11. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 2: A ÁUREA CATENA - 2.4. CANANEIA
2.4.
CANANEIA (1848-1914)
Onde conhecemos Cananeia, chegada muito nova da vila de
mesmo nome, e que será iniciada nos mistérios do rosto de Cristo. Cananeia, como
Ana, é profundamente mística, e recebe inúmeros ensinamentos proporcionados por
essa misteriosa “áurea catena”, cuja origem remonta ao princípio do mundo.
ONDE CADA QUAL É CADA UMA
que leve às praias de seus domínios, aos montes secretos
onde estão enterrados seus tesouros, cujo mapa se inscreve
no seu sangue e ossos, conhecido só de Deus, que o marcou
desde sempre e para sempre em seu destino, que estará presente
a cada dia, a cada instante, como uma segunda pele,
deixando as cicatrizes aparentes, marcas a gerar futuros
tão múltiplos quantas possibilidades há no mundo,
essa sina humana multiforme, que se recria a cada segundo, de acordo
com o previsto imprevisível que é marcado no rosto,
que dá ao olhar seu olho único, e à vida seu gosto próprio,
que cada qual experimentou, servindo-se no mesmo banquete
o prato que lhe cabia, servido por anjos que velam às cabeceiras,
nessa festa do rei, em que bailamos embriagados,
e que esquecemos mal raia o sol, para vivermos
a existência aparente a que chamamos dia-a-dia,
mas que vai além do que supomos, como vai além o mar
do horizonte que divisamos, não importa quão alto o mastro
e o cesto de onde o contemplamos, nós e nossos binóculos,
que olhamos pelas lentes de nossa história, sem nos darmos conta
de que há mais futuros por passado do que poderíamos prever,
e que o Espírito sopra por onde lhe apraz, e é esse sopro
que infla as velas, que regra as marés, que nos leva
a esse ou àquele porto, e nos traz de volta aos braços de Deus,
de onde nos precipitamos a gastar nossa herança, e a dividi-la
com os porcos, e a empreendermos o caminho de volta,
1. A CHEGADA DE CANANEIA AO CONVENTO[1]
Ana já se preparava para seguir com Dita seu caminho para as serras,
para encontrar o Deus-menino, mas aceitou-a e acolheu-a,
como mais um passo em seu destino,
e teve um trabalhão para tirar-lhe da cabeça um monte de baboseiras,
de ilusões, certezas e desatinos, e se ria, a cada vez que a menina se irritava,
e mostrava, escancarado, seu lado mais mofino.
E, à custa de martelar, de ir à horta e voltar, de preparar a sopa,
o café, o chá, o pão e o vinho, Ana foi incutindo nela
o amor ao trabalho, e a compreensão de que havia ali um Caminho,
e a moldou tão bem, e com tanta graça, que Cananéia cresceu,
já não fazia pirraça, e aos poucos levantou os olhos ao teto,
e se deparou com o Antepassado, e lhe perguntou
o que era, pois nunca o tinha visto assim, tão queimado.
E Ana contou-lhe a história do Rei, do seu Reino, dos seus exércitos,
e de como enviara o Filho, Rei também, e seu Espírito,
para criar uma nova raça humana, de dentro pra fora da outra,
que, pelo jeito, não havia dado certo, e que essa gente nova,
em tudo igual à demais, caminhava no entanto por outras terras
do que a que pisavam os outros, embora tivessem também
os mesmos pés e mãos, tronco, cabeça, pescoço,
mas outros Ancestrais,
e que nessas, irmãs e iguais, batia um coração deslocado, mais fundo,
e ao seu redor o mundo era mais luminoso, e as lições que aprendiam,
as aprendiam de um modo em silêncio, misterioso,
que entrava por janelas e portas que não sabiam que tinham,
mas que, para isso, desde sempre, nelas se haviam disposto.
E, Cananéia crescendo, levou-a até a capela ruída, e a fez ver
que havia ainda ali um palácio, e que o Rei ali habitava,
mas não em matéria, em carne, na carne e o sangue que ele próprio dava,
de si, a cada dia, a cada sala varrida, a cada refeição servida, a cada roupa lavada,
e que elas, nessa diaconia e serviço, faziam seu próprio ofício,
e caminhavam numa trilha que era a elas destinada.
E mostrou a Cananéia a viga onde estavam seus nomes inscritos,
Fatumata Joana Batista, Tecla, Ana e Dita, e que agora ela
deveria completar com seu nome, e, em seu nome,
marcado com o fogo da fé,
reerguer a capela, dentro ou fora de si, não importa,
desde que isso fosse uma entrega
de sua passagem por esse mundo, que afinal,
não passa da antessala do Reino, onde o Rei, em seu manto de amor,
eternamente as espera. (5-7-24)
[1]
Cananeia nasceu por volta de 1848 na vila de mesmo nome, e talvez por isso as
Irmãs a tenham adotado com esse patronímico, que além de tudo se referia à
mulher com quem Cristo teve uma longa conversa perto de Tiro e Sidom.
Apesar
de seu tamanho, era de uma grande modéstia, e buscava coletar todas as pequenas
migalhas de conhecimento que caíam de qualquer mesa em que se sentasse.
Cananeia
possuía um mínimo de instrução, por ter sido criada na casa de Bárbara Jovina
de Oliveira, professora contratada desde 1851, para dar aulas de Primeiras
Letras, naquela que ainda é hoje a Escola Martim Afonso de Souza.
Também,
já um pouco mais desenvolta, aproveitou algumas poucas ocasiões para embarcar
escondida nos vapores que percorriam o litoral, tendo estado presente no famoso
incêndio que tomou o porto, quando se encontrava a bordo do “Conde de Áquila”,
em 4 de Maio de 1858 – fato esse que acabou com suas aventuras marítimas.
Perseguida pelas pessoas da Vila, que atribuíram a ela o incidente, foi resgatada
e entregue às Irmãs do Convento da Anunciação, aonde chegou em 5 de Outubro de
1859, aos cuidados da Irmã Ana.
2. CANANEIA
ERA UMA IGREJA
a primeira nesse Mundo Novo, Pindorama sem nome,
Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz,
Brasil, dos pauís vermelhos, de altíssimo valor,
do ouro que ninguém via, da prata que haveria,
Brasil da ganância, da fome de riquezas, da volúpia da Coroa,
que só pensava no dinheiro, no dinheiro, no dinheiro,
como se aquele povo que ali havia,
como se toda aquela natureza, de grandeza, de mistério divino,
de lendas e criaturas incríveis, nunca antes vistas,
como se tudo o que aqui houvesse, não tivesse outro valor
do que alimentar a suntuosidade das mesas e das vestes
de senhoras e senhores rotundos, gordurosos, canalhas,
interessados apenas em que se lhes satisfizessem os menores desejos,
e que, diante deles, o mundo se debruçasse ajoelhado
em total submissão e prece.
Brasil enorme, perdido, abandonado à sorte,
e, no meio de tudo aquilo, ainda mulheres e homens lutavam contra a morte,
e tentavam sobrenadar entre o vagalhões bravios desse estranho mar
que os arrastava ao seu arbítrio, sem se importar com seus sonhos,
suas crenças, esperanças, anseios, pendências,
sem considerar se, em qualquer canto, os esperaria um Deus,
que houvessem guardado na algibeira, para qualquer emergência,
e que nele cressem, e nele pusessem sua fé, para que,
no dia menos pensado, deles ele se lembrasse e compadecesse.
E ergueram-lhe uma igreja, muito branca, de paredes grossas
e minúsculas janelas, como se ali não entrasse o mundo,
mas apenas a luz, suficiente para suplantar não mais do que uma vela,
e ali se reuniam todos, a orar e chorar pela pátria perdida,
pelo degredo, pelo abandono de ali estar,
a esmo, onde somente aquelas paredes grossas, de pedra e barro,
os era capaz de aquecer, e no bojo escuro de seu seio
mantinha-lhes coesa a fé, e aliviava a vida, e, vez por outra, lhes revelava,
no silêncio e na solidão que havia, um ou outro segredo.
E Cananéia, a grande Irmã negra, era essa igreja,
revestida do alvo avental que lhe cobria a pele negra,
e dentro dela a escuridão se revolvia, e segredos ocultos
espreitavam pelos cantos, nos confessionários e nas sacristias,
e vez por outra vinha um à tona, e Cananéia o pressentia, e,
cada vez mais quieta, esperava que o Cristo pendurado, negro como ela,
lhe dissesse qualquer coisa, mas ele não falava nada,
Cristo apenas a olhava e sorria.
Tudo o que vivera, tudo o que se lhe dissera, fazia cada vez mais sentido,
e a labuta na cozinha, na horta, na lida cotidiana,
a serviço, sempre a serviço, na verdade, abria-lhe os olhos,
e ela via, nos pés descalços, nas mãos sujas, no corpo suado,
o Espírito que a perpassava, e a tomava, como se não fosse ela
sua própria dona, nem serva conventiça, mas como se fosse a noiva
de alguma núpcia mística, à qual se entregava sua alma,
e ela era livre, e voava por alturas que nenhuma pessoa,
que ali vivesse, que a conhecesse ou visse,
nunca, em momento algum, suspeitaria.
Cananéia era essa igreja, sozinha, erguendo-se nessa terra de esquecimento,
onde uma fiel apenas se reunia, e era ela própria,
e daquilo fizera sua vida, sua religião misteriosa e única,
sua relação com o astral, o divino, o Ancestral,
e naquela cozinha, isolada de tudo, ela era a Rainha
e seu Rei, que a amava, a conduzia com suas mãos
pelos caminhos do Reino, onde tudo era mágico, tudo era místico,
tudo ainda haveria de preencher a Criação inteira, um dia. (22-10-24)
3. O
ROSTO DE CRISTO
o Deus que nos amava, a nós, que não podíamos vê-lo,
(como não viram os índios as naus que aportavam em seus portos de degredo),
como não vemos o que de que não sabemos
nada, pois estar diante de algo não implica percebê-lo,
e o Cristo pendurado, escândalo para os judeus,
loucura para os gregos, se revestia
de uma aura estranha, nunca antes vista, que continha
muito mais do que a forma de um homem, a antiforma
da não-forma de um segredo?
Como o veríamos, a ele, nu, vestido apenas de si mesmo,
se nós próprios, de dentro de nossas máscaras,
obliterávamos nossos olhos
através de véus e cortinas
em número infinito, tantos quantos existem minutos num dia,
e segundos a cada hora,
e nosso rosto todo o tempo muda, e só enxergamos
o pálido reflexo que se infiltra penosamente
entre as fímbrias e falhas do tecido de impermanências
que fabrica, todo o tempo, nossa mente?
Esse Cristo, esse olhar que reproduzimos não é o dele,
mas o nosso, que assumimos,
como se ele nos estivesse vendo como o vimos,
mas não, com seu olhar divino, indescritível,
ele via a multidão, talvez como árvores que se moviam
- como a via o cego -
nossos rostos vazios, a contemplar o nada,
a esperar que entregasse a vida, para que tudo se cumprisse,
e voltássemos aos nossos afazeres, tendo assistido
à lenta agonia de um homem como nós, que morria.
Quem sequer tirou a máscara, baixou a viseira,
quem o olhou de frente, quem entendeu o que ali se passava,
quem?, talvez Longino,
que, com sua lança, revelou o segredo imemorial
dá água e do vinho,
quem, a Virgem, João, a esposa de Pilatos,
quem estaria preparado para compreender
que naquela morte estava contido todo o Amor do mundo,
e que esse Amor não poderia morrer,
e que, por ser Amor, não homem,
para sempre seguiria vivo,
e que se espargiria por toda a terra,
pelo próprio poder de seu Espírito?
O rosto sem rosto de Cristo, porque no Amor impassível,
invariável, contínuo, esse rosto
que seria o nosso, se o víssemos
com os mesmos olhos como nos viu,
esse rosto é o nosso próprio, e é a ele que buscamos,
quando assumimos, “eis-nos servos do Senhor”,
aqui estamos - não por nós, por diletantismo -
aqui estamos para servi-lo,
a esse Amor, que para sempre há de reinar, puro e definitivo. (23-10-24)
“Por que escondes teu rosto? Se tu sabes que te amo
e que com toda minh’alma te procuro, revela-te, segundo a tua palavra,
manifesta-te a mim!, abre-me de par em par as portas da sala de bodas,
Deus meu, sim, não me feche a porta de tua luz, ó Cristo meu!”
‘– O que dizes, insensato: que eu escondo meu rosto?,
mas se eu não quisesse ser visto, por que teria eu aparecido na carne?,
por que teria eu simplesmente descido?, por que estive à vista de todos?
Não desconheça minhas ações, vê bem meu desejo de ser visto pelos homens,
a ponto de ter querido vir, a ponto de ter vindo, e como homem!,
como podes tu então dizer que eu me escondo de ti, que não me deixo ver?’[1]”
[1]
Simeão o Novo Teólogo, A Prece Mística, Hino 53.
4. INICIAÇÃO
num repelão, galgou o que faltava, e se colocou de frente para seu Cristo,
que parecia esperá-la de braços abertos,
e ela estendeu seus braços e o apertou contra o peito,
marcando o hábito com a fuligem escura,
e ali esteve, por um segundo, e o degrau partiu-se sob seu peso,
e ela se viu projetada num ponto oblíquo,
entre o tempo e o espaço, e estatelou-se no chão da cozinha com grande estardalhaço,
e ali ficou, aturdida, perplexa e atrapalhada, sem entender onde estava,
o que fizera, por que tão dolorida, e com aquela estranha cruz
marcada sobre o peito arfante, e uma tontura que a tomava como um espiral,
e a levava para longe, muito longe, para bem distante.
Quanto tempo ali ficou, não sabe, ninguém apareceu,
somente ela, no chão frio, que olhava o teto, e, de lá de cima,
Cristo a olhava, como a dizer, "não se chega até mim por uma escada...",
e Cananéia riu-se de sua tolice, mas se consolou, pensando,
que se não alcançasse Cristo daquela forma, pelo menos morreria tentando,
mas olhou-o outra vez nos olhos, a buscar nele um conforto,
e viu, que no momento histórico em que seu corpo flutuava amparado apenas no ar,
ela própria ali se abandonava, e, num átimo, sem que ali, dentro e em volta dela,
houvesse Cananéia, ela própria, sua vida, sua menina passada,
todas as que fôra outrora, e a que era presente,
e a que no futuro aguardava essas sementes,
ali, nos umbrais daquela quase morte,
Cananéia não passava de seu assentimento,
de sua renúncia a todo e qualquer movimento do eu,
e se havia posto por inteira nos braços da única providência
capaz de levá-la, desse mundo que escolhera, ao mundo em que o Ancestral vivia
para todo o sempre, esse mundo onde não existem máscaras,
onde cada um é cada um à sua maneira, a maneira certa,
o mundo em que se olha Cristo de frente, e a cada irmão sem ser de esguelha,
o mundo onde nada existe de escondido, mas o oculto se mostra
como os peixes, frutas e legumes na feira.
E Cananéia, essa outra, que nascia, olhou outra vez
o rosto de Cristo, e só então o viu,
e esse rosto já não era o seu próprio refletido,
mas o dele, o Ancestral, o rosto do Amor universal,
o rosto que não muda, que a ninguém pertence,
mas que nos torna humanos, como nos concebeu o próprio Cristo,
antes que o mundo existisse, quando apenas tinha
a Criação em sua mente. (23-10-24)
5. O
CORPO DE CRISTO
e é verdade. Efetivamente, notamos que caem
sob o domínio dos sentidos o mundo e suas partes.
Se, portanto, o Verbo de Deus acha-se no mundo material,
e veio a todas e a cada uma de suas partes, porque seria espantoso
e estranho afirmar que veio também a um ser humano?
Numa palavra, se é estranho que se tenha encarnado,
seria também que viesse ao mundo e todos os seres
recebessem de sua providência luz e movimento,
uma vez que o universo é também corporal.
Consequentemente, se convém que ele venha ao mundo
e seja percebido em todo o universo,
também é conveniente que apareça com corpo humano,
iluminado e movido por ele. Com efeito,
o gênero humano é também parte deste todo.
E se não se faz mister que esta parte sirva de instrumento
ao Verbo para proclamar sua divindade, seria completamente estranho
que se desse a conhecer no conjunto do cosmos”[1].
[1]
Atanásio de Alexandria – Da Encarnação do Verbo, VI, 41.5-7.
6. O
ROSTO, AFINAL
tão de perto, como nunca o tinha visto ninguém,
e, coberto de sua fuligem, esse rosto era tão diferente
de todos os que já vira, nas imagens e crucifixos
pelas paredes, salas e corredores do Convento,
e não apenas por ser negro, negro de fuligem,
essa grossa camada de pó de carvão, gordura, teias de aranha
e outros detritos – esse rosto da cor do trabalho –
que Cananéia teve a impressão de que ele era oco,
e que tudo aquilo que o cobria estava ali apenas
para que ele se tornasse visível,
como se, para se manifestar nesse mundo, o Ancestral
tivesse de se cobrir de sua matéria mais vil,
para que pudessem vê-lo os humanos, incapazes de contemplar
sua face brilhante, amorosa, a face pura que encerrava em si
todas as maravilhas, a face inalterada e inalterável,
a face única da divindade, ali, bem ali,
na sua frente, negra como a mais profunda noite,
não a face rósea que ostentava na capela e nos crucifixos,
nas imagens nos corredores, olhando as Freiras que passavam,
branca como elas, uma face humana, bonita mas humana,
que de Deus não tinha nada, senão o que dele se apregoava,
mas ali, ah!, ali, ali não, naquela cruz da cozinha, testemunho
da faina diária, a face negra como elas, ali era o rosto arquetipal,
além de todas as caras do mundo, o rosto-em-si, por não ser um rosto,
por ser a ideia de um rosto, por ser o rosto-antes-de-todos-os-rostos,
e coberto de fuligem, que lhe escondia qualquer possibilidade
de possuir um rosto que alguém já viu,
e esse era Cristo, e por um segundo Cananéia o viu,
não como no espelho, não como um reflexo qualquer no mundo,
não como o sol (como diziam), mas como
o mais perfeito mistério que já existiu,
e, ao se projetar no vazio, ela, Cananéia, a Igreja, entendeu
que seria aquele seu rosto para sempre, dela também,
Cananéia, que agora trocava toda sua vida,
e sua própria pele, que sempre a revestira, por essa outra,
a pele da fuligem do mundo, que desde então,
por sempre e toda parte a cobriria.
E Cananéia entendeu que, nesse mundo,
onde quer que houvesse o menor ruído, o menor grão de poeira,
a menor partícula do pó mais humilde,
o menor átomo de carvão, ou qualquer coisa que fosse
minúscula, desprezível, impossível de ser vista,
o menor substrato da terra,
ali estaria contida toda a vida,
ali todo falso seria verdadeiro,
ali estaria Cristo, o Ancestral, presente e por inteiro. (24-10-24)
7. DEUS
Soberanamente adorável é ela, mais do que o mundo inteiro:
assim fui eu ferida de seu amor,
e quando não a vejo, meu espírito resseca,
minha inteligência e meu coração se inflamam e gemem.
Eu perambulo e queimo, buscando aqui e ali,
e em parte alguma encontro o amante de minha alma.
Lanço olhares ao redor a toda hora para ver meu bem-amado,
mas ele, invisível, não se deixa ver por mim.
E quando eu começo a chorar, como que desesperada, então
ele se deixa ver, e me olha, ele que contempla todos os seres.
Em estupor eu admiro o esplendor de sua beleza,
e a maneira como, tendo eu aberto os olhos, o criador se inclina
e me mostra sua glória, indizível e maravilhosa.
Quem poderá se aproximar dele?
Enquanto eu reflito, ele se deixa descobrir em mim,
resplendendo no seio de meu coração miserável,
iluminando-me de todos os lados com seu esplendor imortal,
fazendo brilhar todos os meus membros com seus raios;
enlaçando-se inteiro a mim, ele todo me abraça,
e se dá por inteiro a mim, indigna,
e eu me encho de seu amor e de sua beleza,
e me sinto saciada de doçura e de gozo divinos.
Eu participo da luz, e participo também da glória,
e meu rosto resplandece como o de meu bem-amado,
e todos os meus membros são portadores da luz.
Assim eu me torno ao final mais bela do que as mais belas,
mais rica do que os mais ricos, e mais poderosa do que os poderosos,
eu, poderosa, maior do que os reis, mais preciosa do que tudo o que se vê,
pois eu possuo o criador de todo o universo,
a quem sejam dadas a glória e a honra, agora e sempre,
por todos os séculos.[1]”
[1]
Simeão o Novo Teólogo, A Prece Mística, Hino 16.
8. O
ESTRANGEIRO
das Escrituras, pelas quais tanto apreço eu mostro,
não passa de histórias inventadas por homens
interessados apenas em conservar o poder,
enganando as massas incultas com anedotas
que provocam gracejos entre os eruditos,
e risos aos que conhecem ciência, e que nada,
nada do que ali está, permanece, se confrontado
com as grandes descobertas, com as maravilhas
da técnica, com as novas invenções, com os avanços
da física, da química, da biologia, e da história e geografia
nesse século – sempre o século! –,
enfim, que o mundo é uma bola que gira
ao redor de uma estrela sem importância,
e que morreremos todos, não importa o grau
de nossa fé, e que a trajetória humana sobre a terra
não passa da alternância de gerações, de tipos,
de governos, impérios, religiões, que nascem e morrem,
e contra o que não há o que se faça, por mais
que acreditemos na graça, na redenção, no Juízo
ou no Paraíso, tudo coisas da carochinha, que passarão
assim que nos deitarmos no leito frio de um caixão
e nos entreguemos aos vermes, refeição última
de todo ser que vive, seja ele ateu, seja crente, seja cristão,
e que as coisas que foram escritas não valem nada,
nem sentido fazem, e que eu não posso regrar minha vida
pelo que disseram Jó, Moisés, Isaías ou Abrahão,
quanto menos Cristo, com seus milagres sempre à mão,
mas – digo eu – não é nada disso, e não é isso que procuro,
nem isso o que encontro, quando, olhando a lua
atrás do monte, aprecio a beleza de sua aura branca,
ou o esplendor do sol nas penas da arara, ou seu brilho
estilhaçando-se nas asas iridescentes do besouro,
quando paro a contemplar o mundo e o universo,
as estrelas e todo o resto, porque o que me guia
não são os discursos daqui ou dali, nem as palavras inúmeras
– que, dizem todos, são cheias de sabedoria –
do Antigo Testamento ou do Novo, o que me guia,
e que transforma em vinho a água da minha vida,
é uma só palavra dita por Cristo – da qual, talvez,
nem ele se recorde, há tanto tempo proferida –
uma palavra só, que calou fundo em minh’alma,
que irrigou meus pensamentos, criando uma torrente
que me inundou o corpo e a mente, e me deu
um coração novo, com o qual vivo agora,
e que me faz ver outro mundo, que não explico,
porque sua existência, ao lado do outro, não faz sentido,
e essa coexistência nada tem de científico, razão pela qual
não discuto os termos dos que desconfiam, dos descrentes,
e mesmo dos que creem, porque creio em algo
que nem eles conhecem, e meu Cristo não é o mesmo
que eles têm pendurado em casa, nem em suas igrejas,
nem o que levam ao pescoço em crucifixos comprados no mercado,
como o óleo das tolas virgens, meu Cristo é outro,
o que disse uma só palavra e curou-me, a mim,
essa outra serva do centurião, e é por isso que,
sem compreender o que compreendo, sigo com esse Cristo,
que é para mim mais do que toda a Escritura,
porque somente ele, em toda a minha vida,
foi capaz de tocar-me o coração. (5-1-25)
“Da mesma forma como sem olhos, sem língua,
sem orelhas e sem pés é impossível ver, falar,
ouvir ou caminhar, também sem Deus
e sem a energia que ele dispensa é impossível comungar
os mistérios divinos, conhecer a sabedoria do Senhor
ou receber a riqueza do Espírito. Pois os sábios gregos
se exercitam com palavras e se dedicam
encarniçadamente às discussões. Mas os servidores de Deus,
mesmo sem dizer uma palavra, estão continuamente envoltos
pelo conhecimento divino e pela graça de Deus[1]”.
[1]
São Simeão Metafraste, Sobre a Elevação do Espírito, 77, Filocalia dos
Padres Népticos, Tomo 2, Volume 1.
9. É O
MUNDO UMA LITURGIA?
uma constante Eucaristia, em que celebramos ininterruptamente
ao Deus que nos reúne à Sua mesa, e traz todos os seres,
os sensíveis e os inteligíveis, para que participem
do Corpo e do Sangue que ali são misticamente servidos,
de modo a que nos tornemos todos – gente humana,
animais e pássaros, rochas, árvores, vales, rios e mares,
ventos e tempestades, e ainda as criaturas subterrâneas
e os seres do ar – uma só coisa com Ele, cumprindo assim
seu desígnio desde o início da criação, quando já havia o homem
sido criado em seu coração, à espera de que Cristo se encarnasse,
para transformar todo o universo na câmara alta
da casinha de Jerusalém, de onde partiria com os discípulos
para o Monte das Oliveiras, a fim de que tudo se completasse,
e que nada ficasse faltando, para a plenitude do mandato de Deus?
É esse caminho que pisam meus pés, quando vou e volto do mercado,
quando minha mente vagueia solta pela paisagem que o Poeta primeiro fez
quando ainda nem tempo havia, nem espaço, mas apenas uma ideia
que rabiscava em sua divina mente, em páginas amassadas,
nas noites insones que passava entre o primeiro dia e o segundo,
e entre o segundo e o terceiro, e assim por diante, até descansar
e contemplar sua obra, que agora caminharia por inteiro
sob a égide da imagem humana, que deveria cumprir o desígnio
de, maravilhado, curvar-se ante o bem e a beleza,
que sempre caminharam juntos, pela vontade do autor
de todo bom e todo belo, o que nos deu a consciência
de estarmos permanentemente às portas desse Paraíso,
que perscrutamos de fora, ao mesmo tempo em que nos colocamos
junto à mesa servida, o Altar supremo, que é a vida,
que a nós foi dada para que magnanimamente pequemos
e que, pecando, saibamos todo o Amor que existe no perdão
e no desejo intenso de Deus de nos ter a Seu lado, nesse mundo
e no outro, e muito além do quanto dure o espaço e o tempo. (2-1-25)
10. A
UNIÃO
pelo corpo sacrificado e reerguido do Senhor,
nós, as obras de Suas mãos,
somos também levados à união entre nós.
Nossas próprias razões e os razões de nossas existências
são atraídos à união com o Divino Logos,
o Verbo no qual encontramos nossos arquétipos eternos
e por quem nossas naturezas anseiam,
como pelas profundezas insondáveis da vida
e a fonte secreta desse conhecimento
que buscamos como a essência de todas as coisas.
Quando nossos desejos retornarem
à sua conformidade com seu próprio ser
e com suas finalidade e estrutura racional internas,
e houverem rejeitado as disposições arbitrárias
de seu egoísmo individualista irracional e antinatural,
então seremos chamados a nos unirmos
ao desejo humano de Cristo e, através dele,
ao Seu desejo divino, que é um com Seu desejo humano[1].”
[1]
Dumitru Staniloae – A Doutrina Ortodoxa da Salvação.
11. CANANEIA
E OS MORTOS
a quem olhava com crescente espanto, a negra imensa e doce
que a acolhera e ensinava no Convento da Anunciação de Maria,
se deu no dia em que, logo pela manhãzinha, a viu,
e Cananéia conversava no alpendre, do lado de fora da cozinha,
com uma senhora, muito magra, muito branca, de olhos claros, elegante
– embora fossem velhas suas roupas, um pouco desgastadas, mas galantes –
e parece que a consolava, e passava a mão nos seus cabelos alvos,
e a penteava, e lhe ajeitava o colar, e a apertava contra o peito,
e lhe sorria, e fazia de tudo para a confortar,
enquanto, Teodora, mocinha ainda, as espiava falar
de um tempo de guerras, de mortes e atrocidades,
de um amado que jamais voltava, das notícias ruins, disparatadas,
de famílias destroçadas, de corpos e almas em pedaços,
de bombas que caíam sem parar, e Cananéia a envolvia com seu braço,
e, com a ponta do avental lhe enxugava as lágrimas,
e lhe prometia orar por ela, e orar muito e orar mais,
o que dava à senhora algum alento, e lhe devolvia o brilho ao olhar,
e assim passou-se todo o dia, as duas ali, conhecidas de tanto tempo atrás,
do tempo em que a negra serviu na guerra, e carregava as gentes,
ou o que restava delas, para as curar, na enfermaria
que era uma lona e um pano com água, e batatas,
que ela cozinhava para alimentar os vivos e os mortos,
e qualquer um que ainda pudesse andar.
Ao fim do dia, foi-se a velha dama, muito digna e cansada,
com sua figura sofrida, e desapareceu na estrada
– Olga, era como se chamava –
e ficou Cananéia, durante um bom tempo, imóvel,
apoiada no batente, e só então se aproximou dela a menina curiosa,
a saber das coisas, quem era, como, quando, de que jeito,
e Cananéia respondeu a Teodora, com respeito e dor na voz,
enquanto fechava devagarinho a porta,
"Uma velha amiga, que me pede uma saudade,
uma palavra, uma prece nessa hora,
que lhe dê um refrigério, pobre ela, porque não pode,
por si só, mudar sua vida, porque, querida Teodora,
já faz anos, pobre alma sem destino, está morta". (1-7-24)
12. LEMBRANÇAS
DE TEODORA
com seus óculos de bondade e suas mãos de carinho,
a me dizer, sempre sorrindo, "só chore pelo que vale a pena, menina: Cristo",
que me ensinou a guardar as coisas no peito,
e que o suspiro também é uma oração,
que é no silêncio que sabemos quando vem ou não vem o ladrão,
e que fugindo nos perdemos, e que, ficando, estamos entre irmãos.
Cananéia, que me pôs no colo, enxugou meu rosto,
cobriu-me com um manto sem tamanho, me fez dormir
e acordar de um sonho
onde eu estava presa, sem nem saber como,
Cananéia que me ensinou a ouvir o coração,
a amar com as entranhas, como Cristo à viúva, ele, que era Deus,
e que, descido à condição humana, foi homem até os confins
do que é ao humano possível, e mais do que isso,
pois, quanto mais homem foi ele, mais também foi Cristo.
Eu a lembro dizer, "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus",
e tantas vezes repetia quanto minutos há em cada dia,
"tem piedade de mim, pecadora", e arrematava, rimando e rindo,
"e restaura essa menina Teodora",
e me ordenava que fosse, eu própria, sacerdotisa, rainha e profetiza,
para adorar, servir e transmitir, eu, que sequer sabia o tom certo de dar "bom dia",
enquanto ela, com paciência infinita, moldava esse pequeno e preto passarinho,
e o fazia cantar, e aprender a voar, e se libertar do ninho.
E Cananéia ria a mais não poder, e tudo para ela era alegria,
e não dava atenção nenhuma às ordens, às normas, aos rituais e aos ritos,
e vivia às voltas com seu próprio Cristo, que lhe segredava
o que somente entre os dois se sabia, que hoje eu sei,
que é um silêncio carregado de sabedoria,
que nenhuma palavra fala, nenhum discurso diz,
e todo entendimento se cala diante da imensidão infinita da cruz,
e nada mais há que se pronunciar, nem a se compreender,
que não o nome, santo e misterioso, primeiro e último, infinito,
e que não há outra lição para a vida, nem outra vida há, que não
o próprio nome que nos anima e vivifica, Senhor: que és Tu,
meu Cristo pretinho, aí pendurado, e guardado em mim bem fundo: Jesus. (30-6-24)
13. CANANEIA,
ANA, TECLA E JOANA
em Ana, Tecla e Joana, e mais do que elas,
as que vieram antes de nós, há tanto tempo,
e onde estarão agora, em que momento da vida eterna,
que conquistaram, vivendo como se vive ao vento,
deixando-se levar pelo amor de Deus, a cada instante,
sem opor resistência, sem deitar âncora,
sem fixar um fundamento que fosse, como folhas
no ribeiro, descendo a corrente,
cada uma delas, nessa mesma cozinha, cada uma sozinha
com seus pensamentos, e esse mesmo Cristo, que um dia foi branco,
e que se tornou negro, à custa de muita fumaça, muita fuligem,
muita lenha, e azeite e tempero, que cada vez nos olha mais
com seus olhos de carpinteiro, pregado à cruz
que talvez ele mesmo tenha feito, a conversar conosco,
a nos dizer, "por aqui, por ali, segue reto, faz a curva, dirige direito",
enquanto nos ocupamos do alimento, que as Irmãs comam, e que tenham
roupas limpas, camas arrumadas e tudo varrido para seu sustento,
cada uma de nós, que por aqui passou, dando-nos as mãos,
como a essa aprendiz Maria dou eu agora, e ela se lembrará um dia dessa Teodora,
que nada na corrente que começou um dia, sabe-se lá quando,
em tempos de antanho, tempos de outrora, quando os apóstolos
ainda caminhavam pelo mundo, e deixavam atrás de si
as migalhas de um ensinamento, formando a trilha que seguimos,
lentamente, aprendendo, o que as palavras não dizem,
mas nos diz o alimento que foi esse pão, e a embriaguez do sangue que bebemos,
que nos deixou Cristo, para que o busquemos
em cada coisa da vida, cada buraco desse mundo,
em cada pessoa que se apresente, aqui, nessa roda-viva,
feita de entrega, de amor, de aprendizado,
de suor, de carinho, de trabalho, de mansa loucura e de gente. (30-6-24)
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