17. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 4: MARIA

 

4. MARIA (1958-2002)

 


Onde conheceremos Maria, sucessora de Teodora, carioca da gema, cujas dúvidas em relação à sua fé, a si mesma e ao seu corpo a levarão a abandonar o Convento, indo viver uma aventura nos confins da Amazônia, que quase lhe custará a vida.

Maria acaba por retornar ao Convento, mas traz no corpo cicatrizes que denotam os perigos por que passara em sua vida errante.




CAMINHOS


 

São insondáveis os caminhos da Providência,
e as razões para estarmos no mundo, incompreensíveis,
e o que Deus quer de nós, só ele sabe, e nos dispõe
como as peças de um brinquedo que se mexe,
com suas engrenagens e molas, um palhacinho
que pisca os olhos e tem um sorriso, e grandes pés
em sapatos enormes, e luvas e uma gravatinha
um terno, largo demais, e cores que não combinam,
 
e ele anda num monociclo, equilibrando uma vara
na ponta da qual brincam bolinhas que saltam em círculos
e voltam ao ponto de partida, enquanto aplaude um público
que não vemos – assim é o mundo, e assim somos,
e de um qualquer minúsculo ser humano extrai Deus seus prodígios,
e no anonimato de vidas que desconhecemos
estabelece ele sua Igreja, aqui e ali, e esses pontos luminosos
se destacam na noite da existência, como estrelas
que olham os anjos de suas alturas, dando-lhes nomes
como às constelações damos nós, que não sabemos
que também essas estrelas que vemos são Igrejas
 
que Deus colocou no firmamento, para lhe dar a forma
desse cálice invertido, que derrama eternamente
um vinho doce e amargo, como a vida e a morte,
que bebemos e nos embriagamos, pois somente bêbados
podemos suportar a existência, e sermos, de alguma forma,
úteis ao propósito universal, que é o de sermos, finalmente,
o palhaço único a receber os aplausos, ao saltar
de sua caixinha de surpresas no meio da festa das crianças,
que rirão de nossas estrepolias, e seremos então abraçados
e guardados com carinho em novas prateleiras
de onde voltaremos a saltar, sorrindo, uma e outra vez,
e pelos séculos dos séculos. Amém. (16-12-24)




1.       A CHEGADA DE MARIA AO CONVENTO



 "Devias chamar-te Marta", disse Teodora à noviça

que recém chegara ao Convento, negra como ela,
para ajudar na copa, na horta e na cozinha,
"devias chamar-te Marta, não Maria, minha pretinha", enquanto arrumava
as poucas coisas da menina no quartinho, que doravante
iriam dividir, Maria e Teodora,
Teodora e Maria, todo o serviço do Convento
confiado às mãos das duas, como mãe e filha,
como tia e sobrinha, como Irmãs, negras, tintas, negrinhas Teodora e Maria.
 
Olhos arregalados, inquisidores, mil perguntas guardadas,
Maria segue os passos da mais velha, cada gesto,
cada movimento e palavra, os tons, a ordem das coisas,
os passos certos, e, acima de tudo,
o velho Cristo, lá em cima, pendurado, negro de fumo,
a espiar cá embaixo, as duas, como formiguinhas amadas,
que ele desceria, se pudesse, a confortá-las, e aprender com elas,
como em todos esses anos com Teodora,
 
a temperar um porco, passar um café, combinar o feijão e o torresmo,
a marcar o tempo certo do pão, a cantar baixinho,
e a orar em silêncio, "Senhor Jesus Cristo, filho de Deus,
restaura-me e tem piedade de mim",
essa piedade, que há muito tempo se transformara em amor,
que sentiam, entre si, ele e ela, e cada vez mais,
que Cristo sentia verdadeiramente,
que ela, enamorada,
existia nele, e que ele, como um apaixonado,
existia ali somente para ela. (14-6-24) [1]

 



[1] Maria nasceu em 1936 num subúrbio no Rio de Janeiro, em uma família de capoeiras e sambistas, perseguidos sempre pela polícia, e teve uma infância feliz nos morros e nas rodas de música e jogos. Mas, por desavenças com delegados e milícias rivais, seus pais acabaram por ser assassinados, e ela teve que fugir, indo morar nas calçadas do mercado. Recolhida por Irmãs de caridade, Maria foi levada ao Arcebispado e, de lá, seguiu para o Convento da Anunciação, muito recomendada, por sua inteligência aguda e sua natural vivacidade. Sua chegada ao Convento em 1947 coincidiu com o apogeu da espiritualidade de Teodora, que viu na menina nova todo o potencial para prosseguir a cadeia de transmissão de conhecimentos.




2.       MARIA


 

Maria é um poço de dúvidas e hesitações, de temores,
de oscilações da fé, de perguntas sem respostas,
de respostas sem perguntas, de medos
– do agora, do passado e do futuro –
e executa o que lhe cabe, tudo muito direitinho,
em seu hábito novinho, branco como a pureza e a inocência,
 
enquanto Teodora, que já não pensa, mas só sente,
limpa as mãos no avental mais que encardido,
e arregaça as mangas, e diz, "lá vou eu, Nonô, cuida da tua filha",
e mergulha de cabeça para mais um dia,
uma tarefa, que nenhuma hora é perdida,
mal paga, inútil ou desperdício, e, com Cristo ao lado,
dentro, quieto, falando ou calado, seguem os dois pela vida,
 
como se já estivessem do outro lado, onde tudo é sorriso, alegria,
um jardim de eterna primavera, enfeitado
com todo o que há de mais belo, e onde não existe mais dor,
nem preguiça, nem cansaço, e ela olha a menina ao seu lado,
mocinha, sem que saiba por que está ali, mas só que a mandaram do orfanato,
 
e Maria olha para Teodora, seu porto, onde está agora
seu frágil barquinho amarrado, sem velas, com o casco furado,
e essa mulher e seu sorriso, seus olhos de bondade
são para ela todo o mundo novo, que se abre,
onde o incenso das panelas sobe aos céus,
e beijam o Jesus suspenso à trave, que, pensa ela – não, ela tem certeza –
a olha também, com o mesmo carinho, a mesma mão estendida,
o mesmo sorriso, a mesma indizível bondade. (15-6-24)
 

 

3.       O SERVIÇO


 

Maria e Teodora escamam peixinhos para o almoço das Irmãs,
e todos os gestos das duas são como uma Liturgia,
uma Diaconia, um serviço a Deus,
nas menores coisas, que as mãos se movem,
os lábios entoam ladainhas, bem baixinho pra não acordar os santos
que dormem em seus leitos de nuvens, sua castidade
preservada por mais um dia, nos corpos das duas virgens,
 
que se ofereceram a Cristo, e se banham nessa água, junto ao fogo,
que escorre da pia, levando as impurezas embora,
e deixando somente a carne e o sangue – não que seja fácil –
a escolha que fizeram para a vida – não que seja fácil, e sem medida –
de voltarem as costas para o mundo futuro, que vem,
com todas as coisas que o porvir promete, de progresso a curas,
e a Parúsia, a vinda de Cristo, a julgar a humanidade,
 
enquanto Teodora ensina a irmãzinha a olhar o passado sem tempo e sem juízo,
naquele momento em que nada havia, mas somente, em seu cantinho,
o Pai, o Filho e o Passarinho, Trindade que nem nome tinha,
e que hoje chamamos Amor, o mesmo amor que sentimos
quando as mãos preparam o alimento, quando lavam os caminhos
por onde passarão outros, que não suspeitam
que ali foi feito um serviço, que já era feito desde o início,
 
quando a terra era informe e vazia, e uma jovem negra, como hoje,
passava a varrer estrelas, e a entregá-las ao dia e à noite, que ainda viriam,
e com um paninho filtrava as águas do oceano, e ajuntava as montanhas em seus lugares,
e distribuía os animais, os peixes e os passarinhos,
e entregava às mulheres e homens, que nasceriam, seu riso e seu pranto,
e contava as lendas que ainda seriam ditas um dia, éons depois,
repetidas pela raça humana ao pé do fogo
que ela vira nascer, com Cristo,
junto ao lago de Tiberíades, quando, à espera dos pescadores na barca,
 
assava sobre brasas um peixinho, esse peixinho,
assim, tão singelo, fora do tempo e do espaço,
que Teodora e Maria levam ao fogo, com um tempero secreto
que, como no princípio, não tem nome, ou se chama Amor,
um pouco de sal, de limão, de alecrim, nesse ritual
que tanto tem de sagrado como de laico,
nesse equilíbrio delicado, radical e frágil, definitivo e complicado
– não que esteja sendo fácil. (19-6-24)

 

 

4.       O PARAÍSO


 

Estava o Paraíso muito bem arrumado, cada coisa
em seu cantinho – Adão e Eva não tinham ainda nascido –
e os bichos todos, e as árvores, os morros e os rios
cantavam sussurros ao Deus lá em cima, que passeava, atarefado,
a pensar nas coisas que ainda havia que fazer, enquanto,
cá em baixo, Teodora e Maria mantinham a ordem das coisas,
 
daquele jeito que Jesus ensinara, e que elas sabiam,
tudo organizado, mas não tão certinho, deixando sempre um espaço
pra mais uma folha que caísse, um grão de areia fora do lugar,
quem sabe um novo bichinho, um vento que passasse
pra deixar a grama em desalinho, e indo assim,
e entortando os atalhos, pra que parecessem retos,
mas com curvas por todo o caminho, curvando os galhos,
provando da água dos rios, cristalinas, e subindo
as montanhas até as fontes, descendo aos mangues,
 
na azáfama de todo o dia – e olhe que naquele tempo,
nem tempo havia! – e tudo para que, quando viessem os dois humanos,
encontrassem tudo no jeito, esse Paraíso um jardim,
que, sem ser perfeito, era o melhor que se tinha,
mesmo que um ou outro riacho subisse contra a corrente,
mesmo que sob a relva se escondesse alguma serpente,
 
e Teodora e Maria se sentavam à sombra de uma mangueira,
e Cristo vinha ter com elas, e as levava pelas mãos, até a fogueira,
onde preparara o peixe, assado como se deve, para que comessem, é claro,
depois que se servissem as Irmãs, que, no refeitório, rezavam
antes e depois do café, do almoço, do lanche, da janta e da ceia,
enquanto Teodora e Maria, com Cristo, na sua cozinha,
raspavam a frigideira, e riam e dividiam os restinhos,
para comer com pão, com a alegria de quem cozinha, de quem sabe
que o alimento, desde sempre, vem do céu, de longe, do Paraíso,
onde o buscavam as duas, os três, de manhãzinha, naquele jardim
a que a humanidade se habituou a chamar de feira. (17-6-24)
 

 

5.       CONVERSAS

 


"Você o vê?, você o vê?", a caminho do mercado,
Teodora vai apontando o céu, os matos, os morros, os horizontes,
mas Maria não vê nada, e segue apressada os passos da Irmã,
e tenta decifrar a péssima letra no papel escrito,
"abróbra", "pipino", "farina", "peche",
 
enquanto Teodora segue absorta na sua fala,
mostrando as pedrinhas no caminho, uma formiga que passa,
o passarinho que canta, o automóvel na estrada,
e Maria tenta entender o que é "pagá o sogueiro", "busca o relojo no concerto",
e tropeça num toco que não viu, e rala o dedo, e choraminga baixinho,
sem que Teodora perceba, e seguem as duas,
nessa neblina, bem cedo, enquanto levanta um sol preguiçoso,
e a lua boceja de sono, minguante e pequenina, menina como Maria,
 
e o outono avança sem pressa, e um calor morno começa
a lamber o rosto, e aquecer o corpo, e aos poucos
tudo se modifica, e a claridade empresta seu brilho
ao restinho de orvalho nas pétalas das flores, na teia da minúscula aranha,
nas gotas que despertam do sono noturno sobre a trave da porteira,
e todo o ar se move, misterioso e calmo, e uma brisa passa,
outra acaricia, o céu vai se pintando de azul, a terra se enche de cores,
 
e Teodora segue falando, deslumbrada com a vida,
"a vida, Maria, tudo é vida", e Maria pisca os olhos,
como se pela primeira vez visse, e, tirando os olhos do papel,
suas retinas se enchem com a beleza do dia, em que tudo é vida e recomeço,,
"tudo é vida, Maria", e, pela primeira vez, ela entende
esse Deus que é belo e nunca o mesmo,
não um velho de gesso, cheio de letras, mas um poeta, um bêbado,
 
que desenha com um pincel só dele, e nos entrega a tela,
para que completemos com as cores da nossa mente,
as formas e os matizes da natureza,
que Maria bebe, sorvendo cada instante de beleza,
e, de repente, se vê agradecendo, por ali estar, viva,
enquanto Teodora segue em frente, "olha, Maria!,
você o vê?, tudo é vida, você vê?",
e Maria – ah!, Maria! – Maria vê. (16-6-24)
 
“Como poderia a obra contemplar
por inteiro, e compreender por inteiro aquele que a criou?
Penso que isso é absolutamente impossível.
Mas o Criador, na medida em que o deseja,
surge e se deixa ver por aqueles que ele quer,
e se deixa conhecer, e sua criação O conhece;
ele se deixa ver, e ela o vê, na medida
em que seu Criador lhe concede ver.[1]



[1] São Simeão o Novo Teólogo, A Prece Mística, Hino 24.

 


6.       SERVIR


 

Servir, Maria, é simples assim, servir, viver para dar,
porque temos tanto, e toda nossa carne está cheia de Deus,
e nossa força é inesgotável, e nossas mãos são incansáveis
nessa labuta, enquanto as Irmãs se prostram e oram,
nossa oração é luta, e em pé estamos, antes que nasça o sol,
antes que nos deixe a lua, que nos sorri a cada madrugada,
e, pálida, agradece ao manto negro – negro, Maria – da noite,
que, com sabedoria cúmplice, a escuta.
 
Só se nasce uma vez, mas se vive para todo o sempre,
e o que há de mais sagrado que possamos fazer,
senão servirmos a sopa, com os melhores ingredientes,
para matarmos a fome de quem não tem sequer os dentes,
senão amassarmos o pão, para que se lembrem
da jornada do grão, do fermento que leveda a massa,
que de melhor, do que amassar a uva, que fermenta,
para embriagar os que têm sede de outra realidade,
 
que mais nos aqueça, que nos transporte a outra ordem,
que nos alucine a alma, que a arrebente, às suas correntes de calma,
e a arrebate à loucura que lhe é latente,
que de melhor, do que nos tornarmos a semente,
do que sermos o feijão, a farinha, o toucinho e a aguardente,
e os joelhos que se dobram, e os corações que seguem em frente,
que portam as lâmpadas com o azeite bento, o que não se apaga, que de melhor
 
do que tocarmos as sanfonas e as zabumbas que trazemos no peito,
que vararmos as noites e as madrugadas, a proclamar aos quatro ventos,
e a quantos outros ventos haja, que estamos vivos,
que vivemos, e que seguimos vivos,
nessa jornada sem fim, que cada um começou um dia,
que cada um prossegue, que cada um,
consigo mesmo, para tudo o que vier, viaja? (16-6-24)

 

 

7.       O AZEITE

 


A candila sobre o altar, sobre o fogo na cozinha,
o que queima essa pequena chama?,
sim, Maria, o azeite certamente, e o pavio, e tudo o mais que ao ar ascende,
mas, mais do que isso, os sonhos da gente, a fé,
a esperança que entregamos a Deus, para que nos contente
com seu carinho, sua atenção, sua graça,
 
que queremos tê-la em nós, para que amemos com esse amor
que não conhece o outro como outro, mas como nós mesmos,
esse amor que não é dois, mas um, que é luz e não espelho,
esse amor que não é ilusório, sem inimigos nem contraditório,
esse amor que é um estado, amor com "A" maiúsculo,
 
que nos constrói, mais do que o assumimos,
que forma a substância primeira do mundo, esse amor sem palavras,
sem promessas, sem certezas falsas, sem mentiras,
esse amor que se dá e não toma, que só ele há,
quando nasce em nós, que o não compreendemos,
e que tentamos, por toda lei, crucificar,
para que não nos importune, que não nos desmonte,
para que nos seja possível seguir vivendo sem dizer seu nome,
para que possamos morrer nessa vida, sem conhecer
 
a plenitude que nos é possível, a que nos mata a sede e a fome,
a que nos torna deuses, para que, como deuses,
possamos servir a todos os homens, sem nada pedir,
sem nada fazer por nós mesmos, sem nada sermos
que não sermos nós, mas em Seu Nome. (17-6-24)

 

 

8.       O CRISTO NEGRO


 

Movida pela curiosidade, Maria sobe a velha escada
até a altura do Cristo junto ao teto da cozinha,
o Cristo negro de toda fumaça e toda fuligem,
e, lá em cima, inspeciona sua face, cujos olhos ainda brilham, e desce, devagarinho,
e se pergunta, que homem é aquele, um homem de madeira,
preso ao madeiro da cruz, matéria contra matéria,
e não o ser de luz prometido no Tabor, que brilhava mais que o sol, que o dia,
um ser de maravilha, que viram os apóstolos, com a promessa de que, no futuro,
quem mais quisesse o veria.
 
Ao contrário, o Cristo da cozinha era escuro, e muito quieto,
e, conquanto fosse o Verbo, não falava, e nenhuma palavra
saía de seus lábios hirtos, numa expressão que se diria
ser de dor, ser um sorriso, e aquilo que o Pai lhe disse que dissera
aos homens, naquele Cristo permanecia fechado, e, no seu mutismo, o que anunciava
não era o tempo futuro, mas o passado, quando ainda não havia o céu e a terra,
e o mundo não tinha sido criado.
 
“Esse é o meu Cristo, meu Jesus sem nome”, lhe dissera Teodora,
do tempo em que se chamava só “Filho”, antes que se encarnara, quando,
junto com o Pai e o Espírito, se ocupava em fazer o mundo,
como quem tece um pano, pinta uma tela, compõe música,
com letra, harmonia e poesia, como quem modela
com as próprias mãos, tudo o que existe,
e a cada coisa dá sua razão de ser, uma razão que não pode ser traduzida
por nenhuma letra, nenhuma elaboração, mas que só pode ser sentida
no mais fundo coração, onde ainda habita
o Filho, eternamente ele, atento e quieto como no primeiro dia era,
quando a terra era informe e vazia, e o Espírito pairava
sobre os abismos e as trevas.
 
É esse Cristo, desde o primeiro instante ungido, e ainda antes,
que é o puro Amor não tocado pela mão do homem,
que anuncia, não o fim de tudo, mas a criação futura,
é esse Cristo que nos mostra sua obra, com orgulho de criança em sala,
e diz, “fui eu quem fiz, te agrada?”, e vai mostrando
as flores na campina, os insetos e passarinhos,
os bichos todos, e todas as mulheres e os homens, e as montanhas,
os oceanos, os rios, lagos, os ventos e as águas, e o fogo,
e o tempo que passa, e o espaço que parece infinito,
e até as cidades, que a humanidade abrigam, tão efêmeras
quando o orgulho que as construiu, e a tudo Cristo ama,
com esse Amor indizível, como o que sente a criança
pelo menor de seus brinquedos, nessa cumplicidade
entre o amante e o amado, que são ele mesmo, Cristo,
esse Amor enorme e sem conflito. (17-6-24)

 

 

9.       CÉU ILUMINADO

 


As estrelas, que se contam em número indefinido,
que já abandonou contá-las a própria astronomia,
que têm por fundo o manto negro, sobre o qual pontilham,
se as víssemos, mais estrelas ainda, e mais ainda,
e assim ao infinito, se coubessem todas,
e, acima dele, outro, e outro, e outros infinitos,
de glória em glória, de perfeição em perfeição, de morada em morada,
que a casa do Pai nunca se acaba, e recomeça
onde a mais louca imaginação pensou que terminara.
 
Maria e Teodora olham o céu iluminado, como de vagalumes ornado,
em incontáveis pontos de luz, que antes, num tempo que se foi,
foram as janelas pelas quais os anjos perscrutavam
as dores e os ardores da humanidade,
e Maria tenta imaginar quantos mundos, quantos Reinos,
quantos Cristos virão ainda, para remir os homens
mais perfeitos, tornados santos nessa e noutras vidas,
e levá-los a perfeições ainda maiores, sempre mais, sem que nunca se acabe,
porque um Deus infinito e criador não cessa jamais seu trabalho,
nem se cansa de ir além, do concebível e do imaginável,
e o Juízo, afinal, não passa, no fundo, de um estágio,
de onde seguirão as almas, como de oceano em oceano,
não como dentro de um aquário.
 
"Teodora, minha irmã...", ela diz, mas se cala,
pois não há palavras que descrevam o que vira,
nem nenhuma expressão, que não seja um alento profundo,
um suspiro, a voz que vem de dentro, do coração que respira,
nesse agradecer pela vida, que nunca vira assim,
do tamanho dessa noite inesquecível, em que Maria viu os anjos
– ou o que fosse tanto brilho – e sentiu o seu perfume,
de lírio, de dama-da-noite, de camélia, de frutinhas de mirtilo,
e experimentou, pela primeira vez, esse Deus infinito,
maior do que lhe contaram, porque o via agora, e o sentia,
mais do que infinito: vivo. (17-6-24)
 

 


10.       A BENZEDEIRA


 

Perdida, na volta do mercado, a Irmã Maria erra pelos caminhos,
onde sempre Deus está, é claro, mas lhe parece
que às vezes está ali só ele, sozinho, e nem um bicho aparece
para fazer companhia, e mesmo as folhagens não se mexem,
e um silêncio estranho se estende até as colinas.
 
Ali fica a casinha da velha senhora, que se sabe que existe,
mas estão todas proibidas de se aproximar, de bater, de entrar,
de receber uma acolhida, a choça da benzedeira – Deus me livre –
que só de pensar nela, cada Irmã se arrepia, e se persigna,
e corre a lavar as mãos em água benta, e as roupas de baixo em criolina.
 
Maria vê a velhinha, curvada com suas ervas,
aroeira, arruda, assa-peixe, guiné, ipê-roxo, capim santo, andiroba, jambu,
e um sorriso sem dentes, e uns olhinhos argutos,
que perfuram as doenças, e fazem saltar os diabos de seus esconderijos,
e, sem que perceba como, Siá Benta já está ao seu lado,
e toca seu braço como uma pena, e Maria já está dentro da casa,
e gira em torno dela toda uma cena,
 
de cruzes, de santos, de Virgens Marias, de Madalenas, medalhas e potinhos,
de vasinhos, de caixinhas de pó mágico,
de tercinhos, cordõezinhos, miçangas e vidrilhos,
e a voz da velhinha que fala como quem reza, e reza como quem fala,
e conversa com os espíritos, e guia os perdidos na mata,
e cura berne, piolho, unha encravada e espinhela caída,
e traz ao mundo as crianças, e trata da criação e do gado,
e zela pelo mundo todo, com mãozinhas de duende ou de fada,
 
e ela acende seu pito, e, entre as baforadas, prepara um chá,
que Maria bebe, paralisada, entre o pânico e a vontade
louca, rasgada, de ali ficar, mais um pouco, mais um dia,
quem sabe a vida toda, junto dela, Benta e Maria,
no meio da névoa, da fumaça e da neblina,
dentro da nuvem que se faz em torno da casinha, essa nuvem
em que vive a velha, suas poções e suas mezinhas,
a neblina sagrada das bruxas, das feiticeiras, das xamãs,
das filhas de Iansã, ou o que seja, essa neblina que molha os olhos e faz ver,
como fez Jesus ao cego, e Maria se sente estremecer,
 
e, com um abraço se despede, e beija suas mãos castas,
daquela que já foi prostituta no cais, e agora reina
entre ervas, raízes, folhas, e o canto dos pássaros, a marcha das estrelas,
e os segredos do passado, que sacerdotisas confiaram
 a poucas e poucos, que os trouxeram de mão em mão,
aconchegando-os nos úteros, nos braços,
ou como fosse, até chegar a essa velhinha de olhos de gato,
 
que Maria vê sumir-se na curva do mato, e se vê, subitamente,
de volta ao caminho, à estrada velha, com os pés descalços,
e as sacolas, cheias das compras do mercado,
e um saquinho cheiroso, patuá que não sabia,
"pra que nunca te percas na vida", cheio de coisinhas,
com todo amor cozido, com uma cruzinha de ouro,
e com sete nozinhos atado. (18-6-24)

 

 

11.       O MERCADO


 

Maria segue a pé para o mercado, e tira os sapatos
na estradinha de terra, e vai sentindo as pedrinhas, a areia
e o pó do caminho, que penetra entre seus dedos,
e arregaça as mangas, e descobre os ombros, e vai sentindo
o vento no rosto, o sol na pele, o calafrio que dá,
uma sensação no ventre, sem descrição,
uma coisinha de nada – mas, tão bom, tão bom! – para ela
tudo é Deus, essa sensação, Deus é uma sensação e uma experiência,
 
e a experiência de Deus é uma presença, como quando sente
bater o coração na prece, o ruído da respiração junto ao fogo,
a atenção no preparo da comida, e fatiar os legumes,
a dor que a faca corta na pele, as mãos na água fria da torneira,
a vista do bosque, a imensidão do céu, essa alegria,
essa felicidade inaudita que nunca sentira antes,
que desejara contar às Irmãs – olhem, venham e vejam! –
 
tudo esse grande Deus bondoso que vem de dentro dela
e lhe percorre a epiderme e os sentidos, que lhe afoga a mente,
que já não abriga nenhum pensamento, mas tão somente
a presença de Deus, essa experiência, essa experiência!,
hão de me achar louca, mas, meninas, eu vi!, eu, a pobre Maria,
essa pretinha que ninguém vê, que nem sabem que existe,
que é como se não existisse, de tão pequena, e só Teodora,
 
Teodora me acha grande, e divide comigo segredos
que sei que não reparte com ninguém, e me mostra um Cristo
que nunca vi nas incontáveis horas de vigílias e rezas intermináveis,
quando aqueles rostos brancos se tornam mármore,
e tudo perde a cor e o brilho, e somente as palavras ecoam
pelas paredes do edifício, pelos corredores e salas,
na capela, que mais parece uma caverna, onde a luz das velas
cria sombras nas paredes, vultos orantes que se diria santos cobertos
de cilício, de espinhos, de todas as dores do mundo, a açoitar
os sentidos, a recolher os pedaços de infortúnios e construir
a escada que levará a todos para o outro mundo, deixando aqui
 
Jesus, completamente a sós, a se perguntar, “aonde foram todos?”,
“o banquete está servido!”, e saindo para chamar pelas esquinas
e os campos, os tortos, os coxos, os cegos, os loucos, os leprosos,
os excluídos, todos os que trazem na pele uma gratidão por existirem,
por estarem vivos, como a pequena dor dessas pedrinhas na sola dos pés,
e Maria deixa escorrer uma lágrima – mas é só alegria – e funga,
limpa o nariz, cobre os ombros, puxa as mangas até os punhos,
e veste castamente os sapatos, pois a cidade se divisa,
e alguém pode ser que a veja no caminho, a falar sozinha,
a se rir sozinha, a conversar – com quem?, ah!, com aquele estranho menino.

 

 

12.       MARIA E SEU CORPO


 

Maria é jovem, forte e bonita, e sente pulsar em seu corpo
coisas mal resolvidas, que no Orfanato lhe valeriam
um par de chineladas, mas que aqui, nesse Convento,
sozinha no seu quarto, acabam em noites mal dormidas,
 
e a sair ao relento, a olhar a lua e ver estrelas, e, pela manhã,
conversar com Teodora, muito tímida, e a Irmã
lhe falar das coisas da vida, sem reprimenda no olhar,
na voz, no tom, num gesto que seja,
 
e ela chegar a conclusão nenhuma, e saber que,
pela noite, virá visitá-la outra vez essa vontade de beijos, de apertos,
e que, sozinha, terá que lidar com eles, e conduzi-los até
onde possam dormir, bem ou malsatisfeitos,
 
que a vida é longa, Maria, e há um mistério por dia,
e Deus conhece o pó de que somos feitos, e pra tudo,
m – sim, pra tudo – ele acaba dando jeito. (21-6-24)
 

 


13.       TEODORA E MARIA


 

Deus, ó Deus, Deuzinho, se esse mundo é um desterro,
como dizem os santos e os sábios,
por que o fizeste tão belo, tão lindo, que qualquer canto
encerra tanta graça, que é como se estivéssemos
no próprio Paraíso, e nossos olhos se recusam a imaginar
que possa haver beleza mais sublime
 
do que a do canto dos pássaros, que como anjos trinam,
do que a de nossas matas, cheias de plantas e bichos,
do que da própria natureza, com todos os seus caprichos, ó Sinhozinho,
do que a das mulheres e homens, com que enchestes a vida,
 
para que, crescendo, se multiplicassem, e se fazendo muitos, pudessem
amar-se mutuamente, ainda que esse amor mundano
possa ser não mais que um erro, um desvio, um engano,
ainda que nos amemos sem que saibamos
 
que o verdadeiro amor só de Ti vem, e que é só esse amor
que é inteiro feito para o nosso bem, por que, então, Senhor,
nô-lo destes assim, torto, tosco, sem direção, sem zênite,
 
por que, Senhor, fizestes Maria com essa beleza celeste,
que nada iguala na terra, quando dança nesse terreiro
(que ela não sabe, mas eu a vejo),
de pés descalços, voando como uma mariposa, uma borboleta,
que pousa aos pés dos rapazes, que lhe buscam o mel de um sorriso,
e se desencantam, quando ela lhes responde que seu único amor é Cristo,
 
e segue rodopiando, tão plena, tão perfeita,
que o próprio Espírito já não a deixa, e baila com ela,
e não a larga um só instante, com ciúmes,
de que essa beleza tanta, e tão terrestre, arraste outros anjos a uma nova queda,
e que ela, minha pequena Maria, se torne causa de juízo,
 
na sua inocência de criança, na sua alegria, que a acompanhará vida afora,
ainda que algum dia ela deixe essa dança, e se dedique sozinha
apenas à pajelança a que nos destinastes, a nós,
tuas servas mais humildes, a fazer nosso ritual sagrado
do feminino, naquela humilde cozinha. (26-6-24)

 

 

14.       ESSA MARIA QUE NÃO PÁRA


 

Senhor, e essa Maria que não pára,
que quer saber de tudo, que não tem medo de nada,
que a só beleza é seu escudo, e esse amor desmedido
por tudo o que é humano, que só ela vê,
 
como se fosse de outro mundo, um humano
em que nada lhe é estranho, que de nada ela se exime,
que a tudo ela carrega, como se fossem dela
todos os pecados do mundo, para que ela seja completa,
 
para que conheça de perto a dor e a alegria de cada outro,
das pedras suadas do porto, das calçadas das mariposas da noite,
dos mal afamados becos da bandidagem, dos ricos salões
e das casas mal-assombradas, com sua inocente curiosidade, Senhor,
que nada detém, e com cada pessoa
ela conversa, e se interessa, e beija, e abraça e consola,
e carinha os chagosos, e dá a mão aos leprosos, e está tão à vontade,
 
como se toda a vida vivesse ali, entre os barcos, ou na pocilga, na alcova, na biqueira,
com as prostitutas e os malacos, com malandros e trabalhadores,
com os cegos, os loucos, os paralíticos e outros piores,
e ela volta ao Convento, cada dia, intocada,
 
e cheia de vida, e se põe diante de Cristo, de ti, meu Deus,
a contar as novidades, que fulana é isso, que alguém fez aquilo,
que tal coisa e tal outra, ó Senhor!, e eu fico tonta,
e ela vem a mim com aquele sorriso, e me beija a mão,
 
e me enlaça o pescoço, e me diz, "Irmã, mãezinha, como é belo o mundo,
como é bom o Espírito, que, se lindo é esse pedacinho que nos cabe,
quanto mais lindo há de ser o todo!". (26-6-24)

 

 

15.   MARIA SOME


 

Senhor, Maria sumiu do Convento, numa noite de Domingo,
quando fez dezoito anos, e foi-se, sem endereço nem destino,
na boleia de algum caminhoneiro, deixando atrás de si
as marcas do rodeiro no pó da estrada,
e o cheiro de diesel, que sumiu-se na madrugada.
 
Ficou um bilhete, dizendo estar bem,
e que levava o Senhor consigo,
e que daria notícias, e mais não disse,
e oito meses se passaram, sem que dela eu visse
o menor sinal, sem que ninguém soubesse
onde andaria, como estivesse, se morta ou viva,
minha Maria, minha irmãzinha, Maria.
 
Depois chegou uma carta, do outro lado do mundo,
de algum lugar de beira de estrada, onde se arrumara,
ainda que totalmente sem rumo, em que novamente dizia,
"Irmã, Teodora, Mãezinha, estou bem. Trago Jesus comigo".
E daí continuava, como quem fala com seus intestinos:
"Mas meu corpo pedia mais do que um simples ombro amigo,
e tenho apagado o fogo que me consome,
ao léu e ao favor dos homens a quem abrigo”.
 
“Em março perdi a inocência, e em abril se foi minha meninice,
e agora, em outubro, já não penso se sou eu,
se outra sou, se sou quem sou, ou se aquilo que os homens me dizem".
"Estou cansada, e trago comigo, além do meu corpo, quase nada,
um coração partido, uma foto, os pensamentos difusos,
uma mala de roupas sujas,
um boné e as cicatrizes de uma ou outra facada.
Toda a vida, toda a natureza, que me encantava
com sua festa permanente de sons, de cores e beleza,
perdeu seu encantamento, e, na beira dessa estrada,
tudo o que contemplo é um grande vazio poeirento".
 
"Sinto que a sede que me matava aplacou-se,
só de lembrar-me da água que eu bebia, e nesse mar,
em que estou agora, não faço outra coisa
do que esperar que passe o navio, que me leve daqui,
que me devolva pra mim, que me permita correr
novamente aos teus braços, Irmã, Mãezinha,
e aos braços do nosso Cristo pretinho
(como está ele?, diga-lhe o quanto eu sinto)".
 
"Ainda tenho o dinheiro que vale a minha beleza,
e é com ele que pago a passagem, que espero, me leve
a sentar-me contigo, Mãezinha, outra vez à mesa,
te peço, só me receba, porque o Cristo que vi, nos meses em que estive aqui,
foi o mais crucificado, o mais cuspido e maltratado,
e vi que, ainda assim, nem por um segundo, ele deixava de amar
a todos, mesmo que esquecido, escarnecido,
pregado numa cruz torta, ele que mora no céu,
ali na parede dos fundos, pintada de vermelho e roxo,
na sala desse bordel, onde as moças encontram os homens
que as levarão mais pra baixo, até onde a fumaça dos cigarros se faz de dossel".
 
"E a cada vez que o olhei, seus olhos me perdoaram,
e sei que o ouvi dizer, 'Maria, estou com saudades,
volta aqui pro meu lado',
e isso matou minha sede, com a água que eu te precisava,
não fico mais aqui, nem que seja um minuto,
e agora estou a caminho, e só te peço, Mãezinha, outra vez,
com toda minha alma, com meu amor sem medida,
me receba em tua cozinha, tão simples, plena, suja e bendita,
a tua pequena Maria, torta, rasgada mas decidida, a tua ovelha perdida". (27-6-24)

 

 

16.   A SAGA DE MARIA


 

Senhor, Sinhô, Sinhozinho, Nonô, Jesus Cristinho,
Maria voltou ao Convento, de madrugada, e entrou pelo portão que eu lhe abrira,
e atirou-se à cama que há tanto tempo não a via,
e dormiu com os anjos, como se fosse nascer de novo,
como se o dia não precisasse chegar,
como se tudo estivesse resolvido.
 
E pela manhã arrumou, no altarzinho da Virgem, as lembranças das meninas,
um anel, um bracelete, uma gargantilha, um batom, um espelhinho,
uma sapatilha, um rímel, outro anel e outro ainda,
um sachê de erva-de-cheiro e uma pedra falsa de safira,
e atrás escreveu seus nomes, Rosa, Rosalva e Rosália, Margô,
Alda, Margarita, Moema, Jurema, Iracema, Elizabete e Valquíria,
e em volta dispôs um tercinho comprado por todas,
na loja da rodoviária, entre a escola e a igreja da praça.
 
E mais não disse, nem lhe foi perguntado, e conversávamos em silêncio
sobre tudo o que eu já sabia e que ela não contara,
e, de vez em quando, ela soltava um suspiro, murmurava um nome,
mas voltava logo à sua pia, ao fogão, às panelas
e ao feijão que fervia e já não esperava.
 
Está agora bonita, um pouco cansada, mas suas mãos são mais fortes
das lutas que lutara, e há nela uma aura que não sei dizer,
que é de outra Maria, diferente da que se fôra, diferente da que chegara.
 
A Madre Superiora ficou curiosa, o Convento em polvorosa,
e cada Irmã queria saber como foi, como veio, como era, como fazia, se cansava, se doía,
e a Madre a chamou na sua sala, mas ia mandá-la embora,
nem lhe sacudiu o Estatuto, a Norma e o Regimento,
mas viu todo o amor que havia naqueles grandes olhos negros,
como duas frigideiras, e lembrou-se dos bolinhos na manteiga que fazia,
e achou que não era para tanto, e que eles ficavam bem em pagamento. (28-6-24)

 


 

16.1. CICATRIZES


 


Maria pensa que esconde, pensa que não vejo,
que puxa a manga da camisa, para encobrir o desenho que fez,
no tempo em que, posta ao fogo, como o ferro,
tornou-se ela mesma fogo, e não apenas a epiderme,
essa tatuagem que lhe trespassa a alma, que vai até o ermo
do seu coração, da sua pessoa, do seu próprio ser,
 
esse ser novo, que a dirige em meio à floresta de erros
que Deus pôs no seu caminho, pois os erros são esse caminho,
e superá-los é a parte nossa, para que possamos,
nós próprios, nos conhecermos.
 
Um dia ela distraiu-se, e contou-me, como se falasse de uma amiga,
das que conhecera em seu degredo, de alguém,
que a acolhera e protegia, e a quem ela estava sempre devendo,
e que era doce com ela, e a ensinava e dirigia, e não deixava
que a massa bruta dos que a procuravam, a molestassem além da medida,
 
e que foi sua intervenção que a salvara, quando o aço da faca amolada
brilhou junto ao seu peito, enterrando-se em sua carne,
como um dos pregos da cruz,
e esse alguém, que a amava, colocou-se no meio, e recebeu o corte profundo,
e teria dado sua vida por ela, e deixaria para sempre esse mundo.
 
Maria fez o desenho, com um coração ao meio,
rasgado pelo punhal, e nele traçou as letras de quem a guardara,
que chegaria ao custo da própria existência,
e celebrou esse amor, se humano ou divino, como sabê-lo?,
com o nome que, vez por outra, pronunciava em segredo: Jesus. (28-6-24)

 

 

16.2. FACE A FACE




 
Quando Maria esteve face a face com Deus,
e teve que olhá-lo nos olhos, nos olhos de cada homem a que se entregou,
e ver seus olhos bondosos nos olhos raivosos de seus raptores,
quando Maria entendeu que um era o seu rosto,
e que a face do outro escondia um Deus, em cuja presença
ela estava, sem que essa presença fosse o outro,
mas o protótipo que nele habitava,
 
quando Maria entendeu que a casa do Pai tem muitas moradas,
e que a sua estava preparada por Aquele que, com ela,
sempre haveria de estar,
quando viu em sua própria carne um céu novo e uma terra nova,
nunca antes habitada,
 
cessou de perturbar-se seu coração,
e olhando Deus nos olhos, compôs-se a sua pessoa,
sem disfarces, sem mentiras,
e sentiu que a própria cruz, marcada a ferro em seu corpo,
era sua, e que o Cristo, que tinha no coração, a preenchia toda,
e que essa presença era tudo, em toda parte e todos,
e ela se pôs de pé, e estar de pé, ali, no meio do nada, do desamor e da destruição,
era em si mesmo uma forma de amor, de estar ali com Deus,
e que, fosse como fosse, era a sua forma de oração. (28-6-24)
 
“O amor perfeito não retalha a natureza única e mesma dos homens
por terem eles caracteres diferentes, mas, visando sempre essa natureza,
ama a todos os homens igualmente. Ele ama os virtuosos como amigos,
e os depravados como inimigos, fazendo-lhes o bem, 
suportando-os com paciência, suportando o que vem deles, 
jamais levando em consideração a malícia,
chegando mesmo a sofrer por eles se se apresentar a ocasião.
Assim ele os tornará amigos, se isto for possível.
 
Senão, ele não abandonará sua determinação:
ele mostrará sempre seus frutos a todos os homens igualmente.
Nosso Senhor e Deus Jesus Cristo, mostrando o amor que nos dedica,
sofreu pela humanidade inteira e deu a esperança da ressurreição
a todos igualmente, mesmo que cada um, por suas obras,
atraia sobre si a glória ou o castigo[1]”.



[1] São Máximo o Confessor, Primeira Centúria sobre o Amor, 71, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 1, Volume 3.



16.3.     APRENDIZADOS



 

Senhor, sei que o rosto que nos olha é nosso próprio rosto,
se o olharmos de frente, se nos olhar de frente esse rosto,
se entre esse rosto e o nosso se estabelecer a verdade,
sem torções de pescoço, sem que girem os olhos,
sem que se distanciem um do outro por vias de manobras tortas,
sem que entre os dois se criem máscaras, modos, bonecos, fantoches,
e todo tipo de marionete, que nos toma à frente,
quando à nossa frente se coloca o outro, esse que tememos ver,
porque nos obriga a nos vermos, tal como nele nos espelhamos,
e nem sempre, nesse espelho, mostramos a verdade do que somos.
 
Sei que, quando o olhamos, a esse outro, é a Ti que olhamos,
se o fizermos de frente, com vontade de ver a verdade,
essa verdade que é simples como a linha reta,
que nos une face a face, testa contra testa,
e és Tu que nos olha, pois não há outro eu que não a Ti próprio,
e Te olhas a Ti mesmo, e só nos pedes a consciência
que tenhamos do que está acontecendo.
 
Maria e eu, que assim hoje nos olhamos, minha filha pródiga,
que escapou da morte para encarar uma nova existência,
que é tão dela,
que não há sinuosidades naquilo que faz ou pensa,
a não ser as voltas que o mundo dá ao redor de sua beleza intensa,
que torna curvas as retas, e as faz serem imensas,
sem deixar de serem retas, sem deixar de serem tensas.
 
Na verdade que há entre nós duas, Senhor, Tu Te imiscuís,
e nos faz ver o que só o Amor constrói, esse Amor enorme,
com que Tu nos preenches, para que nos vejamos, uma na outra,
tal como somos realmente, tal como Tu próprio, em nós,
és único, pessoal, verdadeiro e transparente.
 
Tantas vezes já sentimos isso, e com tal intensidade,
que não sei se alguma Irmã desse Convento,
que esse Amor não ensina, já o sentiu em sua carne,
mesmo Paulina e Andrelina, que, no entanto, como poucas,
já sentiram o amor mundano, que é, realmente, o começo do Caminho,
até que transcendam suas marés, seus redemoinhos,
 
até que venham a sentir esse Amor outro, divino, esse Amor primitivo,
que só sentirão as almas, que se desapeguem de si,
e que sejam capazes de amar com o Amor único,
esse Amor unívoco, Senhor, que nos torna uma,
como se fôssemos – como, de fato, somos – loucas. (29-6-24)

 

 

17.       O AMOR


 


Nonô, esse amor profundo que eu sinto por Maria,
não um amor profano, mas um amor de cruz,
que ora nos une para a vida inteira, porque o mesmo cravo que a perfura,
a mim perfurou primeiro, e cada vez que mais se afunda
na nossa carne, dói também cada vez menos,
e nos aperta o peito, uma contra a outra, e nos abre os olhos,
 
para que vejamos, ela e eu, que eu sou ela, e vice-versa,
e já não distinguimos onde uma termina e a outra começa,
esse amor, meu Deus, tu o dispusestes, para que entendamos
que no teu seio nenhuma distinção acontece, nem cabe separação,
como o fogo que preenche toda a carne na panela,
sem que ela se torne fogo, mas que, com sua natureza quente,
se transforma em alimento, se transforma em oferenda, se transforma em prece,
 
esse amor, Cristo querido, meu pretinho, sinto eu,
quando te olho os olhos marejados com que nos olhas,
desde tuas alturas celestes, aí pregado, como se sempre estivestes
a nos amar, imaterialmente como só tu sabes,
mesmo que não soubéssemos do que se tratava,
e apenas sentíssemos esse calor, esse fogo que ilumina e que só cresce
em nós, a fim de que, com ti, sejamos uma, Maria, eu, imaterialmente,
e toda a tua criação terrestre. (29-6-24)
 

 

18.       MARIA PENSA


 

Lentamente, muito lentamente, Maria sobe a montanha do conhecimento,
como o caracol, que há de levar toda uma vida[1], mas – pra que pressa? –
o conhecimento começa com o primeiro passo, e só existe um meio
de começar, que é saber que não há um caminho,
e que se faz o caminho ao andar, e que não há dificuldades no caminho,
porque são elas, precisamente, que fazem a via por onde se vai passar.
 
Tudo isso acontece, passo a passo, e há mais para esquecer do que a se ensinar,
e – grazie Dio! – ela sabe tão pouco, que muito pouco existe para deslembrar,
e sua juventude, carregada de sensorialidade, se volta facilmente para a arte
de buscar a Deus onde ninguém mais há, sob sua pele, nas veias que a percorrem,
no sangue, nos impulsos elétricos que correm nos nervos, nas ligações
que fazem ligar o coração e o cérebro, que não estão nos livros,
mas existem, tão existentes como nós, e que levam a vida até os recônditos
onde tudo começa – naquilo que o humano tem de mais seu, que vem de Deus,
de antes de que existisse o mundo, quando só o Pai e o Filho percorriam o nada,
e preparavam uma história que, na esteira do tempo e do espaço, ainda viria.
 
As sombras do criado são aquilo que vemos hoje, o mundo em que vivemos,
feito dos restos que caíram da mesa dos céus, quando a refeição foi servida,
e os anjos iam e vinham com as bandejas, cheias das energias,
que na terra se tornariam a realidade, em que está tudo imerso,
vivificado pelo Espírito, que liga todas as coisas, como num livro
em que cada página contém um texto, que começa antes bem dela
e segue, só com a diferença, de que o livro acaba, mas a criação não tem fim.
 
E Maria sobe a montanha, devagar, muito devagar, sorvendo cada gole,
com o prazer indescritível de quem entra em jardim novo, e vai descobrindo
cada canteiro, cada flor, cada planta, árvore, passarinho, cada coisa, enfim,
e tudo novo, e diferente, de todo outro jardim, ainda que parecidos
– porque jardins somos todos – mas absolutamente pessoais, porque Deus,
que aí habita, é, além de Amor, a Pessoa que nos cria, um Deus pessoal,
um Deus nosso, interior, que faz cócegas no nosso intestino, quando amamos
de verdade, quando somos mais humanos, quando esse Deus que nos habita
aflora de modo inesperado, nos transforma e nos credencia e habilita. (21-6-24)


[1] “O caracol sobe o Monte Fuji devagar, muito devagar” (Bashô – Hai Kai)



19.       DEUS CHAMA


 

“Deus, passando por cima das faltas cometidas
cada qual, nos chama ainda e sempre.
E para que nos chama ele? Para trabalhar na vinha:
vale dizer, para que nos ocupemos dos ramos,
ou seja, de nós mesmos, e a seguir
 
– incomparável grandeza do amor pelo homem! –
ele nos promete um salário e nos paga,
a nós que penamos por nossa própria causa,
e Ele diz: ‘Venham, recebam a vida eterna
que eu concedo em abundância. Eu pagarei um salário
 
– pois sou eu que lhes devo – pelas penas de sua viagem
e por sua vontade de receber de mim essa vida’,
pois quem não deve o preço de seu resgate
Àquele que o libertou da morte?, quem não dá graças
Àquele que lhe deu a vida? Mas é ele que nos promete
adiantar um salário, e um salário indizível.
 
‘Eu vim’, disse ele, ‘para que eles tenham vida,
e que a tenham em abundância’,
e no que consiste esta abundância?
Não apenas ser e viver com ele,
mas nos tornarmos para ele irmãos e coerdeiros,
 
pois essa abundância, ao que parece, é o salário
dado aos que correm para a vinha vivificante,
que se tornam ramos desta vinha,
que penam por si próprios e cultivam a si mesmos.
Mas o que fazem eles? Em primeiro lugar,
 
eles retiram tudo o que está demais
e que não contribui para o desenvolvimento,
e também tudo o que impede a vinha
de dar frutos dignos da divina colheita.
 
E o que é este demais? A riqueza, as delícias do mundo,
a vanglória, tudo o que flui e passa, toda paixão infame
e má da alma e do corpo, todas as inutilidades
trazidas pela distração dos pensamentos,
tudo o que, naquilo que escutamos, vemos e dizemos,
pode introduzir o mal em nossas almas,
pois se não fizermos o enorme esforço
de arrancar tudo isto e podar a árvore do coração,
não poderemos dar frutos na vida eterna[1]”.



[1] São Gregório Palamas, Sobre as Paixões e as Virtudes, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume 3.



20.       TUDO ESTÁ EM ORDEM


 

Maria estava entretida em cortar legumes para a sopa,
murmurando o nome de Jesus muito baixinho,
de modo que só ela escutasse, como se fosse
uma conversa entre ela e ele,
em que ela falava bem baixo, e ele respondia em silêncio,
e naquele ritual manso e pacífico o mundo fazia sentido,
um sentido sem raciocínio, como se um Verbo mudo traduzisse
coisas ocultas, que as palavras, ainda que muitas e cheias de sabedoria,
por mais que se esforçassem, não diriam.
 
Teodora fôra à cidade, e tardava, e Maria fazia o jantar,
preocupada que a luz do dia se fosse, e a noite
pegasse a irmã na estrada, com nada além da lua para iluminá-la,
e sussurrava "Jesus", mais baixo ainda, na intenção da amiga,
e, vez por outra, olhava o Cristo lá em cima,
que parecia fazer assim com a cabeça, como dissesse
"tudo bem, tudo correndo, como manda a sã medicina",
e Maria pensava na cura que cura tudo, a fé, o amor, a esperança,
 
e também suas mãos pequeninas, quase mãos de criança,
mãos de enfermeira, de cura,
e a faca que corta os legumes, e o tempero, o cuidado,
e a panela no fogo, subir a fervura, ajuntar mais um pouco de alho,
salgar?, mais?, menos?, provar a sopa quente, com cuidado,
e adivinhar o vulto de Teodora na luz da porta, com suas sacolas,
trazendo o cominho que faltava, e um pouco de açafrão,
e alecrim com azeite para as torradas, e banha de porco novinha,
para fritar o que precisasse, em especial os ovos, que eram muito apreciados,
e que as Irmãs devoravam, sem que constituísse pecado,
porque tudo, desde sempre, não se sabe como, é medicina.
 
Deus estava em tudo, ou tudo em Deus,
e não era em cada coisa, mas cada coisa era em tudo,
na medida em que o tudo é mais do que as coisas somadas,
e que Deus, além de se manifestar em cada coisa,
é ainda infinitamente maior que o tudo,
e por isso cada movimento, cada olhar, provar o sal,
juntar tomilho, engrossar,
baixar o fogo, botar pimenta, servir, se desdobrar,
 
cada ato traz consigo um amor infinito, que dá a liga,
e é esse amor que é Deus no mundo, que é só amor,
amor em si, que não necessita de outro,
amar o outro, que é si mesmo,
amar por amar, por não haver nada melhor,
amar o Amor, por não haver nada maior. (21-6-24)

 

 

21.       PRECE



 

Senhor, sei que não habitas nos templos construídos por mãos humanas,
isso disse o Apóstolo, e eu acredito, mas, oh Deus!,
sei também, para além de qualquer dúvida,
que habitas aqui, nessa cozinha, que as paredes sujas
estão banhadas de ti, do óleo que destilas nesse fogo,
 
que ferve nas panelas, que se espalha por toda a atmosfera,
que nos pontilha a pele em queimaduras, que leva nosso amor
 
à mesa onde se sentam as tuas criaturas
e nossas Irmãs, que servimos com todo esmero, todo zelo,
toda doçura de que somos capazes, e sei que habitas aqui,
ou nada do que há aqui se sustentava, sem tua mão,
que guia a minha, que guia a de Maria, que salga a comida,
que amassa o pão, que tira água da bilha, essa que não se acaba,
pois estás sempre a completá-la, aos meus cuidados,
aos cuidados de Maria, Deus, que nos destes esse destino estranho,
 
de aqui vivermos, de te olharmos todo dia, enquanto tantas te procuram
pelas igrejas, capelas, mosteiros e abadias,
e aqui estás com teus segredos, que nos iluminas por sabê-los
assim, tão simples, tão singelos, tão sem trejeitos,
que uma simples colher de pau os pode pescar
em meio à gordura que engrossa o caldo,
e qualquer brisa da janela pinta o teto
com pinceladas de tempero, de fermento,
 
e cada vez que te olho, aí onde estás, pendurado,
onde estivestes sempre, sinto, no coração e no ventre,
a tua presença, única, certa e permanente,
porque estás em tudo o que minha pele sente,
e sentem minhas entranhas, ainda que te ausentes
– mas nem nisso eu creio, porque sei das tuas manhas –
nas construções humanas, mesmo que inúteis e custosas,
e nos templos erguidos pelo suor das gentes. (29-6-24)
 

 


22.       CONFISSÃO



 

“Mas escutai-me agora, que contarei a grandeza
do amor de Deus pelos homens!, pois contra ele eu pequei
como ninguém, como pessoa alguma nesse mundo.
E, no entanto, bem sei, ele me chamou e depressa eu respondi.
Quero dizer que ele me chamou. mas, antes, à penitência,
e rapidamente eu segui o Mestre que me chamava.
 
Quando corria, corria eu em seu encalço, quando fugia,
perseguia-o eu ainda, como um cão persegue a lebre.
E quando o Salvador se afastou pra longe e de mim se escondeu,
não, eu não desesperei, nem desanimei do caminho,
pensando tê-lo perdido; mas ali mesmo, onde eu estava,
sentei-me gemendo e em pranto chamei, por meu turno,
o Mestre oculto aos meus olhos.
 
A mim, que assim rolava no pó, e que gritava, ele se deixou enxergar
depois de se aproximar bem perto, e ao vê-lo tonteei sobre meus pés
e lancei-me para agarrá-lo, mas depressa ele escapou,
e me pus a correr com todo vigor, e em minha pressa às vezes
alcancei a franja de suas vestes, e um pouco ele se detinha,
e eu sentia uma grande alegria, e de novo ele fugia, e de novo
eu o perseguia; e assim ele partia, ele vinha,
e se ocultava e aparecia, mas jamais eu desistia,
nem desencorajava, nem abandonava a corrida,
nem o via como um charlatão, ou como quem viesse só tentar-me,
mas com toda a força que eu tinha, com toda a potência que eu tinha,
quando não o via, mais buscava, e banhada em lágrimas
eu interrogava meio mundo.
 
Ele então veio ao meu encontro e se mostrou para mim.
De onde, como veio? Não o sei. Pois é impossível vê-lo,
e impossível concebê-lo; ele habita na luz inacessível, ele, a luz
em três pessoas, de modo inexprimível, nos espaços infinitos,
meu Deus infinito, Pai único, único Filho, unidos ao Espírito divino.
 
Um são os três, e três apenas um, único Deus, de maneira inexplicável.
A palavra é incapaz de exprimir o inexprimível.
Essas realidades, só as conhecem aqueles que as podem contemplar.
E tampouco será com palavras, mas com atos que devemos nos apressar na busca
de enxergar e aprender a riqueza dos mistérios divinos[1].”

 



[1] Simeão o Novo Teólogo, A Prece Mística, Hino 29.

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