20. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 7: ANTÔNIA - 1. TECLA E A ESCRAVARIA

 A SAGA DE ANTÔNIA




Onde encontramos Antônia, misteriosamente transportada pelo espaço-tempo, aterrissar num local desconhecido, em outro século, e ser capturada como se fosse uma escrava fugida. Depois de ser submetida ao suplício do pelourinho Antônia acaba por cair nas graças da senhora da fazenda, Dona Lúcia, que depois de algumas histórias acaba por encarregar Antônia de levar a menina Tecla, doentinha, ao Convento da Anunciação de Maria para lá se curar.



O mundo da luz divina é outro mundo,
mas nele ainda persiste a vontade
e as armadilhas – as coisas materiais,
os costumes, a adesão às coisas visíveis
e impermanentes – essas coisas que,
se forem superadas, permitem
a visão do infinito e do invisível
– do divino – e por isso é preciso purificar a alma,
 
para que não surjam do nada as fantasias
e a presunção mal fundamentada
do próprio merecimento, a vanglória
que só se combate com a humildade
e a autoexclusão da massa da manada
cega e ululante, e assim nos tornamos
loucos em Cristo, longe das honrarias
que os homens distribuem entre si,
como ensinou Cristo, quando disse
 
não quereis vir a mim para terdes vida,
eu, que não recebo a glória dos homens,
e não tendes vós o amor de Deus,
pelo qual eu vim, em nome do Pai,
e não me aceitais, mais aceitareis a outro
que vier em seu próprio nome, e eu pergunto:
como podeis crer, recebendo a honra
uns dos outros?, pois não buscais a honra
que vem de Deus[1]”, e assim, é preciso
que não busquemos a honra do mundo
 
para que nos mudemos deste
para o mundo divino, onde está nosso tesouro
e nosso coração, esse amor único
que cria em nossa vida a dinâmica da verdadeira vida,
que nos impulsiona a mudar, a expressar
essa liberdade que existe antes do ser,
e assim pedimos, Senhor, “restaura-nos,
 
como enches o leito dos ribeiros do deserto,
pois aqueles que semeiam entre lágrimas
com cantos de alegria colherão, e aqueles
que choram enquanto lançam suas sementes
voltarão alegremente trazendo os feixes[2]”. (8-4-25)


[1] Cf. João 5: 40-47.

[2] Cf. Salmo 126: 4-6.



1.                   TECLA E A ESCRAVARIA


 

 1.1. O DESCONHECIDO



Antônia feriu os pés, caminhando descalça,
enquanto se arrependia de ter perdido as sandálias
na enxurrada, que àquela hora lhe pareceram desnecessárias,
tão fresca era a água da chuva, que escorria pela estrada,
formando rios lamacentos, ribeiros de última hora
que se retorciam no leito e se precipitavam
cavando sulcos no chão de terra, enquanto do céu
vinha mais e mais água, mais água, mais água,
 
que batia em seu rosto, e a enchia de prazer e alegria,
uma presença divina que parecia acompanhá-la,
uma felicidade de estar só no mundo, ela,
sua história e a velha mala cheia de escritos
das Irmãs que antes dela passaram, deixando cada qual
suas rezas, suas receitas, suas mezinhas, suas cartas
para um futuro que cada qual desconhecia,
 
mas que haveria, certamente, como um mandato de Cristo,
aquele Cristo amado da cozinha, o Cristo negro
que a fuligem fazia Cristo futuro, esse futuro que agora chegava
e se despejava em Antônia, ela, que restara do incêndio
que consumira todo o Convento, levando consigo
Maria do Egito, e deixando um rescaldo de meninas
sem teto e sem mãe, a se dispersarem pelos institutos
onde aprenderiam outro Cristianismo, do mesmo modo
como aprendiam em suas leituras o que a Madre não dizia,
 
ela, a Superiora, que sabia tudo, que olhava Antônia
como quem a via, no fundo da alma, e cujas preces
se ouviam muito além daquela cozinha, onde as paredes
guardavam tudo o que havia, a cozinha, única parte
do prédio que escapou ao fogo que lambia todo o resto,
para onde ainda havia de retornar o velho Cristo
negro de fumo, de suores, gorduras e temperos,
guardado bem oculto na Capelinha desmoronada,
 
que ela havia de levar de volta, quando viesse para ali
de sua longa viagem, de vida e de morte, que ela iniciava
ali mesmo, sem saber de nada, mas com a certeza única
de que, houvesse o que houvesse, seu lugar no mundo
lhe estava reservado, as luzes estavam acesas,
a cortina se abria, e o grande espetáculo
de Deus sobre essa terra árida e esquecida,
agora, e para sempre, nela, Antônia, se desencadeava. (8-4-25)



2. A VERDADE



 
 A Verdade não é uma coisa, a Verdade é uma Pessoa,
porque a Verdade é Cristo, e ela não nos é dada pronta,
como se fosse um objeto, mas ela começa a existir
como uma realização dos objetos desse mundo,
e a ela chegamos através do Caminho e da Vida,
 
e sua condição prévia é um movimento para o Infinito,
um movimento potente e dinâmico, que não sossega,
em busca dessa Verdade que é Luz e dessa Luz que é Verdade,
que é uma existência diferente da existência do mundo,
 
essa Verdade espiritual, que o processamento
implica uma troca da vida mundana pelo Espírito,
que instila a Si próprio nessa vida, por meio
de um esforço da vontade e dos sentidos,
 
essa Verdade que não é a lógica do pensamento
(se ela fosse, ela seria objetivada pelas condições do mundo,
nas quais o homem existe aqui e agora, essa objetivação
que escurece a luz e apaga o fogo), essa Verdade
consome a objetivação do mundo como a chama do fogo,
 
e amolece a objetivação do mundo como a cera da vela,
pois o mundo precisa ser macio para que a Verdade
possa se manifestar progressivamente, porque
a Verdade só pode ser revelada, nunca pensada ou deduzida,
 
Senhor, “abre os olhos da nossa inteligência, para que possamos
compreender a mensagem do Teu santo Evangelho[1]”,
 
e, ainda que o conhecimento humano seja também
uma coisa básica da divinização do homem,
o conhecimento de Deus depende do despertar de cada um,
num processo de diástole e sístole do pensamento,
uma transcendência do homem em sua totalidade,
não somente do pensamento, pois a Verdade divina
pertence ao homem deificado, não à mente transcendente,
mas o homem transcendente, total e derradeiro. (11-4-25)



[1] Liturgia de São João Crisóstomo, Oração do Evangelho.


3. O RAPTO


Armada de sua fé e de uma determinação
que não sabia de onde vinha, Antônia
seguiu a trilha de sua presciência, caminhando
por atalhos e estradas desconhecidas,
parando apenas para descansar os pés descalços
das pedras do caminho, e o corpo suado
 
do sol generoso e inclemente, como o Deus
que trazia no coração a todo instante,
leve como a brisa, pesado como a consciência,
a roupa começando a reclamar farrapos,
a pesada mala com toda a história do mundo,
 
e viu que se aproximava o tempo mau,
pois aumentaram os ventos, o céu escureceu,
e em poucos minutos desabou o temporal,
como se toda água do mundo quisesse passar
por um buraco de agulha, e Antônia correu
a abrigar-se sob uma árvore, à beira do caminho,
 
e mal chegando ali, uma descarga elétrica
precipitou-se do alto, e ela foi lançada longe,
e esteve desacordada por um tempo que não soube,
e acordou zonza, atordoada, sem saber quem era,
que dia é hoje, onde é que estamos,
e por que tudo parece diferente?, a curva da estrada,
o mato adiante, os montes que antes não havia?,
 
e Antônia esforçava-se por entender o que havia acontecido,
e sentia doer-lhe a cabeça, os ombros e os ossos todos,
e se apalpava para ver se ainda estava inteira, se acordada
ou se sonhava, e assim esteve ali, parada no meio do mundo
sem atinar com nada, quando, aos poucos, seus olhos
se acostumaram com a paisagem, e seus ouvidos
começaram a perceber os ruídos que chegavam
de todos os lados, e Antônia então enxergou vultos ao longe
 
e um barulho estranho chegou até ela,
de homens e cavalos que vinham lentamente
desde longe, e o estalar de um chicote, e gritos,
e correntes que se arrastavam nos pés, e ela viu
um grupo que avançava, e à frente, montado,
um homem branco ou mulato, grande e hirsuto,
a brandir o rebenque, e atrás, uma fiada
 
de homens negros, acorrentados, e cães-fila que latiam,
e mais dois ou três, que pareciam soldados,
e toda aquela gente chegou-se a ela, bem perto,
e disse o homem, que mais parecia – e era! – um capitão-do-mato,
“Quem és tu, negra, o que fazes aqui, sem patrão,
sem capataz, sem alforria, sem contrato?”,
 
e Antônia respondeu, “Sou uma serva do Senhor,
que busco encontrar-me aqui, em meio ao nada,
e que peço por sua generosidade, amável capataz,
que me oriente por essa estrada, pois da vila
de minha nascença, já não tenho notícia, e ando
por esse mundo, entregando a Deus minha existência”,
 
e respondeu-lhe o homem, com voz forte e irada,
“Não tens senhor, desavergonhada?, é fugida, isso sim,
e te levarei comigo ao meu patrão, dono de tudo
o que existe aqui, e dono desses negros e dessa estrada,
que pensaram ter liberdade para irem-se pela vida,
e que agora conhecerão o poste da dor, o prêmio
que a tu também caberá”, e voltando-se para um soldado,
 
“Amarra-a no fim da fila, para que veja, nas marcas nas costas
dos seus amigos, o que a aguarda no pelourinho”,
e dirigindo-se a ela, “Negra fugida, não sabes ainda
o que é um relho, um rabo-de-tatu, um bacalhau,
um açoite, a vergasta que te rasgará a pele moça,
e te arrependerás do dia em que cruzaste,
 
em teus passos fugitivos, com Romeu Pimenta,
capitão-do-mato, homem do senhor Albuquerque Matos,
dono da fazenda de Nossa Senhora das Dores,
e entenderás, o porquê das Dores, e jamais te esquecerás
das horas que hás de passar amarrada, até confessares
quem és, de onde viestes, e para onde corrias”,
 
e atirando a mala para o lado, acorrentou-a
brutalmente, e seguiu a caravana, para pasmo de Antônia
que, manietada daquele jeito, não teve remédio
senão aceitar o que tão estranho acontecimento lhe trazia,
e encomendar a alma a Deus, que com certeza
tinha ali algum plano, algum negócio inacabado,
algo a que ela, de algum modo, estava destinada,
e de que, naquele momento, nada vezes nada sabia. (15-4-25)

 


 4. O LÁTEGO



Antônia foi arrastada até uma grande fazenda,
onde havia, no pátio em frente à casa grande,
um pelourinho levantado, e já muita gente ao redor,
pois a notícia da negra fugida, que ninguém sabia quem era,
despertara a curiosidade e a imaginação da família
 
e da escravaria da casa, e os negros que mourejavam nos campos
foram trazidos de longe, para contemplarem o exemplo
na figura da moça assustada, que não resistia,
embora não soubesse o que estava acontecendo,
e disse um homem muito alto e magro,
 
do alto de sua varanda, “Nesse dia 4 de Setembro
do ano da Graça de nosso Senhor de 1777,
eu, Antônio de Albuquerque Matos, Senhor de Ponte Nova,
determino que se açoite a negra fugida, sem nome
nem guarida, e que sangre seus crimes, para glória
de El-Rey, e tendo em mim guardião da lei,
e para sua zeladoria”, e Antônia foi despida
de suas velhas roupas, e nua amarrada ao tronco,
 
e seus ouvidos zuniam e ela sentiu o látego
que lhe rasgava a pele como um choque elétrico,
e sentiu uma vertigem, e estranhamente, em seu coração
orava, como se outra consciência se sobrepusesse
àquela que estava entregue para ser torturada,
 
Vigiem, porque o noivo virá no meio da noite;
bem-aventurado o servo a quem ele encontrar desperto.
Mas aquele a quem ele encontrar negligente
será considerado indigno. Cuida, pois, ó minh’alma,
para que não adormeça e não seja entregue à morte
e lançada fora do reino. Vigie e clame em alta voz:
Santo, Santo, Santo é o Senhor, pelas intercessões
de todos os santos, tem piedade de nós[1]”,
 
e ela mesma respondia, no fio de voz interior
que lhe faltava aos lábios, “Como posso entrar,
indigna que sou, no esplendor dos Teus santos?
Pois se me atrever a entrar na Tua Câmara Nupcial,
as minhas vestes me envergonham,
pois não são dignas do Esposo; serei expulsa
para fora pelos Teus anjos. Por isso
purifica minha alma do pecado e das impurezas
e salva-me, porque Tu és bom e misericordioso[2]”,
 
mas ela já não tinha vestes com que se vestisse,
nem de que se envergonhasse, sua alma estava desnuda,
como ela, e sua envoltória de pele luzia ao sol,
e brilhava como se o próprio Espírito a cobrisse com suas asas,
e o sangue que lhe escorria das costas e lavava seus pés,
 
era o mesmo com que Cristo lavou os pés dos seus, como mandou
Deus a Moisés, que os judeus lavassem suas vestes,
para que, santificados, cressem, eles, que acampados
no deserto seco e sem vida, foram chamados
ao pé da Montanha do Sinai, para que Deus os guiasse
à nova vida que esperasse os eleitos, a Israel no Espírito,
 
a montanha envolvida na mais espessa neblina
– mistério de Deus – e todo o monte tremia e fumegava,
enquanto Moisés descia e subia, e da escuridão
Antônia passava a um estado de luz, e compreendia
os segredos, através dos fenômenos que via
como uma neblina a cobrir todas as coisas visíveis,
moldando-as com suas mãos de nuvens,
 
e acostumando a alma com a visão das coisas profundas,
essa alma que caminhava agora para as alturas,
a cada chibatada, e que rejeitava na medida do possível
a natureza humana decaída, e alcançava
o conhecimento de Deus, revestida da divina nuvem,
deixando para trás todo o visível e o noético,
 
e só restando à alma, nesse instante, contemplar
o invisível e o ininteligível, onde Deus reside,
como Moisés entrou na nuvem, despido de si,
e Antônia clamava a Deus, em seu delírio,
Eu dormia, mas o meu coração velava;
e eis a voz do meu amado que está batendo: abre-me,
minha irmã, meu amor, pomba minha, imaculada minha,
porque a minha cabeça está cheia de orvalho,
os meus cabelos das gotas da noite.
 
Já despi a minha roupa; como a tornarei a vestir?
Já lavei os meus pés; como os tornarei a sujar?
O meu amado pôs a sua mão pela fresta da porta,
e as minhas entranhas estremeceram por amor dele.
 
Eu me levantei para abrir ao meu amado,
e as minhas mãos gotejavam mirra, e os meus dedos
mirra com doce aroma, sobre as aldravas da fechadura.
 
Eu abri ao meu amado, mas já o meu amado
tinha se retirado, e tinha ido; a minha alma desfaleceu
quando ele falou; busquei-o e não o achei,
chamei-o e não me respondeu.
Acharam-me os guardas que rondavam pela cidade;
espancaram-me, feriram-me, tiraram-me o manto
os guardas dos muros.[3]
 
e ela repetia, “Lava, ó Senhor, com Teu precioso Sangue,
pelas orações da Mãe de Deus e de Teus santos,
os pecados de todos os servos que estão presentes aqui[4]”. (15-4-25)



[1] Semana Santa, Terça-feira do Noivo, Aleluia, Coro.

[2] Liturgia de São João Crisóstomo, Preparação para a Comunhão.

[3] Cântico dos Cânticos 5: 2-7.

[4] Liturgia de São João Crisóstomo, Preparação para a Comunhão.



5. VOSMECÊ É LOUCA?


"Vosmecê é louca? Vosmecê é louca?",
Antônia voltou a si lentamente,
estirada nua numa poça de sangue,
todo o corpo a doer e arder
como se tivesse visitado o inferno,
 
e seus olhos demoravam a se acostumar à luz do dia,
que misturava formas e cores numa mesma panela,
como se alguém cozinhasse a realidade,
dando a ela um outro sentido, ébrio, lisérgico, esconso,
 
"Ocê deve de ser mesmo louca, criança",
repetiu a voz, e mãos fortes a ergueram do chão,
embora suas pernas enfraquecidas
não tivessem forças para responder,
"Negrinha louca, onde já se viu? Pedir a Deus
que perdoe quem te mata? Ocê é louca, criança",
a voz dizia e dizia, e continuava,
"Ocê deve de ter um amor muito grande,
que chamava por ele todo o tempo...".
 
Atordoada, Antônia não atinava com o que a voz dizia,
e recordava vagamente, "Já despi a minha roupa,
como a tornarei a vestir (e se via nua e descalça),
já lavei meus pés, como os tornarei a sujar",
e a lembrança dessas palavras, por um instante a fez sorrir,
e a voz – era de uma negra, grande e meiga, afinal –
repetia, "Criança louca, criança louca",
 
e assim Antônia foi levada a um grande e escuro quarto,
onde a deitaram sobre a palha no chão de terra,
e trouxeram ervas, e pensaram suas feridas,
enquanto a negra entoava poderosas rezas
numa língua que ela não compreendia,
e as dores foram diminuindo, amortecidas,
e lhe deram a beber um caldo amargo,
e Antônia adormeceu, e nos sonhos ela se via
 
vestida com suas roupas antigas, e elas estavam rotas,
e um anjo lhe dizia, “Deixa tuas velhas vestes, indignas do Noivo,
e veste-te de tua nova vida, e entra nessa câmara
onde haverá novas núpcias, e tu já não serás serva,
mas irmã e filha, e subirás até os mais altos montes
 
de onde se divisa até a China, e o passado e o futuro,
e todas as gentes que existiram, existirão, existem,
e tudo o mais que será, que está sendo e que foi um dia,
e verás tuas irmãs como num espelho, e verás
o rosto do teu Senhor, e nele conhecerás toda a alegria”,
 
e Antônia despertou de seu sono, e a seu lado velava
a negra Cícera, que molhava sua testa com um pano
e lhe cantava cantigas de criança, como se ela fôra menina,
e outra vez adormeceu, e chegada a manhã foi vestida
e levada à senhora do senhor-dono-de-tudo e, apresentada,
Antônia pensou ser melhor esconder sua vida, e disse
 
que de nada se lembrava, mas que sabia cozinhar,
e a senhora lhe disse, “Levem-na então para a cozinha,
mas a de baixo, onde se mata, sangra e pela,
não a de cima – cozinha da sinhá – onde se preparam
os pratos e os quitutes do dia-a-dia”, e assim
 
foi Antônia levada e, ainda fraca de suas feridas,
foi posta a trabalhar, entre gamelas, cuias e panelas de barro,
colheres de pau e um fogo posto no chão, entre galinhas
penduradas do forro, um porco degolado, muito sangue,
penas, cachorros, insetos e tudo o que mais havia,
 
e as negras cantavam baixinho, porque era proibida
a cantoria, não só no trabalho, mas a qualquer hora
da noite e do dia, e Antônia pôde reconhecer,
entre cantos benguelas e línguas desconhecidas,
um ou dois versos que escutara de Maria no Convento,
 
“Ô arrepia samambaia sapucaia, mané-cuêra
macaxeira macumbêra”, e que achava graça
e se perguntava de onde viera aquilo, e entendia agora
que essas canções não têm tempo nem hora,
mas que vivem dentro na gente, e a qualquer momento
a alma ancestral as empurra pra fora.
 
E entre a dor e a canseira, a criança-louca sorria,
para espanto das outras mulheres, que nada entendiam
mas que se agradavam dela, tão nova, tão bonitinha,
doidinha, doidinha, como a chamavam, a coitadinha,
como a apresentaram à senhora, Sinhá Lúcia,
que afinal a tomou para seu trabalho, e a colocou
na senzala sob a casa grande, onde vivia a gente doméstica,
de melhor trato do que o resto da escravaria. (16-4-25)
 
 

6. O SENHORIO



O senhor sentou-se ne rede da varanda
e ordenou que lhe trouxessem à presença
a escrava sem nome e sem selo que havia sido achada,
e ali mesmo se dispôs a interrogá-la, aproveitando
que a senhora estava ausente, a visitar os primos,
 
e lhe trouxeram a jovem negra, que ele examinou,
com olhos rapinas, e a expressão dura, e logo lhe disse,
“Escrava miserável, diz-me de onde viestes,
quem te comprou, de quem fugistes, e por quais caminhos,
que não encontro registro em parte alguma
de teu ser e tua procedência, diz-me agora,
para que eu possa te dar minha sentença”,
 
mas Antônia lhe respondeu, sem medo na voz,
mas sem revelar sua verdade – que sabia não crível,
ainda mais se tratando de gente como aquilo – e então,
falou-lhe assim, “Senhor dessas terras, não achastes de onde vim,
porque não vim de nenhum espaço, mas de tempo avulso,
ainda não contado, e sirvo a um Senhor maior,
que tem nas mãos os destinos do céu, da terra,
das montanhas, mares e rios”, e o senhor fazendeiro retrucou,
“Senhor outro, qual senhor? Saiba que não há nesse sertão
outro maior do que Albuquerque Matos, dono de tudo
o que vai daqui até a divisa da Capitania, e que,
debaixo desse céu, te juro, ninguém há que possa
suplantar-me em força, poder ou autoridade!”,
 
e isso dizendo, fez um aceno ao capitão-do-mato,
que aplicou um forte golpe às costas de Antônia,
e duas ou três chicoteadas bem dadas, sobre
as feridas que ainda não se haviam cicatrizado,
e o senhor bradou, mais alto, “Diz-me! Diz-me!
Pois posso contra ti dar-te a vida ou a morte,
ou posso, conforme meu alvitre, mudar-te
o destino, ou tua existência, ou tua sorte!”,
 
mas Antônia, movida por um Espírito
que já não a deixava em momento algum
ergueu a cabeça, e falou, como se já soubesse
a resposta que tinha na língua de cor,
Meu Senhor, se assim o desejar,
do meio da tempestade, facilmente vos responderá,
‘Quem é esse que escurece o meu projeto
com palavras sem sentido? Se você é homem, esteja pronto:
vou interrogá-lo, e você me responderá:
 
Onde você estava quando eu colocava
os fundamentos da terra? Diga-me,
se é que você tem tanta inteligência!
Você sabe quem fixou as dimensões da terra?
Quem a mediu com a trena? Onde se encaixam
suas bases, ou quem foi que assentou sua pedra angular,
enquanto os astros da manhã aclamavam
e todos os filhos de Deus aplaudiam? Quem fechou o mar
com uma porta, quando ele irrompeu, jorrando do seio materno?
Quando eu coloquei as nuvens como roupas dele
e névoas espessas como cueiros? Quando lhe coloquei
limites com portas e trancas, e lhe disse:
‘Você vai chegar até aqui, e não passará.
Aqui se quebrará a soberba de suas ondas’?
 
Alguma vez em sua vida você deu ordens
para o amanhecer, ou marcou um lugar para a aurora,
a fim de que ela agarre as bordas da terra,
e dela sacuda os injustos? Por acaso você deu ordens
à terra para ela se transformar como argila
debaixo do sinete e se tingir como vestido,
luz para os injustos e quebrando o braço que ameaça golpear?
 
Você já chegou até as fontes do mar, ou passeou
pelas profundezas do oceano? Já mostraram a você
as portas da morte, ou por acaso você já viu
os portais das sombras? Você examinou a extensão da terra?
Se você sabe tudo isso, me diga. Por onde se vai
até a casa da luz, e onde é que vivem as trevas,
para que você as leve ao território delas
e lhes ensine o caminho para casa? Certamente
você sabe disso tudo, pois já então havia nascido
e já viveu muitíssimos anos[1]”.
 
Então o senhor Matos, tremendo de ira e despeito,
rugiu, “Negra insolente, como ousas falar-me assim?,
pois eu agora sou teu senhor, na falta de quem te reclame,
e para provar-te o que digo, determino que sejas trancada
com os porcos, sem ser alimentada, e que, dentro de uma semana,
sejas mais uma vez açoitada, até que toda vida
saia desse corpo, e que tu entendas, por todo o sempre,
quem pode e quem não pode nas terras de Albuquerque Matos,
e que toda a escravaria assista sangrares até a morte,
se é que te restará vida depois de viveres assim, íntima dos porcos!”,
 
e o capitão-do-mato, tomando Antônia pelo braço,
arrastou-a pelo terreiro e, chamando as outras negras,
fez com que lhe arrancassem as roupas e lhe cortassem o cabelo,
e a atirou ao chiqueiro, em meio à lama e à porcaria,
e fechou ali a porteira, para que ninguém se aproximasse,
ou se apiedasse dela, ou com ela conversasse,
e retirou-se, deixando Antônia naquele meio,
só com seus pensamentos, refletindo sobre Deus
e o inusitado de seus desígnios naquele momento. (19-4-25)



[1] Jó 38: 1-21.



7. O SANGUE QUE CORRE


O que é um corpo? O que é uma chaga?,

se a dor que me trespassa atinge minha alma,
nem por isso a mata, ainda que o corpo grite
e que a morte o constrinja até que o sangue
clame por socorro, pelos anjos, por Cristo, a Virgem e Deus,
quem és tu, meu corpo, a quem eu chamava Antônia,
 
e te disseras "meu", ainda que pelas noites
te abandonasse em qualquer catre,
e minha alma voasse livre, às alturas de sua liberdade,
quem és tu, meu corpo, que carregaste meu prazer e meu pecado,
tu, que te riste, que estivesses triste, que te alegraste,
que te banhaste no regato, que sorriste para a lua,
e sentiste esquentar-te o sol a pino,
 
corpo que me segue desde menina, que cresceste comigo,
que me deste a fala, a vista e o ouvido,
que me deste o olor das flores, e os sabores da mesa,
que carregaste contigo a compreensão dos Evangelhos,
que com tua língua pronunciaste tantas preces,
que te encheste de esperança em cada reza, e que te encantaste
com o milagre de estares vivo, e que agora gemes
e sangras, e te derramas em suores frios e tremores,
 
corpo que te encolhes diante desses horrores,
corpo que me cobre de sofrimento e dores,
que lançaste minha alma além de todo tormento,
de todo mal, de todos os temores deste mundo,
corpo que devolvo à terra, e te agradeço, corpo meu,
que hei de buscar, luminoso e belo, quando chegar a hora,
na medida em que espero, anseio e oro,
pelo que eu, Antônia, de alma e corpo, mereço.




8. SINHÁ LÚCIA




Quando voltou a senhora e soube o que se passara,
de imediato ordenou que lhe trouxessem a negrinha,
que tanto era de seu agrado, e mandou que a lavassem e vestissem,
que lhe pensassem as feridas e a alimentassem, e que a pusessem
o quanto antes em sua presença, para dela ouvir a história,
que, de tão absurda, recebera com estupefata descrença,
 
e, chamando pelo marido, como quem não admite réplica,
disse-lhe em alto e bom som (coisa muito pouco comum para a época),
“Marido meu, senhor Antônio Albuquerque, quero lembrar-lhe
de quem são essas terras, que herdei de meu pai, e de quem manda aqui,
conquanto lhe entregue os negócios, de que o senhor marido
é mais capaz, mas não admito – e ainda tenho irmãos,
se preciso for apelar por justiça – que, no trato da casa,
e de quem coloco ao meu lado, se intrometa, por um segundo que seja,
e por qualquer razão que imagine esteja ou não ao seu alvedrio,
e proíbo-lhe, marido, que volte a levantar sequer um dedo
contra essa negrinha, que, como sabe muito bem,
tomei para mim, pois por ela tenho todo agrado!”,
 
e voltando-lhe as costas, deixou-o pasmo e enfurecido,
mas incapaz de reagir, como gostaria, pois sabia muito bem
o que haveria, se Lúcia chamasse os irmãos – sete! –
por qualquer assunto que visse como sendo obrigada,
e praguejando, dirigiu-se de volta ao campo, a ver
se encontrava qualquer negro em quem pudesse descontar
com a brutalidade de sempre, sua impotência
diante da esposa, que o tratava cada vez como se fosse seu criado.
 
E a negra Cícera cuidou de executar as ordens da senhora,
e buscou Antônia no chiqueiro, e a lavou no ribeirão,
e curou-lhe as feridas com aguardente e emplastros
de ervas do campo e raízes de curandeiro, e a vestiu
com roupas brancas de algodão rústico, iguais às das criadas
da casa, e a introduziu a dona Lúcia, que a esperava
em seu lugar costumeiro, na grande varanda, tendo ao lado
um balaio de costura, e no colo panos de linho
que manejava com cuidado e esmero, e ela disse,
 
“Fica, Cícera, quero que ouças tudo o que conversarmos,
para que depois todos saibam o que foi aqui tratado,
e de que modo eu faço justiça para com aqueles
que estão aos meus cuidados, embora não possa interceder
pelos escravos do senhor, por esse mesmo jeito”,
 
e mandou que Antônia se aproximasse dela, e, medindo-a,
questionou-lhe, “De onde viestes, filha minha,
a que senhor pertencias, por que fugistes, e por quais caminhos,
e como destes nessas bandas, tão longe de tudo,
nessas terras que são minhas, e que administro
em nome do meu pai, e com a ajuda do senhor meu marido?”,
 
mas Antônia, sabendo de sua própria história incrível,
achou por bem fazer-se de louca, de ter perdido a memória,
e disse à senhora não lembrar-se de seu nome, ou de quem era,
nem de sua história, ou de porque não trazia marcas no corpo,
e porque tinha a pele macia e cuidada, ao contrário das negras,
fossem elas da lida do campo ou dos trabalhos da casa,
 
e Sinhá Lúcia, com sua autoridade, lhe disse, “Te chamarás
de hoje em diante Eulália, e deverás estar comigo todo o dia,
e somente a mim responderás, e o que quer que aconteça contigo
me hás de reportar, e que, doravante, me dirás tudo o que te lembrares
de ti, pois conheço o livro de onde tiraste as palavras
que disseste ao meu marido, pobre iletrado, que não pôde entender,
a profundidade daquilo que lhe falaste, e eu me pergunto,
como é possível que tenhas tu, aquilo tudo decorado?”.

1.    

 

9. A MANDINGA


 

Sinhá Lúcia apontou um objeto a Antônia, aliás Eulália, e disse,
"Está vendo isso? Foi tomado de uma negra,
que o escondia com cuidado, e quando abrimos
vimos que se tratava de feitiço,
da mais torpe magia, da forma mais baixa
de todas as feitiçarias,
que, em algum momento, seria usada
contra mim e minha própria família,
e assim mandei que a prendessem num quarto
para que confesse o que com isso quereria",
 
e mostrou a Antônia um saquinho de pano,
contendo dentro folhas de antigo pergaminho,
onde uma estranha escrita havia sido gravada,
com palavras que ninguém entendia,
e Antônia observou atentamente o conteúdo, que,
nas suas andanças pelo mundo, já tivera conhecimento,
e assim respondeu à senhora, usando todo cuidado,
para que contra ela não se voltasse, em forma de malefício,
a prece que ali havia gravada, e lhe disse,
 
"Senhora, o nome disso é 'mandinga', e nada tem do diabo,
mas vejo, pelo que conheço da língua
(que me ensinou alguém, em tempos que não recordo os dias),
escrito aqui, em tom solene, 'Em nome de Deus, o Clemente,
e Misericordioso[1]', e trata-se apenas disso, não mais,
e não se deseja aqui o mal a ninguém,
apenas é outra língua, e a negra a quem pertence essa mandinga
 
é certamente pessoa devota, que deve ser tratada
generosamente, como religiosa que é, segundo a sua linha",
e a Sinhá olhou incrédula para ela, como se duvidasse do que ouvira,
mas já estava acostumada com os saberes de Antônia,
e pediu a ela que lhe falasse mais, de tudo o que sabia,
e mandou soltar a negra Luzia, e trazê-la à sua presença,
e que presenciasse a conversa que dali se seguiria,
 
e a senhora cada vez mais se espantava
com a pequena negrinha, que, de tão jovem
parecia ter vivido mais do que o mais idoso dos sábios,
e se indagava que vida venturosa teria ela vivido,
até dar naquele sítio, longe de tudo, e submetida
a um homem tão ignorante como seu marido,
cujo casamento ela às vezes se arrependia,
apenas para satisfazer ao pai e aos caprichos do destino,
 
que não lhe dera filhos, apenas os bastardos do senhor Matos,
que os distribuía pelas fazendas dos amigos,
para não ter perto de si as provas das traições que fazia,
como se ela não soubesse – mas ah!, quanto sabia ela! –
de tudo o que se passava nos pátios, longe das gelosias,
quando as negras eram submetidas à força,
e os homens brancos impunham sua vontade à vontade,
e dispunham de seus corpos como melhor lhes aprouvera,
 
ah, Lúcia, de tanta nobreza, estéril malgrado suas preces,
obrigada a viver ali, entre brutos, cercando seu pequeno feudo
de delicadeza e cultura, administrando sua pouca liberdade,
branca escrava de um senhor sempre ausente, que a ignorava,
não fosse quando ela própria intervinha na defesa de sua pouca gente,
meia dúzia de negras que tinha como sua família,
que tratava o melhor que podia, dentro dos limites
daquilo que lhe permitia sua consciência, dentro daquele século
 
de guerras, de homens matando homens, de mulheres odientas
que envenenavam umas às outras nos salões de Europa,
nos bailes imperiais de França e Inglaterra, nos castelos de Alemanha,
enquanto, naqueles Brasis ignotos, portugueses e nativos misturados
impunham-se às gentes como se fossem diferenciados,
e imitavam seus congêneres da metrópole, embora desconhecessem
o quanto são típicos, ah!, Lúcia, que estranho fado lhe coube,
 
que sua única distração é entreter-se com as negras,
de todos desprezadas, mas que, para si, compunham
o único tesouro pelo qual vale a pena viver, e sonhar
com o dia em que, serenas, poderão olhar-se cara a cara,
sem senhoras nem criadas, e se colocar num círculo
que não se inicia nem fecha em nenhuma delas,
e que todas se deem as mãos, sem senhores nem regras,
e que dancem assim a noite toda, como quem sabe
dançaram um dia as bruxas, queimadas depois nas fogueiras
da sociedade imunda, hipócrita e megera. (21-4-25)

[1] Santo Alcorão, Surata 1: 1.



10. O QUE É O HOMEM?



“O que é o homem”, se perguntava Lúcia,
contemplando a lua que surgia por detrás da serra
sobre a mata escura, ela como a lua solitária, ela
e sua pergunta eterna, que não se calava, “O que é o homem,
esse homem que é um enigma, e talvez o maior
de todos os enigmas do universo, esse homem que é um enigma,
não por ser animal, ou por ser social, não por ser um produto
da natureza ou da sociedade, mas por ser essa pessoa,
e nada mais do que pessoa?”, pois o mundo todo não é nada
 
perante a pessoa humana, nada diante do que existe de único
em um único rosto humano que seja, num destino humano,
como o seu próprio, perdida naquela casa grande e vazia,
como de cada negra da casa, como dos homens
da fazenda, tão iludidos com seu poder, sua fama,
incapazes de perceber sua insignificância, e que serão um dia
enterrados sem seus tesouros, para que os vermes lhes deem
o destino merecido, até que de sua memória não reste mais
do que um feixe de ossos, roídos e apagados da história,
 
e agora, quando escurecia, sentia Lúcia seu coração contrito
diante de um Deus que não compreendia, mas no qual
punha toda sua esperança, na esperança de que um dia
viesse, por aquela estrada, a alma gêmea que a libertasse
dos tantos grilhões que tinha, que a tinham prisioneira,
e talvez por isso, tanto se compadecesse das negras
cujo convívio era, para ela, a razão inteira de estar viva,
 
e Lúcia olhava o mundo lá fora, e lhe parecia que Antônia – Eulália,
como queria – que os olhos olhavam a mesma cena, sentada
a seus pés, na sala desguarnecida, lhe responderia, no seu fio de voz
e com toda sua sabedoria, “O homem, Lúcia, não é filho daqui,
desse mundão que vemos, sua origem está em outra parte,
porque o que faz do homem humano não é seu corpo,
não são os costumes, não é aquilo de que ele se reveste,
mas é o Espírito”, e Lúcia olhava para a negrinha, calada ao seu lado,
e se perguntava se seria ela, ou ela própria, que lhe respondia?,
 
e continuava, contemplativa, “Somente o homem, Lúcia,
é todo o universo, a criação divina, somente ele, dentre todos os bichos,
reúne o universal e o infinito, e o particular e o indivíduo,
esse universo que jamais se repete, que faz com que cada um é cada um,
e que o que faz a pessoa não é o que ela tem em comum com todas,
mas aquilo que é só dela, que a torna sujeito, essa coisa só sua,
dela só, mas infinita, em que mora o mistério todo da existência,
que nunca se acaba, que é uma criação contínua, que Deus encarregou
que passe a vida a se recriar, a se encher dos conteúdos universais,
a se completar numa unidade, sua plenitude ao longo da vida,
de sua passagem por essa terra, que assim é uma festa, não uma guerra”,
 
e Lúcia olhava a negrinha imóvel ao seu lado, e a ouvia murmurar
numa língua que ela própria não conhecia, e sentia que ali,
tão quietinha, estava a alma que ela própria procurara toda a vida,
ali, nos grandes olhos escuros da negra que, saiba-se lá como
chegara àquela fazenda, àquela realidade dura e chã, e que agora
Lúcia sentia com alguém a quem podia chamar de irmã.

 

 

 11. ESSA NEGRINHA



Lúcia contemplava Antônia, e dizia para si mesma,
“Essa pessoa existe, não pelos traços comuns
com toda gente, não porque tenha dois olhos,
como todo mundo, mas pela expressão desses olhos,
que não encontramos em ninguém mais, nem em parte alguma,
 
e assim uma pessoa não é uma pessoa, a não ser na medida
em que ela seja quem seja, na medida mesma
em que realiza seus atos espontâneos, originais,
atos que são para ela e para o mundo uma irrupção do Espírito,
uma coisa única nunca vista, como que uma criação nova”,
 
(e quem sou eu, Lúcia, e o que tenho feito da vida que Deus me deu,
nesses sertões sem fim, sob o jugo dos homens, do século,
de tudo o que aprendi como certo, tudo de que eu duvido agora,
e que me tem acordada toda a noite, a me indagar, sem que
nunca venha a mim, como o galo na madrugada, na hora contada,
a tão esperada resposta?, tudo, tudo que recebi da minha própria natureza,
e da sociedade, da história e da civilização chamada,
 
e que se levanta diante de mim como uma pena e uma dificuldade
que é preciso vencer, é preciso vencer, como se fossem os materiais
que esperam que minha própria criatividade os transforme
nos elementos pessoais meus que irão formar um conjunto único,
para o bem e para o mal, para tudo o que de mim falhe ou finde,
esse conjunto que sou eu, Lúcia, tornada pessoa afinal)
 
“eu, Sinhá, Lúcia-pessoa que não é uma substância, mas um ato,
um fazer que faço a cada dia, que extraio de mim mesma
como a aranha que fia, um ato criador (todo ato é criador),
que é resistência, vitória sobre a força esmagadora do mundo,
triunfo da liberdade sobre a escravidão do mundo,
ai!, a escravidão, essa chaga, essa cegueira que desumaniza,
que rompe os corpos, que os despedaça pela cor da pele,
como posso viver assim?, como posso conviver com tudo isso,
 
quando vejo meu marido, nas plantações e pastos,
imponente (pensa ele) sobre seu cavalo, a ordenar
que se esfalfem os negros, que lhes chegue o rebenque,
que se lhes arrebentem as costas, os pés e a esperança
de que um dia cheguem a ser gente, como eram em África,
pessoas – pessoas! – arrancadas de si mesmas, transformadas
em nada, indivíduos sem história, sem sonhos, sem passado,
sem parentes, famílias divididas, como quem nada sente,
 
e essa negrinha ao meu lado, que quero abraçar e beijar,
e estar com ela sempre, que amo sem saber o que é amar,
mas que já não sei viver se não a puder olhar, ah, Lúcia,
o que está acontecendo?, quem sou eu, para onde vou,
e, principalmente, onde eu queria, realmente, estar?”.

 

 

12. A PESSOA



E Antônia, Eulália, parecia lhe responder,

“A pessoa é esforço e luta, tomada de posse de si mesma
e do mundo, vitória sobre a escravidão, libertação,
porque a pessoa é um sujeito, não um objeto dentre outros,
que tem raízes no plano interior da existência,
no mundo do espírito, no mundo da liberdade,
a pessoa não é um objeto entre objetos, nem uma coisa entre outras
(quanto à sociedade, ela é um objeto), a pessoa é um sujeito
em meio a sujeitos e sua transformação em objeto implica sua morte”.
 
Antônia falava sem dizer palavra, e seus olhos diziam, “A pessoa
não pode ser determinada desde fora, mesmo por Deus,
e sua relação com Deus não é uma relação com sua causa,
porque ela está fora do reino da determinação,
e, na verdade, ela se coloca no interior do reino da liberdade
e Deus não é um objeto para ela, ele é um sujeito
com o qual ela está numa relação de vida, uma relação existencial”,
 
os grandes olhos negros falavam, “A existência da pessoa
é condicionada pela liberdade, é a pessoa que faz a dignidade do homem,
somente a pessoa possui a dignidade humana,
que consiste na libertação da escravidão, na libertação total,
dos grilhões físicos, mas também de toda ideia do mundo,
 
da concepção servil da vida religiosa e das relações
de servilidade e escravidão entre o homem e seu Deus imaginário,
pois o único Deus, verdadeiro Deus, é a garantia da liberdade da pessoa,
e ele preserva o homem da submissão ao poder da natureza e da sociedade,
ao reino de César e ao mundo da objetividade,
que homens insanos e sem rumo, cegos guias de cegos, criaram para si”.
 
A lua parecia cada vez maior, e entrava pela sala com seu halo,
e Lúcia sentia que sua mente vagava por mares
que nunca antes havia navegado, e uma tontura lhe tomou as pálpebras,
e quando acordou estava em seus lençóis, e Antônia,
Eulália, a estava olhando, quieta como sempre, e como sempre ao seu lado.

 

 

13. CONVERSA DE NEGRAS



As negras conversavam na cozinha, longe dos olhos da senhoria,
e Luzia, a quem a mandinga fôra devolvida, negra Nagô do Togo,
catava os piolhos de Cícera, e falavam de Sinhá Lúcia,
e das perguntas que ela se fazia, que todas elas sabiam,
mas se calavam, porque as respostas apenas à Sinhá cabiam,
e entre si ponderavam de sua situação na vida, escravizadas
malgrado si, que não se entregavam, porque ali cada qual
 
se tinha como pessoa, e a realização da pessoa não se efetua
sem que haja resistência, ela exige uma luta contra o poder
subjugador do mundo, a recusa em transigir com o mundo,
porque, ao contrário, a renúncia à pessoa, a aceitação
em se submeter à ação dissolvente do mundo, paradoxalmente,
possuem o dom de atenuar a dor existencial,
e por isso as criaturas consentem nisso facilmente,
 
e Cícera disse, “A aceitação da escravidão diminui a dor,
a não aceitação a aumenta, e por isso muitas e muitos de nós
a recebem como uma lei do mundo, e aceitam sua parte na sociedade,
e a ela entregam seu ser pessoal e se tornam objetos, e se afastam
de sua natureza verdadeira, sua natureza humana, e entregam
sua liberdade, e já ninguém conhece quem seja sua própria pessoa”,
 
e ela continuou, “mas há outro caminho, e esse caminho
passa pelas profundezas da existência, e é sobre esse caminho
que acontecem os encontros com Deus, com os outros homens,
com a essência interior do mundo, pois esse é o caminho,
não das comunicações entre os objetos, mas das comunicações existenciais,
e somente seguindo esse caminho a pessoa consegue se realizar por completo,
 
pois a relação existencial de uma pessoa com outra,
ou com aquilo que a ultrapassa infinitamente,
nada tem a ver com a matemática ou a biologia
 
(‘A relação de uma parte com o todo é uma relação matemática,
assim como a relação de um órgão com o organismo é uma relação biológica.
Essas relações são relações que existem no mundo objetivo,
no qual o homem desempenha apenas o papel de uma parte ou de um órgão[1]’).”
 
Transcender não implica a subordinação da pessoa
a um todo qualquer, nem sua integração,
como parte constituinte, de uma realidade coletiva,
nem sua submissão a outro ser, sequer a um Ser Supremo,
como ao seu Senhor, a transcendência existencial é liberdade
e pressupõe a liberdade, ela é a libertação
do homem de seu aprisionamento em si mesmo[2]”.
 
Luzia falou, “O problema da pessoa nada tem em comum
com o das relações entre o corpo e a alma, pois a pessoa não é
a alma distinta do corpo, por meio da qual o homem
se encontra ligado à vida da natureza, a pessoa representa
a imagem total do homem, ela é sua representação total
 
na qual o princípio espiritual domina todas as forças
psíquicas e corporais do homem, e entre a alma e o corpo
existe uma unidade vital, pois a alma tem sua sede,
não no cérebro, mas na forma, e a forma do corpo
não é feita de matéria, ela não é um fenômeno do mundo físico,
ela não é apenas de natureza psíquica, mas é uma manifestação do espírito”.
 
“E o rosto humano constitui o coroamento
do processo cósmico, seu produto supremo,
ele não é o produto de forças puramente cósmicas,
ele pressupõe a ação de uma força espiritual,
superior às forças da natureza, o rosto humano
é o que existe de mais espantoso na vida cósmica,
pois ele deixa transparecer um outro mundo.
 
Através de seu rosto, o homem entra no processo cósmico
como um fenômeno único, inimitável, que escapa
a toda repetição, a toda reprodução, pois
graças ao rosto, percebemos não apenas a vida corporal,
como também a vida psíquica do homem, e conhecemos essa vida
melhor do que a vida do corpo, pois a forma do corpo
provém ao mesmo tempo da alma e do espírito,
e é nisso que consiste a totalidade da pessoa”.


[1] Nikolai Berdiaev – Escravidão e Liberdade.

[2] Ibid.

 



14. ESSE HOMEM


“Quando esse homem me amou? Quando foi
que o amei eu?”, Lúcia se perguntava, vendo o marido à mesa,
com seus modos de carroceiro, coberto de farofa e restos,
grunhindo a cada pedaço de comida que enfiava goela abaixo,
sem dizer palavra, sem sequer saber como segurar o garfo,
 
e ela cada vez mais se ausentava daquela realidade,
e sentia nojo, uma espécie de asco, e agradecia
a que dormissem em quarto separado, cada qual
no seu universo, sem nunca mais se encontrarem,
graças a Deus, que sentia ela não poderia suportar
entregar-se outra vez àquele homem, por quem agora
tinha nada além de aversão, dó e pena, enquanto
 
aumentava nela o amor por suas negras, e por todos
os escravos da fazenda, ainda que não estivesse em suas mãos
intervir na divisão feita, em que um e outro seriam donos
do seu quinhão, para seu serviço, e que não interferissem
nos modos e na vida um do outro, nem pela menor coisa,
 
e assim se passavam os dias, e as horas ao lado de Eulália
eram as únicas em que se sentia de fato viva, e que seu coração
batia de outra maneira, e que lhe subia um calor
por todo o corpo, e seus olhos voltavam a brilhar,
e, finalmente, ela encontrava outra vez prazer na existência. (21-4-25)

 


15. AMOR



Lúcia sentia a cabeça e o corpo atordoados
pelos acontecimentos e pela presença de Eulália,
e perscrutava o fundo de sua pessoa, e se justificava,
 
 “as funções do corpo são de ordem fisiológica,
 pelas quais o homem está ligado ao mundo
animal e biológico, mas a forma do corpo
pertence ao mundo das formas e da estética,
e isso realiza uma mudança nessa consciência cristã
imposta, e obriga a abandonar todo espiritualismo abstrato
que opõe o espírito ao corpo, e que vê no corpo
um princípio hostil ao espírito, porque é preciso deixar
de ver no corpo um fenômeno material, físico,
 
porque o espírito compreende igualmente o corpo,
mas para vivificá-lo, para animá-lo, para imprimir a ele
uma outra qualidade, dando uma forma à alma e ao corpo,
realizando assim neles uma unidade, ao invés
de sufocar e destruir a um e a outro, e assim
o espírito forma a pessoa, que ele realiza em sua unidade,
fazendo nela entrar o corpo, ou seja, o rosto humano,
e assim a pessoa representa um conjunto formado
por espírito, alma e corpo, conjunto graças ao qual
 
ela se eleva acima do determinismo do mundo da natureza,
de tal modo que a forma humana, tal como a percebemos
pelo órgão sensível da visão, longe de depender da matéria,
representa uma vitória sobre a matéria, opondo-se
às suas determinações que despersonalizam tudo o que tocam”,
 
e nesse aluvião de pensamentos, Lúcia puxou Eulália
pelo braço, e beijou-lhe a boca, apaixonadamente,
com furor de alma e espírito, e sentiu naquele momento
que por ela morreria, e que a ela daria tudo, sua vida,
sua nobreza, todas as suas posses, e mesmo a possessão
de si mesma, que além do amor por Eulália, já nada possuía. (21-4-25)




16. SORORIDADE




Eulália se desprendeu de Lúcia, arfante, e olhou-a
com seriedade e serena independência, e Lúcia percebeu ali
até onde tinha ido, e que diante de si não estava uma mulher,
um indivíduo, como pensara que fosse, em seu amor desconhecido,
mas uma pessoa inteira, não nascida pela união de pais e mães,
mas de um processo cósmico, emanada de Deus,
e talvez por isso não se encontrava dela referência alguma,
porque não vinha de parte alguma, mas caíra ali,
desde alguma outra forma de existência, de algum outro mundo.
 
Lúcia entendeu de repente que Eulália era, em verdade,
outra coisa, uma unidade e uma totalidade primárias,
e as relações que ela tinha consigo e com outros,
com o mundo, com a sociedade, com os homens,
eram relações de criação, de liberdade, de amor, e não
de determinação, que, longe de ser uma entidade animal,
ela não estava determinada pela hereditariedade biológica
e social, ela expressava a liberdade do humano, a possibilidade
de uma vitória sobre o determinismo do mundo,
 
essa Eulália, estranha criaturinha, que buscava superar
seu isolamento de gente, que tentava descobrir em si o Universo,
e que defendia sua independência em relação ao mundo que a cercava
e que, por tudo isso, era em si um elemento revolucionário,
no sentido profundo da palavra, e que por isso Lúcia sentia
tal e tanto amor em si, por essa negra que elegera, e via
 
que o cosmo, a humanidade e a sociedade se encontravam nela, pessoa,
e não que ela estava mergulhada no cosmo, na humanidade, na sociedade,
e que nela o universal era a experiencia vivida pelo sujeito,
não uma realidade incluída no objeto, e que nunca houvera ali escrava alguma,
e que ela não se parecia com nada que existia no mundo objetivo,
natural ou social, nem possuía analogia alguma nesse mundo,
e Lúcia entendeu que seu amor ardente vinha de que,
enquanto pessoa, nenhuma relação existia, nenhuma verdadeira união,
que não fosse, entre elas, a de encontro, de sororidade e de comunhão. (21-4-25)

 

 

17. TECLA



De pequena, Tecla vira morrer o pai no tronco,
e sua mãe de tristeza e banzo partir ao céu,
e Tecla tomou seu amargo copo, e enfiou-se
numa infância triste, num mundo onde não existisse
talvez nem ela, nem a morte, um mundo
em que se passavam os dias, mas não o tempo,
as horas se passavam, mas era sempre o mesmo momento,
 
e seu corpo mirrado murchava como a flor que estiola
por falta de terra no vaso, e suas raízes secavam,
e já nada lhe importava, ainda que Sinhá Lúcia a houvesse tomado
sob sua guarda, e que ela ali se criava, na senzala da casa,
junto com as negras, e junto de Eulália, que a cuidava sempre
e não deixaria que ela partisse, como seus parentes,
pois algum destino maior a aguardava.
 
Mas Lúcia percebeu que Tecla crescia, e não gostou
do modo como a olhava o marido, que bem conhecia,
e pensou em arranjar um modo qualquer de proteger a criança,
e afastá-la o mais possível daquela casa de perigos,
e consultou Eulália, que lhe disse conhecer um Convento,
a um estirão de marcha dali, e no qual as Freiras acolheriam
a pequena, e que bastava uma carta à Superiora,
Madre Maria do Egito, para que a recebessem e amparassem,
 
e que de lá lhe enviariam notícias de tudo o que houvesse
e de tudo o que haveria, e Lúcia, que mais do que tudo
confiava em sua amiga, tomou as providências,
e chamou o carreteiro de sua confiança, João Arcanjo,
e, fazendo uma trouxa de roupas brancas e um farnel,
arrumou Tecla como pôde, oculta entre a carga que ali ia,
e entregando um bilhete ao Arcanjo, abençoou a menina,
recomendando-a ao outro anjo, Miguel, com sua espada
garantindo que nada de mal lhe passaria.
 
E foi-se a carroça pelo carreiro, com sua preciosa carga,
e um carreteiro fiel, que daria a vida, se preciso,
para que sua carga viva chegasse sã e salva ao destino,
porque nada mais lhe importava, e sabia ele bem
que para aquela viagem, vivera tudo o que havia vivido. (21-4-25)

 

 

18. A PESSOA É INSEPARÁVELDO AMOR




E falando da pessoa, da liberdade, da semelhança,
as amigas conversavam na varanda, e Eulália dizia,
 “a liberdade da pessoa não é só um direito, ela é um dever,
uma vocação, a realização da ideia de Deus no homem,
uma resposta ao chamado de Deus, o ser humano deve ser livre,
ele não tem o “direito” de ser escravo (embora a maioria
dos homens amem a escravidão, e reivindiquem
o direito à escravidão sob diversas formas, e é a escravidão
que ele consideram como um direito, não a liberdade),
pois o ser humano deve ser homem, e essa é a vontade de Deus.
 
a imagem da pessoa humana não é apenas uma imagem humana:
ela é também uma imagem divina, e a pessoa não é uma pessoa humana
senão na medida em que é ao mesmo tempo humano-divina,
e o elemento divino da pessoa humana consiste
em sua liberdade e independência em relação ao mundo objetivo.
É isso – e somente isso – que torna possível a aparição, no mundo,
da pessoa não submetida ao mundo. A pessoa é humana,
e ela ultrapassa o humano que não depende senão do mundo[1]”.
 
“É bem isso que pensas, amiga?”, disse Lúcia, dirigindo-se a Eulália,
“Pois saibas que és demasiado ousada, embora seja eu incapaz
de desdizer-te a menor palavra, e que tudo o que dizes faz sentido,
e o sinto dentro de mim, como nunca sentira nada, do que li,
que vi, do que me disseram, ordenaram ou proibiram. E me disseste
que o homem é uma pessoa, porque Deus é uma pessoa, e inversamente,
 
e que se Deus é uma Pessoa e não o Absoluto, se Ele não é apenas essência,
mas também existência, se Ele se abre a relações pessoais com o ‘outro’,
com o múltiplo que somos nós, Ele deve ser acessível ao sofrimento,
e que O Filho do Homem sofre, não apenas enquanto homem,
mas enquanto Deus, que Deus partilha do sofrimento dos homens,
e que na falta disso, Ele não seria uma Pessoa, mas uma ideia abstrata”.
 
“E me dizes ainda que Deus não pode existir senão através do Filho,
que é o Deus do amor, do sacrifício e do sofrimento, que Deus
é espírito, liberdade, ato, não um ser, como a pessoa seria, pois a pessoa
tampouco é um ser, nem sequer parte de um ser: ela é espírito, liberdade, ato,
a pessoa é imortal, ela é a única coisa imortal, ela foi criada para a eternidade,
 
e que ela não pode ser transformada em coisa, e essa transformação
do humano em coisa – à qual nós chamamos de morte – não diz respeito à pessoa,
porque a morte não é mais do que a ruptura das relações da pessoa com o mundo,
que a morte não significa o fim da existência da pessoa, mas da existência do mundo,
que é estranho à pessoa, esse mundo que se encontrava em seu caminho”.
 
E Antônia – Eulália – respondeu-lhe no seu tom de voz baixinho,
“Porque a pessoa é inseparável do amor, desse amor unívoco,
que disse Cristo, ‘Amai-vos uns aos outros como vos amei[2],
com esse amor que é divino, que não exclui ninguém,
que ignora todo mal (porque o mal não passa da ausência do bem),
esse amor que fez Cristo perdoar, dizendo dos judeus
e dos romanos não saberem o que estavam fazendo,
 
esse amor que é infinito, que não cabe contraditório,
esse amor que é livre, a única liberdade verdadeira,
pois se estende além desse mundo, além dos campos,
por mais longínquos, além dos mares e das cordilheiras,
esse amor com que amas agora, que sabes ser teu ser,
que te constitui, te constrói e te sustentará a vida inteira”.
 
Outra vez Lúcia olhou para ela, e outra vez sentiu
que por ela daria a vida, mas serenamente agora,
como um gesto de amor, quando chegasse a hora derradeira. (21-4-25)


[1] Nikolai Berdiaev – Escravidão e Liberdade.

[2] João 13: 34.


19. LIBERDADE



Todos os escravos irromperam a gritar, “O senhor morreu!
O senhor morreu!”, e Sinhá Lúcia despencou-se da varanda a correr,
enquanto lhe traziam, arranchado sobre um cavalo, o corpo do marido,
feito de sangue e ossos, a carne desfeita pelo balaços da emboscada,
jurado de morte que era, por rixas antigas que deixara viúvas e órfãos
pela estrada, e agora chegara a momento da paga, e que bem paga foi!,
e do homem orgulhoso não restara quase nada, as roupas em trapos,
o rosto que não se sabia do que era, se homem, assombração, bicho,
e uns diziam que tentara fugir, outros que enfrentara, e assim
 
deixaram que a lenda resolvesse, e que, em tempos futuros,
se dissesse dele isso ou aquilo, porque o que importava agora
era velá-lo, embrulhá-lo em panos, como uma criança,
e metê-lo como um bacalhau na melhor caixa disponível,
e gastar com ele algumas velas, um círio, e enterrá-lo bem fundo,
não fosse ele acordar de um sonho mal dormido, e voltar
para se vingar de todos os que concorreram para o ocorrido.
 
Sinhá Lúcia pôs-se de preto, em mal fingido luto,
para não demonstrar em público o alívio que a tomava,
e assistiu a Missa, rezada por Padre Pascoal da Mata,
e ainda conseguiu espremer uma lágrima ou duas,
e assim recolheu-se em orações, para que não voltasse
o marido, que não a assombrasse depois de morto,
tudo o que a assombrara de quando vivo.
 
E deixando depois de três meses o período,
chamou à casa grande toda a escravaria, que achegou-se
lentamente, tanto para ouvir como para dar notícias,
e estando todos reunidos, antes que se pronunciasse
a senhora, um dos negros, Jesuíno, adiantou-se
e falou, em tom de voz que não denotava
qualquer raiva, ou pensamento, ou falta de tino:
“Sinhá, que esteve esse tempo recolhida,
coisa que a gente lamenta, pelo tanto que lhe temos apreço,
mas não podemos deixar passar sem dar conta à senhora,
que, no dia menos contado, nós matamos
o capataz, o ajudante de ordens, o capitão-do-mato, ‘seu’ Pimenta”,
 
e recuou dois passos, o chapéu na mão, a esperar
o que não veio: a reprimenda, mas muito ao contrário,
lhe disse Lúcia, com carinho e respeito, “Enterrem-no
com cuidado, ponham-lhe vela e cruz, façam uma prece,
pois era homem muito ruim, mas nem por isso
desmerece, de nossa parte, todo nosso respeito.”
 
E estando todos ali, com Eulália a seu lado,
chamou pelos nomes, “Euzébio, Virgílio, Noêmia,
Clara, Pancrácio, Custódio, Luzia, Cícera, Armênia,
Dora, Eliseu, Isaías, Rute, Isabel e Moreira!”,
e os aguardou na sala da casa-grande, e,
sentando-se em sua cadeira de braços, disse
bem alto, para que todos ouvissem,
 
“O que falo a vosmecês, digo-o a todos,
não no mesmo discurso, mas no mesmo teor,
e é tudo o que hoje sinto, pois aprendi muito
nos anos em que aqui estive, e aprendi
com vocês, e com Eulália que está aqui ao meu lado,
e aprendi comigo, cismando nas noites em claro,
e pedindo a Cristo Jesus que me aconselhasse
e que desse à minha vida realidade e sentido,
 
e é o que agora vos quero transmitir, e se preciso for,
colocarei tudo por escrito, e digo agora, e que ouçam todos,
principalmente os que estão de fora, que a partir de hoje
sois livres, homens e mulheres livres, que façam
o que bem quiserem de suas vidas, que vão pelos caminhos
que escolherem, muito embora aqui continuem bem-vindos,
 
e que aqui terão seus próprios sítios, e suas criações,
e que construam aqui suas casas, e que trabalharemos todos
e repartiremos todos do fruto do nosso trabalho,
e que trabalharemos nessa terra que um dia foi maldita,
ombro a ombro, e que vosmecês a chamem de seu quilombo,
 
e que vosmecês, que me têm rodeado, serão não mais criados,
que viveremos todos nesse casarão de tantos quartos,
que todos – mesmo eu – nos ajudaremos na faina de cada dia,
e no trabalho, e que já não suporto, nem por um minuto,
o fardo do modo injusto como foram vosmecês tratados,
 
e que hoje entendo, porque me ensinou a vida e o fado,
que ninguém é indigno, ninguém é menos, ninguém é mais,
que toda gente é boa, e que qualquer um que saiba penetrar
até a essência do amor não o poderá conceber de outra forma
que a de um movimento que vai de pessoa a pessoa.”
 
E, tomando Eulália pela mão, desceu ao terreiro,
e ordenou que se queimasse o pelourinho,
até não restar cinzas nem lembrança de todo o mal,
de toda a dor e todo o sofrimento a que ele se havia prestado. (21-4-25)

 

 

20. INVISÍVEL AMIGA AINDA POR NASCER



Eulália procurou por Lúcia pela casa, até finalmente

encontrá-la atarefada na cozinha, ao lado de Cícera e Luzia,
e sentando-se as quatro ao redor da grande mesa, comunicou
sem qualquer solenidade, serena como era de seu feitio,
que chegara a hora de deixar aquela casa, e que a partir de agora
seguiria ela por um caminho que ninguém poderia acompanhá-la,
porque nem ela sabia onde iria dar, nem como, nem quando,
e nem sequer se haveria de fato um caminho, ou se era apenas delírio,
 
e ficaram todas caladas, sem entender o que tinham ouvido,
mas cada qual sabia que, do mesmo modo como viera, Eulália
tinha direito sobre si, e haveria de saber dar cabo de seu destino,
mas lamentavam – Lúcia, principalmente, que derramava lágrimas
de que ninguém duvidasse, tanto eram sentidas – que ela se fosse
assim, tão de repente, sem prévio aviso, mas Eulália lhes fez ver
 
que mais lhe esperava sob o vasto céu dessa ignota colônia,
e falou, “Agradeço que me acolhessem com tanta bondade,
agradeço a graça de tê-la servido, amiga Lúcia, agradeço a cada uma,
agradeço pelo nome que me deram, Eulália, mas devo contar-lhes,
porque me confiardes tanta coisa, que meu nome verdadeiro é Antônia,
 
e que venho de não sei onde, e vou agora, para os lados do sol
quando se põe, e não temam por mim, pois sobrevivi a ‘seu’ Pimenta,
de quem não guardo rancor, pobre homem, e vivi para ver
até onde pode chegar o amor, quando quer, e os milagres que opera,
e o modo como dentre todos os nossos destinos de escravizadas
se fez essa irmandade, que Deus a mantenha, e que muitas vidas
passem por aqui, nesse novo aprisco, e que essa casa, de preces feita,
seja uma coluna de amor, conduzindo dessa terra de pranto
à terra superior, nossa pátria mais-que-perfeita”.
 
“Ah!, e por último, recebo notícias de que Tecla está alegre,
e curada, e cresce como uma moça, e é como igual
que a Madre Superiora a trata, e que ela está sob os cuidados
de nossa irmã de cor, Joana Batista, africana, nascida Fatumata”.
 
E colocando seu alforje aos ombros, Antônia abraçou cada uma,
e se deixou ficar longamente entre os braços de Lúcia,
que lhe acariciou os cabelos, beijou-lhe a testa, e disse, rindo,
“Vai-te, anjo meu, diabinha, que me enlouqueceste de dor,
mas cujo amor me trouxe de volta à vida, vai-te,
passa aquela porteira e não olhes para trás, mas para frente,
vai-te, e procura no mato, depois da terceira curva da estrada,
passando a ponte adiante, ali onde caíste da vez primeira,
e encontrarás aquilo que é teu, e que te fará bem contente!”.
 
E à noite, arrumando as coisas de Antônia, Lúcia encontrou
um caderno, que nunca vira antes, cheio de poemas escritos
e de tudo o que conversavam, e leu na primeira página,
escrito com letra muito antiga, que se perdia na alvorada do tempo,
sem identificação nem indicação de autoria, apenas, em poucas linhas,
 
Invisível amiga ainda por nascer,
ao estudares minha língua suave e doce,
sozinha e ao serão meus versos hás-de ler:
olha que fui poeta e que também fui moça.
Como não poderei olhar-te face a face,
nem poderei, à tua, minha mão prender,
minha alma atiro além do tempo e do espaço
pra te saudar. Eu sei que hás-de entender[1]”. (21-4-25)



[1] James Flecker (1884-1915) – Para um poeta daqui a mil anos


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