48. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 14: TCHISSOLA - 14.10. A PARTIDA PARA GALILEIA

 

A PARTIDA PARA GALILEIA

 

 


1.     A RENÚNCIA 





Então Pio caiu por terra, em êxtase místico,
pálido e tremendo, quase rígido, os olhos fechados,
e esteve por longo tempo inerte, respirando
com dificuldade, enquanto Eyelo cuidava dele,
abanando-o e assoprando em seu rosto, até que
ele recuperou as cores e, levantando-se, apoiou-se
no bastão que agora usava, a surrada batina suja
 
em farrapos, e disse, “Amigos queridos, eis que
eu renuncio nesse momento à minha condição
de padre dessa Igreja que já não conheço, mas
persevero em Jesus Cristo, único guia da existência,
e não desejo outra coisa do que correr esse mundo
a pregar o que tenho visto com meus olhos cegos,
e não vos chamo nessa minha jornada, pois ela
 
é apenas minha forma pessoal de loucura, sem
a qual nada mais sou senão um corpo sem alma,
mais um dos tantos que tenho conhecido, e sinto
que essa é minha missão, a qual tenho que cumprir,
nem que para isso eu tenha que ser dado por morto
ou desaparecido”, mas Eyelo retrucou-lhe, dizendo,
 
“Nem que fosse esse meu último dia eu deixar-te-ia,
Passarinho, e a lugar algum irás sem mim, nem
poderás sobreviver sem meus olhos junto a ti,
sem minhas mãos para amparar-te, sem meus pés
para guiar-te no sendeiro que pensas trilhar, e sem
o calor de meu corpo para aquecer-te nas noites,
e finalmente, sem esse amor que te tenho, para
lembrar-te que és humano afinal, e que, queira-te
 
tanto Deus como penso que te quer, quero eu mais,
sem rivalizar com o criador, mas a meu modo, e contigo
pretendo seguir, gostes ou não, pois nada há de teu
que não tenha eu parte doravante, e nossas almas
estão irremediavelmente unidas em Espírito e carne,
e, se por um acaso te tornastes esse ser alado,
nem por isso deixarás de sentir fome, frio e sede,
e para isso, justamente, é que hei de estar a teu lado”. (18-4-26)
 




2.      A DESPEDIDA





Então Tchissola disse, “Pio, Passarinho, e Eyelo,
toda a Pureza desse mundo reunida, lembrem-se
sempre que o Reino de Deus é o conhecimento
da Santa Trindade, e o inferno seu contrário, e que
o que a luz sensível é para o corpo, o Deus-Logos
é para a alma, iluminando o nous incorpóreo; assim,
todos os seres que vêm ao mundo têm em si
essa Luz, mas ela permanece adormecida, e
 
seu despertar corresponde a um conhecimento
pleno, mas inexplicável, e seu mais alto grau é igual
à Luz incriada, cuja aquisição é um processo
lento, às vezes doloroso, que acontece passo a passo,
conforme a aquisição da Graça, essa Luz que caminha
à nossa frente, dentro de nós e ao redor, que nos
envolve e abraça, a chama da Graça que é a morada
 
em nós do Santo Espírito em nossas almas, capaz
de iluminar nossa casa como lâmpadas perante
Cristo, porque o fogo divino ilumina a alma, de modo
incorpóreo, testando-a como o ouro no cadinho,
esse fogo que ilumina o ambiente do intelecto
mas cega os olhos da carne, embora sintamos,
 
seu poder, como Paulo, na matéria de que somos
feitos, essa chama e essa Luz que transmutam
a natureza daqueles que veem, a Luz interior,
o Pentecoste de cada um, a experiência mística
que cada qual recebe segundo sua capacidade,
a perfeita visão da Divindade no oitavo dia, esse dia
 
que pertence ao século futuro, e assim a visão da Luz
é inseparável da união do humano com Deus, pois
é por meio dela que Deus se torna conhecido,
esse esplendor que se caracteriza como o caráter
da Graça e da Divindade, por pode ser visto por meio
das energias incriadas, que não é de natureza mental,
 
mas que é como o relâmpago, muito embora não seja
uma realidade natural, embora abarque o nous
e os sentidos, porque ela se refere ao homem
em sua totalidade, uma Graça sobrenatural que age
nos sentidos e no nous, a experiência mística,
a Luz do Tabor, Cristo tal como ele é, e o veremos
conforme nossa capacidade de sair da história,
 
para ver Sua natureza verdadeira, a natureza última
e derradeira de Cristo e sua realidade eterna, e assim
veremos Cristo, Luz de Luz, mas para tanto é preciso
que participemos dela, que sejamos transformadas
por ela, amados Pio e Eyelo, numa certa medida, é
preciso uma mudança em nossa natureza, transmutada
 
pela Graça divina, para que vejamos as coisas
que de outro modo não podem ser vistas, que somente
veem os puros de coração, os que amam a Cristo
e são por ele amados, e para tanto nossos corpos
não devem ser vistos como obstáculo (para não destruir
a unidade do ser constituído de corpo e alma), mas
 
o corpo será espiritualizado, vestindo-se da compaixão
que lhe vem das entranhas, e por tudo isso,
nossa finalidade não será a visão intelectual de Deus,
mas, como os bem-aventurados, a visão de Cristo
face a face, na plenitude de nossa natureza criada”,
 
e então Pio abraçou Tchissola, dizendo, “Irmã, amiga,
que essa Graça de Deus esteja sempre contigo!”,
e Eyelo atirou-se nos braços dela, beijando-lhe
as mãos, e ambos se despediram também de Grilo,
e, pondo-se na estrada, com seus nenhuns pertences,
empreenderam a marcha que os levaria adiante,
para além desse mundo, e para todo o sempre. (18-4-26)
 
 



3.     A CAMINHO 





Os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte
que Jesus lhes tinha indicado, e quando viram Jesus,
ajoelharam-se diante dele, mas, ainda assim, alguns
duvidaram, e então Jesus se aproximou, e falou,
‘Toda a autoridade foi dada a mim no céu e sobre a terra,
 
e então, vão e façam com que todos os povos se tornem
meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho,
e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo
o que ordenei a vocês. Eis que eu estarei com vocês
todos os dias, até o fim do mundo.[1]’”, e recitando
 
essas palavras, Pio redobrava o ânimo com que seguia
o caminho, tendo Eyelo ao seu lado, completava,
Pois disse o Mestre, ‘Vão pelo mundo inteiro e anunciem
a Boa Nova para toda a humanidade, e quem acreditar
e for batizado, será salvo, mas quem não acreditar,
será condenado, e para que saiam, os sinais que
 
acompanharão aqueles que acreditarem são estes,
que expulsarão demônios em meu nome, falarão
novas línguas, se pegarem cobras ou beberem
algum veneno, não sofrerão nenhum mal, e quando
colocarem as mãos sobre os doentes, estes ficarão curados.[2]”,
 
e assim marchavam por dias, e no seu caminho Pio
dizia a Eyelo, de vez em quando, “Sou cego, mas vejo
em meu coração gente mais adiante, precisando de auxílio”,
e foi assim que encontraram muitas pessoas que estavam
ao desabrigo, doentes, paralíticos, cegos, mendigos
de todos os tipos, escravizados fugidos, e as palavras de Pio
e Eyelo os confortavam, e, enchendo-se de esperança, muitos
 
passaram a segui-los, e assim foram em sua caminhada
mística, até chegarem a um vale entre colinas, distante
de qualquer cidade ou vila, e ali acamparam, e formaram
uma comunidade, em que passaram a viver como família,
e entre eles havia também mães com seus filhos, e velhos,
e toda espécie de gente, e plantavam e colhiam, e tudo
o que possuíam era dividido, e Pio e Eyelo os ensinavam
 
a orar, e a colher os frutos do Espírito, de tal maneira
que em pouco tempo já se contavam mais de mil pessoas
no pequeno aglomerado que construíram, onde fizeram
uma capela muito rústica, em cujo frontão escreveram
Tenham ânimo, pois eu venci o mundo[3]”.
 



 
4.    A MISERICÓRDIA  





Enquanto isso, Tchissola e Grilo permaneciam ainda
nas cercanias da vila, e recebiam muitas notícias
de viajantes que passavam, e construíram à beira-estrada
uma pequena pousada, e assim levavam a vida, e Grilo
gostava de ir à vila, e entretinha-se a conversar com
 
o novo bispo, Dom Peregrino, e este acabou por convidar
o degredado para auxiliá-lo nas missas, atuando como
seu diácono, coisa que muito alegrou Tchissola, que
cuidava da estalagem, recebendo os hóspedes que vinham
atraídos pela nova fama da vila, que se tornava próspera
 
depois que a quadrilha de malfeitores que a dominava
fôra desmantelada e levados presos os cabeças, e que
o antigo bispo, Dom Bernardo, destituído de seu cargo
e de toda sua antiga dignidade, perambulava sem eira
nem beira pelas ruas e becos, dormindo ao relento,
 
e sempre a repetir no seu latinório cansativo, “Et hic quidem
possedit agrum de mercede iniquitatis, et suspensus
crepuit medius: et difusa sunt omnia viscera eius![4]”,
e batia no peito, babando e revirando os olhos, doente
a tal ponto que já não conseguia se arrastar, comendo
os restos que encontrava, cheio de sarnas e insetos
que o infestavam, e, encontrando-o Tchissola um dia,
 
sentiu por ele uma compaixão sem julgamento nem prova,
e tomando-o nos braços abrigou-o numa cocheira vazia
e abandonada, e com a ajuda de Grilo deu-lhe um banho,
e buscou comida, e besuntou-o de óleo e cachaça
em suas feridas, cortou-lhe o cabelo e a barba em desalinho,
fez-lhe um leito de palha, sobre o qual deitou-o, e, com
dois pedaços de madeira, improvisou um crucifixo,
 
e desse dia em diante não deixou que lhe faltasse nada,
e cuidava dele como de um filho, e aos poucos outras
das vítimas de Bernardo o visitavam, e levavam um pão,
uma bilha d’água, uma taça com vinho, e ele repetia
a cada vez, “Nolite expavescere: Iesum quaeritis Nazarenum,
crucifixum: surrexit, non est hic, ecce locus ubi posuerunt
eum[5]”, e chorava, chorava, chorava como um bebê,
 
e repetia, “Se dite, dicite descipulis eius. Et Petro, quia
praecedit vos in Galilaeam: ibi eum videbitis, sicut dixit
vobis[6]”, e assim espalhou-se a voz de que existiria
um lugar, nalgum canto, chamado Galileia, para onde
Cristo se retirara, e que nesse sítio ele estava esperando
o final dos tempos, e que ali fazia a cada dia novos discípulos. (21-4-26)
 
 


 
 
5.     AS SETE MULHERES NEGRAS 





Mas uma vida de dissipações logo cobrou seu preço,
e Bernardo acabou por falecer, e foi encontrado pela manhã
por Tchissola, já rígido e frio, e assim foi velado e sepultado
na vala dos indigentes, pois até sua família, que morava
em outras paragens, se recusara e recebê-lo no jazigo,
 
e Bernardo foi colocado num caixão simples, envolto
num pano que Tchissola arrumou entre seus pertences,
e, sem choro nem vela, despediu-se desse mundo,
sem deixar uma lágrima que fosse, ou o menor suspiro,
 
e um dia as mulheres que haviam sido vítimas de seu
libidinoso desvario se reuniram todas na hospedaria
de Tchissola e Grilo, e anunciaram sua intenção de ir
em busca daquela Galileia brasílica de que tanto se dizia,
 
e perguntavam se os dois as acompanhariam, mas
Tchissola lhes respondeu, “Mulheres, acreditem em mim.
Está chegando a hora, em que não adorarão o Pai,
nem sobre esta montanha nem em Jerusalém, ou na Galileia,
 
ou onde quer que lhes prometam Cristo. Vocês ainda adoram
o que não conhecem, mas nós adoramos o que conhecemos,
e está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros
adoradores vão adorar o Pai em espírito e verdade, porque são
estes os adoradores que o Pai procura, pois Deus é espírito,
 
e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade[7]”,
e é por isso que Grilo e eu, que já tivemos aventuras suficientes
para mais de uma vida, nos decidimos a erguer aqui nossa
capela interior, e um pequeno oratório onde possamos
nos recolher quando preciso, porque cada um de nós, ao seu modo,
 
já encontrou Jesus pelo caminho, pois passamos por muitos Emaús
ao longo de nossa jornada, cada qual por seu destino, e assim,
ao contrário, somos nos que as convidamos para aqui estar,
e conosco erigir essa obra da alma agradável ao Senhor, pois
a ascese que Deus quer de nós não exige peregrinações
 
nem sacrifícios, mas apenas essa adoração contínua como
disse Paulo, ‘Orai sem cessar[8]’ na presença de Deus, que está
no mundo para aqueles capazes de enxergá-lo e senti-lo, e não
em parte alguma onde tenha que ser buscado e construído”,
 
e, ouvindo isso, Ayana, Ife, Amara, abayomi, Fayola, Bintu
e Ayoola, a Linda Flor, a Amor, a Graça, a Que traz alegria,
a Sorte honrada, a Bonita e a Alegria com riqueza, conversaram
entre si, e disseram, “O que tu dizes é tão certo como o sol
de cada dia, a chuva que cai, o orvalho da manhã, e queremos
 
então ficar aqui contigo, e que seja aqui nosso quilombo,
feito com nosso amor e nossos destinos, e que a Graça
de Deus esteja sobre nós e sobre os dons que trazemos
conosco, que são nossas próprias vidas, que a Deus
pertencem e que a Ele oferecemos, em tudo e por tudo[9]”,
 
e, dizendo isso, ajoelharam-se todas e rezaram em uníssono,
Nós Te damos graças, ó Senhor nosso Deus, porque hoje,
mais uma vez, nos despertaste de nossos leitos e colocaste
em nossas bocas palavras de louvores, para podermos
adorar e invocar teu Nome; imploramos por Tua misericórdia,
que sempre tiveste por nossas vidas. Envia agora, também,
 
o Teu auxílio sobre os que estão diante de Tua Santa Glória
e esperam receber a Tua abundante misericórdia; e concede
a nós que adoraremos, glorificaremos, louvemos e reverenciemos
Tua inenarrável bondade, com amor e temor. Porque a Ti se deve
toda glória, honra e adoração, Pai † Filho e Espírito Santo,
agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém[10]”.
 
 
[1] Mateus 28: 16-20.
[2] Marcos 16: 15-18.
[3] João 16: 33.
[4] Atos 1: 18 (“Ele comprou um terreno com o salário da sua iniquidade; depois caiu de ponta cabeça, arrebentou-se e suas entranhas se esparramaram”).
[5] Marcos 16: 6 (“Não fiquem assustadas. Vocês estão procurando Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está aqui! Vejam o lugar onde o puseram”).
[6] Marcos 16: 7 (“Agora vocês devem ir e dizer aos discípulos dele e a Pedro que ele vai para a Galileia na frente de vocês. Lá vocês o verão, como ele mesmo disse”).
[7] Cf. João 4: 21-24.
[8] 1 Tessalonicenses 5: 17.
[9] Cf. Liturgia de São João Crisóstomo, Anamnese.
[10] Matinas, Orações Místicas, 1.

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