19. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 6: UM FINAL / POSFÁCIO DESSE LIVRO
6. UM FINAL
Onde assistimos a morte de Maria do Egito, que vivera mais
de 300 anos em seu Convento, sua chegada ao Céu e o começo de um novo ciclo de
vida, de glória em glória.
1. A
MORTE DE MARIA DO EGITO
de joelhos, como se rezasse, o corpo da Madre Superiora,
e ele estava plácido, como que esvaziado do mundo,
e, nos olhos carbonizados, restava ainda uma paz, um ardor,
como quem tivesse encontrado o amor, depois de muitos anos de espera,
como quem tivesse alcançado a outra margem
de um oceano infinito, e deixado o barco na praia, com seus remos,
e, descalça, houvesse seguido a pé para as montanhas
que se agigantavam num horizonte, há muito perdido para os homens,
onde era aguardada pelas gerações que a precederam
sentadas num semicírculo, na areia, ao redor das brasas
onde se assava um peixinho, e ali ela era saudada
por alguém que ela de muito tempo conhecia,
pois estava com ele todo dia, e com ele madrugava, orava e dormia,
e o apresentava às pessoas, chamando-o pelo nome,
ou qualquer alcunha que melhor o representasse,
conforme a quem ela – e ele – se dirigia,
e sentava-se ela agora no mesmo círculo, e à sua volta
Fatumata, Tecla, Ana, Cananeia, Teodora e Maria,
e, ao longe, nas ondas do mar bravio que se desenhava lá embaixo,
viam a figura de Antônia, ao leme de um barquinho,
a saudá-las em meio à tempestade, a procurar um porto, um abrigo,
onde pudesse atracar, e dali continuar a saga comum
que começara há tanto tempo, no bojo de outro navio,
o Amável Donzela, que, em meio a tantos horrores,
deixou por herança essa estranha sabedoria,
que todas partilharam, e transmitiram, e continuaram
por toda a vida, e que em algum lugar estará, plena e viva,
onde quer que haja uma Egípcia, uma Fatumata,
uma Tecla, uma Ana, uma Teodora, uma Maria,
e uma Antônia – por que não? – a puxar uma nova fila.
2. RESSURREIÇÃO
então infalivelmente, esse fluxo móvel da natureza cessará,
por ter encontrado seu necessário fim; e essa vida
será substituída por outro modo de existência,
distinto do atual, que consiste em nascimento e destruição.
Quando nossa natureza, na devida ordem,
preencher o curso do tempo, então,
infalivelmente, esse movimento fluido,
criado pela sucessão das gerações, chegará a um fim.
O preenchimento do Universo tornará impossível
qualquer avanço ou progresso ulterior, e então
a plenitude total das almas retornará do estado informal
e disperso para um estado coeso, e os mesmos elementos
serão reunidos na mesma combinação que lhes é própria[1]”.
[1]
São Gregório de Nissa – Sobre a Ressurreição.
3. O
FIM
Pois, cedo ou tarde, todas as coisas se cumprirão.
As sementes irão amadurecer e brotar.
A ressurreição dos mortos é o destino,
o único destino de todo o mundo,
de todo o Cosmo, de uma vez por todas e por todos,
num equilíbrio universal e católico.
O poder de Deus levantará os mortos.
Acontecerá a nova e definitiva revelação de Deus,
do poder e glória Divinos. A Ressurreição Geral
é a consumação da Ressurreição de nosso Senhor,
a consumação de Sua vitória sobre a morte e a corrupção.
E, para além do tempo histórico, haverá o Reino futuro,
‘a vida no século por vir’. Estamos ainda em via,
na era da esperança e da expectativa.
Mesmo os Santos nos céus ainda esperam
pela ressurreição dos mortos. A consumação final
virá primeiro para toda a raça humana.
Então, no fim, para toda a criação,
será inaugurado de uma vez para sempre
o ‘Sábado Bendito’, o ‘dia do repouso’,
o misterioso ‘Sétimo dia da criação’.
Por ora, o esperado é ainda inconcebível.
“Ainda não se manifestou o que há de vir[1]”.
Mas a promessa está feita. Cristo ressuscitou[2].”
[1] I
João 3: 2.
[2]
Georges Florovsky – Criação e Redenção.
4. O
JUÍZO
e lhe pediram que esperasse, pois logo viria Cristo,
e, enquanto isso, ela teria tempo para passar seus pecados a limpo,
e fazer um exame completo, pois, afinal, seria ela e mais ninguém
que a iria condenar, ou que a perdoaria, e ali ela permaneceu
por um tempo indeterminado, a pensar e sentir
tudo o que havia feito, em quase três séculos à frente do Convento,
e, ao cabo de muito arrepender-se, e de recriminar-se, entre outros sentimentos,
sentiu que adormecia, e, ao abrir os olhos, deparou-se
com a Cruz, e, sobre ela, o mesmo Cristo,
o Cristo da cozinha, a quem tantas vezes se dirigira, em meio a crises, lágrimas e espanto,
a expressar suas angústias e desenganos, seus erros, seu orgulho,
sua humana ignorância, suas pretensas humildade e caridade,
enfim, tudo o que uma mulher como ela, filha de Evas e Marias,
seria capaz de viver e cometer enquanto vivia,
e a Madre Superiora contemplou o Cristo negro de fuligem,
e viu, naquele modelo divino colocado sobre o Calvário do Juízo,
o mesmo modelo diante do qual se prostrava a cada dia,
e viu que o Juiz, na realidade, estava ali presente, e olhava para ela,
ao mesmo tempo em que esperava ser visto, com suas chagas, seus estigmas,
os lanhos das chibatadas e a coroa de espinhos,
o sangue e a água a lhe escorrerem do lado, o fel, a vara e a esponja,
tudo o que ela só conhecia através da sua presença mística como pão e vinho,
e Maria entendeu que aquele Deus sempre estivera a seu lado, e que a sua imagem,
de que, em seu transe, ela se revestia, não era a imagem de um Deus,
mas do homem que o encarnara, homem como todos e todas,
e que, como todas e todos, vestia-se da perfeição última nesse mundo,
ao se entregar, cordeiro mudo, àqueles que o crucificaram.
Maria fechou os olhos e, por um breve instante, seu olho interior
viu o mesmo Cristo brilhar, como uma luz radiante,
que preenchia tudo e a banhava inteira,
e todo o espaço, e todas as coisas, e todo o criado
cabia na palma de sua mão, como na menor capela,
e então ela voltou a abrir os olhos, e ao seu redor
tudo era novo, e a própria face do mundo se renovava a cada átimo,
e tudo estava na presença de Cristo, que era tudo em todos.
5. NOVOS
CÉUS E NOVA TERRA
que possa existir uma vida incorpórea
depois que todas as coisas tenham sido submetidas a Cristo,
e por Cristo a Deus Pai, quando Deus for tudo em todos;
ou bem que, concedendo que todas as coisas
serão submetidas a Cristo e por Cristo a Deus,
com o qual se tornarão um só espírito
na medida em que as naturezas racionais são espírito,
resplandecerá também a própria substância corporal,
associada então a espíritos melhores e mais puros
e transformada num estado etéreo em razão da qualidade
e dos méritos dos que a assumem, segundo disse o Apóstolo:
‘E nós seremos transformados’, e brilharemos daí por diante
em esplendor; ou que, passado o estado das coisas que se veem,
tendo sido sacudida e limpa toda corrução,
e transcendida e superada toda essa condição do mundo,
na qual se diz que existem as esferas dos planetas,
a morada dos piedosos e bem-aventurados
será colocada acima daquela esfera supereminente,
na terra boa e dos vivos que os mansos e humildes
receberão por herança, à qual pertence esse céu
que em seu contorno magnífico a circunda e contém,
e que se chama, em verdade e de modo principal, céu.
Nesse céu e nessa terra poderá repousar o fim
e a perfeição de todas as coisas, como numa morada
segura e fidelíssima: alguns merecerão habitar essa terra
depois de obter a purgação de seus delitos,
uma vez cumpridas e pagas todas as coisas;
de outros, por sua vez, que foram obedientes
à Palavra de Deus, e que, por sua docilidade,
se mostraram desde já capazes de sabedoria,
se diz que merecem o reino daquele céu ou céus,
e assim se cumprirá mais dignamente o que foi dito:
‘Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os pobres de espírito,
porque deles será o reino dos céus’, e também o que diz o Salmo:
‘Ele te exaltará para que possuas a terra’.
Com efeito, dessa nossa terra se diz que desce,
mas daquela que está no alto, que é exaltada.
Portanto, parece que se abre uma espécie de caminho
pelo progresso dos santos daquela terra àqueles céus,
de sorte que parecem mais habitar por algum tempo
naquela terra do que permanecer nela, estando destinados a passar,
quando tiverem alcançado o correspondente grau,
à herança do reino dos céus[1]”.
[1]
Orígenes, A Criação do Mundo e sua Renovação, Novos Céus e Nova Terra.
6. TU
JULGA-NOS
como se todos fôssemos crianças
brincando com a vida,
neste quintal absurdo e prodigioso.
Quando chegar a noite,
recolhe-nos a todos
no aconchego de Casa
para sempre.
E planta de beleza imperecível
este quintal amado.[1]"
[1]
Dom Pedro Casaldáliga, Versos Adversos, Fundação Perseu Abramo, 2021.
7. POSFÁCIO DESSE LIVRO
sobre o velhíssimo fogão a lenha, pendia solitário
um pequeno crucifixo com seu Cristo,
feito de gesso, daqueles antigos, que a cada ano que passava
ia ficando mais e mais escurecido, da fumaça, do carvão, da madeira,
da fuligem, de tudo o que subia
das panelas, frigideiras, tachos, chaleiras,
enfim, de toda a vida que havia ali,
e a figura do Redentor ia se cobrindo de temperos,
de gordura, de sabores e odores,
e quando eu o conheci, no tempo em que, de criança,
passava ali todas as férias na pajelança da meninice,
Jesus era pretinho, pretinho, e aquilo era natural,
e ninguém pensaria em tirá-lo dali para uma faxina,
para lhe dar um banho, para, quem sabe,
devolver-lhe a pele clara, os cabelos loiros, os olhos de veludo azul,
e lá ficava nosso Cristo, pretejando dia após dia,
colorindo-se de brasilidade, de toucinho frito,
de feijoadas, de costelas de bovinos,
de alho, de azeite, de pimentas de todas as picâncias,
e dos doces de tacho que enlouqueciam nossa infância,
e esse Cristo negro da Terra de Santa Cruz,
da Ilha de Vera Cruz, da Pindorama dos gentios,
que espiava lá de cima o fazimento
de toda a quituteria brasileira
que mil Câmaras Cascudos não esgotariam enumerar,
esse Cristo, feito de suor, de mãos grossas, de sangue e lágrimas,
esse Cristo feito de trabalho, de lida, que assistiu gente livre
e povo escravizado, a mexer o caldo, a provar o gosto,
a lhe oferecer um gole de cachaça, "pro santo",
que foi chamado de Senhor, de Sinhô, de Nonô,
por mucamas e sinhás, que ouviu choro e confidências,
que assistiu calado encontros furtivos,
ao pé do fogão, ou o sexo apressado sobre a grande mesa de peroba,
pecaminoso e misturado, esse Cristo empretejado,
esse Cristo futuro, nascido na Palestina
e recriado em Minas, esse Cristo era para mim
(mas eu não sabia) o Jesus verdadeiro,
feito de Brasil, na sua carne de gesso,
mas negro como o homem do amanhã,
tostado sob esse sol novo que nasce
e entra pela janela, e joga seus raios sobre a história,
e torna cada dia o mais recém dos dias,
esse Cristo de pés sujos, mais santo
do que todos os santos do mundo,
que se banhou nos ribeiros da chapada,
nos manguezais, nos açudes, nos igarapés,
que amou esse mundo, a ponto de se dar,
e de dar-se a nós, para nos abrir as portas do Paraíso,
esse Cristo bendito se recreia entre os homens
e os atrai para si, como o pastor às ovelhas,
e recria todas as coisas, infinitamente, e, com seu rosto
preto, real, humano e divino, esse rosto amoroso
que nos transmite uma mensagem de mistério,
esse rosto de neblina, que surge para nós
como o luar do sertão que se ergue sobre as matas e os morros,
esse rosto de luta espiritual, de trabalho sobre si
e de guerra contra o mal que se eleva no mundo, esse Cristo
renova eternamente todas as coisas na face da terra. (4-4-25)
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