21. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 7: ANTÔNIA - 2. MARIA E O CABARÉ

 

2.  MARIA E O CABARÉ

 




Onde Antônia é novamente transportada para outra época e outro lugar, chegando a uma estrada qualquer nos confins da Amazônia, onde encontrará Maria no mesmo prostíbulo para onde fôra dar depois de fugir do Convento. Antônia se compadece das moças do cabaré e acaba por convencê-las a deixar aquele lugar, o que enfurece o cafetão local, que a jura de morte.




 

1. ESTRADA EM MEIO AO NADA




Na boleia do caminhão, Antônia só se lembra
de estar à beira de uma grande estrada lamacenta,
sob árvores imensas, amazônicas, e que chovia, chovia,
uma chuva pesada e quente, e um que outro macaco gritava
de dentro da copa densa da mata, e o cheiro de diesel
do escapamento a lembrava que estava num tempo
que deixara – quando? – e ao qual voltava agora,
 
sentindo-se tonta e cansada, como se um sonho
a houvesse tomado, como se tudo o que vivera
fosse não mais do que imagens geradas febrilmente
por um cérebro exausto – mas então, o que significavam
essas roupas de algodão que vestia?, e as sandálias
que nunca vira antes, e esse cordão, que dava voltas
ao pescoço, cheio de contas de pano, como nós
de um terço místico, o que significavam as marcas
que trazia às costas, que ora descansavam, ora doíam? –
 
que palavras eram aquelas que tinha nos lábios,
ditas numa língua que desconhecia, e porque a olhava
o motorista, de um jeito dissimulado, como se fosse ela
alguma espécie de bicho, agarrada à sua mala velha,
onde guardava ainda os papéis que herdara,
as palavras sábias de suas irmãs, Fatumata, Tecla,
Ana, Cananeia, Teodora e Maria, o que significava
tudo aquilo?, e Antônia olhava a paisagem molhada,
que passava fora enquanto a tarde avançava
 
e uma noite opaca de umidade caía, quando o caminhão
reduziu a marcha, e o homem que dirigia falou,
“É aqui que eu paro toda viagem, se quiser,
tem banho, cama e comida”, e dando uma risadinha,
“e muito boa companhia...”, e buzinando alto
encostou o caminhão de lado, e saltou, e se dirigiu
a uma construção acanhada e escura, em cuja porta
brilhava não mais do que uma luz vermelha,
 
e na fachada se lia “Vênus Dancing”, e de dentro saíram
umas moças muito pouco vestidas, e o caminhoneiro
abraçou-se a uma delas e, rindo e falando alto,
sumiu-se, deixando Antônia ali, sem saber
pra onde olhar, o que falar, como fazer, e então
uma das moças se adiantou e falou com ela,
perguntando-lhe quem era e o que fazia ali,
 
e Antônia contou-lhe qualquer história, a de sempre,
de que perdera a memória, e mal se lembrava
do próprio nome, e perguntada respondeu “Eulália”,
e as demais moças se aproximaram e a conduziram
para dentro, para um salão mal iluminado, com um palco
a um canto, e música muito ruim tocando num aparelho,
e num calendário na parede estava escrito “1956”,
 
e Antônia, aliás Eulália, se deu conta, de que estava ali
nalguma espécie de pardieiro, e de que aquelas moças,
simpáticas e muito maquiadas, eram profissionais
no que faziam, que consistia, básica e finalmente,
em apaziguar os nervos de ajudantes e caminhoneiros,
para que seguissem viagem, relaxados e felizes,
deixando naquele lugar inusitado parte de seu dinheiro,
 
quem sabe uma saudade, quem sabe uma promessa
de voltar um dia, quem sabe, e as moças eram
Rosa, Rosalva e Rosália, Margô, Ana e Margarita,
Iracema, Elizabete (a que se fôra com o motorista),
Valquíria e Maria, e Antônia teve um sobressalto,
porque, sob aquele nome singelo e santo,
estava ali alguém que, mais do que ninguém,
ela, muito bem e certamente, conhecia. (29-4-25)

 

 2. O CABARÉ



A noite encheu-se de homens, de vozes, de gargalhadas,
e aquela péssima música, que Antônia – Eulália – não suportava,
sentada a um canto, parada quieta, a tirar e pôr os copos
e bebidas, passando pano nas mesas, observando os passos
que iam e vinham, as moças sendo apertadas contra corpos pesados,
bebidas que não paravam, suores, camisetas molhadas,
 
e elas, como se se divertissem, os dentes num sorriso,
os olhos brilhantes, o jeito carinhoso com uns,
mimado com outros, sabendo cada qual o seu ofício,
e sumindo-se uma por vez para o fundo da sala,
onde uma porta levava a um corredor de muitos quartos,
e voltando, dali a um tempo, um pouco desalinhadas,
 
as caras cansadas, a se despedir na porta do companheiro
de alguns minutos, ou horas, que voltava para sua jornada,
ligando os motores possantes, as cargas estremecendo
no assoalho do reboque, os revólveres e facas
ao alcance da mão, o perigo que ronda a estrada,
mas a barriga cheia, e a mente sucumbida entre beijos,
ainda cheirando a sexo, médio, bom, uma maravilha,
 
indo-se um por um os grandes caminhões, até que restavam
outra vez as moças, e só a música ruim persistia,
e toca a varrer o chão, e lavar os copos, e os corpos,
e a deitar-se e dormir, que mais um dia raiava sob a selva,
e aquele único pouso, em uma longa jornada,
havia de responder, em poucas horas, à ânsia e ao conforto
 
de outra leva de homens cansados, em busca
de um seio de mulher, uma bebida, uma desordem
– não necessariamente nessa ordem – para seguir viagem,
para entregar, em algum distante paradeiro, a carga,
quem sabe a qual intermediário, e a si mesmos
talvez a uma esposa que, desesperançada, os esperava
com olhos de saudade, distância e medo. (29-4-25)

 


 3. QUEM É VOCÊ?



Antônia lavava os copos na pia suja,
e dela se aproximaram Rosa, Rosalva e Rosália,
um trio que jamais se separava, irmãs de verdade,
nascidas ali mesmo, na beira da estrada,
de alguma mãe que morrera, e um pai que se fôra,
que nem conheceram, e desde meninas
 
peregrinavam pela grande rodovia, na lama,
na poeira, dia e noite sozinhas, tendo apenas
cada uma às outras duas, defendendo-se como podiam,
colecionando as marcas da vida, um filho dado
à madrinha, em Cuiabá, nunca mais visto,
e mil histórias de desejo, amor frustrado, abandono
e maus tratos, uma surra em Itaituba, um aborto
em Altamira, um casamento desfeito em Araguatins,
 
e travessias de balsa, e retas que não tinham fim,
e curvas onde capotavam os incautos, e atoleiros
que nada passava, e o sonho de chegar a João Pessoa,
o pai que fôra visto em Boa Vista – mas era mentira –
e o tempo que passava entre o céu lá fora
e as cortinas violeta do prostíbulo, e esse cadafalso
 
que eram as camas em que dormiam, onde se deitavam
com homens que não queriam, mas a vida é isso,
é preciso aceitar, não sucumbir, é preciso força
e alegria, que homem não gosta de mulher triste,
é preciso estar jovem e bonita, e você, Eulália,
 
de onde vem, afinal, que aqui ninguém acredita
nessa conversa de falta de memória, pra nós
você vem fugida de macho, talvez bandido,
que por aqui reina mais é o tráfico, mas você
não parece drogada, mas essas marcas nas suas costas,
 
você foi flagelada, o que você fez?, porque
para apanhar assim, não é por qualquer coisa,
o que aconteceu?, quem é você?, de onde você veio?,
Eulália, será que, com você por aqui, não corremos nós
tanto perigo como você traz consigo?, Eulália,
por que você não vai embora, e não leva
essa sina desgraçada contigo? (29-4-25)

 


 4. A HISTÓRIA QUE ANTÔNIA CONTOU



Antônia pesou sua plateia, e concluiu, por onde estava
e que época era aquela, que não havia remédio
do que dizer a verdade, ou parte dela, e que melhor seria
se apresentar como Eulália, a Irmã perdida,
que se salvara do incêndio em seu Convento,
“Convento da Anunciação de Maria, não ouviram
falar, pois não faz muito tempo, e desde então
eu ando sozinha, fazendo um caminho que só eu sei,
buscando a Deus onde ele se escondia, e onde,
praza ao Espírito, chegue eu um dia a o encontrar”
 
e as moças recuaram, assustadas, qualquer coisa
seria possível, menos aquilo, e deduziram
que as marcas nas costas eram de algum flagelo,
desses que faz a gente religiosa, quando carregam
mais culpas do que pode perdoar o Pai Eterno,
e silenciaram por instantes, mas logo, numa algaravia
falavam todas juntas, cada qual querendo contar à Freira,
“Não sou Freira, sou apenas Irmã a serviço”,
 
mas não importava, era pessoa de Cristo, e haveria
de receber em confissão os erros passados,
os presentes e os futuros de seu ofício, e assim
logo se espalhou a história pelo prostíbulo,
e cada qual veio para ver “a Irmã”, que a curiosidade
as movia, sem nem saber o porquê, e se enfileiravam
as três, e mais Margô, Alda, Margarita, Iracema, Moema
Elizabete – a mais velha – Valquíria, e, com um olhar
que penetrava a alma e dava arrepios, Maria. (29-4-25)

 


 5. A ASCESE DE ANTÔNIA



“A ascese não é filosofia”, disse Eulália
às meninas em círculo, “tal como pratico,
não é moral, nem ética, nem metafísica,
a ascese é uma forma de vida, que se baseia
na Verdade revelada, e ela parece moralista
para quem a vê de fora, mas não, não se trata disso,
ela não condena a ninguém, a ninguém julga,
porque ela fala de outro mundo, onde a moral não existe,
 
onde está Deus, que não se importa se fazemos o torto
ou o direito, porque ele nos olha no olho de nossa alma,
e o que ele quer saber é dessa luz que nos aclara,
se ela é escura e contamina a existência, se ilumina a vida,
se opera de dentro pra fora, ou de fora pra dentro,
 
se é uma resposta ao que quer a sociedade (argh!),
ou se responde ao anseio interior, do homem verdadeiro,
se ela consiste na purificação do pensamento,
na iluminação do ser, ou se não passa de fingimento,
de uma resposta aos que estão em torno, essa máscara
que afivelamos à cara, para que pareça a quem a vê
que fomos convidadas para o grande banquete do juízo,
 
ainda que estejamos dissolvidas no mundo,
como quer a Queda, que não é resultado de pecarmos,
que não é moral e nada tem a ver com sexo e o mundo sensual,
mas que consiste apenas em que perdemos
a Graça de Deus, que nos acompanhava no Paraíso,
e nos fazia alegres e crianças, inocentes,
não divididas por essa lógica perversa
em que isso é isso, aquilo é aquilo, essa lógica
que separa tudo em quadradinhos, e impede
qualquer possibilidade de escaparmos ao cercado,
porque ele não tem saída para lado algum,
 
mas só para o alto, para Deus, que não faz acepção
de pessoa, para quem a prostituta e o cobrador,
e o paralítico, o surdo-mudo, o louco e o leproso,
têm todos o mesmo rosto da viúva, Deus é isso,
uma oração que começa quando o galo canta
e que continua quando se cala a última cotovia,
 
Deus é pura teologia, que tem que ser vivida,
porque seu Reino não é desse mundo, e o que falamos dele
se refere à outra vida, aquela que Cristo prometeu aos seus,
à qual leva a purificação primeiro, depois a iluminação
e por fim a santificação, a deificação, o tornarmo-nos herdeiras,
já não servas, mas filhas e filhos do divino Reino,
 
sem que dele nos separe a moral, esse código ridículo
escrito por homens sem alma, que leva ao inferno
se o tomarmos por estrito, pois o propósito do humano
não está em cumprir requisitos, mas na perfeição
do Amor, superando a própria autoestima, a filáucia,
 
e por isso a ascese que pratico é uma terapia,
por não ser moral nem ética, mas uma sinergia
entre mim e as energias incriadas de Deus,
que nos criou para isso, mulheres e homens,
e assim não importa onde estamos, e onde estais,
vós, as filhas dessa perdição do destino, pois a cada uma
Deus acolherá no seu Reino, que nada tem a ver
 
nem com a terra, nem com esses lençóis manchados,
nem com essas paredes emboloradas,
nem com seus corpos marcados e gastos,
nem com as cortinas rasgadas, essa música péssima
que não pára de tocar por todo o dia, essas calcinhas
que eu lavo para vocês como se fossem minhas,
Deus vos vê a cada uma como filha, e em seu Amor
ele espera cada qual no seu regaço, para a acolher,
pois, não se esqueçam, seu Reino não é daqui,
 
e, onde ele está, nenhum ser humano chega por si,
mas, ao contrário, é ele que nos atrai, é ele
que nos deseja, é ele que nos perdoa, esquece e releva
todos os erros, pois ele está além da cortina
do mundo, e é preciso darmos o salto definitivo
que nos separa desse limite, em que tudo fica pra trás
e penetrarmos em outra realidade, que está aqui,
bem pertinho, e à qual damos o nome de Paraíso.” (29-4-25)
 


6. EULÁLIA, SEU DESTINO ESTRANHO E SUA MALA



E Antônia implorou às moças que não contassem
a ninguém ser ela religiosa, prometendo
que cuidaria da casa, arrumando, lavando,
passando e cozinhando, pois já estava acostumada,
pois esse era seu trabalho no Convento,
e não haveria ali nenhuma novidade,
 
e todas acharam aquilo muito cômodo,
pois nunca haviam tido empregada, e eram elas
as responsáveis por tudo, e manter a casa
limpa e arrumada não era tarefa fácil,
ainda mais para elas, que dormiam de madrugada,
depois de uma jornada dura e, no mais das vezes, amarga,
 
e assim Eulália se pôs ao trabalho, e assumiu
toda a faina da casa, e puseram-na a dormir
num quarto minúsculo, nos fundos, longe
do movimento e das noitadas, e lá se foi ela,
Antônia, Eulália, seu destino estranho e sua mala. (30-4-25)

 


 7. A HISTÓRIA DE MARGÔ



"Deus é amor?, Deus é amor?”, perguntou Margô,
“Se Deus é amor, que nome você dá ao que eu sofri?,
eu, que me entreguei por paixão a um homem adorável,
que me usou como quis, e me deixou de um dia pra outro,
com um filho seu na barriga, e caiu no mundo
para nunca mais ser visto – ah!, quanto chorei,
 
quanto implorei, quanto pedi a todos os santos
que o trouxessem de volta, que mo devolvessem,
por um minuto ao menos, para que eu visse de novo
seus olhos serenos, os olhos que me enganaram
do modo mais obsceno, menina tão nova, tola,
menina de tudo, mal saída de sua última boneca,
que os pais chamavam Magrinha, de tão pequenina,
 
e aquele bucho que só crescia, como esconder?,
até o dia em que tudo explodiu, e só se ouviu gritaria,
a mãe desesperada – “o que você fez, menina?” – o pai
mergulhando em álcool sua ira, a mão pesada batendo,
uma surra de criar bicho, eu atordoada, sem entender
nada daquilo, mas não me amavam eles?, não era eu
sua menina, a florzinha?, não me deram carinho
 
até o dia fatídico?, não me trataram como princesa,
como rainha, e agora, quem era eu?, uma coisa suja,
um pano de chão, um trapo, uma cadela prenhe,
uma porca, um lixo, a desonra da família,
e fui chutada e trancada no quarto, e me disseram
que assim que nascesse “aquele bicho”, me mandariam
com ele embora, e que eu agradecesse a Deus
por não ter morrido, ou pedisse a ele para morrer,
 
porque o que me esperava era pior do que tudo
que eu já tinha vivido ou visto, e assim foram os meses
até expelir uma menina, que minha mãe prontamente
arrancou-me das mãos e deu sumiço – que fiquei sabendo
anos depois, que está num orfanato pra lá de Rebojinho,
lá no Araguaia, perto do Velasco e da Volta da Piraíba,
 
e nunca a vi, minha filha, minha menina, minha vida,
e assim que saí do hospital minhas malas estavam ali,
e uma passagem de ônibus que passava por Brasil Novo,
Uruará, Rurópolis e Itaituba, depois Bururé, Pau-Rosa,
Sai-Cinza, parando em Manicoré, até terminar
em Nossa Senhora Aparecida, eu, uma mala de roupa velha,
que nem novas as tinha, um trocado para o café,
e daí por diante, que me virasse na vida, ou morresse de fome,
 
dormindo a primeira noite ao relento, a segunda
mergulhada em pinga, a terceira num caminhão,
a quarta em qualquer parada, e a quinta aqui,
onde fui acolhida, e vivo agora de dar amor – amor? –
a esses homens que não me veem, que só esperam de mim
a guarida do sexo malfeito, eu exausta de ser subida,
 
eu debaixo do seu peso, de seu bafo de cigarro,
de conhaque barato, arrotando no meu ouvido seu gozo,
eu que era tão linda, a Magrinha, que definho
como uma planta sem vaso, sem raiz, sem passado,
num presente que é uma forma de sepultura,
eu sem futuro algum, que apenas vê passar a vida,
 
que espera o dia passar, a noite passar, a morte passar
à porta, na forma desses homens, dos quais, um dia,
um me matará, tenho certeza, por não ter sido boa,
por não ter sido suficiente, por não ter sido, eu um nada,
eu que nunca mais fui, que se um dia fui não sou,
 
eu, que estou cansada de tudo, que olho pra ti, Eulália,
e me pergunto, o que há em ti, tão pura, que um dia
possa ser meu, que um dia me tire daqui, desse puteiro,
e arranque de minha cabeça esse monte de homens,
seus rostos nojentos, para quem eu sorrio,
para que ao menos me paguem, e para que eu viva
com esse dinheiro imundo mais um dia, uma noite,
eu, largada aqui, suja do pó da estrada, sozinha
sem nada possuindo, senão a sandália velha e gasta
com a qual danço, para que me desejem,
para que ainda me queiram viva, eu, Margô, nesse caminho”. (1-5-25)

 

 

8. UM CAMINHO PARA MARGÔ



“Meu anjo, Deus é Amor, mas não o amor dos homens,
ao contrário, é um Amor tão grande, que é maior
do que o infinito, tão grande, que servi-lo é uma função
grande e temível, mesmo para os Poderes celestiais[1],
que dirá nós?, e, no entanto, ainda assim ele é acessível,
porque somos filhas, não servas, não desconhecidas,
 
e não duvides de tua pureza, minha linda”,
e Eulália acariciou-lhe o braço magro e dolorido, “porque
tua angústia é a prova de que ainda és virgem, por dentro,
na tua alma entristecida, nessa alma que buscou a Cristo,
virgem como a inocência é virgem, virgem como a esperança,
que espera pelo que em que, em que, em que o que?,
aquilo que nem você sabe, mas sabe que virá do Espírito,
e que a levará a um lugar tranquilo, que já existe,
 
mas você não sabe o caminho, porque está dentro de você,
porque não leva a outra parte, como essa estrada
por onde passa o que parece ser seu destino,
que você não pode mudar, um destino que se impôs a ti,
que não foi convidado nem pedido, um destino que te testa,
que você detesta mas que te salvará um dia, pelas mãos
dos mesmos homens infectos, robôs tornados vazios
pelo teu amor, não por eles, mas por esse Amor divino,
 
múltiplo e indefinido, que preenche todas as coisas,
que a ninguém está dirigido, que é um estado,
não uma sensação, que é um suspiro e não um gemido,
que te abrirá os olhos, e te fará ver que o mundo
que te parece escuro como óleo queimado,
é na verdade lindo, e que linda és tu, que sempre o foste,
 
que és ainda, Margô, Magrinha, princesa nessa rodovia
que leva à morte para qualquer sentido da rota,
mas que se abre para cima, bastando para isso
o teu querer, como tu queres, como me dissestes,
porque tu és assim no teu cerne, e és madeira
que não queima, nem curva, nem arde,
que te pareces ao lenho da cruz, aí onde estás,
 
e eu te digo, desce, vem para cá, que há outra estrada
que abre para outro horizonte, que leva a outra verdade,
que segue para um rumo distante, tão longe,
que é o contrário do mundo, e onde tudo o que existe
mostra esse outro lado, o lado do Amor, o Amor de Deus,
esse Amor único, louco, estranho e apaixonado.” (1-5-25)


[1] Divina Liturgia de São João Crisóstomo, Hino Querúbico, 2.



9. AQUELES QUE OLHAM AS ESTRELAS



“Quando você enxerga essa paisagem,
quem está olhando?, e quando você olha,
quem vê?, percebe que, para além de você
existe alguém ou algo que olha, que enxerga
e que vê, que é espírito e não matéria,
 
que corre nas veias e não é sangue, que corre
nos nervos e não é nervo, que é mais permanente
do que o ato de olhar, que é algo que vê sem ver,
é um alguém que a sabedoria humana não conhece,
mas que sabe mais que os sábios, e entende
mais que os letrados, que é analfabeto
 
como você, Margô, mas que sabe tudo da vida,
quem é esse alguém, senão uma parte da nossa alma,
uma energia incriada, que vem antes e está além da mente,
que não precisa da lógica para entender o mundo,
e que ora por nós todo o tempo, e que zela em silêncio,
que não precisa de palavras nem pensamentos,
 
que é como um lago profundo e calmo,
sem ondas nem vento, que reflete a paisagem, a lua,
que está fora do tempo, como quando não há movimento,
e que vê além da vida, que olha o céu como quem olha
a casa que deixou há tantos anos, as flores no jardim,
a boneca sobre a cama, as lembranças de um tempo feliz
 
junto aos seus, junto a Deus, lembranças
que passamos tanto tempo sem vê-las,
mas que as vemos em nós, lá dentro, irmãs minhas,
porque estamos todas na sarjeta, mas algumas
de nós insistem em olhar as estrelas[1]”. (3-5-25)



[1] Oscar Wilde, De Profundis,1895.


10. VALQUÍRIA



As moças estavam reunidas no pátio diante do galpão
que era casa, cabaré, hotel, inferno, purgatório e céu,
e contavam suas histórias, umas às outras, e todas
a Eulália, a novata que as servia, lavava e passava,
e que, em sua cozinha, apresentava-lhes sabores
que ninguém dali conhecia, Eulália que vinha de longe,
 
que nenhuma delas sabia de onde era, que pouco falava,
mas que dizia tanto, com seus grandes olhos puxados, com seu rosto
alegre e sofrido, com as marcas que trazia nas costas
e nos braços, como se alguém a tivesse batido,
e não se queixava, nem exibia as cicatrizes,
nem se deixava arrastar para a vida delas meretrizes,
 
mas se mantinha afastada, quieta, e ninguém a via
quando o cabaré explodia em festa, e elas, as meninas
recebiam os homens sedentos de sexo e folia,
que deixavam ali seu dinheiro, seu suor,
e um gosto azedo que não se desmanchava
e não se desfazia, exceto para Valquíria,
 
que parecia ter gosto naquilo, que vinha por adoção
até de uma boa família (dizia-se), mas que a atração pela vida,
por mais torta que fosse, a fazia feliz e feliz seguia,
sem se queixar, mas buscando atrair para si
cada vez mais homens, numa noite dois, três, quatro,
e quantos houvesse e tanto quanto cabia
em sua cama desfeita, que nem arrumá-la fazia,
 
e acordava cantarolando, e tomava banho
e estava pronta para a noite seguinte,
para muitas mais madrugadas, e o que fosse,
e para qualquer um que viesse, a qualquer hora do dia,
e não sentia amor nem ódio, nem remorso,
nem arrependimento por sua vida, e dizia
 
a quem quisesse ouvir, que essa era a melhor forma
de existência, e que viveria assim até a última hora
e que, se alguém se dispusesse, que a abusasse
mesmo que no caixão, sob a mortalha,
com o terço de plástico rosa nas mãos
e um sorriso nos lábios, de quem estava gostando
e pedindo mais, até que lhe viesse outra vida. (3-5-25)

 

 

11. CICATRIZES




Sob a lua imensa, e antes que chegassem os fregueses
de sempre, que a cada noite surgiam do escuro nada,
as meninas cercaram Eulália, e quiseram saber dela
que cicatrizes eram aquelas, de que ela não falava,
e as marcas nos pulsos, o que tudo aquilo significava,
e Eulália não teve outro jeito do que contar um conto
 
de escravidão moderna, passada nalgum outro lugar,
um país talvez, na América Central, de tiranos vis
e latifundiários, que tratavam o trabalho como coisa reles,
sem apreço pelo homem do campo, arrancando sua pele
à custa de jornadas duplas e triplas, esfalfando a uns e outros,
homens, mulheres, crianças, matando-os à míngua,
 
e contou-lhes de uma revolta que comandara,
em sua cruzada de catecismo, quando era missionária,
por Cristo, em quem cria, e de que modo fora tomada
à guisa de exemplo aos demais, e castigada
para que todos vissem o que os esperava, se persistissem
na busca de seus direitos, e depois de a flagelarem,
 
jogaram-na no rio, para que morresse, mas fôra salva
por indígenas dali, que lhe deram a beber poções amargas,
e a fizeram fumar fumos que alucinavam, que a levaram
a lugares que nunca conhecera, e ela viu coisas
que, se lhes contassem, diria serem fábulas, lendas, crendices,
invencionices, como a história da pessoa interior de dentro,
que nos habita, e que espia pela janela da alma,
 
e se oculta no fundo do coração, e espera, dia e noite,
que nossos olhos se abram, e possamos enxergar
através desse véu que nos cega, um outro mundo,
onde já não existe o mal nem a injustiça,
onde impera um amor nunca antes visto,
esse amor que Cristo trouxe à terra, do qual nada sabemos,
senão que é Deus, esse Amor divino, além
de todo o conhecido, esse Amor, que a cada açoite
 
multiplicava um bálsamo que lhe sorria, que soprava o alívio
a suas feridas, um refrigério, uma brisa, uma carícia viva,
como os três irmãos na fornalha[1], Sidraque, Misaque e Abdênago,
esse bálsamo sagrado, feito do perdão de todas as dívidas,
pois era evidente que os que a açoitavam não sabiam
o que faziam, como os que flagelaram o Filho,
e Eulália recitou-lhes os versos que fizera, compostos
na fazenda, quando seu cérebro fervia a cada látego,
 
“eu fui mais chicoteada do que o próprio Cristo,
que recebeu 39 chibatadas, e surrada outra vez,
antes ainda que cicatrizassem as primeiras feridas,
e teria recebido mais golpes, se não fosse ser meu corpo
menor do que o peso da pena, e eu afirmo,
 
maior foi a dor que senti, de perdoar o feitor,
de perdoar o senhor, a cada lanho aberto,
cada gota de sangue escorrida, enquanto corria o suor
que me desmanchava o rosto, e havia quem se risse
dessa negra que desfalecia e novamente acordava,
 
apenas para receber mais um golpe, dos tantos que me foram dados,
pois a dor da escravidão é imensa, mas mais infinita dói
a de se libertar, de ir além de suportar, de não parar de amar,
de ir além de sobreviver, a dor de negar a mim mesma
o direito de odiar, a dor de perdoar e esquecer,
 
a dor de substituir a mim mesma por Cristo,
a dor de oferecer a ele meu Calvário e meu suplício”. (3-5-25) 



[1] Daniel, 3.



12. A HISTÓRIA DE MARGARITA



E Margarita disse, “Eu sei de onde é isso,
pois de lá eu vim, nuestra América de mierda,
e lá o carrasco é essa figura triste, horrorosa
que todos conhecem, sempre a serviço da dor
e de tudo o que possa infligir terror nas gentes,
e os senhores, meu Deus!, são terríveis,
e não há riqueza que sustente seus gostos,
e não há gostos seus que se acabem,
 
sempre mais, sempre mais, como se o mundo
fosse um mercado, como se as pessoas fossem o dinheiro
com o qual se compra o bem-estar, uma cama quente,
uma mesa cheia, os filhos que estudam na Europa,
a esposa enfeitada, uma coleção de amantes,
banquetes com o presidente, e festas, festas, festas,
 
enquanto o povo morre nas ruas e se arrasta
por essas mesmas sarjetas, que você nos disse,
desde a qual olhamos a lua, ou as estrelas,
mas o que vemos é o guarda noturno e a polícia,
e somos arrastadas pelos cabelos e obrigadas
a servi-los como quiserem, para que nos soltem,
apenas para que no outro dia continuemos
 
na labuta, sem parar, sem parar, e é por isso
que me tornei puta, para tomar banho
uma vez por mês, ou nem isso, para comprar perfume
e roupas que me lembrassem que também eu
posso parecer esposa de político, mas qual!,
nunca fui outra coisa, nem nunca deixei de ser Margarita,
 
a pobre, os calcanhares sujos, por mais que lavasse,
as unhas roídas, as meias furadas, as saias puídas,
e de baile em baile vim dar a esse fim de mundo,
onde, se não sou rica, ao menos ninguém me bate,
e ainda pude encontrar amigas, que o destino nos une
na mesma desgraça, esses homens rudes
que parece que se multiplicam, que não acabam nunca,
 
mas que não são, afinal, a polícia política,
os juízes falsos, os falsos moralistas, os padres
que nos engravidam e dão as costas, a rezar epístolas,
as mulheres que nos olham como se fôssemos
lombrigas, vermes, mera imundícia, aqui não,
 
no meio dessa floresta, onde, a cada dia,
as árvores nos ouvem chorar e nos consolam
sussurrando com suas folhas o perdão
de nossas tantas faltas, que se fôssemos pagá-las
não bastaria um mundo inteiro de martírios,
 
mas o que estou dizendo?, meus pecados
eu os pago a cada vez que me deito, e recebo a paga
que é o comprovante de que a cada vez me arrependo,
pois quem vive mais de uma vida,
mais de uma morte morrerá também[1],
e me arrebento de chorar, e minhas lágrimas
lavam a dor que sinto por dentro, por existir,
por ter sobrevivido à ditadura, e por viver ainda
 
nessa cadeia esquisita, feita de dia-a-dia,
e da qual ainda sairei, quem sabe quando,
mas que sei que sim, porque nunca, nunca mesmo,
vivi aqui querendo, e dentro de mim,
querida Eulália, sei que vive o ser oculto que você diz,
com quem hei de me encontrar no futuro,
e que me fará ver o que hoje eu suspeito,
 
e procuro, e sei que está em algum adonde,
porque o ponho tão perto, à noite, junto sob o travesseiro,
depois do último homem, e pela manhã o busco
e às vezes o encontro, ainda que por um segundo,
no primeiro pássaro que cante, e esse canto
será para mim o Santo Espírito, e há de me acompanhar
por cada minuto dessa jornada, e só por ele,
querida Eulália, eu ainda resisto, resisto, resisto,
e, quem sabe, seja eu forte?, pois
...soy el punto negro que anda
a las orillas de la suerte.[2]” (3-5-25)



[1] Oscar Wilde, Balada do Cárcere Reading, 1897.

[2] Llasa de Sela, La Frontera.



13. A HISTÓRIA DE ROSA, ROSÁLIA E ROSALVA



“Tão depressa quanto veio, nosso pai nos deixou,
como nomes sem sobrenome, Rosa, Rosália e Rosalva,
as trigêmeas de nossa mãe afundada no álcool,
para morrer logo mais, e assim fomos criadas
 
no chão cheio de pontas de cigarro e cusparadas
do bordel anônimo em qualquer curva dessa estrada,
as três meninas, cuidadas pelas moças ocupadas,
crescendo entre boleros, luz negra e bebidas baratas,
olhando espantadas pelas cortinas puídas e rasgadas
 
o que se passava nos quartos, até sermos iniciadas nessa vida,
e assim, nossa história é uma peça ruim que se conta
num único ato, e estamos nesse palco desde meninas,
esperando que desça o pano do teatro absurdo
para podermos ser algo além disso, desse público
 
que aplaude e nos cega, nos consome e nos rega
de péssimo conhaque, rabo de galo e esperma,
e, ano após ano, vamos definhando nossas vidas,
agarradas umas às outras, pois só nesse abraço
somos humanas, e não o pedaço de bife malpassado
 
posto no prato, para que nos retalhem a faca
e nos espetem no garfo, e nos sirvam à mesa,
para que nos engulam, arrotem e cuspam
sempre os mesmos, e assim deixamos toda existência pra trás,
e nos tornamos os reloginhos pontuais, os ponteiros
da nossa própria sobrevivência, e nada além disso, nada mais.” (8-5-25)

 

 

14. A HISTÓRIA DE MOEMA E IRACEMA





“Estávamos à mercê do problema por que a estrada passava
pelas aldeias, e os indígenas estavam a todo momento na rodovia
e pessoas passavam armadas, xingavam, ameaçavam...”,
disse Iracema, “e eu e minha irmã Moema fomos levadas
pelos missionários para Belém, e era para sermos adotadas
por famílias de bem, mas qual!, nada disso era verdade,
 
e nos tornamos, na nossa pouca idade, babás de crianças
brancas, mal-educadas e birrentas, com direito a nada,
eu e ela, cada qual em uma casa, sem saber da outra,
e essa era a mesma história de tantas meninas Tenharim,
que acabavam nas mãos de gente truculenta, sem dó,
e ficávamos sem pai nem mãe, sem ter com quem chorar
 
a dor de estarmos perdidas, e no fim éramos abusadas
por qualquer homem ou mulher que nos viam como bichos,
sem direito à nossa história e nossos afetos, éramos
apenas corpos com dois olhos grandes e assustados,
à disposição do que quisessem, e devíamos agradecer
pelo mau teto que nos davam, pela cama dura
 
em que nos deitávamos à noite, com medo que ao nosso lado
aparecesse alguém de repente, para nos usar,
e nos deixar na madrugada, de olhos abertos, mordendo os lábios,
até que uma ou outra engravidasse, e fosse expulsa,
e os padres, ah, os padres não sabiam de nada, é claro,
e nos recusavam guarida, e nos deixavam na rua,
 
e que nos virássemos, e ainda tive sorte de encontrar Moema,
que teve destino semelhante ao meu, e foi costurada
por uma tesoura sem piedade, que nos retalhou os fetos,
e nos lançou numa treva que nunca havíamos visto,
e só nos restava nos abraçarmos nas noites frias,
 
e tentávamos voltar para casa, que não sabíamos onde era,
até que um moço nos recolheu, e disse que nos levaria,
mas nos trouxe a esse lugar, e nos abandonou aqui,
dizendo que voltaria, como voltou, mas para exigir de nós
trabalho e mais trabalho, como paga pela garantia
que nos dava de estarmos vivas, porque com ele
ninguém se metia, e nem os padres poderiam nos alcançar,
 
pois ele tinha contatos na polícia, e não saíamos no noticiário,
nossa história não existia, e nunca mais vimos pai nem mãe,
nem do mundo tivemos qualquer notícia, e hoje estamos nós
aqui, nesse mundo de fora, tremendo, aqui, onde só há
escuridão e ranger de dentes, Moema e Iracema,
 
que nos abraçamos nas noites, quando não há mais gente
para que sejamos usadas, e é quando choramos
nos braços uma da outra, e por alguns momentos
a noite fria se torna suportável, e nossas camas geladas
de suor dos homens se torna um berço macio e quente.” (4-5-25)

 

 


15. A HISTÓRIA DE ALDA




Alda suspirou, “Ah, quem me dera um berço macio e quente,
como nos meus tempos de casada, quando dormia
nos braços de um homem que eu amava, e que me dava
todo o carinho, e tudo o que eu queria e precisava,
 
até que chegou um tempo em que ele começou
a ficar diferente, e indiferente, e infrequente, e quando vi
já não nos falávamos, não nos dávamos, não nos aproximávamos,
e nosso amor era frio e distante, mas mesmo assim eu me entregava
com ardor de principiante, e o cobria de afetos e de beijos,
e o buscava insistentemente, e fazia tudo para agradá-lo,
 
mas, não sei quando nem de que modo, comecei
a ter feridas pelo corpo, e sensações estranhas, e também ele,
e não sei de onde ele tirou a ideia de que o traí e infectei
com qualquer doença venosa, e enfureceu-se,
e não quis discutir, logo eu, que nunca olhei pra outro homem,
 
e ele ergueu a mão contra mim, e me bateu muito,
e me esconjurou, e pegou minhas roupas e minhas coisas,
e colocou tudo num saco e jogou na rua, e me expulsou
da nossa casa, prometendo que me matava se eu voltasse,
e eu me vi sem eira nem beira, e caminhei como tonta,
 
longe de minha família, que não quis me receber,
como se eu fosse leprosa, chagosa, sarnenta ou coisa assim,
e andei pelas madrugadas, até achar uma mulher
que me viu e chamou, e tratou de mim, e me curou,
ou acho que me curou, e exigiu como paga
 
que eu trabalhasse para ela, e eu, sem entender nada,
aceitei, e logo me vi nas esquinas, de minissaia amarela,
girando uma bolsinha inútil, onde só havia
um espelho, um batom e um canivete, e vivi assim
por meses, talvez anos, e a dívida nunca se pagava,
 
até que veio um homem e conversou com a velha,
e me colocou num carro, e viajamos por dias e horas
até chegarmos a essa casa, onde me despejou,
e me disse, ‘Sou seu dono agora, faça o que mando
e você viverá conosco, com essas meninas e com a senhora’,
 
e me apontou Elizabete, que foi a única pessoa,
em tantos anos, que me tratou como gente, embora
sem deixar de ser a autoridade ali, ela, que mantinha
a todas nós numa corrente, que não feria, mas cortava
nossos dias, e tornava iguais nossos destinos, negras
como eu, ou índias, ou pardas, ou judias, polacas e brancas,
que antes eram de cada uma, tão nossos, tão diferentes.” (5-5-25)

 


 16. ELIZABETE



“Hahaha, a ‘senhora’ sou eu!”, disse Elizabete,
“essa puta velha e desdentada, há tanto tempo na vida
que já nem lembra quando foi deflorada, e não carrego rosa
que não tenha sido cheirada, nem fruta que não foi mordida,
 
e só sei que essa tem sido a história da minha vida,
bater palmas pra maluco dançar, e dançar para os malucos
que batem palma para me ver no centro da sala,
a chamar a atenção de todos, pra ver quem dá mais,
 
eu, sempre em leilão, sempre pela melhor oferta,
sem poder escolher se fico com o mais cheiroso
ou com o mais bonitinho, só vejo a cor do dinheiro,
e aguento velho, aguento bruto, aguento o que for,
desde que deixe comigo as suas verdinhas,
 
e cuido das minhas meninas desde quando me lembro,
quando entrei nessa vida já tinha uma carreira construída,
e a fama que me valeu minha beleza – que eu tive um dia! –
e a pressa com que chegou a velhice, e eu a me tornar
a caricatura daquilo que na verdade sempre fui, e confesso
 
que nada, nada, meninas – juro! – nada na minha existência
fez sentido, foi tudo uma pura perda de tempo, de significado
das coisas, de construção de sei-lá-o-que, e tudo o que eu tenho
é a companhia forçada de cada uma que passou aqui,
e essa construção caindo aos pedaços, misto de circo,
hotel, picadeiro, enfermaria, rio do esquecimento,
 
no meio dessa estrada, longe de tudo o que há,
onde levamos nós a nossa vidinha, e vocês, pobres de vocês!,
que pensam que são gente, mas vocês são nada,
vocês têm todas a mesma cara, que já cansei de olhar
a cada nova leva que me trazem, com seus olhos
de esperança ou desengano, tanto faz, vão todas
ficar doentes, morrer de peste ou engravidar,
e eu não estou nem aí pra nada, ai de vocês!,
 
que julgam que vão ainda a algum lugar, não se enganem,
daqui ninguém sai para lado algum, e seremos todas enterradas
vivas, na cova que cavamos cada dia, como disse a velha cantiga,
quando notarem estarão à beira do abismo, meninas,
abismo que cavaram com seus pés[1]...” (6-5-25)



[1] Cartola, O mundo é um moinho.



17. A BUSCA PELO AMOR



"Cada uma de vocês buscou o amor”, disse Eulália,
“que lhes foi negado, o amor humano, esse barco à deriva
no oceano do mundo, que leva ao acaso das marés
e de ventos furiosos, para qualquer lado que queira,
e nos deixa a ver navios, náufragas numa ilha deserta
e traiçoeira, a ilha dos nossos sentimentos
e dos pensamentos de desilusão, desamparo, ódio,
e outras coisas costumeiras, e não conseguimos
nos libertar desse abraço da morte, que nos consome
e nos impede de vivermos a vida verdadeira.
 
Amar é um estado, não um endereço,
o verdadeiro amor não se dirige para aqui ou lá,
nem pra onde, nem pra quem, o verdadeiro amor
é uma coisa que banha a alma, que a transforma inteira,
que a torna nova, e a faz feliz, não alegre agora e triste
quando acaba a brincadeira, mas que transforma em festa
 
toda a aldeia, que coloca bandeirinhas, fanfarra, rojões,
estrelinhas e acende uma fogueira
nos nossos corações, como se nossa existência
fosse uma festa junina, em que sempre casa o Noivo,
esse Cristo, muito bonito e arrumado, com a noiva,
linda e enfeitada, essa moça que somos nós, que é
a nossa alma, que nos entregaremos a ele por toda a vida,
 
e estaremos com ele num leito de eterna dita,
trocando beijos divinos, e nossos corpos
se tornarão o dele, e nossos rostos serão o dele,
e com ele nos tornaremos outras, e assim seremos,
eternamente, pois o amor do Noivo, Jesuisinho,
nos levará além do mundo conhecido, a um Reino encantado,
 
onde a criação brilha renovada, e seremos nós como anjos,
a brincar na relva, a nos banharmos nos riachos e nas cachoeiras,
e conversarmos com os pássaros, e com os bichinhos
que passeiam nos gramados, e com as almas
dos animais, das árvores, das pedras,
e com os rios e os montes, e bailaremos à roda,
de mãos dadas, num balé sagrado
onde tudo é movimento, tudo é novidade,
e todo o mundo é recriado dessa maneira.” (9-5-25)

 

 18. UM OCEANO A NAVEGAR




“Mas se é possível amar essa borboleta, um passarinho,
o pôr-do-sol, a nuvem que passa, as pedrinhas
no fundo do riacho, um peixinho que ali nada,
é possível amar uma lembrança, o rosto da madrinha,
o regaço da mãe que nos tomava no colo,
é possível amar a figura distante de um pai
que queríamos que fosse, ainda que não tenha sido,
e mesmo assim o amamos, pelo que poderia ter sido?,
 
se é possível amar tudo isso, e não amar o mundo,
o próximo, tudo o que é humano, e que assim
não nos é estranho, a nós, que pecamos a cada dia,
que recusamos ao irmão, à irmã, um pouco que seja
do nosso carinho, que odiamos gente que não sabemos
quem são, quais dores têm, de onde vêm e para onde vão,
 
cada um que leva uma luta vida afora, que sofre
dores que talvez não sustentássemos, embora
o que vemos nele sejam apenas as nossas mágoas,
mas ele é como uma criança, que não sabe o que faz,
birrenta, que nada satisfaz, por que foi malcriado,
porque abandonou o Deus que o teria salvado,
 
porque, porque, porque, e são tantos porquês
que não há como contá-los, e é para isso
que existe o perdão, esse perdão imenso,
que não é como desculpá-lo, mas que nos diz
esquece, releva e perdoa, e assim caminha pra frente
sem que o passado te doa, sem que essa amarra
te prenda os pés, sem que essas cordas te mantenham
presa ao cais, quando os ventos sopram favoráveis,
 
e há todo um oceano a navegar, tantos mares,
tantos monstros marinhos a combater, tantas ilhas
que desconhecemos, tantas sereias com seus cantos e encantos,
tantas terras novas, tantos novos reinos, tanta gente
no mundo, tanta coisa, tanto a criar, a construir,
tanta coisa que o Espírito nos dá, e que, com sua luz,
nos faz compreender, nos faz irmãs, nos faz amar?” (9-5-25)
 

 


19. O NÃO-MUNDO E SUAS 'ISSO'




“Cada uma de vocês foi cortada de sua história,
de sua vida, de sua infância e seu passado”,
disse Eulália, com dor na voz e um desgosto fundo,
“e foi transportada para esse cafundó, esse não-mundo,
onde se tornaram as maquininhas de sexo,
respondendo apenas às exigências dos homens
que aqui arribam, todos iguais, na sua brutalidade,
na sua mesmice de quem só tem um desejo,
 
e, para sobreviver, vocês se fizeram um ‘isso’,
o objeto perfeito, que não é mais um ‘quem’,
mas um ‘o que’, e suas vidas foram resumidas
a um recorte da realidade, desprovidas da riqueza de ser
cada qual cada qual, de serem si mesmas, de suas essências,
tendo perdido a infinita variedade da existência,
que faz de cada flor uma flor diferente,
 
e se tornaram papel de parede, figuras que se movem, todas iguais,
que rebolam igual, que sorriem igual, que gemem igual,
pois só isso se espera de vocês, que sejam ‘isso’,
e quando chegam os homens, eles sabem quem os espera,
uma e outra e outra, sob o qualificativo geral de ‘puta’
e nada mais, todas vivendo o mesmo recorte,
a mesma mentira, deixando seu passado, sua história
para trás, para se tornar essa entidade, essa coisa
 
que reage mecanicamente às solicitações deles,
que são também máquinas, que agem sempre igual,
a mesma noite, noite após noite, a mesma performance,
porque a mente de vocês aprendeu logo,
pela necessidade de sobreviver, a descartar
tudo de si, de seu, para manter apenas
o que serve aos desígnios do negócio, e assim,
 
irmãzinhas, vocês se abandonaram a esse fluxo,
e já não são mais pessoas, mas apenas coisas,
porque o ser humano é desse jeito, ele se torna
o que se espera dele, ele se molda pelo ambiente, e vocês
foram reduzidas à condição mínima do ser,
que é a mera carne, que é o que se espera de cada uma,
 
e cada caminhão que chega e parte as torna mais cínicas,
e vocês vivem, mas cada vez são menos,
até o fim de uma existência que perdeu todo o sentido,
restando apenas a prática do dia-a-dia,
a mesma maquiagem, a mesma saia curta,
o mesmo seio à mostra, o mesmo gemido falso,
 
porque tudo é falso, porque esse bordel não é o mundo,
é só um recorte do mundo, assim como
vocês foram cortadas de suas vidas, e hoje
só vive a ínfima parte de cada uma,
agarrada à sua boneca de menina, à lembrança
de que um dia houve uma família, de que um dia
cada uma ainda poderia vir a ser uma pessoa,
 
não um ‘isso’, a puta, que se parece com uma puta,
que age como uma puta, que pensa como puta
e faz sexo como puta, uma e outra e outra vez,
até que venha a redenção pela morte,
ou a remissão, se tiverem essa sorte,
e quem sabe, outra vida, real e verdadeira, tenha início,
e que essa existência de agora seja apagada
como um tropeço na carreira, e se torne um passado
que não é mais causa do presente, até porque,
irmãzinhas, tropeçar também ajuda a andar pra frente.” (8-5-25)

 


 20. O CAFETÃO



O cafetão – chamado ‘Russo’ – apareceu no bordel
e conversou por muito tempo com Elizabete, depois saiu
sem dizer palavra, apenas tocou a pala do chapéu com os dedos,
num gesto estranho e incomum para ele, como um sinal,
de um modo que Margarita ficou branca como giz,
e tremeu de medo, e correu a chamar as meninas,
 
e disse a elas que uma catástrofe haveria, porque já tinha visto
aquele gesto antes, na sua terra, e isso era um aviso
de que haveria de haver sangue, morte, tiro e bomba,
e que demoraria nada, que o Russo tinha deixado a casa
depois de falar com Elizabete, e que a coisa toda estava
muito malparada, e ela não sabia por que, mas sabia,
 
com certeza, que o mal se levantava na curva do caminho,
e que a chuva que vinha não sei de onde traria dor,
desespero e horror àquela casa, e ficaram todas inquietas
e correram a falar com a cafetina, que as olhou com pena
e mais não disse, e tudo aquilo resultou num clima
de pânico e desconfiança, e entre elas se estabeleceu
 
que era coisa que Eulália havia trazido, com sua conversa
de uma nova vida, de uma consciência, da mudança
que haveria, e que levaria cada uma delas para longe
daquelas noites malcheirosas e dos dias de lamentações,
a vida de que Eulália falava com tanta certeza,
que viveriam elas num reino de sonho e fantasia,
 
e elas não sabiam o que fazer, e combinaram
estar atentas a qualquer sinal, a qualquer novo freguês
que ali surgisse, a qualquer mudança nos ventos,
e caso uma estrela nova no céu surgisse, que fugissem
todas para o mato, e houvesse o que houvesse
não olhariam pra trás, até que tudo acalmasse,
e pudessem voltar em segurança à velha casa de sempre,
com sua vida cansada e sua quase-morte sempre presente. (6-5-25)

 

 

21. FAROESTE CABOCLO




Quando os caminhões chegaram mais cedo que o costume,
já entrando a noite, e acelerando os motores como cães que rugiam,
as meninas não tiveram dúvidas, e correram por suas vidas,
e se dispersaram pela floresta, Rosa, Rosalva e Rosália,
Margô, Alda e Margarita, Moema e Iracema, menos Valquíria,
e Elizabete, Eulália e Maria, que aguardaram tranquilamente
 
como se nada de mais estivesse ali, como se tudo fosse
como todo dia, e chegaram os homens, com caras compridas,
de poucos amigos, e na frente de todos veio o Russo,
com seus sequazes, capangas e capatazes,
e chamou por todas, mas só vieram Valquíria, Eulália, Elizabete
e Maria, e o cafetão mandou que Valquíria saísse,
que ela não tinha nada a ver com aquilo, e a seguir
 
olhou para Eulália, e gritou bem alto, “Maldita!,
vagabunda, amaldiçoada criatura, o que pensa você da vida?”,
e, vendo que ela não lhe respondia, exclamou, “Já te julgamos,
maldita, foi você que alvoroçou a tudo por aqui, que quer levar
as minhas putas para longe, que prometeu a elas
um mundo de alegrias, pois saiba, não há alegria no mundo,
isso aqui é o fundo do poço, esse pardieiro dos infernos,
 
onde o diabo manda a chuva e o sol que torra cada vida,
e não me importa o que você diga, vagabunda, porque
sua sina já está traçada, e você há de morrer aqui mesmo,
tendo essas duas perdidas por testemunha, para que contem
às outras o que acontece com quem enfrenta o Russo,
que aqui quem manda sou eu, só eu e não há Deus
 
que me impeça, e eu digo, nesse momento, desgraçada,
preta maldita de Satanás, que chegou tua hora, na ponta
dessa faca, que está cantando na bainha pra beber
o sangue que você há de derramar aqui, nesse terreiro,
e é agora!”, e puxou um facão enorme e avançou
para Eulália, mas Maria se adiantou e se atracou com ele,
que a atirou no chão e, erguendo a lâmina, preparou o golpe,
 
mas ouviu-se um tiro, e o Russo tonteou, e com os olhos vidrados,
olhou para Elizabete, que tinha um revólver na mão,
que ainda fumaçava, e tombou pesadamente sobre Maria
que estava no chão e, com a mão crispada cravou-lhe a faca
onde a achou, e um dos homens puxou uma arma
e atirou na cafetina, que desabou como despossuída de si,
e houve correria, e os homens tentaram levantar o Russo,
mas nele já não havia vida, e largaram-no ali, exangue,
 
e havia três poças de sangue, contando Elizabete e Maria,
e veio Valquíria lá de dentro, e gritou e lançou-se
sobre as pessoas caídas, e Eulália viu que as mulheres
ainda estavam vivas, e as puxaram para dentro, e colocaram-nas
nas camas que havia, e cuidaram dos ferimentos como podiam,
e caiu um enorme silêncio sobre tudo o que havia. (6-5-25)

 


 22. OS VIVOS ENTERRAM OS MORTOS




No outro dia, bem cedo, as meninas saíram da mata
e se deram conta do que tinha acontecido, e todas
cercaram Elizabete, e a cobriram de beijos e carinho,
e renovaram suas promessas de eterna fidelidade
e compromisso, mas a velha mulher não pensava em nada,
e só olhava para o teto, muito pálida, e nada dizia,
 
e com os olhos parecia procurar por Valquíria,
e as moças foram em seu encalço, e a encontraram caída,
com um vidro de formicida ao seu lado, e entenderam
que ela havia suicidado, e, sem entender nada, não sabiam
como dar a notícia, e encontraram um bilhete, que dizia,
 
“É tudo culpa minha, que falei ao Russo de Eulália,
e dos planos que ela tinha, que eu achava muita graça,
e eu juro que não sabia que as coisas iam acontecer assim,
e essas mortes todas caem em cima de mim, mas não pensei,
não pensei, juro que não pensei, eu não sabia, não sabia, não sabia...”,
e as meninas tomaram o bilhete, e rodearam Elizabete
e afinal foram falando, com muito cuidado,
e os olhos de Elizabete se fecharam, e de sua boca saiu um fio de voz,
 
e ela disse, como para si mesma ou para Deus,
o que tinha para si guardado, e falou apenas
“Cumpriu-se toda a minha sina, o Senhor seja louvado,
que me libertou das penas e agora levará minha alma
para o diabo ou o Paraíso, onde achar melhor,
que para isso o assunto está encerrado, e, finalmente,
posso dizer que agora, depois de todos esses anos,
minha vida, que se acaba assim, fez, afinal, sentido,
 
e que todas vocês, virgens minhas, são como filhas,
e quando as vejo – vejo agora – penso que no fim
deu tudo certo, e quero, quero muito, que se vão daqui,
desse pedaço de inferno, e que levem suas vidas
nalguma espécie de céu, como quer Eulália,
vão, vão, tenho certeza, vão, porque vai dar tudo certo”,
 
e pediu que a levassem para fora e que a enterrassem
ali mesmo, no terreiro, à vista da estrada, e que cavassem
três covas fundas, para ela, o Russo e a Valquíria,
e, como ninguém entendesse nada, ela falou,
“Já não posso ter segredos, nem quero levar isso comigo,
enterrem-me, apenas, entre esses dois, que me acompanharão
para o bem e para o mal, para onde eu for, Russo,
esse homem mau, Valquíria, menina perdida,
esses dois que eu pus no mundo, meu filho e minha filha”. (6-5-25)

 

 

23. ANTÔNIA E MARIA




Eulália correu a ver Maria, que ainda sangrava,
e lhe pôs faixas e unguentos, e fez o melhor que podia,
enquanto ela, de olhos fechados, parecia adormecida,
mas havia uma contração em seu rosto, e depois
se deu por vencida, e entregou-se ao sono,
 
e só acordou ao dia seguinte, e chamou por Eulália,
e mandou que fechassem a porta, e, estando a sós com ela,
olhou-a bem nos olhos, e disse, “Eulália, se seu nome é esse,
de onde saístes? Como viestes até aqui? Quem te ensinou
tudo o que sabes, que são coisas que já ouvi,
num outro tempo, pois também eu fui Irmã
e vivi muitos anos num Convento, longe daqui,
 
e ali me contaram coisas que nunca pensei,
e que ouvi da tua boca, e coisas mais, que não sabia,
quem és tu?, se é que Eulália é teu nome,
que não acredito, porque nos procuraste, nesse cafundó,
onde Judas perdeu as botas, onde vim dar eu, perdida
para o mundo, à mercê dos meus desejos e pensamentos,
sem saber o que queria, e vejo agora, que é hora
 
de voltar pra casa, pra minha cozinha, pra minha mestra
Teodora, que só eu sei o quanto valem os dias que passei
com ela, Teodora tão simplesinha, dona de uma sabedoria
como nunca havia visto na vida, e que perdi porque me perdi
por inteira, mas a vida que quero não é essa, é outra,
como se fosse aqui um quarto fechado, mas a janela
que vejo na parede se abre para outra coisa ainda,
e essa coisa é que é linda[1], e nesse momento
 
só penso em deixar essa vida, e voltar pro meu Convento,
e assim que puder andar, me levantar desse leito,
onde tão ao léu andei, à toa, ao Deus-dará,
mas Deus não se esqueceu, e se compadeceu de mim,
e nos mandou você, Eulália, que eu não acredito
que seja gente como nós, ou um anjo, ou qualquer coisa,
que veio até aqui, para morrer quase, quem é você?,
 
quem é você, que eu conheço, mas não compreendo
de onde, nem de quando, nem por que, só sei
que te amo, menina, por tudo quanto há de sagrado,
e que não me esquecerei jamais de ti, que não sei
se veio do presente, do futuro ou do passado,
só sei que levarei tua lembrança por onde for,
e quanto tempo durar o mundo, e minha vida,
e mais...”, a Maria adormeceu novamente,
 
e acordou sozinha no quarto, e ficou olhando o teto,
e havia um papelzinho no chão, ao lado da cama,
que ela pegou e leu, onde só havia um nome gravado,
“Antônia”, e Maria ficou sem entender, mas pensou
que ali estava o segredo, que um dia seria aberto,
mas que, até lá, deveria permanecer guardado. (7-5-25)

 

 [1] Fernando Pessoa, Isto.



24. LUTO




Durante os meses seguintes o cabaré ficou fechado,
e um pesado luto cobria tudo, enquanto as meninas
se perguntavam o que fazer, e Maria aos poucos se recuperava,
e todas elas se reuniam a cada noite, junto a Eulália,
que lhes contava sobre o ser humano, Deus e a vida,
e lhes falava da pessoa interior, que cada uma delas tinha,
 
e que, malgrado a vida que levassem, essa pessoa
de dentro do coração, lhes dizia, “ainda são virgens”
pois em cada uma nunca se extinguiu a chama do Amor,
e a busca louca por uma nova vida, e a pessoa interior
parecia segredar, com voz suave, repetindo “Estou aqui,
 
estou aqui, estou aqui, ouçam-me, filhas, quando estiverem
em oração, sou eu que oro, sou eu que imploro, sou eu
que estou ouvindo, sou eu que existo realmente,
enquanto do lado de fora a vida é triste, variável
e inclemente, sou eu que permanece, através de tudo,
com meu apelo mudo, que vocês ouviam não obstante,
 
quando deitavam a cabeça nesses travesseiros sujos,
e atravessavam a fronteira entre o oculto e o existente,
e anteviam, em meio à neblina espessa, a possibilidade
de que tudo seja outra coisa, nova e diferente,
coisa nunca vista, porque é um ponto além da curva
dessa estrada interminável que é a mente inquieta,
 
que as lança na existência mutante, que as exilou
nessa ilha deserta, que agora está silente, no luto
por quem as manteve prisioneiras, como presos estavam
seus próprios carcereiros, e agora, respirem fundo,
deixem entrar o ar úmido dessas matas inocentes,
que por vocês oraram cada dia, sem que ouvissem,
 
porque essa floresta sou eu, sou eu a natureza,
sou eu a criação, sou eu tudo o que há, que as rodeia,
que está fora e dentro, em cada momento de suas vidas,
com gemidos inefáveis, que não podem ser descritos,
porque não são gemidos humanos, mas a voz amorosa
que as chama para Deus, a voz do Santo Espírito”. (8-5-25)

 

 

25.  A ESCADA




“Vocês foram criadas por Deus para participarem
da verdadeira bem-aventurança, desse ‘Bom’,
que é o próprio Deus, pela semelhança com Deus,
que se obtém pelo rosto de Cristo, essa mistura
do criado com o incriado, que deve fermentar
na alma, para purificá-la das paixões desse mundo,
 
para que ela receba as virtudes, e transforme
sua própria substância no reflexo de Deus,
elevando a alma até o seu protótipo, movida
pelo amor de Deus misturado com o desejo humano
de ascensão ao divino, ao ponto de experimentar
uma familiaridade com o Altíssimo, a visão de Deus,
 
nesse movimento que, quando começa, não pára
nem tem fim, de glória em glória, como os degraus
de uma escada santa, em que o primeiro patamar
é a pobreza de espírito, que ganha o reino dos céus,
e o segundo o pranto, porque serão consoladas,
o terceiro a mansidão, que herdará a terra,
 
o quarto, a fome de sede e de justiça, porque serão saciadas,
o quinto, a misericórdia, porque a receberão,
o sexto a pureza de coração, que dá a visão de Deus,
o sétimo a pacificação, que denomina as filhas de Deus,
o oitavo a perseguição por causa da justiça,
porque destas será o reino dos céus, e assim
 
sereis, virgens minhas, injuriadas e perseguidas,
e de vós falarão mentiras por essa causa,
e por isso, exultai e alegrai-vos, porque grande
é vosso galardão no Reino dos Céus!, subi, subi,
sem descansar, e buscai no profundo de vossos corações
 
o olho divino, com paciência, resignação e perseverança,
essas virtudes que as levarão à humildade,
que torna a alma sadia, que dá a ela o conhecimento
de Deus, que é o Amor de Deus, que é a alegria de Deus,
que é a coisa mais doce que existe no mundo,
no século, no século dos séculos e nos séculos dos séculos,
amém, e agora vão, sem olhar atrás, e desapareçam
desse mundo, porque a porta está aberta,
as malas estão feitas, e o caminho está traçado.” (10-5-25)

 

 

26. FUJAMOS!




“O que será de nós, o que será de nós?”,
as meninas se perguntavam, com angústia e medo,
“Os homens vão voltar, vão nos matar a todas,
ou coisa pior, pois já não está o Russo, nem a Bete,
para nos defender e olhar pelas nossas vidas,
eles vão queimar o cabaré e destruir tudo,
vão nos fazer em pedaços e não deixar nada em pé,
 
que faremos nós, que faremos nós, justo agora
que Eulália nos mostrou a porta e o caminho,
que estamos prontas, que, por incrível que pareça,
voltamos a ser as virgens que um dia se corromperam,
e nossos himens se costuraram pelo amor divino,
 
agora que sabemos afinal quem somos,
que conhecemos, ainda que por um átimo
a pessoa interior, a pessoa nova, que nos habita,
e seremos mortas, sem piedade, por aqueles
mesmos a quem servimos um dia, dando-lhes
tudo o que queriam, e fingimos amor a carinho,
 
o melhor possível, apenas para apaziguar
a dureza de seus destinos, uma noite em nossos braços
depois de léguas e mais léguas sem parada,
nos atoleiros e nos poeirões dessas estradas,
no calor e no frio, sempre estivemos aqui, prontas,
sem um reclamo, uma palavra de desgosto,
um gesto de repulsa, um fio de cabelo em desalinho,
 
e eles vão nos matar, pois não suportam
que tenhamos outro dono que não o macho,
um senhor de outro mundo, um Noivo
que nos espera, paciente, a nós, as prostitutas,
com nossas lâmpadas de azeite fino,
que não se encontra em mercado algum,
esse azeite que nos trouxe de tão longe Eulália,
com sua fé estranha e suas palavras incompreensíveis,
 
Eulália, que ficará aqui, quando formos embora,
apenas para encontrar na bala perdida sua sina,
Eulália, a única verdadeiramente virgem, nossa irmã,
nossa irmãzinha, adeus Eulália, adeus, nós seguiremos
para muito longe, para onde ninguém nos conheça,
 
para um sítio, num pé de serra que ninguém sabe onde está,
onde a lua sempre encontra na colina algum lago
pra se olhar, e a lua nasce por detrás da verdade mata,
esse sítio, que fica na Grota Funda, para além de Cuiabá,
de uma parente distante de Alda, velhinha e muito sábia,
por nome Joana Batista, mas que todos chamam Fátima.” (10-5-25)

 

 

27. A EMBOSCADA




Maria tomou seu rumo, independente das outras meninas,
e voltou à sua antiga vida, que contou a Eulália,
“Eu também era Irmã, fui cozinheira de um Convento”,
e, subindo no velho ônibus, desapareceu com suas coisas
e sua história, e se fez poeira ao vento, enquanto as outras
 
se amontoavam na Kombi que fôra de Russo,
emprestada a Elizabete há muito tempo, e deram a partida,
com grande barulho do motor cansado, e se fizeram
na estrada, e lá se foram, deixando Eulália,
que se sentou no alpendre do cabaré, escondeu sua mala,
e esperou que chegassem os homens, para o que quer que houvesse,
 
e chegaram eles, seis ou sete ou dez, e desceram dos carros
e olharam para ela, e, sem dizer palavra, começaram
a bater-lhe, primeiro com tapas e socos, logo com pontapés,
e arrancaram-lhe a roupa, despindo-a por completo,
e montaram nela, quase todos ao mesmo tempo,
 
e depois de muitas horas de tormento a deixaram
como morta, jogada ao chão, ensanguentada,
e se foram, satisfeitos – “Foi feita a justiça,
sim senhor, foi feita!” – e não se deram ao trabalho
de destruir o galpão velho, que servira de casa,
dancing, hotel e alívio nas madrugadas, enquanto Antônia,
 
semi-desacordada, se arrastou para dentro,
e atirou-se numa cama, e ali ficou por horas?, dias?, semanas?,
anos? – quanto tempo, não se sabe – até que despertou
cheia de dores, mais uma vez e como sempre,
e se viu num lugar onde nunca estivera antes,
e tudo, mais uma vez, era novo, dolorido e estranho. (10-5-25)

 



 28. UMA CARTA DE ANTÔNIA




O mensageiro apeou do cavalo e entregou a Joana Batista
um envelope de papel grosso, sem selo, endereçado
a Rosa, Rosalva e Rosália, Margô, Alda, Margarita,
Moema e Iracema, escrito numa letra caprichada,
a tinta, e, montando, foi-se pela estrada, deixando atrás
de si a poeira, e oito moças cheias de curiosidade,
e elas rasgaram o envelope, e puseram-se a ler,
quase sem respirar, pois na carta que chegava
vinham as notícias que mais esperavam, ansiosas,
de Eulália, e a carta começava assim:
 
“Irmãzinhas minhas, sei que aguardam notícias,
e escrevo para dizer-lhes que estou bem, e viva,
que nem por um instante deixei de pensar em vocês,
que guardo no coração como se fossem filhas,
e muito desejo que estejam em paz, e que a nova vida
que escolheram se desdobre em alegrias, pois
Deus às há de acompanhar, sempre e em toda parte,
 
e eu peço a vocês, pessoas tão queridas,
amem-se umas às outras, como as ama Cristo,
e orem sem interrupção, sem descanso, sem parar,
e se por acaso virem a santidade no rosto de sua irmã,
estejam certas de que também em vocês
estará habitando o Santo Espírito,
 
e sejam calmas, e confiem, agora
que seus pecados, se é que os houve,
já foram esquecidos pelo Pai eterno,
pois Jesus disse, Deus quer a misericórdia,
não o sacrifício, e ele não deseja a morte do pecador,
mas que ele se salve e tenha a vida eterna.
 
Pois o Senhor é misericordioso e benevolente,
lento na cólera e cheio de fidelidade,
ele não está sempre em contendas
e não guarda rancor indefinidamente,
ele não nos trata segundo os nossos pecados,
não nos retribui segundo as nossas faltas.
 
Como os céus dominam a terra, assim
sua fidelidade ultrapassa os que o temem,
e quanto o Levante dista do Poente,
tanto ele põe longe de nós as nossas ofensas;
como um pai é compassivo com seus filhos,
assim o Senhor é compassivo para com aqueles que o temem.
 
Ele sabe perfeitamente de que massa fomos feitos,
ele se lembra de que somos pó. Ó homem! (meninas),
seus dias são como a erva; floresce como a flor do campo,
mas basta que passe o vento, ela não existe mais.
 
Mas a fidelidade do Senhor, desde sempre,
e para sempre, está sobre aqueles que o temem,
e sua justiça é para os filhos de seus filhos,
para os que observam a sua aliança
e se empenham em executar suas ordens.
O Senhor estabeleceu seu trono nos céus,
e sua realeza domina tudo.[2]
 
Sejam simples como as pombas, irmãzinhas,
e precavidas como as serpentes, orem sem cessar,
e lembrem-se de mim, que sempre me lembrarei
de vocês, e não deixarei de escrever, sempre
que puder, e onde quer que eu esteja!
 
E que Deus as abençoe e aguarde, esse é o desejo
sincero dessa sua serva, Antônia, aquela que agradece
por sua hospitalidade para comigo, e pelo bom trato,
a quem vocês chamavam de Eulália, que essa carta subscreve,
 
enviada do Rio de Janeiro, capital desse Império,
aos 11 de Agosto do Ano de Graça do Senhor de 1804”. (11-5-25)

 




[2] Salmo 102: 8-19.




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