os mártires, para testemunhar sua fé, e hoje
 
entendo por que Antônia sofreu o diabo, por que
Eulália comeu o pão que o mesmo amassou, por que
Tchissola amargou tantos anos a testemunhar,
com sua mudez e sua nudez intocadas, com cada
lágrima engolida, a iniquidade dos homens,
de que Dom Bernardo foi apenas o exemplo melhor
acabado, e meu silêncio, que não deixou escapar
um “ai” em meio às dores sofridas, testemunhou
por mim, que eu não abdicaria de minha dignidade,
 
pois quando alguém é assim vilipendiado, não é
apenas para que sinta a dor física do castigo, mas
para que seja ferida sua alma, seja pisada no que tem
de mais sagrado, sua ligação com o corpo que
lhe foi dado por Deus, esse cálice de barro, que
carregamos com ou sem cuidado, mas que é templo,
e que, como templo, deveria sempre ser tratado,
 
e então, a cada açoite dado, a cada bofetada – e Cristo
as sentiu também, e as escarradas – é da carne
o testemunho, é ela que se vê e se apalpa, e dela
que escorre o sangue, nela moram para sempre
as cicatrizes, como a dizer “o carrasco esteve aqui”,
para que todos saibam, para que nunca possa
ser negado, pois o corpo tem uma só palavra,
e sua boca de carne não mente, e até a morte
carregará ele cada sentença, cada prego, e a lança
 
que o perfurará no último minuto, depois de tudo
acabado, quando o centurião poderá dizer, como se
não o soubesse desde sempre, “eis aí um filho
de Deus”, e se afastar satisfeito, por ter visto
com seus olhos, e cheirado e sentido, e provado
a gota que escorreu do flanco, e de ter bebido
o sangue e a água a jorrar do flagelado, “é isto
um homem?[5]”, e de ter sabido exatamente
o quanto de dor que foi sentida, depois que a alma
se fôra, e o corpo continuou ainda a falar por ela
de cada momento, de todo o acontecido.  (8-3-26)

 

 


 

4.      O LUGAR DO PECADO






Por isso eu vejo quando as pessoas condenam o corpo
ao lugar do pecado – como se fosse! – e não compreendo,
pois o que, senão a carne, nos distingue dos anjos?, o que,
senão nosso destino manifesto de pecadores endemoniados
nos torna únicos nesse cosmo tão organizado, o que mais,
em toda a criação, constitui essa beira de abismo, projetada
sobre o caos da desinteligência, a quem mais deu Deus
 
a possibilidade de remissão autoconsciente, o esclarecimento
de sua própria condição, o súbito dar-se conta das correntes
que nos arrastam implacáveis para a goela do fosso sem fundo
do esquecimento, a quem mais foi dada a liberdade de esquecer
até sua própria raça, a graça que o conserva, senão a nós,
justo nós, que nos pretendemos tão espiritualizados, a ponto
de recusarmos o próprio veículo com o qual nascemos,
 
que nos transporta até esse ponto que chegamos, e nos levará
ainda muito além, além das fronteiras desse mundo imediato,
a um outro, e outro e outro ainda, na medida da caminhada
que fazemos, uma vez nascidos, pois não tornaremos a morrer,
e o ser assim constituído de corpo e alma seguirá sendo
o mesmo, talvez outro corpo e uma alma mais polida, mas
será ainda a pessoa que vivemos aqui e agora, como vimos
 
o próprio Cristo que visitou os discípulos e disse, “tendes
algo para comer?[6]”, e também, “estende a mão e toca
o meu lado[7]”, e em tudo isso era seu corpo que estava
em cena, ainda que tenha entrado na sala sem pedir
licença, ou que tenha atravessado as paredes, ou
se materializado, simplesmente, mas permanece o fato
de que ali estava ele em seu corpo, como ele próprio disse,
 
“um espírito não tem carne e ossos, como vocês podem
ver que eu tenho[8]”, sempre simples assim, como quando
o Mestre ressuscitou a filha de Jairo, e a levantou, e ordenou
que lhe dessem de comer[9], sempre o corpo a mostrar a vida,
a vida que todos temos e que não morrerá conosco, pois
Jesus disse ainda, “porque não podem mais morrer,
pois serão como os anjos, e serão filhos de Deus, porque
ressuscitaram[10]”, pois “Deus não é Deus de mortos,
 
mas de vivos, pois todos vivem para ele[11]”, e a nós foi
dado isso, e por isso somos a dracma perdida[12], a ovelha
tresmalhada[13], o filho que desperdiçou seu benefício[14],
o que voltou para casa, e nisso consiste nosso valor,
único e esquisito, o de sermos amaldiçoados e benditos,
e amados de um modo ou de outro, pois somos nós
mesmos que nos abrimos às portas do inferno, e nós
mesmos que subimos aos mais altos píncaros,
pela graça, não porque queremos, e – quer saber? –
 
nem ao menos importa se a merecemos, pois Deus
não faz acepção de pessoas, e talvez seja esse
o único consolo, e o que justifica que o amemos,
pois ele quer que erremos, para que em consciência
corrijamos nossos erros, e para que possamos dizer,
“Abba, Pai[15]”, pelo Espírito, pois só o Espírito Santo fala
por nós, enquanto aqui vivemos, e a vida é maravilhosa
por isso, e por muitas outras coisas que, para o momento,
não temos tinta nem papel para as descrevermos. (10-3-26)

 


 

5.    O POEMA DE DEUS  






Aí o João viu o Cristo que vinha vindo, e falou, “Eis
o Cordeiro de Deus, que retira o pecado do mundo”,
e ele não falou “um cordeiro”, mas “O Cordeiro”,
e não falou “tira”, mas falou “retira” (que é diferente),
e não falou “os pecados”, mas falou “O pecado”,
e assim temos que, primeiro: só existe um Cordeiro,
 
o único, e somente ele, e segundo: ele não “tira”
o pecado, porque o que é tirado pode ser reposto,
mas o que é retirado não volta, e terceiro: não são
os pecados, como se uma infinidade de erros pudesse
ser apagada, mas o pecado, o único pecado, o pecado
por excelência, que é o distanciamento de Deus,
 
que sofremos desde que passamos a nos considerar
como o último biscoito do pote, o máximo dos máximos,
nec plus ultra (como diria o senhor bispo no seu latim),
o ser acima de todos os seres, o puro espírito encarcerado
nesse corpo de carne, que maceramos sem parar (o meu,
pelo menos, que Sua Santidade massacrava dizendo
que era para me salvar), e nem sequer suspeitamos
 
que entre corpo e alma não existe o que se possa separar,
pois, se a alma é sublime, tanto quanto sublime o corpo é,
porque fomos feitos à imagem de Deus, e esse corpo,
com toda a criação, é divino porque saiu das mãos dele,
e a unidade é uma só, e não uma parte alada presa
a uma célula material e demoníaca, senão não seríamos
uma pessoa, mas duas em duelo eterno, num conflito
impossível de superar, mas não, o corpo foi concebido
 
como templo do Espírito Santo (não a alma), que habita
na carne e nos ossos, e só por isso a experiência de Deus
é possível nessa vida, numa realidade escatológica,
acima e além de todas as coisas, e é por isso que
o corpo possui possibilidades espirituais incorporadas
nele, porque é dentro dele que reside a observação
da mente superior, o intelecto divino, o nous grego,
o logos que é pensamento, vontade e amor, e então
o ser humano pode ser dito inteiro, e não tem partes,
um poema de Deus contém toda a sua arte. (10-3-26)




6.   A CARNE    




O “senhor bispo” só enxergava em mim minha carne,
e Grilo, meu amado Grilo, me diz ver em mim minh’alma,
mas eu, Tchissola, que Deus criou, sou Tchissola
de corpo e alma, inseparáveis, e serei Tchissola assim
enquanto durar o mundo, e mesmo após a morte serei,
pois fui feita por Deus para todo o sempre, apesar
 
de nascida ontem, mas tudo o que Deus faz, ele faz
para a eternidade, e nada é desfeito, e minha história,
minha trajetória, minha personalidade, que eu construí
com a ajuda do Espírito Santo, nada disso foi em vão,
e, por motivos que desconheço, Deus me quer isso,
 
e que isso eu seja per omnia seculorum, como dizem
os padres no seu latinório, eu Tchisssola, que a cada dia
acordo mais Tchissola, e disposta a ser mais e mais
eu mesma, nesse caminho que faço, só e acompanhada,
no meio dos meus, mas principalmente com Cristo,
 
por Cristo e em Cristo (nossa!, hoje estou que só
um presbítero...), como gosto de pensar, porque Cristo
é a perfeição inatingível que nos faz caminhar,
sobre suas pegadas na praia, até o encontrar sentado
 
naquela mesma areia de Tiberíades, assando o mesmo
peixinho na brasa, ele o incompreensível, ele que não
o entendemos por palavras, mas nos é dado senti-lo,
com o coração em mãos, e louvá-lo em silêncio,
porque a boca não é capaz de pronunciá-lo, de anunciar
 
seu significado, que só sabem dizê-lo os que sabem
que o desconhecido absoluto não se traduz em discursos,
mas na escuridão que a mente descortina, quando olha
o sol de frente e, cegada, vê o brilho negro que domina
o ofuscamento de ali estar, a seus pés, agora, sempre e ainda. (12-3-26)

 

 

  

7.     NÃO SABEMOS ORAR 




Meus pés são pequenos, meus dedos pequeninos,
e, no entanto, a cada passo que dou faço um desvio,
que chamem de pecado ou isso ou aquilo, só sei
que desse tamanho ridículo de pessoa humana,
é preciso ser humilde, e reconhecer que tudo, tudo
o que fazemos é, de certa forma, o contrário de Deus,
e que, só podemos esperar o que diz o salmista,
 
ensina-nos Teus mandamentos, porque não sabemos
orar como se deve, se Tu não nos conduzis Senhor,
por meio de Teu Santo Espírito, pelo qual Te suplicamos,
se temos pecado, até o presente, por palavras, obras
ou pensamento, voluntária ou involuntariamente,
esquece, releva e perdoa, porque se Tu olhares
as nossas iniquidades, Senhor, Senhor, quem
poderá subsistir?[16]”, sim, quem?, quem seria
 
pretensioso ao ponto de se acreditar puro, ainda
que enfiado nesse bendito corpo de carne, esse corpo
que alguns dizem ser a prisão da alma, só que não,
porque também ele é imagem e semelhança, pois
corpo e alma formam a unidade da pessoa, e não há
erro em Deus, e pela mesma razão não há pecado
em nós, filhinhos queridos, que ele toma pela mão
todo o tempo, e nos levanta a cada vez que caímos,
 
embora nos deixe pensar, tolinhos, que são nossos
os esforços que fazemos, tantas vezes sem alegria,
mortificando nossas vidas, como se sofrer lhe fosse
agradável, e por que seria?, se ao Pai importa mais
a felicidade do filho doque a própria, mas o fato
é que alguém inventou ou deduziu essa mentira,
 
e, se Deus é Amor – e ele é – não há o que temer,
e o mundo e a vida respondem com cores e música
à nossa poesia, os versos de sermos, e estarmos
vivos, e estarmos a caminho, ainda que tropecemos,
porque é de tombos e tropeços que se faz a vida. (15-3-26)

 




8.     O MONTE DE AREIA 






Se você fizer um monte de areia, é um monte,
mas se tirar um grão de areia desse monte,
ele continuará sendo um monte, e se
você tirar mais um grão, ele continuará sendo um monte,
e se você prosseguir tirando grãozinhos, um a um,
ele continuará sendo um monte, até um momento
 
em que ele deixará de ser um monte, mas
esse momento, nunca saberemos quando é,
e nosso único trabalho foi seguir tirando grãos
de areia, um por um, até que o monte,
imperceptivelmente, deixa de ser um monte.
 
E assim, Deus, a massa escura de grãos
à nossa frente, da qual retiramos, um a um,
os grãos que perfazem o monte, e então,
num momento que não podemos definir,
já não está à nossa frente o monte, e Deus aparece,
mas, quando foi isso?, em que instante?,
 
não o sabemos, nunca saberemos, mas
de grão em grão chega esse momento,
se seguirmos retirando, um por um, pacientemente,
obstinadamente, teimosamente, até que o monte
já não é mais monte, quem está ali é Deus,
 
e se desfaz a massa escura, e vemos-lhe a essência,
e talvez seja essa, afinal, a única finalidade real
daquilo a que chamamos existência.
9.      Eu queria possuir a profundidade de certos teólogos,
que mergulham além das fossas abissais
do conhecimento de Deus, apenas com base
em sua imbatível apneia, e lá contemplam
as criaturas que vivem na escuridão das águas de baixo,
que horripilariam qualquer um mais despreparado,
e devorariam convicções e sonhos, deixando
não mais que os ossos de nossas ilusões mundanas
sem resposta, ah!, como eu gostaria
 
de não recuar um milímetro sequer ante a bocarra
do Kraken que se oculta em cada fenda
das questões humanas, e de enfrentá-lo
com os argumentos irretorquíveis de minha lógica,
reduzindo a pó o pavor que nos provoca
com suas respostas equívocas às nossas perguntas mais caras,
como eu gostaria de habitar este planeta de certezas
que me conduziria por sua mão destra
ao lá além de lá, como eu gostaria,
 
ao invés de me ver revestida dessa carcaça
de erro, descrença, dúvida, perplexidade,
dessa carne sensual e despropositada,
que ninguém explica a necessidade,
que é não mais que um dado da nossa realidade,
que rejeitamos, em nome de um Espírito suposto
e de sua inatingível e temível majestade,
nós, ossos enfeitados com a beleza efêmera
da mocidade, como eu gostaria
 
de perpetuar-me nesse estado, em que a inocência
me roça a pele como a brisa perfumada do anjo,
em que meus olhos veem o que a mente não enxerga,
ofuscada por sua agitação permanente,
pela resposta não encontrada, mas que está
na nossa cara, transparente,
para que a vejamos, e, vendo-a, possamos
seguir adiante, a favor do vento
que sopra uma doce melodia em nossos ouvidos
desatentos, um sussurro de harmonias esquisitas,
que só o coração, e só ele, escuta e entende. (17-3-26)




10. CRUCIFICAI-O!






Todo horror do mundo não é suficiente
para descrever o que penso das igrejas
e das religiões instituídas, e todo amor
do mundo não é bastante para retratar
o que sinto por Cristo e seus ensinos,
todo espanto do mundo não é capaz
 
de superar o que me atinge quando vejo
o estado a que chegaram os mortos-vivos
que erguem os braços aos céus, bradando
“crucificai-o!”, a cada vez que o Nazareno
cruza seu caminho, na figura do aleijado,
da prostituta ou do mendigo, que batem
no peito e dizem, “eu te agradeço, ó Deus,
porque não sou como os outros homens”,
 
eu mal consigo digerir o nojo que me toma
diante do egoísmo delirante de quem odeia,
eu não posso olhar nos olhos da mentira,
meus ouvidos ensurdecem aos discursos
dos que enfileiram palavras vazias,
eu não posso mais carregar a companhia
de gente má, sendo eu mesma péssima,
 
mas tento não instilar meus erros na vista
dos irmãos meus, o que me desconcerta
é o duplo sentido de cada via, o descompasso
entre a mente e o coração, a inclinação
permanente para o mal, o afastamento
de Deus, a descontinuidade do projeto,
enfim, tudo o que eu mesma sou, que sei
que sou, que não nego – e por isso mesmo
 
não prego nas praças, não berro aos ventos,
e tudo o que faço é pedir um perdão extenso
que começa quando acordo e só termina
quando adormeço, e agradeço por ser assim,
e deixo que passem os dias até que venha
meu fim, o fim que eu espero desde o começo. (18-3-26)

 



[1] Cf. Lucas 12: 41-51.

[2] Cf. Lucas 12: 54.

[3] Lucas 5: 23-24.

[4] John Donne, O Êxtase, 1633.

[5] Primo Levi, Se questo è un Uomo, 1947.

[6] João 21: 5, Lucas 24: 40.

[7] João 20: 25.

[8] Lucas 24: 39.

[9] Marcos 5: 43.

[10] Lucas 20: 36.

[11] Lucas 20: 38.

[12] Lucas 15: 8-10.

[13] Lucas 15: 3-7.

[14] Lucas 15: 11-32.

[15] Romanos 8: 15.

[16] Matinas da Liturgia de São João Crisóstomo, Sétima Oração Mística.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

1. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 1: AS SETE IRMÃS - INTRODUÇÃO

13. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 3: AO TEMPO DE TEODORA - 3.2. TEODORA, AS ALMAS E AS PESSOAS

5. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 1: O CONVENTO - 1.2. CONVERSAS - 3. NOVOS APRENDIZADOS