8. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 2: A ÁUREA CATENA - 2.1. FATUMATA JOANA BATISTA

 

2.                  A ÁUREA CATENA


2.1. FATUMATA JOANA BATISTA (1716-1782)

 


 Onde acompanhamos a viagem de Fatumata da África para o Brasil a bordo do navio negreiro Amável Donzela, sua chegada ao Convento da Anunciação de Maria, seus primeiros aprendizados com a Irmã Jesuína, seus encontros com o Cristo negro da cozinha e com as almas penadas e espíritos que abundam pelas lonjuras do Brasil.



OLHANDO AS ESTRELAS




Sobre os caminhos dessa terra de degredo
onde as mulheres e os homens se escondem
de seus destinos de incertezas, alegrias e medo,
prouve a Deus deixar alguns rastros seus, para que uns poucos,
despertados desse sono que a todos mantém adormecidos
e acorrentados na sarjeta por onde passam as águas da história,
 – essa tempestade que se despeja sobre todos, indiferente,
e que arrasta a muitos para longe de suas casas,
de suas vontades, ao sabor da enxurrada de incontroláveis eventos –

 

para que esses poucos olhassem as estrelas,
e delas extraíssem o segredo, qualquer segredo da existência,
que ali Deus tivesse deixado, para que um arcano escondido as levasse
para além das realidades enganadoras vividas pela maior parte,
pelos que caminham de olhos fechados, os que, amarrados
a seus lugares, disputam sobre as sombras projetadas na parede,
enquanto lá fora brilha o sol, iluminando a verdade,
e indicando o caminho para quem queira se elevar,
a um horizonte mais alto, de onde se divisam mares a transpor,
oceanos de monstros marinhos e vagalhões sem tamanho,
 
que apavoram a maioria, mas que poucos, pouquíssimos,
enfrentarão, sem medir esforços, apenas para, em plena batalha
encontrarem com que a empreita, que se erguia agigantada,
se apequena, se amansa e domestica, e abre suas portas de calor e afago,
pois nessa guerra, se enfrentada, todo fardo se torna leve,
e todo jugo é suave. (20-11-24)
 
 “As santas potências transmitem a iluminação umas às outras.
Elas a transmitem à natureza humana,
seja pela virtude, seja pelo conhecimento que há nelas.
Elas transmitem a virtude à imitação de Deus,
a virtude com a qual fazem o bem a si mesmas e entre si,
e às potências que estão abaixo delas,
trabalhando para torná-las semelhantes a Deus.

 

E transmitem o conhecimento, ou sobre Deus,
por meio de uma visão mais elevada (pois foi dito:
‘Tu és o Altíssimo por toda a eternidade, Senhor’);
ou sobre os incorporais, por uma visão mais profunda;
ou sobre os corpos, por uma visão mais precisa;
ou sobre a providência, por uma visão mais penetrante;
ou sobre o Juízo, por uma visão mais clara[1]


[1] São Máximo o Confessor, Terceira Centúria sobre o Amor, 33, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 1, Volume 3.


1.       O AMÁVEL DONZELA

 


Na noite interminável do ventre do navio negreiro,
alguém aproximou-se de Fatumata, e, ao longo de dias sem fim,
de horrores e inferno, sussurrou-lhe lentamente os segredos do universo,
enquanto se contavam os mortos, atirados à sede do mar,
e os gemidos já não se contavam, nem o pranto se podia calar, e o banzo
da terra querida, das palmeiras que ficaram pra trás,
abria uma longa ferida, que jamais haveria,
nesse mundo, no outro, ou em outro ainda, de cicatrizar.
 
Quando ela viu outra vez o céu, viu outra terra, e nas palmeiras
aves pousadas, que não cantavam como lá,
e viu outra realidade, e outra vida, e outra pessoa, e perdeu seu nome,
e foi batizada, e tudo isso passou-se em silêncio,
como se não fosse ela, como se esse país imenso fosse menor
que a aldeia de onde viera, na longa viagem, que tantas vidas ceifara, mas poupara a dela.
 
E viu-se junto a um fogão, e Freiras tagarelavam,
e somente um grande Cristo crucificado pendia do teto,
e a olhava, entre curioso e intrigado.
E Fatumata acostumou-se que era agora Joana, que já não era Africana,
nem outra nacionalidade tinha, e lhe disseram que esse reino em que estava
não era dos reinos do mundo, mas de um Rei muito distante,
que, desde distante, ali reinava.
 
E Fatumata, agora Joana, olhava o Cristo, e lembrava
das palavras segredadas, pela boca que nunca mais ouvira,
e sentia que era Ele que lhe falara, pois escutava de Seus lábios
uma prece calada, que tudo e nada dizia.
 
No quartinho que lhe deram, separado das Irmãs,
uma cruz revelava o que havia de ser seu serviço,
a sua diaconia, e que extraísse, de si, como fosse,
qualquer amor que restasse, por ela, por alguém, pela noite, pelo dia,
que a guiaria por essa nova terra, de novos campos, montanhas e serras,
 
Joana, a serva desse Senhor novo, que em seu mútuo sofrer lhe sorria,
Joana, a serva desse Senhor, Sinhô, Nonô,
a quem ela somente serviria. (2-7-24)[1]



[1] Fatumata veio da África, da Guiné, da cultura Mandinka, nascida em 1716 e capturada por raptores em Cacheu, uma pequena cidade que se formava em volta do movimentado porto da primeira colônia fundada pelos portugueses na região, onde hoje é Guiné-Bissau, a Guiné Portuguesa. Desde 1675, havia em Cacheu um intenso comércio escravagista, demérito do principal fomentador do setor por ali, a Companhia de Cacheu.

Foi no dia 2 de outubro de 1738 (data fictícia) que o capitão José de Azevedo Santos e mais 33 tripulantes deixaram Portugal para inaugurar uma terrível história a bordo da galera Amável Donzela. Nos 7 anos seguintes, o barco realizaria 7 viagens assassinas, sempre traçando o mesmo caminho de horror: de Lisboa para o porto de Cacheu, no centro-oeste africano, e de lá, entupido de seres humanos acorrentados, para a Bahia de Todos os Santos, no Brasil.

Era comum que os tumbeiros tivessem nomes fantasiosos, tais como o Amável Donzela, e outros como o Boa Intenção, o Brinquedo dos Meninos, o Caridade e o Feliz Destino; apenas mais uma crueldade em meio à odienta atividade do tráfico.

Na primeira viagem da Amável Donzela, quando Fatumata foi levada, 186 escravos embarcaram, mas só 168 chegaram ao Brasil.

No Brasil, o destino final dos homens, mulheres e crianças dessa região era o Maranhão, onde serviriam como mão de obra para a cadeia do algodão, que vigorou no norte do Brasil. A produção era exportada principalmente para a Grã-Bretanha, em pleno desenvolvimento industrial.

Fatumata, porém, atraiu a atenção de Dom Antônio de Pádua e Bellas, Bispo da Igreja do Maranhão. Ao invés de encaminhá-la para a economia local, por desavenças com o então governador José Telles da Silva e com a Câmara de São Luís, Dom Antônio deixou-a no Rio de Janeiro aos cuidados do Bispo Dom Manuel da Ressureição, que viria a falecer um ano depois, não sem antes recomendar a jovem escrava ao Arcebispado da Bahia, para o Recolhimento de Santana da Chapada, no Norte de Minas.

Dali, Fatumata foi transferida para o minúsculo Convento da Anunciação, onde viviam não mais do que 12 religiosas, esquecidas pelo mundo, nas proximidades da Vila de Piranga, na Zona da Mata Mineira, onde chegou no final do mesmo ano aos 36 anos, sendo alocada no serviço para substituir a cozinheira anterior, que estava para deixar esse mundo.

Durante a viagem do Amável Donzela, Fatumata sentiu aproximar-se de si uma pessoa, que passou a segredar-lhe toda noite, na escuridão do bojo infecto do tumbeiro, um conhecimento oculto e uma série de práticas ancestrais, coisas perdidas para a maioria dos homens, e que ela recebeu em seu coração, e as guardou como o maior tesouro que pudesse haver.

Fatumata não soube então quem era essa pessoa, e, na falta de outro nome, passou a chamar-lhe “Ancestral”, pois a sabedoria contida em suas palavras era mais antiga do que tudo o que havia registrado na história de seu povo.

E foi com essa bagagem que ela desembarcou no Brasil, sem ter ideia de seu destino, e sem a menor noção do que faria com as coisas que aprendera.

Somente quando chegou ao pequeno e esquecido Convento da Anunciação, Fatumata encontrou a Irmã Jesuína, mameluca carijó, que, amparada pela legislação de 1755, fôra declarada livre pelo Governador de Ouro Preto, encontrando abrigo naquela instituição religiosa, graças à caridade e ao amor da Madre Superiora, Maria do Egito. Foi Jesuína quem a introduziu no Cristianismo, ou melhor, na sua forma particular de Cristianismo mestiço, em que se encontravam mitos indígenas entremeados com os ensinamentos de Jesus, fornecendo algumas indicações e direções inusitadas ao aprendizado da doutrina, onde Fatumata logo reconheceu as palavras do Ancestral.

A partir de então, deu-se a iniciação final de Fatumata, pelas mãos de Jesuína, e ela assumiu a responsabilidade de transmitir a cadeia de sabedoria a quantas mais moças viessem a trabalhar naquela cozinha – “mas, só às que vierem trabalhar na cozinha”, ressaltava Jesuína – estabelecendo assim uma linha de transmissão, como numa verdadeira sociedade secreta, que viria a se formar naquele mundo perdido para os homens, à margem de uma estrada esquecida, na borda de um povoado à beira do rio, que ainda levaria muitos anos para se elevar à categoria de arraial.

Fatumata deixou o Convento ao final do ano de 1792, desaparecendo para além da Zona da Mata, mas seu destino era incerto e sua morte nunca foi confirmada. Houve notícias de viajantes e transeuntes a respeito de misteriosas aparições de uma longínqua mulher etérea nas imediações, mas isso nunca ficou claramente estabelecido.

Esse livro conta a história do destino dessas mulheres, e de como seu legado foi passado de mão em mão, até chegar aos nossos dias.

Quanto ao futuro, depois do incêndio que devastou o velho edifício, é quase impossível traçar qualquer prognóstico. Mas é certo que a sabedoria ali contida não desaparecerá, e podemos estar certos de que Antônia, a última representante dessa linha, será guiada pelo Espírito Santo para entregar esse depósito precioso à próxima da linha.



2.       A CHEGADA AO CONVENTO DA ANUNCIAÇÃO

 


A pessoa submetida ao jugo de outra pessoa é reduzida a coisa,
é tida por morta e, privada de tudo o que é de si,
nada mais representa, representou ou representaria,
senão seus braços, seu silêncio, sua subserviência
e uma parca ração de carne seca e farinha de mandioca,
o mínimo de horas de sono sobre o chão duro,
e o medo no olhar baixo, que não ousa erguer,
para, de quem a tem inteiramente em mãos, não provocar a ira.
 
Quando Fatumata chegou ao Convento seria isso dela o aguardado,
e a velha cozinheira, Sá Luzia, branca e crente,
morrera, de fato, há poucos dias, com aroma de santinha,
mas órfã e escrava ela também, conforme o costume da Corte[1],
tratada tão brandamente quanto se podia, quase uma filha,
e seus olhos azuis se fecharam sem que presenciassem
nunca o tronco, a peia, as correntes, o cruel bacalhau,
feito de tiras de couro cru, que jamais fizera em tiras sua carne pura.
 
Fatumata tinha nos olhos outra porfia, uma África inteira,
depois de sobreviver ao Atlântico furioso e à tormenta do tumbeiro,
à viagem a pé, descalça, pelos sertões ignotos, desde o Rio de Janeiro,
à separação dos seus, às incertezas do futuro, que não sabia,
e agora, para além de tudo, chegava a um lugar inconcebível,
e tinha pela frente as leis desse novo Deus, que desconhecia.
 
Levada pela doce Superiora até a cozinha, de paredes brancas,
onde dominava, soberana, uma grande cruz
com um homem muito claro pregado ao meio, num átimo
Fatumata reconheceu no seu olhar triste o Ancestral,
de que lhe falou a voz na noite do navio negreiro,
e, vendo-o ali, seu coração lhe segredou que aquele homem flagelado,
conquanto branco, se tornaria negro, e ela então ergueu o rosto,
 
e, em que fingisse não perceber a Superiora (atenta ao tempo que, fatal, se erguia),
seus olhares se cruzaram, e um sorriso cúmplice e cósmico
atravessou a cozinha como um raio, que vinha do Oriente ao Ocidente,
 
e Fatumata teve a certeza, como nunca antes,
de que ali haveria de ser a sua vida por diante,
e que tudo estava em seu lugar, e que o Ancestral,
cujo nome nem sabia, haveria de acompanhá-la, e de estar ao seu lado,
até o fim do mundo, preciso fosse, e em cada dia de sua vida,
e viu que o homem lhe sorria, e que seu olhos refletiam um saber louco,
e que, onde ela estivesse com ele, ainda que pouco, ali haveria paz.
Escravizada, sim. Escrava, jamais. (12-10-24)
 
“Deus, que existe desde antes dos séculos
e que conhece todas as coisas antes de tê-las feito,
também a você conhece previamente.
“Ele inclinou os céus e desceu”; Ele se tornou homem por sua causa,
Ele desceu até onde você jaz, Ele a visita muitas vezes por dia;
Ele a exorta a que você se erga da queda que a jogou por terra,
e a segui-Lo enquanto Ele sobe de volta aos céus, e lá entrar junto com Ele[2]”.



[1] Nesse tempo, século XVIII, havia ainda em Portugal escravas brancas, em geral de famílias miseráveis, que entregavam suas filhas à Corte, na esperança de um futuro qualquer mais garantido para aquelas meninas. As escravas brancas eram colocadas como criadas de casa, e raramente eram submetidas ao mesmo regime das negras, e escapavam à rotina de maus tratos, chegando muitas vezes a receber instrução, tornando-se quase que como filhas adotivas. O que não as impedia de serem vendidas, se a conveniência de seus amáveis senhores assim o exigisse.

[2] São Simeão o Novo Teólogo, A Prece Mística, Ética 2.



2.1. A IRMÃ JESUÍNA 

 


Moravam no Convento, além da Superiora, pequenina e quieta,
a Irmã Jesuína, velhinha, velhinha, e oito Irmãs,
todas muito parecidas, variando só na idade e no modo como cada qual comia,
e eram todas muito brancas, e falavam muito baixo numa língua
que Fatumata não entendia, a menos quando - raramente - se dirigiam a ela,
que aos poucos aprendia o português da Colônia,
que substituía sua língua natal, que só seus antepassados
e ela própria compreendiam.
 
Ninguém nunca ia à cozinha, com exceção de Jesuína,
que se tomara de carinho pela jovem africana,
e lhe ensinava a língua cotidiana, e vez por outra, coisas das outras línguas,
em frases que Fatumata ia aprendendo, e se admirando com quantas coisas havia
por conhecer, ainda, e que a velhinha de olhos escuros
era dona de um tipo novo de sabedoria.
 
Jesuína lhe contou que não era portuguesa, mas que sua mãe era índia,
que de seu pai branco ninguém sabia, e que ela chegara ao Convento
por um favor especial de alguém, não se lembrava,
e que lá fizera sua vida, mas que trazia ainda consigo
as histórias da aldeia, dos seus, que a mãe contava, num dialeto
que por ali só dela era conhecido,
e Jesuína se pôs a ensinar a Fatumata essas histórias,
e esse falar novo e antigo, que tinha mais poesia do que tudo
que até então, naquelas terras novas, ela ouvira.
 
E Jesuína lhe disse, muito em segredo, que sempre soubera
que Fatumata haveria de chegar um dia, "que me contou um passarinho"
– e que tanto ela como a Superiora sabiam – 
e se riu, como quem não fala a sério, mas fala a verdade
de um modo que só entenderia quem a realmente ouvisse,
quem se dispusesse à mesma viagem, pelo mesmo caminho,
e depois lhe falou da Arara vermelha, que era o Sol,
da Onça, do Jaboti, das serpentes, da dona Anta, do Quati,
das árvores imensas da mata, dos seres das lagoas e dos rios,
 
e saíam as duas a passear, e Jesuína lhe mostrava as coisas daquele Brasil novo,
que Fatumata ia aprendendo, e guardava no coração,
porque a cabeça, para tantas e sublimes coisas, era pequena.
 
Certo dia, junto ao corpo d'água, Jesuína cantou uma cantiga,
e do espelho emergiu uma linda jovem, que veio das profundezas,
e se curvaram todas, em reverência, e a jovem se aproximou,
e a velha lhe apresentou Fatumata, e disse a ela,
"Essa é a Yara, a mãe das águas, criada pelo Ancestral, desde quando
o mundo não existia. Tudo o que vosmecê precisar,
das águas ou da floresta, peça a ela, que é deste mundo
dos elementos encarregada (embora pareça assim tão diáfana),

e ela levará ao Ancestral o pedido, que ele atenderá com certeza,
porque dele é querida, dessa família do Espírito, de que nada sabemos,
e da qual vosmecê agora é parte, porque já conhece toda a história,
e já lhe contei do Ancestral nosso, que vosmecê doravante
há de chamar Jesus Cristo".
 
E a moça linda sorriu e sumiu-se nas águas, e Jesuína se levantou,
e disse, "Vamos voltar ao Convento, não é bom que fiquemos longe,
é verdade que ninguém presta atenção nem tento
à escravizada e à velha índia maluca que vivem nesse Convento,
meio aqui, meio em outro tempo". (13-10-24)

 

 

2.2. O MANDATO DE JESUÍNA

 


E Jesuína ensinava a Fatumata o português, o grego, o tupi e o latim,
e Fatumata lhe ensinava o fula e o mandinga,
as línguas de sua África, que o banzo, naquelas terras novas,
não a deixava esquecer, e que as conversas com a velha Freira
mantinham aquecidas e vivas.
 
E lhe ensinou que seu nome era Fátima, a filha de um antigo Profeta,
e que significava tanta coisa, que era preciso enumerar,
coisas como pura, casta, separada, a que amamenta,
a que foi amamentada, a que se foi, a que tomou seu caminho,
a que fez sua própria vida. (14-10-24)
 
E Jesuína ia e vinha, e levava à Madre Superiora as notícias,
e elas conversavam coisas que ninguém sabia, e assim
Fatumata foi sendo preparada devagarinho, pois ela sabia muita coisa
e muito mais coisa ainda viria, e Maria do Egito, secretamente,
orientava a velha Jesuína, que fosse apresentando o novo mundo a ela,
que a ela estava reservada uma missão, que a poucas é dada nesse mundo,
 
que é a de manter uma ligação permanente com o ao-de-lá,
lá, onde se movem os pássaros e os anjos descem
para recolher as preces que a raça humana lhes envia,
ainda que não saibam os homens que o fazem, mas que, ao fazê-lo
mantêm viva a criação, que com eles ora todo dia, e deles espera
pelo dia em que reapareça, em cada um, o arquétipo perdido do Jardineiro.
 
E assim, quando chegou o dia, Maria do Egito não pensou duas vezes,
e mandou chamar Fatumata, Joana, a cozinheira, pois sabia
que somente a ela poderia entregar sua alma, porque ambas,
ela desse lado do Atlântico, a outra, africana no degredo,
já eram como irmãs, no sangue que partilhavam, de Cristo,
e do qual bebiam, e dividiam o pão, como se fosse carne,
mesmo que uma e outra o fizessem, sem exatamente sabê-lo.
 

 

3.       O MUNDO É MÁGICO

 


“Através do intelecto que enxerga a luz da vida divina,
recebemos o conhecimento dos mistérios ocultos de Deus,
e assim, por meio da compreensão da alma, colocamos
com todo conhecimento no coração os graus dos raciocínios,
discernindo o melhor e o pior, e por meio do discernimento da razão,
saboreamos as formas dos pensamentos, dos quais alguns nascem
de uma raiz amarga: e assim, ou nós os transformamos
 
em doce alimento para a alma, ou os rejeitamos totalmente,
enquanto outros provêm de uma planta sã e fresca:
a esses nós os tomamos, levando todo pensamento cativo
à obediência de Cristo, de tal modo que, por meio da reflexão do intelecto,
sentimos o perfume espiritual da graça do Espírito,
e enchemos nossos corações de alegria e bem-aventurança.
 
Por meio do coração sóbrio e vigilante nós percebemos
com facilidade o Espírito cobrindo de orvalho do alto
a chama de nosso desejo de bens, ou aquecendo
nossas forças transidas pelo frio das paixões[1]”.

 



[1] Nicetas Stethatos, Primeira Centúria, Capítulos Práticos, 9, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume 2.



3.1. OS DIABOS VELHOS

 


Há nas encruzilhadas diabos tão velhos,
que perderam seus mandatos, e almas penadas, esquecidas,
que já não recordam as dores sofridas,
espíritos de deuses perdidos, assombrações solitárias,
antigos seres desaparecidos, que vagam, e só buscam
quem os queira ouvir, em seus monólogos cansados,
em suas queixas sem fim,
em sua precisão infindável de serem amados,
 
e a cada um foi Fatumata apresentada, e dizia,
"Prazer, Joana", e eles repetiam, "Joana, Batista, dá-nos água",
e ela levava consigo uma bilha,
e a cada qual instilava uma gota, duas gotas,
na medida em que cada alma daquelas precisava,
e conversavam por horas, até que o sino da capela
 
chamava ao Convento, para as rezas, as horas e as ladainhas,
e as almas penadas se sumiam nos ares em fumaças fugidias,
e Fatumata, Joana Batista, voltava à sua cozinha,
escrava que não o era, livre para andar por onde queria,
para orar a Deus, conversar com os seres
e cantar com os passarinhos.
 
E levava a uma, uma lembrança, a outra, uma balinha,
e às que tinham frio, costurava um casaquinho, e assim reunia
uma estranha e agradecida família, que a cercava e protegia,
e afastava as feras e os demônios homicidas.
 
Fatumata, que não era desse mundo – nem do outro – só ouvia,
e escutava, humildemente, e se lembrava da aldeia, e agradecia
que aqui houvesse também um povo que falava com ela,
e que a ouvia, não como a escrava – que não era –
mas como a sacerdotisa daquele reino, que ligava essa terra de dores
àquela outra, que o Cristo da cozinha, já escurecendo de fumaça,
lhe mostrava quando, no silêncio dos Seus olhos mansos, lhe sorria. (2-7-24)

 

 

3.2. FATUMATA E O CRISTO

 



“Ah, Fatumata, Joana que veio de África,
que será Joana, que será Batista, te olho nos olhos
parada aí onde estás,
no meio dessa cozinha, e te digo, chegaste afinal
nessa terra de conquista,
onde serás a primeira a carregar minha mensagem,
 
a Boa Nova aguardada, o Evangelho perdido,
minha notícia de um amor pleno, um amor total,
o amor para o qual se fez a raça humana, que só a ela foi dado,
para que o levasse à terra, para que a Criação fosse completa,
para que meu nome estivesse em cada ser criado,
esse Amor que é puro sujeito, que não tem objeto
nem predicado, esse Amor por inteiro, que abraça o mundo,
 
que torna fecundo todo desejo, que multiplica e cresce,
que liga ao céu tudo o que na terra acontece,
esse Amor, Fatumata, que começas a intuir, que em tua alma cresce
sem que entendas como, esse Amor que faz
com que me olhes dessa maneira,
como se tivesses me conhecido, não agora,
mas a vida inteira, esse Amor, Fatumata, que me faz descer
dessa Cruz de madeira, e percorrer de novo, contigo, os caminhos
que tracei para a espécie humana desde sua hora primeira,
 
esse olhar que descobres agora em ti,
que me reconhece, Ancestral do mundo, antes de que Adão existisse,
para que tu, como filha de Eva, o conduza de novo ao jardim,
e lhe mostre, para todo o sempre, enquanto houver o mundo,
a beleza de estar entre irmãos, entre os animais, as plantas,
os céus, montes e mares que criei, para que nele se espalhasse a verdade
 
como uma brisa suave, como um orvalho fecundo,
para que tudo o que passa se torne eterno,
eterno como o Amor que tenho, que te tenho e te dou agora,
para que, com a paz que encontrarás e carregarás contigo,
transmitas doravante, a quem chegar, essa mensagem secreta,
que deveria ser tão conhecida dos homens,
que assim me veriam todos, já não como um poder oculto,
mas como um igual, um irmão, um amigo.” (13-10-24)

 

 

3.3. CRISTO

 


“Toda a criação tem sua Cabeça em Cristo.
E por intermédio de Sua Encarnação, o Filho de Deus,
‘inicia-se uma nova linhagem de seres humanos’.
Somos a posteridade espiritual do Segundo Adão,
e, na sua história, Sua obra redentora se realiza e se completa,
enquanto seu Amor brota nela e a inflama.
 
Constituímos a plenitude de Cristo e Seu Corpo.
São João Crisóstomo disse, “somente então
Aquele que a tudo preenche se torna a Cabeça,
tendo formado um corpo perfeito”.
Existe um movimento misterioso, que começa
no formidável dia de Pentecostes, quando,
na figura dos poucos primeiros escolhidos
toda a criação tivesse recebido um batismo abrasador
pelo Espírito, que apontou para o fim derradeiro,
quando em toda a sua glória a Nova Jerusalém
deverá aparecer e o Noivado do Cordeiro se iniciará.
 
Ao longo das eras, os convidados e os escolhidos
vêm sendo buscados. O povo do Reino eterno
está sendo reunido em assembleia.
O Reino está sendo eleito e colocado
além dos limites do tempo. A plenitude
será realizada na ressurreição última –
e então a completa plenitude,
a glória e o significado total da catolicidade serão revelados[1].”



[1] Georges Florovsky – Criação e Redenção.


3.4. CRISTO ENEGRECE





O Cristo de madeira de pau marfim lavrado, pendurado
junto ao teto da cozinha, telha vã, por onde subia
toda a fumaça do fogão a lenha, e tudo o que ali se consumia,
junto com a fuligem, o carvão, as fagulhas que bailavam
como bêbadas no ar carregado de cheiros, de temperos, do sumo do alimento
que Fatumata criava e renovava dia após dia,
 
esse Cristo paciente, eterno como a vida, pintava-se lentamente
de outros matizes, escurecendo devagar, quase imperceptível,
enquanto seus olhos ainda brilhavam num rosto
que perdia aos poucos seu rictus, e transformava sua tristeza secular
numa espécie de serenidade e sorriso, a olhar a preta lá embaixo,
 
sempre atarefada, e que o mirava, primeiro curiosa,
depois com ansiedade, depois amistosa, e agora
com franco amor, como se o reconhecesse
pela primeira vez em sua longa história,
ainda que não lhe decorasse o nome, e o chamasse como podia,
de avô, de moço, de querido, Jisuis menino,
e com palavras de sua língua materna, que ele entendia sem nunca ter ouvido,
 
esse Cristo, que Fatumata mais e mais reconhecia
como parte de si mesma, e que, a ele, ela pertencia,
esse Cristo, que milimetricamente se movia
e milimetricamente se mostrava a ela, sem descer do seu martírio,
e se colocava em seu caminho, e começava a lhe surgir,
oculto entre as árvores, no formato de uma colina, na curva de um rio,
ou num ninho de pássaro, na água que fervia,
num legume cortado, na terra, no ar, na brisa,
 
que lentamente Fatumata via, e já não se sentia só,
e era imensa a cozinha, e a horta do tamanho do mundo,
e qualquer carreiro era o próprio universo com tudo o que nele havia,
e quanto mais Fatumata olhava aquele homem pendurado,
que a cada refeição preparada se enegrecia,
mais se enchia ela da certeza de que tinha nele seu irmão,
seus pais, sua aldeia e tudo o que mais perdera,
 
e que agora ela crescera, junto a ele, à sua mensagem de silêncio, ao amor que a preenchia,
e que para sempre seria ela Fatumata, livre, e o desposaria,
e estariam para sempre unidos, por todos os tempos,
por todas as partes, por toda a vida, por tudo o que havia e não havia. (13-10-24)
 
“Nós precisávamos de um Deus Encarnado:
Deus foi morto, para que pudéssemos viver[1]”.

 



[1] São Gregório de Nazianze – in Apoftegmas dos Padres do Deserto.



4. O FOGO

 


Fatumata sentia queimar o peito, entre esse mundo estreito
em que passava os dias, na cozinha escura, iluminada apenas
pelos olhos brilhantes do Cristo, e pelo seu rosto, tão misterioso
quanto amigo, e aquele outro mundo antigo, de onde viera,
e onde havia questões como essas de agora, que estavam sempre presentes,
mas que nem por isso haviam sido respondidas,
 
pois não havia resposta para essa porosidade da vida, que coloca um véu
diante de nossos olhos, que nos separa do mundo, mas ao mesmo tempo
permite que chegue até nós uma quantidade de pulsos
que fazem bater nosso coração de gente e despertam uma quantidade de instintos,
de sentimentos, de pensamentos, que nos fazem ser o que somos,
embora o que sejamos seja tão passageiro, como o vento que passa
e faz vibrar a cortina, e espalha a farinha sobre o tabuleiro, e a ajuntamos
de novo, apenas para que ela venha a se tornar parte dessa fritura,
desse pirão, desse caldo, como se nem existisse antes que a tomássemos
e dela fizéssemos o que fizemos, com um intuito que, em relação a ela,
na sua vidinha de mandioca, era totalmente alheio.
 
E nós, e nós, quem somos? Farinha, do mesmo saco, só maiores
e mais lentas no trato? De que modo esse homem pendurado que me olha,
como me vê ele, se nos foi dito sermos iguais, mas ele é eterno,
nós mortais, mas fomos criados à sua imagem, e partilhamos esse rosto,
que daqui vejo, cada dia mais negro, mais eu, Fatumata, essa mulher
 
que é exatamente como ele, porém menor, e dele nascida, porque Ancestral meu,
porque a mesma carne minha, porque nos amamentou o mesmo leite
de todas as mulheres e Marias, e porque fomos criados juntos,
antes de que houvesse a própria criação, muito antes de que fosse
o homem colocado no Paraíso, nossas almas preexistentes
no coração de Deus, iluminadas pela mesma luz que agora vejo
luzir nesses olhos de bondade, de Amor para comigo, de Amor por todas nós,
e mesmo por aquelas que nunca estiveram sequer um instante realmente contigo,
 
Cristo, Jesus, Painho, de onde viestes, de tão longe, para estar aqui, embora eu saiba
que em toda parte estás, e que estás mais próximo de mim do que meus próprios ossos,
do que meus nervos, meu sangue, minha menstruação, do que o ninho que faço
em minha cama, quando me deito, eu e meu destino, e te olho no escuro,
e te escuto nesse silêncio louco, sem explicação, que me fala numa língua
que não sei qual seja, mas que entendo, sem que entenda, e só entendo
que não sou eu quem fala, mas aquele Espírito que enviastes e que está comigo,
e nessas horas tudo o que sei dizer, é que eis aqui a serva do Senhor,
faça-se em mim segundo Teu desígnio, essa é minha inteira e única vontade,
e é tudo o que espero em estar contigo. (18-10-24)
 
“Eu queria conhecer por experiência o amor de Deus,
e o bom Deus me concedeu permitindo-me sentir
profundamente este amor e dele ter uma certeza absoluta.
E eu provei esta energia de tal forma, que então minha alma,
com uma alegria e um amor indizíveis,
queimava por sair do corpo e se dirigir para o Senhor,
e ela se sentia mergulhada na ignorância desta vida passageira”[1].

 



[1] Diádoco de Foticéia, Discurso Ascético, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volume 2.



5.       QUANDO ORA O CORAÇÃO

 


Esta é a que chamamos de prece do coração,
pura e sem distrações, da qual se diz:
“Dela nasce um calor no coração”,
pois está escrito: “Meu coração queima em mim”,
e: “Um fogo se acendeu em minha meditação”,
 
e este é o fogo que nosso Senhor Jesus Cristo
veio atirar sobre a terra de nossos corações
que, de outro modo se encheria de espinhos
sob o jugo das paixões, mas que, sob a graça,
se enche do Espírito. Ele próprio disse:
 
“Eu vim para lançar fogo sobre a terra:
e como gostaria que já estivesse aceso!”. É este fogo
que se acendeu em Cléofas e em seu companheiro,
que os aqueceu e os fez dizer:
“Não queimava nosso coração pelo caminho?[1]”.

 



[1] Calixto e Inácio Xanthopoloi, Centúria Espiritual, 54, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 2, Volum3.



6.       A ÁUREA CATENA

 



Das sete Irmãs da Irmandade que viria, Fatumata Joana Batista,
Tecla, Ana, Cananeia, Teodora, Maria e Antônia,
somente Joana veio da África, da Guiné, da cultura Mandinka,
somente ela teve suas raízes num Islam primitivo,
transformado, somente ela era “filha de Fátima”,
somente ela escutou, no ventre imundo do tumbeiro,
as palavras que viriam a transformar sua vida,
 
e as vidas das outras, que haveriam de chegar, uma após outra,
naquele obscuro Convento, escolhido pelo Deus Ancestral,
sabe-se lá por que razões – haveria de tê-las ele! – para guardar
milênios de sabedoria e uma mensagem de Amor incompreensível,
aquele Convento à beira da estrada, ignorado por passantes e peregrinos,
 
onde se esfalfavam em rezas, salmodias e estribilhos,
um pequeno número de mulheres, como elas, Irmãs,
porém brancas como leite, inocentes e puras tanto quanto possível,
tentadas por qualquer sombra, qualquer som de passos,
qualquer gesto que talvez fosse casto, talvez lascivo,
enquanto as pretas trabalhavam, diligentes, na cozinha,
 
e partilhavam – raramente – algumas ocasiões junto ao divino,
na Capela branca, embora tivessem, pendurado alto na cozinha suja,
um grande Cristo crucificado, enegrecido de fumo, cheirando a óleo,
a alho, a todo tipo de tempero, a carvão, lenha,
e fumaças de nenhum incenso, e ainda assim sorrindo com o rosto sério,
e contando às suas amadas pretas suas histórias em silêncio,
uma por uma, que chegavam, se sucedendo, enquanto a que as recebia
 
lhes transmitia todo tipo de conhecimento sem palavras,
e as levavam ao umbral de novos acontecimentos, ao terraço
de outra coisa ainda e essa coisa (diria depois o poeta),
é que era linda, e tendo-as apresentado a tudo o que ali havia
de oculto, de escondido, de secreto e não sabido,
sumiam-se um dia, sem deixar vestígio, para que começasse nova história,
 
para que chegasse outra menina, fosse ou não escravizada, como Fatumata havia,
fosse serva, Irmã menor, cozinheira, criada, lacaia, mera freirinha,
das demais separada em sua cozinha, dormindo no minúsculo quarto ao lado,
tendo por mobília um catre, uma mesinha, um crucifixo e uma moringa,
tendo por teto um céu de telhas, mas onde se mostravam, a cada noite,
os astros, em sua dança litúrgica e bela, a girar ao som da música das esferas,
 
enquanto, aqui em baixo, cada uma delas, enchia-se dessa estranha sensação
de que tudo ali dentro estava certo, e que em seu coração batia
o mesmo pulso que fazia com que descesse da cruz o grande Cristo,
e as tomasse nos braços, e as levasse por uma estrada
que ia além, muito além de todo o mundo conhecido. (11-10-24)

 

 

6.1. ESSE MUNDO E O OUTRO





“Não deixe, ó Cristo, que eu me perca no meio deste mundo,
pois só a Ti eu amo, eu que ainda não te amei,
e somente os teus mandamentos eu quero observar,
eu, que estou inteiramente entregue às paixões, e que não te conhecia.
 
De fato, quem, tendo te conhecido, precisará ainda da glória do mundo?
Quem, amando-te, buscará seja lá o que for de diferente,
quem se dará ao trabalho de ser amigo de todos?
Inclina-te, pois, tem piedade de minha pobre alma,
ó Deus, Criador de tudo, que me deste tudo o que possuo de bom,
dá-me ainda o conhecimento verdadeiro, concede-me que eu saiba      
me ligar apenas a teus bens eternos, e apenas a eles!
 
Assim, de toda minha alma te amarei, e buscarei tua glória,
sem me preocupar com a glória dos homens e da que não é senão terra,
a fim de me tornar um contigo, de agora até meu trespasse,
a fim de poder, ó Cristo, reinar contigo,
contigo que por mim suportaste a mais infame das mortes,
e para que contigo eu seja então o mais glorioso dos mortais:
amém, assim seja, Senhor, desde agora e por todos os séculos[1]”.

 



[1] São Simeão o Novo Teólogo, A Prece Mística, Hino 12.



6.2. FATUMATA, A PRIMEIRA

 



De todas, ao chegarem ao Convento, somente Fatumata
veio mulher feita, as outras, todas, meninas, assustadas,
a contragosto, sem ideia do que as esperava, cada qual chegando
de uma curta existência de desagrados, de malfeitos e contrariedades,
de sonhos perdidos, de inocências malversadas, de ideais de crianças
destroçados e infâncias maltratadas, e cada uma olhava aquelas paredes,
 
tão brancas que as amedrontavam, e alcançavam aquela cozinha,
cheia de fuligem, pejada de fumaça, e de aromas esquisitos,
do fogo que ardia todo o tempo, do braseiro que nunca se apagava,
e ali encontravam uma nova Irmã,
que as acolhia em seu regaço, e as tratava como filhas,
 
e lhes ensinava muito mais do que o modo de cortar o alho,
de como colher legumes, e preparar a sopa, a galinha, o toucinho,
e as levava pelos caminhos, e a elas mostrava os segredos da mata,
das ervas, das mezinhas, dos preparados que curavam
cada doença, cada enfermidade do corpo ou da alma,
e lhes mostravam mais, muito mais, que jamais houveram pensado,
 
e as ensinavam a conversar com aquele estranho Cristo pendurado,
tão negro como elas, que lhes ouvia e respondia calado,
e lhes revelava uma doutrina por trás dos muros brancos, dos corredores
e dos quartos, do refeitório, da biblioteca, da capela e das salas,
onde se entretinham as demais Irmãs, brancas como fadas desencarnadas,
 
sempre com o rosário às mãos, e aquele olhar de quem não enxerga,
e os lábios que repetiam as mesmas palavras, desde sempre,
e que as igualava num cortejo, em que cada uma era igual à outra,
tanto quanto possível, e no qual as diferentes, se e quando as houvesse,
eram as primeiras a serem caladas e caídas.
 
Fatumata, Tecla, Ana, Cananeia, Teodora, Maria e Antônia,
cada qual passaria ali seu Calvário, mas também seu Paraíso,
separados apenas pela tênue linha de um sorriso
que contemplavam na face da Irmã mais velha, que as conduzia
por um caminho impensado, um que Cristo frequentava
bem mais do que a capela, com sua profusão de velas, devoções,
incensos, penitências, bancos duros e confessionário.
 
E seguiam por trilhas e atalhos, a conversar com os pássaros,
a escutar as plantas, a contemplar pores-de-sol inimaginados,
e tudo na criação, que não era Deus, mas que a Deus apontava,
ou o que, por desconhecimento, chamavam diabos,
a ver de passagem alguma pobre alma, num lampejo
cruzar a encruzilhada num remoinho um saci, um curupira,
uma cuca, um boitatá, ou o mergulhar fugidio nas águas das lagoas
de uma yara, um boto cor-de-rosa, o velho do rio, o cabeça-de-cuia,
 
e já estavam acostumadas, e a cada um cumprimentavam com a cabeça,
e lhes levavam água, uma pinga, uma farofa, por pura gentileza,
e Cristo as acompanhava, e dava sua bênção a todos, e se ria
de suas estrepolias e espertezas, e conduzia de volta ao velho Convento
suas meninas, que iam na frente, colhendo florezinhas
para enfeitar o vasinho sob o crucifixo que ficava no quarto,
 
diante do qual se ajoelhavam, na certeza de que ele as ouvia,
e passavam longo tempo em conversas, nas fofocas ouvidas no pátio,
nas notícias do mercado, das comadres da vila, e outros assuntos,
às vezes espirituais, dos quais ele mais se agradava, e lhes aconselhava,
e contava a elas tudo o que sabia. (9-10-24)

 

 

6.3. A MISERICÓRDIA

 



“Cada uma dessas virtudes por si só é suficiente
para nos levar à salvação e a uma das moradas
da bem-aventurança eterna.
Pois há tantas mansões celestiais
quanto maneiras de viver aqui na terra,
e Deus as designa a cada uma
de acordo com seu mérito.
 
Pratique qualquer virtude, se puder. Mas pense
acima de tudo em progredir em seu itinerário,
tente seguir passo a passo o bom guia
cuja caminhada segura o levará
por caminhos estreitos e portões estreitos
até as vastas planícies das bem-aventuranças celestiais.
 
Se quisermos acreditar em São Paulo e em Jesus,
o amor é o primeiro e maior mandamento,
que é o fundamento da lei e dos profetas.
Bem, acredito que um de seus principais efeitos
é o amor pelos pobres, a ternura
e a compaixão pelo próximo.
 
Nada honra a Deus como a misericórdia,
pois nada é mais parecido com Ele
do que a misericórdia e a verdade,
e quem prefere a misericórdia ao julgamento.
É sobretudo ao benefício que Deus responde
 com o benefício: a sua recompensa
é justa, pesa e mede a misericórdia[1]”.

 



[1] São Gregório de Nazianze – Do Amor aos Pobres, Triunfo da Misericórdia, 5.


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