9. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 2: A ÁUREA CATENA - 2.2. TECLA
II.2.
TECLA[1] (1760-1826)
Onde somos apresentados a Tecla, a nova cozinheira do
Convento, que chega ainda bem jovem vinda de uma longínqua fazenda, e é
iniciada por Fatumata nos mistérios de Cristo, do Amor e da cozinha...
Ela e Fatumata constroem uma pequena Capela no meio do mato,
e, depois da partida de Fatumata, Tecla acaba por libertar Amatou, uma moça
escravizada de uma fazenda próxima. Quando o capitão-do-mato descobre, tenta
atacar a cozinheira, mas ela reage, derrubando-o no chão. Mais tarde, por vingança,
o capitão-do-mato reúne alguns capangas e destrói a capela erigida pelas duas
mulheres.
Tecla faz amizade com uma benzedeira local e por causa disso
é ofendida por uma das Irmãs do Convento.
O DESTINO E O VENTO
e dele nada sabemos, e mal compreendemos nossa própria pele,
nem onde estamos, de onde viemos, e nada disso importa,
na verdade, porque, na ignorância de estarmos vivos,
nos basta a mãe que no aleita, o vento que nos afaga a cara,
e depois, correr pelos campos que nos dispôs esse Deus desconhecido,
que largou seus brinquedos por esse mundo, como se fosse para isso
que aqui estamos, como se fosse para que brinquemos a sério,
porque não há no mundo caso mais sério do que brincar,
e dela fazer nossa segunda criancice, e a terceira, a quarta e a quinta,
e nunca nos satisfazermos do doce açúcar dessa vida, que pode escorrer
como o melado, ser rija como a rapadura, embriagar como a grapa da cana,
e que nos traz sempre embevecidos, a nos recordar que um paraíso,
jardim do qual trazemos sempre algum resquício, ainda nos chama,
e que para ele nos dirigimos, em passos bêbados, a cruzar de um lado a outro
as ruas do destino, entre tombos, machucaduras, joelhos esfolados,
caídas da mesa dos anjos, à procura da casa paterna, que perdemos em qualquer canto,
e da qual temos a recordação apenas da rede na varanda, do perfume de jasmim,
das noites enluaradas, de colos amorosos, de serenatas que pareciam não ter fim,
enquanto cruzamos mais um deserto, outro oceano, montanhas e cordilheiras,
países inteiros sem nome nem gente, para enfim chegarmos ao porto
de onde partirá a nau derradeira, aquela que sabíamos que viria, essa nau
com que brincamos a vida inteira, essa nau catarineta, mítica, que no poema
levou Jorge Coelho de Olinda a Lisboa, no distante anos de 1565.
quando já nem pensamentos tinha, quando a rondavam mil demônios,
quando se rasgavam as últimas velas, e a água penetrava no casco,
e soltavam-se as madeiras, e se desconjuntavam as tábuas do convés,
iam-se os canhões ao fundo, impotentes, e se erguia imponente
o último sol da travessia, com a terra – Deus louvado! – bem à vista.)
[1]
Quando Paulo esteve na cidade de Icônio, ele dava seus sermões na casa de
Onesíforo sobre uma série de Bem-Aventuranças, e, numa dessas ocasiões Tecla,
uma jovem nobre virgem, ouviu o "discurso sobre a virgindade", de sua
janela na casa vizinha. Ela ouviu, fascinada, sem se mover por vários dias. A
mãe de Tecla e seu noivo ficaram preocupados que ela pudesse querer seguir o
pedido de Paulo de que "devemos temer apenas a Deus e viver em
castidade", e então formaram uma multidão para arrastar Paulo até o governador,
que o aprisionou.
1. O
CARROCEIRO
que a recomendava à Madre Superiora, “essa menina, um pouco doente,
mas de boa índole, sem nada que a desabone, um pouco assustada, talvez,
pelo que lhe aconteceu aos parentes, não grande coisa, é claro,
mas as crianças tendem a aumentar o que sentem, e por isso
cremos seja favor vosso, e de vosso agrado, recebê-la em seu Convento,
a que desejamos toda a graça de Deus, e subscrevemo-nos,
sua devota filha, Lúcia de Albuquerque Matos”,
entre o sol inclemente, o frio das noites, os mosquitos, e o medo
que lhe impingia o carroceiro, muito embora lhe tivesse sido ordenado
que nem se aproximasse dela, sob pena de que lhe impusesse o tronco
a própria senhora branca, ciosa com seus cuidados de quase mãe
por aquele pedacinho de gente, pouco mais do que um toco de carvão
que em outros tempos seria levado à fogueira, mas que o fazendeiro,
por medo à esposa, a poupara de mais tormentos, além dos que já havia passado,
entre a senzala, o terreiro, e as noites em que se ouviam os gemidos ao relento.
e não sabe como chegou viva, depois de tantos dias de silêncio,
em que orava por dentro, como sabia, como lhe ensinara
a negra cozinheira, confidente da grande dama de branco,
que tão devota parecia, fechando as cortinas da casa grande,
para que, naquele refúgio de santa liturgia não penetrassem os gritos
que nasciam nos terreiros, e não se visse o chão pintado e respingado de sangue,
desse ou daquele negro, que por muitos dias não era visto,
e que parecia voltar à vida chegado de uma viagem de degredo,
em que passara pelo inferno, e outras regiões do baixo mundo,
que enchiam Tecla de terror, angústia e medo,
tão diferente da casa que conhecia, tão diferente da senzala, da tulha,
das cocheiras, da selaria e dos celeiros, ela se amedrontava ainda mais,
por imaginar que gritos se ouviriam nas noites, num lugar tão ermo,
onde ninguém escutaria o sofrimento daqueles submetidos à tortura da solidão,
do banzo da terra mãe, da vertigem de uma vida arrancada do chão,
e Tecla se encolhia inteira, entre os magros sacos de aniagem que traziam mantimentos,
até que, antes da última curva da estrada, ouviu pela primeira vez
a voz do carroceiro João Arcanjo, que falava como para si mesmo,
e o testemunho do Evangelho são os Apóstolos, e o testemunho dos Apóstolos
são os Santos Padres, e o testemunho dos Santos Padres são os Santos,
e o testemunho dos Santos são umas poucas pessoas comuns, também elas santas,
porque não é possível que exista o Evangelho sem que existam santos,
e é por isso, menina”, disse, voltando-se para Tecla, “que, entre as paredes
desse Convento, você deverá procurar, não o Livro Santo, mas a Bíblia Viva,
que lhe ensinará tudo o que você nasceu para saber, e é por isso
que nada sabe da vida, mas sabe reconhecer o encanto de uma criatura divina,
ainda que ela venha na pele preta de uma menina, com esses seus olhos de espanto,
e que mal adivinha ainda para onde se está dirigindo, e que te trouxe
até aqui, para que se dissipe toda a sua tristeza, e você se torne
aquilo que você nasceu para ser, e que cesse para sempre todo seu pranto”.
e ela tocou um sininho que ficava pendurado ao lado, e vieram lhe abrir
umas moças muito brancas, vestidas com longos hábitos de lã,
as cabeças cobertas, sandálias nos pés e um rosário nas mãos,
que a acolheram e levaram para dentro, atravessando um pátio com canteiros,
e penetrando no edifício, onde a colocaram numa sala, à espera
que lhe dirigira a senhora de Matos, e a recolheria àquele aprisco, onde cada ovelha
era toda uma vida, e onde ela haveria de conhecer Joana, a Batista,
a Fatumata guerreira, sua Bíblia viva, a pessoa que a conduziria
até a outra margem do rio, onde a esperava outra existência,
outro mundo, outra natureza, outro Deus, outro Reino,
feito de ternura, de aconchego, de verdade e de beleza.
e viu ao longe a figura do carroceiro em sua carroça,
calmo e quieto, arranchado sobre a cangalha do burro,
e teve a sensação de que ele tinha, na verdade, sido um seu pai,
talvez o último, talvez o primeiro – quem sabe? –
e ouviu-o a cantar, enquanto se sumia na poeira milenar da estrada,
“Ai, quando eu vim da minha terra, despedi da parentaia...”. (23-11-24)
2. A
CHEGADA DE TECLA AO CONVENTO
inebriada por esse Deus imenso, minúsculo, próximo e pleno,
pregado à sua cruz, imóvel e em eterno movimento,
e, com ele, ela dançava às noites, ao sereno,
e ia dormir encharcada, e despertava às primeiras horas,
antes que cantasse o galo, e passava o dia na roda,
como embriagada, e seu mundo era uma esfera
entre as irmãs do Convento, que não percebiam
que a escrava ali não estava, que a criatura mais livre era Fatumata,
que orava a um Deus que era quase um estalactite
naquela cozinha de fumaça, óleo, cheiros, sabores e vertigem.
que cruzava Atlânticos e Pacíficos - preciso fosse -,
que ia das enseadas aos montes, galgava as colinas,
desbravava as matas e se atirava aos abismos,
como se fossem sua casa, como se em cada um houvesse um abrigo,
ao abrigo do mundo, ao abrigo de todos os abrigos, Joana apenas,
e seu Cristo, Deus-menino da aldeia,
que ela levava aonde fosse, e o trazia sempre consigo.
em sua corrente de ouro, em seu rio de alegria,
despertava, devagar, de um sono antigo. (2-7-24) [1]
[1]
Tendo perdido sua família ainda criança, Tecla não se lembrava de nada que
lhe havia acontecido, senão vagas imagens de um terreiro, a senzala que parecia
não ter fim, uma grande cozinha, e de correr sob as grandes árvores que se
moviam lentas, ao vento de mormaço nas tardes modorrentas.
Lembrava-se
do choro, dos gritos, dos homens e mulheres feridos, do sangue que corria, mas
nada tinha significado, senão uma jovem negra que a protegia sempre (como era o
nome dela?), e lembrava-se ainda de uma grande dama, sempre muito linda, que se
vestia de branco e lhe dava lembrancinhas, e pensa hoje que gostava dela,
embora tenha sido ela que a tirara dali, enfim, para dar aquela menina sempre
muito doente, que nada sabia da existência, aos cuidados da Madre Superiora,
que saberia o que fazer para encaminhá-la ao Paraíso, quem sabe ali ela se
livraria de sua doença.
E
Tecla chegou ao Convento com 11 anos em 1771, em paisagens que nunca antes
vira, e imaginou estar em algum lugar de mistério, onde só mulheres brancas de
branco viviam, e foi levada à cozinha, pretinha que nem só ela, e na cozinha a
esperava uma negra muito bonita, de corpo e alma, que a recebeu em si,
beijou-lhe a testa, e lhe disse, “Seremos nós duas, meninas, e vamos ver o que
acontece!”.
Naquela
primeira noite Tecla dormiu em seus braços, e pela manhã percebeu que toda
aquela noite, e os dias que se seguiriam, constituíram, na verdade, uma grande
e amorosa prece.
3. A
CAPELA
tijolo por tijolo, no prumo, no esquadro, a capelinha
aparece, pouco a pouco, na clareira aberta no mato,
onde Joana e Tecla, meses a fio, celebravam, à sua maneira,
o Deus que lhes fôra apresentado pelas Freiras
e o pároco, que vez por mês,
pelo Convento passava, a dizer missa e confessar.
Dia após dia, noite após noite, dançaram,
queimaram ervas olorosas, oraram, oraram, oraram,
a pedir a graça de uma torre, da cumeeira, de um pequeno altar,
quem sabe um sino, quem sabe um banco, um pão, um copo de vinho,
e a capelinha subindo, entre orações, cantos e suspiros.
O pouco telhado, de telhas moldadas nas coxas, telhas pequeninas,
abrigou morcegos e passarinhos, aranhas e grilos,
mas foi o bastante para cobrir o Deus-menino, em terracota,
que Tecla esculpiu com todo cuidado e carinho,
colocado em sua cruz de barro, a mesma matéria do homem,
a mesma matéria do mundo,
esse mundo pequenino, que resumia o mundão, que, lá fora,
se fazia menor e quase mínimo.
Na trave, sobre a porta, em letras brancas como neve,
Tecla escreveu, com capricho, "Vinde todos,
que meu jugo é suave e meu fardo é leve",
e a capela ficou sem porta, para que todos os que chegassem pudessem entrar,
e descansar da jornada, e ter um momento de paz,
ainda que breve, e de amor, elevação e conforto, porque
"meu jugo é suave e meu fardo é leve". (2-7-24)
4. A
PARTIDA DE FATUMATA
e viu nela seu rosto refletido, e ao redor delas Deus sorria,
e se divertia, com a surpresa da mulher, tão jovem,
e com a paz que iluminava o rosto de sua velha conhecida,
e Joana Batista Fatumata, velhinha arretada, de tanta vida vivida,
dessa outra vida encantada, sussurrou ao ouvido da outra,
"Adeus, cuide de tudo, talvez eu venha visitá-la",
e, com um aceno de mão, cerrou o portão da horta e dobrou a curva da estrada,
deixando ali a Tecla, entre perdida e apavorada.
Ela regressou à cozinha, e Joana estava ali, em cada panela, cada brasa viva,
em todo pano, toda faca, e Tecla se pôs a cortar legumes,
e a mão da outra dirigia a sua, e dizia, "mais fino, a Madre quer mais fino,
faça mais fino, ou não faça", com seu jeito brusco,
e com toda a meiguice e malemolência da raça,
e Tecla cortava os legumes, mais fino, mais fino, e chorava,
e, erguendo os olhos, mirou o Cristo pendurado, que lhe dizia,
"Faça mais fino, ou não faça", e a voz era a mesma
de Fatumata, como era a mesma voz que Joana ouvira
na escuridão do Amável Donzela, o negreiro
onde passara as horas horríveis de sua vida, a caminho
de um destino que, só muito depois, veio a entender que era o dela.
E Tecla, olhando a água que corria, viu o rosto de Fatumata,
a ausência-presente da irmã e amiga, e,
olhando as próprias mãos, viu ali cada tijolo, cada prego,
cada tábua, cada telha, mourão e viga,
e escutou o sino na torrinha, e lembrou-se de que, no escuro da nave,
brilhava uma luz que não se sabe de onde vinha,
e de repente enxergou em tudo o mesmo rosto, a face de Deus,
que a olhava de frente, sua própria face de mulher,
mas sem temores, sem tropeços, sem dúvidas nem mentiras,
que a mão do mal não poderia tolher, nem alcançaria,
e ouviu, da mesma voz que lhe falava "mais fino",
as palavras, que já sabia, sem nunca as ter entendido,
"Tecla, filha querida, eu sou o caminho, a verdade e a vida". (3-7-24)
5. AMATOU
o nascer do sol, e a continuação do suplício,
da chibata e da humilhação,
e pensa com banzo na criança que brincava
no terreiro da aldeia, inocente de seu destino,
dessa nova vida entre suores e gritos,
uma vida de dores, que ela não compreendia,
sentindo o sangue que lhe pulsava nas têmporas,
a vertigem das muitas horas ali, atada de ponta cabeça,
os tornozelos sangrando, os pulsos amarrados,
a sede, a fome, a injustiça - e tudo por um pão roubado,
por uns passos ao som dos atabaques, o corpo flexível,
a despertar o ódio e a cobiça do capataz,
do capitão-do-mato, do sinhô, do sinhozinho –
e ela agora jazia ali, como um peixe no mercado, nua,
sentindo toda a vergonha do mundo,
uma tontura, como se dormisse, como se morresse,
como se despedisse de tudo, ela,
Amatou, de tão longe vinda, e então,
como num redemoinho de sensações e formigamentos,
entre os sapos e os pios das corujas, ouviu passos,
e encolheu-se por dentro e por fora, esperando
o rebenque, o abuso, o estupro, a dor,
mas o que sentiu foram mãos que a amparavam,
e ouviu uma voz doce, maternal,
("Nanã, Nanã?...", ela respondeu)
e de repente as cordas se soltaram
e ela caiu ao chão, quase desacordada, e uma voz lhe disse,
numa língua que ela estranhou conhecer,
"Venha, vamos para o mato", e com pés trôpegos ela seguiu
um vulto vestido de negro, uma mão que a puxava,
cruzando por trilhas e atalhos, seguindo a vau o curso dos ribeiros
para iludir os cães fila que haveriam de caçar a negra fugida,
e em pouco tempo viu-se no interior de uma capela,
onde uma vela tosca iluminava uma trouxa de panos,
e ela vestiu-se, e com espanto, entendeu que a mandavam pra longe,
com um bornal de carne seca e raízes cozidas,
na direção das serras, onde dizia a lenda
havia outro Convento esquecido, de onde a mandariam
ao Quilombo do Fim do Mundo, que ninguém sabia,
e alguém lavou suas feridas, e as pensou
com azeite e vinho, e lhe deram a mais um pão para a jornada,
e então ela se levantou, e correu assustada ainda,
correu como nunca correu na vida,
correu como corria no terreiro da aldeia,
quando a criança ainda brincava, e nem suspeitava
de tudo o que passar ainda lhe haveria.
E sentia outra vez o vento no rosto, nos cabelos,
e que todos os Ancestrais a amparavam,
e seus pés eram mais ligeiros do que nunca pensou,
e um assobio lhe chegava aos ouvidos,
e ela sussurrava “Nanã, Nanã”, e se sentia forte,
e feliz, e algo dentro dela a devolvia a si mesma,
e essa coisa, que não tinha tempo, nem espaço,
nem cara, nem idade, essa coisa, que há tanto tempo
ela não sentia, se chamava liberdade.
Pela manhã, a escrava havia sumido, e Jereno,
o capitão-do-mato, teve a certeza de que alguém a levara,
e perguntando daqui e dali, forçando, ameaçando e batendo,
chegou às portas do Convento, mas recuou, pensando
que melhor seria uma vingança tardia, do que arriscar-se
a cair em desgraça com a Superiora, o Bispo, que a protegia,
e toda a padraiada que, sabia ele, o condenariam
se ameaçasse uma das irmãs, qualquer uma,
mesmo a menor delas, mesmo que fosse preta.
6. O CAPITÃO-DO-MATO
terror dos escravos, implacável e impiedoso, sempre pronto
a colocar no tronco qualquer um, por dá-cá-aquela-palha,
viu Tecla pela primeira vez quando ela voltava da vila,
em seu hábito de Freira, com seu passo certeiro, a cabeça alta,
o rosto que brilhava ao sol, e Jereno, o capitão-do-mato,
encheu-se de tantos desejos que não podia enumerá-los,
e desde esse dia já não dormiu, e passava madrugadas ao relento,
imaginando o que podia e não podia, entre pecados,
blasfêmias e heresias, e só queria possuir a moça negra,
como possuiria qualquer uma da senzala, mas agora
já nenhuma delas servia, e Jereno sonhava acordado, esperando
que num momento ou outro o anjo custódio dormisse,
e ele então saísse detrás das moitas ao longo do caminho
deserto como no dia do Juízo, e a bela Freira seria só sua, só sua,
sob o sol por testemunha e o suor que lhe corria em bicas,
entre o desejo que sentia e o ódio que lhe tinha,
Jereno a quem negro ou negra nunca recusava nada,
Jereno que tudo podia, a mando do fazendeiro ou não,
que já ninguém saberia dizer de onde vinham as ordens,
se da casa grande ou de si mesmo, Jereno, o temido,
que agora só tinha um pensamento, e faria tudo para consegui-lo.
7. A FUGA DO EGITO
deixando para trás o Egito de sua escravidão,
seus fantasmas a seguiam de perto, e o medo
paralisava seus sentidos, enquanto ela corria
como se todo o exército do faraó a perseguisse,
e assim correndo chegou a um grande rio,
como se a cercasse o desconhecido, como se
ali terminasse seu caminho, como se diante dela
se levantasse um mistério maior do que podia,
e ela já ouvia os cães raivosos das antigas noites maldormidas,
e dos pesadelos que habitavam sua mente,
mas encontrou um vau e, com seus pés no fundo firme,
pisando a concretude desse mundo, chegou à outra margem,
respirando o futuro de uma vida, sentindo as forças
lhe voltarem, e uma vontade de lutar, e expulsou
os pensamentos da escravidão vivida,
expulsou o capitão-do-mato, o sinhô,
a sinhá e o sinhozinho, expulsou o tronco,
o rebenque, as cordas, o sangue escorrido,
e se lavou numa água mística, transparente e doce
que não havia ainda sentido, e agarrando-se
a um bastão que encontrara, tomou
por estranhos e desconhecidos caminhos,
alimentando-se de um pão invisível
que lhe traziam os anjos a cada noite,
bebendo da água de poças, até que
encontrou uma fonte fresca,
de águas dulcíssimas, e de repente
a vida valia a pena, e ela queria sentir
esse sabor na boca, sempre, sempre,
porque – mal sabia ela – esse paladar inusitado,
esse gosto em viver, essa nova alegria
lhe vinha diretamente do Espírito,
do convívio com Deus, que ela não via,
nem sabia, nem tinha como saber,
e ela olhava as estrelas à noite,
e sussurrava “Nanã, Nanã”, e seguia e seguia,
até que, numa manhã, em meio à neblina,
viu a porteira de um sítio, antiga como no Princípio,
e tocou o sino, e abriu-se um portão antigo,
e ela soube que ali se acabava de vez
sua saga maldita, que deixara na outra margem
a escrava, e que nascia agora ela, Amatou,
dona de seu destino. (18-3-25)
8. O
ATAQUE
Tecla agora era muito forte, e não teve outro remédio,
perseguida pelo Capitão-do-Mato, do que reagir,
abate-lo a murros e e deixá-lo no chão exangue e covarde,
com gosto de sangue na boca, e uma vontade louca de vingança,
fosse cedo, fosse depois, fosse tarde, e Jereno
planejou destruir a capela, o quanto pôde, na ausência dela,
(a quem temia) na primeira noite em que teve oportunidade,
e pisoteou o Cristo em terracota, e o fez pó para feri-la mais fundo,
onde não houvesse conserto, no fulcro da sua alma,
de onde Deus lhe falava, a ela, e onde ela ali cultivava
toda a sua - e a dele, de Deus - bondade.
E Jereno reuniu vinte camaradas, e emboscaram a que o rejeitara,
e os homens a espancaram o quanto puderam, e fugiram,
sumindo-se covardes nos sertões sem deixar pegadas,
e assim ficou a história, para ser contada e não contada, e então,
ferida e magoada, Tecla recolheu-se ao Convento, e passou muitos dias guardada,
e às Irmãs curiosas dizia que tinha caído, ou que tinha gripe, ou qualquer coisa
que lhe permitisse ter seu segredo em resguardo,
e pediu mil perdões ao Cristo, seu negro amigo,
pelo que fizera ao capitão-do-mato pobre coitado,
que não sabia explicar ao fazendeiro como tanto havia se machucado.
Mas restou a capelinha que, por falta de recurso, acabou abandonada,
embora ainda se lesse, no frontão descaído, a frase gravada,
"...meu fardo é leve, meu jugo é suave", ou algo assim,
que ela lá não retornou, para ver o que havia sobrado.
Mas o Cristo na parede olhava por ela, e cuidou que se recuperasse,
e tornou a perda sofrida um sofrer que a levantasse,
e na tontura desse curar-se, Tecla saiu mais Tecla,
e era mais forte no Espírito, e mais vazia de ódios, rancores e mal-quesilhas,
e sentia uma nova paz, que inda não sentira,
e suas sandálias pisavam outra vez aquela Galileia de alegria, de gente gentia,
e ela própria sacudiu a poeira, e caminhava, com mais gentileza,
pois a capela derrubada morava agora nela,
e cada tijolo se recompunha, e cada telha se reconstituía,
e mesmo o altar nela se refez por inteiro,
pelo resto da sua vida - e disso ela tinha toda a certeza. (3-7-24)
9. O
QUE TECLA OUVIU DE FATUMATA
9.1. O
REI
e tudo o que há nele, e todos os seres que quis,
para secundá-lo e servi-lo,
para o que quisesse, desse e viesse,
e assentou-se no seu trono, e contemplou tudo o que fizera,
enquanto seus servidores iam e vinham,
e providenciavam todas as coisas para atendê-lo,
e agradá-lo, na medida em que pudessem."
"Mas, em toda sua grandeza e glória, com sua coroa de estrelas,
seu colar de sóis e seu manto pontilhado com todos os astros,
ele se sentia só e abandonado, e nenhum de seus ministros,
de seus ordenanças, anspeçadas, alferes, cocheiros e soldados
pareciam compreendê-lo, e permaneciam, solenes,
sempre, à espera de suas ordens, e do que pudesse ter desejado."
"O Rei reuniu seus Conselhos, e anunciou então que um novo ser
deveria ser criado, e dispôs um local para ele,
e chamou-o "humano", e colocou-o num enorme jardim,
companheira e companheiro, e os fez à sua própria imagem,
para que pudesse ter com eles sempre,
e estar com eles sempre ao seu lado."
"Mas os dois novos-criados nada sabiam da vida,
e perambulavam pelo jardim, dando nomes aos bichos,
brincando com o barro, e agradeciam muito ao Rei por tê-los feito, e só,
e o Rei começou a se sentir, outra vez, solitário."
"Então o Rei quis lançar-lhes um desafio, e enviou a serpente, sua serva,
para incitar nos dois humanos o desejo e a curiosidade,
e retirou deles o jardim, e os pôs no mundo, para ver o que fariam,
e lhes deu toda a liberdade, para que pudessem errar à vontade,
e para que, aprendendo, seus erros pudessem ser consertados."
"E sentou-se o Rei no seu trono, e, por muitos séculos,
observou a mulher e o homem em sua nova etapa,
curioso por ver como haveriam de fazer,
sem sua supervisão, tendo que decidir cada passo,
deixando vir à superfície tudo o que neles havia,
mesmo de mais profundo, tenebroso e falso."
"Mas, fora de seu jardim, os dois humanos rapidamente
esqueceram por que foram criados,
e passaram a se ocupar de tudo o que havia na nova terra,
e no que ali havia para ser cultivado, e, com o tempo,
esqueceram-se de que eram filhos do Rei,
esqueceram-se do jardim e de tudo o que nele havia,
e cresceram, e se multiplicaram,
e deram começo a esse mundo, e aqui são eles os nossos pais de carne,
pois a partir deles todos nós fomos gerados."
Tudo isso, Tecla ouviu de Joana, enquanto conversavam no terreiro,
e uma lua enorme refletia a terra, e enviava
os sonhos dos seres humanos, para os céus,
para o azul mais profundo, para onde habita, ainda, ainda hoje, o Rei
em seu Reino acima das estrelas, e eterno. (4-7-24)
9.2. O
FILHO DO REI
Na sua carne derrubou o muro da separação: o ódio.
Aboliu a Lei dos mandamentos e preceitos.
Ele quis, a partir do judeu e do pagão, criar
em si mesmo um homem novo, estabelecendo a paz.
Quis reconciliá-los com Deus num só corpo,
por meio da cruz; foi nela que Cristo matou o ódio.
Ele veio anunciar a paz a vocês que estavam longe,
e a paz para aqueles que estavam perto.
Por meio de Cristo, podemos, uns e outros,
apresentar-nos diante do Pai, num só Espírito[1]”.
"Cansado da insensatez e desmemória dos humanos,
o Rei decidiu enviar a eles o maior de seus guerreiros,
seu próprio Filho, que combatia com as armas da Paz,
com o manto do Amor e o escudo do Conselho, e lhe disse,
"Vai, meu Filho, lembra a eles tudo o que te ensinei, e leva também
o meu Espírito, esse é o meu desejo."
“E nasceu seu Filho nessa terra, numa carne como a nossa,
e, como nós, foi ele gente por inteiro, ainda que permanecesse
Filho do Rei, e ele mesmo Rei, e Espírito,
como era desde o começo,
e se pôs a lembrar aos homens e mulheres o que era o mundo,
e para que tinha ele sido feito."
"Mas os humanos de carne não o entenderam,
e o mataram, do pior jeito, e o pregaram a uma cruz de madeira,
e cuspiram nele, e lhe bateram, e o enterraram,
para que não mais voltasse, nem os censurasse,
para que não se lembrassem nunca do porquê haviam sido feitos."
"Mas o Filho do Rei, Rei ele mesmo, se levantou do túmulo,
e subiu ao Pai, e lhe disse, "Pai, não deixarei os homens aos que me enviastes,
pois em sua mesma carne eu fui eleito, e os sinto como irmãos,
como filhos, como coerdeiros, como herdeiro sou,
e desejo comparti-lo com eles, e, se for de teu desejo,
criarei com eles mesmos uma nova raça, em Espírito,
para que recebam tua Graça, e para que possam,
novamente, conversar contigo, como queres,
para aquilo que os criastes, para que sejam eles um conosco,
como os sinto ser comigo."
"E o Rei disse, "Vá, meu Filho, leva também meu Espírito,
e o esparge entre eles, para que, te recebendo, compreendam, afinal,
que serão eles essa nova raça, e que terão um novo começo,
e que serás agora tu, meu Filho, que serás chamado Ancestral,
pois a nova humanidade será como a primeira,
mas, acima da carne, viverá nesse mundo como tu viveste,
ainda que na matéria, mas uma vida espiritual."
"Essa é a história que me contaram, Tecla, e por isso eu digo,
que, nessa terra de desterro, o Rei se lembrou de nós,
e enviou para nós, que clamamos a ele, e lhe pedimos
que nos olhasse, e cuidasse, e nos enviasse um novo Pai,
esse Filho, que vês ali pendurado, preto de fuligem,
e pregado à sua Cruz, para que nos lembremos de que ele é Espírito,
e que espíritos somos, ainda que menores, e que nele temos,
agora que o sabemos, o Pastor que tanto pedimos,
nosso novo e derradeiro, nosso verdadeiro, e agora, Ancestral." (4-7-24)
“Cristo nos resgatou da maldição da Lei,
tornando-se ele próprio maldição por nós,
como diz a Escritura: ‘Maldito seja
todo aquele que for suspenso no madeiro[2]’.”
“Quando, porém, chegou a plenitude do tempo,
Deus enviou o seu Filho. Ele nasceu de uma mulher,
submetido à Lei para resgatar aqueles
que estavam submetidos à Lei,
a fim de que fôssemos adotados como filhos[3]”.
9.4. O
ANCESTRAL
sem começo, na medida em que ele está fora do tempo,
mas não na medida em que ele tem o Pai
como princípio, raiz e fonte: apenas do Pai,
antes de todos os séculos, incorporeamente,
sem fluxo, sem paixão, ele saiu por engendramento,
mas sem se separar Dele, como Deus saído de Deus;
ele não é uma coisa enquanto Deus e outra coisa como Filho;
ele existe eternamente, e eternamente Filho e Filho Único;
eternamente perante Deus sem confusão,
ele não é causa nem princípio da Divindade
contemplada na Trindade, por que ele existe a partir do Pai,
como de sua causa e seu princípio; mas ele é causa
e princípio de todas as coisas criadas, pois por ele tudo foi feito.
Ele, que existe em forma de Deus, não viu como uma usurpação
o fato de ser igual a Deus; mas quando chegou
a plenitude dos tempos ele esvaziou-se de si,
tomando forma a partir da Sempre Virgem Maria,
e, pela benevolência do Pai e a cooperação do Espírito Santo,
foi carregado e gerado segundo a lei da natureza,
Deus e Homem a um só tempo; e fazendo-se verdadeiramente homem,
ele se tornou semelhante a nós em tudo salvo o pecado,
enquanto permanecia sendo o que era, Deus verdadeiro,
tendo unido sem confusão nem mutação as duas naturezas,
as duas vontades e as duas energias, e permanecendo
Filho Único em uma só hipóstase depois da Encarnação;
ele realizou todas as obras divinas como Deus,
e todos os atos humanos como Homem,
e se submeteu às paixões humanas irrepreensíveis:
como Deus, ele permaneceu impassível e imortal,
mas por sua própria vontade, como Homem,
ele sofreu segundo a carne. Ele foi crucificado,
morto e enterrado, e ressuscitou no terceiro dia.
Tendo aparecido aos discípulos após a Ressurreição,
ele lhes prometeu a força do Alto e lhes ordenou
que ensinassem a todas as nações, que batizassem
em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo,
e que ensinassem a guardar tudo o que lhes foi ordenado;
depois ele foi levado ao céu e assentou-se à direita do Pai,
fazendo com que nossa massa – a natureza humana –
participasse do mesmo trono e da mesma divindade.
Com essa massa [humana] ele retornará em glória
para julgar os vivos e os mortos e retribuir a cada um segundo suas obras[1]”.
10. TECLA
E CAJUARINA
o que você tinha que fazer, era aquela consulta simples,
não era de jogar búzios, consulta de jogar baralho,
era um copo de água em cima da mesa, e agora
ela ia lhe explicar o que você devia fazer,
o que você precisava, o que não precisava.
Muitas vezes o povo chegava ali, vinha de manhã cedo,
chorando, aí ficava fora da casa e esperava ela levantar,
aí ela levantava, tomava banho, tomava café, dava café à pessoa,
aí ela ia preparar, sabe como é?, atender a pessoa,
e muita gente nem tinha dinheiro para comprar remédio,
aí ela ensinava o chá, e muitas vezes, quando era o caso
de tomar remédio, ela dava o dinheiro para a pessoa
comprar remédio, ela ajudou muita gente, e tem gente
que ainda hoje chora. De tanto que ela ajudou o povo.
Ia muita gente, a casa dela era de domingo a domingo,
você podia chegar lá cinco horas da manhã
que ela estava deitada, e já tinha gente naquele varandado
sentada de ponta a ponta, tinha dia dela trabalhar o dia inteiro,
nem tempo de tomar um café, às vezes quem levava o café
para ela assim era aquela pessoa que morava com ela,
aí levava um cafezinho para ela, qualquer coisa, porque
nem tempo de ela, às vezes tinha vez que ela levantava
assim, pra almoçar correndo, às vezes porque vinha gente
de longe, vinha gente de vários lugares, muita gente
na casa dela, então tinha dia que eu ia lá, passava o dia,
tinha alguma coisa pra fazer, passava o dia, vinha muita gente.”[1]
A Irmã Das Dores esbofeteou o rosto de Tecla com força,
"Negra estúpida, Irmã inútil, quem lhe autorizou
a conversar com qualquer um que passa,
quem lhe disse que lhe é permitido ficar de prosa
com gente estranha, e, mais ainda, com essa velha notória,
curandeira de má hora, alma vendida ao demônio,
que um dia a fogueira levará, para alegria do Céu e do Purgatório?",
e a mão pesada abateu-se novamente sobre Tecla, arrancando-lhe sangue do lábio.
Das Dores deu-lhe as costas, deixando-a no meio da cozinha,
os cabelos em desalinho, o avental amassado, a boca sangrando,
e um pensamento estranho que a assaltava, um "por que?, por que?, por que?",
que não calava, e Tecla pensava na velha,
tão pequenina, tão doce, serena, e não compreendia,
onde estava seu pecado, se sabia ela, Tecla, que Cajuarina, a benzedeira,
só falava em nome de Cristo, da Virgem, e que suas rezas só pediam
paz, saúde, vida longa e o alívio das dores, das moléstias,
a resposta às perguntas, as perguntas às respostas,
e que a tudo isso fazia de graça, e não cobrava além do que lhe dessem,
e que tudo aquilo era feito com devoção, humildade e modéstia.
"Cristo não nos deu um livro", pensou ela,
"mas um modo de vida, e é nisso que está o segredo
que irá separar no Céu
a alma inculta daquela que será bem-vinda",
pensou, mas calou-se, e olhou para a Cruz no alto,
onde o pendurado lhe mostrou o flanco, de onde jorrou sangue e água no dia do Calvário,
e Tecla viu que ali estava tudo, e que, antes ainda de Adão aparecer,
e de Eva ser tirada do seu lado, já o ser humano havia,
de algum modo, pois Cristo existia então,
sem cor, sem forma, sem traço, mas já como homem destinado.
Tecla pensou na sua eternidade de mulher, nascida ali, num sertão tão bravo,
e no silêncio daquelas matas, no escuro das noites,
na chama que a avivava,
e sentiu-se também ela eterna, e compreendeu
que ali estava, mais que o Ancestral,
a forma de todo homem, mulher, coisa, que já existiu,
e que ele continha tudo, e que dele viera tudo,
porque ele era, ali, como sempre, o próprio Amor,
que move o mundo, que move o sol e as outras estrelas,
porque nele está contida toda a vida, o caminho e a verdade derradeira.
E compreendeu que tudo aquilo estava muito além dos livros,
das rezas, dos cilícios, das penitências, das lamentações,
e das regras, das normas, dos ordenamentos,
enfim, de tudo o que os seres humanos acrescentaram
para se satisfazer com a ideia de algum cômodo salvamento,
mas não, o caminho se faz com os pés, e é andando, é vivendo,
que se deixa atrás de si a ilusão de suficiência,
e nos entregamos a ele, o menino, o Ancestral, esse Jesus,
que nos aguarda, no fim da via, com seus olhos fundos em nós,
e seu tipo especial de silêncio.
A Irmã das Dores recolheu sua mágoa, sua tristeza,
as lições e as ordens da Madre Superiora (“Aqui não há escravas,
nem brancas, nem negras, somos todas livres, e somente o Amor reina”)
as coisas que jamais compreendera, seu “eu”, em que tanto confiava,
juntou tudo aquilo numa grande mala, pesada demais para que carregasse,
e, como se levasse o fardo de uma vida desenganada, despediu-se do Convento,
sem dizer palavra, e tomando pelo caminho, desapareceu na curva da estrada. (21-10-24)
“Em Cristo, verdadeiro Deus e Verbo do Pai,
toda plenitude da Divindade reside realmente em um corpo.
Mas em nós, a plenitude da Divindade reside por graça,
quando recolhemos em nós mesmos toda virtude e toda sabedoria,
e na medida em que estas não estão de modo algum afastando-se
da verdadeira imitação do modelo, tanto quanto isto é possível ao homem.
A partir do momento em que o Verbo nos adota, é natural, com efeito,
que em nós resida também a plenitude da Divindade,
que é feita das contemplações espirituais[2]”.
[1]
Ânila Tereza Santana Fratelis, Religiosidade afrobrasileira no cotidiano
rural de Queimadas, Depoimento de Raimunda dos Santos, 2017.
[2]
São Máximo o Confessor, Centúrias sobre a Teologia e a Economia da
Encarnação do Verbo de Deus, Segunda Centúria, 21, Filocalia dos Padres
Népticos, Tomo 1, Volume 3.
11. O
AMOR
que nos escapa o óbvio, ou seja aquilo que somos,
que só nos vemos quando vemos o próximo,
que nenhum humano é uma ilha, que sequer podemos ser
sem que digamos “somos”, e que isso não é uma imposição social,
uma formalidade do convívio humano, mas nossa condição,
nossa existência inteira resumida num único mandamento,
“amarás a Deus, e a teu próximo como a ti mesmo”,
que esse rosto, que é o meu, que é o teu, o dela,
somos todos o mesmo rosto, e que o sangue que me atravessa
atravessa a todos, e que esse sangue, que nos anima
e nos levanta do chão, é o mesmo sangue de Cristo,
que nos amou com sua paixão, e nos deixou essa palavra,
“amai uns aos outros como eu vos amei”,
o que há de difícil nisso?, ou estamos demasiado voltados
para dentro de nós mesmos, não em nossa profundidade,
mas na aparência de um poço vazio, do qual não se extrai
a água necessária à vida, mas os vermes da putrefação
do lodo e da lama fria, que Deus descartou,
não porque os desprezasse, mas para que ali vivessem,
longe do mundo humano, esses vermes, cuja última
e minúscula dignidade ainda vilipendiamos,
colocando-nos ainda mais abaixo, quando os trazemos à superfície
- será que o ser humano não tem nem mesmo esses limites? –
esquecendo-nos de nos colocar no lugar de cada coisa que existe,
e reconhecer a todas elas, mesmo as pedras, mesmo
as gotas de chuva, a poeira levada pelo vento, como criadas
pelo mesmo Deus, e irmãs nossas, e que assim vivamos
voltados todos para a sororidade, a fraternidade, a compaixão
e o amor, esse amor que liberta, porque rompe as fronteiras
e torna o mundo todo um só país, que fala muitas línguas,
que crê muitas crenças, que professa muitos deuses,
todos iguais no amor que lhes devotamos, nós, irmanados,
filhos todos dos mesmos Pai e Mãe, nós, os humanos. (19-2-25)
12. A
PRECE PURA
cabe apenas ao Espírito Santo, assim como
também fixar o intelecto, segundo João Clímaco,
cabe apenas ao Espírito Santo,
e São Nilo diz ainda: “Se quisermos ver a natureza
profunda do intelecto, devemos nos afastar
de todos os pensamentos. Então o veremos
semelhante à cor da safira e à cor do céu”,
e também: “A natureza profunda do intelecto
é sua própria altura semelhante à cor do céu,
e nele, no momento da prece, permanece a luz da santa Trindade”,
e santo Isaac: “Quando intelecto se despojar do homem velho,
quando estiver revestido do homem novo,
ele verá sua própria pureza como a cor do céu,
e ele se tornará aquilo que a assembleia
dos filhos de Israel chamou de ‘lugar de Deus’,
que eles viram sobre a montanha”. Assim,
se você fizer o que foi dito, se você orar
com toda pureza além de toda imaginação,
além de toda forma, você seguirá as pegadas dos santos.
Senão, ao invés de hesiquiasta, você será um imaginativo,
e, em lugar de espigas, colherá espinhos.
Mas que isto não aconteça![1]”
[1]
Calixto e Inácio Xanthopouloi, Centúria Espiritual, 66. Filocalia dos Padres
Népticos, Tomo 2, Volume 3.
13. A
NOITE
pois nada se enxerga, e só se ouvem grilos, sapos, corujas,
os sons que havia no universo antes dos dias,
sons de agouros, de presságios, que deixavam arrepiados
os pelos e cabelos de Adão e Eva, a se apertarem um contra o outro,
dizendo, "o que é isso?, o que é isso?",
trazido pelas vozes fantasmagóricas de bichos invisíveis,
um pio, um trilo, um coaxo, um ronco, um esturro,
"o que eles dizem?, por que Deus nos fala assim?",
e buscavam por um minuto de silêncio, para que viesse o sono,
mas os ruídos da noite os chamavam uma e outra vez,
como a dizer, "não há lugar no Paraíso para vocês",
tapando os ouvidos, para não escutar o que Deus falava
longe do brilho colorido das manhãs, longe da festa de luzes,
longe do calor do sol, das águas claras dos riachos,
dos alegres pios dos passarinhos,
essas mensagens cifradas, cabalísticas,
esses arcanos ocultos, esses sons de abismo,
os ensinamentos mais profundos, por isso apavorantes,
afinal de contas, bichos inocentes, como todos,
que apenas nos trazem o que o Mestre disse,
e que não tem como ser dito de outro modo,
senão causando-nos toda espécie de arrepio, e tremores
que sobem pela coluna e eriçam os cabelos, e arrancam
os barcos dos portos e ancoradores,
e as chamas das velas de seus pavios. (15-1-25)
14. O
TEMPO
tendo conversado dois dedos de prosa, persignou-se,
abraçou-a e seguiu seu caminho, esquecida dos acontecimentos
daquele dia, há tanto tempo passado, que não lhe deixaram marcas
mais do que um afeto pela pobre Irmã e suas dores,
nem refrigério que desse repouso àquele coração empedernido,
que a conduzira sabe-se lá por onde, pelas estradas esquecidas,
por destinos desconhecidos, por dias só de Deus sabidos,
com a sacola no braço, e o dinheiro contado num saquinho,
quando viu uma figura sentada num canto, maltrapilha,
com as mãos sujas e os pés descalços machucados,
vestida em trapos, o cabelo desgrenhado em farrapos,
e uns olhos fundos, muito escuros, sem luz alguma,
sou eu, levante-se, venha comigo”, e ouvia-a se lamentar,
“Antes de ser humilhada, eu andava no erro,
ganha valor a partir do valor da alma que habita nela[3]”,
irreconhecível para todas, menos para a Superiora,
que adivinhara tal desígnio, que lhe separara uma cela,
e mandara que lhe preparassem um banho quente,
e lhe servissem uma sopa, e que rezassem por ela,
pois a filha pródiga tinha, finalmente, retornado ao seu destino.
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