49. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 14: TCHISSOLA - 14.11. O QUILOMBO DA HOSPEDARIA
O QUILOMBO DA HOSPEDARIA
1. DEUS ESCREVE
Os pássaros, pousados em seus galhos, observavam
o movimento lá embaixo, e diziam uns aos outros, “Vejam,
o que está acontecendo?”, e outro respondia, “São as negras
do bispo, aquelas que foram escravizadas por tanto tempo,
e mantidas sob sevícias dia e
noite, aquelas, de quem
ouvíamos os gritos abafados e os gemidos noturnos, quando
se retiravam para seus catres, feridas e traumatizadas, sem
ter a quem recorrer, e sabendo que ao dia seguinte estariam
mais uma vez expostas a todo tipo de acinte, e assim
no outro dia, e no outro e no outro”, e algum falava, em seu
idioma de passarinho, “Cansei de vê-las de mãos postas,
a orar a Deus, aos santos, aos anjos, aos seus ancestrais
em África, às entidades da mata, do fogo e do vento, e
a qualquer um que viesse em seu socorro, até que a negra
Tchissola, ainda tão nova naquele
tempo, encontrou as preces
escritas por Eyelo, a primeira a evadir-se da masmorra
em que viviam, preces que ela ocultara atrás do altar
da capela, e, de algum modo, Deus compadeceu-se, não só
dela como de todas, e enfileirou o destino, trazendo para
essa vila as duas negras, Antônia e Eulália, que libertavam
os cativos, aqui e ali, se
tornando lendárias por todo lado,
aqui nos interiores e litorais desse Brasil”, e outro disse ainda,
“Eu vi quando elas chegaram naquele dia, e o modo como
resgataram a menina Tchissola, vi a caçada que se empreendeu,
vi como foram encurraladas, caindo no precipício, e vi também
como, devagar e certamente, o
bispo foi alucinando, perdendo
a razão e a mente – porque coração há muito não tinha –
e terminando por chafurdar na loucura mais indigna, enquanto
as negras da casa, libertas pela alienação que o atingira,
debandaram para além dos confins da vila, para só retornarem
quando se pediu seu testemunho no
processo que cassou
todas as prerrogativas do “senhor bispo”, como o chamavam”,
e outro ainda comentou, “Deus escreve de um jeito próprio
que não temos como compreender, e o fato é que agora,
estando todas libertas e reunidas nesse sítio que Tchissola
construiu com Grilo, quem sabe
assistiremos ao começo
de um santo quilombo, um quilombo novo, em que a liberdade
física encontre o Espírito, e onde possam essas santas moças
viver uma vida divina, como a que vivemos nós, os passarinhos”,
“Porque”, disse um do seu ninho, “a verdadeira liberdade não
se mede em passos, mas na
capacidade de voo da alma, por
esses céus sem fronteiras do Espírito, que Deus desenhou
para a raça humana, para que, desde o alto céu onde Ele
habita, assista a revoada dos corações cheios de bondade,
das almas unidas nos louvores e na gratidão dos carismas,
da humanidade resgatada do fundo
desse abismo, onde
foi parar em consequência de sua separação em relação
ao Divino, o único pecado, cometido antes de todos os outros,
esse pecado pelo qual Adão se perdeu ou se viu perdido,
esse pecado sem cura, que somente perdoado, esquecido
e relevado por Deus, pode deixar
de ser, pois sua existência
é puramente negativa, e que, superado dessa maneira,
voltem as mulheres e os homens a se aproximar do Filho,
tornando-se não mais servas e servos, mas irmãos de Jesus
e coerdeiros dos bens celestiais reservados para eles
desde o começo do mundo, e ainda antes de seu princípio”.
o movimento lá embaixo, e diziam uns aos outros, “Vejam,
o que está acontecendo?”, e outro respondia, “São as negras
do bispo, aquelas que foram escravizadas por tanto tempo,
ouvíamos os gritos abafados e os gemidos noturnos, quando
se retiravam para seus catres, feridas e traumatizadas, sem
ter a quem recorrer, e sabendo que ao dia seguinte estariam
mais uma vez expostas a todo tipo de acinte, e assim
no outro dia, e no outro e no outro”, e algum falava, em seu
idioma de passarinho, “Cansei de vê-las de mãos postas,
a orar a Deus, aos santos, aos anjos, aos seus ancestrais
em África, às entidades da mata, do fogo e do vento, e
a qualquer um que viesse em seu socorro, até que a negra
escritas por Eyelo, a primeira a evadir-se da masmorra
em que viviam, preces que ela ocultara atrás do altar
da capela, e, de algum modo, Deus compadeceu-se, não só
dela como de todas, e enfileirou o destino, trazendo para
essa vila as duas negras, Antônia e Eulália, que libertavam
aqui nos interiores e litorais desse Brasil”, e outro disse ainda,
“Eu vi quando elas chegaram naquele dia, e o modo como
resgataram a menina Tchissola, vi a caçada que se empreendeu,
vi como foram encurraladas, caindo no precipício, e vi também
a razão e a mente – porque coração há muito não tinha –
e terminando por chafurdar na loucura mais indigna, enquanto
as negras da casa, libertas pela alienação que o atingira,
debandaram para além dos confins da vila, para só retornarem
todas as prerrogativas do “senhor bispo”, como o chamavam”,
e outro ainda comentou, “Deus escreve de um jeito próprio
que não temos como compreender, e o fato é que agora,
estando todas libertas e reunidas nesse sítio que Tchissola
de um santo quilombo, um quilombo novo, em que a liberdade
física encontre o Espírito, e onde possam essas santas moças
viver uma vida divina, como a que vivemos nós, os passarinhos”,
“Porque”, disse um do seu ninho, “a verdadeira liberdade não
esses céus sem fronteiras do Espírito, que Deus desenhou
para a raça humana, para que, desde o alto céu onde Ele
habita, assista a revoada dos corações cheios de bondade,
das almas unidas nos louvores e na gratidão dos carismas,
foi parar em consequência de sua separação em relação
ao Divino, o único pecado, cometido antes de todos os outros,
esse pecado pelo qual Adão se perdeu ou se viu perdido,
esse pecado sem cura, que somente perdoado, esquecido
é puramente negativa, e que, superado dessa maneira,
voltem as mulheres e os homens a se aproximar do Filho,
tornando-se não mais servas e servos, mas irmãos de Jesus
e coerdeiros dos bens celestiais reservados para eles
desde o começo do mundo, e ainda antes de seu princípio”.
2. EU VOS DEIXO A PAZ
Naquela noite, a hospedaria ficou fechada, e as
mulheres
dormiram todas no grande quarto que ficava no fundo,
embaixo, perto da nascente cujo murmúrio se ouvia por
toda a noite e a madrugada, e elas tiveram todas o mesmo
sonho, no qual Jesus lhes aparecia, e falava sem mover
os lábios, numa voz que somente ele sabia, “Não fique
perturbado o coração de vocês,
mas acreditem em Deus
e acreditem também em mim, pois existem muitas moradas
na casa de meu Pai, e se não fosse assim, eu lhes teria dito,
porque vou preparar um lugar para vocês, e quando eu for
e lhes tiver preparado um lugar, voltarei e levarei vocês comigo,
para que onde eu estiver, estejam vocês também, e para onde
eu vou, vocês já conhecem o caminho[1]”, e Ayana disse, “Senhor,
mostra-nos o Pai e isso basta para nós”, mas Cristo retrucou,
“Ayana, eu lhe digo, que quem
me viu, viu o Pai. Como é que
você diz, ‘Mostra-nos o Pai’?
Você não acredita que eu estou
no Pai, e que o Pai está em mim?”, e Fayoola disse, “É que
não sabemos o que pedir”, e Cristo respondeu, “Se vocês
me amam, obedecerão aos meus
mandamentos, e então,
eu pedirei ao Pai, e ele dará a vocês outro Paráclito, para que
permaneça com vocês para sempre. Ele é o Espírito da Verdade,
que o mundo não pode acolher, porque não o vê, nem o conhece.
Vocês o conhecem, porque ele
mora com vocês, e estará com vocês”,
e Bintu disse, chorosa, “Somos órfãs!”, mas Jesus respondeu, “Eu
não deixarei vocês órfãs, mas
voltarei para vocês. Mais um pouco,
e o mundo não me verá, mas vocês me verão, porque eu vivo,
e também vocês viverão, e nesse dia, vocês conhecerão que eu
estou em meu Pai, vocês em mim, e eu em vocês, pois quem aceita
os meus mandamentos e a eles obedece, esse é que me ama, e
quem me ama, será amado por meu Pai, e eu também o amarei
e me manifestarei a ele”, e então Ayoola perguntou, “Senhor,
por que vais manifestar-te a nós e não ao mundo?”, e Jesus disse,
“Se alguém me ama, guarda a
minha palavra, e meu Pai o amará, e
eu e meu Pai viremos e faremos
nele a nossa morada, mas quem
não me ama, não guarda as minhas palavras. E a palavra que vocês
ouvem não é minha, mas é a palavra do Pai que me enviou”, e Amara
falou, “Como poderemos guardar todas as coisas que temos que
aprender?”, e Jesus respondeu, “Essas são as coisas que eu tinha
para dizer estando com vocês, mas
o Paráclito, o Espírito Santo,
que o Pai vai enviar em meu nome, ele ensinará a vocês todas
as coisas e fará vocês lembrarem tudo o que eu lhes disse”, e Ife
conclamou, “Senhor, deixa-nos ao menos um consolo!”, e Jesus
falou, “Eu deixo para vocês a
paz, eu lhes dou a minha paz. A paz
que eu dou para vocês não é a
paz que o mundo dá, e assim
não fiquem perturbadas, nem tenham medo”, e Abayomi então
ajoelhou-se, pedindo, “Não nos deixe sós!”, e Jesus respondeu,
“Abayomi, Ife, Fayoola, Bintu, Amara, Ayana, Ayoola, ouçam-me,
Eu sou a verdadeira videira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo
que não dá fruto em mim, o Pai o corta. Os ramos que dão fruto,
ele os poda para que deem mais fruto ainda. Vocês já estão limpas
por causa da palavra que eu lhes falei. Fiquem unidas a mim,
e eu ficarei unido a vocês. O
ramo que não fica unido à videira
não pode dar fruto. Vocês também não poderão dar fruto,
se não ficarem unidas a mim. Eu sou a videira, e vocês são os ramos.
Quem fica unido a mim, e eu a ele, dará muito fruto, porque
sem mim vocês não podem fazer nada. Quem não fica unido a mim
será jogado fora como um ramo, e secará. Esses ramos são ajuntados,
jogados no fogo e queimados”, e, erguendo um pouco a voz, “Se vocês
ficarem unidas a mim e minhas
palavras permanecem em vocês,
peçam o que quiserem e será concedido a vocês. A glória de meu Pai
se manifesta quando vocês dão
muitos frutos e se tornam minhas
discípulas. Assim como meu Pai me amou, eu também amei vocês:
permaneçam no meu amor. Se vocês obedecem aos meus mandamentos,
permanecerão no meu amor, assim como eu obedeci aos mandamentos
do meu Pai e permaneço no seu amor. Eu disse isso a vocês para que
dormiram todas no grande quarto que ficava no fundo,
embaixo, perto da nascente cujo murmúrio se ouvia por
toda a noite e a madrugada, e elas tiveram todas o mesmo
sonho, no qual Jesus lhes aparecia, e falava sem mover
os lábios, numa voz que somente ele sabia, “Não fique
e acreditem também em mim, pois existem muitas moradas
na casa de meu Pai, e se não fosse assim, eu lhes teria dito,
porque vou preparar um lugar para vocês, e quando eu for
e lhes tiver preparado um lugar, voltarei e levarei vocês comigo,
para que onde eu estiver, estejam vocês também, e para onde
eu vou, vocês já conhecem o caminho[1]”, e Ayana disse, “Senhor,
mostra-nos o Pai e isso basta para nós”, mas Cristo retrucou,
no Pai, e que o Pai está em mim?”, e Fayoola disse, “É que
não sabemos o que pedir”, e Cristo respondeu, “Se vocês
eu pedirei ao Pai, e ele dará a vocês outro Paráclito, para que
permaneça com vocês para sempre. Ele é o Espírito da Verdade,
que o mundo não pode acolher, porque não o vê, nem o conhece.
e Bintu disse, chorosa, “Somos órfãs!”, mas Jesus respondeu, “Eu
e o mundo não me verá, mas vocês me verão, porque eu vivo,
e também vocês viverão, e nesse dia, vocês conhecerão que eu
estou em meu Pai, vocês em mim, e eu em vocês, pois quem aceita
os meus mandamentos e a eles obedece, esse é que me ama, e
quem me ama, será amado por meu Pai, e eu também o amarei
e me manifestarei a ele”, e então Ayoola perguntou, “Senhor,
por que vais manifestar-te a nós e não ao mundo?”, e Jesus disse,
não me ama, não guarda as minhas palavras. E a palavra que vocês
ouvem não é minha, mas é a palavra do Pai que me enviou”, e Amara
falou, “Como poderemos guardar todas as coisas que temos que
aprender?”, e Jesus respondeu, “Essas são as coisas que eu tinha
que o Pai vai enviar em meu nome, ele ensinará a vocês todas
as coisas e fará vocês lembrarem tudo o que eu lhes disse”, e Ife
conclamou, “Senhor, deixa-nos ao menos um consolo!”, e Jesus
não fiquem perturbadas, nem tenham medo”, e Abayomi então
ajoelhou-se, pedindo, “Não nos deixe sós!”, e Jesus respondeu,
“Abayomi, Ife, Fayoola, Bintu, Amara, Ayana, Ayoola, ouçam-me,
Eu sou a verdadeira videira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo
que não dá fruto em mim, o Pai o corta. Os ramos que dão fruto,
ele os poda para que deem mais fruto ainda. Vocês já estão limpas
por causa da palavra que eu lhes falei. Fiquem unidas a mim,
não pode dar fruto. Vocês também não poderão dar fruto,
se não ficarem unidas a mim. Eu sou a videira, e vocês são os ramos.
Quem fica unido a mim, e eu a ele, dará muito fruto, porque
sem mim vocês não podem fazer nada. Quem não fica unido a mim
será jogado fora como um ramo, e secará. Esses ramos são ajuntados,
jogados no fogo e queimados”, e, erguendo um pouco a voz, “Se vocês
peçam o que quiserem e será concedido a vocês. A glória de meu Pai
discípulas. Assim como meu Pai me amou, eu também amei vocês:
permaneçam no meu amor. Se vocês obedecem aos meus mandamentos,
permanecerão no meu amor, assim como eu obedeci aos mandamentos
do meu Pai e permaneço no seu amor. Eu disse isso a vocês para que
minha alegria esteja em vocês, e a alegria
de vocês seja completa. O meu
mandamento é este: amem-se umas às outras, assim como eu amei
vocês. Não existe amor maior do que dar a vida pelas amigas. Não foram
vocês que me escolheram, mas fui eu que escolhi vocês. Eu as destinei
para ir e dar fruto, e para que
o fruto de vocês permaneça. O Pai dará
a vocês qualquer coisa que vocês pedirem em meu nome. O que eu
mando é isto: amem-se umas às outras”, e então, afastando-se, Jesus
completou, “Se o mundo odiar vocês, saibam que odiou primeiro a mim.
Se vocês fossem do mundo, o
mundo amaria o que é dele. Mas o mundo
odiará vocês, porque vocês não são do mundo, pois eu escolhi vocês
e as tirei do mundo”, e Ayana disse, “Senhor!”, mas Jesus cercava-se
de luz invisível, e falou por fim, “O Paráclito, que eu mandarei para vocês
de junto do Pai, é o Espírito
da Verdade que procede do Pai.
Quando ele vier, dará
testemunho de mim. Vocês também darão
testemunho de mim, porque vocês estão comigo desde o começo.
Ainda tenho muitas coisas para dizer, mas agora vocês não seriam
capazes de suportar. Quando vier o Espírito da Verdade, ele
encaminhará vocês para toda a verdade, porque o Espírito não falará
em seu próprio nome, mas dirá o que escutou e anunciará para vocês
as coisas que vão acontecer. O Espírito da Verdade manifestará
a minha glória, porque ele vai
receber daquilo que é meu,
e o interpretará para vocês. Tudo o que pertence ao Pai, é meu também.
Por isso é que eu disse: o Espírito vai receber daquilo que é meu,
e o interpretará para vocês”, e da luz que se tornava cada vez mais
intensa, saiu ainda a sua voz, dizendo, “Daqui a pouco vocês não
me verão mais, porém, mais um
pouco, e vocês me tornarão a ver”,
e então as mulheres despertaram
todas ao mesmo tempo, e não
sabiam o que havia acontecido, o que aconteceria, nem o que estava
acontecendo, e abraçaram-se umas às outras, e assim estiveram
até que o galo cantou, e o sol surgiu detrás da serra, anunciando
que a vida continuava, e que tudo estava em ordem e a contento. (22-4-26)
mandamento é este: amem-se umas às outras, assim como eu amei
vocês. Não existe amor maior do que dar a vida pelas amigas. Não foram
vocês que me escolheram, mas fui eu que escolhi vocês. Eu as destinei
a vocês qualquer coisa que vocês pedirem em meu nome. O que eu
mando é isto: amem-se umas às outras”, e então, afastando-se, Jesus
completou, “Se o mundo odiar vocês, saibam que odiou primeiro a mim.
odiará vocês, porque vocês não são do mundo, pois eu escolhi vocês
e as tirei do mundo”, e Ayana disse, “Senhor!”, mas Jesus cercava-se
de luz invisível, e falou por fim, “O Paráclito, que eu mandarei para vocês
testemunho de mim, porque vocês estão comigo desde o começo.
Ainda tenho muitas coisas para dizer, mas agora vocês não seriam
capazes de suportar. Quando vier o Espírito da Verdade, ele
encaminhará vocês para toda a verdade, porque o Espírito não falará
em seu próprio nome, mas dirá o que escutou e anunciará para vocês
as coisas que vão acontecer. O Espírito da Verdade manifestará
e o interpretará para vocês. Tudo o que pertence ao Pai, é meu também.
Por isso é que eu disse: o Espírito vai receber daquilo que é meu,
e o interpretará para vocês”, e da luz que se tornava cada vez mais
intensa, saiu ainda a sua voz, dizendo, “Daqui a pouco vocês não
sabiam o que havia acontecido, o que aconteceria, nem o que estava
acontecendo, e abraçaram-se umas às outras, e assim estiveram
até que o galo cantou, e o sol surgiu detrás da serra, anunciando
que a vida continuava, e que tudo estava em ordem e a contento. (22-4-26)
3. A CASA DE MEU PAI
“A Páscoa dos judeus estava próxima, e Jesus
subiu para Jerusalém, e lá, no
Templo, Ele encontrou
os vendedores de bois, ovelhas e pombas,
e os cambistas sentados, e então fez um chicote
de cordas e expulsou todos do Templo, junto com
as ovelhas e os bois, e esparramou as moedas
e derrubou as mesas dos cambistas, e disse
aos que vendiam pombas, ‘Tirem isso daqui!
Não transformem a casa de meu Pai num mercado’,
e seus discípulos se lembraram do que diz a Escritura:
‘O zelo pela tua casa me consome’.[2]”, e o padre Pio
explicava aos seus seguidores, que já formavam
uma consistente comunidade ao
redor de seu guia,
de seu carisma de orador, que o Templo do Senhor
deve permanecer imaculado, jamais tocado
pelas coisas mundanas, de modo que bois, ovelhas,
pombas, pessoas que mexem com dinheiro e o mundo,
devem permanecer fora, sem se misturar jamais,
e assim os fieis traziam a ele os
frutos da terra,
que sustentavam a aldeia de Nazaré, como a chamaram,
para que ele os abençoasse, e assim regressavam
às suas casas, na maior felicidade, e tudo dividiam
entre si, de cada um segundo as suas possibilidades,
a cada um segundo as suas necessidades, e a igreja
que haviam erguido enchia-se de
gente a cada dia,
para compartilhar as orações e as homilias de Pio,
e dali saiam repetindo suas palavras, e sua fama
se espalhava por toda a região, e cada vez mais gente,
fossem escravos fugidos, simples trabalhadores,
mulheres abandonadas por seus
maridos, órfãos
e viúvas ajuntavam-se, construíam seus casebres
e passavam a viver todos juntos, e aguardavam
que Pio lhes anunciasse o dia em que Jesus voltaria
à terra, para conduzir ao céu os escolhidos e os justos. (24-4-26)
os vendedores de bois, ovelhas e pombas,
e os cambistas sentados, e então fez um chicote
de cordas e expulsou todos do Templo, junto com
as ovelhas e os bois, e esparramou as moedas
e derrubou as mesas dos cambistas, e disse
aos que vendiam pombas, ‘Tirem isso daqui!
Não transformem a casa de meu Pai num mercado’,
e seus discípulos se lembraram do que diz a Escritura:
‘O zelo pela tua casa me consome’.[2]”, e o padre Pio
explicava aos seus seguidores, que já formavam
de seu carisma de orador, que o Templo do Senhor
deve permanecer imaculado, jamais tocado
pelas coisas mundanas, de modo que bois, ovelhas,
pombas, pessoas que mexem com dinheiro e o mundo,
devem permanecer fora, sem se misturar jamais,
que sustentavam a aldeia de Nazaré, como a chamaram,
para que ele os abençoasse, e assim regressavam
às suas casas, na maior felicidade, e tudo dividiam
entre si, de cada um segundo as suas possibilidades,
a cada um segundo as suas necessidades, e a igreja
para compartilhar as orações e as homilias de Pio,
e dali saiam repetindo suas palavras, e sua fama
se espalhava por toda a região, e cada vez mais gente,
fossem escravos fugidos, simples trabalhadores,
e viúvas ajuntavam-se, construíam seus casebres
e passavam a viver todos juntos, e aguardavam
que Pio lhes anunciasse o dia em que Jesus voltaria
à terra, para conduzir ao céu os escolhidos e os justos. (24-4-26)
4. O TEMPLO INTERIOR
“Jesus encontrou os vendedores de bois,
ovelhas
e pombas, e os cambistas
sentados, e então fez
um chicote de cordas e expulsou todos do Templo,
junto com as ovelhas e os bois, e esparramou
as moedas e derrubou as mesas dos cambistas,
e disse aos que vendiam pombas, ‘Tirem isso daqui!
Não transformem a casa de meu Pai num mercado!’”,
e Tchissola explicou às mulheres
que aquilo se referia
à pessoa interior, que reside no centro do ser, cercada
pelos afazeres da personalidade, que se reveste
de toda espécie de adornos e pensamentos, impedindo
que a voz do Espírito seja escutada, e que é preciso
retirar essas camadas que não pertencem ao Templo
da alma, ainda que sejam
necessárias ao sustento
da vida, e sendo assim Cristo não destruiu as coisas
que encontrou ali, mas ordenou que fossem tiradas
para fora do recinto, esse recinto onde a pessoa interior
realiza então sua conexão com Deus, livre de tudo
o que a cercava falsamente, de
tudo o que se intrometeu
no recinto sagrado da oração silenciosa da alma,
fazendo barulho por tudo e por nada, e somente então
podemos encontrar a verdadeira liberdade e a paz,
e nos tornarmos até mesmo irmãos biológicos de Cristo,
porque comemos de seu corpo e de
seu sangue, pois
como disse Santo Isaac o Sírio, “O mundo se mistura
com Deus na Eucaristia, de modo
que a Criação e o Criador
passam a constituir uma só coisa, coesa e contínua[3]”,
e por isso oferecemos a Deus as
primícias de tudo o que
fazemos, e lhe agradecemos pelo que nos dá, o sol, a chuva,
as estações do ano, a natureza e o cosmo, e lhe oferecemos
os frutos do engenho humano, o pão e o vinho, que,
mais do que a uva e o trigo, revelam nossa gratidão
e o reconhecimento pelo modo como fomos construídos. (24-4-26)
um chicote de cordas e expulsou todos do Templo,
junto com as ovelhas e os bois, e esparramou
as moedas e derrubou as mesas dos cambistas,
e disse aos que vendiam pombas, ‘Tirem isso daqui!
Não transformem a casa de meu Pai num mercado!’”,
à pessoa interior, que reside no centro do ser, cercada
pelos afazeres da personalidade, que se reveste
de toda espécie de adornos e pensamentos, impedindo
que a voz do Espírito seja escutada, e que é preciso
retirar essas camadas que não pertencem ao Templo
da vida, e sendo assim Cristo não destruiu as coisas
que encontrou ali, mas ordenou que fossem tiradas
para fora do recinto, esse recinto onde a pessoa interior
realiza então sua conexão com Deus, livre de tudo
no recinto sagrado da oração silenciosa da alma,
fazendo barulho por tudo e por nada, e somente então
podemos encontrar a verdadeira liberdade e a paz,
e nos tornarmos até mesmo irmãos biológicos de Cristo,
como disse Santo Isaac o Sírio, “O mundo se mistura
passam a constituir uma só coisa, coesa e contínua[3]”,
fazemos, e lhe agradecemos pelo que nos dá, o sol, a chuva,
as estações do ano, a natureza e o cosmo, e lhe oferecemos
os frutos do engenho humano, o pão e o vinho, que,
mais do que a uva e o trigo, revelam nossa gratidão
e o reconhecimento pelo modo como fomos construídos. (24-4-26)
5. O ZELO PELA TUA CASA
“O zelo pela Tua casa me devorará[4]”,
e assim
a pequena igreja erguida pelo Padre Pio ia sendo
construída com tanto amor e carinho, que dava
gosto de ver, o modo como, em meio à pobreza
mais extrema, os fiéis conseguiam uma beleza
feita de coisas simples, e todos repetiam, “Senhor,
Tu que abençoas os que Te
bendizem, e santifica
os que confiam em Ti, salva o Teu povo, e abençoa
a Tua herança; conserva a plenitude da Tua Igreja,
santifica aqueles que amam o esplendor de Tua casa,
recompensa-os com o Teu divino poder, e não
nos abandones a nós, que em Ti confiamos[5]”,
e Tchissola e as mulheres proclamavam,
“O zelo
pela Tua casa me devorará”,
mas se referiam
ao cuidado e o amor que devemos à pessoa interior,
a verdadeira Casa do Senhor, o cálice que é preciso
limpar por dentro[6], essa limpeza de que só o fogo
é capaz, consumindo todas as impurezas acumuladas
pela pessoa exterior, oferecendo em holocausto
a Deus o homem velho, e assim elas recitavam,
e falavam de seu caminho como se
não fosse
próprio, mas que é, ocultamente, aquele que
percorremos, todo dia, toda hora, reconstruindo
o Templo que voluntariamente destruímos, para
o reerguer em três dias com os corações e mentes,
e assim elas cantavam, em uníssono, “Senhor,
Tu que abençoas os que Te
bendizem, e santifica
os que confiam em Ti, salva o Teu povo, e abençoa
a Tua herança; conserva a plenitude da Tua Igreja,
santifica aqueles que amam o esplendor de Tua casa,
recompensa-os com o Teu divino poder, e não
nos abandones a nós, que em Ti confiamos.”
a pequena igreja erguida pelo Padre Pio ia sendo
construída com tanto amor e carinho, que dava
gosto de ver, o modo como, em meio à pobreza
mais extrema, os fiéis conseguiam uma beleza
feita de coisas simples, e todos repetiam, “Senhor,
os que confiam em Ti, salva o Teu povo, e abençoa
a Tua herança; conserva a plenitude da Tua Igreja,
santifica aqueles que amam o esplendor de Tua casa,
recompensa-os com o Teu divino poder, e não
nos abandones a nós, que em Ti confiamos[5]”,
ao cuidado e o amor que devemos à pessoa interior,
a verdadeira Casa do Senhor, o cálice que é preciso
limpar por dentro[6], essa limpeza de que só o fogo
é capaz, consumindo todas as impurezas acumuladas
pela pessoa exterior, oferecendo em holocausto
a Deus o homem velho, e assim elas recitavam,
próprio, mas que é, ocultamente, aquele que
percorremos, todo dia, toda hora, reconstruindo
o Templo que voluntariamente destruímos, para
o reerguer em três dias com os corações e mentes,
e assim elas cantavam, em uníssono, “Senhor,
os que confiam em Ti, salva o Teu povo, e abençoa
a Tua herança; conserva a plenitude da Tua Igreja,
santifica aqueles que amam o esplendor de Tua casa,
recompensa-os com o Teu divino poder, e não
nos abandones a nós, que em Ti confiamos.”
6. QUANDO EU PECO
“Quando eu peco, peca Deus comigo, ou há lugar
onde ele não esteja?, há momento em que não me veja?,
não está ele ao meu lado todo o tempo, mais próximo de mim
do que os ossos do meu esqueleto,
absolutamente solidário
com meus sonhos e anseios, conhecedor dos mais profundos
eus que me habitam, não está Deus a par de tudo o que sei,
e do que desconheço, não é ele o
mesmo, do qual sou eu
inseparável, e nenhuma existência há que não tenha nele
seu fim e seu começo, e ainda tudo o que possa haver
de permeio, e então?, ele vira as
costas, fecha os olhos
aos meus erros, mas anota-os todos para jogar-mos na cara
quando o buscar no decurso do meu julgamento, no fim
dessa estranha linha a que chamo
vida, e da qual sei apenas
meu presente endereço? E não, não tenho resposta para isso”.
E Tchissola ria-se de seu não-saber e de seu tolo devaneio. (28-4-26)
onde ele não esteja?, há momento em que não me veja?,
não está ele ao meu lado todo o tempo, mais próximo de mim
com meus sonhos e anseios, conhecedor dos mais profundos
eus que me habitam, não está Deus a par de tudo o que sei,
inseparável, e nenhuma existência há que não tenha nele
seu fim e seu começo, e ainda tudo o que possa haver
aos meus erros, mas anota-os todos para jogar-mos na cara
quando o buscar no decurso do meu julgamento, no fim
meu presente endereço? E não, não tenho resposta para isso”.
E Tchissola ria-se de seu não-saber e de seu tolo devaneio. (28-4-26)
7. A EXPERIÊNCIA DE DEUS
“Não há Deus sem a experiência direta de Deus,
e não há experiência de Deus sem a oração,
e não há oração sem o silêncio da mente
e o esvaziamento do coração, e assim
falar de Deus não é conhecer a
Deus,
é apenas falar, e falar não nos religa com Deus,
e, portanto, não é religião, assim como
não são religião todas as coisas inúteis que fazemos
pensando ‘agradar’ a Deus – como
se isso fosse possível –
de modo que não há Deus fora do recolhimento da alma,
como disse o próprio Cristo, ‘Mas, quando você orar,
vá para seu quarto, feche a
porta e ore a seu Pai,
que está em secreto. Então seu Pai, que vê em secreto,
o recompensará[7]’, e essa recompensa será, ao mesmo tempo,
a experiência de Deus, que é
secreta, e eu não tenho
como transmitir a vocês, e essa é a parte louca da história,
e também a mais verdadeira”. (1-5-26)
e não há experiência de Deus sem a oração,
e não há oração sem o silêncio da mente
e o esvaziamento do coração, e assim
é apenas falar, e falar não nos religa com Deus,
e, portanto, não é religião, assim como
não são religião todas as coisas inúteis que fazemos
de modo que não há Deus fora do recolhimento da alma,
como disse o próprio Cristo, ‘Mas, quando você orar,
que está em secreto. Então seu Pai, que vê em secreto,
o recompensará[7]’, e essa recompensa será, ao mesmo tempo,
como transmitir a vocês, e essa é a parte louca da história,
e também a mais verdadeira”. (1-5-26)
[1] Todas as passagens desse capítulo, conforme João 14: 1 – 15: 26.
[2] João 2: 13-17.
[3] Santo Isaac o Sírio, Homilias.
[4] João 2: 17; Salmo 68: 10.
[5] Liturgia de São João Crisóstomo, Orações Finais.
[6] Mateus 23: 25-26.
[7] Mateus 6:6.
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