23. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 7: ANTÔNIA - 4. CANANEIA E O PEABIRU

 

4.    CANANEIA E O PEABIRU

 

 


Onde encontramos Antônia na vila recém-fundada de Cananéia, no litoral paulista, onde ela ajuda uma moça a fugir de uma multidão de linchadores e, percorrendo o caminho do Peabiru, trilha indígena ancestral, chega a uma aldeia Mbyá, onde é ajudada pelos indígenas locais. Seguindo pelo caminho, Antônia conduz a menina, que ela apelidara de Cananéia, ao Convento. Ali, depois de encontrar-se com Ana (que a essa altura já tem 45 anos), Antônia prossegue sua peregrinação pelas dobras do espaço-tempo.




1. O CHEIRO DA MARESIA






 Antônia já conhecia o cheiro da maresia,
o barulho das ondas contra o costado do barco,
o lento gemer do cordame e o sopro do vento nas velas,
mas, mesmo assim, havia algo de novo ali, e despertando
ela se pôs em pé, olhando ao redor uma paisagem
que não era o Rio de Janeiro, mas era litorânea,
formada por meandros de rios em meio aos mangues,
e ao longe divisava-se uma minúscula vila
para onde se dirigia o barco onde ela estava.
 
Antônia esgueirou-se no meio da carga
de tonéis de aguardente, troncos de madeira de lei
e enormes cachos de bananas, e esperou, enquanto
a embarcação descia mansamente a correnteza,
e se aproximava do cais, que já se divisava,
com diversos barcos atracados e pequenos navios,
quando uma grande explosão se ouviu, e rolos de fumaça
subiram aos céus, entre gritos e correria, e o barco
onde ela estava atracou rapidamente em qualquer margem,
 
e toda a tripulação correu para ver o que havia,
e se depararam lá adiante com o navio “Conde de Áquila”
em chamas, afundando inexoravelmente,
e as pessoas não sabiam o que fazer, até que alguém gritou
“Foi ela!”, e os olhares todos se voltaram
para uma menina negra, que, assustadíssima, descera
do Áquila segundos antes do acidente, e estava parada
no píer, sem saber para onde andar, e naquele momento
um marinheiro louro se pôs a correr em seu encalço,
“Foi ela, foi ela, que vive rondando os navios,
e subindo neles sem permissão, e fuçando tudo,
foi ela, tenho certeza, eu a vi subindo do porão!”,
e a pequena disparou dali, sem nem olhar pra trás,
enquanto um magote de gente a perseguia,
 
até que ela sumiu-se entre a maré e o mangue,
desaparecendo da vista, e Antônia se aproveitou
da confusão e correu até uma grande construção
que parecia um forte, mas que, na verdade,
era a igreja local, e, cobrindo o rosto o melhor que pôde
com um pano que trouxera consigo, viu que a porta
estava aberta, e que todos haviam se dirigido
para o porto, onde o incêndio do Áquila continuava
entre labaredas, fumo, gritos e correria,
sem que nada adiantasse, e o navio, devagarinho
adernava, e aos poucos já não se enxergava o casco
que se fazia em pedaços e diante de todos submergia. (19-5-25)

 


 2. SAIA DE ONDE ESTÁ E VENHA PARA AQUI



Antônia entrou na igreja, dedicada a João Batista,
e espantou-se com a penumbra daquele lugar,
e sentou-se a um canto no escuro, para não ser vista,
e esperou o anoitecer, até que todos se fossem,
e estirou-se no banco para dormir, enquanto
a escuridão da noite enchia tudo com seu manto,
 
e ela fechou os olhos e, adormecida, sonhou
que o Cristo do altar, feito de pau-marfim,
descia de seu suplício e, envolto em sua luz mística,
passeava entre as fileiras de bancos, lenta e meditativamente,
suspirando de quando em quando, e assomando-se
às minúsculas janelas, a olhar para fora, com nostalgia,
 
e voltava a percorrer a igreja, e acabou por se sentar
ao lado dela, e disse, como quem fala consigo mesmo,
"Minha palavra deveria ser loucura para os gregos,
escândalo para os judeus, um desvario
longe de toda compreensão meramente humana,
que a mente não pode alcançar, pois o coração
tem razões que a própria razão desconhece,
 
e para isso fiz esse mundo, do modo como pensei,
não para que fosse entendido, mas para ser lido
como a poesia que é, fiz o mundo com arte,
não com engenharia, mas o pensamento humano
o empobrece, e retira dele toda magia, e não compreende
que o amor é a base de tudo, não a mesquinharia do cálculo
do perde-ganha dessa sociedade esquisita,
 
incapaz de ler um pôr-do-sol, um canto de passarinho,
incapaz de amar, simplesmente, como amei eu,
e dei minha vida – não, não peço amor,
peço apenas que as pessoas sejam vivas, capazes
de se dar umas às outras, como eu me dei,
quero pessoas com fibra, com tesão, com vontade,
como a minha querida samaritana – ah, que saudade! –
uma mulher por inteiro, com alma de fogo,
 
e um olhar sem maldade, mas o que vejo hoje?, fechado
nessa caixa em que me puseram, de adobe e barro amassado,
como se algum perigo rondasse aí fora, mas não,
todo risco que correm está aqui mesmo,
nas ladainhas que repetem, de um fôlego só,
e sem espírito, de que adianta, trocaram
por suco de uva o santo vinho, já ninguém se embriaga,
 
já ninguém faz, pela fé, coisas sem sentido,
já ninguém me quer como eu sou, como eu fui e serei,
por toda a eternidade, amada Antônia, você
que é mulher de verdade, a quem eu chamo irmã,
que lava meus pés a cada passo dessa sua caminhada,
que fere seus pés por mim, que não lhe pedi nada,
 
Antônia, que bom ter te encontrado agora,
que bom te ver aqui dentro dessa igreja,
quando lá fora ainda há tanto a fazer, e uma criança
a espera, para que você caminhe junto dela
e a conduza até mim, que a espero, você sabe onde,
e não se demore, porque a pequena aguarda,
sem nem saber que ela será a próxima irmã,
com sua altivez e desenvoltura, essa princesa de África,
perdida nos manguezais, é ela que eu quero."
 
No sonho de Antônia, de imprevisto, Cristo então ergueu a voz,
e disse alto: “Você, menina, saia de onde está,
e venha para aqui, pois tenho ao meu lado
a pessoa que vai lhe salvar, e vocês terão muito o que fazer,
pois preciso das duas, e quero as duas longe daqui”,
e detrás do altar surgiram dois olhos brilhantes e assustados
e uma figura de criança se encaminhou até ela,
e sentou-se ao seu lado, e subitamente
 
Cristo já não estava ali, mas no seu posto, pendurado
silencioso como sempre, como se nunca houvesse
descido de sua cruz, nem passeado pela igreja,
nem conversado com elas, nem dado ordem alguma,
Cristo era apenas ele, suspenso no instrumento
de seu martírio, calmo e sereno como sempre,
a contemplar do alto a loucura dos homens e seu delírio. (19-5-25)

 

 

3. QUITÉRIA



Quitéria – esse era o nome da menina – chorava
convulsivamente: “Eles iam me matar, tia!,
eles iam me matar, e eu nem fiz nada, mas eles iam
me matar, sem perguntar, eu nem sei o que houve,
 
eu só ouvi uma explosão, e de repente tudo
era fogo e correria, e eu saí daquele porão
para a luz do dia, e lá me apontaram dizendo,
‘Foi ela! Foi ela!’, mas não fui eu, eu nem estava
mexendo em nada, eu só gostava de olhar,
de andar no barco, de passear no rio, eu confesso
que eu fugia da escola só pra isso, mas não fui eu,
 
não fui eu, tia, e agora, o que eu faço?, porque
se eu aparecer na vila, de que vale a minha palavra?,
o dono do barco é um homem duro e rico,
quem vai acreditar na menina preta?, quem?,
nem o padre, nem o bispo, e eu não tenho nem
família direito, nem quem me proteja, nada disso,
o que eu vou fazer, tia?, o que vai acontecer comigo?”,
 
e Antônia tomou-a nos braços, e disse, “Eu acredito
em você, Quitéria querida, aqui você está segura,
pelo menos até que amanheça o dia, e depois
veremos, eu conheço alguns caminhos, e levarei você
até um lugar seguro, vamos nós duas, porque aqui
também eu não tenho amigo senão Jesus, que a colocou
 
ao meu abrigo, e eu farei de tudo para protegê-la,
e iremos juntas e unidas, e em pouco tempo
você estará livre de ser perseguida, e sua vida
vai mudar de um jeito que você nem imagina,
vamos juntas, querida, que já vai raiar o sol,
e temos uma longa jornada nesse dia”,
 
e Quitéria choramingava, “Por que as pessoas
são assim?, por que ninguém me quer, se eu sou
uma boa menina, nunca feri quem quer que fosse,
eu sempre assisti as aulas no colégio, sei até
um pouco de latim, por que me tratam assim,
 
se vão todos à igreja, se dobram o joelho
quando assistem a missa, se dizem ‘amém’
quando o padre fala, e agora me perseguem
e me querem matar, por que as pessoas são assim?...”,
e Antônia replicou, com lágrimas nos olhos,
 
Ser da Igreja não é ser de Cristo,
o mais correto é dizer que ser de Cristo
me leva a estar na Igreja, mas estar na Igreja
não me faz necessariamente estar em Cristo,
pois o Evangelho consiste numa transformação
de dentro pra fora, e então, se eu estou na igreja
sem uma motivação correta do lado de dentro,
 
o que eu faço do lado de fora é vaidade,
eu vou estar sendo ritualista e religiosa,
e é isso que acontece hoje em dia, as pessoas
se dizem cristãs, vivendo literalmente
o oposto da palavra, porque para elas
o fato de ir à igreja define o cristão, e não
o relacionamento com Cristo, e o resultado
 
é que elas vão à igreja, mas nunca oram fora dela
vão à igreja, mas nunca leem a Bíblia fora dela,
vão à igreja, mas fora dela agem como se Deus
não existisse, e isso é fruto desse Evangelho raso
que as pessoas oferecem hoje em dia, um Evangelho
que, pelo desespero de atrair pessoas, de fazê-las acreditar
 
que servir a Deus é um favor que elas fazem para ele,
sendo que Deus não precisa de favor, antes
eu preciso ser favorecida, se você perceber,
até na forma como apresentam Jesus,
quando colocam ele numa posição de necessitado,
tá ligada?, ‘você aceita Jesus?’, como assim
‘eu aceito?’, eu pensei que a pecadora era eu,
 
que a necessitada era eu, que a miserável era eu,
tá ligada?, porque se ele não me aceitar,
ele ainda será justo, a pecadora era eu,
ele é santo, Jesus nunca implorou o amor
de ninguém, mana, e enviou os discípulos
 
pra pregar, e falou assim, ‘Sem não aceitarem
a vossa palavra, se não vos receberdes, ao sair
daquela casa e daquela cidade, sacudi o pó
das vossas vestes’, deixa pra lá, Jesus
não é mercadoria não, Jesus é oportunidade[1]”.
 
E, antes que o sol nascesse, elas pularam pela janela
e correram pelas ruas da vila, e sumiram-se na mata
por um caminho que Antônia nem sabia, mas
que tinha certeza de que era por ali, um caminho
dos índios, só conhecido por poucos, que Martim Afonso
mandara tapar, por medo dos espanhóis, esse caminho
que se percorre com a pé nu, esse caminho
chamado de “caminho branco”, Peabiru. (20-5-25)


[1] Jonathan Votri, MCWJota (1994-2024), Ser da igreja não é ser de Cristo.



4. O PEABIRU



Entre galhos, arbustos, cipós, cobras e macacos
as duas mulheres avançavam pelo caminho
pavimentado desde antes de Cabral, que levava
daqueles litorais paulistas até o Peru, abandonado
por ordem do Governador-Geral Tomé de Souza
em 1533, e mesmo assim não o tomava o mato,
 
permanecendo livre para a caminhada, ainda que
– como todo caminho que se preze – o avanço
fosse difícil, mas elas seguiam com confiança,
parando aqui e ali para descansar, para roer
um pão seco que Quitéria roubara da sacristia,
bebendo nos riachos, catando uma ou outra fruta,
 
dormindo ao relento, aquecendo os corpos
uma da outra, na inocência do companheirismo
que as unia, e Antônia ia explicando à menina
algumas coisas que ela sabia, e conversavam
e Quitéria queria sempre saber mais, e seus olhos
se arregalavam com as coisa que Antônia dizia,
até que chegaram certa tarde a uma aldeia
 
Guarani, dos Mbyá, povo de grande sabedoria,
empurrados de suas terras pelos brancos,
e que logo reconheceram nas duas negras
o sangue que as unia a eles, derramado por Antônia,
pranteado na pele de Quitéria, e as acolheram
e levaram-nas com eles, e as agasalharam
e deram de comer, e sentaram-se a conversar
 
para saber quem eram, de onde vinham,
como sabiam da estrada branca, e para onde,
afinal, estavam indo, se perdidas ou não,
e o que podiam eles, perseguidos também,
desprezados também, fazer por elas, que o destino
tinha levado àquela aldeia no meio do nada,
onde sobreviviam da caça e da pouca agricultura
não mais do que dez ou doze famílias. (20-5-25)

 

 

5. ARARÊ




Antônia falou que vinham de Cananeia,
para salvar Quitéria, que estava jurada de morte,
e agora haviam se esgotado as provisões que tinham,
e estavam com medo de prosseguir, sem ter
o que comer, onde dormir, e com receio
de que as perseguissem os homens da vila,
 
tal o ódio que tinham da menina, sem que elas
compreendessem o porquê, e Ararê, o pajé,
lhes disse, “Não fiquem preocupadas, dizendo:
O que vamos comer?, o que vamos beber?,
o que vamos vestir? Os brancos é que ficam
procurando essas coisas. O Pai de vocês,
que está no céu, sabe que vocês precisam
de tudo isso, e assim, pelo contrário,
 
em primeiro lugar busquem o Reino de Deus
e a sua justiça, e Deus dará a vocês, em acréscimo,
todas essas coisas. Portanto, não se preocupem
com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá
suas próprias preocupações. Basta a cada dia
a sua própria dificuldade[1]”, e prosseguiu,
 
Queremos isso, queremos aquilo, mas tudo
depende de Deus, e por isso pedimos primeiro
seu Reino, para que o resto nos seja acrescentado,
pois só então valerá a palavra que diz, ‘Peçam,
e lhes será dado!, procurem, e encontrarão!,
batam, e a porta abrirão para vocês![2]’”, e também
se lembrem de que vocês mesmos têm uma palavra
 
que descreve esse modo de oração, essa palavra
estranha e magnífica, Gethsemani, o lugar
onde teu Cristo se prostrou pedindo ao Pai
que dele afastasse o cálice do qual beberia,
esse nome misterioso que é o nome próprio
da perfeita forma de oração (que indica
 
o processo de extração do azeite a partir da oliva),
um processo doloroso e paulatino em busca da Graça,
a Graça divina, pela qual nos prostramos
com o rosto por terra, e dizemos “Faça-se como
Tu queres, Pai, não como eu quero[3]”, e seguimos
 
atrás de Cristo, que disse “Segue-me”, porque
só lhe vemos as costas, não o rosto, e não sabemos
que Caminho é esse, que só ele conhece,
e o seguimos, nessa ida nossa, porque
ele é o Caminho, a Verdade e a Vida”.
 
E, voltando-se para Quitéria, falou,
“Você, menina, será Cananeia daqui por diante,
para que não se esqueça nunca de onde veio,
para que, todo o tempo, a acompanhe
essa mesma pessoa que eu vejo aqui,
você mesma, na minha frente, para que nunca
passe o susto que te lançou nesse sendeiro,
 
de onde não se volta, pois é teu Cristo
que te leva, conforme aprendi
de um homem branco, que aqui esteve
de passagem, há muitos anos,
que nossos avós chamaram Sumé,
 
e que nos deixou esse conhecimento,
sabendo que um dia o usaríamos,
quando encontrássemos as pessoas certas
que dele precisariam, para cumprir
com seu destino e com tudo o mais
que, para maior glória de Deus, fariam”. (20-5-25)



[1] Mateus 6: 31-34.

[2] Mateus 7: 11ss.

[3] Mateus 26: 39.



6. BUSQUEM EM PRIMEIRO LUGAR...




“Não duvidem, filhinhas, sequer por um momento,
e sustentem a marcha, porque vocês não vão sozinhas,
e saibam que existem dois tipos de fé, a fé que vem da mente,
que é a da aceitação, que investiga, examina e conclui,
e que não é a fé que salva, e a fé do coração,
como disse alguém uma vez, ‘Eu creio, mas
aumenta a minha fé![1]’, e essa fé habita
 
nas profundezas da alma, é a fé com a qual
nascemos, que é inata ao homem, que forma
o substrato de tudo aquilo em que cremos,
e que nos permite receber a fé mais sublime,
a que vem com a experiência da Graça,
essa que vocês buscam, tenazmente, Antônia,
e pela qual vieram até aqui, e nos juntamos
 
nessa conversação, enquanto os espíritos
dos nossos ancestrais dançam ao redor do fogo
e passeiam pela aldeia de braços dados conosco,
e eu falo a vocês do que aprendi dos velhos,
que aprenderam dos mais velhos, que aprenderam
de Sumé, para que lhes contássemos agora,
 
a verdadeira fé, que vem pelo Espírito Santo,
que é resultado de um processo, longo,
muitas vezes doloroso, a fé da terra fértil,
que faz crescer os dons que recebemos
(porque não podemos nada, e tudo
temos que pedir), essa fé que propicia
 
a visão de Deus por meio da oração,
que depois se torna a iluminação,
e por fim a deificação do ser humano,
na medida daquilo que cada um pode aguentar,
e por isso eu lhes afirmo, meninas,
busquem em primeiro lugar o Reino de Deus
e a sua justiça, e todas essas coisas
serão acrescentadas a vocês[2]’.” (20-5-25)



[1] Marcos 9: 24.

[2] Mateus 6: 33.



7. ANAHÍ




Antônia e Quitéria, aliás Cananeia, permaneceram
na aldeia por alguns dias, mas chegou a hora
de partir, e elas se despediram de Ararê,
que pediu à jovem Anahí que as acompanhasse
para que elas fizessem a viagem mais segura,
e assim seguiram as três pelo caminho,
 
a falar de suas vidas, e Anahí contou que a aldeia
era chamada de ‘tekoá’, porque ela abrigava
toda a cultura de sua gente, e era muito mais
do que um mero lugar, pois ali o chão abrigava
cada passo dado, cada canto, cada ritual,
“o lugar onde somos quem nós somos”, disse Anahí,
“onde somos iguais à essência do humano,
 
onde nossos antepassados se encontram
e conversam conosco nas noites de lua,
e caçamos juntos, e nossos corações se alegram
porque aqui pisaram nossos ancestrais
e pisarão nossos netos, que carregarão
nosso nome, Mbyá, Nhandevá, ‘nossa gente’,
 
Jeguakava Tenonde Porangue'í, 'os primeiros
escolhidos para levar o adorno sagrado de plumas',
e eles irão peregrinar até o oceano, em busca
de Yvi Mara’i, a terra sem males, onde
nosso modo de vida, Teko Porã, poderá
finalmente se realizar em sua plenitude,
 
a verdadeira vida dos Guarani, a vida reta,
que é, em nós, a ação daquilo que vocês,
com toda razão, chamam de Santo Espírito,
quando a natureza se une às pessoas
para criar uma só coisa, um corpo único,
nosso Tekoá final, derradeiro e definitivo,
a criação tal como Deus a pensou no princípio,
onde não há nem fome, nem medo, nem raiva,
nem doenças, nem solidão, nem frio”. (20-5-25)

 

 

8. A ESTRADA




Nascia o sol e o orvalho brilhava nas folhas,
enquanto as três mulheres avançavam pela trilha,
irmanadas no seu destino, e Anahí conversava com os pássaros
e ia contando às outras duas o que eles lhe diziam,
das coisas que Deus reservava àquelas e àqueles
que o ouviam, e louvavam seu amor, e o queriam
 
com fúria, não molemente, mas agarrando-se
como as conchas ao rochedo sob o bater das ondas,
com unhas e dentes, com a garra de quem não esmorece
ainda que todo o mal se apresente, ainda que o mundo
desafie a fé a cada instante, ainda que tudo pareça
não ocultar senão o que vemos adiante,
e que o mistério que move o universo se esconda
 
atrás das aparências e da inconstância da matéria,
atrás da maldade dos homens, atrás, atrás, atrás
das tentativas de colorir o mundo de branco e cinzas,
atrás da cortina de anjos glabros, claros, louros,
que fecham os céus a índios, negros e crioulos,
 
há tantos séculos passados, que já se acostumaram
todos, que Deus é branco, Cristo é polaco,
a Virgem é francesa, João Batista escandinavo,
e não se pensa mais no assunto, muito embora
se esteja aqui no domínio do puro erro teológico,
pois aos olhos do Altíssimo, que nos fez espíritos,
não há homens, nem mulheres, nem gregos,
judeus, pagãos, africanos, chineses ou gentios,
e no momento final, teremos todos o mesmo rosto,
o rosto de Cristo, feito de nova carne e brilho,
 
pois acima de tudo isso Deus assiste, e distribui
o rocio de sua bondade a cada flor pelo caminho,
e abre as portas do Paraíso a todos os seus filhos,
não importa de onde venham, para onde vão,
quem são e qualquer que seja o modo
como a cada um dispõe o Espírito seu destino. (21-5-25)

 

 

9. OUTRA CARTA




E outra carta chegou ao sítio, e as meninas
cercaram o mensageiro, e lhe deram
doces caseiros, de leite, de abóbora e manga verde,
e abriram afoitas o envelope, e leram
com todo gosto, “Minhas amadas irmãs,
caminho com duas mulheres, ambas maravilhosas,
a mais pequena, menina ainda, Quitéria,
agora chamada Cananeia, esperta e curiosa,
e a maior, Anahí, da raça Guarani-Mbyá,
sábia como as aves, reta como o voo da águia,
astuta como a serpente, e conversamos
 
por todo o roteiro sobre a Criação de Deus,
e o modo como a vemos, e Anahí nos ensina
muitas coisas, e de minha parte eu passo a ela
o pouco que sei da oração, que quero agora
partilhar com vocês, pois o caminho até ela,
o caminho que vai da mente ao coração,
não é sem acidentes, e a experiência
de quem já passou por ele muita servidão terá
a vocês, que recém começam a provar
desse suco maravilhoso que Deus nos concedeu.
 
E digo a vocês que, antes de mais nada, procurei
descobrir o lugar do coração, e fechando os olhos,
dirigi o olhar até ele, tentando figurá-lo
tal como é na parte esquerda do peito
e, escutando cuidadosamente suas batidas,
comecei praticando este exercício por meia hora,
nas vezes que caminhávamos em silêncio,
várias vezes ao dia; mas, de início, eu não via
mais do que trevas como se houvesse ali
um escuro abismo, ou precipício,
 
mas logo meu coração apareceu, e eu senti
seu movimento profundo; depois consegui
introduzir em seu interior a prece de Jesus
e fazê-la sair no ritmo da respiração, e para tanto,
vigiando o coração com o espírito, eu inspirava
o ar e o guardava no peito, dizendo, ‘Senhor Jesus Cristo’,
e expirava dizendo: ‘tem piedade de mim’,
e assim exercitei-me a princípio por uma ou duas horas,
depois apliquei-me cada vez mais vezes a esta ocupação
 
e, por fim, passava nela quase todo o dia,
enquanto Cananeia e Anahí chilreavam
como passarinhos, como as melhores amigas,
e caminhávamos por horas dentro da mata,
e quando me sentia sonolenta, fatigada ou inquieta,
relembrava as passagens que lera no Acolhimento
que Inácia e Soeur Madeleine me ensinavam,
que tratavam da atividade do coração, e o desejo
e o zelo pela prece renasciam em mim.
 
Ao cabo de semanas, senti uma dor no coração,
depois um torpor agradável e um sentimento
de consolação e de paz, que me deram mais forças
para exercitar-me na prece, à qual se ligavam
todos os meus pensamentos, e comecei
a sentir uma grande alegria e, a partir deste momento,
 
experimentei de tempos em tempos diversas sensações novas
no coração e no espírito, de modo que às vezes acontecia
uma espécie de efervescência em meu coração
e uma leveza, uma liberdade, uma alegria tão grande,
que eu me sentia transformada e em êxtase,
 
ou então, eu sentia um amor ardente por Jesus Cristo
e por toda a criação divina, e às vezes minhas lágrimas
corriam sozinhas em reconhecimento ao Senhor
que teve compaixão de mim, pecadora endurecida,
e outras vezes ainda meu espírito limitado iluminava-se
a tal ponto que eu compreendia com clareza
coisas que antes não era capaz sequer de conceber,
ou o doce calor de meu coração se espalhava
por todo o meu ser e eu sentia com emoção
a presença indescritível do Senhor, e por vezes também
 
eu sentia uma felicidade intensa e profunda
à invocação do nome de Jesus Cristo e compreendia
o que significam as palavras, ‘O reino de Deus não vem
com aparência exterior, ele está no vosso interior[1]’,
e assim, em meio a estas consolações benfazejas,
eu observei que os efeitos da prece do coração
aparecem sob três formas: no espírito, nos sentidos
e na inteligência, sendo que no espírito, por exemplo,
 
surgem a doçura do amor de Deus, a calma interior,
o arrebatamento do espírito, a pureza dos pensamentos,
o esplendor da ideia de Deus, enquanto que nos sentidos,
vem um agradável calor no coração, a plenitude
da doçura nos membros, a efervescência
da felicidade no coração, a leveza, o vigor da vida,
a insensibilidade às doenças e aos sofrimentos,
 
e na inteligência, a iluminação da razão, a compreensão
da sagrada Escritura, o conhecimento da linguagem
da Criação, o desligamento dos cuidados vãos,
a consciência da doçura da vida interior, a certeza
da proximidade de Deus e de seu amor por todos nós.
 
E caminhamos ainda por esse Peabiru,
que tão poucos conhecem, seguras de não encontrarmos
companhia humana que nos ameace – porque as feras
que por aqui há são mais amigas do que as pessoas
de nossa raça – e esperamos brevemente encontrar
a estrada de chão batido, onde nos aguarda
o mensageiro, que nos conduzirá até o Convento
em que Cananeia ficará, para seu grande bem e benefício[2].
 
Dada aos 15 dias do mês de Maio, do ano da Graça
de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1849, próximo
à freguesia de Mairiporã, província de São Paulo”.

 



[1] Lucas 17:20-21.

[2] Cf. Anônimo, Relatos de um Peregrino Russo, Trabalhos Espirituais, pg. 24.




10. O SER LIVRE




Por três dias as três mulheres esperaram pelo mensageiro,
ocultando-se no mato à beira do caminho de terra,
que ali já era bem mais frequentado, e passavam
tropas de burros e romeiros, paulistas e mineiros,
e não seria bom duas negras e uma indígena
serem vistas por aquelas paragens, sem dono
que as tivesse, o que, por escravaria que fosse,
as protegeria, como propriedades de outrem
a quem caberia sua vigilância e zelo, e ao final
 
aproximou-se, com sua carroça cheia de aviamentos
o velho mensageiro, e as moças se despediram,
e Anahí sumiu-se pelo Peabiru adentro,
e as duas negras saltaram na caçamba,
sob as lonas e sacos de mantimentos,
e dali iniciaram sua viagem até o Convento.
 
E Quitéria perguntou a Antônia, “O que é
esse Deus, de que vocês falam tanto,
se não o vejo, se não entendo onde está,
nem como age, nem por que faz o que faz?”,
e Antônia lhe respondeu, “Se o olhar pudesse
pedir, querida Cananeia, pediria luzes e cores,
 
se pudesse o ouvido pedir, pediria vozes
melódicas, e o paladar, coisas doces, o olfato,
perfumes, e o tato, coisas aveludadas,
mas é preciso ter olhos invisíveis
para ver o invisível, e na neblina o incompreensível
onde Deus existe, não como escuridão,
 
mas como uma luz incriada, cheia de informação,
porque a névoa é na verdade uma passagem
para a luz, que nos dá o Santo Espírito,
como disse Jesus, ‘Se alguém me ama, meu Pai
o amará, e nós viremos, e faremos nele
nossa morada[1]’, porque o Amor é o produto
 
da presença em nós do Espírito, da presença
de Deus em nossa via, essa presença que é
a mais completa manifestação do amor,
que só pode ser contemplado pelo coração,
pois ele não está no mundo, como foi dito,
‘O mundo não me verá mais, mas vós
me vereis[2], pois Deus se revela a quem o ama,
 
e então, ‘Meu Pai enviará o Espírito Santo
em meu nome, e ele vos ensinará tudo[3],
o Espírito da Verdade, que o mundo não pode
receber, porque não o vê nem o conhece[4],
 
para que todos sejam um, Pai, como tu estás
em mim e eu em ti, para que eles estejam
também em nós, para que o mundo creia
que me enviaste, pois eu lhes dei a glória
que me deste[5]’, através do Amor.
 
Por isso você não o vê, Cananeia querida,
porque seu coração é puro, mas sua mente
ainda está cheia de pensamentos desse mundo,
e você se pergunta, ‘o que é isso?, por que
aquilo?, quem é essa?, o que quer aquele?’,
 
e assim seu coração se perde em devaneios,
levado pela mente, e o Espírito, que habita
nele, não tem como se mover, e espera
com paciência que você pacifique sua mente,
para que você se dispa das peles de animais
com que se revestiram nossos ancestrais
Adão e Eva, quando saíram do Paraíso,
 
e se concentre no amor a Deus, e desarme
as armadilhas do caminho, as coisas materiais,
os costumes, a adesão às coisas visíveis
e impermanentes, para que seja possível então
penetrar na divina visão do invisível e do infinito,
não mais buscando a glória do mundo,
mas a oração pura que une a Deus, pois
onde está seu tesouro, aí estará seu coração,
 
e esse amor a Deus impulsionará seu caminhar,
e você poderá cantar, ‘Senhor, restaura-me,
assim como enches o leito dos ribeiros do deserto,
pois aqueles que semearam com lágrimas
com cânticos de alegria colherão, e o que chorava
ao lançar suas sementes, voltará com cantos alegres
trazendo braçadas de feixes nas mãos[6]’, e assim,
 
saiba, Quitéria, Cananeia, que todo humano
traz consigo o desejo da ascensão, mas que isso
dependerá da sua liberdade, essa liberdade
que é um dom de Deus, que existe antes do ser,
pois o crescimento do corpo é involuntário,
automático, mas o crescimento do espírito
acontece quando exercemos nossa liberdade,
libertando-nos das nossas paixões, e vivenciando
o ser livre que existe dentro de cada humano.” (22-5-25)



[1] João 14: 23.

[2] João 14: 19.

[3] João, 14: 26

[4] João 14: 17.

[5] João 17: 21

[6] Salmo 126: 4-6.



11. QUEM É EU?




“Assim, a pergunta a ser feita não é ‘Quem sou eu?’,
mas ‘Quem É eu?’, e esse ‘eu’, que ‘É’, ele
é sem forma, sem imagem – sem espaço nem tempo –
ele é a própria imagem de Deus no ser humano,
a palavra que é dita, sem que Deus precise
entrar em tua casa[1]’ para que você seja salva,
 
esse ‘eu’ que ‘É’, é o homem interior,
oculto no seu coração, esse ‘Si’ que vigia,
aquilo que, em nós, percebe a nós mesmos,
sem que o percebamos, porque nele não há
nada que possa ser percebido, ou melhor,
ele, o homem interior, é percebido pela pessoa,
mas além da ‘percepção’, porque para isso
é necessária a união com Deus, que não é objeto,
 
e por isso a percepção da união com Deus
é a oração, a sinergia do Si com Deus, pois
quem ora é o Espírito Santo, e assim
essa oração se torna união e presença,
face a face com Deus, o rosto secreto de Cristo,
 
e então é preciso gerarmos em nós as condições
para alcançar o homem interior, que consiste
na vigilância ativa – ‘Vigiai e orai[2]’ – para limpar
as camadas exteriores, os pensamentos,
as muitas personalidades, as funcionalidades
do homem exterior, para que, através
desse esvaziamento, cheguemos ao ponto
em que o homem interior encontra a Deus,
 
ou seja, o homem se vê tal como Deus o criou
antes mesmo da própria Criação, e esvaziarmo-nos
dos pensamentos, do que ‘eu quero’, do que
‘eu espero’, do que ‘eu lembro’, de tudo
o que bloqueia o Si, mas isso é doloroso,
 
esse é o verdadeiro ‘Eis aqui a serva do Senhor,
faça-se em mim segundo a Sua vontade[3]’,
por isso é preciso orar sem cessar, para que
possamos perceber a Luz que existe em nós
quando retirarmos os bloqueios da realidade
e liberarmos as energias de Deus.” (22-5-25)



[1] Cf. Mateus 8: 8.

[2] Mateus 26: 41.

[3] Lucas 1: 38.



12. ESSA LUZ




Anoiteceu, e o mundo tingiu-se de escuridão,
e a lua deixou-se ficar em casa, as nuvens
encobriram as estrelas, e não se enxergava nada,
e, depois que a fogueira foi apagada, Antônia disse
a Quitéria, “Veja, Cananeia, como a matéria
é escura, como o universo todo depende da luz,
 
como, sem a luz, não há formas, nem cores,
nem nada faz sentido, pois é a luz que torna no mundo
conhecível, e da mesma forma nossa alma
depende da luz divina para tudo, e sem essa luz
ela vagueia no escuro, tateando com as mãos,
às apalpadelas, sem ter a certeza de nada,
 
dando cada passo com medo, tremendo,
tropeçando em qualquer coisinha,
precipitando-se em qualquer degrau, assim é
nossa alma, sem a luz divina, e se é assim
com esse reflexo da luz que é a razão,
que é a percepção humana, imagine quanto mais
 
se verá, se iluminarmo-nos com a luz incriada,
a energia de Deus, com a qual ele criou tudo do nada,
essa luz que vem iluminada pelas razões de Deus,
que estão acima de todas as razões posteriores,
todas elas criadas, essa luz que ilumina o coração,
 
e nos coloca cara a cara com Deus, essa luz
que transforma o mundo em festa, e faz
das razões dos homens um brinquedo,
e de todo o universo um baile,
e do próprio Criador um poeta.” (22-5-25)

 


 13. AS COISAS DA MENTE




“Não se trata de coisas da mente, do intelecto,
como dizem, mas do coração, como está escrito,
Meu filho, dême o seu coração, mantenha
os seus olhos nos meus caminhos[1]’, para que
a pessoa verdadeira, espelho e face de Deus,
apareça – o ser humano, tal como foi criado
segundo seu modelo, anterior à Criação,
 
esse modelo arquetipal que esquecemos,
porque criamos o ego, que não é a imagem
ancestral, mas que cria as diferentes personalidades,
o pensamento e a lógica, e assim somos compostos
pelas duas faces da mesma moeda, a pessoa
e a lógica, e é essa que cria as situações,
os fenômenos efêmeros, a transitoriedade
e o tempo, que provocam dores na pessoa,
 
e ela tenta curar essas situações criadas pela lógica,
mas não consegue chegar à causa, que é ela própria,
mas apenas alcança os sintomas, aquilo que
imaginamos ser nós mesmos, o nome que temos;
mas não somos esse nome, somos o observador
que nos observa desde dentro, sem que nós
o percebamos, ao mesmo tempo em que a lógica
está todo o tempo projetando e construindo
seu próprio ‘nós’, com base nas suas experiências,
 
criando, por assim dizer, o Princípio DESTE mundo,
esse mundo que deificamos hoje, e por isso
devemos orar, para escapar à roda da sorte;
mas não sabemos como, e pedimos ao Espírito
que ore por nós com gemidos como está dito,
‘Batei e sereis atendidos[2]’, para que nos liguemos
ao cordão umbilical que nos une a Deus,
o homem interior, que nasce dessa mudança
 
de vida, como disse Paulo, ‘Não sou eu quem vive,
mas é Cristo que vive em mim[3]’ – o homem
escondido no coração – e também, ‘Disse Deus,
‘do meio das trevas brilhe a luz!’, e foi ele mesmo
que reluziu em nossos corações para fazer brilhar
 o conhecimento da glória de Deus, que resplandece
na face de Cristo, e todavia, esse tesouro
 
nós o levamos em vasos de barro, para que
todos reconheçam que esse incomparável poder
pertence a Deus e não é propriedade nossa, e somos
atribuladas por todos os lados, mas não desanimamos,
somos postas em extrema dificuldade,
mas não somos vencidas por nenhum obstáculo[4],
pois sabemos “que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus,
também nos ressuscitará com Jesus e
nos colocará, juntamente com vocês, ao seu lado[5].” (23-5-25)



[1] Provérbios 23: 26.

[2] Mateus 7: 7.

[3] Gálatas 2: 20.

[4] 2 Coríntios 4: 6-8.

[5] 2 Coríntios 4: 14.



14. O CAMINHO PARA DENTRO





“Depois da queda, o homem caído modificou
a imagem primeira, porque perdeu a memória
do Protótipo, e desde então, o mesmo ser
se divide entre um homem deificado e um tombado,
e esse ser não pode ser indivisível, como se diz,
 
porque ele precisa viver em comunhão com Deus
para que seja verdadeiramente a sua imagem
e semelhança, e é por isso que ele é chamado
a amar a Deus e às suas irmãs e irmãos,
tendo-os a todos no seu coração, que mostra
a profundidade do homem oculto, que não pode
ser exprimido, porque reside no centro do esplendor
pessoal da pessoa, essa pessoa que é um dom,
 
que existe com reflexo das Três Pessoas, e assim
a posição do homem na Criação vai além da lógica,
pois o homem possui um centro sólido – esse sim,
não divisível – que atrai tudo o que existe ao redor,
na periferia do ego metafísico, para construir
a autoconsciência, para a qual todos são chamados,
 
mas poucos os escolhidos – aqueles que veem e aceitam
o ícone de Deus, sua hipóstase, o lugar da união
com Deus, que é a sua comunhão e semelhança
com Cristo – realizando o caminho que vai do natural
ao sobrenatural, um caminho de iniciação,
a modelagem inicial do protótipo, o encontro
com o conhecimento de Deus, que reside
 
no mais profundo do coração, neutralizando o ego,
e eliminando os pensamentos – que são a fonte
dos processos que configuram e dominam
nossa vida, mas que não são a iluminação –
esses pensamentos que modificam constantemente
nosso ser, para o bem ou para o mal, e assim
 
tentamos compreender a Deus, mas não
para amá-lo, mas para controlá-lo, porque
– não podemos esquecer – a caminhada não é
para frente, mas para dentro, porque é dentro
que está o infinito, a experiência de Cristo,
que não é intelectual, mas empírica,
e somente por meio dessa experiência
podemos atingir a Verdade, que é nosso centro,
 
ao invés de, tendo perdido a memória,
reinventarmos Deus, como se fôssemos
um tipo de médico que, ao invés de curar,
se põe a falar sobre a doença, e assim,
para chegar a Cristo, é preciso perfurar
as camadas do que não é o Cristianismo,
creia-me, através da oração e do silêncio.”
 
Na frente, rédeas na mão, chapéu na cabeça,
o mensageiro e condutor levava a carroça
lentamente, pelos caminhos esburacados
e pelos carreiros, pitando seu pito
e cantando canções de antanho
que trazia dentro do seu peito. (23-5-25)

 


 15. SABOREAR




“Pedimos em nossas orações, em primeiro lugar,
o Reino de Deus, depois o resto, pedimos para participar,
melhor ainda, para ‘saborear’, em Cristo, porque
Deus não pode ser entendido, como o entendem
os filósofos, porque, para compreendermos
a Escritura, é necessária a oração, não o pensamento,
 
e quando o Espírito Santo nos visita na oração,
ele nos ilumina, e nos tornamos capazes de entender
corretamente o conteúdo do que está escrito,
porque, na verdade, a Luz não pode ser traduzida
em palavras (se você entrar num quarto escuro
e alguém lhe disser que há uma mesa ali, você
irá imaginar a mesa que você tem na cabeça,
 
e você pode descrevê-la com suas palavras,
mas quando quarto é iluminado, então você vê
a mesa tal como ela é, e então já não necessita
palavras, porque ela está ali, diante de você),
e por isso os Santos Padres antigos não explicam
a Deus, mas somente apontam para que você
também o veja, como eles o viram, porque eles
 
experimentaram aquilo, e o que leram e ouviram
dos Evangelhos foi transformado dentro deles
pelo Santo Espírito, pela oração sublime,
pela sua participação em Deus, a forma mais alta
da revelação, quando Deus nos glorifica,
a completa revelação da iluminação,
 
a experiência de Deus, simplesmente, e assim
quando o Espírito vem até nós, ele não ora
com palavras novas, mas com as palavras
conhecidas dos homens, tiradas da experiência
humana, e ele transforma, dentro da pessoa que ora,
as palavras lógicas em palavras do coração,
e essa é a experiência da iluminação, a síntese
das palavras conhecidas que vêm pela tradição,
extraídas da experiência comum da humanidade.” (24-5-25)

 



 16. ENCONTRO COM ANA




Ao cabo de mais alguns dias, surgiu
depois da curva da estrada, um muro branco,
que Antônia imediatamente conheceu,
e logo um edifício baixo e uma torre,
e um portão, e o cocheiro deteve a carroça
e as mulheres desceram, e tocaram o sino
 
e venho uma Irmã atender, e as conduziu
para dentro, e levou-as até a Superiora
do Convento, Madre Maria do Egito,
que olhou para elas sem espanto,
e para Antônia, como a alguém que conhecia,
mas ela se apresentou como Eulália,
e as duas foram convidadas de imediato
a passar ali os dias, e Cananeia
foi apresentada a todas as partes do edifício,
e assim chegaram até a cozinha,
onde estava Ana atarefada, e Antônia
a reconheceu de imediato, embora
Ana tivesse já quarenta e cinco anos,
e ela, Antônia, pouco mais de vinte,
 
e seus olhos se encheram de lágrimas
que rolavam à toa pelo rosto (e Antônia
culpou a cebola, mas não era por isso),
e malgrado o inusitado de tudo aquilo,
a mãe – a mais jovem – e a filha
atiraram-se aos braços uma da outra,
em convulsivo amor, e se deixaram ficar ali,
enquanto Ana contava sua história de vida,
e Eulália e Cananeia ouviam atentas,
e Antônia recordava os anos felizes
 
no Recolhimento nos tempos do Rio de Janeiro,
ela e sua filha querida, que agora via,
tão crescida e mais velha do que si mesma,
e seu amor parecia explodir no peito,
e ela teve que se conter, tanto quanto podia,
para não ficar ali e fugir ao seu destino,
até que, por fim, a chamou Maria do Egito
e lhe disse à parte, para que ninguém ouvisse,
 
“Antônia, minha filha, obrigado por nos trazer
Ana, sua menina, e Tecla, e agora Cananeia,
e Maria, que virá, que você nos há de devolver,
e agora peço que você nos traga Teodora,
que está perdida por aí, e necessita
que alguém a adote, e esse alguém
será você, que a trará também aqui,
 
quando chegar o tempo certo
e o dia preciso, e então, minha filha,
siga agora seu caminho, e nos veremos
de novo, em breve, e anseio por esse dia,
em que nos encontraremos outra vez,
para sua, minha e nossa alegria”.
 
E Antônia então se despediu de todas,
e de Ana e de Quitéria, aliás Cananeia,
e Ana a presenteou com docinhos,
sua criança, tão mais crescida do que ela,
e então ela pôde chorar tudo o que queria,
 
e guardara no peito, desde que voltara
a ter em seus braços a filha, que deixara
naquele tempo longínquo, quando
as duas deixaram o Recolhimento,
para cada qual seguir com sua vida. (24-5-25)


 

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