16. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 3: AO TEMPO DE TEODORA - 3.4. A CAPELA ABANDONADA / 3.5. O ADEUS
3.4.
A CAPELA ABANDONADA
Onde Teodora se despede de nós, depois da chegada de Maria,
indo primeiro morar num quartinho fora das dependências do Convento, e depois
mudando-se para a Capela, que fôra parcialmente restaurada ao longo dos anos,
para, finalmente, dirigir-se ao mesmo destino desconhecido da Irmãs que a
precederam.
1. A CAPELA
Teodora passava pela capelinha abandonada,
entrava, fazia um crendeuspadre,
ficava um pouco em silêncio, depois seguia,
e se sentia leve, leve, feliz, cheia de amor e de alegria,
e, aos poucos, adquiriu o costume
de tirar o mato, limpar o pó, trocar as velas, ajeitar os santinhos,
e, quando viu, estava se equilibrando no alto,
trocando telhas quebradas, limpando as janelas,
tirando cupim dos batentes,
consertando o banco que restara, polindo a pedra do altar
e as madeiras do campanário, até que toda a capela,
se não parecia nova, estava ao menos bem renovada.
Então começou a se demorar ali, esquecendo da vida,
e chegava tarde ao Convento, sob o olhar de Maria,
que não perguntava nada, mas sabia,
e houve uma noite, em que, ao invés de dormir em seu quarto
no pátio de trás, depois das galinhas,
saiu furtiva no escuro, e, levando uma manta – só por garantia –
dirigiu-se à sua amada capela, e lá se abrigou,
e adormeceu até o raiar do dia.
Dali a virar costume, foi um pulo, e Maria entendeu
que Teodora, devagarinho, se ia. (21-6-24)
2. NINGUÉM
ORA NA CAPELA
onde florezinhas do campo vivem, sob o silêncio
dos santos que há tempos se calaram,
dos anjos que já não voam,
e no altar velas secas e apagadas lembram,
em sua memória de cera, os tempos gloriosos
de devoção, de êxtases e lágrimas, de batismos,
de casamentos e de velórios, de noivas e viúvas, onde agora
vivem as aranhas, os passarinhos, os morcegos,
e um que outro calango, um saruê de passagem,
e, nas noites frias, o vento abre as janelas quebradas
para que a lua, despida e envergonhada, espie.
Na capela abandonada, há quem diga, que Deus já não mora,
mas o velho crucifixo ainda guarda seu Cristo,
e é a ele que se dirige Teodora, quando, ao passar pelo caminho,
a cada volta do mercado, pausa a marcha, arriada das sacolas pesadas,
e deixa ali seus suspiros, suas preces, sua salmodia,
os olhos postos nos olhos semicerrados do pendurado, que ali aguarda,
como à espera de que alguém lhe eleve uma oração,
não importa quão curta, que lhe confesse um pecado,
ainda que bobo, inocente, pueril, ou que lhe diga as horas,
e quanto tempo ainda falta para a Ave Maria,
esse Cristo simples, que vela pelos bichinhos que o frequentam,
a animar sozinho os anjos entediados, os santos acabrunhados, repetindo
"lembrai-vos, eu venci o mundo", e a olhar para a porta em frente,
tão longe quanto dista o oriente do ocidente, e que se alegra
quando a figura de Teodora recorta a luz de fora,
e ele escuta os passos entre os bancos em frangalhos, no curto corredor da nave,
e as palavras, sempre as mesmas, Nonô, seu menino, meu pretinho,
Nonô quietinho, eu trouxe bolo, um suco, uma vela,
um presentinho, do meu coração, pra você,
Nonô querido, meu Jesus, meu Jesus Cristinho,
e nada mais há a ser dito, e ali se resume o Fiat Lux e o tempo,
os sete dias, o século, toda a humanidade,
e o Cristo recebe aquele alento, e a capela se ilumina,
os anjos sacodem as asas, os santos acordam de seu torpor,
e Teodora ora, no centro absoluto do universo criado,
no oitavo dia e no silêncio casto de seu puro amor. (10-6-24)
“A verdadeira contemplação é a contemplação do espírito,
que, em êxtase, concebe o que foi e o que será,
pois esse é o conhecimento do espírito,
cujo êxtase se opera pelo mistério da salvação de Deus,
e diante do qual se revelam a glória divina e a criação
de um mundo novo.
Então, o coração se parte de contrição e se renova,
como um recém-nascido, e o homem se nutre em Cristo,
do leite de seus mandamentos espirituais, que até então
desconhecia, e ele se despoja do mal, alcança os mistérios
do Espírito puro, as revelações do conhecimento,
as quais ele sobe por degraus, subindo e subindo
de contemplação em contemplação,
de concepção em concepção, e se instrui,
e se fortalece misteriosamente,
e se eleva pouco a pouco até o amor supremo,
para se unir à esperança, para se encher de alegria
e alcançar a Deus, coroado da glória natural
na qual ele foi criado[1]”.
[1]
Santo Isaac o Sirio, Sentenças, III.
3.5.
O ADEUS
1. O
QUARTINHO
uma cadeira, o cabide, a janela e a porta, e Teodora pensa
que é hora de Maria ter sua coisa própria, já é idade
de se despir da menininha e vestir-se da mulher que chega,
para toda a vida, e Teodora sabe como são complicados
os rituais dessa despedida,
como quando ela própria, Alzira, voltava da escola
e cortava caminho pelo carreiro de cana,
e chupava o talo doce, que cortava com uma faquinha,
e vinha assobiando, e a vida era doce, e ela era aquela criança, já grandinha
na roupa branca da escola, sob o céu azul e a cor verde da cana,
Teodora agora lembra, por tanto tempo esquecidas,
as mãos grandes que a tomaram, e a lançaram por terra, os tapas,
as bofetadas, aquela barba imunda a lhe roçar o rosto,
a força descomunal do homem contra sua resistência inútil,
a dor, a dor, a dor,
o grito sufocado, os olhos que buscavam socorro
de qualquer lado, mas não,
o canavial é imenso, "cala a boca, senão te mato",
a respiração pesada dele, o urro final, mais um tapa, um chute,
e ele se sumiu no mato, e ela atirada ali, rasgada, ferida,
um trapo branco de roupa sobre a pele negra, seu corpo
que já não lhe pertence, quem é ela?, Alzira,
Solange, Dagmar, Marina, Rute, Iolanda, Inezita?,
a correr pra casa, o sangue que escorre pelas pernas,
o choro, que é o que lhe resta, os cadernos esquecidos,
espalhados pelo chão, os lápis de cor perdidos, seu estojinho preferido,
e a tia furiosa, "o que você fez? Ah, se sua mãe estivesse viva!",
o chuveiro que não lavava a vergonha, a voz do homem que trovejava
no seu ouvido, e tudo se misturava com a pessoa que a socorrera,
apesar dos dias seguintes de terror frio,
depois da humilhação, do conselho de família, das malas,
da estação de trem, do banco duro do vagão de terceira classe,
até que desceram na última estação, e caminharam a pé
até o sítio que ficava depois da curva, a curva que não chegava nunca,
e então vieram pessoas que a acolheram, mulheres negras
de mãos quentes e seios macios, que a receberam
como filha, e lhe deram um novo nome, e ali
ela passou os melhores tempos que já vivera,
até o dia em que um novo trem passou na estação,
e ela foi levada ao Convento, do qual nada sabia,
e ela se lembrava apenas da Madre na plataforma, a esperar a menina,
o caminho até o Convento, tudo estranho, as Irmãs
que a vinham ver, curiosas, como se o sangue não tivesse saído
das roupas simples, ela levada pela mão até a cozinha,
o Cristo pendurado, que a recebeu com carinho
(o primeiro em tantos dias...),
como um abraço apertado, e a grande Irmã Cananéia,
negra irmã, de voz grave e doce,
"Me ajude com as cebolas, menina, não é bom
chorar pelo motivo errado",
e o quartinho, a cama nova, estranha, seu novo lugar no mundo,
e as lágrimas que já não cabiam, e as Irmãs que vieram correndo da sala,
e Teodora no chão deitada, e Maria, com sua cabeça no colo,
abraçada a ela e tentando consolá-la. (20-6-24)
2. A
VIDA NO QUARTINHO
atrás do pátio de trás do Convento,
no meio do có-có das galinhas, e para lá levou sua cama, suas coisinhas,
e um Cristo de gesso, de pé quebrado, branco como louça,
que a Madre lhe cedeu como um presente valioso,
embora estivesse jogado no fundo do sótão, aonde já ninguém ia,
e lá se ajeitou Teodora, e veio visitá-la Maria,
e as duas varreram o quarto, espantaram as baratas,
limparam as teias do teto e os buracos de rato,
e para Teodora aquilo era um palácio, e para Maria
seu quartinho junto à copa era o que mais queria,
e as duas, afinal, só viam com seus olhos
o que ninguém mais via, e viviam a vida do avesso
de como a vida se vivia,
e as Irmãs as achavam loucas, mas ninguém dizia nada,
porque o fato é que o serviço estava sempre feito,
e o café sempre servido, e esse Deus a quem as duas oravam
não era o mesmo a quem faziam seus pedidos, nem sempre realizados,
enquanto elas estavam sempre contentes com nada,
e com nada acordavam pelas manhãs, cantando e saudando a vida,
com sol, com frio, neblina ou chuva, e não se importavam
se as mãos estavam sujas, nem se haverá comida
para elas, que qualquer resto virava iguaria,
porque se sentavam à mesa com esse Cristo,
e tinham consigo esse anjo da guarda pretinho,
que ninguém mais via, e iam com ele ao mercado,
ao porto, à farmácia, à mercearia,
e não havia caminho que as cansasse, nem sacola pesada,
nem fardo qualquer que fosse, que elas não levassem
com uma alegria estranha, que ninguém mais entendia,
Teodora, Maria e Cristo, Cristo, Teodora e Maria. (20-6-24)
3. SORAYA
e agora servia de abrigo a Teodora, na parede do quarto humilde,
havia, pregada, uma velha imagem de capa de revista,
em que aparecia, esplendorosa, a famosa atriz e bailarina
da boate Escandalosa, nalgum subúrbio do Rio, Soraya, morena fogosa,
sonho de todos os rapazes e meninos, num maiô menor que mínimo,
a sorrir, provocativa, a quantos lhe deitassem os olhos,
e alguns outros apetites.
E Teodora simpatizava com ela, tão nova, tão bobinha,
um objeto dos homens, que só queria recitar suas poesias de infância,
enquanto eles rasgavam suas roupas, com avidez
antropofágica e assassina, e Teodora pensava,
"que Deus dê proteja, fia", e sempre chorava um pouco
na intenção daquela alma, que ela entendia pura e casta,
porque, por debaixo daquele glamour todo, cheio de rímel e purpurina,
brilhavam, travessos e inocentes, dois olhos de menina.
E Teodora, que arrumava a capela abandonada, para nela fazer seu ninho,
levava a foto consigo, e a colava no quarto da antiga Sacristia,
junto de Santo Antônio, Santo André, da Virgem e de João Batista,
"Aí você ficará, fia, e estará bem protegida", e, tocando com os dedos a imagem,
fazia o sinal da cruz, e voltava depressa ao Convento, bem a tempo
de preparar o almoço, varrer o chão, limpar os banheiros,
arrumar os quartos e desentupir a velha pia.
E ali ficou Soraya, a bomba sexy do antigo Rio,
do tempo de Getúlio, com seu sorriso de devassa,
entre os santos inocentes, que a olhavam com olhos doces,
e um calor benevolente, a ela, que fôra a grande transgressora
da moral e dos costumes, nua naquele maiô pequenino, envergonhada,
enrubescida, ela, pior que Salomé, a pedir clemência ao Batista, que lhe estendeu a mão,
e lhe tocou os cabelos, e disse, "Onde estão os que te condenam?",
pois disse o Mestre, "Nem eu te acuso", e te digo eu, agora,
"Vem, senta-te aqui, fica em paz, e nos ajuda,
a nós, que somos poucos, e temos que cuidar de Teodora". (22-6-24)
4. NOSSA
HUMANIDADE
que sejamos humanos, todos, e que só nos distingamos
pelo lado da calçada que andamos,
pelo jeito de descer do ônibus, de ajeitar o cabelo,
pela cor do paletó ou pelo cheiro,
mas não importa, e o segredo, é que entre eu e o outro
nada muda, e aos olhos de Deus, nem ele é mais, nem eu,
porque nos fez a todos com o mesmo carinho,
se vivo ou morto, se de barro ou vento, se corpo ou espírito,
Deus nos fez a todos, e não se importa se a alma é penada
se merece o Paraíso, todos terão lugar quando chegar
o momento preciso que está guardado, e que exatamente por isso,
é o que menos importa, porque lá estaremos, iguais e formosos,
de qualquer modo que seja, a esperar o Juízo.
Por isso vive Teodora com os olhos do outro lado,
do lado de antes, e procura Cristo
quando era apenas o Filho, e criava o mundo com o Pai,
e juntos, com o Espírito, já tinham tudo acertado,
desde o fim, a partir do início, e é a esse instante místico
que o Jesus de gesso e pé quebrado a conduz
e a faz sentar-se num banquinho e contemplar a criação como era ela
antes de ser criada, e estava ainda guardada
na sua mente, no coração, cada coisa, por grande ou menor,
da mesma forma amada, e Teodora estende o braço,
e traz Maria ao seu lado, e ficam as duas na porta
a ver a luz da alvorada, a mesma luz incriada
que Cristo trouxe a esse mundo, para que tudo o que existe
tivesse forma e beleza, e que a mente do homem
pudesse ser despertada, e a janela de seu coração
fosse, a cada dia que nasce, mais iluminada.
E toca para a cozinha, que o sol nasceu redondo,
e tem café pra ser feito, e pão a servir, e geleias e bolo,
e dar de comer às Irmãs, e milho para as galinhas, angu para o cachorrinho,
e lavagem para a criação, farelo pro periquito e as migalhas aos pombos. (21-6-24)
5. PREPARATIVOS
suas saídas furtivas à noite, os atrasos na volta da cidade,
as mãos com restos de tinta e cimento, o rosto cansado,
e a secreta alegria, de quem encontrou um achado,
a pérola oculta, a dracma perdida, a ovelha desgarrada
que buscou, incansável, toda a vida.
E Maria é a pessoa certa para substituí-la, tão jovem,
e lhe lembra a Irmã, quando chegou por ali,
envergonhada, surrada, sofrida, e o trabalho que deu à Irmã Cananéia,
negra de saudosa memória, que acolheu Teodora como uma filha,
e lhe ensinou coisas, que nem ela, a Superiora, saberia,
e a tornou quase santa, com mãos de fada, com essa energia
que por Deus não se cansava, e considerava cada tarefa uma Liturgia,
e via em cada Irmã uma razão de viver, e cada refeição
era para ela como a Ceia do Senhor, tanto capricho punha em tudo,
tanto carinho, tanto amor, tanta alegria.
Agora, cismada com a capelinha, fará dela morada,
e vai conversar com o Espírito, e os santos que a acompanham,
e a Virgem, que tem com ela alguma coisa, que ninguém compreende,
e que só ela vê – ela, Cananéia, e agora Maria.
Por isso se enternece a Madre, porque tudo, afinal, vem de cima,
e é evidente que Teodora nada faz por si,
mas por alguém mais alto, que sabemos quem é,
com quem só ela conversa, e que a ela ensina
uma vida outra, que ninguém entende nem vive,
a que não está nos livros, a que não se reza entre quatro paredes,
por mais brancas e imaculadas, por mais que guardem segredos,
por mais que abriguem, há tantos anos, tantas Irmãs,
tantos sonhos, tantas sinas. (22-6-24)
6. NA
CAPELA
Teodora escreveu, com sua letra um pouco torta,
mas com todo o capricho do mundo, uma simples palavra,
"Alegrai-vos", que dizia tudo que ela sempre quisera falar,
sem que tivesse o discurso certo, essas dez letrinhas,
tão singelas, o resumo da obra de Deus sobre a terra,
o mandamento oculto, que Jesus dizia, quando se reunia com os seus,
a falar das coisas dessa e da outra vida,
"Alegrai-vos", e toda a capelinha parecia ganhar mais brilho,
e o sol a iluminava por fora e por dentro, e descia
sobre a imagem da Virgem com o Menino,
que Teodora pintara junto ao altar, na parede que dava para o seu quartinho,
na antiga Sacristia, agora convertida no seu palácio de menina.
Ali passou a viver, sozinha, sem receios, e retornando sempre ao Convento,
todo dia, para ajudar na cozinha e ensinar Maria,
que crescia e aprendia mais depressa que ela própria, quando,
pelas mãos de Cananéia, estudava as coisas da vida.
O Cristo de gesso e pé quebrado ganhou seu lugar na capela,
no altar, com toda arte, e Teodora resolveu envernizar a cruz de madeira,
para dar maior destaque, mais arte, quem sabe mais brilho,
e um pingo de verniz escuro caiu na pele de louça do Crucificado,
e lhe deu ares de um marrom castanho, que Teodora tentou apagar, mas se espalhou,
e não houve remédio, senão escurecer todo o Cristo,
que ficou mais bonito, lembrando o Jesus negro da cozinha,
e Teodora se sentiu mais alegre e acolhida,
e guardou aquele Cristo moreno, no corpo, na alma e em todos os sentidos,
e amou-o – amou o Amor – preto, branco ou escurecido,
com todas as suas forças, todo seu ser, todo pensamento,
e o sentiu próximo, tão próximo como a si mesma,
tão próximo, que já não lhe importava mais nada,
e sentou-se no meio da nave, e ria e chorava, como enlouquecida
– "Alegrai-vos!", era o que ele dizia. (23-6-24)
7. O
PERDÃO
na capelinha, no meio de mato, Teodora persegue as goteiras,
colocando panos onde caem as maiores, para evitar respingos nos santos,
e volta a orar por uns momentos, e recomeça a correria,
enquanto, no Convento, Maria estende as roupas no seco, onde dá,
e Teodora acende a luzinha sobre a porta, e as velas do altar,
e volta à oração de Jesus, repetindo sem cessar,
quando, lá fora, passos pesados pisam a lama,
e uma respiração abafada se aproxima,
fazendo Teodora voltar-se para a porta, e enxergar
o vulto encharcado que se apoia no umbral, tendo,
na outra mão, um bastão que o malsina,
(e, bem longe, Maria acende o fogo, e coloca uma chaleira em cima),
"Já te esperava,", diz ela, e o homem, enorme, desaba por terra,
soluçando, molhando com suas lágrimas o chão ensopado,
arfando convulsivamente, enquanto tenha articular algumas palavras,
por entre a baba que lhe escorre pela boca, sem resultado
(enquanto Maria prepara o chá para as Irmãs, com artemísia, erva-doce e flor de lótus).
Suas roupas são pobres, miseráveis, os sapatos gastos, os cabelos
desgrenhados que escondem o rosto, a barba hirsuta,
as mãos sujas de terra, todo ele um destroço, um naufrágio,
cuspido pelo oceano da vida, vindo dar a essa praia,
(sob a chuva, Maria tira o lixo e o deixa no portão, junto à estrada),
onde o recebe a sacerdotisa, única capaz de aplacar a ira
que os deuses despejaram sobre si, esse homem em chagas
no corpo e na alma, sem esperança nem cura, reduzido a nada,
(e Maria, na sua cozinha, corre a fechar a porta,
porque um vento gelado se instala).
Teodora se levanta, se aproxima, e, numa voz de anjo, de sereia, de dríade,
de sílfide, oceânide, vestal, Virgem, lhe diz apenas,
"Vai, fio, já não tenho nada contigo",
e lhe dá as costas, e retorna ao banco, e se ajoelha no piso,
dizendo, pela última vez, "Está perdoado, volte a viver sua vida",
(enquanto Maria serve as Irmãs, e se senta na cozinha, aliviada)
e a aparição se ergue, lentamente, e gira sobre si,
e retorna à procela, que desaba sobre ele como mil mares de destino,
e, no mesmo passo lento e pesado, desaparece no caminho,
e Teodora segue orando, leve, dona de seu corpo, alma e espírito,
(e uma lágrima brota, inocente e sem motivo, e escorre pelo rosto de Maria). (23-6-24)
8. O
ADEUS
em que Maria, preocupada com que faltava ao serviço,
foi atrás dela, na capelinha dedicada à Virgem,
e a encontrou vazia, muito bem arrumada, ainda com as velas do altar acesas,
bem como a candila, e, no quartinho, a cama feita,
e o fogãozinho com as cinzas quentes, e um restinho
de café no bule, e o Cristo de pé quebrado, cor de imbuia,
a olhar a nave vazia, onde, tantas vezes, Teodora, de joelhos,
em silêncio, com ele conversava, e sobre o banco,
o crucifixo que ela mesma fizera, de pau de goiabeira,
com uma faquinha e um canivete, tão simplesinho,
e um bilhete, escrito apenas, com sua péssima caligrafia, "Maria".
A Madre Superiora então lembrou-se que também Cananéia se fôra um dia,
e que também ela deixara para Teodora um Cristo, também feito por ela,
e antes de Cananéia, a Irmã Ana, e antes dela Tecla,
e antes de Tecla, Joana, todas negras,
cada uma, sem aviso, sumiu-se pros lados da serra,
e nunca mais foram vistas, embora surgissem
relatos de viajantes, que teriam topado uma santa,
na beira dum poço, na entrada da gruta, numa clareira da mata,
numa curva do caminho, e todos concordavam
com que elas brilhavam, com uma luz que não se via,
e que em seguida sumiam num espesso nevoeiro
que cobria toda a mata, fosse noite, fosse dia,
e na serra ergueu-se um oratório, com uma cruz e um Cristo pretinho,
aonde iam os suplicantes ajoelhar, e deixar uma oferenda de pão molhado no vinho.
E Maria chorou muito, e enxugou o rosto no avental,
e olhou o Cristo negro da cozinha, que lhe falava
de um Reino, antes que o mundo existisse,
e de uma travessia, subindo contra as águas de um rio,
e de uma montanha ao contrário, e de um vale profundo,
além do qual começava o caminho, e Maria sorriu pra si mesma,
e se recompôs e esmerou no capricho da janta,
e depois se deitou no quartinho, e sonhou com Teodora,
sua capela, suas conversas com os mortos e os vivos,
e sua divisa, "Alegrai-vos", e seu modo
de chamar Nonô a Cristo, e, tomando seu crucifixo,
que Teodora deixara, notou que seu rosto brilhava, um pouquinho,
e que, mesmo na escuridão profunda da noite,
ele ainda podia ser visto. (23-6-24)
9. TEODORA
E A LUZ
aos anjos e aos homens, beleza original e imutável, glória de Deus,
glória de Cristo, glória do Espírito, raio da Divindade
e outros nomes semelhantes, conforme está dito, com efeito,
que ‘a carne foi glorificada pela encarnação de Cristo,
e que a glória da Divindade se tornou a glória do corpo’,
mas no corpo manifestado a glória não aparece
para aqueles que não trazem em si aquilo
que mesmo para os anjos é invisível.
Cristo se transfigurou, não por assumir o que ele não era,
nem por se transformar no que não era,
mas manifestando aos discípulos aquilo que ele é,
abrindo os seus olhos e tornando videntes a eles que eram cegos.
Ao mesmo tempo em que permanecia no mesmo estado
no qual antes lhes aparecera, ele então se manifestou
e se revelou aos discípulos. Pois ele é em si a verdadeira luz,
a beleza da glória. Ele brilhou como o sol...
A imagem não é justa, mas é impossível representar
corretamente o incriado na criação[1]”.
[1]
São Gregório Palamas, Tomo Hagiorítico.
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