18. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 5: ANTÔNIA

 

5. ANTÔNIA (1980 -)

 

 


Onde acompanhamos a chegada de Antônia ao Convento, menina nova ainda, órfã nascida em Carapicuíba, e acompanhamos seu desenvolvimento nos estudos, até que, próxima de completar vinte anos, um incêndio devasta e destrói o Convento. Embora tendo salvas as suas vidas, as Irmãs acabam por se dispersar, e Antônia toma seu rumo sozinha, para o que Deus quiser.

Ela pensa inicialmente em ficar na vila próxima, mas logo percebe o mundo de hipocrisia que ali se abriga, e decide fazer-se ao mundo, anda que só.


 


CRISTO E NÓS

 


Pois dizer que Cristo, sendo Deus, não foi homem,
e que, sendo homem, não foi Deus, é retirar do próprio homem
a possibilidade de ser Deus, é incompletá-lo na definição
de sua hominidade, é negar à humanidade toda transcendência,
é deixar o Espírito com a brocha na mão, sobre sua escada
(para usarmos uma linguagem mundana, mal amassada),
 
é nos transformar em autômatos, mecânicos, mera relojoaria,
na qual engrenagens que nasceram do nada subitamente ganham vida,
e se põem a pensar na sua origem, e concebem um relojoeiro
à sua imagem, à exceção dos ponteiros, que apontam a eternidade,
o não-tempo, seja contado em cataratas de anos, como as gotas do oceano,
seja concebido como um refúgio além das eras, dos éons e de todo número,
 
se Cristo não foi Deus, tampouco terá sido homem, e nem homens somos nós,
os que, como ele, fomos concebidos antes ainda da criação,
antes da luz, que lançaria seu brilho e sua sombra sobre o tempo e o espaço,
na forma de um homem, que caminhou na terra e na cruz foi fixado,
ele, Cristo, homem, que nos legou a capacidade de sermos o contramolde
de tudo o que foi criado, e que para tanto nos deu um cérebro e um coração
 
do tamanho exato das galáxias, dos sóis, das estrelas que nascem e morrem
a todo instante, dos dinossauros que contemplamos compassivos
com seu destino de gigantes, de todos os macacos que vieram antes,
e das riquezas ocultas sob o solo, e aquelas que jazem nas luas que sonhamos,
que vemos pelos telescópios que inventamos, e que giram
segundo as equações que deduzimos nas noites insones de gênios pânicos,
a anotarem em papel amarelado tudo o que pensaram, nós,
 
que escrevemos nosso próprio gênesis e que nomeamos novos Adão
a cada palmo escavado, e uma Eva a cada giro gênico, e Cains e Abéis
ao sabor da história de nômades e sedentários, esse antiquíssimo testamento
que se lança de uma noite profunda, jazente entre camadas de rocha e barro,
e chega até nós, que contemplamos as estrelas, tão familiares,
embora rastejemos na sarjeta da nossa individualidade, sem percebermos
o quão universal é a pessoa humana, sem nos darmos conta de que,
pelo fato simples de as chamarmos estrelas, átomos, partículas, gases,
ou o que for, as temos e possuímos previamente em nossa composição fundamental,
 
somos homens, feitos da mesma matéria, cuja alma se lança além do tempo
e do espaço para saudar a Ti, ó Deus, que nos tiraste (como se fosse) do nada,
e nos destes essa forma crística, como a chamaste, a nós, filhos
dessa mesma realidade, que é uma só conosco, e só por isso, reafirmamos
(porque, mais do que a fé, nos diz a lógica), que, sendo Deus, Cristo foi homem,
e, tendo homem sido, Deus foi, e o somos, sendo em tudo, a ele,
ao Deus e ao homem, assemelhados, semelhantes, parecidos. (19-12-24)




1.       ANTÔNIA CHEGA


 

Maria corre a atender a porta, como o faz há trinta anos,
trinta anos que seus passos ecoam pelos corredores e salas do convento,
trinta anos que Teodora lhe deixou a incumbência
de cuidar das Irmãs, de deixar tudo em ordem, de zelar, de servir,
e, principalmente, de crescer por dentro,
e de cada coisa Maria se desincumbiu com perfeição e contentamento.
 
À porta, um tico de gente, um graveto, a olhar para o chão,
pretinha como a noite, doce como o tempo,
"Meu nome é Antônia, me mandaram da vida lá fora para esse Convento",
num fio de voz, e dois olhos negros, grandes como sóis,
se ergueram a mirar Maria,
que tomou de sua malinha e a trouxe para dentro,
enquanto acorriam as Irmãs, e a Madre Superiora, velhíssima,
chegava para dar sua bênção.
 
Ali Maria a conduziu à cozinha, como de costume,
e a apresentou primeiro ao velho Cristo, cada vez mais negro
e mais retinto, e depois ao seu quartinho, e ao fogão a lenha,
à pia, à mesa com grandes tábuas de peroba,
e ao fogão novo, quase sem uso, o microondas, que virou armário,
e à cafeteira elétrica, que não chegou nem a sair da caixa,
e depois foram à horta, ao pomar, ao galinheiro,
a dar bom dia às cabras leiteiras, e ao portãozinho dos fundos,
com a recomendação de só abri-lo quando Maria estiver presente.
 
Antônia foi se vestir, com os novos trajes de cozinheira,
e Maria ficou na porta, cismando, pois chegara, afinal, a hora
dela mesma se mudar para o quartinho, depois da horta,
atrás do galinheiro, e de começar a cuidar da capelinha da Virgem,
que a esperava na mata, onde brilhavam luzes estranhas,
onde se ouviam preces constantes, onde uma doce voz,
de santa, de fada, de sereia, cantava velhas canções,
de um tempo que não nascera ainda, quando o mundo não existia,
e só havia, em meio ao nada, o Pai, o Filho e o Espírito,
e Teodora, Cananéia, Ana, Tecla e Joana,
antes do instante primeiro. (23-6-24)[1]


[1] Antônia veio de São Paulo, nascida em Carapicuíba em 1980, e, desde cedo, manifestou o desejo de se entregar à religião, cuja primeira forma se deu nas matrizes africanas de sua família. Tendo perdido os pais com pouco mais de 7 anos, perambulou por toda parte, esmolando, e acabou levada para o Convento da Anunciação, o mais longe possível de tudo o que conhecia, tendo chegado lá em 1991, com 11 anos. Depois que o Convento pegou fogo, em 2004, Antônia saiu pelo mundo à procura de seu próprio caminho.




2.       ANTÔNIA


 

Antônia corria como uma louca por entre as fileiras da horta,
a colher cenouras e nabos, como um passarinho,
o rosto suado, os olhos vivos, haveria felicidade no mundo?
m – era aquilo! –, haveria alegria pras gentes? – era aquilo! –,
e aquele Convento estranho, onde Irmãs muito brancas e doces
as cumprimentavam e passavam adiante – aquilo era açúcar, ou adoçante? –
e uma Madre Superiora velhíssima, que parecia saber de tudo,
e não falava nada, e as deixava com sua cozinha,
 
que não parava nunca, como uma locomotiva,
suja ou limpa, cheia ou vazia, e aquela Irmã Maria,
mais doida que o Batman, quem era ela?,
que não ligava pra nada, que cantava todo o tempo,
orava de um modo como nunca Antônia vira,
que vez em quando desaparecia, passava dias fora, e ela, Antônia,
se encarregava de toda a faina que havia, mas, coisa estranha!,
não se cansava, nem via passar o dia, e, quando se deitava,
olhava, na cabeceira da cama meio torta,
 
um Cristinho de barro, de terracota, que Maria chamava de Pai,
Ancestral, Antepassado, ela que chamava a Deus de Avô,
"Pai do Pai, Antônia, nosso Avô mais recuado",
e as coisas que ela contava, sobre a luta do Rei
contra a maldade do mundo, e o modo como o mataram,
e como ele renasceu, porque, afinal,
ele era o próprio Amor, infinito e pleno, a própria vida,
de que o Amor é o fermento, e por isso não podia ser matado,
 
e a Antônia olhava o Cristo negro, com seus olhos que pareciam vivos,
e o cumprimentava todo dia, a cada vez que passava,
e ele falava com ela em silêncio, e a aquecia,
e toda a vida fazia sentido, e nas suas entranhas queimava um foguinho,
que a movia, que a comovia, que a levava a amar quanto houvesse,
porque ela estava ali, ela era livre, ela era Antônia,
que Maria levara até a capelinha "Alegrai-vos" no meio do mato,
numa clareira aberta que ninguém conhecia,
 
e a fez riscar numa trave do teto seu nome, ao lado de outras mulheres,
Fatumata Joana Batista, Tecla, Ana, Cananéia, Teodora e Maria.
 
Haveria felicidade nesse mundo?
E no outro? Era aquilo! (6-7-24)

 

 

3.       A DONZELINHA


 

A Escritura chama de ‘donzelas’ as virtudes
por causa da conexão que as liga à alma
e as faz se considerarem como um só corpo
e um só espírito com ela.
A beleza da donzela é com efeito um símbolo do amor
e a forma das virgens sagradas
é um testemunho de pureza e de purificação.
De fato é da ordem da graça transpor para os gestos
aquilo que é divino, e de dar forma,
àqueles que disto são capazes,
àquilo que sem erro se parece com a origem[1]”.


[1] Gregório o Sinaíta, Sentenças Diversas, 90, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume 2.



4.       O RELÓGIO



 

As Irmãs todas acorreram ao salão, apressadas e curiosas,
para ver o novo relógio elétrico, instalado pelo Arcebispado,
que iria doravante ditar todos os horários,
e o ritmo dos dias e das noites, e de cada instante.
 
Um relógio grande, americano, com ponteiros retos
e algarismos romanos, austero e silencioso, severo como um bom bedel,
como um mestre-escola, a bater, preciso,
os segundos, os minutos e as horas, e ali ficou ele,
no grande salão colocado, fiscalizando o movimento
de todas que ali passavam, como um grande olho nervoso,
o nervo exposto, no meio dos passos preguiçosos ou apressados
das Irmãs e das Madres que, à sua visão, quase se persignavam.
 
Doravante, tudo giraria conforme girava o relógio,
e no tic se anunciavam as matinas, no tac as horas,
no tic a hora do almoço, no tac o lanche, no tic se rezariam as vésperas,
no tac se recolhiam todas, cada qual, disciplinarmente, à sua cela modesta.
 
Mas quem primeiro cantava era o galo, e Deus brincava
em sua garganta, e ele batia suas asas conforme o sol nascente,
um dia agora, outro pouco mais tarde, e as Irmãs pulavam das camas
e correriam à capela, um dia antes, outro um pouco mais tarde,
 
e a lenha no fogo assim queima, tanto um pouco mais hoje,
quanto menos, amanhã, arde, e Deus se diverte entre a lenha e as brasas,
e Antônia se ri, e vai arrumando o fogo, e fervendo a água, para o café,
e põe na bandeja o bule, e as torradas ao lado, com jeito,
e corre a servir a mesa, que ela mesma arrumou, com xícaras, talheres
e pratos e guardanapos, hoje no horário, amanhã um pouco mais tarde,
 
e na roça a chuva dispõe o crescimento das plantas,
e cada qual tem sua arte, e assim põem as galinhas,
um ovo aqui, outro à parte, e mesmo o sol, a cada dia,
nasce hoje, bem na hora, mas ontem brilhou mais tarde,
 
e Antônia sem pressa se apressava, e se avia, sabendo
que cada passo se dá uma vez só, e que o passo seguinte será outro,
e que as vinte e quatro horas do dia serão vinte, vinte e seis ou dezoito,
e que o grande relógio elétrico, solitário no salão,
gira em vão seus ponteiros, tão retos quanto antes,
sem outro remédio que seguir sua sina precisa de fábrica,
sem nunca adiantar, e sem jamais – jamais!, informa o fabricante –
chegar só um pouquinho mais tarde. (20-6-24)
 
Mas o tempo, que passara já séculos a escorrer, como areia entre os dedos,
não se curvaria assim, ao desígnio da máquina humana, e mostraria
que há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia
– e quanto mais essa inútil maquinália! – e dispôs, porque pode dispor,
as coisas de uma maneira só dele sabida, e se decidiu por parar a história
naquele ponto exato, e a dar a toda aquela saga outro enredo,
outro final, outra moral, outra existência, outra serventia.
 

 


5.       A TERRA E O CÉU


 

Antônia se perguntava, assuntando,
“Estamos na terra ou no céu?”
Pois quando vejo o resplendor do mundo e da natureza,
esse brilho inquestionável, a presença irrefutável do sagrado,
que nos cerca com sua beleza, e nos envolve, que está diante de nós
e mesmo assim a recusamos, e nos escondemos
 
atrás das muralhas dos castelos de nosso orgulho,
de nossa minúscula ciência, incapaz de entender a formiga,
de nossa auto justificada prepotência, que dispensa
que contemplemos o rio que passa, em reverência,
que ouçamos a grama que cresce, ou o pio dos pássaros,
com os ouvidos maravilhados da inocência,
 
esse orgulho que faz com que nos debrucemos
sobre as palavras secas dos homens,
esmiuçando sentidos sem vê-los, e discutindo
pontos e vírgulas com denodo e zelo, ao invés de abrirmos os olhos,
e nos perguntarmos, sem medo, "estamos na terra ou no céu?",
 
– o que nos impede que caiamos de joelhos, e,
com o rosto por terra, adormeçamos nos braços de Deus,
quem quer que seja, e lhe agradeçamos por ser poeta,
de rimas fáceis, de amor e flor,
 
e por nos ter dado o ar de sua graça em tudo o que nos cerca,
e por nos ter mergulhado em si próprio, para que possamos responder
com clareza meridiana, sem véus, afinal de contas,
“estamos na terra ou no céu?”. (4-2-25)
 

 

6.       O ESPÍRITO SANTO



Antônia buscava o Espírito Santo pelo quarto,
o quarto no Convento, o Convento no mundo,
e por fim desistiu, e foi se consultar com o Cristo,
que, de seu lentíssimo martírio, junto ao teto da cozinha,
pareceu-lhe que respondia, e ela, de modo muito seu,
 
entre atabalhoada e deslumbrada, com seus grande olhos
muito abertos, como se para que por eles entrassem
seus pensamentos, entendeu (ou sentiu?, ou percebeu?)
que o Santo Espírito não pode ser descrito por aquilo
a que chamamos de conhecimento, mas apenas
entendido pela experiência que dele se vive,
 
porque o semelhante atrai o semelhante, e esse Deus
que é três pessoas, e cuja pessoalidade sentimos
apenas por meio do Amor, é inexprimível,
mas o provamos por três vezes e ao mesmo tempo,
como um sorvete de três sabores, morango, creme, chocolate,
 
o amante e o amado que se encontram pelo amor,
e ele é essa unidade dos três, a mesma que os homens
devem compreender e aceitar, para que a humanidade,
de diversa e inconclusiva se transforme em uma só pessoa,
para que amemos uns aos outros como a nós mesmos,
 
e abandonemos o conhecimento estéril que nos trouxe até aqui,
mas que já começa a falhar, porque penetrou em nós pelo intelecto,
para substituí-lo pela vivência de Cristo, do Evangelho,
que opera nos corações, que é o conhecimento perfeito,
como está dito em João, “quem me ama, e segue minha palavra,
a esse meu Pai o amará, e viremos, e nele faremos nossa morada”,
 
pois esse é o conhecimento final, o conhecimento do Amor,
e por ele nos tornamos a habitação do Pai, do Filho
e desse invisível Espírito Santo, dentro de nossa pessoa,
e amar-nos-íamos como a nós mesmos, e seríamos então
como todos os homens seriam se fôssemos a sua casa. (28-2-25)

 

 

7.       A ENERGIA



“A energia do Espírito Santo no coração é sobrenatural,
sua gênese não reside em nada da natureza,
mas ela se manifesta de forma inconcebível
naqueles que receberam a piedade:
ela é claramente suscitada apesar dela,
ou, numa palavra, ela irradia luz, pois ninguém pode lhe dizer
o que leva à energia, ao flamejamento e à manifestação do Espírito,
senão quem já recebeu naturalmente o dom de vê-la
e de se regozijar com ela em seu coração.
 
A energia divina não tem nenhuma necessidade
da vontade nem do impulso natural para se desenvolver,
e é claro que o desejo e o ardor não operam aqui, nem fazem nada.
Numa palavra, a parte passional da alma cai no ostracismo
e perde a ação quando do coração sobe
naturalmente a respiração do Espírito vivificante.
 
Mas o intelecto exulta e vive. A partir daí também a alma
encontra a paz, na calma e na absoluta e necessária impassibilidade.
Ela contempla a Deus. Maravilhosamente, sua relação com Deus,
sua iluminação, sua tensão se tornam o Espírito
que ela recebeu de Deus e assim ela vê que alcançou
o conhecimento do inexprimível esplendor
mais que luminoso da beleza divina, e ela ama abundantemente
ao Deus mais do que belo, e ela se regozija em conhecer o Pai,
que, na medida em que se pode expressar,
é infinito, ilimitado, incompreensível, ela se regozija
por conhecer sua herança e a si mesma daí por diante
dentro da inefável compaixão divina, e então atinge uma paz maravilhosa,
pois percebe que não lhe falta mais nada,
pela graça da extrema beleza que ultrapassa o intelecto[1]”.

 



[1] Calixto o Patriarca, Sobre a Oração: da Energia Divina no Homem, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume 4.



8.       A METANIA[1]





Não, não me arrependo de nada na minha vida,
comi e bebi com Cristo todos os dias, e festejei com ele,
mas não como as virgens tolas,
que se esqueceram do azeite da metania,
 
eu, ao contrário, que fiz tudo o que fiz – que não foi pouco –
tive a grande sorte de virar o pescoço, e ver
que a paisagem do outro lado, aquela,
do lado oposto da parede da caverna,
por onde Cristo se sumia no final da noite,
 
era muito mais bela, e não deixava na boca
o gosto amargo do vinho vagabundo que bebíamos,
como se fosse um néctar,
e que outros vomitaram na sarjeta,
enquanto olhavam as poças do chão, e nós,
 
nós contemplávamos as estrelas,
aspirando as nuvens do céu, e seguindo as pegadas
que dobravam uma esquina onde nada era mais pecado
abaixo do Equador, pois os anjos nos acompanhavam
e combatiam ao nosso lado
 
contra todo ódio, rancor,
inveja, maledicência, concupiscência, orgulho,
tristeza, estupor, e só restava espaço para o puro carinho,
para o mais total amor,
para a mais louca alegria,
 
nossos olhos postos num amanhã
que seria sempre novo, como todas as coisas novas faz o Espírito,
para o nosso entendimento, e assim segue
nossa vida em metania, sem mais nenhum arrependimento. (14-2-25)



[1] Metania: mais do que um simples ‘arrependimento’, sempre momentâneo e sujeito a vacilo, a Metania indica uma resolução no sentido de uma mudança de vida.



9.       O INCÊNDIO


 

Quando, num Domingo de sol, o Convento da Anunciação pegou fogo,
não houve tempo para que se salvasse fosse o que fosse,
e as chamas engoliram três séculos de orações
num único lamento, que se estendeu por muitos dias,
enquanto as Irmãs buscavam, no rescaldo das cinzas,
qualquer coisa que as levasse de volta ao tempo
em que a paz de suas paredes brancas lhes dava as boas-vindas,
mas não, de tudo o que fôra um dia aquela grande construção,
só restara em pé, milagrosamente intacta, sua cozinha e um quartinho anexo,
e, pendente da parede, quase junto ao teto, um grande Cristo crucificado,
ainda mais preto de gordura, de fumaça e de fuligem.
 
As panelas ainda estavam sobre o fogão, e havia brasas sob elas,
e ali preparava-se uma sopa, um caldo de galinha,
batatas e legumes, tudo como se nada houvesse,
e os sabores estavam todos preservados, e, com os poucos pratos que havia,
Antônia serviu as Irmãs, uma por uma, a todas por igual,
e elas salgaram a comida com suas lágrimas,
e agradeciam ao Cristo pendurado pela dádiva, e oravam,
que outra coisa não sabiam fazer, nem talvez lhes fosse permitido
tomar qualquer atitude ou providência, senão quedarem-se imóveis,
e, em silêncio lamurioso, adorá-lo.
 
Antônia correu ao quartinho, e, da gaveta da mesinha junto à cama,
retirou cadernos, folhas soltas, almaços escritos,
anotações, diários, poemas, canções, rezas, bentinhos,
tudo embrulhado em trapos velhos, guardados numa caixa de madeira,
onde cada uma das sete Irmãs da Irmandades anotara
sua própria vida, sua experiência, seu caminho secreto dentro da sociedade
que Fatumata iniciara, e que se estendia pelos séculos, até chegar a ela,
Antônia, agora depositária última, de todo um conhecimento,
que, por um milagre e a vontade divina, ali se conservara.
 
E Antônia sorriu, porque, em meio às notas de um saber esotérico,
contavam-se, humildes mas presentes, e igualmente honradas,
as receitas que cada qual deixara, aqui uma sopa para doentes,
ali um caldo que acalmava, um levedo para o coração,
um doce para a alma, uma garrafada para levantar o espírito,
uma poção para sustentar a palavra,
e assim, sobraçando aquele embrulho, tesouro de gerações das iniciadas,
atravessou o pátio, entre as paredes em ruínas e as vigas queimadas,
e, persignando-se, tomou o grande Cristo negro, colocou-o às costas,
e, com passo leve, conquanto pesado, abençoou com o coração cada Irmã,
e a Superiora ausente (que mal sabia ela, dera seu último suspiro
contemplando as chamas ardentes), e, como quem vai ao encontro de um destino maior,
tomou por um atalho só dela conhecido, e desapareceu no mato. (10-10-24)

 

 

10.       A CAMINHO



“Que rota poderei seguir, qual caminho deve ser evitado?
Qual escada subir, por quais portas entrar,
ou ainda, de que maneira abrir a porta – e de qual câmara?
No interior de qual morada, e de que tipo poderei encontrar
aquele que tem tudo nas mãos e nas palmas?
 
Subir, qual montanha, e por qual vertente?
Que grutas explorar, tateando?
Atravessar qual pântano, para me tornar digna de ver
e de reter, infeliz que sou, aquele que está presente em toda parte,
aquele que é intangível, aquele que é invisível?
 
A qual inferno descer? Até que céu
subir? Até os extremos de qual mar
será preciso ir para encontrar aquele que é totalmente inacessível,
absolutamente ilimitado, inteiramente impalpável?
 
Dize-me, como encontrar o Imaterial dentre os seres materiais,
o Criador em sua criação, o Incorruptível em meio aos seres corruptíveis?
Como deixar o mundo, eu que estou no mundo?
Como unir-me ao Imaterial, eu que estou unida à matéria?
Como apreender o Incorruptível, eu que inteira sou corruptível,
 
eu, que vivo na morte, como, ao menos, me aproximar da vida,
eu, o cadáver, como vir a estar perto do Imortal?
eu, que sou toda erva seca, como ousar tocar o fogo?[1]”.


[1] São Simeão o Novo Teólogo, A Prece Mística, Hino 38.



11.       CRISTO

 



Antônia caminhou até a velha capelinha e, sentando-se num banco,
colocou o embrulho no chão, passou a mão nos cabelos cheios de cinzas,
e esteve a cismar por alguns minutos, os olhos perdidos no espaço,
até que uma ideia se formou em seu coração, e ela viu,
parado no chão diante dela, um besourinho muito pequeno,
e sua boca começou a falar com o bichinho, sem nem saber
o que estava dizendo, e só sentindo que precisava falar a alguém,
que só pregando aos bichos, seria possível entender aquilo
que ela, para ela mesmo, ainda não havia entendido.
 
“As palavras de Cristo, meu bichinho,
não podem ser entendidas pelos sóbrios,
elas requerem um mínimo de embriaguez – ou melhor,
um máximo – elas requerem que mergulhemos
num universo caótico e fabuloso,
onde virgens partejam, cegos enxergam, andam paralíticos,
loucos se tornam lúcidos e leprosos se curam,
um mundo onde os mortos ressuscitam
e os vivos caminham sobre as águas,
 
e, se não caminharmos nós também por essas vias do absurdo,
nenhuma condição teremos de compreender o que está dito,
pois somente a embriaguez, ou a loucura, permitem
que tais e tantas coisas façam sentido, e que,
ignorantes que somos, ouçamos o que é aos sábios interdito,
para que batamos às portas do Reino, essa nova pátria
 
onde só os alucinados vicejam, pois é preciso que deixemos esse mundo,
com sua lógica menor, tão pequena, para abraçarmos
o impensável, o impossível, no fim das contas, o inefável,
o infinito, para que nos enchamos – como o poeta – de orvalho imortal[1],
abrindo-nos de todo diante da noite negra,
 
onde os olhos que não veem, vejam,
e os ouvidos que não ouvem, ouçam,
onde nos juntaremos a comboios de virgens
com suas lâmpadas que queimam eternamente, nesse aprisco,
brilhando como estrelas sobre o mundo do intelecto,
sobre os nossos corações e mentes,
 
e falaremos a língua dos anjos e dos bichos,
e entenderemos que não há mais inimigos,
e nos daremos as mãos, aos sujos, aos imorais, aos mendigos,
e percorreremos o caminho entre risos, com a leveza
de quem tem a certeza de estar remido,
 
e nos juntaremos a Cristo numa praia, junto à fogueira
que ele preparou para comermos juntos,
e lambermos os dedos, e cantarmos juntos velhas canções
que falam de amor, de encontros, de emoções esquecidas,
e de monstros que se perderam no mar,
e já não mais precisam ser temidos,
meu bichinho, meu bichinho, meu bichinho.”
 
E dizendo isso, tomou o Cristo negro que trouxera consigo,
e, embrulhando-o com cuidado, ocultou-o num buraco,
e cobriu-o com restos de tijolos, madeiras e cacos,
certificando-se de que ali ele jamais seria mexido. (26-1-25)

 

 

12.       DOIS AMORES

 



“Dois amores em espírito são verdadeiramente extáticos:
o que reside no coração e o que faz ficar fora de si.
O primeiro se encontra naqueles que ainda estão
sob a luz de um ensinamento; o segundo,
naqueles que se realizam na caridade.
Ambos separam dos sentidos o intelecto
que põem a trabalhar, na medida em que o amor
 – o eros – divino consiste na embriaguez do Espírito
que conduz à superação do pensamento natural
e por meio da qual também os sentidos são subtraídos das relações[2]”.



[1] Garcia Lorca, Os Álamos de Prata, 1919.

[2] Gregório o Sinaíta, Sentenças Diversas, 50, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume 2.



13.       MINHA CAPELA

 



Há no céu uma Capela feita pelos anjos,
mas essa, obra das mãos de Joana, Tecla, Ana, Cananéia,
Teodora, Maria e agora Antônia, era igualzinha,
nos mínimos detalhes, e podia-se ver o Cristo no Altar,
com seu pé quebrado, e os vasinhos de flores
que a Virgem Maria regava, vez por outra,
 
e tudo o mais, e até o Deus-sem-forma, que pairava
sobre tudo, e o Santo Espírito, que bailava ao vento
que entrava pelas janelas de vidros quebrados,
pelas frestas do telhado, por toda parte, enfim,
que não havia canto que ficasse sem ser visitado,
 
e Antônia deitou-se no chão, olhando as traves do teto,
sonhando com as Irmãs que passaram por ali,
e às quais ela haveria de se juntar em breve,
ainda que sua caminhada por esse mundo muito durasse,
 
ela, Antônia, por último chegada a esse ermo do mundo
onde se passaram tantas histórias, onde moças arribavam
desenganadas da vida, e o Espírito Santo as conduzia,
do modo como só ele sabe, como faz desde o princípio,
e as transformava, de tolas, em Virgens sábias, ainda que
nem todas se conservassem intactas, não importa,
 
porque a santidade é dom do céu, gratuito,
que o Espírito concede a quem lhe apraz,
e os pecados dos homens e mulheres para nada contam,
pois a pureza está além de qualquer lei, de qualquer letra,
e, nessa vida, somente a Graça é que conta,
 
e Antônia deixou-se adormecer, e assim foi transportada
a uma festa iluminada, onde dançavam pessoas e bichos,
onde os pássaros faziam a orquestra, e as mesas eram nuvens,
e os acepipes eram cristais, tão puros e transparentes
como a água mais pura da mais límpida nascente, que brotava
no meio de um jardim oculto à humanidade, mas revelado
aos ignorantes, aos loucos, aos cegos, leprosos e aleijados. (28-1-25)
 

 


14.       A VILA E SUA GENTE


 


Começou a chover. Enquanto os pingos caíam lá fora,
Antônia despiu o hábito, que por tantos anos a vestira,
e esteve nua por alguns momentos,
e saiu para fora, recebendo a chuva fria
e sentindo o vento refrescante, tão bem-vindo
depois do calor do incêndio, e em seguida voltou a se abrigar,
e vestiu roupas comuns, que salvara do fogo,
doadas por alguém que nunca soube,
e embrulhou o velho hábito num saco,
que colocou junto ao demais que trazia, num pacote só,
uma mala, e, calçando suas chinelas, pôs um lenço na cabeça,
e, tomando pela picada, dirigiu-se à aldeia vizinha,
levando consigo uns poucos trocados que tinha.
 
E aconteceu que era dia de Missa, e lá se foi ela à igreja,
e o assunto do dia – não podia deixar de ser –
era o Convento incinerado, e a perda de tudo o que ali havia,
e a morte da Superiora, coitada, tão velhinha,
e, naturalmente, entre cochichos, os pecados das meninas,
que corriam de boca em boca, e dos quais até o padre se lembrou
de mencionar, em tom condenatório, em sua homilia,
e eram palavras de reprovação e escárnio,
que Antônia escutou quietinha, encolhida lá no fundo,
como se fossem as pobres meninas as culpadas por tudo aquilo,
enquanto brotavam lágrimas de seus olhos,
molhando a blusa xadrez e suas mãos postas, que seguravam,
como um amuleto, o Cristo em terracota e seu crucifixo.
 
Antônia olhou ao redor, e teve pena dos rostos duros
como máscaras de couro amarradas à cara,
e pensou, "o que há em comum entre mim e esses?",
e sentiu uma tristeza profunda, que chegou a doer como pregos
em seu coração ainda tão novinho, que sempre acreditou
no perdão de Deus acima de tudo, pelos séculos dos séculos,
e, chegado o momento da Comunhão, olhou a fila
que se esticava como um azedo lagarto ao sol,
e não se animou a sair do lugar, pois sentia no fundo do seu ser
de que não comungava com nada daquilo.
 
Terminada a Missa, Antônia esperou que se esvaziasse a Igreja,
e ficou olhando o Cristo no altar, que lhe pareceu desanimado,
ao contrário dos Cristos do Convento,
em especial o da cozinha, louco, negro, carinhoso e secreto,
e o da capelinha, cor de jambo com seu pé quebrado,
e enviou-lhe, de longe, um beijo, e tomando pelo mesmo caminho,
voltou à capela (onde enterrara o Deus-homem-menino)
erigida por ela própria, e com as mãos unidas numa só,
de Joana, Tecla, Ana, Cananéia, Teodora e Maria. (30-1-25)

 

 

15.       RÉ CONFESSA



 

Dez vezes por dia eu duvido da minha fé,
vinte vezes por dia eu desanimo, trinta vezes eu arrenego,
quarenta vezes eu maldigo, ou seja,
a cada dia, por cem vezes Deus me abandona,
uma vez a cada dez minutos em média,
 
e isso, talvez, porque talvez eu não passe dez minutos
sem ter meus olhos voltados para ele, e assim,
ele se diverte sendo elusivo, evasivo, liso como sabonete,
como bagre ensaboado, vago
como a espuma do mar, transparente como o ar,
 
e assim o respiro, mas não o vejo, e,
se não posso duvidar que respiro, por que, afinal, não o percebo?,
e pergunto às nuvens que passam, onde estás,
por que me abandonastes?,
 
mas sigo, porque a resposta
está em perguntar, e perguntar, e perguntar,
e, se preciso for, cem vezes a cada dia, e mais,
pois vivo apenas com a certeza da dúvida, e a essa
já não a posso abandonar.

 

 

16.       A DÚVIDA SISTEMÁTICA


 


Ante quem, ante o que nos prostramos?,
nós, que não somos santos, nós, que não somos anjos,
nós, que de nosso só temos o sermos nós mesmos,
ante quem nos prostramos, ante o quê?
 
Quem és tu, afinal, o arquiteto, o construtor dessa escola infernal
que é o mundo, o professor, o diretor, o bedel, quem és tu?,
e não, não indagarei os porquês, não insistirei
no surrado jargão da dúvida persistente e lógica,
 
que nos manda acreditar tão somente na matéria
e no que nos cai sob os sentidos, não,
não perguntarei nada disso, mas me coça a alma
quando me ajoelho e olho o nada, e fico perplexa
diante da não-resposta que me é ofertada,
 
essa neblina em que te ocultas, que não é escura,
mas onde divisamos teu vulto, sem saber
se é um pássaro, um avião ou o super-homem,
que virá nós salvar – de quê, de quem? –
ah!, de nós mesmos, perdidos no baldio em que fomos postos
 
por um ancestral indisciplinado, que nos legou esse DNA maldito,
essa vontade de pecarmos todo o tempo,
de levarmos nossa infância até o limite,
e ante Ti prostrarmo-nos, elevando os olhos ao céu,
por falta de outro lugar olharmos,
ante Ti, nada que é tudo, tudo que é mais,
 
infinito, incompreensível e impalpável,
além do tempo e do espaço, da própria existência,
que não pode compreender nossa vã filosofia,
nossa mísera e limitadíssima ciência. (16-3-25)

 

 

17.       SALVAR A ALMA


 


Salvar a alma, como se ela fosse
alguma espécie de gosminha branca e esfumaçada,
que se suja com nossos, ahn... pecados,
que sobe aos céus de toalha, e se senta
numa sala imensa,
cheia de culpas e perguntas sem resposta,
à espera de ser destroçada
pelas duras sentenças de um tribunal monocrático,
onde só há um juiz, e nenhum advogado,
 
e então a fumacinha tonta, que agora adquire
mal e mal os traços da nossa cara,
poderá ascender às alturas, passando por estreita porta,
onde há de receber um par de sandálias, outro de asas,
uma camisola, auréola e uma harpa,
para daí por diante passar a eternidade girando em círculos
ao redor de algo que não dá pra ver, porque há muito povo
entre a plateia e o palco, ou...
 
se reprovada, pesar-lhe-á um opróbrio medonho,
e ela será precipitada onde só há choro e ranger de dentes,
e descerá pelada a um inferno escuro,
onde passará o mesmo tempo eterno entre fogos e correntes,
submetida ao mais doloroso flagelo, imenso,
pior até do que sofreu Cristo, porque sem final nem tempo,
 
e assim é o destino dessa flanelinha branca que nos habita,
e de quem somos custódios e responsáveis,
seja por sua alegria, seja por sua dor, indiferença, ódio ou amor,
enquanto aqui nessa terra
deixamos o vasilhame aos bichos,
que agora já não tem uso,
e isso, meu amigo, é tudo? – faz favor... (23-3-25)

 

 

18.       PASMAR-SE



 

Essas procissões, esses estandartes, essas velas,
todo esse aparato de indumentárias, de chapéus,
essas caras sérias, compungidas,
esses andores, cruzes, ladainhas,
esse povo que se benze e segue atrás
– aonde vão? –,
 
o que significa tudo isso, o que manifesta do Divino,
o que querem dizer as palavras cantadas
em uníssono desafino,
é isso Deus?, é isso o céu?, é isso o Paraíso?,
 
e como é voltar pra casa, e encontrar o almoço frio,
como se Marta houvesse saído, deixando a Maria
o encargo dos cuidados do dia?,
mas espere, não éramos nós os santos a seguir a romaria?,
 
não estávamos todos emocionados, cheios de fé e fé graça,
– e não que não seja bonito, felizmente: apenas
não acredito que isso me represente
perante as realidades que desconheço,
assim como penso que há mais mistérios
do que os que cabem nesse andar contrito,
 
e que não há procissões no céu, eu penso
–  eu acredito – que essas coisas desmisterializam o mistério,
transformando-o num engano, mas um engano compreensível,
um erro errado, mas inteligível, enquanto que o mistério,
o único, derradeiro e definitivo, é intraduzível,
 
e pasmarmo-nos diante dele é o que nos faz humanos, mas divinos,
com nossos olhos vidrados no que nunca vimos,
como à vista das caravelas pasmaram-se os índios,
e esse estupor intransmissível contém toda a verdade de Cristo,
aquela que nos faz sábios por não ser dita,
e na qual cremos sem reservas,
justamente por ser incrível. (25-3-25)
 

 


19.       CHEGOU O TEMPO



 

Afinal, chegou o tempo em que as estátuas mudas
que ornam o templo importam mais do que o ar
que se respira lá dentro, em que as vestes dos cardeais
têm mais significado do que a alma que se supõe carregarem,
que não beijar a mão dos clérigos é pecado,
mas que essa mão se encha de dinheiro é mérito,
 
em que o gesto de abençoar o vazio é mais valorizado
do que o suor que lateja na têmpora do trabalho,
chegou o tempo, afinal, em que esquecemos
o Deus que jaz sob as pedras do caminho,
o que escorre pelas sarjetas, o que pinga das folhas
depois de uma noite de chuva, o que desenha na areia
dos corações áridos das pessoas, e que insiste
 
em nos dar o melhor de si, nas cores de cada dia,
nos gostos e nos odores, na invisível passagem do tempo,
no rosto do irmão que pede esmolas, na nota rasgada
que entregamos a ele, com um gesto de enfado
– e não importa a Deus o gesto, nem nosso enfado,
 
desde que o irmão possa desse jeito comprar sua cachaça,
à qual ele tem direito, pois lhe negamos a comida,
a casa, o médico e os direitos, e essa nota suja é o que resta
de nossa sociedade invertida, e que cabe a ele,
o último trocado dessa gente ensurdecida – que beija os pés do bispo,
mas se esquece da nobreza radical que reside
 
em darmos aos outros, não o que nos sobeja, mas o amor
que nos faz tanta falta, que, avaros que somos, o guardamos
de tal forma a que ninguém o veja, esse amor, que não é nosso,
e que nos foi dado, para que, com ele, sejamos humanos,
para além dos revestimentos dourados que ornam os altares
 
onde já não pousa o Espírito, que ronda, não o luxo carcomido
da religião decadente, mas os dentes podres
que se abrem no sorriso da pobre gente, dos tortos,
dos velhos e dos escaravelhos que se perdem nas esquinas
e nos meandros da vida, que corre como correm os rios,
eternamente, eternamente, eternamente. (23-2-25)

 

 

20.       A VIAGEM QUE SE INICIA


 

Antônia comprou pão na vila, e se retirou para o mato,
para a capelinha, e ali esteve toda a noite, sob a luz de uma vela,
repassando o que vira e ouvira na igreja, e se lembrando
do Evangelho, que falava da trave que temos no olho
e do cisco no olho do vizinho,
 
e pensava em si própria, nos tantos erros que cometia,
e no modo como dava de ombros, e para si mesma dizia,
"Deus é maior do que isso, e ainda maior é a sua companhia",
e do quanto isso a confortava, mesmo sabendo ser orgulho,
e mesmo sabendo que esse Cristo que ela amava
a repreendia frequentemente, e ela respondia, "Nhor'sim",
e baixava a cabeça e ria, e o Cristo ria com ela, só esperando pelo dia
em que a menina malcriada porventura se corrigiria.
 
Mas aquilo tudo – o fim do mundo, o incêndio,
a debandada das meninas fugidas com o vento,
a capelinha na mata, a igreja da vila, o padre, as comadres,
os homens com seus paletós e os véus das Filhas de Maria,
e as fofocas e maledicências, as línguas ferinas, a hipocrisia,
tudo aquilo a feriu fundo e lhe mostrou a humanidade
de um jeito que ela não conhecia,
e Antônia ajoelhou-se, fechou os olhos, e
de todo coração pediu a Cristo que a levasse,
por onde quer que quisesse, que ela iria,
 
e se pôs de pé, e, ouvindo lá pra serra o canto do sabiá laranjeira,
juntou as coisas que tinha, e decidida se pôs em marcha,
e jurou a si mesma que atrás daquele canto ela iria,
nem que marchasse mil dias, nem que custasse uma vida inteira. (30-1-25)

 

 

21.       POUSO


 

Com os minguados caraminguás que ajuntara
pouquinho a pouquinho nos seus anos de Convento,
Antônia seguiu seu caminho, como um passarinho,
alimentando-se daqui e dali – um pão, um prato de comida –
dormindo ao relento, debaixo de qualquer marquise,
nas capelinhas abandonadas à beira das estradas,
 
sempre com seu embrulho debaixo do braço,
cada vez se afundando mais nos sertões desconhecidos,
encontrando em seu peregrinar outros peregrinos,
pousando em bordéis miseráveis e postos de gasolina,
assustando a todos com a miséria de seu aspecto,
dois olhos negros, cheios de bondade e susto
que emergiam de um rosto batido de sol e poeira,
 
e um corpo esguio, rijo de necessidade,
e roupas velhas que alguém doara, isso era Antônia,
e, passados dias e noites, ela ainda marchava,
enquanto cantasse o sabiá laranjeira, que só ela ouvia,
e que estava sempre à sua frente, de algum modo,
a lhe indicar o rumo à sua maneira.
 
Por fim, Antônia deparou-se com um edifício muito antigo,
caiado de branco com amor e capricho, e escutou um sino
que tocava, chamando para o refeitório, e reconheceu
um velho Convento, simplório, igualzinho ao seu, e correu ao portão,
e bateu, e atenderam Irmãs espantadas que alguém viria
até tão longe, a um lugar que ninguém conhecia,
e a fizeram entrar, e deram-lhe da boa comida,
 
e Antônia correu à cozinha, e, em choro incontido
encontrou lá a cozinheira, que tantas vezes vira,
acordada ou em sonhos, que era Joana, Tecla, Ana,
Cananéia, Teodora e Maria, e abraçou-a, e beijou-lhe as mãos,
e ouviu dela, num sussurro, “seja bem-vinda, minha filha,
tinha certeza de que você viria”, e ela reconheceu então
 
o fogão, a porta que dava pra fora, o alpendre, a horta,
o poço, o galinheiro, o quartinho ao lado, tudo isso,
e, pairando sobre toda a cena, um grande Cristo negro
suspenso em sua cruz, coberto de fuligem e temperos,
com seus olhos de mistério, que olhavam para ela,
como a dizer, “Antônia, menina malcriada, até aqui
você achou jeito de vir me perturbar com seu jeitinho?”,
e viu que Cristo se ria, como aquele outro,
por quem tanto amor ela tinha. (30-1-25)

 

 

22.   SEGUE O CAMINHO, ANTÔNIA


 

Antônia livrou-se das roupas que usava,
e vestiu o velho hábito, que fôra de Maria,
e arregaçou as mangas, botou um avental,
e, sem nem perguntar pra cozinheira – Samaritana era o nome dela –
pôs-se a lavar as panelas, os pratos e os talheres da ceia,
e a enxugar o chão da cozinha, e todas as coisas que aprendera,
naturais para ela, que as fizera a vida inteira,
sob o olhar daquele outro Cristo, como esse novo,
de pele negra, e a conversar com o Espírito, que a levava nos braços,
como num balé entre o mar e a sereia.
 
Então Samaritana chamou a Superiora, tão velhinha quanto a outra,
que a abençoou, beijou-lhe a testa e indicou-lhe um quartinho,
onde havia uma cama, uma mesinha, um quadro da Virgem
e um crucifixo, e Samaritana colocou numa cadeira o pesado pacote que trazia,
e lhe disse, como se já soubesse o que continha, "leia tudo, existem nessas páginas
tesouros desde sempre ocultos, guardados desde o começo do mundo,
e eles são seus agora, para o seu espírito, e para o espírito
de outras Irmãs que virão, talvez em breve, talvez ainda no futuro". (30-1-25)

 

 

23.   CONTEMPLAÇÃO



 

Afinal, contemplar a Deus é olhar sem entender – nem tentar –
é perder as palavras, o raciocínio, o descontínuo,
é não pensar, e então eu penso: se não pensasse,
mas apenas visse, se eu olhasse tão somente,
veria a Deus?, na sua presença de silêncio,
 
ele, que para falar encarnou-se, e falou por parábolas,
para que, não entendendo, compreendêssemos,
 
então penso eu, se não pensasse, o veria?,
se quando o penso o ponho em palavras minhas,
e vejo a mim mesmo, tão compenetrada,
mas incapaz de resolver o conflito entre verbo, sujeito e predicado.
 
Por isso, olho para Deus e evito vê-lo
como quem veria uma árvore, uma pedra, um rio,
olho para Deus como quem olha o amado, e, sem palavras,
permaneço maravilhada ante sua beleza, cada gesto seu,
o modo como se move, como se mostra, como se deixa ver e admirar,
 
aqui a curva do corpo, ali o ar de seus cabelos,
o brilho no olho, o hálito fresco, o som de sua voz,
que não ouvimos, mas que ouvem os pássaros, os insetos,
o mar, os azulejos na parede do castelo inútil
que construíram homens surdos para sua própria grandeza,
e mal sabem eles, que ali escutam as pedras, o reboco, as telhas,
mas não escutam os construtores em seu orgulho de humana besta,
 
ah!, se eu pudesse ver Deus, sem mesmo respirar,
suspenso no ar meu pensamento, e todo o meu ser
em completa e empática reverência, a reconhecer-me nele
– e ele a reverberar em mim –
 
ah!, que momento esse, que instante!,
que, ainda que passasse, rápido como o vento, deter-se-ia em mim,
nos meus coração e mente, e ali se manteria impresso
como uma impressão permanente, que jamais se apaga,
mas que fala a mim, eu Antônia, esse ser ignorante e enferma,
como sua linguagem hermética, com sua voz silente. (10-2-25)

 

 

24.   OS MISTÉRIOS

 



“Poderá o espírito do homem conceber todos esses mistérios,
poderá ele expressá-los? Certamente não! Assim,
somente o Espírito de Deus, por ser divino,
somente ele conhece esses mistérios.
então, será apenas àqueles para quem resplender este Espírito
e a quem ele se unir livremente, somente a estes
ele a tudo mostrará, de um modo inexprimível.
Àqueles que ele esclarecerá com sua iluminação,
ele concederá que vejam o que se encontra dentro da luz divina[1]”.



[1] São Simeão o Novo Teólogo, A Prece Mística, Hino 29.



25.       REVELAÇÕES


 

Penso na Samaritana, na Cananéia, na viúva,
penso em Lázaro e no ladrão, e imagino
os olhos arregalados, estupefatos,
ao se darem conta de que estavam ali,
não diante de um feiticeiro, um mago, um curandeiro,
 
mas diante do próprio mistério, evidente e impenetrável
como sóem os mistérios ser, e mudo
– pois não há palavras a descrever –
e inegável, insofismável, impondo-se a todos os sentidos
da mente, do coração e da carne,
 
sendo que nenhum deles era cristão, discípulo ou o que seja,
eles apenas viram, e sentiram-se na presença
libertadora da verdade, do incompreensível e do infinito,
e, naquele instante em que a bondade destruiu todos os limites,
compreenderam o que nos leva às vezes toda a vida,
 
e ali pagaram todas as suas dívidas,
e seguiram, com a bolsa de suas almas vazia,
e toda uma existência de escândalo para os judeus,
de loucura para os helenos, pela frente.

 

 

26.       AMEMO-NOS


 

A questão com as verdades divinas
é que elas não podem ser entendidas
pela lógica, porque são sobrenaturais,
e, assim, elas só podem ser vividas.
 
Cristo não fala, “ama a Deus como a ti mesmo”,
mas “ama o próximo como a ti mesmo”,
para não rebaixar Deus à medida de nosso amor,
e porque, quando amamos o próximo
como a nós mesmos, tornamo-nos todos
como se fôssemos um só e mesmo homem,
e aqui, sentir a dor do outro
como quem se vê no espelho,
se torna quase insuportável.
 
A imagem de Deus só pode ser penetrada pelo amor,
e o homem que ama realmente se torna
uma só essência com a humanidade,
sem deixar de ser uma pessoa, assim como
a Trindade é uma só essência, embora
seja composta por três pessoas.
 
Estranhas palavras,
estranhas doutrinas,
estranhos ensinamentos
da Santa Trindade,
pensou Antônia.
 
Pois foi dito, “Amemo-nos uns aos outros
– e tanto! – para que com uma só mente
(uma só voz, um pensamento, o mesmo amor)
confessemos o Pai, o Filho e o Espírito Santo[1]”. (14-3-25)



[1] São João Crisóstomo, Liturgia, Oração da Oferenda.



27.       O AMOR


 

Somos participantes da Criação através da liberdade,
que podemos expressar passivamente, anestesiados
como repolhos na horta, ou que pode se tornar para nós
a porta para nossa participação em Cristo,
nos seus ensinamentos e no aprendizado
dos seus segredos e sacramentos divinos, e assim,
 
existe entre o material e o espiritual uma diferença de ser,
porque a matéria é matéria e matéria seguirá sendo,
enquanto o espírito se aperfeiçoa sempre e sempre,
pela universalidade divina de Cristo pelo Espírito Santo,
para que nós, os pequenos átomos desse universo
nos tornemos universais também, para que,
saindo de nossa constritora individualidade,
 
possamos nos abrir para a imagem de Cristo,
compartilhando de sua personalidade universal,
que se chama Amor, essa abertura que nos permite ver
o que em nós nos separa de Deus – esse é o sentido
do pecado, e nenhuma de suas aparências, como o queria
o Antigo Testamento – esse pecado, cujo entendimento
requer uma graça divina, porque, no fundo, ele é a falta
 
de um Amor que desconhecemos, e assim,
quando o entendemos, começamos a criar em nós
esse rosto divino no espelho do coração, esse rosto
que inclui em si a complexidade e a diversidade
do ser cósmico, esse rosto, capaz de introjetar em si
a vida divina – a imagem – juntamente com a vida humana,
através do Amor, a mais profunda e nobre expressão
da nossa semelhança amorosa com Deus,
 
que supera todo e qualquer valor cósmico ou mesmo humano,
esse rosto que é o do homem novo oculto no coração,
onde o Amor de Deus se revela como energia divina – Luz –
que exige de nós uma nova pessoa, quando ficamos
diante do “Eu Sou”, e nosso espírito vê, claro como o dia,
as limitações de sua ignorância e de seus erros,
para que alcancemos a compleição de Cristo,
pela graça divina e sua filantropia, eternamente,
e pelos séculos dos séculos, para além da morte e da própria vida. (4-3-25)

 

 

28.       A ALMA


 

Deus criou nove ordens de anjos, mas uma caiu – os demônios –
e uma se perdeu – as almas dos homens – que desceram
de sua espiritualidade, e se tornaram psíquicas,
porque dentro delas o amor, que as ligava a Deus e a tudo,
congelou e se enrijeceu, e se tornou incapaz, porque de gelo tornadas,
de se mover, e perdeu sua capacidade de amar, de conhecer e de participar,
 
e de ver no outro a si próprio, e amá-lo como a si mesmo,
essas almas, que Deus deu a Adão e Eva para que se vestissem,
ao deixarem o Paraíso, essas almas, essa única alma desértica,
mas que a todos nos uniria, se nos permitíssemos uma mínima,
uma infinitesimal, uma minúscula visão de Deus, porque
em cada uma está impressa a verdade de Cristo,
 
e Deus habita na alma que conhece a bondade
 – porque Deus é bom – porque a alma foi criada para ver,
e, vendo, subir até o vértice do céu, para de lá enxergar
e compreender as coisas divinas que não podem ser faladas,
essas coisas que já existiam quando a alma preexistia,
essas coisas, cujo conhecimento é apenas a lembrança delas,
 
essas coisas que a alma sabia quando participava ainda
das nove ordens angelicais – nossa alma, a dracma perdida,
desencontrada – “você já sabe, vamos recordar”,
disse Hermes em sua Tábua de Esmeralda. (7-3-25)

 

 

29.       O PEQUENO ARBUSTO


 

Quero ser o pequeno arbusto que cresce
à sombra das grandes árvores, que nunca verá o horizonte
a se estender além de onde a vista alcança,
em cujos finos galhos não pousarão as águias,
nem treparão as onças,
nem balançar-se-ão os macacos
a lançar seus gritos guturais nos finais de tarde,
 
quero ser esse arbusto a quem basta um metro,
um metro e meio,
sob cujas folhas acasalarão bichinhos, fazendo amor
pela preservação da espécie, pondo ovos sem heroísmo,
ouvindo a melodia das gotas da chuva que restam,
caindo ao solo depois de percorrerem as altas copas,
 
esse arbusto que conhece mais o chão
do que as alturas, que espia à noite às vezes uma estrela
que lhe é concedida ao dançar desde o dossel,
quiçá, com sorte, a lua, esse arbusto que escuta,
como se do além fosse, o pio da coruja, esse arbusto
 
que só almeja que uma que outra brisa
o beije, suavemente, e que sussurre ao ouvido do vento,
"Nunca me deixes", e aguarde resignado
que se vá o sopro fresco e regresse um dia
aos seus braços de folhas, para neles se agasalhar
por um instante, um breve instante, quem sabe um dia,
uma vida inteira, para quem aprendeu a amar. (11-3-25)

 

 

30.       OS LIVROS SANTOS


 

Às vezes queria que os livros santos
estivessem escritos num rongorongo qualquer,
indecifrável e desconhecido, e que o sentido
de suas palavras se houvesse perdido
nalguma neblina do tempo,
como um hermetismo garífuna, um patuá antigo,
 
e que, de tudo, só houvesse restado
uma única lição, cabal e definitiva,
que nos mandasse amar uns aos outros,
como a Deus amamos, e por toda a vida,
 
e assim seguiríamos, felizes, sem disputar
sobre os trilobitas, os homens e os macacos,
sobre os supostos pecados, e o que agrada a Deus,
e o que nada, e aqueles pergaminhos
permaneceriam fechados numa vitrine, indecifrados,
 
e seus ensinamentos, por esquecidos,
entrariam na categoria das lendas, dos sacis, boitatás e das sereias,
e riríamos pensando nos povos que escreveram aquilo,
e voltaríamos a nos amar, nos becos, nas praças e nas esquinas,
 
pousando as cabeças nos braços uns dos outros,
respirando o perfume de seus cabelos
e cantando as mesmas canções, às vezes,
queria que os livros santos se perdessem
e que só restasse o amor a velar
por toda a madrugada, em nossas cabeceiras.
 

 

31.       O UM E O AMOR


 

Eu sou a virgem tola da parábola,
que enche sua lâmpada com o azeite do mercado dos sentidos,
enquanto vejo a porta se fechar atrás de minhas irmãs,
as sábias, que acendem seu pavio no óleo santo do Espírito,
e aqui fico eu, que não tenho olhos invisíveis
com os quais se vê o invisível,
 
e permaneço fora, à luz do dia, e não me é dado
penetrar nessa neblina incompreensível,
onde Deus existe, essa neblina,
a Luz Incriada do indizível, cheia de sabedoria,
à qual só chegam os que amam verdadeiramente,
para além de todos os sentidos, como disse Cristo,
 
se alguém me ama, meu Pai o amará, e nós viremos
e faremos nele nossa morada[1]”, e é assim
que Deus se revela a quem o ama, pois
o mundo não mais me verá, mas vós me vereis[2]”,
e “meu Pai enviará o Espírito Santo, em meu nome,
e ele vos ensinará tudo[3]”, o Espírito de Verdade,
que o mundo não pode receber,
porque não o vê, nem o conhece[4]”, essa Luz
que é Amor, unidade na essência e nas energias divinas,
a glória que Cristo nos deu, o Amor comum
dentro da Trindade, o Amor à humanidade,
 
para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim,
e eu em ti, e para que também eles sejam um em nós,
e para que o mundo creia que me enviaste[5]”,
e para que, afinal, quem sabe um dia,
sejamos nós também um, com Deus,
sim, com Deus, e entre nós. (1-4-25)
 
E com o pensamento nessas coisas, Antônia
chegou a uma bifurcação do caminho,
e olhou para um lado e para o outro,
e escolheu ir por aquele que lhe pareceu
o mais bonito, e por ele embarafustou
sem ter ideia de para onde ia indo.



[1] João 14: 23.

[2] João 14: 19.

[3] João 14: 16.

[4] João 14: 17.

[5] João 17: 21-23.



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