12. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 3: AO TEMPO DE TEODORA - 3.1. A IRMÃ TEODORA

 

3.                AO TEMPO DE TEODORA

 


3.1. A IRMÃ TEODORA (1892-1958)




 Onde seremos apresentados a Teodora, a mais doce das sete Irmãs, cozinheiras do Convento, que comporão o fio da história desse livro.

Teodora vê o mundo quase com olhos de criança, impressiona-se com o rosto negro de Cristo – a quem chama de Nonô – e tem um carinho especial por toda a criação, pela vida e por Maria, a Virgem, que tem o mesmo nome da moça que a sucederá na cozinha do Convento.




A PRESENÇA DE DEUS



A presença de Deus, para quem sabe olhar e ver,
é como um peso posto sobre a criação, não que seja pesado,
mas que impõe o peso de sua grandeza de Amor,
amalgamando, e sob a pressão desse Amor desmesurado,
 
o pó de que tudo é formado, como sob o peso da atmosfera,
todas as coisas se mantêm em seus formatos,
como a liga de átomos e elétrons gera um peso magnético
que faz com que as coisas se acalmem em seus fados,
 
e não se dispersem, buscando evanescer por todos os lados,
e assim componham um só universo, múltiplo, diverso,
mas conservado íntegro pelo peso imenso da presença divina,
cujo rosto, que é a própria criação, nos olha do alto
 
de sua atenção amorosa, e dá a cada coisa sua própria face,
a face de Deus, emprestada a nós e a tudo, para que sejamos um
sob o peso de sua glória – que são uma só e mesma coisa –
essa glória que não é feita de grandiosidade, mas da humilde presença
 
de um burrico às portas de Jerusalém, para que, nele montado,
penetre Cristo, na pobreza mística de sua realeza,
na miséria de sua condição humana, que, sim,
é o retrato perfeito e a imagem de sua beleza. (6-2-25)
 
“A luz que brilhou sobre o caminho diante do bem-aventurado Paulo, esta luz
por meio da qual ele foi elevado ao terceiro céu e esteve
diante de mistérios inefáveis, não era uma iluminação
dos pensamentos e do conhecimento, mas uma resplendência dentro da alma
do poder pessoal do Espírito bom. Os olhos da carne, incapazes de suportar
a superabundância de tamanho esplendor, ficaram cegos.
É por meio desta luz que todo conhecimento é revelado,
e que Deus se dá a conhecer em verdade à alma que é digna e bem-amada[1]”.





[1] São Simeão Metafraste, Sobre o Amor, 139, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume 1.



1.       ALZIRA[1]

 

Perdoa, Senhor, essa ferida,
conforta essa menina forçada e esquece o homem que a rompeu,
consola essa criança que eu nunca trouxe no ventre,
que não existiu, que não foi concebida, nem formada, nem nasceu,
mas que até hoje eu carrego no útero e na mente,
como se fosse filho meu, que meu coração abriga,
sem culpa do que aconteceu, perdoa, Sinhô,
 
porque ainda tenho guardadas as lágrimas,
porque ainda não engoli o choro,
porque ainda sinto no corpo as mãos grossas,
que me torceram como um trapo, que me destroçaram,
que me roubaram a alegria e tudo o que eu chamava de eu,
de mim, Alzira, a filha órfã de Dona Laura e 'seu' Lineu,
Alzira, tão antes de começar a vida,
Alzira, a que não foi morta, que a veio salvar Teodora
do afogamento certo, nas águas do desespero,
 
Alzira, que gritou por um Deus que nem sabia,
Alzira, esfarrapada, andando ao léu, encontrada
pela alma que Deus mandou, que ela não conhecia,
que a colocou em seus braços, que a levou e trouxe,
Alzira, Teodora que se lembrará para sempre,
que, quando mais te chamou, Sinhô, Sinhozinho, Nonô,
respondeste com tua maneira de arrumar as coisas, e, com teu consolo,
me abristes outro mundo, outra vida,
 
onde as lágrimas minhas, que não secam, eu as choro sem mágoas e sem fronteiras,
por chorar apenas, porque é com elas que expresso
minha alegria, minha vida nova, meu amor por ti
e pelo mundo, e por essa criança, tadinha,
que nunca existiu, essa criança que eu trago comigo,
flor que de mim não saiu, como se fosse,
da dor sofrida, a filha única de uma lembrança. (26-6-24)



[1] Teodora, aliás Alzira Moreira, nasceu livre em 1892, pouco depois da Abolição da Escravidão no Brasil de 1888, mas, nem por isso deixou de ser escrava das péssimas condições a que foram relegados os ex-cativos e a população negra em geral após aqueles acontecimentos, e, em especial, após o advento da República.

Órfã, e residindo com uma tia no Arraial de Santa Cruz, no distante interior de Goiás, a menina não teve instrução alguma. Precocemente desenvolvida, tornou-se alvo de cobiça de alguns homens locais, que a importunavam, continuamente, até que o desfecho fatal se tornou irreversível, e ela foi covardemente atacada e perdeu sua inocência pelas mãos de um degenerado mais perverso.

Infelizmente, Alzira não encontrou abrigo na família que lhe restava, essa única tia que, ansiosa por se livrar da sobrinha incômoda e difamada, achou por bem expulsá-la de casa, e, ao final de um tempo em que esteve desaparecida, Alzira chegou ao Convento da Anunciação, por volta de 1903 – a data é incerta – e imediatamente entrou para o serviço da cozinha, onde Cananeia a adotou como irmã e filha.



2.       A CRIANÇA




A criança coloca os pés no riacho,
e tenta pegar lambaris com as mãos,
só pela alegria do gesto, do movimento,
os lambaris nervosos, agitados na água limpa,
a risada que se ouve ao longe, na manhã que se levanta,
e Teodora é uma menina entre tantas, que brinca
enquanto as mães lavam as roupas no ribeiro,
e as põem a quarar sobre as pedras e a relva,
nas primeiras horas de cada dia.
 
Em sua alegria silenciosa, de quase palavras nenhumas,
Teodora ri com os peixinhos, que deixa fugir por entre os dedos,
seus amiguinhos de cada alvorecer, amigos para a vida inteira,
que ela levará consigo, na alma, no coração
em cada respiro, tesourinhos que Deus lhe pôs nas mãos,
para que os levasse, e cuidasse, e os amasse,
e com eles amasse o Pai, com seus olhinhos
que tentavam captar a iridescência do brilho
das escamas sob os raios de sol, fugidios e divinos.
 
Com as mãos na louça da pia, Teodora é quase uma menina
ainda, entre as Irmãs tão sérias do Convento,
e sua risada calada ainda corre por entre os dedos,
à medida em que a água escoa, e a espuma brinca
de fazer bolhas, que criam pequenos e instantâneos arco-íris,
tanto fugidios como divinos.
 
As palavras, como por toda vida, não lhe saem,
mas seus olhos reencontram os de Cristo, Nonô,
o velho crucifixo negro de fumaça,
que a olha, Teodora, atarefada, a cuidar de coisas de Marta,
mas com o coração de Maria, com a graça
a dedicar a esse mundo e esse tempo, seu amor de lambaris,
que lhe escorre por entre os dedos, e que de ficar deixam somente a imagem,
divina e fugidia, de cada dia, fugaz e escorregadio,
maravilhoso e sagrado, vivido nessa vida que passa. (11-5-24) 


 

 

3. CADA DIA É CADA DIA

 

3.1. RABANETES

 


Com as mãos fincadas na terra, a Irmã Teodora colhe rabanetes
na pequena horta do Convento, enquanto, da Capela,
elevam-se as doces vozes das irmãs a entoar
os salmos e hinos das matinas, ainda antes
de o sol brilhar, quando a neblina cobre os campos
e os pássaros começam a ensaiar os trinos,
e pequenos insetos movem-se na alegria do ar da manhã,
mais uma manhã, que se eleva sobre a terra
com o sorriso de Deus, esse Deus tão grande, tão pequenino.
 
Teodora ouve os cânticos, que falam de façanhas de homens santos,
de um testamento passado, quando um Deus iracundo
reinava sobre os violentos, quando o sangue corria,
como se o sacrifício de bodes e jumentos
expiasse os pecados horrendos das matanças
de homens, mulheres e crianças,
em nome de um Reino prometido, mas que ninguém vira,
 - os olhos injetados, as mãos na espada, a lança em riste -
e tudo isso passava por ser sagrado, para que, com voz chorosa,
fossem hoje cantados esses hinos, repetidos a cada dia,
como se a morte de tantos fosse motivo de memória,
de fé, esperança e alegria.
 
Teodora arrepanhou o hábito, descobrindo as pernas negras,
e abraçou os rabanetes recém-colhidos,
que ela não conseguia conciliar com aquele Deus
que cantavam as irmãs, brancas, recolhidas
sob o teto branco e as brancas paredes da igrejinha,
ao final do pátio, onde não pousavam as rolinhas,
nem cantavam os bem-te-vis, os sabiás e as cotovias.
 
Com os braços cheios de hortaliças, Teodora penetrou outra vez
no seu pequeno mundo da cozinha, e saudou,
pela milésima vez, o Cristo negro de fuligem,
que a olhava benevolente, do alto de seu doce suplício.
 
Teodora lavou as verduras na água fria, enquanto cantava
uma melodia qualquer de sua infância,
que falava de um menino, Jisus Cristinho, que lhe trazia lágrimas,
as mesmas que ela derramava, de menina, no colo da avó,
que lhe contava as histórias da senzala, do senhor da casa,
e de como, a cada cusparada que sofria, a cada chibata,
lembrava-se ela de Nonô, Senhor verdadeiro,
montado em seu burrinho, entrando em Jerusalém para morrer,
como um cordeiro, pelas mãos de seu povo, dos que curara há poucos dias,
dos que livrara de outras cruzes, outro chicote, outras chagas,
que ele sarava com suas palavras, seu amor,
sem nem precisar de unguentos e mezinhas.
 
Os rabanetes estavam lindos essa manhã, e Teodora ergueu os olhos,
e, da cruz, pareceu-lhe que Nonô Cristinho ainda sorria,
com sua avó ao braço, com ela mesma, tão menina,
e que uma lágrima, como seu próprio suor, escorria
no rosto negro, a lembrar a humanidade
do amor enorme que lhe tinha, Cristo, ali, em sua cruz,
e ela, ali, em sua cozinha. (10-5-24)
 
“Amo Jesus, adoro Jesus, reverencio Jesus,
agradeço a Jesus, exalto Jesus, santifico o nome
santíssimo de Jesus por agora e sempre,
e no último suspiro glorifico a Jesus
no santíssimo Sacramento da Eucaristia.
 
Peço ao céu e à terra, peço às flores do campo,
e peço às estrelas do céu, peço ao sol nos seus raios,
peço à lua na sua luz, peço às aves no céu, cantai!,
peço aos peixes na suas conchas, peço aos rios
no seu curso e belo correr, peço aos anjos,
peço aos santos, peço aos homens e às mulheres,
peço a todas as línguas e nações remotas
que me ajudem a dar graças
a meu Jesus Crucificado, porque nos criou
e nos remiu com seu precioso sangue,
 
e peço à Sagrada Família, a São João Batista,
a São João Evangelista, ao meu Anjo Custódio,
à santa de meu nome, que louvem por mim
ao Senhor por tantos benefícios e misericórdias
que de suas liberantíssimas mãos tenho recebido,
e que me faça uma criatura tal como ele quer...”[1].



[1] Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz, Oração, in Luiz Mott, Rosa Egipcíaca: Uma Santa Africana no Brasil, Companhia das Letras, 2023.



3.2. MUNDINHO

 


A cozinha, o quartinho minúsculo, o quintal,
o tanque, a roça, a lavadaria, o pomar e a horta,
o céu azul, o porto do rio e o mercado, o longo caminho,
de poeira e barro, os cachorrinhos da estrada, tudo isso
guarda Teodora numa caixinha, do lado de dentro da alma,
junto com a escuridão da noite, da lua que contempla,
e dos suspiros dos anjos, que escuta, quando se debruça à janela,
ou sai afora, na madrugada neblinosa, para alimentar as galinhas
e dar bom dia às minhocas.
 
Os corredores do convento, a capela, os quartos das Irmãs, os rostos,
o hall de entrada, a biblioteca e a sala da Madre, o refeitório inevitável,
essas coisas ficam em outra parte, também guardadas
num baú sem chave, com a tranca quebrada,
que fica sob a cama, junto com as sandálias
e umas poucas baratinhas desgarradas.
 
Mas o Cristo junto ao teto, o Cristo negro que a viu chegar,
menina ainda, sem saber sequer se cria, ou em que acreditar,
o Cristo que lhe ensinou tudo, ensinou-a a esperar,
que lhe disse, "fique Teodora", quando ela esmorecia a luta
e era tentada a retirar, o Cristo que a esvaziou de todo sofrimento,
e a encheu de um amor sem entendimento nem palavras,
esse Cristo, ela o guarda, separado, no próprio coração,
e o sente bater, junto com ela, a cada dia, a cada passo
nesse mundo, que é, afinal, um Paraíso e uma alegria, não um suplício,
uma montanha Santa, um Tabor, não um Gólgota, não um Calvário. (7-6-24)

 


 3.3. OS CORREDORES

 



A Irmã Teodora percorre os silenciosos corredores do convento,
ouvindo não mais que os passos de suas sandálias no piso cerâmico,
e o eco das paredes brancas que lhe respondem como uma jaculatória,
“Teodora, Teodora!”, e ela se assusta com o sussurro da cal,
e com os olhos dos santos que vigiam a cada metro, severos e indiferentes,
quietos no suportar cada martírio, firmes na fé, impávidos
ante as armadilhas do demônio, ante as tentações mundanas,
ante as moças que passam apressadas em suas vestes monacais,
deixando um rastro de pureza, enquanto pisam sua própria carne,
para oferecê-la no alvo altar das dobraduras do edifício.
 
Teodora ganha o espaço de sua cozinha, sua amada e suja cozinha,
a destoar de toda a limpeza do prédio, onde cada cama respira o ar lento
dos sonhos de meninas em encontrar o noivo, no dia do casamento,
suas lâmpadas cheias do azeite santo, brilhando na noite escura,
enquanto Teodora sustenta a velha lamparina com os restos de óleo da cozinha,
mistura de peixes, galinhas, carnes e verduras, um pouco de fumaça,
de lenha, de fuligem, da brisa que atravessa lá de fora,
que roça a horta e contorna o poço, e traz a umidade do tanque e dos varais
onde se lavam e penduram as roupas livres de pecados,
enquanto as de Teodora secam sobre a pedra, em outra parte,
mas recebem o mesmo sol que arde na pele e cura as chagas
que se abrem em todas elas, a cada noite insone, a cada vigília na capela.
 
Teodora coloca os dedos sobre a pia, e a torneira pinga sua água confidente,
e ela olha então, como sempre, o velho Cristo negro que jamais foi limpo,
pendurado em sua cruz, no alto junto à cumeeira, perto da trave
onde pousam passarinhos, onde moram as aranhas e convivem os morcegos,
e, como sempre, os olhos de Cristo lhe sorriem, e Teodora olha suas mãos,
sua própria pele negra, ela, perdida nessa Galileia dos povos, cuja única virtude
é o sorriso com que o carrega, como uma criança de peito, e que a cada dia oferece
ao amigo, que se curva e abençoa, e lhe envia um beijo, e mantém acesa,
dia a dia, a lamparina, com o mesmo óleo da cozinha, onde Teodora navega
entre ondas e mares de sabores e cheiros, sua Palestina, livre para vivê-la,
livre para amar a esse Cristo, que a espera a cada manhã, em silêncio,
com os olhos atentos, bem abertos, apenas para vê-la. (20-5-24)

 


 3.3. O MERCADO

 



A Irmã Teodora retorna do mercado, e os céus
parecem enviar toda a água do universo, estocada em nuvens negras
que se despejam, como se a terra fosse uma goela aberta,
sedenta de quanta chuva viesse, e Teodora, com a sacola de peixes,
os pés metidos no barro, que escorrega, pensa consigo,
que quem esquece a sombrinha, aprende com a água,
e deixa que a molhe a tempestade, que lhe fustigue o vento,
 
que escorra pelos cabelos, ensope o hábito,
que lhe cola nos braços, no ventre, nas pernas,
como se quisesse desnudá-la a procela,
como se às vestes brancas, preferisse a borrasca o corpo negro,
como se entre Teodora e Deus já não se interpusesse nada,
somente esse véu de água, que embaça o dia, mas revela
a natureza, em toda sua potência, na sua essência selvagem,
 
de que parecem recordar-se os peixes, dos tempos de maremotos,
do Kraken, do Leviatã, dos monstros de antigamente,
de todos os náufragos e recifes e rochedos,
das viúvas e dos órfãos cobertos de medo,
que vivem ainda na memória dos homens, que voltam os olhos aos céus,
e murmuram preces de criança quando o vendaval ergue uma muralha de noite,
e Teodora se vê pequena, no pleno teatro do mundo,
ela e seu pequeno Deus, que traz junto ao peito,
e que, sabe ela, acalma a ventania dentro dela,
e a protege do raio, do trovão, do ciclone e do redemunho. (12-6-24)

 


 4.       DEUS


 4.1. É TUDO AO CONTRÁRIO

 


É tudo ao contrário, e nenhuma palavra escreve,
e mesmo da pena do mais santo dos homens, quando muito,
nasce, não o que ele vive, mas só o que descreve,
e o amor que ele sente, permanece
intocado e ausente, sob a pilha de roupas com que se veste
a cada homilia, cada vez que é chamado a apascentar a plebe,
 
cada vez que sua sabedoria é posta à prova
diante do testemunho dos Padres, diante das construções
gramaticais de homens mais sábios do que ele,
e, ao final, o amor que sente, e que desejaria gritar nas praças,
é deixado à margem, para que brilhe o discurso
em palavras e nexos resplendentes, que nada dizem
além do que foi dito cem, duzentas, um milhão de vezes,
 
que Teodora escuta, a cada dia, na voz das Freiras,
devotas e eruditas, a verberar razões, cheias de construções astutas,
o vetusto manto de cultura que esconde a face oculta,
enquanto ela olha as próprias mãos, a pele negra
do corpo nu que o hábito cobre, o pano branco e encardido,
fazendo dela outra coisa, esse lençol de alvura que se move,
como se Teodora não fosse ela, como se o amor que pulsa,
sua única propriedade, não pudesse se expor nas ruas,
nas praças da cidade, gritando do alto das muralhas,
 
Teodora e esse amor, que a transforma e completa,
diante do qual não há espaço pra mais nada,
diante do qual não resiste palavra, diante do qual
o mundo inteiro se resume, e cabe em cada gesto,
em cada passo, em cada momento
em que o coração se faz peregrino, e caminha
ao nosso lado, maltrapilho e descalço. (6-6-24)

 


 4.2. A DÚVIDA

 


Dá-me, Senhor, alguma coisa,
porque preciso de não-sei-o-quê,
de qualquer maneira que seja,
pois sinto que me falta sei-lá-que-coisa,
para me completar não-sei-como,
de um modo que só tu sabes, e que eu não sei,
pra que eu chegue não-sei-onde, não-sei-quando,
não-sei-pra-quê, sei-lá, só sei
 
que sou essa coisa que pergunta, que a resposta sou eu mesma, essa sempre Teodora,
de alguma forma, que não entendo, e que não alcanço,
porque tudo o que disseste fala de um mundo e uma hora
que não existe, que não vemos nem compreendemos,
e não temos a menor ideia de teus sonhos, teus projetos futuros,
e o que queres de nós, agora, que não sabemos quem somos,
onde estamos, para onde vamos,
Senhor, que dizemos "faça-se em mim sua vontade",
 
sem sabermos o que é isso, o que nos espera,
ou como se transmutará essa realidade, que apavora,
que parece tão única, tão possante e definitiva,
que nada a poderia transformar,
enquanto nós, aqui, às escuras, tentamos apenas nadar,
e não afundar, e, quando muito, evitar, quando dá,
as arestas dos recifes que lanham a pele,
que nos cortam os braços, que nos riscam o rosto,
que nos tiram o sangue, apenas para jogá-lo ao mar, e que o bebam os peixes
e as fragatas que os comem, que nos bicam os olhos
para que vejamos, sob o sol inclemente que fustiga esse oceano e o evapora,
tua face borrada, ofuscada, imprecisa, insípida e inodora,
 
essa face que amaríamos, apenas pudéssemos contemplar,
mas que, ao contrário, só se mostra por um segundo
antes que a cubram as nuvens e comece a tempestade,
que nos afoga, entre lágrimas, enquanto dura a noite, que chora
até que rompa o dia, e os pássaros cantem, e que,
de volta à vida, nos vejamos outra vez no mesmo quarto,
na mesma cama, a calçar as mesmas chinelas, e sairmos para fora,
embrulhadas numa manta, a dar comida às galinhas,
a tirar leite das cabras, a acalentar o fogo, e recomeçar,
como todo dia, sob teu olhar que pende da cruz junto ao teto,
outra jornada, com a alegria de não sabermos nada
desse Paraíso prometido, seja ele como for, onde quer que esteja,
e o modo de irmos a ele, que não seja amando a vida,
o mundo e os homens, que é onde ele, verdadeiramente,
está, aqui e agora. (8-6-24)

 

 4.3. O AMOR DE CRISTO

 



“A força de atração em Cristo é o Seu amor.
Esse amor se revela no ato da encarnação
e na forma de Sua vida terrena.
Ela se revela mais enfaticamente
no modo de Seu sacrifício, e com mais eficácia
no seu estado reerguido e exaltado
do qual o amor irradia como Espírito Santo.
 
Todas essas maneiras de ser, concentradas
no estado reerguido de Cristo,
nos atraem para a ressurreição
como o clímax da união com Ele e para conosco,
fazendo uso simultâneo tanto de nossos anseios naturais
como de nosso sacrifício que é alimentado pelo Seu sacrifício.
 
Embora Cristo tenha ascendido, ele não obstante
permanece em contato conosco
e com os mais profundos níveis do mundo
por intermédio da força de atração exercida por Seu amor.
 
‘Vede que eu estarei convosco até o fim das eras’.
Essas palavras foram ditas pelo Senhor
para aqueles que foram enviados
para chamar o mundo para Ele,
mostrando que Ele próprio conduziria
a todos os homens para Si por meio deles.
 
É uma verdade geral que o amor atrai e conecta.
Ele é uma força unificadora que nasce da razão divina
e da vontade divina na qual as demais razões e vontades
têm sua origem, e no qual e através do qual
todas as coisas podem encontrar sua harmonia comum.
 
A razão divina é a base da harmonia
de nossas razões e vontades que são unidas
intimamente, e essa união se realiza por meio do amor,
assim como a união de Deus com todos os homens
e desses entre si se processa através do amor.
 
A união final de todos em Deus,
o objetivo para o qual Cristo deseja conduzir os homens,
é equivalente ao Reino de Deus, o Reino do Amor.
Essa é a proposta de toda a obra de salvação de Cristo,
uma obra que é inconcebível sem esse objetivo escatológico
e sem nosso esforço em direção a ele[1]”.



[1] Dumitru Staniloae – A Doutrina Ortodoxa da Salvação.



4.4. O ROSTO NEGRO

 


Teodora contempla as imagens da Capela,
silenciosa e escura, enquanto varre o chão,
e, como sempre, se espanta com os anjos,
cuja alvura vai além da própria cútis,
sempre muito branca, rosada, marmórea,
como sepulcros de gente que se movem,
com cabelos dourados, olhos claros,
sempre muito limpos e de banho tomado,
 
e Teodora se pergunta, ali, sozinha, sem que ninguém responda,
onde estarão os anjos negros?, onde os morenos,
os de cabelo enrolado, onde os pretos?,
na cozinha?, no serviço?, varrendo os céus, para que não reste cisco,
onde estarão os meus, como aquele Cristo, negro negrinho
 
que vela por mim quando cozinho, que me ensinou tudo,
que não me deixa um só minuto, onde ele,
que não o vejo, nessa igreja (onde só os mais santos habitam?),
onde meus próprios santos, meu próprio Deus,
onde os mártires, onde os aflitos, onde as mãos que trabalham
que fazem o pão, que amassam o barro, que colhem a uva,
e estão sempre prontas a preparar o mosto,
sempre prontas para mais um peso, mais um passo, mais um esforço,
onde estou eu, onde está meu corpo, onde meu rosto? (7-6-24)
 


4.5. DIÁLOGO

 


Teodora olha o Cristo que pende junto ao teto da cozinha,
"Senhor, sei que não és tu que aí estás,
sei que tu és mais, e não tens corpo,
sei que estás mais na madeira de que és feito,
do que na imagem que se fez nessa madeira,
mas sei também que estás na madeira, na imagem
e em tudo o que te rodeia,
e que estás em mim, como em toda a natureza,
e que estás além, e ao mesmo tempo aqui,
e que tudo está em ti, que és tudo, e todos, eternamente,
sem que nada te falte, nem nada que se te retire,
 
e que és Amor, e que esse Amor que tu és
é tudo de que a Criação necessita, e que necessito eu,
tua serva mais humilde, aquela em quem te fizeste
presente, na minha ausência, e ausente, quando me apresento,
e em cada um desses momentos, te sinto,
mais do que te penso, e te vivo, mais do que me entendo,
e te vejo, onde estás e não estás,
mas como se estivesses, agora e sempre, aqui como além,
e pelos séculos dos séculos, amém". (10-6-24)




4.6. NONÔ

 


Nonô, tu sabes, como foi difícil amar-te!, ao ver-te,
pela primeira vez, aí, onde estás, tão alto pendurado,
negro de carvão, como nunca vira eu,
tão severo, calado, tão sofrido!, quem eras tu, então,
quem era eu, naquele dia primeiro, que chegava ao Convento,
sabe de onde Deus, de tão longe, eu, nada além
de um choro que chorava, uma criança sozinha e assustada,
 
um graveto, a te olhar, a ti, que pairava sobre tudo,
nessa cozinha do outro mundo, onde o fogo não se apagava,
onde as panelas conversavam e cozinhavam sozinhas,
onde o Espírito tinha a forma da fumaça que se erguia das brasas
do fogão centenário, da respiração de sua fornalha,
 
– e, de repente, aquela igreja que se movia ali, um navio, uma catedral –
a negra Cananéia em seu avental, que dominava tudo,
 
e me tomou pelo braço, e enxugou meu rosto com um pano sujo,
e me apertou contra o manto, e me sufocou contra sua carne terna e imensa,
e eu, o graveto, não tive outro remédio do que amá-la
com um amor gigantesco, maior do que eu,
que me dilatava, me virava do avesso, aquela mãe negra,
sem uma palavra, cheia do Espírito, que extravasava,
que me fez respirar, depois de tanto tempo, e eu não pude,
naquele momento, senão desabar, e chorei, chorei,
chorei até secar, lágrimas que meu amor subitamente mandava,
a brotar dos meus olhos, como cascatas, e chorei quarenta dias,
 
e cada vez que a via a ela me atirava, até que me afastou, e disse,
"chore pelo que vale a pena", e apontou a ti, meu Cristo, Nonô,
a ti, meu pretinho, de um modo como eu nunca tinha visto,
e naquele quando a fumaça do fogão era um incenso,
que se adensava e adensava, e eu vi o Espírito crescendo,
com um perfume tão claro e intenso,
enchendo todas as coisas, e tudo se transmutava e era perfeito,
aquela cozinha, aquela negra, aquela maravilha,
e eu, a pretinha, ali no meio, que vi teu rosto por trás da neblina, e vi,
 
e nunca mais desvi, que me amavas, desde o primeiro momento,
como amara eu a Cananéia, tua torre, meu sustento,
como ela própria me amara, no instante em que me viu,
a mim, que me tornaria parte dela, como é parte de mim Maria,
aquela que virá e que eu não conheço ainda,
como parte somos de ti (que és inteiro e não tem partes),
como somos todas uma, nesse amor, que primeiro nos uniu,
para que te amássemos em seguida, a ti, Cristinho,
para nos tornarmos tuas, e tu em nós, reunidas em teu nome,
nessa cozinha santa e mágica, onde estamos sempre, como se fôssemos uma,
nós, Cananéia, Maria e eu, as três, as duas, uma. (2-7-24)

 


 4.7. O CRISTO AÇOITADO

 


Pois como poderia eu chamar-te “Senhor”, Nonô,
se “senhor” era o fazendeiro, o capataz, o que mantinha
nossas mães e irmãs como bichos do mato, enquanto Tu,
Cristinho, como a nossa raça preta, foste açoitado,
e de tuas costas jorrou o mesmo sangue de nossos antepassados,
 
e sofreste o mesmo escárnio, e foste desumanizado,
para que sobre tuas roupas jogassem dados, e despido
te exibissem como numa feira de horrores,
como num mercado de todas as dores do homem,
 
como se não merecesses sequer ser chamado humano,
mas ganhastes essa alcunha, que era um desdém,
Rex Judeorum”, um nome dado a ninguém,
que te foi imposto, como a Fatumata chamaram Joana,
um nome que não era o dela, como os nomes que deram
 
a Tecla, Ana e Cananéia, como a mim chamaram Teodora,
para que, mais comodamente, pudessem esquecer-se
de que aqui bate um coração de gente, e somente
a Madre, do Egito, parece nos conhecer, e reconhecer em nós,
em cada uma de nós, que somos nós não dos homens,
 
nem de nenhum senhor, mas de Nonô, nosso Cristinho,
esse nome que bordamos na alma com carinho de mãe, de filha,
e com ele atravessamos o oceano que é esse mundo,
e com ele habitamos, cada qual de nós, em sua ilha. (14-1-25)

 


 4.8. TEODORA E SEU CRISTO

 



Teodora sobe um a um os degraus
da precária escada de madeira, alta como o Calvário,
sustentando na mão o balde, o pano, a escova,
enquanto se aguenta no alto, até chegar ao Cristo,
que a espera, junto à cumeeira, o Senhor, Nonô,
 
negro de fuligem, de fumaça, de todos os cheiros
e temperos da cozinheira, Nonô, que ela acena
a cada manhã, e une as mãos e murmura uma prece,
tão pequena, que é quase um átimo, um sopro, um nadinha,
 
"Nonô, sua bença", e afunda na cozinha, com sua simples crença,
e a certeza absoluta de que, de lá de cima, ele desce,
a lhe fazer companhia, ele também, tão simples,
em sua túnica rota, as sandálias desconjuntas,
esse Cristo negro, só dela, banhado em gordura e azeite,
com suas mãos sujas, os pés imundos, cansados da via,
a auréola fosca sobre a coroa de espinhos,
 
e Teodora se equilibra no topo da escada, e molha o pano
na água do balde, ensaboada, e o aproxima do rosto de Jesus,
determinada à sua purificação e limpeza, como ordenado,
e lhe toca a face, e dos olhos do Nazareno escorre uma gota baça,
uma lágrima impura, impregnada de toucinho, de ervas, do fumo da lenha,
do suor de Teodora que pinga sobre a mesa, sobre a pia,
 
que escorre como água benta, a lavar verduras, frutas, pratos,
travessas, panelas, frigideiras, essa lágrima,
como o café, como o feijão, como pimenta, como o caldo que tempera
e dá sabor aos alimentos, essa lágrima
 
que Teodora bebe, e afasta o pano, e olha Jesus nos olhos,
que nunca vira tão perto, o Nazareno, negro como ela,
sujo como ela da trabalheira que tivera nessa vida,
o mesmo cheiro, o mesmo sal da terra, Nonô, seu Nonô
que lhe segreda, "Teodora", num murmúrio silente,
e nessa única palavra tudo se resume, ilumina e acontece,
 
e Teodora estremece, e desce a escada, lentamente,
em santa desobediência, e fica ali Cristo,
sujinho como criança em recreio, "Nonô minino",
que lhe sorri e agradece, e em seus olhos,
seu rosto encardido, existe uma bênção, uma alegria, uma verdade,
de que a vida, afinal, é mais do que terrestre,
uma vida que se multiplica e cresce,
e que, onde está o Filho presente, estão os céus,
e a Trindade, e a santidade,
 
uma santidade que Teodora desconhece,
ainda que não saiba, ainda que só o sinta,
ainda que, para ela, Nonô seja só isso,
esse homem que foi torturado, que viveu
ao léu, pelas cidades e desertos, sem eira nem beira,
um Deus, tão grande e tão submisso, coberto dessa fuligem,
que, com tão grande amor, lhe oferece, todo dia,
Teodora e sua cozinha, Teodora e sua sina,
Teodora, sua amiga fiel e companheira. (25-5-24)

 


 4.9. NONÔ, DE NOVO

 


Teodora dos olhos doces, Teodora dos braços abertos,
Teodora do sorriso, que volta da roça com seu corpo negro,
e o hábito que foi branco um dia, - que hoje é erva, raiz e terra -
Teodora, com as mãos sujas e puras, o avental que nem parece,
Teodora e os passarinhos, que já não se assustam dela,
e as Irmãs, que ainda sobressaltam quando ela passa,
sobraçando os legumes, as frutas, o peixe da refeição,
quando amassa o pão e mói a farinha,
 
Teodora que varre cada centímetro de chão,
que dobra os lençóis, que lava, enxágua, quara e passa,
que conhece de cor os hábitos, as meias e as roupas de baixo,
Teodora que canta baixinho, velhas cantigas de escravos,
que lhe ensinaram a mãe, a vó e a bisa,
 
Teodora que olha a vida efêmera como se estivesse morta, feliz,
como se só lhe importasse agora a fruição desse Paraíso
que é o agora, esse momento amoroso que não varia,
que cancela o tempo, que iguala o clima, que não esquenta
nem esfria, e que torna real cada pessoa, quer venha, ou vá, ou fique,
 
Teodora, no seu silêncio, no seu fogão, no tanque, na horta, na pia,
Teodora e seu Cristo, Nonô todo feito de ternura,
Teodora que não sabe ler, ou quase, mas que sabe,
de algum modo, que a vida não é mais do que o que sentimos,
e que o que sentimos na vida, que mata a morte,
que torna cada minuto eterno, e a eternidade um mínimo,
é essa mistura de pão e vinho, que comemos e bebemos,
e a que damos o nome de carinho. (27-5-24)

 


 4.10. NÃO HÁ PALAVRAS NA LUZ

 


Não há palavras na luz, não há palavras no fogo,
não há palavras na água, na terra, no ar,
não há palavras no feijão com toucinho na panela,
na faca que corta o aipo, nos grãos de milho sobre a mesa,
na tábua em que se deita o peixe, na lenha que fumega,
não há palavras no vapor que sobe, no cheiro que se espalha,
 
não há palavras nas mãos de Teodora, que, no entanto,
escuta, como que distante, vinda de dentro,
a mesma vozinha de sempre, dizendo "bença",
que ela repete, sem dizer nada que se ouça,
 
"Nonô, bença Nonô, bença Nonô",
e numa mágica sem dono, tudo se faz, sem que nada mova,
– "faça-se em mim" – para que, através de mim se faça,
eu, a serva desse convento, a menor das Irmãs,
que se faça em mim, que as alimente, que as conforte
com lençóis limpos, com roupas quentes,
 
eu, a serva do Senhor, Nonô, que o serve quando serve a elas,
ele, por quem tudo e nada acontece,
e não há vazio que exista, nem nada que fique por se fazer,
e em tudo se põe presente o amor,
e tudo se mistura, se modifica e se completa,
como se faz a poesia nas mãos do poeta,
sem que precise que a menor palavra seja dita,
ou que a menor oração se torne concreta. (28-5-24)
 
“O deslumbramento é a total elevação das potências da alma
para reconhecer a glória imensa e se unir a ela, ou ainda,
é a pura e total elevação voltada para o poder infinito que reside na luz,
mas o êxtase não consiste apenas no arrebatamento
das potências da alma para o céu: ele nos despoja totalmente desta sensação,
e o amor – o eros – é tanto uma coisa como outra:
ele é a embriaguez do Espírito que tensiona o desejo[1]”.



[1] São Gregório o Sinaíta, Sentenças Diversas, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume 2.



4.11. FOLHAS CAÍDAS

 



Teodora observa as folhas caídas pelo chão do pomar, cada qual um véu,
em cada uma delas um mistério tão profundo
quanto o da própria Divindade no mais alto céu,
tão incompreensível à razão, tão intraduzível, tão único,
 
como se cada uma fosse uma pessoa inteira,
com toda sua vida ali presente, sua infância, sua juventude, depois a maturidade,
a velhice e, enfim, a morte, perpetuando-se pela vida
na forma das vidas que delas se alimentarão, e transformando-se,
 
de glória em glória, de perfeição em perfeição,
nesse infinito ser, no seio do qual nada morre,
porque infinito, porque, sendo infinito, não pára nunca,
porque está sempre a criar, e a recriar,
e Teodora se vê, velhinha, a bater às portas do Paraíso,
onde um anjo a recebe e a envia a novas aventuras,
de glória em glória, de vida em vida,
como numa avenida que começa e não tem fim,
 
porque a casa do Pai tem muitas moradas, e nunca cessa
a viagem que a alma faz, desde que encarnou aqui,
e que ela levará consigo, eternamente,
não por imortal que seja, mas pela graça de ter vivido,
e viva permanecer, no bojo de Deus,
que é o Deus dos vivos, não dos mortos,
o Deus que ela pressente todo dia, a seu lado,
 
dentro de si presente, pulsando em suas veias,
luz e sombra de luz, dentro e fora,
janela escancarada para a paisagem, sopro que não se acaba,
porta aberta, eternamente girando nos gonzos,
essa brisa que entra e bate no rosto, que desperta, que ilumina,
esse Deus que nunca pára, Teodora, Teodora,
em cada folha, viva ou morta, em cada pedra no caminho. (29-5-24)

 


4.12. O PÃO

 


O pão sai do forno, fumegante e quente, ainda pulsando vida,
como um corpo íntegro, reduzido à sua essência de matéria,
o Deus encarnado, acima de todos os espíritos,
que concede a vida aos que dele se alimentam, o sustento,
o pão de cada dia, o milagre que, pelas mãos de Teodora,
se faz e refaz na mesa comum do Convento,
 
enquanto ela, na cozinha, junta as migalhas na tábua, em silêncio,
e belisca com seu café bem quentinho, e sorri
para o Cristo lá no alto, que pisca um olho,
e, nessa cumplicidade, todo o mundo está feito,
e ela balança os pés, sentada no banco de madeira,
e olha pela janela a neblina que se ergue
para deixar bater a luz do sol sobre o varal, e contempla
 
onde se penduram as vestes das Freiras, o algodão inocente,
que foi flor e agora veste a gente, e bebe do mesmo sol,
da mesma luz que ilumina o rosto da cozinheira,
que sente seu pequeno pão a lhe esquentar o ventre,
sente que está viva, hoje e sempre, que não lhe falte o pão,
que não lhe falte o amigo, que de cima a abraça,
e lhe envolve todo o corpo num ar de eternidade,
que ela respira, e sabe que não morrerá nunca,
porque a vida que há nela já não tem passado, nem futuro,
mas, a cada instante, só o presente. (30-5-24)
 
“E o pão e o vinho não são imagens do Corpo
e do Sangue de Cristo, longe disso,
eles são o próprio Corpo de Cristo,
que foi visto, e seu próprio Sangue,
‘Pois minha carne, disse ele, é um verdadeiro alimento,
e meu sangue uma verdadeira bebida’, e assim
eles são o Corpo e o Sangue de Cristo,
e eles contribuem para formar nossa alma e nosso corpo.
 
Eles não são consumidos nem se alteram,
não são evacuados, ao contrário,
fundamentam e sustentam nosso ser,
e representam a purificação de toda mácula.
 
Mesmo que Cristo receba de nós ouro impuro,
ele o purificará no fogo do julgamento,
para que não sejamos condenados
junto com o mundo no século futuro.
Purificados por ele, somos unidos ao Corpo de Cristo
e a seu Espírito, e nos tornamos Corpo de Cristo.
 
Este pão representa as primícias do pão futuro, o pão supraessencial,
e esse pão supraessencial significa, seja o pão futuro,
o pão do século por vir, seja o pão que recebemos
para sustentar nosso ser, pois a carne do Senhor
é espírito vivificante, porque ela foi concebida
a partir do Espírito vivificante,
e o que nasceu do Espírito é espírito.
 
E não digo isto para suprimir a natureza do corpo,
mas porque quero mostrar o que existe nele
de vivificante e divino. Assim, o pão e o vinho
são chamados de imagens das coisas por vir,
não porque não sejam verdadeiramente
o Corpo e o Sangue de Cristo, mas porque
agora é por intermédio deles que comungamos
da Divindade de Cristo, e que então seremos
unidos a ele apenas pela visão do intelecto[1]”.



[1] Calixto e Inácio Xanthopouloi, Centúria Espiritual, 92, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume 3.



4.12. O PERFUME

 


O perfume da ascensão de Cristo ao céu se interioriza,
banha a carne, lubrifica os sentidos, estremece
e sobe pelas veias e entranhas do corpo de Teodora,
e inebria a alma, e alivia as dores,
e ela se deixa invadir pela beleza do dia, do céu chuvoso,
dos pingos d'água que escorrem do beiral junto à cozinha,
da sinfonia dos sapos no banhado, dos grilos que se calam,
dos pássaros que se agasalham em seus ninhos,
da dança das chamas no fogão, do feijão que ferve,
do próprio Cristo, lá no alto, quieto e altivo,
 
e Teodora escuta um poema sem palavras,
que o primeiro poeta redigiu, e gravou na natureza,
e nos deu os olhos e os ouvidos, para que o leiamos,
para que aprendamos com a beleza que existe,
no todo e no pequeno, no relâmpago que ilumina o mundo,
na chuva que despenca, no fio de água que se forma na calçada,
junto à porta, nos respingos que salpicam o piso,
nas lágrimas que escorregam nos vidros das janelas,
 
e pelas faces afogueadas e enrubescidas, nos corações
que se derretem no cadinho dessa alquimia impossível,
chamada vida, essa palavra sem nome, que só significa,
a moeda desgarrada, a ovelha perdida, que Cristo deu
a nós, para que busquemos, na dádiva da existência,
os sentidos divinos do universo, em sua forma original de poesia. (31-5-24)
 


 4.13. LAVANDO ROUPA

 


Há milhares de anos, a mesma Teodora se curva
sobre o trempe de lavadeira, e esfrega os panos
para que fiquem limpos, para que se livrem da sujeira,
que a leve para bem longe o riacho sob a mesa,
para que o branco seja branco, o preto preto,
e o vermelho seja rubro como o pôr-do-sol, e que, ao secar,
brilhem à luz mágica que impele os dias em frente,
esse maná de fótons,
 
essa festa angélica que ilumina os abismos
em que vive a espécie humana, e dos quais só escapam
as lavadeiras, que conhecem a luz e a sujeira,
que sabem de onde sopra o vento, que veem através das fibras dos tecidos
as menores maravilhas de Deus, que as transportam
para esse lugar sempre-vivo, onde cantam pássaros
que em outra parte inexistem,
onde voam insetos multicoloridos, e passeiam,
ao final da tarde, os anjos, de volta de suas andanças pelo mundo,
e cumprimentam aquelas que voltam do serviço,
 
a cesta cheia das roupas e lençóis e toalhas da raça humana
sobre a cabeça, todas as Teodoras do mundo,
levadas pela mão pelo mesmo Cristo, que as conhece uma por uma, e chama
a cada qual pelo nome, e está com cada uma por inteiro,
aqui e agora, no seio pulsante de suas almas, atentas e presentes
como se lavassem a própria toalha de Pedro, ou aquela
que foi posta sobre a mesa, na ceia, onde Judas derramou o molho,
 
manchando a textura do urdume, da trama que fez a lançadeira,
esse barquinho de fios que, como a aranha, tira de si mesmo
a vida do tecido, que essa água bendita do arroio molha,
e rega, para que em seus fios corra, para que cada Teodora do mundo
tenha a sua parte, e receba o mesmo amor presente,
e bata o pano sobre a pedra, e ponha a secar peça por peça, a quarar,
e depois se sente no mesmo lugar à ceia. (3-6-24)

 


4.14. O JARDINEIRO


 


Nos olhos do jardineiro, brilham as distâncias percorridas,
pousa a imensidão dos campos e dos desertos,
luz o firmamento tantas vezes refletido, e agora
essa pequena mulher, negra como a origem de tudo,
a colher os frutos que a natureza dá,
ela, zelosa e quieta, a murmurar uma prece, uma cantiga,
o mantra de todo dia, enquanto se move, como sem peso,
em meio às árvores do pomar, pelas fileiras da horta,
entre porcos e galinhas,
 
tendo nos olhos, não as distâncias cósmicas,
os mistérios de Circe e das sacerdotisas,
mas os olhos ancestrais da raça humana, os pés
que realizaram toda a marcha dessa ida,
o ventre grávido de toda a Criação,
os seios que amamentaram os rios do Paraíso,
e o jardineiro se comove, e sente, em suas entranhas,
um amor cheio de gente, onde as multidões se reúnem, tontas,
desde o primeiro peregrino errante, extraviado,
em busca de um sentido qualquer, que lhes dê um rumo,
um prumo, um destino, quem sabe um agora,
 
que justifique, que explique, que encoraje
a que caminhem de pé por mais um século, talvez dois, talvez três,
talvez até que se esgotem todos os tempos,
e se quebrem os mecanismos dos relógios,
e se risquem os calendários, e não haja mais homens nem mulheres,
nem gregos, nem judeus, mas apenas jardineiros,
no jardim imenso da vida, que continua,
 
pelas mãos negras de Teodora, a colher tomates,
pairando sobre a terra como uma gaivota,
como os pássaros que contemplam o mar,
que conhecem a infinitude dos horizontes, e de cada palmo
palmilhado no barro, a arrancar ervas daninhas,
e depositá-las de lado, sem raiva, sem um gesto que seja,
erguendo-se a seguir, para se encaminhar à sua cozinha,
sua marcha de todos os dias, e o jardineiro apenas espia,
 
com esse amor tão grande, e ele fecha os olhos e sobe, em seguida,
ao sol, às estrelas que ninguém vê de dia,
e assenta-se a contemplar o mundo, e toda a humanidade
resumida nela, negra e humilde,
e sente, que todos os homens e todas as mulheres, têm,
nos gestos, no silêncio e nos movimentos dessa mulher,
como que pagas, como que sangradas,
como que resgatadas todas as suas dívidas. (26-5-24)

 


5.       MARIA

5.1. A VIRGEM

 


A Virgem lhe sorri, de seu retratinho junto ao leito duro,
iluminada pela pouca luz que se infiltra pela fresta da janela,
que não fecha direito, e por onde entra o vento frio,
 
que eriça os cabelos da nuca, e arrepia a pele,
mesmo sob o pesado cobertor de campanha,
e Teodora lhe devolve o sorriso, com doçura e paciência,
 
e é como se as duas fechassem os olhos, e se recolhessem
para algum lugar distante, onde se encontrassem novamente,
além do mundo dos homens, além do bulício, além do barulho das ruas,
além das promessas, do falatório, do teatro e dos comícios, longe,
 
onde só as Marias se entendem, onde somente elas vivem,
onde podem exercer sua ciência, sua cura,
suas vidas de mulheres, sua sabedoria de ser,
 
para tudo o que der e vier, elas, na sua certeza, amor e fé,
porque, se o homem é o homem, tal como é,
o verdadeiro Homem é uma mulher.

 


5.2. MARIA

 


Ah, Maria, essa menina, essa judiazinha, meio bizantina,
meio africana, com seus cachos de cabelos negros
e seus olhos escuros, marrons, profundos,
castos como olhos de anjo, e sua tez, queimada do sol da Palestina,
e os pés descalços, as mãos pequenas, o talhe muito certinho,
 
um pedacinho de gente, um quase nada,
a carregar a barriga prenha, sob o maldizer das comadres,
Maria, que aos crepúsculos e nas madrugadas
olhava para o céu, buscando respostas
para tudo o que com ela se passava, Maria,
 
para quem os dias se sucediam, implacáveis,
aproximando a data inefável, em que viria ao mundo
a criança tão milagrosamente concebida,
Maria, a serva do Senhor, que aos pouquinhos se dava conta
da imensidão de seu corpo pequenino, e da grandeza do momento
em que viria para a luz desse mundo a Luz do universo,
 
na pessoa doce e minúscula de um menino, Maria,
que, de tudo o que foi, restou ser mãe,
canal, seio, conduto, mas mais que tudo,
foi vontade, foi Maria – a que aquiesceu – foi Maria
sem cujo "sim" o próprio Deus ficava atado,
 
Maria, Maria só, silenciosa Maria,
Maria do parto na gruta, num deserto que era pura imensidão,
Maria das bodas, Maria do Calvário, Maria da Cruz,
a que guardava todas as coisas no seu coração.

 


5.3. AINDA MARIA

 


Maria, a quietinha, falar o quê?,
desde pequena no templo, a entoar os Salmos,
que sabia de cor e salteado, a – preciso fosse –
dormir sentada, e a fazer o que lhe pedissem
ou o que fosse ordenado, Maria sempre quietinha,
Maria que saiu tão cedo do Templo, sob a guarda
de José, tão mais velho, José, viúvo
e seus dois filhos, carpinteiro, devoto e justo,
José, que não a tocaria por nada no mundo,
que a teve acolhida para o que desse e viesse,
 
e Maria viu-se prenhe, e – coisa comum naquele tempo,
ao que parece, e a coisa mais normal desse mundo –
o anjo garantiu-lhe, fique tranquila, são coisas do divino,
há de te nascer um bebê que mudará a história,
que te fará muito feliz, até uma certa hora,
em que uma espada te atravessará o peito, mas é preciso
que assim seja, e você, querida pequena,
que aquiesceu à vontade do Céu, será lembrada,
será elevada, Maria, a quietinha, a que não falava quase nada,
 
e que só dizia o certo, que foi feliz, que quis,
que aceitou ser assim, que riu e chorou, Maria,
de quem não se sabe quase nada, que viveu
uma vida tão reservada, como se não existisse,
como se toda sua existência tivesse sido
quase que uma única oração, silenciosa, Maria,
de grandes olhos negros, séria menina,
que guardava todas essas coisas no seu coração. (13-1-25)

 


 5.4. A PORTA DE AMOR

 


Maria, a Porta de amor pela qual passou Cristo
para vir à terra, para se tornar homem, para morrer aqui,
Maria, essa porta de puro amor – o que poderia ser,
senão uma mulher? – porta de pura coragem e entrega,
que se entregou a um destino inefável, e que,
depois do prodígio, manteve-se intacta, a mesma Maria,
a mesma menina (e eu olho essas meninas do Convento,
e me pergunto quem são elas realmente),
 
Maria, que representa a perfeição do ser humano,
sua plena entrega a Deus, Maria que é uma mulher
(para confusão do Papa e de todos os cardeais),
Maria que não usa paramentos, cujo altar é seu próprio ventre,
Maria que não celebra ofícios, vésperas, matinas, missas, liturgias,
Maria que não prega, que não nos deixou sequer uma homilia,
 
Maria, cuja toda Teologia consistiu em dizer “sim” ao invés de “não”,
Maria, essa Porta voltada para o leste do universo,
por onde entrou toda a luz do mundo, afastando a morte e a noite,
Maria, que guardava todas essas coisas em seu coração. (13-1-25)

 


5.5. O FINITO E O INFINITO 



Quando dizemos “agora e sempre, e pelos séculos dos séculos”,
estamos realizando a penetração desse “agora” no “sempre”,
do menor instante nos séculos dos séculos, do finito,
do mínimo, do minúsculo, daquilo que menor não há,
no imenso, no gigantesco, no infinito, como quando
diz Maria, “eis aqui a serva do Senhor”, e nesse “eis
está contido o “agora”, e esse aqui é inequívoco,
 
e a serva é o que há de mais frágil e mais humilde, e o Senhor
o que há de maior e mais poderoso, e, no entanto,
eles se interpenetram num abraço amoroso,
e a pequena criatura porta em seu seio o universo inteiro,
e o mais alto se une ao mais baixo, e o útero humano
contém a totalidade do divino, e o tempo e o espaço
se curvam diante do milagre dessa justaposição,
dessa fusão, dessa mescla, desse amálgama,
 
e toda a criação se espanta que a menina não trema,
e que não haja temor em seus olhos escuros,
e que sua virgindade não tenha sido tocada,
e sua inocência ainda perdura, de um modo misterioso
do qual não temos a menor noção, e Maria, a pequena Maria,
se recolhe em silêncio, e guarda todas essas coisas no coração. (14-1-25)
 
Ó Virgem Santíssima, em cujo seio imaculado se quis encerrar
Aquele que os mesmos céus não podem abranger...[1].




[1] Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz, Oração a Maria, in Luiz Mott, Rosa Egipcíaca: Uma Santa Africana no Brasil, Companhia das Letras, 2023.



6.       A CORRENTE INDESTRUTÍVEL


6.1. A GUERRA DE CADA UM

 


Cada humano é chamado a lutar sua guerra,
a guerra de fora, junto com todos, uma disputa,
a guerra de dentro, que só ele convoca e luta,
e uma terceira guerra, que faz com suas irmãs e irmãos,
unidos numa espiral, uma irmandade, uma justa,
que justifica sua passagem por essa terra
 – e foi aqui que vim dar, quando cheguei ao Convento,
e me levaram a ela, a Irmã Cananéia, com seu tamanho de igreja,
e seus braços de catedral.
 
E entendi que, ao longo do tempo, nos dávamos as mãos,
e que a que chegou primeiro estava conosco em união,
e que nosso sangue se misturava, e que éramos filhas,
finalmente, do mesmo Ancestral, que nos vivificava com seu Espírito,
depois de tudo o que nos ensinara, no silêncio do seu martírio,
naquela cruz, em que, pendurado, ainda assim nos sorria,
e nos incentivava a marchar a seu lado, até que o tivemos dentro de nós,
para nunca mais o abandonarmos.
 
Cheguei a esse Convento de Freiras quase transparentes,
almas brancas que circulam, obedientes, pelos corredores, câmaras,
salas, biblioteca e capela,
mas que nunca vêm à cozinha, onde a verdadeira vida
acontece, nua e crua, verdadeira e plenamente,
cheguei a esse Convento, sem saber para o que, na verdade, era.
 
Somos tão poucas, chegando, uma por uma,
Fatumata Joana Batista, Tecla, Ana, Cananéia,
e essa Teodora, que escreve,
e que espera pelo dia em que a chame aquela serra,
por onde se foram as outras, e que certamente ali estão
pacientemente à minha espera.
 
Anunciaram-me agora a chegada de uma moça nova, Maria,
que virá se juntar a nós nessa corrente, que é uma festa,
dos nossos corpos, almas e espíritos, tornadas, cada qual,
uma pessoa completa, atadas ao mesmo Cristo, essa argamassa de Amor,
que preenche tudo o que há no mundo, sem que a gente se dê conta,
sem que o agradeçamos por tudo o que é dele,
que nos empresta, e que devolvemos a ele, o Rei, o Ancestral,
o Pai dessa raça nova de gente, gente em Espírito,
que Paulo chamou de Novo Israel. (5-7-24)
 
“Somente se todos os homens se unirem
eles poderão transformar o mundo
e responder ao chamado de tratar o mundo
como um dom, como os meios de trocas mútuas.
 
Quando nós compartilhamos dos bens materiais
do universo devemos estar conscientes
de que estamos nos movendo na esfera de Cristo,
e que é por meio da utilização dessas coisas materiais
como dons para o benefício uns dos outros
que podemos progredir em nossa união
com Cristo e com nosso próximo.
 
Também devemos estar conscientes
de que quando o universo material
se torna o meio mediante o qual comungamos em amor,
estamos aí também comungando em Cristo.
 
Assim é que o universo pode ser chamado
para se tornar o paraíso escatológico
através da instância do amor fraterno.
 
É nossa tarefa libertar o universo da vaidade
do uso cego e egoísta que dele fazemos como pecadores,
e vermos que ele participa da glória dos filhos de Deus,
a glória que é uma parte inseparável de nossa união como irmãos[1]”.



[1] Dumitru Staniloae – A Doutrina Ortodoxa da Salvação.



6.2. AS PEGADAS NO CAMINHO

 



Tudo o que anoto nessas páginas amareladas,
tudo o que vivo em minha vida, essa vida confusa
que eu não esperava, é um retrato de uma caminhada
que faço, seguindo as marcas deixadas na estrada
por quens passaram aqui antes, com suas alpercatas,
 
que a terra e o barro dão testemunho, e a poeira
ainda paira no ar, e sinto o cheiro do suor sob os chapéus,
e o som da respiração ao calor desse sol implacável,
e ainda pingam das folhas, das bananeiras, as gotas das chuvas
que os encontraram pelo caminho, que os surpreenderam,
que os fizeram correr em busca de abrigo, e agora sou eu
 
que passo por esses atalhos desconhecidos, e me perco
nos descaminhos ignorados pela raça humana, e acredito
que as pessoas que antes estiveram aqui, estavam indo,
e que eu, em meu desatino, creio piamente nelas
e não duvido, por um minuto sequer, que quaisquer palavras
que tenham sido ditas ao sabor desses passos, nenhuma
 
se tenha jogado fora, por inútil, errada ou desmedida,
e quando respiro, sinto o pulsar daquelas almas que,
como eu, se puseram a marchar sem destino,
ou para qualquer destino que fosse, e que creram, como eu,
nas que primeiro pisaram o chão por onde sigo,
 
e essa tem sido a minha vida – crer, seguir, seguir crendo –
e todas as horas do dia são preenchidas como numa oração,
ininterrupta, quase sem som, em que cada batida,
cada compasso, cada passo renova a devoção,
renova o sentido da vida, e esse é meu caminhar,
tropeçando, hesitante, anotando cada queda,
e caindo de modo diferente a cada vez,
 
esse é meu caminho, como Deus o fez,
para que eu aprenda a estar nesse mundo louco,
para que eu retire dele seu sumo, e o beba,
esse suco de amor, único, que respiramos
quando sentimos, na brisa vindo, o aroma
dos nossos antecessores, que por aqui passaram
também eles com suas vidas, seus perigos e seus amores. (14-1-25)

 


 6.3. A MORTE






Teodora pensa na morte e não pensa na morte, pois
morrer, afinal, pra quê?, se suas mãos
estarão ainda metidas na terra,
a colher da horta o sustento das irmãs,
se suas pernas ainda acorrerão rápidas,
para recolher os lençóis do varal
antes de que chegue a chuva, se seus olhos lá, como aqui,
estarão atentos à mesma fervura dos legumes,
ao ponto das carnes, do feijão, do arroz,
se seus dedos ainda estarão gastos da costura,
 
se seu rosto ainda queimará, é certo,
diante do rosto de Jesus, que a mira, benevolente,
do alto de seu madeiro, meio Deus, metade homem,
mas bondoso de um jeito ou de outro, e amigo e meigo,
 
e habituado aos cheiros dos alimentos, à fumaça da lenha,
aos pães quentinhos, ao óleo fervente, às escamas dos peixes,
à gordura da carne e aos miúdos das galinhas,
ao suor de Teodora, que lhe escorre pelo rosto
e molha o colo, os braços negros e rijos,
os pés descalços, como se fossem, o chinelo tão gasto,
o avental que lhe abraça o tronco, que a enlaça
há tantos anos, suave e amorosamente,
na dança cotidiana dos cuidados do Convento,
 
Teodora e sua boca de silêncio, seus lábios de oração,
a murmurar velhas cantigas, de piedade, de amores e feitos,
Teodora que não morrerá, que não comerão os vermes,
Teodora que Cristo virá buscar, para levá-la consigo
para alguma cozinha no céu, onde preparará quitutes esquisitos,
 
que não provarão os anjos, mas somente Maria, os santos e o Filho,
e o passarinho que, de seu galho, derramará a mesma brisa
quando bater as asas, quando entoar um pio,
quando encher todo o ar com a paz
dos horizontes infinitos que entram pela janela,
eternamente, desde as colinas que hoje se divisam
para além dos muros, dos portões, dos votos
de sua vida, encantada, sua vida muda quase apagada,
passada entre o sagrado do banal e do profano,
e o banal e profano de tudo o que há no mundo
de mais sagrado e mais divino. (24-5-24)
 
“A Imortalidade não é um atributo da alma,
mas algo que, em última instância,
depende da relação verdadeira
que o homem tem com Deus, seu Mestre e Criador.
 
Não somente o destino derradeiro do Homem
só pode ser alcançado na Comunhão com Deus,
como a própria existência do Homem
e sua ‘sobrevivência’, ou duração,
dependem da vontade de Deus.
 
Foi dito que, para que a alma tenha existência
ela deve ser ‘incriada’, pois de outro modo
ela teria que morrer com o corpo. Mas,
enquanto criaturas, as almas ‘duram
tanto quanto Deus quer que elas durem’
 
A alma não é vida em si; ela participa da vida,
concedida por Deus. Somente Deus é Vida,
e Ele é o único Doador da Vida.[1]




[1] Georges Florovsky – Criação e Redenção.



6.1. RENÚNCIA

 


“Hoje, decide-te, tu estás morta, hoje renunciaste,
Hoje, convence-te, abandonaste o mundo inteiro.
Hoje, depois de despedires os amigos, os parentes e toda vã glória,
renuncia também a de preocupares com os negócios daqui em baixo.
 
Sobre tuas espáduas coloca tua cruz, aperta-a vigorosamente
e até a morte suporta as penas das provas,
as dores das tribulações, os pregos das aflições,
e recebe a tudo com alegria, como uma coroa de glória.
 
Se te manifestares como a última de todas,
como sua escrava e servidora, mais tarde eu te manifestarei
como a primeira de todos, segundo minha promessa.
 
Se amares teus inimigos e a todos os que te odeiam,
e se, do fundo do coração, orares por aqueles que te caluniam
e fizeres o bem a eles na medida de tuas forças,
verdadeiramente tu terás te tornado semelhante ao teu Pai altíssimo,
e, tendo adquirido como tais ações um coração puro,
verás em teu coração o Deus que mais ninguém viu.
 
E se te acontecer ser perseguida pela justiça,
salte de alegria, pois o reino dos céus
te pertence – e o que existe de maior do que isso?
 
Esses sofrimentos, eu o sofri de bom grado por tua causa,
e fui crucificado, sofrendo a morte dos celerados;
os ultrajes que me fizeram se tornaram
para o mundo glória, vida e esplendor,
e para os mortos ressurreição, e motivo de coragem
para todos os que creram em mim;
e minha morte ignominiosa foi uma veste de imortalidade
e de verdadeira divinização para todos os crentes.
 
É por isso que os que imitam meus sofrimentos adoráveis
participarão eles também de minha divindade
e serão eles os herdeiros de meu Reino,
e partilharão comigo esses bens indizíveis, misteriosos,
e serão meus companheiros por todos os séculos[1]”.



[1] São Simeão o Novo Teólogo, A Prece Mística, Hino 40.






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