7. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 1: O CONVENTO - 1.4. AS IRMÃS
I.4.
AS IRMÃS
Onde Maria do Egito, tocada pela efusão de novos sentimentos
de um amor que nunca antes sentira, olha com compaixão para as Irmãs sob sua
responsabilidade, e reflete sobre a natureza de suas vidas, seus sonhos e suas
pequenas iluminações.
1. MINHAS
POBRES MENINAS
Maria olhava as Irmãzinhas,
e pensava consigo,
minhas pobres meninas, minhas pobres meninas,
como transformar em mármore esse tromp'oeil de gesso meio cinza,
com seus veios mal pintados e suas nódoas postiças,
como dar a elas esse outro rosto, que eu vejo por trás de seus sorrisos,
de suas maneiras acanhadas, de sua satisfação
em ser o que pensam que eu espero e imagino,
como despertá-las desse estranho sonho de catalepsia,
em que sua realidade se torna como as águas turvas de um rio,
as conduzindo como folhas por entre marolas e remoinhos,
para depositá-las nalguma margem incerta,
onde aguardarão que as carregue a barca da travessia
desse mundo a qualquer outro, que elas nem sequer sabem se existe?
Como fazê-las desistir de
suas rezas piedosas,
das mãos que confeccionam saquinhos de pano, onde enfiam
tudo quanto é pedaço de santo, cruz, sementes, fios de cabelo, figurinhas,
e se sobrecarregam de escapulários, de salmodias, de patuás,
como quem coleciona conchinhas colhidas na praia,
e as guarda na gaveta, para se lembrar de um dia feliz,
de uma infância feliz, de um momento feliz,
de um dia, um dia, um dia?
Como fazê-las ver o rosto de
Cristo, não esse,
dos cabelos loiros e dos olhos torcidos,
com a expressão de quem olha o mundo
com nossos próprios olhos, culpáveis e mofinos,
essa cara de renúncia a tudo, que nunca teve a ver
com a energia com que o Mestre se atirou ao mundo,
essa dor viril, que continha em si a alegria
de estar vivo, e vivo partilhar da companhia de tantos irmãos,
de tantas irmãs, de tantos amigos reunidos,
e distribuir seu Amor, e fazê-los voltar ao aprisco,
que é esse rosto, só dele, que não tem igual,
que não se parece com nada nem ninguém,
que é seu rosto único, amoroso, imutável e divino?
“Existem dois estados elevados da prece pura, dos quais
um é dado aos ativos, outro aos contemplativos,
e um nasce do temor a Deus e da boa esperança,
enquanto outro nasce do eros divino e de uma purificação extrema.
O primeiro pode ser
reconhecido pelos seguintes sinais:
quando o intelecto se recolhe para longe
de todos os pensamentos do mundo,
como se o próprio Deus lhe estivesse próximo
– e, de fato, ele está –
ele ora sem se deixar distrair nem perturbar.
O segundo pode ser
reconhecido assim:
no próprio impulso da oração o intelecto é arrebatado
pela luz infinita de Deus, perde toda sensação de si mesmo
e já não percebe mais nenhum outro ser,
senão Aquele único que, por intermédio do amor,
opera nele uma tal iluminação.
Então, levado até as razões de Deus,
ele recebe imagens suas puras e claras[1]”.
minhas pobres meninas, minhas pobres meninas,
como transformar em mármore esse tromp'oeil de gesso meio cinza,
com seus veios mal pintados e suas nódoas postiças,
como dar a elas esse outro rosto, que eu vejo por trás de seus sorrisos,
de suas maneiras acanhadas, de sua satisfação
em ser o que pensam que eu espero e imagino,
como despertá-las desse estranho sonho de catalepsia,
em que sua realidade se torna como as águas turvas de um rio,
as conduzindo como folhas por entre marolas e remoinhos,
para depositá-las nalguma margem incerta,
onde aguardarão que as carregue a barca da travessia
desse mundo a qualquer outro, que elas nem sequer sabem se existe?
das mãos que confeccionam saquinhos de pano, onde enfiam
tudo quanto é pedaço de santo, cruz, sementes, fios de cabelo, figurinhas,
e se sobrecarregam de escapulários, de salmodias, de patuás,
como quem coleciona conchinhas colhidas na praia,
e as guarda na gaveta, para se lembrar de um dia feliz,
de uma infância feliz, de um momento feliz,
de um dia, um dia, um dia?
dos cabelos loiros e dos olhos torcidos,
com a expressão de quem olha o mundo
com nossos próprios olhos, culpáveis e mofinos,
essa cara de renúncia a tudo, que nunca teve a ver
com a energia com que o Mestre se atirou ao mundo,
essa dor viril, que continha em si a alegria
de estar vivo, e vivo partilhar da companhia de tantos irmãos,
de tantas irmãs, de tantos amigos reunidos,
e distribuir seu Amor, e fazê-los voltar ao aprisco,
que é esse rosto, só dele, que não tem igual,
que não se parece com nada nem ninguém,
que é seu rosto único, amoroso, imutável e divino?
“Existem dois estados elevados da prece pura, dos quais
um é dado aos ativos, outro aos contemplativos,
e um nasce do temor a Deus e da boa esperança,
enquanto outro nasce do eros divino e de uma purificação extrema.
quando o intelecto se recolhe para longe
de todos os pensamentos do mundo,
como se o próprio Deus lhe estivesse próximo
– e, de fato, ele está –
ele ora sem se deixar distrair nem perturbar.
no próprio impulso da oração o intelecto é arrebatado
pela luz infinita de Deus, perde toda sensação de si mesmo
e já não percebe mais nenhum outro ser,
senão Aquele único que, por intermédio do amor,
opera nele uma tal iluminação.
Então, levado até as razões de Deus,
ele recebe imagens suas puras e claras[1]”.
2. MARTAS,
MARIAS, MADALENAS
Por aqui passaram Martas,
Marias, Madalenas
e todo tipo de gente, meninas que chegavam de olhos arregalados,
sem saber o que lhes haveria pela frente, e a elas
havia sido contado que havia um Convento, e que doravante
seriam noivas de Cristo, para servi-lo, longe da sociedade dos homens,
e com todo seu impulso e força, e que iriam renunciar à vida
e permanecer firmes nas vigílias, a repetir ladainhas até se lhes gastarem os joelhos,
e que nisso residia a razão
profunda da vida, que era um não-viver,
uma forma descontínua em relação ao mundo, à carne, ao pecado
e tudo o mais que do lado de fora havia, e que somente elas,
de toda a humanidade, se salvariam, por manter intactas suas almas,
castos os corpos, preservado o espírito, ainda que tudo lhes fosse exterior,
imposto, desconfortável, uma mistura de frases feitas e palavras de ordem,
como soldadas de infantaria, marchando em terreno inimigo,
sem que os pudessem ver, apenas pressenti-los, em cada descuido ou vacilo,
e assim seriam elas como as
virgens sábias, aquelas que o azeite não termina,
por não o terem comprado no mercado, mas o conquistado com seu sangue,
seu suor, sua saliva, como se brotasse de dentro, do âmago de suas almas simples,
onde apenas morava a pálida sombra de si mesmas, alimentada por uma chama débil
que era a recusa em estar vivas, em se afastar, o mínimo que fosse,
da possibilidade de uma ideia, de um ato criativo, de uma alegria,
e se tornavam fogos fátuos
de si mesmas, e se alegravam na medida mesma
em que sua pessoa desaparecia, sem se darem conta de que estavam perdendo
o que de mais precioso tinham, o que cada uma delas era,
o rosto de Cristo que as habitava e que nenhuma delas via.
e todo tipo de gente, meninas que chegavam de olhos arregalados,
sem saber o que lhes haveria pela frente, e a elas
havia sido contado que havia um Convento, e que doravante
seriam noivas de Cristo, para servi-lo, longe da sociedade dos homens,
e com todo seu impulso e força, e que iriam renunciar à vida
e permanecer firmes nas vigílias, a repetir ladainhas até se lhes gastarem os joelhos,
uma forma descontínua em relação ao mundo, à carne, ao pecado
e tudo o mais que do lado de fora havia, e que somente elas,
de toda a humanidade, se salvariam, por manter intactas suas almas,
castos os corpos, preservado o espírito, ainda que tudo lhes fosse exterior,
imposto, desconfortável, uma mistura de frases feitas e palavras de ordem,
como soldadas de infantaria, marchando em terreno inimigo,
sem que os pudessem ver, apenas pressenti-los, em cada descuido ou vacilo,
por não o terem comprado no mercado, mas o conquistado com seu sangue,
seu suor, sua saliva, como se brotasse de dentro, do âmago de suas almas simples,
onde apenas morava a pálida sombra de si mesmas, alimentada por uma chama débil
que era a recusa em estar vivas, em se afastar, o mínimo que fosse,
da possibilidade de uma ideia, de um ato criativo, de uma alegria,
em que sua pessoa desaparecia, sem se darem conta de que estavam perdendo
o que de mais precioso tinham, o que cada uma delas era,
o rosto de Cristo que as habitava e que nenhuma delas via.
3. OS
MINÚSCULOS EUZINHOS
Ai, minhas meninas, ai!,
minhas meninas,
com seus euzinhos minúsculos, e tão boazinhas,
que tentam compreender a Deus para controlá-lo,
e colocá-lo numa gaveta, numa caixinha,
e pensam subir aos céus puxando-se pelas tranças,
com suas malas de bonecas e suas lembranças
de um tempo feliz que não volta,
quando não tinham ainda dúvidas e a vida era risonha e franca.
Ai, minhas meninas, que à
noite olham o firmamento,
e nele projetam um Cristo, e acreditam caminhar
em direção a ele, sem saber que o infinito não está avante,
nem em parte alguma, mas dentro,
ai!, minhas meninas, que se
dizem servas de Deus,
e que juraram que nelas se fizesse a Sua Vontade,
mas que refugam em se abandonar e segui-lo, pensando
que perderão até quem são, se cederem o passo
a esse Jesus que com elas caminha, e as convida
a partir o pão, a tomar o vinho, a tomar o atalho
que as poderá levar, não onde pensam ir,
mas onde ele próprio está, em cada uma delas,
e essa seria a única solução possível para a vida
nesse vale de lágrimas, a que chamamos terra.
Ai, minhas meninas, ai!,
minhas meninas,
com seus euzinhos minúsculos, e tão boazinhas,
que tentam compreender a Deus para controlá-lo,
e colocá-lo numa gaveta, numa caixinha,
e pensam subir aos céus puxando-se pelas tranças,
com suas malas de bonecas e suas lembranças
de um tempo feliz que não volta,
quando não tinham ainda dúvidas e a vida era risonha e franca.
com seus euzinhos minúsculos, e tão boazinhas,
que tentam compreender a Deus para controlá-lo,
e colocá-lo numa gaveta, numa caixinha,
e pensam subir aos céus puxando-se pelas tranças,
com suas malas de bonecas e suas lembranças
de um tempo feliz que não volta,
quando não tinham ainda dúvidas e a vida era risonha e franca.
e nele projetam um Cristo, e acreditam caminhar
em direção a ele, sem saber que o infinito não está avante,
nem em parte alguma, mas dentro,
e que juraram que nelas se fizesse a Sua Vontade,
mas que refugam em se abandonar e segui-lo, pensando
que perderão até quem são, se cederem o passo
a esse Jesus que com elas caminha, e as convida
a partir o pão, a tomar o vinho, a tomar o atalho
que as poderá levar, não onde pensam ir,
mas onde ele próprio está, em cada uma delas,
e essa seria a única solução possível para a vida
nesse vale de lágrimas, a que chamamos terra.
com seus euzinhos minúsculos, e tão boazinhas,
que tentam compreender a Deus para controlá-lo,
e colocá-lo numa gaveta, numa caixinha,
e pensam subir aos céus puxando-se pelas tranças,
com suas malas de bonecas e suas lembranças
de um tempo feliz que não volta,
quando não tinham ainda dúvidas e a vida era risonha e franca.
4. PEQUENAS
ILUMINAÇÕES
A Madre Superiora caminha
pelo corredor das celas do Convento,
ouvindo as vidas que se aninham atrás de cada porta,
quando as moças solitárias se retiram aos seus aposentos,
e se ouvem ladainhas, rezas, suspiros, gemidos,
choro e ranger de dentes, e, de quando em vez,
um longo e aprofundado silêncio,
a denotar o mergulho de uma alma no mais fundo de si mesma,
ouvindo as vidas que se aninham atrás de cada porta,
quando as moças solitárias se retiram aos seus aposentos,
e se ouvem ladainhas, rezas, suspiros, gemidos,
choro e ranger de dentes, e, de quando em vez,
um longo e aprofundado silêncio,
a denotar o mergulho de uma alma no mais fundo de si mesma,
ali, onde ela encontra a Cristo, sentado num toco,
apoiado a um mourão de cerca, enxada na mão,
e um raminho de grama mascado, no canto da boca,
e uma mão estendida, a dar a boa vinda à que ali chega,
para dois dedos de prosa, uma lição de vida,
o conhecimento da morte, a ressurreição, a verdade e a via.
as faces afogueadas, o rosto em chamas,
e Egípcia saberá que ela teve a experiência inesquecível,
a experiência de Deus, que torna desnecessária a fé, porque é,
a fé que substitui toda ciência que existe,
que dá a certeza de que, sim, há um propósito na natureza humana,
e que esse propósito, se lhe quisermos dar um nome,
se chama Amor, e é ele o próprio Cristo.
5. CORAÇÕES
DE MOÇAS
Maria do Egito olhava
deitada as vigas do teto da cela,
no quarto escuro, que apenas permitia divisar suas linhas retas,
meio tortas aos seus olhos cansados, agora que podia se deitar,
recitadas as orações do fim do dia, em que mais uma vez
pedia a Deus por suas
meninas, tão perdidas no turbilhão da vida,
a colecionar instantes de fé e verdadeira devoção,
que às vezes lhe traziam nas mãos em concha,
"veja, Madre, como é bonita essa emoção", e buscavam
nas nuvens do céu as formas de algum anjo
que as levasse além, muito
além, onde nem sabiam,
e logo voltavam à azáfama do dia, e esqueciam,
como Marta, que não estava ali o principal
(a menos das negras da cozinha, que sabiam extrair Jesus
até das cascas das batatas preparadas para a refeição),
Maria do Egito pensava
naquelas moças, vindas de tão longe,
tão humildes, que nunca conheceram verdadeiro amor,
e que se atiravam ao Convento como a um porto,
onde santos marinheiros deixavam o sal de suas sandálias
nas pedras gastas das orações repisadas e repetidas,
e assim viviam elas, muito
embora ela lhes falasse todo dia,
"busquem o essencial e o mais lhes será acrescentado,
busquem no interior o que
não é visível aos olhos,
nem audível aos ouvidos, busquem
o que não pode ser pronunciado, ainda que seja o Nome por excelência",
e assim, de vez em quando,
muito de quando em vez,
uma delas lhe aparecia, com olhos tímidos e jeito encabulado,
como se houvera pecado, como feito alguma besteira,
e lhe mostrava as mãos em concha, e dentro dele
pulsava um coração, com perfume de essência e especiarias,
e lhe perguntava, "é
isso, Madre, o que buscamos toda a vida?",
e então seus olhos se enchiam de lágrimas, e naquela noite
as vigas do teto pareceriam mais firmes e retas,
e ela adormeceria com uma oração nos lábios,
e, daquele momento, sempre haverá de lembrar,
e de o levar consigo, e à irmãzinha, que dormiria em sua cela,
um olho no sonho, outro acordado, e que amanhã veria a luz do novo dia,
mas de um modo outro, como nunca antes havia pensado. (20-12-24)
“É Cristo quem, para você,
se tornará tudo, tomará o lugar de tudo.
Cristo: diante desta palavra, não preste atenção
à simplicidade da linguagem, nem à brevidade da expressão,
mas reflita comigo sobre a glória da divindade que ultrapassa
a inteligência e o raciocínio, sobre Seu poder indizível,
Sua misericórdia sem limites, Sua riqueza incompreensível;
tudo isso Ele lhe dará com liberdade e munificência,
e tomará o lugar de tudo, porque é Ele próprio que você receberá em si,
Ele, a causa e o dispensador de todo bem.
Sim, não existe outro desejo para aquele
que for considerado digno de vê-lo e contemplá-lo[2]”.
no quarto escuro, que apenas permitia divisar suas linhas retas,
meio tortas aos seus olhos cansados, agora que podia se deitar,
recitadas as orações do fim do dia, em que mais uma vez
a colecionar instantes de fé e verdadeira devoção,
que às vezes lhe traziam nas mãos em concha,
"veja, Madre, como é bonita essa emoção", e buscavam
nas nuvens do céu as formas de algum anjo
e logo voltavam à azáfama do dia, e esqueciam,
como Marta, que não estava ali o principal
(a menos das negras da cozinha, que sabiam extrair Jesus
até das cascas das batatas preparadas para a refeição),
tão humildes, que nunca conheceram verdadeiro amor,
e que se atiravam ao Convento como a um porto,
onde santos marinheiros deixavam o sal de suas sandálias
nas pedras gastas das orações repisadas e repetidas,
"busquem o essencial e o mais lhes será acrescentado,
nem audível aos ouvidos, busquem
o que não pode ser pronunciado, ainda que seja o Nome por excelência",
uma delas lhe aparecia, com olhos tímidos e jeito encabulado,
como se houvera pecado, como feito alguma besteira,
e lhe mostrava as mãos em concha, e dentro dele
pulsava um coração, com perfume de essência e especiarias,
e então seus olhos se enchiam de lágrimas, e naquela noite
as vigas do teto pareceriam mais firmes e retas,
e ela adormeceria com uma oração nos lábios,
e, daquele momento, sempre haverá de lembrar,
e de o levar consigo, e à irmãzinha, que dormiria em sua cela,
um olho no sonho, outro acordado, e que amanhã veria a luz do novo dia,
mas de um modo outro, como nunca antes havia pensado. (20-12-24)
Cristo: diante desta palavra, não preste atenção
à simplicidade da linguagem, nem à brevidade da expressão,
mas reflita comigo sobre a glória da divindade que ultrapassa
a inteligência e o raciocínio, sobre Seu poder indizível,
Sua misericórdia sem limites, Sua riqueza incompreensível;
tudo isso Ele lhe dará com liberdade e munificência,
e tomará o lugar de tudo, porque é Ele próprio que você receberá em si,
Ele, a causa e o dispensador de todo bem.
Sim, não existe outro desejo para aquele
que for considerado digno de vê-lo e contemplá-lo[2]”.
6. TENTO
DESPIR TEU ALTAR
Tento despir Teu altar,
Senhor,
de todo o ouro e o pó acumulados
por séculos e séculos afora,
para adorar-Te nu, aí onde estás,
nessa Cruz, onde pousam
os passarinhos das nossas orações,
que trazem no bico ramos de oliveira,
galhinhos retorcidos que nossas lágrimas molharam,
muito antes de que fosses
feito rei, antes ainda
de que Te elevassem os homens
às alturas inatingíveis dos deuses impossíveis,
Tu, homem aí pregado, Deus de andrajos,
sem as vestes reais que Te
impuseram,
sem o cetro, o cortejo, a guarda pretoriana,
um Deus e seu burrico, a trotar pelas ruas,
a nos carregar consigo na boleia,
um Deus que chorou por seu
amigo morto,
que chamou para si as meninas e os meninos,
mas não os sábios, não os doutores, não os juízes
com suas sentenças ferinas, não os cálculos
da circunferência exata das
esferas celestes,
do quadrado do raio do círculo dos anjos,
mas o olhar a criação, e através dela sentir
o perfume do Criador, o rastro deixado por Ele,
quando, naquele dia, chamou
por Eva e Adão
no Paraíso, e, não os encontrando, moldou
um novo jardim, a ser cultivado com o suor do rosto
e uma nova geração a nascer em dores de parto,
e uma longa estrada de
retorno ao lar,
de pés descalços, deixando para trás
os tesouros aqui da terra acumulados
por toda uma civilização e uma humanidade
perdidas para a eternidade,
e votadas à morte,
quem sabe, uma civilização tresloucada
que erigiu esses altares, justamente esses altares
que tento despir de seus ouros e manjares,
para recolher as migalhas
que caem da mesa
e com elas nutrir as preces que lanço aos ares
como aqueles passarinhos, doces pássaros,
com seus raminhos no bico, e na cruz pousados. (9-3-25)
de todo o ouro e o pó acumulados
por séculos e séculos afora,
para adorar-Te nu, aí onde estás,
os passarinhos das nossas orações,
que trazem no bico ramos de oliveira,
galhinhos retorcidos que nossas lágrimas molharam,
de que Te elevassem os homens
às alturas inatingíveis dos deuses impossíveis,
Tu, homem aí pregado, Deus de andrajos,
sem o cetro, o cortejo, a guarda pretoriana,
um Deus e seu burrico, a trotar pelas ruas,
a nos carregar consigo na boleia,
que chamou para si as meninas e os meninos,
mas não os sábios, não os doutores, não os juízes
com suas sentenças ferinas, não os cálculos
do quadrado do raio do círculo dos anjos,
mas o olhar a criação, e através dela sentir
o perfume do Criador, o rastro deixado por Ele,
no Paraíso, e, não os encontrando, moldou
um novo jardim, a ser cultivado com o suor do rosto
e uma nova geração a nascer em dores de parto,
de pés descalços, deixando para trás
os tesouros aqui da terra acumulados
por toda uma civilização e uma humanidade
quem sabe, uma civilização tresloucada
que erigiu esses altares, justamente esses altares
que tento despir de seus ouros e manjares,
e com elas nutrir as preces que lanço aos ares
como aqueles passarinhos, doces pássaros,
com seus raminhos no bico, e na cruz pousados. (9-3-25)
7. OS
AFAZERES
Maria do Egito atribuiu a
cada Irmãzinha do Convento
uma tarefa específica no cuidado do edifício, fosse
varrer o chão, polir as estátuas de santos, lavar os vidros,
tirar as teias de aranha, o pó dos interstícios,
deixando a todas ocupadas todo o tempo em que não estavam
em suas orações, ou nos ofícios, para não dar tempo
a que cabeças vazias viajassem por lugares interditos,
e que, por outro lado,
pudesse ela, Madre Superiora,
correr às escondidas à horta, ao pomar, ao aprisco,
e ali, a braços com Fatumata, pudessem as duas,
entre conversas, risadas e a oração a Cristo,
se encarregar da manutenção do Convento, suando
sob o sol quente do solstício, gelando ao frio do inverno,
e deleitando-se com os pequenos milagres de cada dia,
o crescimento das plantas, a
doçura dos carneirinhos,
o bom humor dos porcos, o pio alegre dos passarinhos,
e ali Maria podia arregaçar as mangas, levantar o hábito
até os joelhos, sentir o chão, o barro por entre os dedos,
sujar de terra as unhas roídas, sentir as gotas salgadas
do suor bem-vindo, lamber os beiços do suco sumarento
de alguma fruta furtada do cestinho, e rir-se de si mesma,
e se deixar levar pela
leveza com que encontrava Cristo
em cada coisa, em cada batata tirada da terra, em cada bichinho
e até no sol que lhe dourava os braços morenos de mestiça,
que ela, com orgulho inocente, exibia, ao lado dos braços
de ébano de sua amiga Fatumata, a quem tanto admirava
e a quem, soubesse-o ou não, tanto devia. (5-8-25)
E ali, entre couves,
pimentas, rabanetes e cebolinhas,
Maria sentia-se preenchida de um Amor tão grande
por toda a humanidade, esse Amor de Cristo,
conforme está escrito, “Pai, eu não te peço só por estes,
mas também por aqueles que
vão acreditar em mim
por causa da palavra deles, para que todos sejam um,
como tu, Pai, estás em mim e eu em ti.
E para que também eles estejam em nós,
a fim de que o mundo acredite que tu me enviaste.
Eu mesmo dei a eles a glória
que tu me deste,
para que eles sejam um, como nós somos um.
Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos
na unidade, e para que o mundo reconheça
que tu me enviaste e que os amaste, como amaste a mim.
Pai, aqueles que tu me
deste, eu quero que eles estejam
comigo onde eu estiver, para que eles contemplem
a minha glória que tu me deste, pois me amaste
antes da criação do mundo. Pai justo, o mundo não te reconheceu,
mas eu te reconheci. Estes também reconheceram
que tu me enviaste. E eu tornei o teu nome
conhecido para eles. E continuarei a torná-lo conhecido,
para que o amor com que me amaste
esteja neles, e eu mesmo esteja neles.[3]”
uma tarefa específica no cuidado do edifício, fosse
varrer o chão, polir as estátuas de santos, lavar os vidros,
tirar as teias de aranha, o pó dos interstícios,
deixando a todas ocupadas todo o tempo em que não estavam
em suas orações, ou nos ofícios, para não dar tempo
a que cabeças vazias viajassem por lugares interditos,
correr às escondidas à horta, ao pomar, ao aprisco,
e ali, a braços com Fatumata, pudessem as duas,
entre conversas, risadas e a oração a Cristo,
se encarregar da manutenção do Convento, suando
sob o sol quente do solstício, gelando ao frio do inverno,
e deleitando-se com os pequenos milagres de cada dia,
o bom humor dos porcos, o pio alegre dos passarinhos,
e ali Maria podia arregaçar as mangas, levantar o hábito
até os joelhos, sentir o chão, o barro por entre os dedos,
sujar de terra as unhas roídas, sentir as gotas salgadas
do suor bem-vindo, lamber os beiços do suco sumarento
de alguma fruta furtada do cestinho, e rir-se de si mesma,
em cada coisa, em cada batata tirada da terra, em cada bichinho
e até no sol que lhe dourava os braços morenos de mestiça,
que ela, com orgulho inocente, exibia, ao lado dos braços
de ébano de sua amiga Fatumata, a quem tanto admirava
e a quem, soubesse-o ou não, tanto devia. (5-8-25)
Maria sentia-se preenchida de um Amor tão grande
por toda a humanidade, esse Amor de Cristo,
conforme está escrito, “Pai, eu não te peço só por estes,
por causa da palavra deles, para que todos sejam um,
como tu, Pai, estás em mim e eu em ti.
E para que também eles estejam em nós,
a fim de que o mundo acredite que tu me enviaste.
para que eles sejam um, como nós somos um.
Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos
na unidade, e para que o mundo reconheça
que tu me enviaste e que os amaste, como amaste a mim.
comigo onde eu estiver, para que eles contemplem
a minha glória que tu me deste, pois me amaste
antes da criação do mundo. Pai justo, o mundo não te reconheceu,
mas eu te reconheci. Estes também reconheceram
que tu me enviaste. E eu tornei o teu nome
conhecido para eles. E continuarei a torná-lo conhecido,
para que o amor com que me amaste
esteja neles, e eu mesmo esteja neles.[3]”
[1]
São Máximo o Confessor, Segunda Centúria sobre o Amor, 6, Filocalia dos
Padres Népticos, Tomo 1, Volume 3.
[2]
São Simeão o Novo Teólogo, A Prece Mística, Catequese 2.
[3] João 17: 20-25.
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