22. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 7: ANTÔNIA - 3. ANA E O ORFANATO

 

3.   ANA E O ORFANATO

 



Onde descobrimos que Antônia acorda no Rio de Janeiro ao tempo de Dom João VI, grávida por causa do abuso cometido pelos capangas do cafetão. Abrigando-se no Recolhimento de Nossa Senhora dos Prazeres, ela dá à luz uma menina, Ana, e passa a viver ali por alguns anos. Ao cabo de certo tempo, pressentindo que sua história irá continuar, Ana confia a filha a uma amiga, pedindo que a leve ao Convento da Anunciação, enquanto ela própria é mais uma vez levada a outros tempos e outras plagas.



 

1. O RECOLHIMENTO




Antônia despertou num beco, entre caixas de arenque,
garrafas quebradas, tábuas e tijolos de alguma demolição,
e viu que ainda sobraçava sua querida mala, onde guardara
todos os papéis escritos por ela e pelas suas matriarcas,
que salvara do fogo no incêndio do Convento, ocasião
em que se fizera ao mundo, sem saber o que a aguardava.
 
Ainda tonta, esperou que sua mente se reordenasse,
e viu com estranheza que o lugar não era nada daquilo
onde adormecera anteriormente, nem eram matas indômitas
o que via ao redor, nem havia a estrada, nem o cabaré
onde se abrigara, enfim: nada com que adormecera
estava lá, agora que acordava, mas um beco bem sujo,
 
casas maltratadas, ao fim uma rua calçada de pedras
e o que lhe pareceu uma espécie de cais, no qual
embarcações antiquadas se balançavam na maré,
ao raiar do sol, saudado por gaivotas e um odor de peixe,
e um cheiro que café, que vinha não-sei-donde,
mas que prometia um novo dia pela frente, ainda que
nada do que estivesse ali ela reconhecia.
 
Antônia passou a mão pelo rosto e os cabelos,
e viu que estava muito ensanguentada,
assim como suas roupas, em farrapos, e lembrou-se
dos homens que a assaltaram, mas se perguntava
como viera a dar naquele beco, numa cidade desconhecida,
e num tempo que para ela era todo novidade,
 
e levantou-se cambaleando, e saiu para a rua,
vendo que ali era um cais, mas com embarcações
muito antigas, a velas e remos, e as pessoas que circulavam
por ali lembravam mais aquelas dos tempos da fazenda,
quando ela foi escravizada, e dona Lúcia a salvara
mais de uma vez do fazendeiro, e Antônia se pôs a andar,
ao longo de grandes prédios aduaneiros, solenes e vetustos,
 
e becos imundos e mal-cheirosos, onde personagens duvidosos
encostavam-se pelas paredes, e pequenas portas abriam-se
e fechavam-se, dando passagem a homens e mulheres
em atitudes suspeitas, e Antônia chegou a um grande largo,
já afastado do mar, onde um austero edifício ostentava
os dizeres "Recolhimento de Nossa Senhora dos Prazeres",
 
e animada com isso, para lá se dirigiu, com a certeza
de ser recebida, pois ali haveria Deus, e onde ele está
o desamparado sempre encontra guarida, não importa
a dor que tenha, ou por maior que seja o desespero. (12-5-25)

 

 

2. ESSA CRIANÇA QUE VOCÊ ESPERA 




Uma noviça abriu a portinhola, e arregalou os olhos
ante a figura de Antônia, coberta de sangue, estropiada
até o último fio de cabelo, as poucas roupas sujas rasgadas
e a pesada mala, que ela arrastava, agarrada à alça
como se ali estivesse a razão de sua vida
e seu tesouro, no qual pusesse todo seu zelo,
 
e a fez entrar e sentar-se num banco do pátio,
e correu a buscar ajuda, e vieram e a levaram para dentro,
a uma espécie de enfermaria, onde a lavaram
e passaram álcool nos seus ferimentos, e colocaram faixas
e lhe puseram um terço na mão, e a fizeram deitar-se num leito
 
duro como o chão, sem lençol nem travesseiro,
e a cobriram com panos e a deixaram ali,
com a recomendação que não se levantasse, nem tentasse se mover
até que viesse alguém para olhá-la mais atentamente,
e lhe indagassem a respeito de quem era,
de onde vinha, e por que razão estava ela daquele jeito.
 
Antônia encolheu-se e adormeceu, e sonhou
que ao seu lado estava um anjo, que lhe dava a mão
e a chamava de Eulália, e pensou que o melhor
era se fazer de desmemoriada, o que era fácil,
dada a extensão da surra que levara, e de toda a brutalidade
que lhe aplicaram os capangas do Russo,
naquele bordel longínquo, naquele inferno promíscuo
à margem da Transamazônica brasileira.
 
E logo veio uma madre, com olhos bons,
e lhe fez muitas perguntas, e examinou-a, constatando
toda a violência sofrida, da qual nenhum membro seu escapara,
e compadecida disse a Antônia – ou Eulália, como se apresentara –
que ficasse ali com elas, as Freiras do Orfanato,
porque esse era o melhor lugar, no estado em que encontrava,
 
"E essa criança que você espera precisará de cuidados,
tão logo nasça, e a mãezinha também, e então,
minha pequena Eulália, deixe-se ficar conosco,
porque Deus faz bem de todo mal, e tudo o que é bom fica,
e tudo o que é mau passa ligeiro". (12-5-25)

 

 

3. JESUS E SUAS COZINHAS




E assim passaram-se alguns dias, enquanto ela
se acostumava ao seu novo destino, e as paredes
se tornavam conhecidas, e as Irmãs e Freiras
iam ficando mais amigas, e tinham pena dela,
e ela começou a procurar algum serviço
que a pudesse justificar ali, enquanto meditava
na criança de que lhe falara a Madre,
 
Soeur Marie Madeleine, francesa de tão longe vinda,
que se apiedara dela, e a procurava sempre,
e lhe fazia muitas perguntas, e se admirava
de que a negrinha espancada soubesse tanto
das Escrituras, e até de autores que ela desconhecia,
um tanto dos Apologistas, outro tanto da Patrística,
e começou a desconfiar de que ela tinha formação
católica, embora com matizes de outras tintas,
 
e assim Eulália foi adotada entre elas todas,
que a chamavam de irmã, cada qual com seu serviço,
e um mundaréu de crianças para cuidar, brancas, negras,
com traços de índios e mestiços, e afazeres de todo tipo,
e assim logo Eulália foi apresentada à cozinha do edifício,
e passou a ajudante de uma grande negra chamada Inácia,
 
que a instruiu sobre seus afazeres, e onde se guardavam
as panelas, as gamelas e os tachos,
os talheres, facas, espetos, garfos e pratos,
e mostrou-lhe tudo em detalhes, e ali Antônia viu,
pendente junto ao teto, um grande crucifixo,
 
no qual estava pregado o Cristo, coberto de fuligem
e carvão, negro como um tição, mas com aqueles olhos brilhantes
que ela já conhecia de antes, e Antônia sorriu, e disse para si mesma,
"Essa é a minha casa, onde nascerá essa criança,
abençoada pelo nosso Antepassado maior,
meu Jesus, meu Jesuisinho, que aí estás,
que esperaste por mim, tua filha desastrada,
e com paciência infinita, aí onde estás, até que eu chegasse". (12-5-25)

 

 

4. ANA




Mas a criança de que falara Madeleine era bem real,
e logo a barriga de Eulália cresceu, para espanto seu
e pasmo geral, e ela se tornou o assunto do Orfanato inteiro,
junto a recomendações de que não se espalhasse a notícia,
e as Irmãs vinham vê-la, e palpavam-lhe o ventre,
e viam os seios entumecidos, e ela se tornou o bibelô
de todas elas, que a cobriam de cuidados e carinhos,
 
de tal modo que chegou um dia em que a natureza
anunciou seu dito, e uma mui bonita menina nasceu,
e lhe puseram o nome de Ana, a mãe de Maria,
pretinha que só ela, de olhos grandes interrogativos,
e Eulália não cabia em si de contente, e agradecia
a Deus, às irmãs, à Madre e a meio mundo, e a Inácia,
por quem se afeiçoara muito, e principalmente
 
ao Cristo negro crucificado, seu companheiro,
além do tempo e do espaço, que viera buscá-la
e velar por ela, que lhe curara as feridas e lhe dera
a mais linda filha, que Antônia banhava com seu leite
e suas lágrimas, e louvava a Deus, que por meio
de tão estranhos desígnios, a colocara naquele lugar
entre pessoas boas, na segurança de um navio
que singrava os mares do mundo, levado por ventos
de pura bondade, sentimentos e amor a tudo. (12-5-25)

 


 5. OUTRA CARTA DE ANTÔNIA




As meninas no sítio receberam outra carta,
pelo mesmo mensageiro que aparecia na neblina,
e nela estava escrito, com a letra que já conheciam,
“Irmãs amadas, estou cheia de felicidade, encontrei aqui
pessoas de verdade, que amam de coração, e sinto-me
acolhida, como me receberam também vocês, e trabalho
por minha estadia, numa cozinha de sonho, onde esse Cristo
benfazejo e negro como carvão, me aconselha dia após dia,
 
e devo dizer a vocês, amadas filhas, que tive uma menina,
uma criança linda, que se chama Ana, filha do meu destino,
que me alegra todas as horas, e que é cuidada pelas Irmãs
desse Orfanato raríssimo, nessa capital do Rio de Janeiro,
nessa colônia do Brasil, onde tudo acontece, e agora se prepara
para receber a Família Real Portuguesa, que vem para aqui,
fugindo das guerras na Europa, e estão todos muy animados,
 
pois com certeza isso trará grande progresso, cultura
e mais comida à mesa, e devemos ainda lembrar
que a Inglaterra, que guerreia contra a França nessa peleja,
acaba de proibir a escravidão e o tráfico, o que vem a ser
a melhor de todas as coisas, muito embora a gente branca daqui
sempre dê um jeito de burlar a lei, e fazem as coisas,
como eles dizem, “para inglês ver”, e então receio
 
que muito do meu entusiasmo não será justificado,
mas admito também que é um progresso, embora saiba,
como também vocês, que a escravidão, sob todas as suas formas,
continuará sendo uma chaga social na nossa história,
e que o Brasil, tão grande e belo, ainda sofrerá
por muitos anos, essas e outras deformidades, apesar
da grandeza multicolorida do seu povo, das tradições
e da religiosidade, que parece estar mais em contato
 
com Deus, do que todos os joelhos que se dobraram
por séculos, nas salas poeirentas dos castelos e mosteiros,
por gente que se benzia e se banhava em água benta,
sem compreender um único dos mandamentos de Cristo,
enquanto aqui, nessa cozinha poeirenta, encontro
quase a santidade, em moças simples que dão a vida
 
por crianças que nem conhecem, e que tratam como filhas,
como se para isso tivessem nascido – e nasceram –
para diminuir o peso da existência a quem chegou
nesse mundo, sem saber o que é o mal, sem saber
da enormidade da injustiça que por aqui acontece.
 
Mas quero dizer a vocês, amadas filhas,
que, estejam onde estiverem, e façam o que fizerem,
não deixem de orar todo o tempo, pois não há
melhor atividade para o coração, nem exercício
que se lhe compare para a mente, pois o próprio Jesus
nos ordenava dizer o Pai Nosso, e ele próprio afirmou
 
que era preciso orar sem cessar, dizendo: ‘Ama
o Senhor teu Deus com todo o teu coração
e todo o teu espírito[1]; observai, vigiai e orai[2]; e permanecereis
em mim e eu em vós[3]’, e os santos Padres, citando
o testemunho do rei Davi nos salmos: ‘Provem
e vejam como o Senhor é bom[4]’, interpretam-no
dizendo que devemos fazer tudo para conhecer
 
‘a doçura da oração, que devemos buscar
a consolação sem cessar e não nos contentarmos
em recitar uma só vez o Pai Nosso, e então esperem,
pois eu vou ler-lhes o que dizem eles
dos que não tentam estudar a benfazeja prece do coração,
e declaram que eles cometem um triplo erro,
pois, em primeiro lugar, eles se colocam
em contradição com as santas Escrituras;
 
em segundo, eles não admitem que possa haver
para a alma um estado superior e perfeito,
e, contentando-se com as virtudes exteriores,
ignoram a fome e a sede de justiça
e privam-se da beatitude em Deus;
e em terceiro, ao considerar suas virtudes exteriores,
eles caem frequentemente no autocontentamento e na vaidade[5],
 
e assim perdem o vínculo com o Espírito,
a única fonte que temos de verdadeira prece,
aquela que vem de dentro, pela qual lutamos
e acordamos a cada dia cheias de esperança,
e nos esforçamos para segui-la todo o tempo.
 
Com amor em Cristo, de sua irmã Antônia,
dada no Rio de Janeiro, aos 3 de Janeiro de 1808.” (13-5-25)


[1] Mateus 22: 37.

[2] Marcos 13: 33.

[3] João 15: 4.

[4] Salmo 34: 9.

[5] Cf. Anônimo, Relatos de um Peregrino Russo, Segundo Relato.



6. A VIAGEM DE ALDA



Então Alda se levantou e disse, “Meninas, eu me vou,
eu preciso encontrar Antônia, já não me importa nada,
nem sei em que cafundó ela se meteu, mas, por Deus,
hei de encontrá-la, pois sinto que nesse mundo
só o amor de Cristo me basta, mas não me basta
vivê-lo aqui, não me levem a mal, vocês são minhas amadas,
mas tem um coisa grande no meu peito, que bate,
e na próxima vinda do mensageiro partirei com ele,
seja como for, e irei até os confins da terra, mas encontrarei
Eulália, Antônia ou como seja seu nome, pois não penso mais
em viver longe dela, e isso é tudo o que eu quero,
 
e irei até o inferno, onde já estivemos, mas garanto
a vocês, essa jornada minha começa agora, e só descansarei
quando beijar suas mãos, e tocar meus dedos
em suas cicatrizes, e passar a mão em seus cabelos,
e dizer-lhe, ‘Eis-me aqui, Irmã’, para vivermos juntas
essa forma de vida tão desmesurada, esse modo de desterro
sagrado, esse degredo santo, onde estaremos a cada dia
mais longe da terra, e mais próxima do Reino”. (13-5-25)





7. NOVA CARTA




 
E outra carta chegou, pelo mesmo mensageiro,
como que trazida pelo sopro do vento, e dizia,
“Irmãs em Cristo, porque dizemos ‘seja feita a sua Vontade’,
mas esquecemos o quanto há, na vontade de Deus,
de querer, de eros, de desejo e tesão, no sentido esse
dessa coisa tensa e retesa, como a corda do arco antes
de que parta a flecha ao seu objetivo certeiro, essa coisa
que é um sentimento divino que escapa à nossa lógica,
 
que cancela a Natureza, e que põe Deus em diálogo
com os seres, porque ele não nos criou objetos,
mas seres embebidos em diálogo, e criou a liberdade
do homem, igual à sua própria liberdade, pois ele não criou
corpos, não criou robôs, mas seres que respondem
sim ou não, com seu próprio discernimento,
é aqui que começa o diálogo verdadeiro, uma conversa
que tem um sentido ontológico para o homem,
 
e que aponta para a transformação dos modos
de existência de todos os seres, pois quando
o ser humano diz a Deus, ‘Convença-me’,
é nesse momento que se inicia o palestrar,
e é nessa conferência que o homem se transmuta,
e o resultado do diálogo com Deus é a pergunta
 
‘Para onde vai a Criação? E como?’, e essa
é a nossa participação no universo criado,
e o ápice desse diálogo é Cristo, que é em si
a materialização do escopo de Deus para a Criação,
a plenitude da proposta, e sua encarnação nos mostra
 
primeiro, que a natureza humana (embora sozinha
não possa) foi feita para andar sobre as águas,
para ir além do limite do humano (como Pedro,
que ressuscitou Tabita e fez andar o paralítico),
e por isso a natureza humana tem esse desejo,
 
esse mesmo tesão divino, de superar seus limites,
como os santos, que se tornaram Deus pela Graça,
para que vissem o Incriado, porque fomos criados
para a eternidade, não para morrermos, e por isso
tentamos escapar do tempo e do espaço,
e, em segundo, Deus explica bem explicadinho
através de Cristo, que não podemos fazê-lo,
 
e por isso Deus diz, ‘Façamos juntos’,
como quando rezamos a Jesus, e dobramos o joelho,
‘nós te agradecemos, ó Bondoso, porque subiste
por tua própria vontade benevolente à cruz,
a fim de livrar tua criatura da escravidão do inimigo’[1],
que é a morte, para que nossa natureza possa agir
e ser agida acima dos seus limites, e possamos
 
colocar a Deus acima da nossa postura humana,
para vivermos numa sociedade que comunga
todos os seres, para que todas as coisas sejam belas,
harmônicas e excelentes, para que provemos,
que a Criação reside em nós, e o provemos
em nós e para nós mesmos, para que sejamos
a prova viva da Criação maravilhosa, e que sejamos
 
as cenógrafas do mundo criado, o ser psicossomático,
que é um, não dois somados, porque é o resultado
da Semelhança, e que não pode ser descrito,
porque não é o que somos, mas o que seremos,
o lugar da Teofania, que não pode ser realizado
fora da Graça, e onde ela se junta à nossa própria Natureza.
 
Dada no Rio de Janeiro, aos 23 de Abril
do ano da graça de Nosso Senhor de 1812”.

 E, antes que o mensageiro partisse,

Alda se aproximou dele, e disse duas palavras,
e ele assentiu com a cabeça, e ela se despediu
de cada uma das meninas, e de Joana Batista,
que aprovou sua partida, e, montando na garupa
do cavalo, Alda acenou dando adeus, e os três,
ela, o cavalo, o cavaleiro, sumiram-se pela estrada,
além da primeira curva, além da porteira,
ali onde o vento muda, e com ele muda a vida,
e uma outra coisa começa, um caminho sem começo
nem fim, a verdade eterna e a luz verdadeira. (13-5-25)



[1] Matinas da Divina Liturgia, Tropário diante do Ícone de Cristo



8. ALDA SEGUE O CAMINHO




Alda chegou ao Orfanato completamente aturdida,
sem entender nada do que se passara com ela,
transportada misticamente dos confins de Mato Grosso,
em pleno século XX, para as ruas do Rio de Janeiro,
nos tempos de Dom João VI, de que ela nada sabia,
e viu-se diante de uma portinhola, num muro branco
que parecia não ter fim, e tocou um sininho,
 
e vieram abrir, e ela viu uma Freira toda em hábito vestida,
coisa que nunca vira, e dir-se-ia que não era maior
seu espanto, do que o da Freira que ali a via, e Alda indagou
por Eulália, Antônia, ou que nome tivesse, “uma moça
preta, pequena e muito bonita, com uma filha”,
e logo a Freira deixou-a entrar, e foi correndo
 
a buscar Eulália, Antônia ou sei-lá, que veio correndo
e cheia de lágrimas atirou-se ao pescoço de Alda,
e ambas choraram, e pularam, e dançaram,
e se deram as mãos, enquanto as Freiras todas vinham
a ver o que se passava, e davam com as duas irmãs,
que se beijavam e tocavam e abraçavam,
 
e veio também Ana, pequenina e muito comportada,
que beijou a mão da “tia”, que, comovida, retribuiu
levantando-a nos ares com seus braços, e rodopiou
com ela no pátio, e logo foram todas a Soeur Madeleine,
que parecia saber de tudo, mesmo que não soubesse de nada,
e o Orfanato estava em festa, e todas as crianças
formaram uma ciranda no átrio da capela,
 
e Inácia veio de sua cozinha com um prato de bolinhos
e suco de caju, que todas tomaram, e então Eulália
conduziu Alda pelo Orfanato, a lhe mostrar as coisas,
mas sem explicar como viera dar ali, nem
o que lhe havia acontecido, de que dava testemunho
uma nova cicatriz, dessa vez na testa de Antônia,
 
de quando os capangas de Russo a brutalizaram
naquele dia distante em que foi batida e estuprada
no terreiro em frente ao bordel, e deixada para morrer
na beira indiferente e muda daquela longa estrada. (15-5-25)

 

 


9. A PRECE DO CORAÇÃO




Alda sentou-se diante de Eulália, que lhe contou de si,
sem esconder nada, e seus olhos se arregalavam
a cada nova passagem, mas não havia outra coisa
a fazer, senão acreditar, pois Antônia falava com voz firme,
e Alda sabia que ela nunca mentia, nem torcia a verdade,
e sabia também que o que acontecera com ela própria
era coisa digna de filme, de novela, de livro, tamanho
era o despautério de tomar uma garupa em Mato Grosso
e descer do cavalo no Rio de Janeiro, após dias de marcha,
passando por rios, matas e outeiros, e atravessar
séculos pra frente e pra trás, e chegar num ano que ela
nem mesmo ouvira falar que existiria, e ali ficou ela,
 
a ouvir com atenção cada detalhe, e mais ainda
quando Eulália lhe falou de sua busca por Deus,
e pela oração verdadeira, que ela contou assim:
 
“Eu procurei na Bíblia e li com meus olhos
exatamente tudo o que eu pensava,
que me disseram no velho Convento,
e que eu havia escutado: é preciso orar sem cessar[1],
rezar com o espírito em todas as ocasiões[2],
em todo lugar erguer as mãos suplicantes[3],
e eu refleti muito, mas não sabia o que decidir.
 
Que fazer – pensei eu –, onde encontrar alguém
que possa me explicar essas palavras?
 
Irei às igrejas nas quais pregam homens de renome,
e talvez aí eu encontre o que procuro. Assim,
coloquei-me a caminho, e ouvi muitos
e excelentes sermões sobre a prece.
 
Mas eram todos instruções sobre a prece em geral:
o que é a prece, porque é preciso orar,
quais são os frutos da oração, e tudo o mais,
mas como chegar a orar verdadeiramente
– disto ninguém falou nada, e eu escutei sermões
sobre a prece em espírito e a prece perpétua,
mas não se indicava o modo de se chegar a esta prece,
 
e assim a frequentação dos sermões não me trouxe
o que eu desejava, e por isso eu deixei de ir aos pregadores
e me decidi a buscar com a ajuda de Deus
alguém sábio e experiente que me explicasse esse mistério,
pois era para isto que meu espírito se sentia atraído invencivelmente[4].” (15-5-25)


[1] 1 Tessalonicenses, 5: 17.

[2] Efésios 6: 18.

[3] 1 Timóteo 2: 8.

[4] Anônimo, Relatos de um Peregrino Russo, Primeiro Relato.




10. INÁCIA




Enquanto Antônia falava, as paredes da cozinha
onde estavam pareciam ter ouvidos, e Alda ergueu os olhos
e viu o Cristo, negro de fuligem, silencioso e sábio,
e viu Inácia no fogão, parecendo alheia a tudo,
mas sentiu um calafrio, pois a negra olhou para as duas irmãs
e falou, com doçura inesperada em sua voz áspera,
 
“A oração interior é o esforço incessante do espírito humano
para atingir a Deus, mas para obter sucesso neste benéfico exercício,
convém pedir com muita constância ao Senhor
para que nos ensine a orar sem cessar, e por isso
rezem mais e com mais zelo, e a prece as fará compreender
por si sós como torná-la perpétua;
mas para tanto será preciso muito tempo[1],
 
e voltou-se novamente para o fogo, colocando cebolas
na sopa, e temperos, e a cozinha mergulhou no silêncio,
e só se ouvia o frigir do azeite na chapa, e o borbulhar
da sopa no caldeirão fervente, como a fé que aquecia
o coração de Alda e Antônia, e as palavras mudas
do Cristo negro, tão silencioso quanto eloquente,
 
enquanto Inácia prosseguia, como se falasse pra si mesma,
“Agradeçam a Deus, bem-amadas irmãzinhas,
por ter revelado a vocês uma atração irresistível
para a prece interior perpétua, e reconheçam nisso
o chamado de Deus, e acalmem-se
pensando que desta forma a concordância
da sua vontade com a palavra divina foi devidamente provada;
 foi-lhes dado entender que não é a sabedoria
deste mundo nem um vão desejo de conhecimentos
que conduz à luz celeste – a prece interior perpétua –
mas ao contrário é a pobreza de espírito
e a experiência ativa na simplicidade do coração[2]”. (15-5-25)



[1] Ibid.

[2] Ibid.


11. ALDA, A DE CORAÇÃO PURO



Inácia continuou seu discurso, pouco importando
se era ou não ouvida, mas com a certeza do que dizia,
Por isso vocês não devem se espantar de não ter entendido
nada de profundo obre o ato de rezar
e por não terem aprendido como chegar
a esta atividade perpétua, pois, na verdade,
fala-se muito sobre a oração
e existem inúmeras obras recentes escritas a respeito,
mas todos os julgamentos dos seus autores
estão fundamentados sobre a especulação intelectual,
sobre os conceitos da razão natural
e não sobre a experiência alimentada pela ação;
 
eles falam mais dos atributos da prece
do que de sua essência própria, e um explica muito bem
porque é necessário rezar; outro fala do poder 
dos efeitos benéficos da prece; um terceiro,
das condições necessárias para bem orar,
ou seja o zelo, a atenção, o calor do coração,
a pureza de espírito, a humildade, o arrependimento
que é preciso para se pôr a rezar,
 
mas o que é a oração e como aprender a orar
– a essas questões, que no entanto
são essenciais e fundamentais, raramente encontramos
resposta entre os pregadores destes tempos;
pois elas são mais difíceis do que todas as suas explicações
e demandam não um saber escolar
mas um conhecimento místico, e, coisa ainda mais triste,
esta sabedoria elementar e vã os leva
a medir a Deus com uma escala humana.
 
Muitos cometem um grande erro,
ao pensarem que os meios preparatórios e as boas ações
engendram a oração, enquanto que na verdade
é a oração a fonte das obras e das virtudes.
Eles tomam erradamente os frutos
ou as consequências da prece pelos meios de chegar a ela,
e assim diminuem sua força.
Trata-se de um ponto de vista inteiramente oposto à Escritura,
pois o apóstolo Paulo fala assim da oração: ‘
Eu lhes recomendo orar acima de tudo[1][2]”.
 
Antônia ficou olhando para a grande cozinheira,
e teve um relâmpago em sua mente, a respeito
do porquê ela murmurava incessantemente
palavras inaudíveis, e que mastigava sempre
alguma forma de ladainha, que ela não entendia,
mas que dava a Inácia uma imponência,
e uma altura espiritual que ela só encontrava
no Cristo pendurado lá em cima, a olhar
para aquela cozinha, que tanto a lembrava do Convento,
e Antônia entendeu que ali estava o “alguém”
que ela buscara por todo esse tempo, na dura estrada
que escolhera para sua vida, e que agora compartia
com Alda, a de coração puro, sua nova companheira. (15-5-25)



[1] 1 Timóteo 2: 1.

[2] Anônimo, Relatos de um Peregrino Russo, Primeiro Relato.




12. AINDA A PRECE DO CORAÇÃO





Naquela noite, depois de tudo arrumado, Alda e Antônia
se colocaram ao pé de Inácia, que, com as mãos no avental,
começou a ensinar-lhes devagarinho, que “a prece de Jesus
interior e constante é a invocação contínua e ininterrupta
do nome de Jesus com os lábios, o coração e a inteligência,
com a sensação de sua presença, em todo lugar e todo tempo,
mesmo durante o sono, e que ela se expressa por estas palavras:
‘Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim!’,
e quem se habitua com esta invocação sente um grande consolo
e a necessidade de dizer sempre essa oração;
ao final de algum tempo, a pessoa não pode mais passar sem ela
e ela brota nela por si mesma.
Compreendem agora o que é a prece perpétua?[1]”.
 
E, colocando seus grandes olhos nas duas, Inácia falou,
Permaneçam sentadas no silêncio e na solidão,
inclinem a cabeça, fechem os olhos; respirem mais devagar,
observem com sua imaginação o interior dos seus corações,
reúnam suas inteligências, ou seja, seus pensamentos,
levando-os da cabeça para o seu coração e digam ao respirar:
‘Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim’,
em voz baixa, ou simplesmente em espírito,
e esforcem-se por afastar todos os pensamentos,
sejam pacientes e perseverantes e repitam
muitas, muitas, muitas vezes este exercício[2].”
 
Na semiobscuridade da cozinha o Cristo negro
parecia aprovar aquelas palavras, e Antônia teve a certeza
de que, de alguma forma, ele era o mesmo do Convento,
que tantas vezes ouviu suas queixas, seu pedidos,
seus momentos de hesitação, suas perguntas
sem resposta, suas respostas sem perguntas,
 
toda a sua vida, e que ela reencontrava aqui
(como não percebera isso, em tantos anos?),
doce como sempre, quieto como convém,
mas atento a tudo, e mantendo tudo no rumo certo,
até trazendo Alda até ali, para que as duas seguissem
no Caminho, na Vida, na Verdade e na Luz. (15-5-25)



[1] Ibid.

[2] Ibid.


13. A PRÁTICA




Durante os meses seguintes, Inácia instruiu
as duas meninas, como as chamava, dia a dia,
reunindo-se com elas na cozinha, depois que todas
as demais Irmãs e Freiras se haviam recolhido,
e assim elas varavam as madrugadas em oração
e ao dia seguinte estavam prontas para o serviço,
 
sem cansaço, sem sono, e com dobrado ânimo,
e um sorriso nos lábios, cada vez mais sereno
e mais bonito, e durante esse tempo Soeur Madeleine
as acompanhava de longe, sem que elas soubessem
o que havia entre ela e Inácia, se algum entendimento,
se algum tipo de amizade, contrato ou compromisso.
 
Numa manhã, a Superiora mandou chamar as duas,
Alda e Antônia, e disse-lhes que contassem tudo a ela,
sobre a Oração de Jesus e suas intercorrências, e ambas,
muito surpresas, relataram tudo o que acontecera,
e de como, nos primeiros tempos, sentiram fadiga,
uma espécie de enrijecimento da língua e um ardor
nos maxilares, mas sem nada de desagradável, e depois
um ligeiro incômodo no palato, em seguida no punho
da mão esquerda que segurava o rosário, enquanto
o braço aquecia-se até o cotovelo, produzindo
uma sensação deliciosa, e que isto só as fez
incitar a recitar ainda melhor a prece, e que um dia
 
foram como que despertadas pela oração, e começaram
a dizer a oração logo de manhãzinha, sem outro desejo
do que o de recitar a prece, e que estavam felizes como nunca,
e seus lábios murmuravam sem esforço cada palavra,
e que passaram o dia todo na maior felicidade,
e cumpriram seus afazeres como se nada incomodasse,
e que nos dias que se seguiram, continuaram a invocar
o nome de Jesus, com facilidade e sem jamais se cansar,
 
e Soeur Madeleine disse, de um fôlego só, “Deus lhes deu
o desejo de orar e a possibilidade de fazê-lo sem dificuldade
e esse é um efeito natural produzido pelo exercício
e pela constante aplicação, assim como um moinho
a cuja mó imprimimos um movimento continua
a girar por si mesmo se o deixarmos;
mas, para que ele permaneça em movimento,
é preciso engraxá-lo e dar-lhe vez por outra um novo impulso,
 
e vocês podem ver agora as qualidades maravilhosas
com que o Deus amigo dos homens dotou
nossa própria natureza sensível, e vocês experimentaram
as sensações extraordinárias que podem nascer
mesmo na alma pecadora, na natureza impura
ainda não iluminada pela graça, e que grau de perfeição,
de alegria e de enlevo nos atingem
quando o Senhor nos concede revelar
a prece espiritual espontânea e purificar nossas almas
das paixões mundanas, porque esse é um estado inexprimível,
e a revelação deste mistério é um antegozo da doçura celeste,
e esse é o dom que recebem aqueles que buscam o Senhor
na simplicidade de um coração transbordante de amor!
 
Daqui para frente, eu permito a vocês recitarem
quantas orações quiserem, e que experimentem
consagrar todo o tempo da vigília à prece
e que invoquem o nome de Jesus sem mais contar,
remetendo-se humildemente à vontade de Deus
e esperando seu socorro, e ele não as abandonará
e guiará os seus caminhos[1]”.
 
Antônia, surpresa e agradecida, pensou em falar
a Madeleine sobre o Cristo negro, mas um olhar
da Madre lhe fez pensar que não seria preciso,
porque havia, naquele edifício antigo e em silêncio,
apesar da algazarra das crianças, mais mistérios
do que jamais vira em toda a sua vida
e em tudo o que havia vivido. (15-5-25)



[1] Ibid.



14. VINDE A MIM AS CRIANCINHAS



Cristo chamou as duas Irmãs e lhes disse sem palavras,
como era de seu costume, e que elas se acostumaram
em entendê-lo desse jeito, “Tragam aqui todas as crianças,
porque vou dar uma festa, e quero-as aqui, para que brinquem
e dancem e se divirtam, e que não pensem em nada
senão em estar aqui comigo, pois para elas eu vim,
e são elas que me fazem falta de verdade, e mais ninguém”,
 
e as duas foram até Soeur Madeleine, que autorizou-as em dia e hora,
e vieram todas, e mais todas as Irmãs e Freiras do Orfanato,
e havia uma mesa cheia de doces, e quitutes, e brinquedos
que nunca se acabavam, e todas, meninas e meninos,
gritavam como loucas, e se divertiam, e pulavam e corriam
como fazem as crianças, e as Irmãs e Freiras,
sem entender o que era aquilo, puseram-se também
a cantar, dançar e correr por todo o lado, e comeram
as guloseimas como se nunca houvessem provado
 
tantas delícias, e ao final do dia estavam todas exaustas,
com os hábitos molhados de suor e riso, as bocas sujas
de chocolate, as mãos tremendo de alegria, e logo
recolheram todas as crianças, que algumas já estavam dormindo,
e as levaram para os seus quartos, e foram também elas
a dormir, cansadas e felizes, e no dia seguinte parecia
 
que nada tinha acontecido, mas que houvera
uma espécie de milagre entre aquelas paredes
que agora estavam outra vez calmas, como se tivessem
as mãos postas em prece, e as Irmãs e Freiras se olhavam
e havia um amor renovado entre elas, e as crianças
estavam todas iluminadas, e o Cristo negro,
lá de suas alturas pendurado, sorria um sorriso sério,
 
como se de suas chagas aliviado, e o sangue
que lhe escorria do corpo pingava lentamente
sobre o fogo, como se fosse o tempero que faltava,
como se todo alimento que ali se preparasse
fosse agora abençoado para ser servido. (15-5-25)

 

 

15. A PARTIDA DE ANA



Então Alda se aproximou de Eulália e lhe disse

que chegava a hora de ir-se, porque precisava
voltar às irmãs que deixara, e levar a elas
os ensinamentos que ali recebera, antes que o destino
carregasse as duas para alguma beira do mundo,
sabe-se lá onde, que eram coisas de Antônia,
 
enquanto ela, Alda, só queria retornar à vida no sítio
e dividir a prece de Jesus com as amigas
de uma vida inteira, e que elas esperariam por Antônia,
Eulália ou que nome queira, e elas se abraçaram,
e Antônia falou a Alda, “Vá, irmã, mas lhe peço
de coração que me faça um favor, que é esse:
 
leve consigo a Ana, minha filha amada e querida,
e a deixe aos cuidados de alguém que vou lhe contar,
que fica no Convento aquele de que falei,
e que é o único lugar do mundo em que confio,
e lá ela estará segura, e se tornará, como nós,
mais uma peregrina nesse Caminho, que aceitamos
 
pela Graça de nosso Senhor Jesus Cristo, e deixe
a menina aos cuidados da Madre Superiora,
que se chama Maria do Egito, e da cozinheira,
Tecla, pessoa a quem eu muito estimo, e não
lhes diga mais nada, nem de mim, nem das coisas
que aqui passaram, nem como nos conhecemos,
diga apenas que ela veio desse Orfanato,
 
mandada pela Madre Madeleine, cujo nome
ecoará naquelas paredes como um sino, e assim
minha filhinha será acolhida, e terá sua existência
levada pelas mãos de Cristo, e você fará outra coisa ainda,
pois há na mata uma capela destruída, em cujo chão
eu enterrei a cruz que havia na cozinha
(não se iluda, a cruz está lá, ainda que ao mesmo tempo
esteja pendurada na viga do teto, suja e tranquila),
 
vá até lá com o mensageiro, que sabe onde fica,
desenterre a cruz e a leve para a fazenda consigo,
e coloque-a sobre o fogão a lenha, do mesmo modo
como ela está no velho edifício do Convento,
e nunca limpem o Cristo, negro de fuligem
e do amor que lhe dedicamos nós, as negras
 
que ele libertou de nossos ofícios humanos,
e leve também minha mala grande, com todos os escritos
e todos os livros, e os estudem com afinco,
e me esperem, porque virá logo o dia em que estarei
com vocês, para construirmos juntas um futuro,
que será longo, brilhante, sagrado e lindo”.
 
Então Antônia chamou Ana, e contou-lhe
tudo, tudinho, desde antes de seu nascimento,
e de toda a sua vida, sem esconder detalhe,
e Ana a tudo ouviu com cara de espanto
e inteira credulidade, pois já se acostumara
a muitas outras coisas estranhas, que aconteciam
naquele Recolhimento, e também com as lições
de Inácia, da própria Antônia, e de Soeur
Madeleine, que ela escutava nas noites de lua,
sentada ao pé da grande freira, com sua melhor amiga,
Dita, sua para sempre irmã e companheira,
 
e Ana chamou Dita, e contou-lhe o que acontecia,
e as duas estiveram os próximos dias abraçadas,
em conversas intermináveis, e prometeram
uma à outra que ainda se veriam, e que escreveriam
muitas cartas, amiúde, e que contariam entre elas
suas descobertas, e tudo o mais que houvesse
Deus reservado a elas nos seus caminhos. (15-5-25)

 


16. A CHEGADA DE ANA AO  CONVENTO 




Depois de vários dias de marcha, Alda chegou
na garupa do mensageiro, ao Convento da Anunciação,
trazendo Ana consigo, sempre quieta e curiosa
de seu destino, e foram recebidas pelas Irmãs,
que as levaram à Madre Maria do Egito, a Superiora,
conforme fôra dito por Eulália, e a velha Freira
as acolheu e lhes mostrou todo o Convento,
e disse a Ana, sem que nada lhe tivesse sido dito,
 
“Foi a querida Antônia que te mandou aqui,
e saiba então que aqui terás o mais justo,
e receberás o melhor que podemos lhe dar,
que é Jesus Cristo, de um modo que só aqui existe,
e você reconhecerá, quando chegar à cozinha,
e conhecer Tecla, sua nova amiga, e o nosso
grande Cristo negro, igualzinho ao do Recolhimento,
e aqui você aprenderá um ofício, que vai
muito além do que imaginam os pobres de espírito”,
 
e, voltando-se para Alda, prosseguiu, “Quanto a você,
amada filha, siga por aquele caminho, e encontrará
um atalho depois da pontezinha, e por ele embarafuste,
até encontrar a capelinha que ergueram Joana Batista
e Tecla, que foi derrubada pelo capitão-do-mato
e reerguida tempos depois (mas isso não interessa),
e cave o chão em frente ao altar, onde encontrará
um embrulho enterrado, que você deve levar
para o sítio, onde a esperam suas irmãs, ansiosas
pela sua chegada, da qual já foram avisadas
por algum passarinho que por aqui passou e ouviu isso”.
 
E abençoando a menina que chegava e a moça que partia,
Maria do Egito a conduziu até a porta, onde aguardava
o mensageiro, e Alda subiu outra vez à garupa, e se foi
pelo caminho, e fez tudo o que lhe havia sido dito,
e depois de quinze dias chegou ao Mato Grosso
atravessando outros séculos, até o sítio onde
a aguardavam as meninas, em grande festa, e se reuniram
 
a cantar cantigas, e Alda lhes contava tudo o que se passara,
e abriram a grande mala, cheia de escritos e livros,
e os repartiam entre si, e cada qual queria lê-los mais,
e mais coisas buscar em suas profundas sabedorias,
e a vida se encheu de novos significados, e um novo mundo
ali se abria, para grande festa no céu e alegria na terra,
para toda a criação, incluindo os rios, os montes e os bichinhos. (15-5-25)

 


17. AS COISAS QUE FICARAM PARA TRÁS



 
“Minhas irmãs amadas, não se esqueçam
de que Deus atrai para si o semelhante,
esquecendo as coisas que ficaram para trás
e avançando para as que estão adiante’,
num movimento que se fortalece por si só,
como quando Moisés deixou o Egito,
 
e acampou sob a neblina, e tirou água
da rocha, e viu cair do céu o maná, e estendeu
os braços e derrotou os inimigos, e escutou
as trombetas e penetrou na neblina
com tremor e temor, sem ver o fim,
e ali ele viu o templo de Deus não feito
por mão humana, e ali ele aprendeu os mistérios
do sacerdócio divino, a prefiguração de Cristo
 
como Cordeiro, e desceu a montanha
e destruiu os ídolos, e retornou ainda
para buscar as tábuas que havia partido,
e então sua face brilhava, mas ele queria
ainda mais, inebriado por esse Eros divino,
e ele pediu e provocou a Deus para que aparecesse
não como Deus se parecia, mas como Ele É,
 
porque quanto mais se conhece a Deus,
mais se quer conhecê-lo, e é nisso
que consiste o pedido corajoso da vontade,
o desejo de superar os próprios limites,
de não vermos a face de Deus num espelho,
nem entre a luz e a sombra do chiaroscuro,
mas de frente, e pedimos que toda a criação
 
se una a nós nesse pedido, porque sabemos
que todas as coisas cooperam para o bem
dos que amam a Deus verdadeiramente[1],
e Deus nos responde, ‘Existe um lugar
perto de mim[2]’, e ele nos guiará para ali,
no infinito, onde não há limites, um lugar
onde o movimento é imóvel, um caminho
 
que não tem fim, e é como se, andando
estivéssemos paradas, e isso se chama
hesíquia, a paz interior, o esvaziamento
no qual Deus se oculta, para que o encontremos,
eternamente, num tempo que não é tempo, amém.
 
Com amor de sua irmã Eulália, Antônia,
dada aos 13 dias de Fevereiro, no Rio de Janeiro,
no ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1817.”

 



[1] Romanos 8: 28.

[2] Êxodo 33: 21-23.


18. O CAMINHO SOLITÁRIO



“Assim, desde que Alda e Ana se foram daqui,
vivi em oração junto a Inácia, até que se completou
seu ensinamento, e me despedi das Irmãs que ficavam,
e deixei também o Recolhimento, com as bênçãos
da Superiora Madeleine, e com meus poucos pertences
 
mais uma vez eu avanço sobre o caminho,
solitária, mas tão leve como se uma montanha
tivesse sido tirada das minhas costas, pois a prece me consola
cada vez mais, e às vezes meu coração borbulha
 
com um amor infinito por Jesus Cristo e ondas
benfazejas deste maravilhoso borbulhar espalhavam-se
por todo meu ser, pois a imagem de Jesus Cristo
está de tal modo gravada em meu espírito,
que ao pensar nos eventos do Evangelho era como
se eu os estivesse vendo diante dos meus olhos,
 
e fico emocionada e choro de alegria, e às vezes
sinto em meu coração tamanha felicidade
que não consigo descrever, e sinto que, mesmo
que eu passe a vida longe de qualquer convivência humana
e que, extasiada, me sinta só sobre a terra, miserável
pecadora diante do Deus compassivo e amigo,
 
essa solidão será para minha felicidade
e a doçura da prece será para mim
muito mais sensível do que o contato
com todos os homens e as mulheres do mundo[1].
 
Com amor de sua irmã Antônia, dada aos 5 dias
de Outubro, no Rio de Janeiro, no ano da Graça
de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1820.”



[1] Cf. Anônimo, Relatos de um Peregrino Russo, Segundo Relato, Chegada a Irkutsk.



19. OS OLHOS DA ALMA



“A tua formosura consiste em dar-nos
os olhos da alma para ver teu rosto, Senhor”,
pensou Antônia, e recitou com lágrimas,
‘ó Deus, o meu Deus és tu!, desde a aurora
eu te desejo, minh’alma têm sede de ti,
minha carne desfalece por ti, em uma terra
ressequida, esgotada, sem água.
 
Assim estava quando te contemplei
no santuário, vendo tua força e tua glória,
Senhor, pois a tua fidelidade vale mais do que a vida,
e meus lábios te celebrarão.
 
Assim eu te bendirei enquanto durar minha vida.
Como de gordura e de azeite saciar-me-ei e,
com lábios jubilosos, minha boca entoará louvores.
Quando em meu leito, penso em ti,
passo horas invocando a ti, pois tens sido
meu socorro; à sombra das tuas asas
tenho gritado de alegria e assim agarro-me a ti
com toda a minh’alma, tua destra me sustenta[1].
 
Pois quem beber da água que nos dás,
nunca mais terá sede, pois essa água tornar-se-á
em nós fonte de água jorrando para a vida eterna,
e por isso eu te digo, Senhor, dá-me dessa água,
para que eu não tenha mais sede, nem tenha
de vir a poço algum do mundo para tirá-la![2]



[1] Salmo 62.

[2] João 4: 13-15.

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