10. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 2: A ÁUREA CATENA - 2.3. ANA

 

2.3. ANA (1804-1870)

 


Onde recebemos a quarta cozinheira a chegar, Ana, vinda de um Orfanato no Rio de Janeiro. Mística, dada a sonhos e visões, ela logo estabelece um intenso diálogo com o Cristo negro da cozinha. Depois da algum tempo no Convento ela recebe a visita de sua antiga amiga dos tempos do Recolhimento, Dita, que passa também a residir no Convento.



AS PALAVRAS E OS ATOS





A Madre Superiora contemplava o Cristo da cozinha,
suspenso em seu madeiro junto ao teto,
também ele talhado em madeira, a matéria do mundo,
e pensava no quanto aprendera com ele, mudo,
reduzido a um olhar sobre a pele negra de fumo, gorduras e fuligem,
 
e o quanto esse Cristo era para ela mais profundo e eloquente,
do que mil páginas escritas pelos homens do mundo,
por eleitos que fossem, por santas que tenham sido suas vidas,
por sábias que tenham sido suas palavras,
o velho Cristo negro lhe dizia tudo, do seu próprio jeito,
 
e era ali, na humilde cozinha, junto ao fogão a lenha,
entre panelas e talheres, moringas, frutas, carnes,
a água e o vinho reservados para a missa,
a acompanhar o vaivém dos bichinhos pelo chão, dos pássaros
que pousavam na janela aberta, na cortina rasgada,
nos pingos que escorriam do telhado quando chovia,
 
era ali que estava toda a sua teologia,
e nos passos ritmados de cada irmã negra que por ali passara
– tantas conversas trocadas! –,
no chão vermelho do barro que traziam da horta,
do pomar, do galinheiro, de ordenhar a vaca,
das estradas, do mercado da vila próxima (que crescera tanto,
agora que era paróquia), barro da vida, do mundo,
 
que entrava pela porta, como um vento de realidade,
e dava ao olhar do Cristo um brilho, que refletia
toda a sabedoria divina, contida nos cânticos profanos
raparigas dos becos de pecado, dos sofreres da vida,
nos intrincados versos dos salmos, que cada Irmã entoava,
nas dores e alegrias daquelas que por ali passaram,
deixando nas paredes as suas marcas, estigmas, chagas,
nos joelhos que tocavam o chão, no desvario ascético das almas,
ou no chiado tão pobrezinho e ancestral das alprecatas. (15-12-24)
 
Eu te mostrarei claramente que é aqui em baixo
que deves receber o Reino dos céus inteiro,
se nele quiseres penetrar também após a morte.
 
Ouça ainda a Deus, que te fala por parábolas.
Ao que podemos comparar o Reino dos céus?
Ele se parece – escuta bem – ao grão de cevada
que um homem toma e lança em seu jardim;
e ele cresce, e se torna realmente uma grande árvore.
 
Esse grão é o Reino dos céus, é a graça do Espírito divino,
e o jardim é o coração, o coração de cada homem,
ali, onde aquele que o recebeu lança o Espírito
e o esconde no fundo de si mesmo, nas dobras das suas entranhas,
para que ninguém mais possa ver; assim ele o guarda
com mil cuidados, para que ele cresça,
para que ele se torne uma árvore e se eleve até o céu.
 
Então, se tu dizes: não é aqui em baixo,
mas após a morte, que receberão o Reino
aqueles que o desejaram com fervor, tu invertes as palavras
do Salvador nosso Deus, pois, se tomares o grão,
esse grão de cevada de que ele falou,
e não o lançares em teu jardim, hás de permanecer estéril.
E em que outro momento, senão agora,
poderás tu receberes a semente?[1]”.

 



[1] São Simeão o Novo Teólogo, A Prece Mística, Hino 17.



1.       O QUE TECLA DISSE A ANA

 


"Por isso, amada irmã Ana", disse Tecla, "esse Ancestral
é o que de mais precioso temos, pois foi ele quem nos deu
a carne nossa, e o sangue, que eram dele, e nos tornou
essa raça espiritual, que é tão humana quanto a outra,
mas que vive além dessa realidade terrena,
 
essa raça cujo Pai está ali em cima pendurado,
que gerou nossos tios e tias, santas e santos,
e nossos primos e primas, e nossa Mãe última, sua própria Mãe Maria,
Virgem como a terra pura, a terra sem males que buscamos,
a Ivy Maray dos Índios, onde jorra o leite e o mel,
 
onde não há grego ou judeu, mas somente o homem e a mulher primitivos,
que eram um, antes de que fossem divididos,
e todos, todos, unos no Amor desse Cristo, ele próprio o mesmo Amor",
 
e mostrou-lhe o pequeno crucifixo que moldara
da madeira que buscara no mato, amarga e dura,
a mesma peroba de que era feita a mesa da cozinha,
onde se preparava o alimento, onde as mãos, sagradas pelo uso,
 
cortavam as verduras e os legumes, e temperavam a sopa,
e socavam o pão, e pilavam o milho,
e junto à qual se sentavam, ao fim do dia, para conversar
e tomar um copo de bom vinho, que guardavam com cuidado
debaixo de uma tábua, junto com outros copos, garrafas vazias e vidros.
 
"Nosso Antepassado, o Filho do Rei, que nos fez princesas,
que fez os homens príncipes, não desse reino que passa,
mas de seu Reino, nos céus como aqui, herdeiros,
já não servos – nunca mais! –, e não apenas por natureza,
mas, por um dom especial guardado desde sempre para nós, pelo Espírito,
desde antes de existir o mundo e o tempo – pela Graça,
pela força de seu Amor verdadeiro." (4-7-24) [1]



[1] Nascida no Recolhimento de Nossa Senhora dos Prazeres, no Rio Comprido, Rio de Janeiro, ao tempo em que Dom João VI chegava ao Brasil. Seus pais seriam desconhecidos, e sendo menina graciosa e de boas maneiras, foi transferida com grandes recomendações da Diretora Soeur Marie Madeleine para o Convento da Anunciação, cerca de 1815. Mas havia, entre ela e Madre Maria do Egito, um segredo, o qual, quem sabe, no futuro se tornaria conhecido.

Imediatamente ela foi posta no serviço da casa, ajudando a Tecla nos trabalhos braçais da cozinha, aprendendo com ela o ofício, e, conforme logo descobriu, muitas outras coisas, das quais jamais haveria suspeitado em toda a sua vida.

 


2.       O ROSTO





Oh!, como é belo o rosto do Ancestral,
refletido nesse mundo, nas matas, nos montes, nos rios e lagos,
em cada ser, cada planta, cada pedra, cada instante do tempo,
cada lugar no espaço, e em toda essa gente,
nos seus passados, futuros, presentes, nos seus sonhos,
nas noites frias, nas manhãs quentes, quando se levantam
 
e preparam o dia que vem, com sua lida, sua luta, sua labuta,
como é belo o rosto de Deus, que vejo em tudo,
esse rosto transparente, que se oculta,
mas que dá visibilidade às coisas, que dá impulso
para que a vida siga adiante, que dá a cor e o calor a tudo,
 
esse rosto, que quando o meu rosto aproximo,
se dissolve em transparências, se torna diáfano, tênue como um véu de fumo,
mas que eu sei que está ali, apenas intocado pelo mundo,
esse rosto que não se cerca das máscaras que usamos,
esse rosto puro, face imóvel do Amor,
 
que não se altera nunca, não porque não exista realmente,
não porque não seja possível vê-la daqui, desse poço fundo,
mas porque é a face dele, do Ancestral, do único
que é infinito, e de todo o Amor que, invisível e sempre existente,
dá realidade ao real, e aponta para a plenitude de tudo. (21-10-24)


 

3.       ANA E O CRISTO






Ana olhava o Cristo pendente, lá no alto, negro como carvão,
e se perguntava, como amar a esse homem,
que é e não é homem,
que é um Deus com alma,
que, com tanta calma, se deu aos homens,
para que o Amor triunfasse sobre todo o mal que há,
como amá-lo, lá onde está, se não está aqui,
se não posso vê-lo aqui, se não posso alcançá-lo, tocá-lo,
estar com ele ao meu lado, deitar-me com ele, acariciá-lo,
 
como amar a esse homem, que me sorri, tão amável,
e, ao mesmo tempo é tão frio, tão implacável
na sua bondade irredutível, que perdoa tudo e todos,
sempre um passo adiante de qualquer maldade,
como alcançar esse homem, que me foge,
como capturá-lo em meu seio, guardá-lo no coração,
se ele é como uma névoa, que se dissipa mal se ergue o dia, se é puro Espírito,
enquanto o sol anuncia aqui as belezas únicas e carnais de sua criação?
 
Onde estás, ó Rei, onde teus exércitos, onde teu poder,
se te pões quieto, se não te mexes, se deixas os homens
à mercê de qualquer querer,
se nada fazes pelo teu povo de carne, como anunciaste
estar com ele até o fim, até o Juízo de todos os seus erros,
quando virás, numa nuvem ligeira, a julgar os vivos e os mortos,
e conduzir a todos de volta à vida verdadeira?
 
Onde estás, ó Rei, que não respondes, onde estás, que te escondes?
 
E o Cristo pendurado, com os olhos cheios de lágrimas,
de óleo e de gordura, de azeite, água fervida, sal e alho,
silenciosamente, respondeu a ela, na sua voz sem palavras,
"Filha minha, irmã, não serva, não escrava, sei de ti,
e sei que, daqui, ainda que distante, estou todo o tempo
a olhar-te face a face,
 
e sei que me olhas assim, com teu coração puro, sem medos nem falsidades,
e te digo, e que o guardes no fundo da tua alma,
que, ainda que mais me custasse, por ti
eu lanço a minha alma além de todo o tempo, de todo espaço,
pra te abraçar e ao meu abraço prender,
e eu sei, irmãzinha, sei, que me receberás em teu regaço,
e eu sei, irmãzinha, que me hás de entender".
 
E Ana, só, na sua cozinha, sentiu lhe dobrarem os joelhos,
e, com o rosto ao chão, sentiu todo seu corpo invadido,
e seu coração, até então encolhido, expandir-se,
desacorrentar-se, e se encher. (5-7-24)

                            

 

4.       TRANSE

 



“Qual é a tua misericórdia sem medidas, Salvador?
Como te dignastes me tornar membro de teu corpo?
Como me revestistes com o manto brilhante,
que fulgura com um esplendor de imortalidade,
que transforma em luz todos os meus membros?
 
Pois teu corpo, teu corpo imaculado, divino,
fulgura por inteiro com o fogo de tua dignidade
ao qual ele está indizivelmente mesclado e unido;
e tal é o favor que a mim fizestes também, meu Deus.
 
Com efeito, este sórdido e perecível despojo,
unido ao teu corpo imaculado,
e meu sangue ao teu sangue misturado,
me torna unida, bem o sei, igualmente à tua divindade,
e eu me torno teu corpo puríssimo,
membro brilhante, membro santo realmente,
membro resplendente, transparente, luminoso.
 
Eu vejo a beleza, eu contemplo o brilho,
eu reflito a luz de tua graça;
e, com estupor, eu contemplo esse esplendor indizível,
e estou fora de mim ao pensar em mim mesmo:
daquilo que eu era, no que me tornei – ó maravilha!
eu percebo, eu sinto diante de mim mesmo um respeito,
uma reverência, um medo, como se estivesse diante de Ti mesmo,
e já não sei o que fazer, nem onde por esses membros que são os seus,
nem em que obras, em quais ações, esses membros empregar,
temíveis que são eles, e também divinos[1]”.



[1] São Simeão o Novo Teólogo, A Prece Mística, Hino 2.



5.       O SONHO DE ANA

 



Ao se levantar certa manhã, Ana encontrou-se onde não sabia,
no meio da mata, e viu uma tapera descaída, e viu
que era uma capela, uma ruína, que nunca tinha visto,
e nem sabia onde era, e a ela se dirigiu,
e, afastando o mato, encontrou um altar, e, no altar,
uma imagem do Rei, feita em terracota, aos pedaços,
 
e chorou por vê-lo ali, o Ancestral amado, reduzido a pó,
como se a um impossível pó houvesse retornado,
e, tomando-o nas mãos aos cacos, guardou-o consigo,
e viu então uma viga que se apoiava, caída, ao lado,
desconjunta e desconexa, e nela pôde ler, em letras miúdas,
gravadas a canivete, "Fatumata Joana Batista" e "Tecla".
 
Então ela se sentiu como a filha morta da viúva, e no seu ventre
os cacos de Cristo se mexiam, e das suas entranhas subiu-lhe
o doce sabor de um sacrifício à boca, e ela percebeu
o poder dos homens, comparado à presença do Messias,
e que aquela capela, arruinada na floresta, dentro dela se reconstruía,
e, num esforço além das suas forças, limpou-lhe o mato,
arrumou como pôde, e gravou, na mesma viga, "Ana",
e se sentiu parte de uma espécie de milagre, que não pensava que existia.
 
E regressou ao Convento, suada, suja e agradecida,
e murmurava, num canto baixinho e comovido,
"Na tua ceia mística, aceita-me hoje...", e chorava
feito criança que perdeu o recreio, mas se alegra
pelas aulas que lhe trarão ensinamento,
"... Lembra-te de mim, Senhor, no Teu Reino." (5-7-24)




6.       ANA E O CRUCIFIXO

 



Ana dispôs sobre a mesa da cozinha, como quem prepara um prato,
os cacos em terracota do crucifixo, que encontrara na capela,
destruída pela fúria inútil dos homens, contra o amor
do único homem, Cristo,
 
e se pôs a colar, com paciência e capricho,
e encontrou a auréola inteira, que lhe ornava a cabeça,
ainda com um restinho de dourado, a indicar
que se tratava ali de algo fora desse mundo, celeste, divino,
 
mas pensou que, se o barro daquela imagem, o sagrado
abriga e encerra, é porque esse mesmo sagrado
vive e pulsa nessa terra, e que o homem de carne,
ali representado, é o mesmo Deus-homem Espírito,
que ela agora sentia dentro de si, mais do que a seu lado,
 
e percebeu que era ali, enquanto colava cacos,
que sua própria alma se fazia, e com ela seu corpo,
e tudo o que nela havia, e que era essa pessoa,
real, porque construída, que havia de viver e, viva,
permanecer para todo o sempre, porque nascia ali outra vez,
e sentiu que nunca mais morreria. (5-7-24)
                    

 

7.       AS VISÕES DE ANA

 



No Convento silencioso, antes que raiasse o dia,
Ana cortava legumes, na cozinha que já não era cozinha,
na pia que não era a pia, com a faca que não era a faca,
e com uma alegria só dela, e Ana já não era Ana,
era essa alegria que amava estar viva,
 
que lutava, cada dia, por mergulhar mais naquele Cristo, que por ela
cada vez mais negro amanhecia, como o faria
branco, amarelo, vermelho, azul turquesa, ou verde como as matas,
ou da cor das águas do rio, ou da linha do horizonte, dos montes,
de qualquer coisa que houvesse, porque ele se transmutaria
no que a humanidade quisesse, apenas para estar com ela,
e visitá-la, e cantar com ela uma prece, uma salmódia, um hino,
 
e aquela cenoura já não era uma cenoura, nem a cebola, cebola,
nem a salsa, o pimentão, e todas as outras espécies e iguarias,
nem era o dia, dia, nem aquela madrugada acontecia,
mas tudo se passava dentro dela, e das suas entranhas mais escondidas,
subia esse olor de mirra, esse incenso, essa oferenda de si,
 
irreprimível, que ela entregava, a cada gesto, cada movimento,
cada suspiro, ao Ancestral que agora vivia nela, que a havia consumido,
como a chama consome a vela, e a torna luz,
que, desde sempre, deveria ter sido. (5-7-24)
 
“Este prazer espiritual é chamado no mistério
o esplendor enipostático[1] sobrenatural
de onde brota a vida, a treva mais que luminosa,
a beleza maravilhosa, o mais alto cume do desejo,
a vigilância, a visão de Deus e a deificação.
De qualquer modo, ele permanece inexprimível
ainda que o expressemos, desconhecido
depois de ser conhecido, inconcebível depois de concebido[2]”.

 



[1] “A prece está acima de toda extensão, e que ela só pertence àqueles que, com toda percepção e certeza – ou seja, do interior do coração – estão, de modo enipostático e sobrenatural, cheios da luz divina da graça” (...) “Este prazer espiritual é chamado no mistério o esplendor enipostático sobrenatural de onde brota a vida, a treva mais que luminosa, a beleza maravilhosa, o mais alto cume do desejo, a vigilância, a visão de Deus e a deificação. De qualquer modo, ele permanece inexprimível ainda que o expressemos, desconhecido depois de ser conhecido, inconcebível depois de concebido.” (Calixto e Inácio Xanthopouloi, Centúria Espiritual, 76, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume 3)

[2] Ibid.



8.       A TEMPESTADE

 



A tempestade desabou, furiosa e inclemente,
sacudindo o mundo, com ventos uivantes e catadupas de água,
açoitando tudo à sua frente, e deixando atrás de si um rastro de destruição e caos,
até se acalmar, de súbito, e desaparecer no oco do mundo,
como se nunca tivesse existido, como se toda a devastação
fosse pouco, obra do acaso, e ela nada tivesse com aquilo tudo,
 
e, pela manhã, as Irmãs saíram de suas celas,
onde passaram a noite em orações e vigílias,
pedindo a Deus e Santa Bárbara que afastasse o perigo,
e que o fim do mundo não chegasse ainda,
pelo menos não àquele Convento,
onde buscavam uma santidade que sempre as deludia,
 
saíram as Irmãs a espiar o estrago da chuva, e as árvores que caíram,
e se depararam com um jequitibá, enorme, senhorial e magnífico,
com trinta metros de altura, e tronco que requeria quatro delas a abraçar, ou cinco,
e aquele gigante jazia ao solo, derrotado mas imponente,
e as Irmãs notaram surpresas que, apesar de tão próximo,
ninguém escutara o estrondo da queda,
que certamente teria feito, acima de todo ruído da procela,
do ronco dos trovões, o estalo dos raios e o silvar do vento,
 
e se perguntavam se, desabando daquele jeito,
e arrastando tudo pelo caminho, levando dezenas de árvores de embrulho,
se ninguém ouvira o ruído do estrondo, teria havido barulho?,
 
ou teria o lenho caído, silenciosamente e anônimo – pois ninguém se dera conta
(e o testemunho dos bichos de nada valia, certamente) –,
porque o barulho vale pelo que significa, e o que ele significa
é o que significa na mente do ser humano,
o jardineiro, que Deus dispôs no mundo para que lhe desse notícias
da criação, de toda a natureza, e inclusive de toda coisa, fato, evento ou gente.

 

 

9.       O MEDO

 



Oh, essas matas de gigantes, essas árvores senhoriais,
anteriores ao mundo dos homens, esses animais selvagens,
esses espíritos da natureza, a rondar as noites infinitas
com seu manto negro e suas luas, que desenham sombras semoventes,
imprimindo criaturas inacreditáveis contra o fundo de folhas e galhos,
 
oh, as criações de Deus, impossíveis e surpreendentes,
que nos assaltam os sonhos, que vagueiam entre fogos fátuos
e pairam sobre as lagoas, e esvoaçam pelos campos,
e enchem os caminhos nas suas encruzilhadas, onde se apostam
vidas e mortes, sortes e descaminhos, onde olhos famintos
roubam as almas dos incautos, e garras nos acariciam
e guiam para o abismo os audaciosos e os amedrontados,
 
oh, quantas vezes precisei me segurar nas mãos de um Cristo
que invoquei do fundo de meu ser medroso e perturbado,
para que me iluminasse os pés, para que afastasse as pedras,
para que abrisse as porteiras que, na minha mente,
trancavam as vias da virtude e caridade, lançando-me num vendaval
de emoções desencontradas, de meias verdades, de mentiras
ditas a mim mesma, entre a noite escura e a hora fluída do cair da tarde,
 
quantas vezes o procurei, nos desvãos recônditos de minha alma,
oculto sob os lençóis, atrás da porta, sumindo-se pelos corredores
dos meus nervos, saltando as poças d’água onde vacilo e chapinho,
quantas vezes o invoquei, para que me salvasse de mim,
para que, com sua luz única e benfazeja, me acalentasse o sono,
me conduzisse à atracação da aurora, longe da borrasca
que fustiga o coração, e faz com que clamemos, em meio às ondas,
“és tu, Mestre, ou és um fantasma?”, e nada respondes,
 
e ainda assim, me atirei às águas, que me sustentaram,
e, em meio à neblina impenetrável, levaram-se até tua mão,
que me confortou com seu toque, e cruzamos o oceano,
e me levaste à praia, onde nos aguardava um trempe recém montado,
com um peixinho que assava em cima, e as brasas
vermelho vivo, vivas como a própria existência, embaixo. (2-1-25)
 

 

10.       DITA

 



E no dia menos pensado chegou ao Convento uma menina,
de traços límpidos, e um olhar de sede, essa sede da alma
que não encontra abrigo em meio à tempestade
de sentimentos, aspirações, amor, desejo, elevação
acima do mundo em que vivemos, e essa garota, Dita,
era a antiga amiga de Ana, dos tempos do Recolhimento,
 
e as duas se abraçaram com tanta saudade, como se
estivessem separadas desde o berço, e Ana correu
a apresentá-la a todas as Irmãs, e a Tecla, e à Superiora,
que a abençoou e determinou que dividisse o quarto
ao lado da cozinha, e elas se ajeitaram como puderam,
 
e Ana ensinou a Dita tudo o que sabia, da cozinha,
do Convento, e mais de todas as coisas de Deus
que aprendera, e das quais todas – todas – haviam nascido
junto ao fogão e à pia, e só por isso Maria do Egito
as dispusera ali, pois sabia a velha Madre, que havia
junto àquele fogo, uma magia ancestral, sob os olhos
meigos e sérios do grande Cristo negro pendurado,
 
um mistério antigo e revelado às poucas virgens sábias,
que as demais Irmãs brancas jamais puderam ter
compartilhado, pois, conquanto virgens, ainda buscavam
no mercado de sua fé economizada o azeite
para as lâmpadas que iluminavam a noite e a espera,
enquanto as virgens sábias possuíam de outra fonte
um azeite mais puro, que nunca se acabava, e assim
 
foram essas as convidadas e entrar com o Noivo
no festim das Bodas, ao cabo do caminho, que de tão longe
haviam percorrido, até chegar àquela bendita cozinha
e aos segredos que, sob as panelas que ferviam,
em meio aos legumes, carnes, ovos e frutas, permaneciam
adormecidos e cuidadosamente guardados. (18-7-25)

 

 

11. ALGUÉM TOCOU O SININHO

 



Alguém tocou o sininho do portão dos fundos, e Ana foi atender,
e era um homem, pequeno, com jeito de andarilho,
que trazia uma sacola, e na mão um instrumento, como uma viola,
e um pandeiro à cintura, e que fez uma mesura, e pediu um pão,
uma sobra de comida, qualquer coisa, sem grande exigência ou medida,
e Dita o fez entrar, e sentar-se à sombra da ingazeira do pátio,
e o serviu, e o homem se pôs a conversar, e a falar de tudo e nada,
e disse que fora colhido pela tempestade, e que, por pouco,
não acabara como o jequitibá que desabara,
 
e então Ana lhe perguntou se ouvira algum barulho,
ou se a grande árvore se despedira dessa vida em silêncio de mártir,
e, num caso como em outro, se ele acreditava que pudesse existir som
quando ninguém havia que escutasse, ou seja, se a árvore faria ruído ao cair
uma vez que ninguém havia ouvido nada, quase como se não existisse o fato,
 
e o homenzinho respondeu, ajeitando o pandeiro de lado, e disse,
“O que diz a Escritura, lindas moças?, não é que no princípio criou Deus
o céu e a terra, mas a terra estava informe e vazia, e as trevas
cobriam o abismo, e foi preciso que Deus dissesse ‘Faça-se a luz’,
para que tudo começasse a se animar, e surgissem de suas mãos e sua vontade
o firmamento, as estrelas, as águas, as plantas, os bichos, e tudo o mais que existe,
e então criou o homem à sua imagem, e a mulher à sua imagem,
e lhes concedeu o domínio sobre tudo o que fôra criado, e seu entendimento divino,
 
e só então entregou o jardim ao homem, com a condição
de que esse mantivesse a sua unidade, e que não começasse a distinguir
cada metade, e que tivesse um conhecimento só, como o que dá o Amor,
esse conhecimento que faz do amante, amante, e do amado, amado,
e que não conhece meio termo, nem prefere um ou outro de dois lados,
mas que o homem e a mulher contemplassem a criação
com os mesmos olhos com que Deus os havia criado?, não foi assim?,
 
e, se foi assim, a criação existe, mas o homem já existia,
pois morava no coração de Deus, a Trindade eterna,
com o Espírito e o Filho, esse mesmo que, antes de tudo,
estava votado à carne, a mesma carne de Adão, que foi feito depois,
mas que já estava projetado, como Eva, como toda a humanidade,
e por isso a criação só existe porque existe o homem,
e o Céu e a Terra, tais como criados, existem antes na sua inteligência,
que é o que torna tudo real e palpável, porque, embora os bichos participem,
somente ao homem foi dado o recado, e por isso, antes que as coisas existam
é preciso que existam para eles, para a mulher e o homem, é preciso
 
que o barulho seja ouvido, que a cor seja vista, que o gosto seja provado,
o perfume cheirado e mesmo o espinho não existe se não nos ferir a pele,
não nos lembrar que somos fracos, nada existe se não nos enviar de volta
ao lugar onde fomos nós primeiro criados”.
 
O homenzinho pigarreou, batendo no pandeirinho:
“Eu não existia até pouco para vocês, belas moças,
e por isso cada uma de vocês é um mundo completo,
porque Cristo a habita, como habita a cada um,
desde antes do Paraíso, e por isso Adão, mesmo caído,
não perdeu sua alma, mas a tem ainda, torta, enferrujada,
faltando pedaço, mas pronta para se recuperar, e se tornar
outra vez a semelhança, tal como foi de início pensado que seria,
para que o Jardim florescesse no espírito, e para que a roda
girasse livre, e as gerações se sucedessem, e que Deus
concedesse a cada homem e mulher nascidos
seu próprio Reino, sua própria glória, seu próprio Paraíso”.

 

 

12.       DEUS CRIOU O CÉU E A TERRA

 



“Deus é o Criador, mas, principalmente, é o Criador da raça humana,
e nela depositou seu Espírito, e deu a ela a criação
para que, por suas mãos, tudo, aos poucos,
se tornasse divino, e fez de Adão um poeta, e de Eva poetisa,
e lhes deu olhos para ver, e ouvidos, para que escutassem uma música
onde apenas havia o silêncio, e que por suas mãos,
mesmo o barro mais inculto se fizesse arte,
e que nenhum canto da terra ficasse longe do alcance
do seu braço de artista, e que eles pudessem assim realizar seu plano
de tornar o novo mundo criado um novo Reino,
onde habitassem esses novos deuses, em plena felicidade
e comunhão entre si e consigo.
 
E concedeu à criação uma existência própria, mas provisória,
uma existência contingente, na dependência de que a tocasse o homem
com sua consciência, uma existência bruta, que ele lapidaria
com seu talento, seu amor, sua criatividade e alegria,
e assim, toda a criação espera por esse novo homem,
e geme, à espera das dores do parto, quando nascerá
para uma nova realidade, mística e espiritual,
onde Deus – seu Cristo – será tudo em todos,
e quando todo o universo terá retornado,
após quarenta éons no deserto,
aos primigênios tempos míticos.” (26-11-24)
 
“...porque nada vejo corporalmente
neste século do mesmo Filho de Deus,
senão o santíssimo Corpo e o seu santíssimo Sangue”[1].



[1] São Francisco de Assis, Testamento, 10



13.       ESSE TAL CRISTO

 



“Cristo nos espera, pacientemente,
o Cristo negro da cozinha, o branco da capela,
o Cristo do ícone, que Maria do Egito guarda,
ciosamente, escondido em sua cela, Ana,
Cristo nos aguarda, Dita, onde quer que estejamos,
para onde quer que formos, de qual maneira estamos,
 
pois ele reside em nós, lá dentro, e cultiva sua vinha,
e assa o pão, e apascenta seu rebanho,
e observa o tempo, as estações, a colheita,
o amadurecimento dos frutos, e retira as pedras
para que cresçam as videiras em solo fértil,
e colhe as uvas e as leva ao lagar, e colhe o trigo
e o prepara no moinho, e faz o pão, e senta-se à sombra do alpendre,
 
a esperar que cheguem os viajantes, que vêm de tão longe,
extenuados, a procurar por um copo que lhes sacie a sede,
um naco que apazigue a fome, e dois dedos de prosa
que alivie o deserto por quê passaram
nos últimos quarenta anos, em que caminharam
sem ver as estrelas, sem ver a estrela
 
que lhes mostrasse a direção, onde encontrariam pastores simples
a adorar um menino, e a partilhar do pão e do vinho,
e a embriagar-se de amor, por viverem naquele instante
tudo o que a humanidade buscou, sem encontrar,
enquanto se entregava ao mais urgente,
e esquecia o realmente importante.” (31-12-24)


  

14.       O ESPÍRITO

 




“Tendo subido para junto do Pai, ele enviou
sobre seus santos Discípulos e Apóstolos o Espírito Santo,
o qual procede do Pai; ele é, juntamente com o Pai e o Filho,
sem princípio, na medida em que também ele tem o Pai
como raiz, fonte e causa, e não como tendo sido engendrado,
mas como procedendo dele.
 
Também ele saiu do Pai, antes de todos os séculos,
sem fluxo, sem paixão, não por engendramento,
mas por processão, inseparável do Pai e do Filho,
porque ele saiu do Pai e repousa no Filho;
ele está unido a eles sem confusão
e se distingue deles sem separação.
 
Ele é também Deus saído de Deus, não uma coisa
enquanto Deus e outra coisa como Paráclito;
Espírito auto-hipostático – que é uma pessoa em si –
procedente do Pai e enviado, ou seja,
tornado manifesto, pelo Filho; ele também é causa
de todas as coisas criadas, pois nele tudo foi terminado.
Ele possui, com o Pai e o Filho, a mesma honra,
exceto o não-nascimento e o nascimento.
 
Ele foi enviado pelo Filho aos seus discípulos,
ou seja, foi manifestado. Com efeito, de que outro modo
poderia ele ser enviado por Aquele do qual ele é inseparável?
Como poderia vir de outro modo Aquele
que está presente em toda parte?
É por isso que ele foi enviado não apenas pelo Filho,
mas ainda pelo Pai, por intermédio do Filho.
E foi também por si próprio que ele veio ao se manifestar.
Pois o envio, ou seja, a manifestação do Espírito, é uma obra comum.
 
Ele não se manifestou segundo a essência,
porque “ninguém jamais viu nem relatou a natureza de Deus”;
mas sim na graça, na força e na energia,
que é comum ao Pai, ao Filho e ao Espírito.
Com efeito, aquilo que cada qual possui de próprio,
é sua hipóstase e seus atributos particulares;
ao contrário, eles possuem em comum
não apenas a essência supra essencial,
que é absolutamente sem nome, não revelada e imparticipável,
porque ela transcende toda denominação,
toda revelação e toda participação, mas igualmente
a Graça, a Força, a Energia, o Esplendor, o Reino,
a Incorruptibilidade e, numa palavra, todas as coisas
segundo as quais Deus se comunica e se une
pela graça aos santos anjos e aos homens.
 
Nem a distinção, nem a diversidade das hipóstases,
nem a separação e a variedade das forças e das energias
O fizeram perder sua simplicidade, de sorte
que nós confessamos um só Deus Todo-poderoso
em uma só divindade.
Com efeito, é absolutamente impossível
que hipóstases perfeitas possam dar lugar a uma composição;
e é igualmente impossível dizer que o que é simples, feito de poder,
faz daquele que possui este ou esses poderes, uma coisa composta”[1].

 



[1] São Gregório Palamas – Confissão de Fé, 4-8.




 2.3.1. ANA E DITA



Onde a história faz uma curva, e reencontramos Ana no Convento da Anunciação, e assistimos a chegada de sua amiga Dita, dos tempos do Recolhimento, que passa a viver com ela no Convento, dividindo conhecimentos e experiências.





1. DEUS ÉASSIM






Ana sentou-se no degrau do alpendre da cozinha,
e à sua frente abria-se o pátio onde ciscavam galinhas,
em seguida a cerca, a portinhola que dava para o caminho,
e à direita seguia uma trilha estreita e rasteirinha
que levava ao chiqueiro modesto de poucos porcos,
e, mais adiante, à cocheira, com uma vaca e uma jumentinha,
 
e, seguindo pelo caminho em frente, à direita ficava a roça,
com seus canteiros de verduras e hortaliças,
e à esquerda o pomar, com suas espécies frutíferas,
e um atalho curto que conduzia ao muro,
que separava essa parte da entrada do Convento,
onde ficava o portão principal, com o sino
que lhe servia de campainha,
 
e Ana sentada ali, sozinha, olhava a paisagem,
vendo ao fundo o bosque, e mais adiante a colina,
e as nuvens que passavam ao cantar das aves
e o barulho dos grilos, sapos e outros bichinhos,
e um calorzinho gostoso lhe tocava a pele,
e todo esse tranquilo teatro ia se transformando,
e se tornava diáfano e transparente,
como se fosse feito de vidro, e de repente
 
tudo estava em silêncio, e só subsistia uma luz clara,
como de prata vestida, e Ana, contemplativa, olhava
como se visse e não visse, como se estivesse
numa vida dentro dessa vida, como se
entre esse “aqui” e esse “agora” só houvesse ela
e uma paz infinita... infinita... infinita...
e Ana pensou, de repente, "Ah, então Deus é assim",
 
e imediatamente tudo se recompôs,
e ela estava no alpendre, e à sua frente as galinhas ciscavam,
passavam as nuvens, cantavam as aves,
erguiam-se ao longe as colinas e os bosques,
e estava em seu lugar a cerca, com o portãozinho,
e uma brisa suave soprava, de não sei donde vindo,
e Deus por ali com certeza passara, deixando atrás de si
não mais do que a impressão fugaz e límpida
do seu perfume sagrado e do seu rosto divino. (30-6-25)
 
 
 



2. MEU DEUSINHO





A menina assoprava em suas mãozinhas,
e sentia a brisa do sopro, e depois da brisa um friozinho,
e ela pensava, "Isso é Deus, meu Deuzinho",
e em seguida ela olhava o sol que faiscava
nas pedrinhas molhadas do rio, e fechava
rapidamente os olhos, e via os brilhinhos
que ainda brilhavam na retina dos olhos,
e pensava, "Isso é Deus" ainda, e então
 
ela mordia a fruta sumarenta, que lhe escorria
pela garganta e o peito, depois da delícia,
e sentia seu perfume doce e gosmento, e pensava,
"Isso é Deus", e à noite, à noite ela olhava as estrelas
e o escuro manto por trás do rendilhado de luzinhas,
e a promessa da aurora do dia de amanhã
que viria, e ela pensava, "Isso é Deus",
 
e em sua alegria de menina cantava versinhos,
e ouvia sua própria voz vinda de trás dos seus ouvidos,
e pensava, "Isso é Deus", e com esse Deus vivia,
 
não nas coisas do mundo, mas no que ficava delas
no instante seguinte, quando elas já não existem,
mas ainda são, e ela pensava, "Isso é Deus",
aquilo que é, depois que todas as coisas passam
depois que a nossa mente desiste. (31-6-25)
 
 



3. SACIS





Ana corria pelo terreiro atrás do pé-de-vento,
mas não corria atrás do saci que morava no remoinho,
corria atrás dela mesma, da sua sombra fugida,
que se fingia de sonsa, e se sumia se sumia o sol,
 
e aparecia a cada nesga de luz que varava a nuvem
e a devolvia à cena, e nessa correria
ela e o menino Jesus riam-se um do outro,
 
e, exaustos, sentavam-se a descansar debaixo do umbuzeiro,
e logo continuavam, leves como o vento,
ela e o menino de luz, negro como se é por dentro,
 
mas com um sorriso largo, cheio de dentes,
que iluminava todo o pátio, a vida, o instante,
e mais tudo o que houvesse pela frente. (1-7-25)
 
 



4. A RECRIAÇÃO DO MUNDO





Ana espantava-se. Como podia Deus
inventar tudo novo a cada dia? “Essa folhinha,
que caiu da árvore, quantas cores novas exibe,
e que ainda mudam se sobre ela cai a menor gotinha,
e essas pedrinhas multiformes e coloridas,
 
como pode Deus adivinhar que eu iria as ver
e me encantar com a variedade de tantas delas
que existem, só para que eu as encontre,
e encontre a ele, que se esconde e se mostra
ao bel-prazer, como que brincando comigo,
 
para que a pequena Ana se extasie com a beleza,
com a destreza do poeta, do artista, do criador
de tudo a cada segundo que passa, ele,
que renova toda a terra minuto a minuto,
e a tudo muda num átimo de tempo,
 
e nada fica sem sua atenção, sem seu carinho,
não importa que a humanidade o veja ou não,
Deus é igual, sempre mudando, e deixando
suas pedrinhas pelo caminho, para que o sigamos
encantados, para que queiramos sempre mais,
sempre mais, e que o queiramos bem,
 
e cada vez mais, e o vejamos em toda parte,
como nessa borboleta que passa, na água
do ribeirão que escorre, no pio da coruja
que ouvimos à noite e nos assusta e se vai,
como se vão as nuvens, que desenham nos céus
toda espécie de maravilhas, sem que
as possamos capturar, como vêm e vão
 
os infinitos jeitos de cada dia, e só permanece
o fato de que tudo muda, e que cada serzinho,
por minúsculo que seja, traz em si todo o mundo,
e carrega consigo a responsabilidade infinita
de trazer sua mínima contribuição para
a grande Vida que abarca tudo, e que é
muito mais do que a soma de tudo o que há,
 
ainda que pensemos em tudo junto,
e por trás e por baixo de tudo nos sustenta
essa outra vida, chamada Espírito, que anima
a matéria, e a transforma de dentro pra fora,
e a lança no universo para nosso pasmo,
 
nossa admiração, nossa alegria, para que o amor
se infunda em nós, e que transformemos
o banal de cada dia numa descoberta,
e a própria existência numa espécie de missa,
uma Liturgia sobre o altar sempre novo de Deus,
que nos concede sem parar suas delícias,
como pode Deus, ainda?” (4-7-25)
 
 



5. DEUS É CRIANÇA





“Não tenho medo de morrer,
porque sei que Deus é criança,
como eu, e que ele nunca vai parar
de brincar, e criar e se divertir nos seus jardins
que ele criou para que nós façamos nossos jogos,
nossos pega-pegas, nossos esconde-esconde,
 
com ele correndo, nem importa porque
ou para onde, porque ele é infinitamente alegre,
e não se cansa, e faz arte sem parar, e é nisso
que somos iguais a ele, e é por isso
que ele disse para irmos até ele, nós, as crianças.” (4-7-25)
 




6. O INFINITO RECOMEÇO





 “Pois se Deus cria assim o que existe, e todo o tempo,
e não fica um minuto sem criar, quanto mais ainda
fará no outro mundo, que é esse mesmo, só que de um jeito
como era no princípio, no Paraíso, onde cada coisa
teve sua origem, cada conchinha do mar, cada gota de chuva,
cada grão de areia, cada brisa que passa, cada olho que pisca,
cada instante de amor, cada vez que alguém passeia
de mãos dadas, cada vez que alguém olha os olhos
da pessoa amada, se Deus criou tudo assim no começo,
 
é porque tudo havia antes, por ele ter tudo pensado,
e nada fica sem acontecer, e há muito mais coisas
no mundo do que temos calculado, e o que vemos agora
não passa da capa sob a qual as coisas acontecem ainda
como foram no passado, e assim, se houver um novo mundo,
nova terra e novos céus, como diz o ditado, serão eles
os mesmos de agora, só que do modo originário,
 
e no mundo futuro, toda vida será preservada, não importa
se de gente, bicho, planta, flor, pedra, montanha,
passarinho, assobio ou canto, tudo o que é vivo,
em qualquer modo que seja, a tudo Deus ama igual,
e a tudo quer do mesmo jeito, e tudo irá parar
no seu colo, que é o que ele mais quer, e mesmo
o que hoje não vemos, e tudo estará perfeito,
 
não porque tenha chegado a um ponto final,
mas justamente, por ter alcançado o instante
mágico de um novo e infinito recomeço.” (4-7-25)
 
 



7. O CIRCO





Ana encontrou, no fundo da trouxinha
de roupas que trouxera consigo, um papelzinho
enrolado, com uma misteriosíssima escrita,
que dizia assim, numa linda caligrafia:
 
“Ontem esteve um circo na cidade,
e aproveitamos para levar nossa menina,
e foi uma delícia vê-la tão animada,
e tudo para ela era novidade, e ela não via a hora
de se apresentar a próxima atração, e vibrava
como nunca a vimos antes, nossa pequena Teodora,
 
e aquilo me fez pensar, enquanto assistia,
que o mundo é um circo, onde Deus faz de tudo,
onde ele é o mágico, o domador, a trapezista,
a trupe de palhaços, a mulher barbada, o leão,
o homem forte, o bilheteiro e o equilibrista,
 
e ele monta novos números a cada apresentação,
a cada cidade nova que visita, e se traveste
de pierrô, de colombina, de arlequim, e faz graça
como o mico do realejo, o cãozinho que dá pirueta,
 
e agradece os aplausos do respeitável público,
anunciando novo espetáculo na noite seguinte,
e quando baixa o pano estrelado e colorido
ele tem umas poucas horas para se reinventar
 
e apresentar tudo novo, com novos malabarismos,
novos figurinos, e a cada vez o circo estreia,
e o mágico é mais sutil, a bailarina é mais bonita,
o leão ruge mais forte, e o próprio homem forte
faz proezas que a gente nem acredita,
 
e tudo isso sob aquela lona velha, vermelha e amarela,
com muitos buracos, para que também assistam as peripécias
aqueles que esqueceram o ingresso gratuito,
e a cada apresentação o circo de Deus é um sucesso, 
ainda que o aplaudam três ou quatro,
capazes de entender o que há por trás do ato
 
– dias, semanas, anos de ensaios, corpos suados,
maquiagens caprichadas, roupas com remendos
disfarçados em meio à variedade de tecidos –
ah!, Deus é tão atencioso!, mas é preciso vê-lo,
não apenas assistir à cena, por mais bela que seja,
é preciso vê-lo e ouvi-lo, porque acima de tudo,
 
o circo nos envia uma mensagem ineludível,
de que o Mestre de Cerimônias, disfarçado
em meio ao público, é quem rege o espetáculo,
é que dá a ele graça e vida, e nos ilumina a existência,
sem cobrar nada por isso”, e estava assinado
 
“Antônia, Sítio Guacyra, aos 3 dias de Janeiro de 1904.”
 
Mas, o que era isso? E que lugar era aquele sítio?
E que data futura era essa, mais sem sentido?
E quem era essa Antônia (“Certamente
não minha mãe, que já teria morrido?”),
e essa Teodora, quem era?
O que significava tudo aquilo?
 
E Ana foi procurar Tecla, e mostrou-lhe
o papelzinho, e Tecla olhou-a com ares
de mistério, e respondeu simplesmente
um pouco séria, um pouco como se risse disso,
 
“Essas coisas acontecem por aqui, e outras
ainda mais estranhas nesse tal de sítio,
que um dia você há de compreender a todas,
mas, por hora, corte as cebolas, que já
estamos atrasadas, e as Irmãs que rezam
já estão a terminar o seu Ofício”. (6-7-25)
 
 



8. SANGUE COR-DE-ROSA





As Irmãs deixaram a Capela, e vieram,
solenes, pelo corredor, todas branquinhas,
e vestidas de branco, de olhos semicerrados,
a murmurar restos de salmos e ladainhas,
como quem mastiga um nesguinho de carne
do almoço, e o revira dentro da boca
com a língua, e Ana as via passar, lentas,
sonolentas, e a menina olhava para si mesma,
 
e se achava ainda mais preta diante delas,
tão claras, quase albinas, e ela pensava
se seria o sangue delas também alvo,
ou cor-de-rosa claro, e se suas entranhas
seriam também assim tão bem lavadas,
e se até o cocô que fizessem seria,
ele também, tão branquinho? (6-7-25)
 
 




9. O CRISTO NEGRO É REAL






Pela fresta da porta Ana observava o cortejo
das Irmãs que regressavam da Capela,
e assustou-se ao perceber Tecla, que atrás dela
a olhava com ar de terna censura, e que a chamou
de volta à cozinha, ao trabalho da rotina,
e a mandou buscar azeite para a lamparina, dizendo,
 
"Não perca seu tempo com ideias tolas, menina,
se elas são brancas é porque nasceram assim,
ou porque tomam demasiados banhos
para se livrar das impurezas que cada uma imagina,
mas são iguais a nós por dentro, e talvez até
um pouco mais tolinhas, porque o azeite que queima
na candila de seus corações devotos,
elas o compram na feira de orações que fazem cada dia,
 
e precisam renová-lo todo o tempo, pois queima
por demais depressa, e se apagará,
se não for enchido uma e outra e outra vez
(não que seja errado, apenas é só isso),
enquanto que o azeite da nossa fé tão simples,
esse óleo grosso que queima nas panelas ao fogo,
quem no-lo dá é o próprio Cristo, esse Cristo pendurado,
que nos abençoa do alto da sua viga, esse Cristo
 
que, por nós, se fez negro de fumaça, de gordura e de fuligem,
para que mais o amássemos, para que se fizesse nosso pai,
nosso Ancestral querido, para que nos falasse
na língua que entendemos, mesmo quando está calado,
e esse azeite que pomos na confecção dos pratos
é mais santo do que os joelhos dobrados das Irmãs
(e não lhes nego a fé, mas elas a têm num modo abstrato),
 
porque nosso azeite é real, e alimenta corpo e alma,
e não flagela aquele para ver a outra salva,
porque dos dois é feita a pessoa humana,
que se separarão na morte mas estarão reunidos
novamente no Juízo, e no Reino e no Paraíso,
assim como o fazemos, nós também de corpo e alma,
quando esse óleo santo de nossas mãos rudes chia
na panela, pedindo que lhe demos os alimentos
que irá transformar em coisas boas e tão belas,
 
que sustentem, a cada dia, essas virgens
tão boazinhas e tão tolas, enquanto suas irmãs negras
oram ao mesmo Deus, mas de maneira outra,
e com nosso trabalho e amor por todas,
praticamos o mesmo e outro Cristianismo,
sem discriminar essa ou aquela, quer estejam
juntas à mesa, em seus quartos cada qual,
ou reunidas qual rebanho na Capela,
todo dia, todo dia, todo dia." (7-7-25)
 
 




10. AS SANTAS E AS SANTINHAS






Havia no Convento da Anunciação de Maria
duas entidades, unidas mas separadas, a saber,
as santas e as santinhas, sendo essas últimas
as Irmãs brancas, devotadas a uma vida de orações
e uma existência religiosa e contemplativa,
calmas e ordenadas, a confessarem seus pecados
e arrependimentos regularmente à Diretoria,
 
e as primeiras, as Irmãs negras e suas ajudantes pretinhas,
vivendo entre a roça, o curral, o pomar e a cozinha,
a manter o sustento da casa e as condições materiais
para o doce gozo da irmandade branca
em sua religiosidade devota e passiva,
 
enquanto elas próprias trabalhavam sua fé
de forma direta e bruta, sem meneios e viravoltas,
sem circunlóquios e rapapés, uma fé
que nascia do chão, da carne, da terra, das entranhas,
e subia ao mais alto céu, numa escada tosca e reta,
 
feita de sal e pimenta, de azeite, fogo, fumaça e carvão,
do pão de suas almas, assadas no forno da lida
e de uma oração viva, tão intensa e tão profunda,
que lhes valera por essa e por muitas outras vidas. (7-7-25)
 
 




11. SAUDADES





Ana sentia saudades de Antônia, sua mãe,
e perguntava por ela a Tecla, que lhe respondia
que Antônia estava a viajar, por onde ninguém sabia,
 
e que essa era sua vida, e que por esse motivo
a deixara no Convento, com ela, Tecla, e as Irmãs
e Madre Maria do Egito, para que ela crescesse
 
em espírito, e se tornasse a mulher que esperavam dela,
e que, quando crescesse, passasse o conhecimento
por ela adquirido, à sua sucessora, e que essa linha
 
não se romperia ao longo dos séculos, e que ela,
Tecla, ali estaria sempre, enquanto fosse preciso,
para ajudá-la e ampará-la até que tivesse siso,
 
e pudesse caminhar por si só, sobre seus pés,
e pudesse receber o Santo Espírito, com tudo
o que ele implica na existência da humanidade,
 
e de crescimento espiritual de cada pessoa humana
em termos de amor, de paz, de entendimento,
de compreensão, fraternidade e juízo. (7-7-25)
 
 



12. A RENOVAÇÃO DO PENTECOSTES





Ana ouvia os sermões do Padre Agostinho,
que vinha ao Convento uma vez a cada muitos dias,
e não entendia nada, porque tudo lhe parecia
carente de substância, e eram palavras vazias,
com as quais ela não sabia o que fazer, senão
 
fingir se comportar como ele queria, e fazer
cara de boazinha, o que parecia agradá-lo,
e às demais freiras, incapazes de olhar pra dentro
do seu serzinho, e entender, de fato,
o que ali dentro acontecia, menos Tecla,
 
que lhe disse, muito séria e meio rindo
(como sempre fazia), “Ana, minha menina,
tudo o que falta a essa gente é o Santo Espírito,
que, sem ele, as coisas ficam desse jeito,
abstratas, exteriores, sem sentido, e é por isso
que você as sente como ilógicas, impostas
a uma fé cega, palavras que devem ser aceitas
 
não pela vontade, mas pela mera obediência,
restritas apenas às possibilidades inferiores
do nosso entendimento e nossa consciência,
pois é o Espírito Santo quem preenche
todas as coisas, e coloca nelas tudo o que lhes falta,
 
que está acima de todo limite, que dá
ao desconhecido a plenitude da experiência,
que transforma em luz a névoa espessa,
a realidade trina, a luz divina, o modo de existência
que é inerente a Deus, que transborda
 
a plenitude de sua divindade a todos os que são
dignos de a receber, num Pentecostes renovado
a cada instante, num átimo de segundo,
que elimina da criação ser objeto, e transforma
em sujeito o Novo Mundo,
 
por isso, perdoe nosso querido Agostinho,
que fez o melhor possível, mas sua Teologia
é uma teoria sem a experiência devida,
e por isso ela parece vazia de sentido, embora
dita corretamente, mas tudo o que é falado ali
 
carece do Santo Espírito, que, quando vem a nós,
transforma o modo como reagimos ao mundo,
porque estamos no mundo, mas não pertencemos
a ele, e nosso modo de Cristianismo consiste
em imitarmos a natureza divina, que temos emprestada,
e esperarmos, pelo Espírito, que Deus faça em nós
sua santa, divina e infinita morada”. (8-7-25)
 
 




13. AS ENTRANHAS DE CRISTO





Ana brincava com as crianças no pátio do Recolhimento,
a correr desabaladamente, como todas, em liberdade
total, na eterna proclamação da infância e da inocência,
até que as Irmãs as chamavam todas para a Capela,
para o momento da oração do dia, e elas chegavam,
 
com os corações aos pulos e suor por todo corpo
que pingava da testa, e se colocavam muito sérias
nos bancos marcados para cada uma, para ouvir
a homilia que lhes faria a Superiora, Soeur Madeleine,
 
e aconteceu de, neste dia, ler-se o Evangelho de Lucas
em que Jesus assiste ao féretro do filho da viúva, e,
tocado de compaixão que lhe doeu nas entranhas,
ressuscita o menino, que sentou-se e falou, e Jesus
entregou-o à mãe, e seguiu seu caminho, e a Ana
 
aquilo tudo impressionou muito, pois nunca imaginara
que tivesse Jesus entranhas, esôfago, estômago,
intestino – pois não era ele Deus? – e todos sabem
que os deuses são feitos apenas de luz, talvez
de um tipo qualquer de algodão, ou estopa
(no caso dos deuses menores, ou dos pagãos),
 
enfim, que fossem forrados por dentro de qualquer coisa,
menos de carne e ossos como se dizia ali, e ainda por cima,
tendo nó nas tripas de dó da pobre senhora, que ali
caminhava para enterrar seu único filho, e Ana pensou,
com a estatura de seus seis aninhos, que também ela
queria conhecer a compaixão de Cristo, e terminado
 
o Ofício, correu escondida à cozinha, onde Inácia
cuidava dos afazeres do jantar, tendo Antônia
ao seu lado, e Ana entrou bem quietinha, e se pôs
num cantinho que só ela sabia, de onde ela via
o Cristo pendurado, e dali, olhando-o com cuidado,
atreveu-se a perguntar, sem saber como dizê-lo,
 
“Meu Jesus, meu Cristinho, me aceite, apesar
do meu jeito, e me deixe entrar aí dentro, no lugar
onde você tem sua compaixão guardada, me abra
sua barriga, para que eu possa colocar essa Aninha
no calor dos seus intestinos, prometo ficar quietinha
e não lhe dar nó nas tripas, e depois, quando você quiser,
 
me ponha pra fora, inteira e nova, como você fez
com o filho da viúva que chorava”, e o Cristo negro,
lá de cima, fez um gesto, e Ana viu-se num lugar inédito,
em meio a coisas que ela desconhecia, mas era tudo
tão quente, calmo e quieto, que ela se deixou ficar,
meio adormecida, e ali pegou no sono, e sonhou
 
com sóis, nuvens e pradarias, feitas de cristal e luz,
de prata, de açúcar candy, guloseimas e especiarias,
e ela dançava no meio das estrelas que brilhavam
em plena luz do dia, e Cristo brincava com ela,
até que, cansada, pendeu a cabeça de lado, fechou
os olhinhos e. quando acordou, estava no colo de Antônia,
 
que a pôs com cuidado sobre os sacos de feijão e farinha,
e lhe cantou uma canção de ninar, e ao final Ana não sabia
onde havia estado, mas só tinha uma certeza, de que
estivera de fato na barriga de Cristo, e então, sem dizer nada,
falou para ele baixinho, de modo a que só ela e ele ouvissem,
 
“Jesus, meu Cristinho, agora é minha vez, e quando quiser
me visitar, pode vir, eu abro a barriga pra você, pode entrar
que aqui dentro também será quente, calmo e quietinho”,
e Cristo disse, “Sim, eu vou, quando chegar o momento”,
e pensando nisso ela adormeceu, e só acordou ao dia seguinte
com muita fome, por ter perdido a hora do lanche, enquanto
dormia nos braços de seu negro e querido amigo. (10-7-25)
 
 




14. QUERO QUE COMIGO ESTEJAS






“Por que terei me lembrado dessas coisas?”, Ana se perguntava,
mas o fato é que, ali, parada junto ao portão do Convento,
ela via passar ao longe uma pequena tropa de burros,
puxada por um tropeiro, e de repente sentiu por dentro
um enorme amor por toda aquela gente, homem e bichos,
 
e mais adiante vinha uma família pelo carreiro, voltando
do mercado, a mãe, quatro crianças, um cachorrinho
e o pai, mais atrás, com um balaio nos ombros, curvado
ao peso, e a menina sentia aquele amor estranho,
que lhe revirava inteira, e vinha das entranhas,
como lhe prometera um dia Cristo, que viria visitá-la,
 
e agora ela se lembrava de tudo, e compreendeu
que aquela convulsão interior era o próprio amor de Deus,
um amor por toda a humanidade, como se fossem todos irmãos,
que ela experimentava assim, muito acima de todas as aulas
de catecismo que aprendera no Convento e no Recolhimento,
e tão parecido com as coisas que ouvira de sua mãe,
Antônia, e de Inácia, a cozinheira, e do Cristo negro,
 
que lhe segredava baixinho coisas que só ela ouvia,
embora ainda não entendesse, mas entendia agora,
que nascemos e crescemos com a imagem da divindade,
e que a semelhança é-nos também inata, e que
é nosso propósito na vida despertá-la, não
pelas coisas que lemos, mas pela experiência do amor
que sentimos, e nossa atenção deve estar, não nos ensinos,
 
mas na maneira de chegarmos até Ele, porque fomos
criados para termos dentro de nós o eterno Deus,
e assim superarmos o abismo que existe entre o finito
tão pequeno (por maior que seja) e o infinito, que não tem
medida, e somos capazes de viver com Deus, isso é,
trazer a humanidade com amor dentro de nós, como fez
na Cruz o Pendurado, e isso significa que o Deus eterno
está conosco no tempo finito, mediante esse amor,
 
e que ele assim participa de nossas vidas, ele que orou
por todas as pessoas passadas, presentes e futuras,
quando sofria na Cruz todo tipo de torturas, e que
nos disse, “Onde eu estiver, quero que comigo esteja
meu diácono[1]”, meu servo se quiserem, nós, a gente,
essas pessoas que somos, que pedimos toda manhã
Torna-nos dignas, Senhor, de que nesse dia de hoje
sejamos preservados sem pecado”. (11-7-25)
 
[1] João 12: 26.







2.3.2 DITA





1. POR QUEM MEU CORAÇÃO SE PROSTRA





Benedita – Dita – corria pelo pátio do Recolhimento
no recreio, com as outras crianças, todas elas
(menos ela e Ana) brancas, e admirava-se,
como estavam todas em harmonia, na mesma balança,
e se olhavam, e se abraçavam e se davam as mãos,
 
como se nascidas da mesma mãe – e eram –
da mesma terra, do mesmo mar, do mesmo ar que soprava,
e ela se sentia feliz, e levava consigo esse nome,
que lhe deram, e Soeur Madeleine lhe dissera,
como se fosse algum tipo de profecia,
 
"Houve uma grande santa e imperatriz, a esposa do rei,
Constantina, que encontrou a Cruz divina, que era buscada
em Jerusalém, onde o Rei dos Reis foi pendurado
para morrer e sanar nossos pecados, e assim,
como bendita foi ela, assim será você agora Benedita,
 
e que te chamem Dita, não importa, porque
você há de encontrar outra Cruz, onde quer que esteja enterrada,
e voltará com ela, vitoriosa, e entrará em cortejo
na cidade santa de Constantinopla, que é você mesma,
e esse será seu destino, Dita, Benedita,
essa menina pretinha, por quem
meu coração se prostra e se dobra",
 
e Dita olhava para sua amiga Ana, que com ela voava
no recreio, mais alto do que todos os meninos e meninas,
e riam uma para a outra, e tinham entre si um segredo
que ninguém mais sabia, porque elas já haviam achado a tal cruz,
e a viam sempre, pendurada na trave do teto da cozinha. (13-7-25)
 
 




2. RECORDAÇÕES





Ana recordava sua irmã do Recolhimento,
da qual não tivera mais notícias, e sentiu vontade
de escrever-lhe uma carta, para pôr em letras bonitas
tudo o que passara desde sua chegada ao Convento,
e escreveu a ela assim, “Luz dos meus olhos,
 
minha amiga Dita, que meu coração tem nas mãos
e nossa amizade acima dos mais altos montes
e dos nevados picos (se por aqui houvesse...),
tenho saudades de ti, das conversas que tínhamos,
das coisas que nos dizíamos, dos mistérios
que Inácia nos ensinava nas noites em que íamos
à sua cozinha, e lá ficávamos, com Antônia,
 
a imaginar os anjos que passavam em cortejos
infinitos, e ficávamos boquiabertas a pensar
como Deus estava perto, como ele era bonito,
e hoje sinto falta de ti, e me pergunto, se ainda estás
no Recolhimento, afinal crescemos as duas,
e já nem sei que idade temos, e até quando
seremos guardadas da sociedade, em que vivem
e se perdem as pessoas, e espero eu nunca mais sair
 
desse Convento, onde Deus é tão próximo,
que quase posso tocá-lo com os dedos, e isso
é tão bom, e eu me pergunto muitas vezes,
onde está você, como está você, o que pensa,
o que sente você, Dita, minha amiga
para toda vida, minha irmã, meu bem-querer?”,
 
Do Convento da Anunciação de Maria, sua irmã Ana,
aos 12 dias do mês de Abril do ano da Graça
de Nosso Senhor Jesus Cristo, de 1820. (13-7-25)
 






3. O COTIDIANO





 
 Dita recebeu a carta de Ana de um desconhecido,
quando voltava da feira para o Recolhimento,
e observava com olhos espantados o espetáculo
do sol que brilhava acima de tudo, com seus raios
que recriavam o mundo em cores, luzes e sombras
infinitamente a cada momento, e tinha seus pensamentos
 
em Deus, que a conduzia pelas ruas do Rio de Janeiro,
e a fazia invisível aos olhos indiscretos dos desordeiros,
que viam passar a negra esbelta como uma ilusão
de ótica, ou alguma outra, ou um cisco trazido
pelo vento, e assim Constantina era a única
que podia deixar o edifício bem guardado, e dali
 
ir ao mercado, à loja de tecidos, ao vendedor
de panelas, ao afiador de facas, ao tanoeiro,
e voltar a salvo, como se oculta por um fenômeno
de refração da luz, que a tornava transparente,
e afastava dela os malefícios de viver nessa cidade
 
cheia de desvios, de erros, de caminhos perdidos,
de gente mesquinha, de ricos comerciantes,
da recém-chegada Corte Portuguesa, com seus
marqueses e duques, condessas, princesas,
aias, concubinas, aduladores, soldados e falsetes.
 
A cada domingo ela assistia aos Ofícios litúrgicos
na capela do Recolhimento, dados por Padre Júlio,
bonachão e um pouco desordeiro, que pregava
contra a monarquia, dissimuladamente nas entrelinhas
de suas longuíssimas Homilias, mais políticas
do que religiosas propriamente, e erguia a voz,
 
principalmente, contra a Coroa Portuguesa,
e citava de cabeça trechos inteiros do Padre Vieira,
que desde o século XVII defendia os direitos
dos povos indígenas e dos negros[1], e Dita gostava
em especial do trecho em que ele falava do Juízo,
e dele profetizava, “abrasado finalmente o Mundo,
e reduzido a um mar de cinzas tudo o que
o esquecimento deste dia edificou sobre a terra...[2]”,
 
porque isso mostrava a inutilidade da correria
em que passava seu tempo a humanidade,
entre o desejo das riquezas, do poder e da glória,
enquanto havia outro mundo, perene e duradouro,
no qual, ao invés do mar de cinzas, luzia um oceano
de rosas, feito de bondade, de aceitação do outro,
de puro amor, de ardor por Deus, pelo momento
 
em que todos os homens, irmanados, buscariam
a unidade de suas naturezas, embora preservando
cada qual sua pessoalidade, e se identificariam
todos com Cristo, a fonte eterna e constante
de tudo o que podemos chamar de “ser humano”,
o sopro constituinte da nossa hominidade. (13-7-25)


[1] “Senhor, os reis são vassalos de Deus, e, se os reis não castigam os seus vassalos, castiga Deus os seus. A causa principal de se não perpetuarem as coroas nas mesmas nações e famílias é a injustiça, ou são as injustiças, como diz a Escritura sagrada; e entre todas as injustiças nenhumas clamam tanto ao céu como as que tiram a liberdade aos que nasceram livres, e as que não pagam o suor aos que trabalham.” (Padre Antônio Vieira, Carta a El-Rey Dom Afonso VI, 1657).

[2] Padre Antônio Vieira, Sermão do Primeiro Domingo do Advento (1650) 




4. RESPOSTA À CARTA




E pensando nessas coisas, Dita respondeu a Ana,
embora não soubesse, nem como chegara a si
a carta, nem como enviar a ela sua resposta,
mas confiou no Santo Espírito, que, afinal,
já tinha feito outros milagres de maior monta,
e assim ela escreveu, sem levar mais nada em conta,
 
“Amada irmã minha, Ana, que ter notícias suas
me arde o peito e as entranhas, e sinto dentro de mim
esse amor convulso de que falavam Inácia e Antônia,
que revoluciona o dentro de nós, do fundo
da nossa definição como espécie humana, esse amor
superlativo que sentiu Cristo dentro de si, ao ver
passar o féretro do menino e sua mãe viúva,
ou de quando lhe contaram da morte de Lázaro,
 
seu amigo mais chegado, enfim, ao ler sua carta,
minha irmã e amiga, meu ser se expandiu
como se abarcasse todo o universo, e no meu amor
por ti, senti o amor por todas as pessoas desse circo
em que tivemos a sina de nascer, e também
pelas pessoas passadas, presentes e futuras,
 
e por cada ser nascido, cada pedra do caminho,
cada onda do mar, cada brisa, cada dia e cada noite,
no calor como no frio, e é do Espírito Santo
esse milagre, não meu, nem teu, mas do sopro
que recebemos antes que o mundo existisse
e se ligassem um ao outros nossos destinos,
 
e por isso ainda mais a amo, e em meu amor
por você amo toda a humanidade, e Cristo, e sei
que mais dia, menos dia, nos encontraremos
novamente, nalguma esquina, no lugar
menos pensado, nalguma curva de rio,
numa cidade que não sabemos, num dia
imprevisto, mas nos encontraremos, amada,
tão certo como eu sobre essa terra existo”.
 
Do Rio de Janeiro, aos 4 dias de Janeiro do Ano
de 1821, da Graça de nosso Senhor Jesus Cristo,
de sua irmã Dita, a que nunca foi rainha,
nem imperatriz, mas que segue sendo a serva
do Senhor, e sua menina, em busca de Sua Cruz,
aquela que nos foi prometida. (13-7-25)
 
 



5. AMORES ADOLESCENTES





Tal era o amor das duas adolescentes,
que superava com seu poder místico
toda separação de princípio, como foi dito,
Somos criados para termos dentro de nós
o eterno Deus, para superarmos esse abismo[1]”,
 
de modo a que, na prática cotidiana,
nos libertemos das falsas teologias,
que dividem e fatiam Cristo em mitos
despropositados, e por isso, simplesmente,
devemos fugir de toda separação, e não
nos desviarmos, e assim purificarmos
 
o coração, o nous e todo nosso ser
da escuridão do inimigo, e nos tornarmos
capazes de entender, sem intermediários,
o que vem de Deus, e sermos preservados
dos pensamentos negativos contra o próximo,
a começar do nosso próprio pequeno círculo,
 
de tal modo que, com a oração contínua,
nos tornemos capazes de abrir o coração
para toda a humanidade, tendo em conta
que cada um de nós é como se fosse
milhões de pessoas iguais, por estarmos
todos em oração, sem parar, e estarmos
assim na presença de Deus, e aceitarmos
 
que cada qual tem dentro de si zilhões
de pessoas do mesmo tipo que ele,
e assim somos capazes de viver, ou seja,
trazer com amor em nossos corações,
os bilhões de seres humanos, e toda a vida
na terra e fora dela, o que significa
 
que o Deus infinito está participando
conosco de nossa própria existência,
e então, quando conseguimos orar,
pelo Santo Espírito, por toda a humanidade,
somos semelhantes a Cristo, que orou
por todos desde a Cruz de seu suplício,
 
e essa é a Graça de conhecê-lo, e de estar
com ele todas as horas de nossas vidas,
e é por isso que dizemos, a cada manhã.
Faze-nos dignos, Senhor, nesse dia,
de sermos preservados sem pecado[2]”,
vale dizer, sem a separação fatídica
 
que se apresenta maldosamente,
entre nós e Deus, entre nós e quem
está ao nosso lado, e nisso seremos
semelhantes a Cristo, e isso é o que
significa que o temos imitado. (13-7-25)



[1] Excertos da obra do Arquimandrita Sofrônio, São Silouane o Atonita (1866-1938), 1996.

[2] Liturgia de São João Crisóstomo, Doxologia.




6. AS PORTAS




Para onde levam todas essas portas
que se abrem e fecham à passagem aleatória do vento,
e dão em labirintos cada vez mais enredados,
onde nos perdemos obrigatoriamente, na busca
dos moinhos que nos torturam o pensamento,
dando volta aos torvelinhos, levantando
toda espécie de poeira e detritos do chão imundo dessa cadeia

em que nos trancamos voluntariamente,
sem perceber que a experiência de Deus,
se verdadeira, cancela todo saber
(não em si, mas enquanto pretende ser toda a realidade),
e transfere para dentro de cada um o viver
com esse Deus que se torna pessoal, porque vivido
em nossa própria carne, e que transferimos para nossa vida

na mesma medida em que o colocamos no outro,
e no outro, e no outro, e assim indefinidamente,
até que sejamos todos um, amalgamados
na mesma natureza amorosa, que é a nossa,
única, maravilhosa, intransferível,
e para a qual fomos criados? (14-7-25)

 

 


7. CONVERSAS IMAGINÁRIAS




E Dita imaginava conversar com Ana, e dizia
para si mesma, como se estivessem na mesma sala,
“Esse amor por você, que sinto, e que se estende
por toda a humanidade, e a criação inteira,
e que vai além do firmamento, passando
por todos os planetas, e mais distante,
 
ao infinito pano preto do fundo das estrelas,
do qual não sabemos nada, esse amor,
de onde vem, para onde nos leva, em que oceano
nos banha com suas ondas, e como brilha
mais do que mil sóis, e com sua luz nos cega?”,
 
e Ana lhe respondia, “Irmã, amada, o enigma
do ser humano se aproxima do mistério teológico,
pois a pessoa que é a imagem de Deus se torna
esse próprio lugar divino, uma teologia viva,
em que Deus desce à terra, pois a pessoa humana
ainda preserva a imagem de Deus, mesmo após
 
a queda (e é por isso que o Juízo faz parte da história,
do tempo, do século dos séculos, porque aponta
para o passado, enquanto que o futuro é o Reino,
o não-tempo de Deus, no qual vivemos desde antes
do Paraíso), e a nossa condição é o bem, porque
o mal não existia no Princípio”, e Dita perguntava,
 
“Mas, e o amor de Cristo?”, e Ana lhe respondia,
“Quando Cristo se encarna, ele abre os portões trancados
do Paraíso, e devolve a natureza humana a ela mesma,
porque essa natureza é aquela que o homem possuía
não só no Éden, mas antes dele (porque o homem
foi criado em Cristo, antes do resto do mundo), e assim
o Paraíso voltou a existir no mundo, pois ele disse,
 
‘O Reino de Deus está dentro de vós’, e seguindo-se
a isso, entendemos por que a Virgem é chamada de Céu,
de Porta do Reino, de Paraíso, pois é ela quem dá realidade
à Nova Criação, quando o homem já não se detém
ante os portões do Jardim (é a isso que chamamos
‘história’, o temor da alma que a paralisa)”, e Dita
lhe perguntava desse amor, capaz de romper
até mesmo esse último limite, e Ana lhe respondia,
 
“Deus tudo pode, menos obrigar o homem a amá-lo,
porque não existe amor sem liberdade, e a liberdade
é a humildade que permite amar, pois não há amor
na soberba, porque é no amor que o homem é recriado,
a nova pessoa sem egoísmo, esse estado que é
pré-paradisíaco, e é o que nos permite que digamos
 
‘Faça-se a sua vontade e não a minha’, porque
somos livres quando somos capazes de negar
até mesmo nossa própria liberdade, como Cristo
no Jardim das Oliveiras, pois a liberdade verdadeira
é o sacrifício de nosso livre-egoísmo, para que
nos entreguemos em benefício do outro, e isso
 
é o único amor verdadeiro, a Verdade que liberta,
pois a Verdade não pode ser conhecida, se não for
em plena liberdade, e é quando deixamos a ideia
de que somos ‘livres de alguma coisa’ para nos tornarmos
‘livres para alguma coisa’, e é nesse momento
que podemos entender o segredo da fé, que é
o mesmo segredo profundo do ‘sim’, como o fez
Maria, e assim o ser humano se torna justo pela fé,
 
e já não pela mera observância da lei, e por isso,
amada irmã, nosso Amor se identifica com o Amor
de Cristo, porque somos livres para amar, até onde
é possível a expansão e a expressão de nossas almas,
além de todo o mundo conhecido, além do humano,
onde se encontram o universo criado e o Reino,
na figura única e universal de Cristo”. (15-7-25)
 
 



8. O AMOR INTENSO






“Pois a intensidade desse amor que nos une, Dita,
nada mais é do que a impulsão para o cume
das possibilidades humanas, que nos empurra
para a universalização das nossas pobres almas,
construídas com a matéria do Paraíso, e perdidas
numa queda vertiginosa em que se romperam
nossas asas possíveis, e assim ganhamos esses pés
 
que Cristo lavou, para que pudéssemos caminhar
por quaisquer estradas que se nos apresentassem
na direção única de toda a humanidade, que assim
trazemos em nós, com esse amor furioso que atordoa,
que nos deixa tontas, não porque seja o amor
que temos uma pela outra – mas também – mas
o amor que nos invade por essa brecha aberta
 
em nosso egoísmo, e transborda para todas
as espécies, conhecidas e desconhecidas,
que habitam esse e todos os outros universos,
onde quer que se encontrem, reunidos todos
no amor de Deus, pelo Espírito Santo,
e na pessoa divina de Cristo.” (15-76-25)
 
 




9. O QUE AMAS EM MIM






Ana escreveu a Dita, “Amada irmã, devo dizer
que o que tu amas em mim não é a mim que amas,
mas que tua alma tem sede do Deus vivo, e deseja
insaciavelmente provar do Senhor, que nos tirou
do pó da terra e insuflou em nós a vida, para que
nossa alma se convertesse em linhagem de Deus,
 
e ele nos amou de tal maneira, que entregou
o Santo Espírito para que O conhecêssemos
e o amássemos, pois o Espírito Santo é a doçura
e o amor da alma, da inteligência e do corpo,
mas quando a alma se priva da graça, ou nela
diminui, é a esse Espírito que ela busca
com lágrimas, tem sede de Deus e diz,
 
‘Como não buscar-te, Senhor?, a ti, que primeiro
me encontraste, e me cumulaste com a doçura
do teu Espírito Santo, e agora minha alma
se enche de nostalgia por ti, pois meu coração
te amou, e eu te peço, escuta a minha oração,
e concede-me suportar todas as aflições
e enfermidades por amor a ti’, e é esse fogo
 
que te queima as entranhas, e fazes bem
de expandi-lo a toda a humanidade, porque
dessa maneira o tornas sagrado, mas é preciso
ainda que transcendas mesmo esse estado,
para te atirares ao amor de Deus, o amor
mais puro, sem mistura, sem erro e sem pecado.
 
E, no entanto, sabemos que quanto maior o amor,
maiores são os sofrimentos por que passa a alma,
quanto mais completo o amor, maior o conhecimento,
quanto mais ardoroso, mais ardente é a oração,
quanto mais perfeito o amor, mais santa é a vida,
 
pois ‘Não ardia nosso coração?[1]’ diziam os Apóstolos
quando, a caminho de Emaús, deles se acercou Jesus,
e assim reconhece a alma seu Mestre e o ama,
e a doçura desse amor é como fogo, e a alma,
embargada pelo amor a Deus, esquece o céu e a terra,
mas já não esquece por um instante sequer seu Senhor,
pois é a graça de Deus que a fortalece, e que
lhe dá forças para amar a seu amado, e então
 
tu entenderás, pelo Santo Espírito, o que é o amor
a Deus e o que é o amor ao próximo, e quanto mais
perfeito for esse amor, maior será o conhecimento,
pois quem teme o pecado ama a Deus, mas quem
experimenta uma humilde ternura o ama mais,
e mais ainda o que tem a alma cheia de luz e alegria,
e ama perfeitamente o que traz em si a graça
do Santo Espírito, aquela graça perfeita e incompreensível
que é concedida aos santos e aos mártires, que
com ela se recordam da plenitude do Paraíso.
 
A partir do momento em que o Senhor, pelo Santo
Espírito, me deu a conhecer o amor divino, despertou
em mim um sofrer por toda a humanidade,
em todos os sentidos, pois nada é superior ao amor
divino, quando o Senhor desperta em nossa alma
o amor a Deus e aos irmãos que conosco compartilham
o mesmo destino terrestre, e sabemos então
 
que o Reino de Deus está dentro de nós, e em nenhum
outro lugar, pois são os irmãos nossa própria vida,
e por amá-los habita em nós o Espírito Santo,
e choramos pelo mundo inteiro, mas cheias de paz
e alegria, pois é nesse amor, querida Dita,
minha irmã, minha amada, minha vida, que conhecemos
a Deus, ao próximo e a nós mesmas, e é por ele
que nos alegramos, por ele pacificamos nossa alma,
por ele choramos por todo o mundo e o amamos,
e assim, por amá-lo, amo também a ti mesma.[2]” (15-7-25)
[1] Lucas 24: 32.
[2] Excertos da obra do Arquimandrita Sofrônio, São Silouane o Atonita (1866-1938), 1996.





10. NOS BRAÇOS DA IRMÃ
 




 Dita ardia em febre, e teve delírios toda a noite,
e na escuridão ela via o rosto de Ana, que se transformava
nos rostos de mil desconhecidos, num carrossel de circo
em que os cavalos eram anjos, o realejo era um arcanjo,
e querubins e serafins vendiam pipocas e pirulitos,
e seu corpo inteiro tremia, ora de calor, ora de frio,
 
e seu coração queria saltar do peito, e suas pernas
corriam sobre um arco-íris de pássaros de fogo,
que piavam estranhas melodias aos seus ouvidos,
e ela despertou banhada em suor, e decidiu-se
naquele mesmo instante a abandonar o Recolhimento
e fazer-se ao mundo, sem saber para onde iria,
desde que pudesse de novo encontrar a sua amiga,
 
e, sem comunicar a ninguém, deixou um bilhete e,
na primeira hora do dia, entre o orvalho e a neblina,
antes de que despertassem as freiras, esgueirou-se
portão afora, e correu sem direção pelas ruas,
para o mais longe possível, e só se deteve quando
já quase fora da cidade, lhe faltaram as pernas,
exaustas da fuga empreendida, e, de repente,
ela compreendeu que não tinha ideia de onde iria,
 
nem para qual lado ficava o Convento, onde Ana,
com certeza, a estaria esperando, e Dita sentou-se
à beira do caminho, orando a todos os santos
que a socorressem, e nesse momento, surgiu,
como se do nada viesse, um carroceiro desapressado,
tocando uma carroça com um burrico, que lhe disse,
como se não esperasse resposta, “Suba, venha comigo”,
 
e ela, sem saber por que nem como, obedeceu,
e arrumou-se na caçamba, entre panos e sacos de milho,
e o carroceiro enveredou por uma estrada, depois
por um atalho, depois por um estreito caminho,
e ao cabo de um tempo que Dita não saberia medir,
 
chegaram a uma encruzilhada, de onde se via,
ao longe, um muro muito branco, e algumas construções
atrás, baixas, simples e sem brilho, e o carroceiro falou,
“Siga até lá, há no portão um sino, toque-o com vontade
e se abrirá para você a porta do seu destino”,
 
e assim procedeu a menina, e, em pouco tempo
viu-se nos braços de sua amiga Ana, no pátio 
do Convento prometido, e sentiu-se invadida
por uma enorme paz, e por um amor novo
e um sentimento antigo, e desfaleceu, e só acordou
ao dia seguinte, quase sem saber exatamente
o que lhe havia acontecido. 







11. AMAR O AMOR





“Mas, como amar a Deus, essa entidade,
tão abstrato como o mais alto pensamento,
e inalcançável, inefável, incompreensível,
como chegar a ele com nosso amor, como amar
o que desconhecemos?”, perguntava Dita,
enquanto as duas olhavam o sol que nascia
e as estrelas que se iam anunciando o dia por vir
e faziam reflexos nas gotinhas de sereno,
 
e Ana lhe dizia, “Amar a Deus é como amar
o próprio Amor, pois Deus é Amor, e é preciso
retirar dele todos os falsos mitos, e as ideias
que fazem dele os homens, e deixar apenas
sua essência amorosa, sua natureza primeira,
a plenitude de sua beleza, esse Amor final
 
que não compreendemos, mas que sentimos,
quando o sentimos em nós, seja pelo outro,
seja pela criação, ou pela beleza e a poesia
desse mundo que é uma representação,
amar a Deus é criar em nós, pelo Espírito
(e é preciso que peçamos todo tempo a ele),
 
essa condição amorosa, esse estado de carinho,
universal e pleno, e então, de dentro de nosso amor
nascerá ainda mais forte o amor a Deus, o amor
ao Amor, sem objeto, delimitação, nem fronteiras,
sem barreiras, sem interesses, sem trocas,
sem relação alguma que não seja o estado bruto
desse Amor, integrado á nossa própria pessoa,
 
transformando-se na substância da nossa
natureza, fazendo de nós a imagem e semelhança,
conforme fomos criadas, e que para isso vivemos,
e assim, amar a Deus e ao próximo se tornam
uma só coisa e a mesma, e só assim entendemos
que não somos seres separados, mas apenas
hipóstases diversas da mesma natureza,
como coerdeiros, com Cristo, de sua realeza.
 
E não existe felicidade maior do que amar a Deus,
com toda inteligência, todo coração e toda alma,
e ao próximo como a si mesmo, pois a graça
vem de nosso amor ao outro, e é por esse amor
que o próprio amor se conserva, e então
poderemos dizer, como Antônio o Grande,
 
Eu já não temo a Deus’, porque nossa alma
estará cheia do Espírito Santo, que certifica
esse amor e o plenifica, e assim não amamos
apenas aos homens, como a todas as criaturas,
e sentimos essa compaixão que Jesus sentia,
que nos revira as entranhas, ainda que oremos
por nossos próprios inimigos, pela graça
do Santo Espírito, e assim você verá
 
que essa graça, ainda maior, virá sobre ti,
e você dirá, ‘Senhor, concede-me derramar
lágrimas por mim e pela humanidade,
a fim de que todos os povos Te conheçam,
e vivam eternamente contigo, faz-nos dignos
do dom humilde do Espírito Santo, para que
saibam todos com quanta ternura o Amor
nos ama, como a seus filhos mais queridos[1]”. (16-7-25)






 

2.3.3.    ANA E DITA

 

 

1. AMAR A DEUS



1.       “Mas, como amar a Deus, essa entidade,

tão abstrato como o mais alto pensamento,
e inalcançável, inefável, incompreensível,
como chegar a ele com nosso amor, como amar
o que desconhecemos?”, perguntava Dita,
enquanto as duas olhavam o sol que nascia
e as estrelas que se iam anunciando o dia por vir
e faziam reflexos nas gotinhas de sereno,
 
e Ana lhe dizia, “Amar a Deus é como amar
o próprio Amor, pois Deus é Amor, e é preciso
retirar dele todos os falsos mitos, e as ideias
que fazem dele os homens, e deixar apenas
sua essência amorosa, sua natureza primeira,
a plenitude de sua beleza, esse Amor final
 
que não compreendemos, mas que sentimos,
quando o sentimos em nós, seja pelo outro,
seja pela criação, ou pela beleza e a poesia
desse mundo que é uma representação,
amar a Deus é criar em nós, pelo Espírito
(e é preciso que peçamos todo tempo a ele),
 
essa condição amorosa, esse estado de carinho,
universal e pleno, e então, de dentro de nosso amor
nascerá ainda mais forte o amor a Deus, o amor
ao Amor, sem objeto, delimitação, nem fronteiras,
sem barreiras, sem interesses, sem trocas,
sem relação alguma que não seja o estado bruto
desse Amor, integrado á nossa própria pessoa,
 
transformando-se na substância da nossa
natureza, fazendo de nós a imagem e semelhança,
conforme fomos criadas, e que para isso vivemos,
e assim, amar a Deus e ao próximo se tornam
uma só coisa e a mesma, e só assim entendemos
que não somos seres separados, mas apenas
hipóstases diversas da mesma natureza,
como coerdeiros, com Cristo, de sua realeza.
 
E não existe felicidade maior do que amar a Deus,
com toda inteligência, todo coração e toda alma,
e ao próximo como a si mesmo, pois a graça
vem de nosso amor ao outro, e é por esse amor
que o próprio amor se conserva, e então
poderemos dizer, como Antônio o Grande,
 
Eu já não temo a Deus’, porque nossa alma
estará cheia do Espírito Santo, que certifica
esse amor e o plenifica, e assim não amamos
apenas aos homens, como a todas as criaturas,
e sentimos essa compaixão que Jesus sentia,
que nos revira as entranhas, ainda que oremos
por nossos próprios inimigos, pela graça
do Santo Espírito, e assim você verá
 
que essa graça, ainda maior, virá sobre ti,
e você dirá, ‘Senhor, concede-me derramar
lágrimas por mim e pela humanidade,
a fim de que todos os povos Te conheçam,
e vivam eternamente contigo, faz-nos dignos
do dom humilde do Espírito Santo, para que
saibam todos com quanta ternura o Amor
nos ama, como a seus filhos mais queridos[1]”. (16-7-25)

 

 

2. O COMEÇO DO AMOR



 “Mas por onde se começa?”, perguntou Dita,
e Ana respondeu, “Toda forma de amor tem
sua origem num gesto de humildade,
quando reconhecemos a insuficiência
de nossa própria autossuficiência,
e que não nos bastamos, e que estamos,
 
humildemente, na convivência de outros
seres humanos, cada qual tão valioso
aos olhos de Deus – ou mesmo, se quiser,
aos olhos da natureza, do universo, do acaso
ou de outra coisa qualquer – e então
descemos do nosso pedestal, e somos
obrigados a abrir essa carapaça que nos cerca,
 
a que chamamos ‘eu’, e deixarmos entrar
o outro, ou seja, o amor começa com um gesto
em que nos despojamos de nós, e nos pomos
ao dispor do que o outro precisa, e assim
a humildade é também um gesto da mais alta
forma de liberdade, porque a pessoa humilde
é mais dona de si do que toda a humanidade,
 
e ela dispõe de si para qualquer coisa
que lhe seja solicitada, ou até mesmo
ela o faz por sua própria vontade, negando
a si mesma em prol de uma pessoa,
de uma comunidade, saindo daquele lugar
que lhe é o mais cômodo, como – não posso
deixar de lembrar – aconteceu com Antônia,
 
minha mãe, que ofereceu tudo de si, e até mais,
e que foi literalmente despedaçada por nós,
para nós, e que ainda mais adiante se lançou,
porque não havia ainda completado sua missão,
a missão que lhe impôs o Espírito, o copo
que ela sorveu até o último pingo,
até o ponto de morrer por todas, para todas,
e morrer conosco, para que alcancemos
juntas nosso destino.” (18-7-25)
 



3. O AMOR ENCARNADO





  “Para compreender isso, é preciso lembrar
que Deus se encarnou por amor ao homem,
não para livrá-lo de pecado algum
(que nunca existiu, nem culpa), e que
a encarnação não se deu por causa do homem,
mas por causa do próprio Deus, que antes mesmo
do início dos tempos, quis se fazer homem,
 
para fazer da humanidade sua morada
e a manifestação de sua divindade, e por isso
o Verbo já estava presente em Adão
(que foi criado do pó primeiro,
Mais antigo do que toda a Criação),
antes dos séculos e do Paraíso, e que Deus
criou o mundo para nele se fazer homem,
e para que o homem se fizesse aqui como ele,
 
pela Graça, participando dos princípios
da Vida divina, pois o plano de Deus,
desde o início, era divinizar o homem,
unindo-se a ele (e tudo isso nada tem a ver
nem com perdão, nem salvação, nem com
coisa alguma que implique culpa, pecado,
erro ou negação), pois Deus esculpiu o rosto
do homem, tendo como modelo a face
 
divina e eterna da humanidade de Cristo,
e tal foi o amor de Deus, independente
da queda de Adão, que nem foi tudo isso
(porque, se a encarnação se devesse à queda,
ela teria sido intermediada pelo Maligno),
e é assim que no Credo, o símbolo da Fé,
 
se diz que Cristo ‘se encarnou pelo Santo
Espírito e a Virgem Maria, e se fez homem
para a nossa salvação’, mas esse ‘homem’,
que é Cristo, já é o humano deificado,
e essa salvação é mais um resgate,
uma libertação das condições de entrave
que nos mantêm atados à morte, como diz Paulo,
 
que ‘falamos da sabedoria de Deus, do mistério
que estava oculto, que Deus preordenou antes
do Princípio, para nossa glória’ – que é nossa
própria deificação – e assim entendemos
que nesse resgate, na Encarnação do Verbo,
 
está a plenitude, o próprio Reino de Deus
em nós, e então podemos perceber
que o Amor de Deus, desde o Princípio,
espera humildemente por nós, pela nossa
contrapartida amorosa, de nosso amor por ele,
para que a regeneração de tudo seja completa,
 
e assim reencontramos o elo perdido
que une o Amor à humildade, e entendemos
que a própria liberdade do homem
está ligada a tudo isso, e que a grandeza
maior de Deus está em ser humilde,
humilde a ponto de entregar livremente
 
sua própria alegria ao homem, e esperar
pelo dia em que esse desperte para a Verdade,
e devolva a Deus o que sempre pertenceu
a ele, e que ele a nós nos deu, por razão
nenhuma, mas somente pelo Amor que nos tem,
pois entre ele e nós, afinal, não existem
duas, três, muitas pessoas, mas apenas uma.” (18-7-25)

 



 4. O PERFUME DE CRISTO




“É por isso que João disse, que ‘passamos da morte
para a vida, porque amamos os irmãos, porque
aquele que não ama seu irmão permanece na morte[1]’,
pois é o Amor que destrói a prisão do egoísmo
– pai da morte – e tira da pessoa o orgulho, que tira
a alma do seu auto afastamento, e que traz a amizade
para com o irmão, e permite vê-lo como um ser
que tem em si sua história e sua vida, pois
 
quem permanece fechado em si mesmo, apodrece
a própria alma, e somente o Amor divino a ressuscita,
e a perfuma, como está dito, ‘Somos para Deus
o perfume de Cristo[1]’, porque o nome do Amor
é Cristo, que venceu a morte, e que é um poder
criativo divino, e assim é que cada qual será
glorificado no céu na medida mesma do amor
que teve em vida, esse amor em quatro linhas,
 
em que a primeira é o temor a Deus, a segunda
aparece quando se purifica a mente, a terceira
quando se sente a Graça na alma, e a quarta
quando o Amor se manifesta, além da alma,
no próprio corpo, pois é nessa última etapa
que se reconstrói a natureza humana em sua unidade
de corpo e alma, e só quando isso acontece,
nos tornamos seres cósmicos por trazermos em nós
todo o mundo, e a humanidade inteira, e assim
 
na nossa experiência pessoal é possível conhecermos
a totalidade da gente humana que foi, é e será,
e essa compreensão é que nos prepara para recebermos
o Espírito de Cristo, que revela a imagem da perfeição
dos filhos de Deus, porque vencemos o mundo,
na medida de nossa semelhança com Cristo,
 
e com ele vencemos a morte e entendemos o pecado,
que não é o que o povo pensa, mas é apenas
a quebra de nosso amor a Deus, pois temos
que ser santas, como Eu sou santo[1]’,
para não ficarmos naquela fronteira do desespero,
com medo de perdermos a herança de Deus,
e para que caminhemos, pois quem anda
em direção a Deus, nunca perde a esperança.” (22-7-25)

 

 

5. POR QUE NÓS?



Dita então disse, “Compreendo essas coisas
de que falas, amiga, e já as ouvira de Inácia,
e de Tecla, que aqui nos escuta, e de sua mãe
Antônia, na calma obscura do Recolhimento,
e até compreendo, que Deus escondeu
tal sabedoria aos sábios, para a revelar
aos pequeninos[1], mas eu me pergunto,
 
como?, e por que aqui?, e por que nós?,
e de onde saiu tudo isso?, e não encontro
resposta, nesse Convento perdido, onde
rezam nossas Irmãs brancas todo dia,
sem que obtenham o azeite prometido,
aquele que não se apaga, enquanto nós,
nessa cozinha, o temos em tal abundância
que com ele fazemos a comida e a servimos
como se fosse a coisa mais natural do mundo,
 
e conversamos entre nós a respeito de tudo,
e de tudo temos respostas, que nos são dadas
por esse belo Cristo esculpido em pau-marfim,
que se fez ébano em meio à fumaça e à fuligem,
para que o ouvíssemos, respostas sem palavras,
que nos aquecem a alma, enquanto aquelas
perambulam por corredores frios, a buscar
nas páginas das Escrituras, ou de algum livro,
as razões de estarem vivas, e aqui, nesse Convento
desconhecido, que fica à beira da estrada,
entre o nada e o fim do mundo?”

 


6. A TESTEMUNHA SILENCIOSA


 

Na cozinha silenciosa somente o Cristo negro
pendurado em sua eterna solidão acompanhada
parecia falar sem palavras, e seu olhar pousava
magnânimo sobre as três mulheres sentadas
ao redor da grande mesa de peroba, solene
como o mais alto dos altares, com suas manchas
de gordura e de azeite, sobre a qual uma vela
pequenina e insistente derramava sua luz pequena
por todo o espaço, lançando luzes e sombras
que transformavam o ambiente num palco mágico,
 
de ideias desacostumadas para os povos,
de rezas nunca antes ouvidas nesses trópicos,
de cantigas heréticas e devotas, que chocariam
os doutos e os orgulhosos de seus saberes inauditos,
mas soavam doces aos anjos, e que o próprio Cristo
cantarolava baixinho, minorando as dores
de seu suplício, que não eram pregos, espinhos,
nem seu corpo ferido, mas seu Amor pelos homens
e mulheres, adormecidos em seu sonho terrestre,
 
incapazes de perceber que sobre nossas cabeças
paira esse Reino, imenso e desconhecido, ao qual
estamos destinados, se nos tornarmos dignos
de, como mansos, herdarmos a terra, nosso quinhão
dado por Deus, desde que criou a raça humana,
e a espelhou em Cristo, que, com seu nascimento,
reabriu para sempre as portas do Paraíso. (22-7-25)

 


 

7. NOSSA HISTÓRIA




Tecla então tomou a palavra, enquanto
o dia já se despedia, e a noite abraçava
o mundo, e apenas uma luz mortiça iluminava
a cozinha, e sentaram-se as duas meninas
ao pé de mestra, que do alto de seu avental
acendeu o pito, deu uma baforada, soltou
espiras de fumaça no espaço, e disse
pausadamente, com sua voz séria e divertida,
 
“Nossa história começa antes de que Eva existisse,
e prossegue através dela e de todas as mulheres da Bíblia,
dentre elas, Raab, que era prostituta, e Tamar,
que se fez meretriz para dar uma linhagem a Judá,
e Rute, a estrangeira, e Betseba, a mulher de Urias,
que Davi desonrou, e de suas penas se continuava
a herança divina, que começara com a primeira de todas
e se renova em Maria, e passa então pela samaritana,
pela cananeia, pela prostituta, a adúltera, a viúva,
e continua em Madalena, a que primeiro viu vivo a Cristo,
e não lhe creram os apóstolos, e dessa época 
 
se desenrola um fio, que se enterrou nas areias dos desertos,
nos campos de cultivo, nas matas virgens, nos cumes frios,
passado de mães a filhas, em silêncio e carinho,
enquanto se matavam os maridos em guerras, em disputas,
a discutir redundâncias e silogismos, nós, mulheres
silenciadas e desprezadas, vistas como fracas,
sem o entendimento erudito dos grandes homens,
 
vivendo suas vidas negadas pelas sociedades supremacistas,
de machos, de brutos, de sábios, de arrivistas, nós mulheres
a quem Jesus segredou o que por outros ouvidos
não poderia ser ouvido, nós mulheres carregamos
esse Filho, que o Espírito soprou em nós,
 
nos dando o dom da fonte da vida, o Amor incompreensível
que é a essência e a síntese do ser humano,
naquilo em que Deus, com sua Graça, o diviniza.”
 




8. A LONGA SAGA





 “E, se nos colocarmos agora nessa frisa do tempo,
nesse momento, aqui, reunidas, três pretas retintas
na cozinha desse Convento, sob o olhar benevolente
desse Cristo africano que nos olha pendente
da cruz de seu suplício, nós três, eu Tecla,
resgatada da escravaria da fazenda, vocês, Ana e Dita,
 
como eu pretas de serviço, que vieram do Recolhimento,
privilegiadas dentre todas as nossas irmãs de cor,
que foram escravizadas enquanto gozamos aqui
dessa relativa liberdade, e não somos incomodadas,
e temos a oportunidade de nos sentarmos ao pé
do Mestre, que nos ensina calado os modos do Espírito,
 
se olharmos para tudo isso, e para fora e para dentro
de nós mesmas, em sã consciência diremos
que nós já estávamos aqui antes da história,
éramos uma maré ancestral que veio dar a essas matas e praias,
com nossos olhos negros e nossas peles escuras,
nossas bocas largas, os troncos de bronze luzidios,
 
e trazíamos horizontes muito mais largos e distantes
do que toda essa Europa imaginária, tardia na trajetória humana,
mas que se apossou dos tesouros dos povos do mundo inteiro,
à força das armas, da matança e do engano,
das traições, das falsas boas intenções
de amizade e catequese, quando o que havia, no fundo,
 
era só a conquista e a rapina, e a fúria de nos despojarem
dos nossos nomes e de nossa história,
da riqueza incalculável de nossas culturas,
de nossa espiritualidade, de nossa capacidade
de escrevermos nós mesmos o nosso destino,
 
e nos nomearam a todas e todos como negros,
africanos, sem saber que éramos Iorubás, Nagôs,
e Jejes – Fon, Ashanti, Ewé, Fanti – e Mina,
e Malês – Mandingas, Fulas, Tapas, Bornu e Gurunsi –
e Bantos, Camundás e Quiçamãs, que viemos de Angola,
do Congo, de Benguela, de Moçambique, da Guiné, Benin,
da Nigéria, do Senegal, de Gâmbia, dos portos de Mina,
Uidá, Calabar, Cabinda e Luanda, desembarcadas
 
em Pernambuco, em Salvador na Bahia e no Rio,
levadas para o Pará, Minas, São Paulo, Maranhão
e Santa Catarina, sobrevivendo graças ao ‘pacto
das senzalas[1]’, costurado nos porões dos navios
que para cá nos trouxeram, e assim constituímos
uma só herança, a diáspora africana, cultural, musical,
 
religiosa, social e fraterna, criando nessas terras
estranhas, uma fusão que nunca tinha sido vista,
e ainda que separadas de nossos parentes,
de nossas mães e filhas, trouxemos no nosso sangue
os milênios de história, que tronco algum
nos arranca, nem chibata rouba, nem a humilhação,
a violência, o estupro e o vilipêndio anulam,
 
e assim fomos soterradas sob o lixo deixado para trás
por uma gente bárbara e sem passado, que colou
com cuspe egípcios e babilônios a gregos e romanos,
para criar uma colcha histórica e racial, uma continuidade
falsa, gloriosa, que só gira ao redor do próprio umbigo,
 
e inventaram uma história deles, feita de reinos e impérios,
de eras que se sucediam, e chamavam a uma coisa
'idade média', a outra, 'renascimento', e ‘era das luzes’, e ‘reforma’,
e às invasões chamaram 'conquista', e aos povos originários, 'pagãos',
e nos disseram que um dia os agradeceríamos, mas não,
era tudo mentira, truculência e ilusionismo,
 
e até mesmo o Cristianismo, essa pérola do Oriente,
que primeiro cresceu na Palestina, na Etiópia, em Gaza e no Egito,
até essa doutrina magnífica, da qual recolhemos nós
os retalhos, os fragmentos do que disse Cristo, antes
que fosse platinado por esse etnocentrismo que veio do frio,
 
até esse Cristianismo, por eles deturpado, comprado
e vendido, nós em nós o trazemos mais e melhor
em nossas veias, do que eles em seus livros,
nossas veias e nervos que derramaram sangue e vinho,
e o carregamos em nossa carne e ossos, pão
que alimentou o invasor, o ladrão e o raptor,
servido às mesas de palácios rutilantes de ouro e prata
arrancados de nossas mãos esfoladas, de nossas costas
marcadas pelas correntes e chibatas, de nossas cicatrizes,
até esse Cristianismo é em nós mais verdadeiro,
pois sofremos nas mãos dos algozes, dos senhores, dos carrascos
e da polícia, de uma sociedade a que não pertencíamos,
e fomos esvaziados de nós mesmos como o foi o próprio Cristo,
e vimos nossos deuses ancestrais crucificados nos pelourinhos
e extintos nas fogueiras nos pátios dos grandes latifúndios,
 
e depois de perdemos até mesmo nossos próprios nomes,
nossas famílias, nossos filhos, ainda encontrávamos
nas aldeias dizimadas, no bojo dos tumbeiros,
na podridão das senzalas, na escuridão de nossas vidas,
aquele curumim crucificado, que inocente nos sorria,
e secava nossas lágrimas, e estancava o sangue,
e nos dava a comer algum maná, que tirava
de um cestinho trançado waláya feito de embira,
e nos dava a beber de uma água que aplacava toda sede,
 
e nos dizia as palavras, que repetiríamos depois,
entre nós mesmas, essas palavras ocultas reveladas por ele,
que nos trouxeram até aqui, de muito mais longe vindas
do que de Roma, das cruzadas, da inquisição,
de todos os padres e freiras espalhados por toda a terra,
 
os versos que pulsavam em nossos corações antes de que
se incendiasse o mundo nessa guerra de irmãos,
nós, as mulheres, nós, as pobres mulheres,
nós, as pobres mulheres pretas, a quem Jesus confiou
a memória de sua doutrina, para que a levemos conosco,
como o moeda perdida, e a entreguemos, conservada,
mas renovada, ressignificada e revivida, ao Mestre,
no dia marcado para isso, ao qual damos o nome de festa,
mas que o resto dessa humanidade tombada chama 'Juízo'.” (21-7-25)

 



 9. A PURIFICAÇÃO




E Tecla, subitamente séria, declamou de cabeça,
enquanto tamborilava ritmicamente na mesa,
produzindo um estranho som de batuque ancestral
na cozinha escura onde o mistério se produzia,
e onde brilhava com sua luz imperecível a doutrina
daquele que havia a todas resgatado, com seu Amor,
com sua bondade, vida, verdade, justiça e sabedoria,

 “Enquanto eu caía aos pés

daquele que me havia iluminado
– veja bem o que eu vou lhe dizer –,
Aquele que me iluminara tocou com suas mãos
meus laços e minhas feridas;
e onde ele tocou com sua mão,
onde aproximou seu dedo,
logo se desataram os laços,
e desapareceram as feridas.
 
Tão pronto fui purificada
e desembaraçada dos meus laços,
ei-lo que me tomou com uma mão divina,
e me tirou do pântano
por inteiro, e me abraçou,
atirou-se ao meu pescoço
e me cobriu de beijos.
 
E a mim, que estava completamente esgotada
e que havia perdido todas as forças,
ele tomou sobre suas espáduas
e me mostrou outras coisas,
daquelas que se encontram dentro da luz.
 
Ele me fez contemplar
por meio de que estranha remodelagem
ele mesmo me deu uma nova forma
e me arrancou da corrupção.
Ele confeccionou para mim uma vida imortal
e me revestiu com um manto
imaterial e luminoso,
e me deu sandálias,
um anel e uma coroa
incorruptíveis e eternos.
 
Então ele se foi.
 
Tendo ficado assim só e abandonada,
eu já não me satisfiz com todas as coisas que mencionei,
as coisas com as quais ele me cumulara,
esses bens inexprimíveis,
embora ele me fizesse renovada por completo,
imortalizada por completo,
divinizada por completo,
e transformada em Cristo.
 
Pois a privação de sua presença
me fez esquecer todos os bens de que falei.
pois era a ele que eu buscava,
só a ele eu desejava,
por quem eu sentia a paixão, que, pelo esplendor
de sua beleza me ferira,
me inflamara, queimara
e abrasara inteira.

 E enquanto eu vivia assim,

enquanto eu chorava assim
e gritava de dor,
ele ouviu meus gritos;
de suas alturas inimagináveis
ele se debruçou e me olhou,
e novamente teve piedade,
e me concedeu ver
aquele que é invisível a todos,
na medida em que vê-lo é possível ao humano.

 E eu admirei, eu fui arrebatada,

cheia de temor, mas também de alegria.
E novamente eu o vi no interior
de minha morada;
subitamente, ali estava ele inteiro,
unido de um modo inexprimível,
ligado de maneira indizível,
e mesclado a mim sem se misturar,
como o fogo se mescla ao próprio ferro e a luz ao cristal.

 E de mim ele fez como com o fogo

e me tornou como a luz.
transformados num só ser,
eu e Aquele a quem eu me unira
– que nome poderei eu atribuir a mim?

 Por natureza eu sou humana,

por graça sou deus.
Pois, purificada pelo arrependimento
e pelas torrentes de lágrimas,
comungando com um corpo
divinizado, como com o próprio Deus,
tornei-me deus eu também
nessa união inexprimível.

 Vejam que mistério!

Tanto a alma como o corpo,
por terem também comungado com Cristo
e bebido de seu sangue,
tornam-se também deus por participação;
e são chamados pelo mesmo nome,
o nome Dele,
do qual participaram essencialmente.

 Mas não me pergunte sobre as realidades do alto!

Porque, se você se unir à luz,
ela própria lhe ensinará todas as coisas
e lhe revelará tudo,
e a fará ver pouco a pouco
tudo o que importa aprender.

 De outra maneira e por palavras

é impossível aprender as realidades de lá:
ao Senhor seja dada a glória
por todos os séculos! Amém.[1]







Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

1. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 1: AS SETE IRMÃS - INTRODUÇÃO

13. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 3: AO TEMPO DE TEODORA - 3.2. TEODORA, AS ALMAS E AS PESSOAS

5. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 1: O CONVENTO - 1.2. CONVERSAS - 3. NOVOS APRENDIZADOS