15. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 3: AO TEMPO DE TEODORA - 3.3. TEODORA E AS IRMÃS (PARTE 2)

 3.3. TEODORA E AS IRMÃS




Onde prossegue o desfile das personalidades das Irmãs do Convento, culminando com as Irmãs Paulina e Andrelina, seu estranho amor mútuo e seu trágico fim.




7.       A IRMÃ JOSEFA



 
Irmã Josefa é pura sola escriptura,
capaz de citar de cabeça cada palavra da Bíblia,
amiga e frequentadora dos profetas e patriarcas,
estudou com Ruth e Raquel quando criancinha
e está sempre pronta a contribuir nas conversas
corrigindo essa aqui, aquela ali, tal coisa, tal outra,
 
não, isso não foi Isaías quem disse,
não, não é esse o trecho de Miqueias,
não, Jeremias já havia previsto isso,
e tome Baruc, e Provérbios, e Sofonias, Macabeus,
Ester, Tobias, Judite, e cada pormenor do Levítico,
os Salmos, todos, Abdias, Lamentações, Cânticos,
e Jó, e Jó e Jó, e todas as reprovações, e todas
as maldições, e todos os vícios dos faraós,
 
sempre a postos para esmagar as cabeças
dos filhos da Babilônia contra a rocha, Josefa,
que tem no olho uma trave, mas que cuida
de cada cisco em cada olho de cada Irmã,
que envergonha Teodora, que foge dela
e de seu dedo que a acusa, Teodora, que sabe da Bíblia
uma única oração, feita de palavras esparsas,
que ela colheu como numa horta, essa estranha oração
que somente ela pronuncia, quando em seu leito
repousa a cabeça cansada do dia, e repete,
como para si mesma e para Cristo,
 
“Pai, se é teu desejo, benditos os pobres de espírito,
que se cheguem a ti as criancinhas, os cachorrinhos
que colhem as migalhas da mesa, dá-me da água
que de mim tirará para sempre a sede,
conta-me, se foi o Senhor que levou Jesus daqui,
diga-me onde o colocou, que irei buscá-lo,
pois a hora é chegada, e é agora, em que te adoraremos
em espírito e verdade, nós, os mansos, os humildes,
os que têm sede e fome de justiça, faça-se a tua vontade,
não a minha, porque a ti entrego meu espírito,
eis aqui a serva do Senhor”.
 
Uma coisa é a leitura das Escrituras
para os que acabam de entrar na vida de piedade,
outra para os que progridem a meio caminho
e outra ainda para aqueles que tendem à perfeição.
 
Para os primeiros, ela é com efeito o pão da mesa de Deus,
que conforta seu coração nos sagrados combates da virtude,
que lhes dá força para enfrentar os espíritos que animam as paixões
e os enche de coragem para combater os demônios,
e para que eles digam: “Você preparou para mim uma mesa
diante do rosto daqueles que atormentam”.
 
Para os segundos, ela é o vinho do cálice de Deus,
que alegra seus corações, os fazem sair de si mesmos
pelo poder dos pensamentos, rapta seu intelecto da letra que mata,
os conduz ao fim de sua busca nas profundezas do Espírito
e lhes permite engendrar inteiramente e descobrir
o sentido das palavras, a fim de que eles possam dizer
de bom direito: “Delicioso é seu cálice, que me embriaga”.
 
Enfim, para os últimos, ela é o azeite do Espírito divino,
que unge sua alma, a torna doce e humilde
sob a efusão dos flamejamentos de Deus, e a eleva inteira
acima da baixeza do corpo, numa glória na qual ela também pode dizer:
“Você ungiu de azeite minha cabeça”
e: “Seu amor me seguirá por todos os dias de minha vida”.[1]



[1] Nicetas Stethatos, Segunda Centúria, Capítulos Físicos, 90, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume 2.



7.1. O CRISTO MORTO


 

“No interior escuro da gruta repousa o corpo de um Cristo morto,
mas, se a gruta for aberta, ela está vazia, e não o vemos vivo,
como o veríamos morto, se ali penetrássemos quando podíamos,
quando, deslocando a pedra, o teríamos contemplado estendido,
mas assim que a pedra rolava, ele se evaporava, e,
quando mirávamos lá dentro, havia desaparecido,
e deixado apenas seus panos, os mesmos que o vestiram
na gruta de seu nascimento, quando, diante de reis e de pastores,
o amamentava Maria, para gáudio dos anjos
e espanto de toda a humanidade que havia,
 
e isso é tudo o que sabemos de sua biografia,
porque de tudo o que houve de permeio
ninguém compreendeu nada, nem sequer um único dia,
 
e esse Jesus, que nem existe nem deixa de existir,
resiste ao pensamento, e se coloca muito acima
de tudo o que se possa entender, por ser por inteiro
Deus, e homem, e morto e vivo, e jardineiro,
 
e o que vemos dele, afinal, nunca é bem ele,
porque está e não diante de nós,
está e não distante de nós,
está e não conosco, mas nos convoca a olhá-lo
em seu sepulcro, onde jaz
e não jaz,
onde o mistério de sua permanente impermanência está oculto
 
e, no entanto, ele está presente e é eterno, nosso porto,
mas, em nossa tola humanidade,
só o conseguimos ver como morto.”
 
A Irmã Josefa pousou o lápis sobre a mesa, afastou a enorme Bíblia,
e, olhando com olhos vazios à sua frente,
viu ali, pela primeira vez, o Cristo,
na sua forma divina, em luz perfeita,
eterno, sempre o mesmo e impermanente.


 

 7.2. TIBERÍADES

 


Josefa viu-se a pescar num estranho lago,
numa barca mambembe, improvisada,
e mergulhava a rede, e a afundava,
e ela voltava vazia, mas Josefa via os peixes
 
que nadavam lá no fundo, e cada peixe era um livro
e o lago era toda a Escritura, e havia peixes
do Novo e do Testamento Antigo, todos reluzentes,
com suas escamas a brilhar sob o sol que madrugava,
 
e Josefa lidava com a rede, os remos e a vela,
e, por mais que virasse o barco, os peixes
pareciam fugir-lhe, e escapavam, por mais que os chamasse
a cada um por seu nome, como apropriado,
 
e citando-lhes os números, e cada perícope,
e trazendo à tona cada acontecimento, que afundavam
novamente, deixando-a de mãos vazias,
impotente diante da desordem e rebeldia
 
daquelas páginas tão conhecidas, que, de repente,
já não obedeciam ao seu comando, deixando-a
em meio à confusão, sem ter onde se segurar,
sem saber a quem se dirigir, como raciocinar,
 
e nesse transe Josefa viu ao longe, na margem,
alguém que fazia um foguinho, e parecia assar um peixe,
e o homem gritou-lhe, “jogue a rede para o outro lado!”,
e ela o fez, e a rede se encheu com todos os textos misturados
 
do Antigo e do Novo Testamentos, molhados mas inteiros,
e, esfregando os olhos cansados, percebeu com espanto,
“é o Senhor!”, e, incrédula, cingiu-se, pois estava nua,
e nadou até a praia, e ali encontrou Cristo,
 
que tinha um pequeno trempe armado, e brasas,
e, na grelha, um peixinho, e pão, e ela arrastou a rede até a areia,
e a deixou ali, e não se atrevia a perguntar quem era aquele,
pois sabia que era Jesus, e ele se aproximou dela,
 
e deu-lhe um pão, e fez o mesmo com o peixe,
e houve um vento súbito, que levou as páginas pelo ar,
e Josefa ali ficou, a olhar para Cristo, e subitamente
isso lhe bastava, e ela contemplou o espetáculo
 
das folhas que se sumiam céu afora, espalhando-se
por todo lugar, enquanto toda a sabedoria da lei e dos profetas
achava-se diante dela, a sorrir e oferecer-lhe
um pedaço de pão e um peixinho, que ela tomou
 
e comeram juntos, e aquilo foi como um vinho forte
que embriaga, mas nos faz ver o que até então não víamos,
que é a Verdade, que é estar com Cristo, naquele momento,
naquela praia, sentados os dois na areia, simplesmente,
a conversar e esperar a tarde. (6-1-25)
 
“Deus, que é a própria existência, a própria bondade,
a própria sabedoria, e que, a bem dizer,
está muito acima de todas estas qualidades,
não possui absolutamente nada em si que lhe seja contrário.
 
Mas as criaturas, que não existem senão
pela participação e pela graça, mesmo aquelas
dotadas de razão e intelecto e são aptas
à bondade e à sabedoria, têm em si seus contrários:
com a existência, a inexistência; com a aptidão
para a bondade e a sabedoria, a malícia e a ignorância.
 
Ora, existir sempre, ou não existir, está nas mãos do Criador.
Mas participar ou não de sua bondade e de sua sabedoria,
depende da vontade dos seres racionais[1]”.



[1] São Máximo o Confessor, Terceira Centúria sobre o Amor, 27, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 1, Volume 3.



8.       MADRE PÉROLA



 
Madre Pérola se chama Irmã Luzia, mas é pura alegria,
que não se contém, e passa o tempo a cantarolar cantigas,
e orar em voz alta, e espicaçar as Freiras sisudas,
com suas risadas e brincadeiras, e corre
atrás das galinhas, apenas para vê-las correr,
e faz carinho na leitoa, e brinca de pular com as cabras,
e – dizem, mas Teodora o sabe –  
borda as próprias anáguas, com desenhos de flores,
de passarinhos e borboletas, que não o vejam aquelas,
 
que correriam a contar à Madre Superiora, que a poria de castigo,
ajoelhada em grãos de milho, ou pior,
porque não se deve fazer isso, sem que se saiba por que,
–  mas porque não, e pronto! – e de algum modo há de ser pecado,
uma afronta, Cristo há de ficar escandalizado, e o Pai,
muito severo, fuzilará com seus raios a Pérola
que a Madre, apesar de tudo, ainda guarda com muito zelo,
não que lhe falte ocasião, ou desejos, mas porque jurou
 
para Deus e a si mesma, que guardaria, com sua pureza,
para só a libertar na outra vida, quando já não haverá
grego ou judeu, menino ou menina,
Madre Pérola, Irmã Luzia, com o frescor de quem não sente culpa,
com a alegria que supera o medo, com a certeza
de que Jesus a ama, se amou a galileia, a adúltera, a prostituta e a samaritana,
esse Jesus que também ela ama, quando, no verão,
se deita no chão frio, e se abana, pelo calor que lhe sobe
das entranhas, esse calor que lhe vem, sem que saiba por que,
e que lhe põe nos lábios a cor das penas do Tiê. (11-6-24)


 

 8.1. A BORDADEIRA E OS PASSARINHOS




 
A Madre Superiora mandou chamar a Irmã Luzia,
que alguém delatou em bilhete anônimo,
acusando-a de todo excesso, de pôr em risco
a própria vida do Convento,
com sua alegria sem fronteiras, com o calor de suas partes íntimas,
e lá se foi Madre Pérola, tremendo de medo,
e pronta para se ajoelhar no espinho, para dormir em cama de pregos,
para se vestir de silício – ai!, minhas lindas anáguas de passarinhos! –
e assim ela bateu à porta fatídica, e ouviu um "Entre!",
e, trêmula, girou o trinco, e,
quase de joelhos, se pôs diante de Maria do Egito,
que a olhou com carinho, e disse que se levantasse,
e se sentasse na cadeira em frente à mesa, porque tinha
assuntos de extrema gravidade a conversar consigo,
 
e Luzia obedeceu, à espera do golpe que viria,
mas, ao invés da chibata, a Madre lhe apontou
uma estátua da Virgem com o Menino, dizendo,
"Veja como está rota a túnica, veja
como estão gastas as vestes do Menino,
eu soube que você é bordadeira de ofício,
preciso que me ajude, com essa imagem e outras,
e ainda com diversos lençóis e cortinas,
pois quero alegrar nosso Convento,
e trazer um pouco de arte a essas meninas",
 
e, enquanto a Irmã Luzia se recuperava do susto, ordenou,
"Agora, me mostre sua anágua, quero ver se pôs nela tanta arte
quanto me disseram que havia", e Pérola não teve outro remédio
do que erguer a ponta do hábito, e expor seus passarinhos,
para gáudio da Madre, que elogiou seu dom artístico,
e a fez prometer que aceitaria o serviço, e arrematou,
"Isso fica só entre nós, minha filha querida,
eu adorei seus passarinhos", e, com ar cúmplice,
já se despedindo, "Mas tome cuidado com as revoadas,
às vezes elas podem levá-la muito longe,
e é sempre bom poder voltar ao ninho".
 
E o Convento ganhou sua bordadeira,
e Maria do Egito, mais uma filha para chamar de irmã,
e Pérola ganhou uma nova vida, e os lençóis e cortinas do edifício
encheram-se de passarinhos, de ramos de centeio e vinhas,
e, quando revoavam as avezinhas,
Luzia se deitava no chão frio, e sonhava que ganhava os céus, além das nuvens,
e que, ao fim das acrobacias, cada pássaro
estaria de volta ao aconchego de seu ninho.


 

 8.2. O CORPO E A ALMA


 

Não há coisa no mundo que eu ignore mais do que o amor,
embora eu ame – e como amo! – como se o amor
fosse alguma espécie de desespero, de nada esperar
a menos que nos entreguemos totalmente ao objeto desejado
– é isso o amor?, até que ponto deixamos de ser nós mesmos,
trocando-nos por alguém ou algo que desconhecemos? – 
 
é o amor uma flecha disparada, que só pode atingir
um único alvo, e todo o mais é insuficiente, é o amor
um veneno, que partilhamos para que a doce morte chegue
e nos leve num abraço apertado, para longe daqui, de lá,
de onde quer que estejamos, é o amor o leão que nos ataca
em plena natureza, quando buscávamos não mais do que as flores
caídas das árvores, com suas cores inesperadas e sua beleza?
 
E, no entanto, não há coisa que eu menos conheça,
embora me invada e me avassale, embora me tome
como um boneco de engonços, como um trapo ao vento
pendurado a esse varal do mundo, enxarcando-se a cada chuva,
rasgando-se fio por fio, até que não reste nada, senão a memória
do que fui, reles pano, tecido inútil, urdume e trama
entregues aos elementos, todo tingido em púrpura,
 
do sangue que menstruo mensalmente, pontual como o sol,
como as estrelas que giram no meu sono, como os fantasmas
que me assaltam as mãos, e as fazem percorrer o corpo
incessantemente, incessantemente, incessantemente,
à procura do amante que nunca veio, que não virá,
que não dirá as palavras que meus ouvidos desejam,
que não me arrebatará para além do tempo,
bandoleiro, boto cor-de-rosa, cavaleiro negro
 
– é isso o amor?, é isso o que eu mais desejo?, é esse meu sonho
desde que cheguei a esse Convento, na certeza
de que Cristo me levaria em núpcias, que o Espírito
me cobriria de carícias, de que Deus me perdoaria a sevícia –
e, no entanto, aqui estou eu, prostrada ante a cruz,
a me enrolar nos lençóis, a esperar na noite,
os olhos arregalados, por um destino equívoco
 
que nem vai, nem vem, por uma madrugada que não chega,
e o sino que não toca, para me arrancar das horas
passadas entre virtude e pecado, entre a boca que ora
e os lábios que desejam que não chegue nunca a aurora,
que me devolverá à vida, que forçará minh’alma
a se curvar, mais um dia e mais um dia e mais um dia,
ante aquilo que não sei, que desconheço, essa sina
que recuso todo o tempo, que assumo, para que venha,
ou não venha, para que responda ao meu coração
como as palavras emaranhadas de uma adivinha? (27-12-24)

                                    


 8.3   O BURRICO DE PALHA



 
E, no entanto, os olhos desejados estavam-lhe tão próximos,
quase como os seus, um do outro, e o seleiro da vila
chegava a desviar de seu caminho apenas para se aproximar
do Convento, onde os pezinhos de Pérola pisavam as lajes do chão,
e suas mãos bordavam as cortinas com imagens de vinhas e trigais,
tais como ele imaginava seu coração e sua tez, que apenas via
de relance, quando ela passava, casta e alegre, diante de sua loja,
a caminho da feira da semana, do mercado, ou de qualquer providência
que lhe incumbira a Superiora, e esse dia era para ele como um sorriso,
o mesmo que ela tinha nos lábios, sempre, e que sempre nos lábios mantinha.
 
Então, numa manhã de quinta-feira – como poderia ser qualquer outro dia –
chegou no Convento um pacotinho, e dentro dele um burrinho de palha,
e sobre o burrinho um Cristo, posto sobre uma minúscula sela
de couro legítimo, um trabalho de artista, de minúcia e de capricho,
e, no embrulho estava escrito “Para Irmã Luzia e seu sorriso”,
e nesse dia Madre Pérola descobriu que sim, que havia o cavaleiro,
e que ele viria, e que ela seria levada na garupa daquela mesma sela,
e que iria bordar as cortinas de toda a vila, até onde existir pudesse,
e que ainda aprenderia o ofício do couro, e outros ofícios que,
para tanto, a vida nova que para si se descortinava, exigiria.
 
E tomando a bênção da Madre, montou ela própria no burrico,
e se deram os braços, ela e seu seleiro, e se puseram a caminho,
e a partir daquele dia, Pérola encontrou, finalmente,
um novo nome, que seria seu para sempre,
e aqueles olhos bons, que seriam, doravante, os olhos de seu destino
 – que Deus aprovou sorrindo, e dando ao casal muitos filhos. (28-12-24)

 


 8.4. UM SÓ AMOR


 

Há um amor que explode os muros, que rompe as cascas,
que apaga as linhas convencionais das fronteiras
entre o eu e o outro, há um amor que não sou eu,
há um amor maior, que não se vê nem se controla,
há um amor de Deus, que abre todas as portas,
 
há um amor em que vemos no outro o mesmo que somos,
em que o amante, o amado e o amar se tornam um só,
em que o mundo se torna amor, um amor que sentimos
quando estamos a não pensar em nada,
que pode ser disparado na presença do amante,
do amigo, do marido, da esposa, do namorado, do filho
– do próprio inimigo –
e que os torna a todos a mesma pessoa, que em nós habita,
 
que nos conduz aos montes onde o horizonte se descortina,
e que nos mostra que o mundo é um só,
em todas as suas criaturas, unidas no mesmo amor,
que as torna a todas uma com Deus,
esse amor que, à força de amar, encontramos no próximo,
que é como eu, esse amor,
 
a dracma perdida que encontramos,
e já nada mais importa, porque é como se só ela existisse,
e seu brilho de prata na palma de minha mão
reflete o sol, em iridescências mágicas,
que os olhos bebem, e a alma se farta,
e já não há um eu e um ele, mas apenas isso,
que é tudo em todos, Jesus Cristo. (29-12-24)
 
“Quando uma mulher desposa um homem
para viver em comunhão com ele,
tudo o que pertence aos dois se torna comum.
Eles passam a ter uma mesma casa,
os mesmos bens, os mesmos meios de existência.
 
A mulher pode dispor não apenas dos bens do marido,
mas também de seu corpo. Pois o esposo,
como diz o Apóstolo divino, não tem autoridade
sobre seu próprio corpo, que pertence à sua esposa.
 
O mesmo acontece com a verdadeira e misteriosa união
da alma com Cristo: a alma se torna com ele um só Espírito.
E porque se torna sua esposa, segue-se
que se torna também senhora de seus tesouros inefáveis.
 
Uma vez que Deus se deu a ela, é claro que tudo o que é dele
é dela, seja o mundo, seja a vida, seja a morte,
ou os anjos, as dominações, o passado e o futuro[1]”.



[1] São Simeão Metrafraste, Sobre a Liberdade do Intelecto, 124, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume 1.



 9.       PAULINA E ANDRELINA



 

Todo o Convento sabia quando as Irmãs Paulina e Andrelina se recolhiam
para orar no pequeno nicho que ficava além da horta, depois do pomar,
e todas se admiravam da grande devoção que tinham,
a ponto de passarem muitas horas em oração, absortas,
tão recolhidas, que ninguém as interrompia, menos Teodora,
 
que, se tinha que ir à horta, ia, e se tivesse que colher frutas, colhia,
e não se incomodava com os "ai, Jesus!", os "Aleluia!", os "Ave, Maria!",
ou com o que ali acontecia ou não acontecia,
e voltava para sua cozinha, com braçadas de mangas,
de bananas, de batatas, de cenouras, bergamotas, maçãs,
e de tudo mais quanto lá havia, e vinha assobiando baixinho,
para não incomodar as passarinhas, entretidas a orar, pobrezinhas!,
 
fugindo das paredes brancas, dos batentes rígidos, das portas de pinho,
dos genuflexórios, das frias pias de batismo, das páginas amareladas de velhos livros,
para se entregarem a essa outra religião, que ela não compreendia,
mas que, também, não lhe importava, sendo apenas
mais uma roseira ao longo das sebes do seu caminho,
com mais ou com menos espinhos, que coloriam o mundo
com suas flores, seus aromas, seu destino,
 
enquanto Teodora seguia, com seu passo sem pressa,
ela, as braçadas de frutas e legumes, as hortaliças, os ovos,
as verduras frescas, e seu Jesus Cristinho. (12-6-24)

 

9.1. OS MALDITOS



 

E, se sabiam-no as Irmãs, na vila também o sabiam,
e as Irmãs amorosas eram motivo de escândalo, e mais de uma vez
escreveram-se cartas ao Bispo, que, no entanto, as devolvia,
prometendo preguiçosamente uma providência que não faria,
pois um Convento tão distante, que importância tinha?,
e que as pessoas se arranjassem com aquilo, que a ele
convinha mais abafar o fato, do que haver-se naquela rinha,
que proveito algum lhe trazia, e assim a população
mordia-se de incompreensão e ódio (e talvez outra coisa
lhe fosse impossível, pela falta de amor que, na verdade,
lhe inspirava certo tipo de Cristianismo), e uns,
mais afoitos e covardes, em seu afã de se arvorarem em juízes,
prometeram encarregar-se, eles próprios, da sentença
que nem Cristo daria, e, decididos a atirar a primeira pedra,
conspiraram para dar fim ao que consideravam
ser o fim do mundo, e a mais alta patifaria, sexo, sexo,
apenas e nada além disso, sem pensar sequer
no grande amor que entre elas nascera e existia.

 

 

9.2. O SACRIFÍCIO



 


Na noite avançada, apenas as Irmãs Paulina e Andrelina
se mantinham acordadas, nas suas orações mais íntimas,
a que as demais Irmãs já estavam acostumadas,
e ouviram bater à porta do Convento, e, mesmo àquela hora,
decidiram-se por atender, haveria de ser alguém
necessitado, precisando abrigo, uma esmola,
um cobertor, uma palavra, um prato,
 
e foram ambas ao portão, apoiadas pelo braço,
e, naquele instante fatídico, aguardava-as, na verdade, seu fado,
pois mal haviam dado à fechadura, saltaram-lhes em cima
vultos hirsutos e medonhos, que as atacaram com tal fúria,
que não tiveram tempo de gritar ou de fazer fosse o que fosse,
e ali ficaram, em luta contra o que lhes parecia um só monstro,
de muitos braços, cabeças e pernas, de olhos múltiplos e goelas abertas,
que rosnavam e rangiam os dentes, gritando e batendo com paus, com forcados,
com facões e com pedras, e as mordiam com suas bocarras,
batiam com centenas de mãos e esfaqueavam com milhares de facas,
 
e nelas só havia um pensamento, de não lhes dar entrada,
(sem entender que eram elas o alvo dos assassinos)
pois as Irmãs não teriam defesa alguma caso penetrassem no Convento,
e elas, ao menos eram duas, e cada uma interpunha seu corpo
para receber a punhalada destinada à outra,
e assim se revezaram, na defesa de tudo o que havia de sagrado,
as Irmãs, o Cristo e elas próprias e seu amor mútuo e condenado,
 
e abraçadas desabaram ao solo, enquanto o monstro
múltiplo e disforme fugia em desabrida balada,
e ficaram ali, exangues, misturadas, indistinguíveis na morte
que aceitaram, uma pela outra, e por tudo o que havia de mais sagrado,
 
e assim as encontraram as Irmãs, com seus corpos entrelaçados,
como num ato de amor carnal, mas sublimado,
e as separaram, como se se quebrassem,
cuidadosamente, como se elas quisessem permanecer abraçadas,
e limparam-lhes o sangue e as feridas,
as duas, tão bonitas, tão estraçalhadas,
e compreenderam, finalmente, que o amor a Deus
e o amor às suas criaturas cansadas, nem sempre é fácil entender,
e que o sublime às vezes se esconde mas coisas menos previstas,
e que, afinal, de que vale esse mundo, se não pudermos dar,
em troca dele, aquilo que nos é mais sagrado?

                                                               

 

9.3.  O ELOGIO FÚNEBRE



 


Quando as vi despedaçadas, vi também
que todos os seus pecados haviam sumido,
e que havia ali duas mártires do amor, numa poça de sangue,
por Cristo, unidas pela sua carne, e pelo compromisso
de que uma receberia pela outra cada golpe, e que mil vezes morreria
por aquela a quem amava, e que já nada importava,
porque morrer dessa maneira era tudo que esse amor louco pretendia,
e dispôs assim o destino a elas, para que, no abraço
desse esforço desmedido, na renúncia a esse mundo
pudessem remir seus pecados, que, duvido eu agora,
tenham por acaso algum dia existido.
 
Porque disse Paulo, a respeito do Espírito, que
pondo as minhas leis em seus corações, e inscrevendo-as
no caminho que conduz ao conhecimento,
não me lembrarei dos seus pecados e iniquidades,
e, onde existe a remissão dos pecados, já não se faz oferenda por isso[1]”,
porque o sacrifício único foi o de Cristo, de que participamos
na Eucaristia, mas não o refazemos, pois de uma vez por todas
Cristo no-lo deu, e dado está, e tudo o que Cristo fez é definitivo.
 
E ela, Madre Superiora, que trouxera suas meninas
para viver numa clausura, longe da loucura assassina do mundo
(e agora as velava, feitas em pedaços, sobre a mesa da Capela,
costuradas e defuntas), que as protegera das ideias tortas,
das doutrinas degeneradas, do mero palavrório,
tentando despertar em suas almas o Amor real,
esse que não tem paralelo nem contraditório,
ela as via tremendo de medo, e o choro que choravam
era por elas, pelas Irmãs mortas, por Cristo e o Convento,
– mas saberiam elas de tudo o que há por trás da existência? –
 
e Egípcia suspirou, pensando nas Irmãs negras, que na sua cozinha
pareciam não se importar com nada, e viviam
plenamente, uma realidade modificada,
onde as Irmãs enamoradas eram tão naturais
como a chuva que chega e se vai, essa realidade na qual ela,
a grande Madre, reconhecia sua própria juventude,
e o Amor no qual acreditava, e ela sabia, afinal,
que era ali que residia tudo o que aprendera,
e tudo o que pretendia ensinar às moças de gesso, que,
obedientes aos livros, aos ritos e aos adereços,
não se afastavam jamais da curva, e levavam a teologia adiante
como se fosse uma questão de escolha ou apreço,
não uma necessidade da alma, daquela que tira o sono,
o descanso, que nos faz despertar mais cedo
apenas para contemplarmos o dia que chega
e que a cada vez entra pela janela dos sentidos,
num balé eterno, criado por Deus, e que não tem fim nem com começo.
 
“Naquele cujo intelecto está continuamente voltado para Deus,
mesmo a concupiscência aumenta o desejo ardente de Deus,
e o ardor se volta inteiramente para o amor divino.
 
Por ter conhecido a iluminação divina por longo tempo,
ele se tornou inteiro luminoso. E, encerrando em si mesmo
a parte de seu ser submetida às paixões, ele a dirigiu
para o desejo de Deus, ardente, insaciável, como foi dito,
e para o amor sem fim, fazendo-a passar do terrestre ao divino[2]”.


[1] Hebreus 10: 16-18.

[2] São Máximo o Confessor, Segunda Centúria sobre o Amor, 48, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 1, Volume 3.


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