14. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 3: AO TEMPO DE TEODORA - 3.3. TEODORA E AS IRMÃS (PARTE 1)

 

3.3. TEODORA E AS IRMÃS

 


Onde seremos apresentados a algumas das Irmãs que vivem no Convento ao tempo de Teodora, cada qual com sua personalidade, seu jeito, suas manias, e a breve história de cada uma, e de como encontraram a razão de viver sendo cada qual aquilo que é.


 

REGRAS


 

“Graças a Deus os homens inventaram as regras,
do contrário, como seria possível manter em ordem
essas meninas tontas, diante de um mistério
inefável e incompreensível,
como é Deus, em seu trono assentado,
como é Cristo encarnado, como é o Espírito,
de todos o mistério mais escondido,
como introduzir suas mentes pueris
na metafísica pura de uma vida de revelação,
de superação desse mundo, de abandono e esvaziamento,
da própria demolição, pedra por pedra, da regra mesma
que as trouxe até aqui, de suas distantes raízes,
de seu pensamento, tão mundano, tão ligado à terra,
tão incapaz de se erguer às alturas místicas da paz,
e deixar para trás o que, pensam elas, se parece tanto a uma guerra?".
 
"Graças a Deus existem as regras...", pensava a Madre Superiora,
"mas o mais difícil é fazê-las desapegar dessa norma fácil,
da autocomplacência que é sentir-se na obediência
de seja lá o que for, apenas por seguir um roteiro
com passos marcadinhos, como uma dança num picadeiro,
e se verem de antemão sendo recebidas no céu,
por se terem comportado à mesa, seguido as horas de orações,
e dormirem o sono justo, tendo resistido às tentações de íncubos e súcubos
em seus assaltos avassaladores e noturnos."
 
"O mais difícil é guiá-las pelos caminhos da consciência,
que levam à nova pessoa, de que falou Paulo,
que está além da letra, da lei e das palavras,
com exceção da própria Palavra, o Verbo,
que nos fala, não à mente, mas diretamente ao coração,
e fazê-las abdicar de seus tesouros, e trocá-los todos
pela pérola escondida,
pela dracma perdida, pela ovelha tresmalhada,
difícil mesmo é tocá-las lá, tão fundo que não há como chegar,
e que entendam que não há dificuldades no caminho,
mas que são elas o próprio Caminho,
que as conduzirá às praias desertas e paradisíacas, muito além
dessa existência passada no olho do furacão."
 
"O mais difícil é fazê-las nascer de si mesmas,
e que se deem conta de que o azeite que trazem, tão ciosamente,
compra-se também em qualquer mercado, e que o verdadeiro,
aquele que não se apaga, que espera a chegada do Noivo,
esse azeite é por elas mesmas secretado, na medida
em que entregam a Cristo, Deus-homem, o coração,
para que vejam a sua luz, luz de luz,
Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado,
Consubstancial ao Pai, e que cada qual
carrega consigo, desde que vieram a essa passagem,
e a esse Convento, que não fundou pessoa alguma, mas o Espírito,
pelo desígnio do Pai e a mão do Filho, que aqui depositou um estigma,
para que de seu sangue nos alimentemos, e do pão que comemos,
sua carne, a cada refeição que extraímos dessa criação benfazeja,
que é ele próprio, como anunciado desde antes do tempo,
para sua glória e nossa salvação." (16-12-24)
 
“A vida humana é feita da diversidade das ciências e das artes,
e cada qual trabalha em sua própria obra e traz sua contribuição.
É assim que os homens vivem, comunicando uns com os outros
e atendendo às necessidades naturais do corpo.
Podemos ver o mesmo nas coisas espirituais. Um busca uma virtude,
outro outra. Este segue a vida por um caminho, aquele por outro.
Mas, para todos, estes caminhos convergem para um mesmo objetivo.
 
O objetivo de todos os que levam sua vida segundo Deus
é de agradar a Cristo nosso Deus, obter a reconciliação com o Pai,
a comunhão do Espírito e assim alcançar a própria salvação.
Pois esta é a salvação de toda alma e de todos os homens.
Se este objetivo não é atingido todo esforço foi vão,
todo trabalho, todo caminho vida afora não conduziu
à finalidade última aquele que o percorreu[1]”.


[1] São Simeão o Novo Teólogo, Capítulos Práticos e Teológicos, 88-89, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume 2.



1.       TEODORA, A LOUCA


 
A louca, a maluca, a desparafusada da cozinha,
com seu avental e touca, com sua ladainha,
e as Irmãs riem baixinho, enquanto Teodora limpa as mãos num trapo,
 
e põe as panelas no seu altar de fogo, e lava os legumes
no seu altar de água, e assopra o lume, e sacode
o cansaço, coberta de carne e sangue, de terra, do ar
que entra pela janela, Teodora e sua fé,
 
que não se apoia em nada, que foi como um verme
que a roeu toda por dentro, e de si própria não restou,
como nada também lhe explica o que sente,
esse carinho pelo homem pendurado, que desde a cumeeira observa,
 
um carinho que ela conserva num coração que desconhece que tem,
só lembra que bate, que pulsa porque ela sente,
e que lhe aquece os membros e ilumina a sala
em que passa os dias, entre as refeições e seu preparo,
as mãos sempre atarefadas, e sua mente sem perguntas,
e sua alma que se abre, alada,
 
para um voo que não sabe, alto, alto, alto,
seus pés que já não tocam o mesmo chão que elas,
as moças puras que se reúnem na capela, cada dia,
a rezar as horas, como sentinelas, como as virgens sábias,
 
com suas lâmpadas de azeite perpétuas, enquanto Teodora
aproveita os restos do óleo das frituras, e mantém a chama
sob os pés do Cristo, lá no alto também, e, de lá do alto,
 
ele lhe sorri, e abana, com seu sorriso, o pequeno brilho
da flama, mais eterna do que, no céu, brilham as constelações,
as estrelas, o sol, a lua, os insetos e os pirilampos. (24-5-24)
 
“Para compreender o modo pelo qual o intelecto
pode ver os mistérios, considere o que vou lhe dizer.
Enquanto está distante do fogo, a cera é sólida
e pode ser segurada. Mas se você a coloca no fogo,
ela se ilumina e queima numa chama, torna-se luz
e se consome inteiramente no fogo.
 
Ela não pode não se fundir no fogo, nem deixar de liquefazer.
Da mesma forma, enquanto o intelecto do homem está só
e não encontrou a Deus, ele só concebe aquilo que está em seu poder.
Mas se ele se aproxima do fogo da Divindade e do Espírito Santo,
daí por diante ele está totalmente sob o domínio da luz de Deus,
tornando-se ele próprio luz, queimando na chama do Espírito Santo
e fundindo-se sob os pensamentos divinos. Daí por diante
lhe é impossível, no fogo da Divindade, conceber por si mesmo
o que lhe é próprio e o que deseja conceber[1]”.



[1] São Máximo o Capsocalivyta, Diálogo com Gregório o Sinaíta, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume 4.



2.       O CHÃO DURO

 


As Irmãs se ajoelham no chão duro e, congeladas,
derramam lágrimas pelo Cristo futuro, que virá,
luzente, sobre uma nuvem, no seu cavalo branco,
como um relâmpago que parte do Oriente,
ele em pessoa, em carne e osso, ou como queiram,
e salvará os crentes, de alguma coisa, que entre gemidos
não se define exatamente, mas que, sim, que há,
e que apenas sentimos, de modo difuso, e nos faz tremer
 
ante o juízo iminente, enquanto na cozinha Teodora se vira
com a panela quente de arroz, com o feijão carioca,
com o angu que encaroça, atenta ao instante,
o momento, o eterno presente,
o alimento que não sai antes, nem se deixa pra depois,
sentindo às suas costas os olhos de Cristo, tão intensos,
que é como se o tivesse ao lado, na cozinha quente
do fogo, da fumaça, do ardor que sente, esse Cristo
 
que é um agora, que não virá, por estar aqui, e já,
e por ser, não gente, mas um tudo, o ar que a envolve,
a penumbra, a luz e a sombra, o sol lá fora,
a noite e o dia, e essa frase que não cala,
que ela repete em santa monotonia,
"bença, Nonô", e pisca os olhinhos, e é outra vez menina,
e não passou nenhum tempo, desde que veio ao mundo,
e ela sempre esteve ali, naquela cozinha, eternamente,
e Cristo, seu Cristo Nonô, ali, eternamente, o todo, o tudo, junto. (25-5-2)




3.       AS IRMÃS


 

Há as que, velhinhas, já nem se lembram de como é lá fora,
e vivem num "aqui dentro", perene e seco,
à espera do Noivo, que virá, com suas lâmpadas
de azeite do mercado, que toda semana Teodora traz,
junto com produtos de limpeza e de higiene pessoal.
 
Mas há as que se lembram, e se reúnem ao redor dela,
quando regressa com as sacolas cheias
de temperos raros, de banha de porco e fósforos,
a saber das novidades, dos acontecimentos,
da briga do açougueiro com o ajudante da peixaria,
entre robalos, badejos, enchovas e um namorado
(e alguém puxou uma faca, mas o chefe do mercado interveio, e tudo pacificou),
e segue a vida desse jeito, que assim vai, como assim veio.
 
As mais novas Irmãs se agitam, fechadas na clausura,
e, em silêncio, buscam respostas, pois
não vivia Jesus pelas ruas?, não estava o Messias
nas praças, no bulício, nos mercados, em meio à gente,
que lhe roçavam a bata, pisavam-lhe os pés,
que estavam com ele a conversar no Templo,
que lhe tocavam o puríssimo corpo
(que, ainda que misturado ao mundo, não se deixava conspurcar),
não falava ele todo dia com ladrões, prostitutas e mendigos,
não parava à beira-mar, contemplando o pôr-do-sol,
enquanto elevava os olhos ao céu
e trocava ideias com o Pai?
 
Não ia Maria às compras?, e Madalena, não saía a passear?,
onde adquiriram as Miróforas seus perfumes,
senão no perfumista, entre cheiros e cotovelos?,
e a galileia?, a samaritana?, Marta?, e as outras, tantas?
 
Mas as Irmãs se recolhem, e voltam aos seus terços, rosários e devaneios,
e juram, para si e pelos santos mais sagrados,
esquecer o mundo, esse mundo de movimento,
de música, de alegria, de perpétuo recreio,
cheio de mulheres, de crianças, de festas,
trabalho e comilanças, de barcos que vêm e vão,
e de homens, homens imperfeitos, suados,
brutos, humanos e malfeitos. (2-6-24)

 

 4.       A LUTA CONTRA O MUNDO


 

“Não, Maria, elas não abandonaram o mundo,
elas apenas lutam contra ele, noite e dia,
e, quanto mais combatem, mais se enredam,
e sua vida, assim, é um eterno emaranhar-se nas redes,
como os peixes que, sem outra esperança,
se deixam arrastar a um mundo de fome e sede.
 
Elas têm os olhos fixos na parede, e veem sombras,
onde não há mais do que as teias, e o pouco sol que têm
entra pelas janelas estreitas, desenhando cenas do antigo testamento
no piso de ladrilhos, onde passeiam Moisés, Abrahão,
e tanta gente, que já não se contam à ceia.
 
Entre elas haverá as santas, as enganadas e as desesperançadas,
há olhos tristes, baços, lacrimosos e brilhantes,
há braços fortes, línguas hesitantes, almas saudosas,
gente humana, afinal, que somos todas, e cada qual tem seu ofício,
seu lugar e seu carisma, perto ou longe de Deus,
cada qual com sua dúvida, sua fé e sua cisma.
 
Elas esperam por Deus, ou Jesus Cristo, que virá
num cavalo branco, ou em trajes de mendigo, ou mesmo nu,
para que o abracem, e lhe lavem os pés, e enxuguem com seus cabelos,
e lhe beijem as chagas, e lhe perscrutem o flanco com o dedo.
 
Mas elas esperam esse Jesus futuro, e olham para a frente,
de onde viria ele, como o raio percorre do Oriente ao Ocidente,
e nós, Maria, olhamos um Cristo que vem de mais longe,
de antes que houvesse o mundo, de quando morava em Deus,
antes da criação, e é por isso que ele anda com a gente,
a nos mostrar tudo o que fez, e isso e aquilo,
e nos aponta cada feito seu, e nos explica o porquê
de cada folha caída, cada pedra no caminho, cada ser,
cada vir-a-ser, cada bichinho,
 
e elas não o veem, embora fique ali todo o tempo, pendurado,
preto que nem o carvão que o cobre (e ele não me deixa tirar),
mas por dentro como veio antes do mundo, e olhando por nós,
e ele está sempre conosco, até o fim dos dias, até o final dos séculos,
quando virá ter com a humanidade (já no seu termo)
–  mas ele já está aqui, e se mostra a nós sem pudor
em cada prato lavado, em cada panela suja,
em cada casca de cebola, em cada tomate pelado,
ele mesmo, esse Jesuizinho que você vê, que é puro carinho,
que é inteiro amor. (16-6-24)

 


5.       A IRMÃ GERTRUDES


 

Teodora leva o chá para a Irmã Gertrudes na biblioteca,
a Irmã Gertrudes, sempre enfiada nos livros, branca como papel,
os olhos muito claros atrás das grossas lentes,
a Irmã Gertrudes, que gosta de uma gota de limão no chá,
que rói as unhas, que fala muito depressa,
uma voz muito fina, baixinho, quase um sopro,
como se não respirasse, como se a vida acabasse
antes do próximo capítulo, antes do próximo tomo, da próxima centúria,
do próximo mistério desvendado, a Irmã Gertrudes,
 
que Teodora admira e não compreende, Teodora
que treme um pouco enquanto lhe serve o chá,
e tenta esconder o cheiro de terra de suas mãos
às narinas delicadas e eruditas de Gertrudes,
que não tira os olhos do texto, que lê cinquenta e cinco línguas
vivas e mortas, as línguas mortas dos povos que se sumiram
nas areias do deserto, atrás das dunas, nas selvas distantes
da Birmânia, nas estepes e tundras da Mongólia,
nas letras misteriosas da China antiga,
antes mesmo de que Cristo viesse ao mundo,
 
a Irmã Gertrudes, que sabe tudo dos Conclaves, dos Sínodos e dos Concílios,
e todos os dogmas de todos os capítulos,
e todas as citações de todos os Santos, passados,
presentes e futuros, a Irmã Gertrudes, que Teodora serve o chá
e se afasta, respeitosa, admirada com a sabedoria
de Gertrudes, que paira acima de toda faina, de toda mundanidade,
de toda balbúrdia do mundo, a Irmã Gertrudes,
que rói até o toco as próprias unhas. (25-5-24)

 


 5.1. O DIVINO


 

“Mas, se em nós há algo de divino, o que é isso?”, Gertrudes se pergunta,
“se nos habita um Deus, onde tem ele seu fim, onde seu início?,
se é possível vê-lo, estar com ele, de que modo realizá-lo,
de que maneira acessá-lo, onde reside o mistério
que o torna aquilo que é, e nós, isso?,
 
e como perfurar o véu que nos separa, que, nesse mundo dual,
nos mantém inexoravelmente separados de seu princípio,
se, para passar pelo estreito poro, não é possível carregar um dedal,
sequer um fio, quanto mais essa bagagem imensa e pesada, conquanto vazia,
que nos tolhe os movimentos, ao mesmo tempo em que nos move,
 
para que possamos atravessar o istmo que conduz além do mar,
até a terra de todas as maravilhas, onde nossos problemas
– aqueles que criamos a cada dia – cessam de ser,
e dão lugar à harmonia de vivermos realmente em nossa verdadeira companhia,
nossa ancestralidade resumida em nossas vidas,
 
como se sempre tivéssemos sido nós mesmos,
não esse debris de projetos inacabados
que nem saem do papel, nem se realizam,
que duram menos que o espaço de um espirro,
se existe um Deus em nós, por que somos nós isso?,
e só ele imóvel, só ele amoroso sempre, só ele impassível,
só ele o rosto perfeito, que nos olha
como se pudéssemos segui-lo, só que não,
estamos por demais ocupadas em fingir
que ele nos atende, em nossos pobres pecadilhos,
esses que nos perdoamos todo dia,
como se a divindade fizesse caso disso ou daquilo,
esse mundo mundano, mundo velho sem porteira,
só que nos perdemos no caminho,
e agora vamos à deriva, tentando apostar em algo conhecido,
 
apenas para dizer, estamos salvos, escapamos do martírio,
quando, na realidade, não fomos, vamos ou iremos a parte alguma,
e giramos nesse círculo de vícios e virtudes,
sem dar um único passo que seja em direção ao verdadeiro Espírito,
 
que não se alcança por gestos,
não se entende por palavras,
não se conquista com sacrifícios,
e, menos ainda, com essa hipocrisia inconfessa
que demonstramos entre nós, seja entre amigos, parentes,
inimigos ou desconhecidos,
 
e olhamos as estrelas no céu, e nos imaginamos nalgum paraíso,
mas que seja igual ao que queremos, ou, no mínimo,
algo bem familiar, confortável e parecido.”

 


 5.2.  A COMUNHÃO COM CRISTO


 

E uma vez a cada vez em quando, vinha o Padre Virgílio
a celebrar a Missa, com seu jeito grave e suas longas homilias,
que pareciam não terminar nunca, mas que Gertrudes apreciava sobretudo
pelas citações infindáveis, que tanto gosto lhe faziam,
como se a erudição do Padre lhe conferisse uma aura santa,
embora se falasse às escondidas de um filho que tivera,
de uma escrava que nunca aparecia, de coisas pouco eclesiásticas
que a Gertrudes não importavam, desde que cada perícope
estivesse cuidadosamente colocada no lugar conveniente,
e que cada citação rimasse harmonicamente com todo o mais,
e o encerramento do sermão contivesse a moral impecável
capaz de converter até o mais relapso dos crentes,
 
e Gertrudes não se dava conta de que a Eucaristia,
a comunhão, a Ceia, o banquete no quarto de cima,
era a única coisa que importava, como na história de Marta e Maria,
estar com Cristo, pois o Mestre dizia que quem comesse de sua carne
e de seu sangue se saciasse, estaria com Ele, e que Ele estaria consigo,
 
e foi preciso que Padre Virgílio um dia mencionasse a passagem
em João, capítulo seis, versículo cinquenta e seis[1],
para que Gertrudes acordasse de seu sonho escriturário,
e encontrasse, na própria Eucaristia, o mistério tão buscado,
com que ela não atinava, por mais que lesse, por tudo o que lia,
por todas as passagens, que agora via, eram mudas
e o significado delas se escondia, e a história toda, de Adão a João Batista,
se resumiria apenas em Cristo, e somente nele tudo faria sentido,
 
e que nele, entre o instante de agora e a eternidade inteira
se encontrava a chave buscada, a ovelha perdida,
a dracma que Gertrudes perdera, em algum lugar muito antes,
e que ela julgava guardada entre as páginas pesadas da Escritura,
que sempre carregava consigo, na esperança de que, na hora menos esperada,
viesse a iluminação do caminho, a mostrar as pedras, os pássaros,
os arbustos, os espinheiros, o solo infértil, que agora ela entendia,
 
e que estava tudo nela, e em sua falta de fé no invisível, no incompreensível,
no ininteligível, que apenas podemos saborear, mas que não se prova
em raciocínios, em deduções, nos escaninhos cheios de papéis,
guardados em qualquer biblioteca, enquanto que, naquele breve instante
em que o pão é molhado no vinho, se resume todo o Mistério,
e não existem ali palavras, nem pensamentos, nem gestos,
nem atos de qualquer espécie, mas apenas a doação suprema
 
do Deus que nos amou tanto, e cuja carne e sangue
nos faz humanos, não apenas mulheres e homens, mas herdeiros,
antes de tudo, e participantes do divino banquete, que é servido
dia após dia, hora após hora, e a cada minuto e segundo
a todos os que creem sem ter visto, que aqueles pelos quais
foi realizado o Mistério supremo, que não se expõe em palavras,
mas que se resume em provar e ver que o Senhor é bom,
e nada além, nem nada mais, nem nada menos do que isso.
 
 “Assim como o vinho se une aos membros daquele que o bebe,
e que o vinho passa por ele, e ele pelo vinho, também
para quem bebe o sangue de Cristo o Espírito da Divindade
o embebe e se une à alma perfeita, e a alma perfeita se une a ele.
 
Assim santificada, ela se torna digna do Senhor.
Pois todos nós fomos embebidos de um só Espírito.
Pela eucaristia do pão é concedido aos que comungam
em verdade participar do Espírito Santo.
 
Assim as almas que são dignas dele podem viver na eternidade.
E assim como a vida do corpo não vem dele,
mas daquilo que lhe é exterior, da terra, também Deus
quis que a alma não recebesse da natureza que lhe é própria,
 
mas de sua Divindade, de seu próprio Espírito,
de sua própria luz, o alimento, a bebida e as vestes
que são a verdadeira vida da alma. Pois a natureza divina
é o pão da vida, conforme ele disse: ‘Eu sou o pão da vida’.
Ela é também a água viva, o vinho que alegra, o óleo da felicidade[2]”.



[1]  “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue vive em mim e eu vivo nele.”

[2] Calixto e Inácio Xanthopouloi, Centúria Espiritual, 92B, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume 3



5.3. ENTRETECER-SE


 

A Irmã Gertrudes lembrou-se das palavras que lera
 – onde?, de quem?, em que circunstâncias? – mas com tal clareza,
que é como se alguém as estivesse dizendo ao seu ouvido,
“Eu não estou apenas unido a você; eu estou entretecido,
ingerido, esbatido pouco a pouco até que a mistura,
o entretecer e a união se tornem máximos,
pois coisas unidas preservam ainda seus limites,
enquanto que, na verdade, eu estou entretecido com você,
e não quero que haja nada no meio de nós,
quero que os dois sejam um”, e ela sentia naquele momento,
 
que entre Cristo e ela já não havia nada que se interpusesse,
que tudo se dissolvia na luz de Seu amor, e Gertrudes disse alto,
e todas as Irmãs se voltaram espantadas para ela,
e mesmo o Padre Virgílio, sempre tão austero,
não pôde deixar de escapar um “oh!” de espanto,
e a Madre Superiora, lá de seu canto, sorriu quietinha,
e a frase de Gertrudes permaneceu ecoando por dias na Capela:
“Nós e Cristo somos um[1]”.
 
Gertrudes lembrou-se ainda de outro santo, Simeão,
que dizia ainda, “Tornamo-nos os membros de Cristo,
e nossos membros se tornaram Cristo, e, embora seja eu um miserável,
minha mão é Cristo, também meu pé é Cristo, e, miserável ainda,
eu sou a mão de Cristo, e o pé de Cristo sou eu[2]”,
 
e Gertrudes sentia-se penetrar pelo Deus-Homem,
até o âmago de sua última célula, até o fundo absoluto da alma,
e aterrorizada lembrou-se dos êxtases de Santa Tereza, e sentiu
que a invadia uma onda imensa, que dique algum poderia conter,
e seu corpo todo estremeceu e, para escândalo do Padre Virgílio
e estupefação das outras meninas, soltou um longo gemido,
seguido de diversas convulsões, e seus olhos semifecharam-se
e, como num voo muito alto, ela desfaleceu.
 
Nenhuma palavra foi pronunciada, a Madre Superiora levou-a
para sua própria cela, enquanto Teodora preparava chás e panos quentes,
e água fria caso precisasse, e o Cristo da cozinha sorria enternecido,
e o Convento em polvorosa se torcia em Irmãs a desabalar-se
pelos corredores, e o Padre Virgílio a montar ligeiro no seu burrico,
“Vou ter que escrever um relatório ao Bispo!”,
e Gertrudes voltava a si, com uma expressão de espanto e paz,
e declarou numa voz doce e sumida, “A luz de Cristo ilumina tudo!”,
e mais não disse, nem lhe foi perguntado, e por muitos dias
ela permaneceu assim, sorrindo para si mesma, os olhos muito claros,
indo muitas vezes à cozinha, onde se punha sentada num banco
diante do Cristo enegrecido, de olho parado, e parecia conversar som ele,
e ia e voltava da roça, a ajudar Teodora, e se divertia a descascar legumes,
 
e estava sempre como se presente à Liturgia, e comia na mesa com as Irmãs
como se comesse a Eucaristia, e olhava para todas com grande amor,
que já nem parecia a Gertrudes dos antigos dias, com seus livros
que ela tanto prezava, e que agora esperavam na prateleira,
com exceção de dois ou três que Maria do Egito lhe dera,
por sinal, os únicos de que ela, para sempre, se lembraria.



[1] São João Crisóstomo, Sobre I Timóteo, 15.4, Sobre Hebreus 7.3.

[2] São Simeão o Novo teólogo, A Prece Mística, Hino 15, 141-3.



5.3. A SABEDORIA

 

“Existe na Lei dos Profetas um sábado, sábados e sábados de sábados.
Do mesmo modo, há uma circuncisão e uma circuncisão da circuncisão,
uma colheita e uma colheita da colheita, conforme foi dito:
‘Quando vocês colherem sua colheita’. O primeiro termo
significa a completude da filosofia prática, física e teológica.
 
O segundo significa a libertação do devir e das razões do devir.
O terceiro significa a obtenção e o pleno proveito
 das razões mais espirituais dos sentidos e do intelecto.
 
Existem assim três termos para cada uma das coisas que mencionamos,
para que aquele que possui o conhecimento saiba
por que razão Moisés celebrou o sábado morrendo fora da terra santa,
por que razão José circuncidou os filhos de Israel
depois da passagem do Jordão e por que razão
aqueles que herdam a boa terra levam a Deus,
em grande quantidade, a oferenda da dupla colheita[1]”.

 



[1] São Máximo o Confessor, Quarta Centúria sobre o Amor, 36, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 1, Volume 3.



6.       A IRMÃ JUSTINA


 

A Irmã Justina se veste de cilício sob o hábito,
e se ajoelha em grãos de milho, no chão frio do seu quarto,
e sua cama é de palha e crina, e ela tem os dedos gastos
das contas do rosário, que não larga, murmurando avemarias,
de profundis, benedictus, crendeuspadre,
uma espada cravada em seu peito de dores,
 
de permanente jejum e vigílias, até se lhe caírem os olhos
de cansaço, e desabar ao chão com um grito,
e ser levada à enfermaria do Convento
para, enfim, receber um mínimo de cuidados,
ante a plateia das irmãs solícitas a lhe agasalhar o corpo
 
e pensar suas feridas, as chagas de seu suplício,
que oferece em sacrifício por seus pecados, que já nem lembra
quando tiveram começo, nem se terão fim,
nem se haverá salvação para Justina, a mártir de si mesma,
entregue em holocausto egoísta ao próprio Jesus Cristo.
 
Teodora corre da horta à cozinha, a mão sangrando
do corte da faca que esgrimia, colhendo nabos,
o avental enrolado a estancar a ferida, a água fria do tanque
para lavar a terra, e assoprar o lanho, e derramar
um pouco de vinho desinfetante, e um pouco de azeite,
empapado num trapo mais ou menos limpo,
 
e voltar à lida, sem um pio, pensando no descuido azarado,
no seu ofício tão simples, e que todo ofício é um caminho,
e pelo caminho sorrindo, ao se lembrar do antigo ditado,
"o plantador de hortaliças, disse um dia um velho sábio
 –  e Teodora se ri – aponta o Caminho com um nabo". (26-5-24)

 

6.2. A DOR


 

Mais sangue, Justina! Mais sangue! Mais dor!, é preciso
para suplantar, possível fosse, mesmo a dor do Mestre,
a que ele sofreu, e sofreria mais, se soubesse
o quanto de entrega à pior tortura nos damos,
para extirparmos nossas culpas,
porque, nesse vale de lágrimas, fomos felizes um dia,
porque brincamos nos regatos e corremos pelas campinas,
porque fomos inocentes de sua renúncia em ser Deus,
sua opção pelos pequeninos,
 
que nos refestelávamos sob a mesa e catávamos as migalhas,
e gulosamente as levávamos à boca cheia de risadas,
enquanto, acima de nossas cabeças, estremecia o céu,
abalançavam-se as constelações e as galáxias,
e os fundamentos da vida rachavam em blocos desconjuntos,
mostrando a todos o vazio da existência humana decaída,
e o caminho para uma libertação – que crianças possuíamos – tão aguardada,
 
esse caminho de brincadeiras e gargalhadas,
sinceras lágrimas, traquinagens, que percorremos hoje desde o início,
porque, disse ele, quero a misericórdia, não o sacrifício
 – mas a quem foi dado esse recado?, ao apóstolo, ao mártir,
ao professor, o torturador, o centurião, o carrasco
com seu ofício de dor, especialista em arrancar a santidade
mesmo àqueles que lhe tinham horror, e que se dirigiam a um céu
imposto a eles, muito contra sua vontade? –
 
e tu, ó Deus, onde estás, que não te encontro entre meus cilícios
manchados pelas exsudações de meu próprio apocalipse,
aqui, trancada nessa cela, entre as chagas
que em mim própria me flagelo, e as assisto depurar
iniquidades que não sei se cometi,
vilanias, pecados – mas, não seriam todos perdoados? –
e essa secura na boca e nos ossos, esse sorriso ausente
desde que me conheci por pessoa,
esse olhar de aço, impotente,
diante do mormaço do dia, dessa chuva quente que cai no pátio,
desses bichinhos que brincam nas poças dessa festa
que se derrama em cada pingo, cada gota,
 
e olho para o céu, e o que vejo é um Deus bondoso,
que se importa com seus filhos, e o vejo mirar a mim,
tão amoroso, e ele me pede,
tire essas roupas, Irmã querida, e mergulhe de cabeça
e nade à outra margem desse sofrimento todo,
porque é ali que te espero, e, em silêncio, desfrutaremos
de momentos plenos, e teremos, finalmente
a compreensão de que esse mundo, para além de seus terrores
 – que criaste em tua cabeça – foi feito para ser um caminho,
longo, concentrado, consciente, mas não penoso.
 


 6.3. A VERDADEIRA ASCESE

 


E, libertando-se do sentido absurdo daquela dor
auto infligida e autocomplacente, a Irmã Justina, afinal,
pôde tomar sobre si essa outra cruz de Cristo,
e correr às praças e aos becos, em busca dos flagelados
do destino, dos que não têm teto, nem onde
apoiar a cabeça, dos presos, dos condenados,
dos injustiçados, dos atormentados, daqueles
crucificados pela sociedade nessa cruz verdadeira,
a cruz dos pobres, a ascese mística de estar com eles,
 
de, na companhia de Cristo, suja como ele, e maltrapilha,
sentir-lhes a fome e o frio, o desespero, o desamparo, o destempero,
de cobri-los com seu último manto, de lhes oferecer a própria vida,
na forma de seu próprio corpo dolorido, dormindo sobre a pedra gelada
das praças, mendigando com eles um pedaço de pão,
 
essas migalhas do corpo de Cristo, bebendo
do vinho das poças d'água, sagrado, fétido e salvífico,
fazendo com eles a Ceia Santa dos despossuídos,
no segundo andar do porão, de todos esquecido da vida,
 
pensando-lhes as feridas do caminho, ouvindo-lhes as dores,
as pragas, os prantos e os xingos, molhando-lhes
as pálpebras flageladas com sua própria saliva,
dando a este um conselho, àquele uma palavra,
emprestando a um terceiro seu ouvido, e, quando preciso,
 
cavando a cova, descanso merecido, sem missa, sem banho, sem bênção,
mas com o perdão do alto de todas as suas faltas,
voluntárias e involuntárias, cobrindo-os com a terra final do paraíso,
regada de amor e lágrimas, tornando barro novo o pó imundo,
 
para que repousem, e tenham o descanso merecido,
na certeza de que contarão com o melhor advogado,
quando se apresentem, limpos e de banho tomado,
ante a mesa final e definitiva do Juízo.
 
“Pois esta prece intelectual é a verdadeira prece, a prece perfeita.
Ela enche a alma da graça divina e dos carismas o Espírito,
como o perfume cujo odor, num vidro, é tanto mais forte
quanto mais fechado. O mesmo acontece com a oração.
 
Quanto mais você a encerrar em seu coração,
mais ela encherá o coração de graça divina.
Bem-aventurados os que se dedicam a esta obra celeste.
Pois por meio dela eles superam todas as tentações
dos demônios malignos, como Davi venceu o orgulhoso Golias;
por meio dela eles extinguiram os desejos desordenados da carne,
como as três crianças que extinguiram as chamas da fornalha;
com ela eles apaziguaram as paixões, como Daniel acalmou os leões selvagens;
por meio dela eles fizeram descer o orvalho do Espírito Santo aos corações,
como Elias fez descer a chuva sobre o Carmelo.
 
É esta prece intelectual que sobe até o trono de Deus
e é guardada em cálices de ouro, de onde se eleva
seu perfume até o Senhor, como diz João o Teólogo no Apocalipse:
‘Os vinte e quatro anciãos se prosternavam diante do Cordeiro
com suas cítaras e com cálices de ouro cheios de perfume,
que são as preces dos santos’.
 
Esta prece intelectual é uma luz que ilumina sempre
a alma do homem e aquece seu coração nas chamas do amor a Deus.
Ela é uma corrente que une Deus ao homem[1]”.

 



[1] São Gregório de Tessalônica, Que os Cristãos devem orar continuamente, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume 4. 




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