6. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 1: O CONVENTO - 1.3. REFLEXÕES
I.3 REFLEXÕES
Onde vemos que Maria do Egito, inspirada pela nova visão dos
ensinamentos de Cristo, desenvolve uma visão crítica da história e percebe que o
próprio Cristianismo envolve aspectos muito mais profundos do que jamais
imaginara.
1. O
SONHO
E Egípcia despertou de um pesadelo,
e saiu para caminhar nas aforas do Convento,
enquanto pensava no descalabro que é a raça humana,
e ela estava envolta na inocência de uma natureza exuberante,
onde as luzes e cores anunciavam a todo tempo
a assinatura do poeta amoroso que as compôs,
mas as imagens que lhe vinham à mente naquele instante
anunciavam o caos de algum apocalipse,
no qual via as nações em guerra, combatendo todas pelo mesmo Deus,
um Deus que, na verdade, não estava em causa,
mas ao redor do qual, contra tudo o que dissera,
armaram-se as civilizações, ergueram-se reinados, e,
rei contra rei, papa contra papa, bispado contra bispado,
banharam a terra em sangue, com a promessa repetida
de, cada qual, levar seu próprio povo à verdade,
enquanto tudo o que os demais dissessem era falso,
e a doutrina de Amor, que cada qual deveria cultivar em seu terraço,
tornou-se palavra perdida, sem valor,
nas bocas desavergonhadas de padres, pastores, professores,
guias da humanidade e de todo tipo de ilusionista e prestidigitador,
enquanto o povo, na sua ilusão, no terror dessa vida sem sentido,
aferrava-se a qualquer coisa, sem medir meio nem sacrifício,
e assim meteu-se o homem numa saga absurda,
a construir pontes sem rumo nem destino,
castelos, palácios, de suntuosidade desmedida,
ao mesmo tempo em que acalentavam com palavras
os sonhos daqueles que buscavam uma saída,
qualquer saída para suas fraquezas, qualquer saída para a insegurança,
qualquer saída que lhes trouxesse uma esperança
de não serem mais do que terra e água, e um sopro
de um Espírito desconhecido, que ninguém entende, nem alcança.
e saiu para caminhar nas aforas do Convento,
enquanto pensava no descalabro que é a raça humana,
e ela estava envolta na inocência de uma natureza exuberante,
onde as luzes e cores anunciavam a todo tempo
a assinatura do poeta amoroso que as compôs,
mas as imagens que lhe vinham à mente naquele instante
anunciavam o caos de algum apocalipse,
no qual via as nações em guerra, combatendo todas pelo mesmo Deus,
um Deus que, na verdade, não estava em causa,
mas ao redor do qual, contra tudo o que dissera,
armaram-se as civilizações, ergueram-se reinados, e,
rei contra rei, papa contra papa, bispado contra bispado,
banharam a terra em sangue, com a promessa repetida
de, cada qual, levar seu próprio povo à verdade,
enquanto tudo o que os demais dissessem era falso,
e a doutrina de Amor, que cada qual deveria cultivar em seu terraço,
tornou-se palavra perdida, sem valor,
nas bocas desavergonhadas de padres, pastores, professores,
guias da humanidade e de todo tipo de ilusionista e prestidigitador,
enquanto o povo, na sua ilusão, no terror dessa vida sem sentido,
aferrava-se a qualquer coisa, sem medir meio nem sacrifício,
e assim meteu-se o homem numa saga absurda,
a construir pontes sem rumo nem destino,
castelos, palácios, de suntuosidade desmedida,
ao mesmo tempo em que acalentavam com palavras
os sonhos daqueles que buscavam uma saída,
qualquer saída para suas fraquezas, qualquer saída para a insegurança,
qualquer saída que lhes trouxesse uma esperança
de não serem mais do que terra e água, e um sopro
de um Espírito desconhecido, que ninguém entende, nem alcança.
2. OS
SOLDADOS
Maria pensava nas frases grandiloquentes
que sustentavam os grandes homens, indiferentes
à sorte daqueles que enviavam às frentes de guerra,
enquanto eles próprios se banqueteavam, satisfeitos
por estarem aos domingos na igreja, a flexionar joelhos
em atitudes calculadas de falsa piedade, mas, oh!,
quantos soldados não se persignaram, antes de degolar os inimigos,
quantos joelhos não se dobraram por terra após massacrar
crianças, mulheres, velhos, cativos,
quantos generais não se prostraram, rostos contritos,
após patrocinarem banhos de sangue e de martírio,
quantos de nós não o faríamos, julgando-nos em pleno direito, e,
em nome desse Deus esquisito, sentindo-nos justificados
por espalharmos sobre a humanidade as sementes medonhas de tanto morticínio?,
pois Deus se tornou um gatilho, que, nas mãos dos homens,
torna tudo válido, mesmo os maiores desatinos,
e em seu nome cometemos todos os pecados, os crimes,
e algumas modalidades ainda não inventadas, mas que surgirão,
surgirão sim, isso eu o afirmo.
E todo o mistério do universo, suas grandeza e beleza infinitas,
tudo é reduzido a um conjunto aleatório de regras,
estabelecidas ao arbítrio desse ou daquele,
ao sabor de seus gostos e vícios,
e assim se desenha um céu, com suas maravilhas,
suas recompensas, o pagamento pelas penas
que nos infligimos mutuamente,
causando umas, sofrendo outras, mas sempre triunfantes,
porque nós mesmos estabelecemos as regras do certame,
e, por mais que estejamos errados,
sempre poderemos alterá-las, em nosso benefício, mais à frente.
que sustentavam os grandes homens, indiferentes
à sorte daqueles que enviavam às frentes de guerra,
enquanto eles próprios se banqueteavam, satisfeitos
por estarem aos domingos na igreja, a flexionar joelhos
em atitudes calculadas de falsa piedade, mas, oh!,
quantos soldados não se persignaram, antes de degolar os inimigos,
quantos joelhos não se dobraram por terra após massacrar
crianças, mulheres, velhos, cativos,
quantos generais não se prostraram, rostos contritos,
após patrocinarem banhos de sangue e de martírio,
quantos de nós não o faríamos, julgando-nos em pleno direito, e,
em nome desse Deus esquisito, sentindo-nos justificados
por espalharmos sobre a humanidade as sementes medonhas de tanto morticínio?,
pois Deus se tornou um gatilho, que, nas mãos dos homens,
torna tudo válido, mesmo os maiores desatinos,
e em seu nome cometemos todos os pecados, os crimes,
e algumas modalidades ainda não inventadas, mas que surgirão,
surgirão sim, isso eu o afirmo.
E todo o mistério do universo, suas grandeza e beleza infinitas,
tudo é reduzido a um conjunto aleatório de regras,
estabelecidas ao arbítrio desse ou daquele,
ao sabor de seus gostos e vícios,
e assim se desenha um céu, com suas maravilhas,
suas recompensas, o pagamento pelas penas
que nos infligimos mutuamente,
causando umas, sofrendo outras, mas sempre triunfantes,
porque nós mesmos estabelecemos as regras do certame,
e, por mais que estejamos errados,
sempre poderemos alterá-las, em nosso benefício, mais à frente.
3. SEMPRE
O ROSTO DE CRISTO
De volta ao Convento, Maria entrou pela cozinha,
como fazia quase sempre, fora da vista das Irmãs,
que levavam suas vidas contemplativas entre orações e bordados,
na silenciosa calma de seus quartos, e prostrou-se
diante do grande crucifixo, pendente do teto,
e descobriu o rosto, retirando a carapuça,
e sentiu-se mais arejada, e, erguendo os olhos,
mirou diretamente os olhos de Cristo, dizendo
para si mesma, como se orasse naquele momento,
“Olho para Teu rosto, Cristo, e o que vejo,
senão meu próprio rosto refletido,
essa face minha, Maria do Egito, mutante e caleidoscópica, alterando-se
ao sabor de cada emoção que passa, de cada sensação fugidia,
de cada saudade que fica, de cada plano futuro,
ao sabor de um olhar que recebo, um tom de voz, uma reprimenda,
um abraço, um beijo?, um desejo, um medo,
e quem sou eu?, certamente não ele, nem eu mesmo,
sou só a massa que suporta um eu que passa o tempo inteiro,
e que, como o chinês que equilibra os pratinhos no circo,
tenta mantê-los todos no ar, enquanto corre de um lado para outro
com sua casaca extravagante e sua habilidade nos dedos.
E olho para Teu rosto, oh!, Cristo, e ele está vazio,
não de Cristo, mas de mim mesmo,
porque Teu rosto sempre esteve lá, constante, imutável, elegante,
brilhando ali aquele amor impassível, que nada mudava,
estivesses Tu triste ou alegre, severo, compassivo,
ou sofrendo as dores de parir uma humanidade nova,
pendurado sobre e cruz e perdoando seus inimigos,
esse amor no olhar, que os homens não conhecem
e confundem com o amor-para-comigo,
quando não é nada disso,
o teu amor, meu Cristo, é indirigido,
é um amor completo,
sem objeto definido, és Tu o próprio amor,
‘Deus é Amor’, como disse João,
e nós ficamos sem entender nada daquilo.
Por isso olho Teu rosto, oh!, Cristo, do qual
eu deveria ser a imagem, mas qual o quê!,
sou apenas o esboço malfeito, borrado e impreciso,
como num lago agitado se reflete a lua, sem que possamos
lhe captar a forma, mas apenas um pouco, bem pouco!, do seu brilho.
Por isso peço a Ti, Cristo, que me conceda,
não o que para mim eu imagino, mas algo
que não tenho como comprar no mercado,
esse azeite divino, que não se apaga na lamparina,
que levavam as virgens prudentes na grande noite da vigília,
esse azeite, que é o puro amor, esse amor infinito,
que é a única coisa capaz de nos aproximar de Ti, oh!, Cristo,
ainda que nunca Te alcancemos, porque és Deus,
e não passemos de meninas e meninos,
mas porque tampouco existe outro meio, outro modo,
outra solução que não seja por esse Caminho.” (17-10-24)
como fazia quase sempre, fora da vista das Irmãs,
que levavam suas vidas contemplativas entre orações e bordados,
na silenciosa calma de seus quartos, e prostrou-se
diante do grande crucifixo, pendente do teto,
e descobriu o rosto, retirando a carapuça,
e sentiu-se mais arejada, e, erguendo os olhos,
mirou diretamente os olhos de Cristo, dizendo
para si mesma, como se orasse naquele momento,
“Olho para Teu rosto, Cristo, e o que vejo,
senão meu próprio rosto refletido,
essa face minha, Maria do Egito, mutante e caleidoscópica, alterando-se
ao sabor de cada emoção que passa, de cada sensação fugidia,
de cada saudade que fica, de cada plano futuro,
ao sabor de um olhar que recebo, um tom de voz, uma reprimenda,
um abraço, um beijo?, um desejo, um medo,
e quem sou eu?, certamente não ele, nem eu mesmo,
sou só a massa que suporta um eu que passa o tempo inteiro,
e que, como o chinês que equilibra os pratinhos no circo,
tenta mantê-los todos no ar, enquanto corre de um lado para outro
com sua casaca extravagante e sua habilidade nos dedos.
E olho para Teu rosto, oh!, Cristo, e ele está vazio,
não de Cristo, mas de mim mesmo,
porque Teu rosto sempre esteve lá, constante, imutável, elegante,
brilhando ali aquele amor impassível, que nada mudava,
estivesses Tu triste ou alegre, severo, compassivo,
ou sofrendo as dores de parir uma humanidade nova,
pendurado sobre e cruz e perdoando seus inimigos,
esse amor no olhar, que os homens não conhecem
e confundem com o amor-para-comigo,
quando não é nada disso,
o teu amor, meu Cristo, é indirigido,
é um amor completo,
sem objeto definido, és Tu o próprio amor,
‘Deus é Amor’, como disse João,
e nós ficamos sem entender nada daquilo.
Por isso olho Teu rosto, oh!, Cristo, do qual
eu deveria ser a imagem, mas qual o quê!,
sou apenas o esboço malfeito, borrado e impreciso,
como num lago agitado se reflete a lua, sem que possamos
lhe captar a forma, mas apenas um pouco, bem pouco!, do seu brilho.
Por isso peço a Ti, Cristo, que me conceda,
não o que para mim eu imagino, mas algo
que não tenho como comprar no mercado,
esse azeite divino, que não se apaga na lamparina,
que levavam as virgens prudentes na grande noite da vigília,
esse azeite, que é o puro amor, esse amor infinito,
que é a única coisa capaz de nos aproximar de Ti, oh!, Cristo,
ainda que nunca Te alcancemos, porque és Deus,
e não passemos de meninas e meninos,
mas porque tampouco existe outro meio, outro modo,
outra solução que não seja por esse Caminho.” (17-10-24)
4.
MANIAS
Se dependesse da Madre Superiora,
não haveria sequer uma representação de Cristo
por todo o Convento, com a exceção dos dois crucifixos,
o de gesso, da Capela, branco e louro,
e o negro da cozinha, dramático e misterioso,
e todos os demais quadrinhos, a mostrar um homem
com modos e feições de bom mocinho,
a Madre os teria guardado, pois eles ilustram o que Jesus não foi,
ou seja, um homem como qualquer outro, só que Deus,
e que cada artista imaginou com sua própria cara,
olhando-se (ela apostava nisso) vaidosamente no espelho.
A Madre imaginava um Cristo sem rosto, luz de luz,
Deus verdadeiro de Deus verdadeiro,
gerado, não criado, consubstancial ao Pai,
por quem tudo foi feito - mas, então,
como representá-lo?, como um de nós, seres decaídos e imperfeitos?,
como imaginar o inimaginável, conceber o inconcebível,
se a mente é incapaz de compreendê-lo,
e somente no coração é possível abrigá-lo, senti-lo, ouvi-lo e vê-lo?
Caminhando pelos corredores, ela cumprimentava cada retratinho com um aceno,
mas só se detinha no Cristo do altar, por uma questão de respeito
(embora não concordasse com a pele alva, os olhos vidrados
e a cabeleira que lhe escorria sobre os ombros e o peito),
e, após fazer suas orações ali, dirigia-se escondida até a cozinha,
onde, sozinha, passava horas a conversar,
sem que ninguém soubesse, com seu querido e negro Cristo.
não haveria sequer uma representação de Cristo
por todo o Convento, com a exceção dos dois crucifixos,
o de gesso, da Capela, branco e louro,
e o negro da cozinha, dramático e misterioso,
e todos os demais quadrinhos, a mostrar um homem
com modos e feições de bom mocinho,
a Madre os teria guardado, pois eles ilustram o que Jesus não foi,
ou seja, um homem como qualquer outro, só que Deus,
e que cada artista imaginou com sua própria cara,
olhando-se (ela apostava nisso) vaidosamente no espelho.
A Madre imaginava um Cristo sem rosto, luz de luz,
Deus verdadeiro de Deus verdadeiro,
gerado, não criado, consubstancial ao Pai,
por quem tudo foi feito - mas, então,
como representá-lo?, como um de nós, seres decaídos e imperfeitos?,
como imaginar o inimaginável, conceber o inconcebível,
se a mente é incapaz de compreendê-lo,
e somente no coração é possível abrigá-lo, senti-lo, ouvi-lo e vê-lo?
Caminhando pelos corredores, ela cumprimentava cada retratinho com um aceno,
mas só se detinha no Cristo do altar, por uma questão de respeito
(embora não concordasse com a pele alva, os olhos vidrados
e a cabeleira que lhe escorria sobre os ombros e o peito),
e, após fazer suas orações ali, dirigia-se escondida até a cozinha,
onde, sozinha, passava horas a conversar,
sem que ninguém soubesse, com seu querido e negro Cristo.
5. O
CRISTIANISMO
Na sua concepção de Cristianismo, Egípcia coloca
no princípio de tudo, Cristo, depois os apóstolos,
depois os discípulos, depois meia dúzia de famílias,
e as comunidades, e os concílios, a primeira Igreja, em Antioquia,
e depois Jerusalém, Alexandria, Constantinopla e Roma,
uma Igreja que se expandia em sínodos,
batendo-se contra renovadas heresias,
dando nascimento à segunda Igreja, à terceira, à quarta, à quinta,
crescendo em cânones, em teólogos, ensinamentos,
patrística e patrologia, em bibliotecas incalculáveis,
em ritos mais e mais complicados,
e depois em cismas, separando-se logo o Ocidente, e em seguida
subdividindo-se esse ao sabor das opiniões de uns e outros,
pulverizando a doutrina, e tudo isso ao longo de milênios,
em negociatas com o poder de reis, imperadores, cônsules e rainhas,
ao calor das fogueiras, das guerras e dos armistícios,
formando uma maçaroca indescritível,
a que se deu o nome de Cristianismo,
enquanto Cristo, acuado e abandonado em seu aprisco vazio,
é constrangido a se calar, com o risco de não ser ouvido, e,
quando escutado, ser mal compreendido,
e quando entendido, mal interpretado,
e quando interpretado impõe-se de imediato o desastre,
que resulta em que o único vencedor é o inimigo.
*
E quem haverá com coragem para perfurar essa crosta,
e atravessar as camadas superpostas de intrigas,
desentendimentos, verdades absolutas,
mentiras simples, outras refinadas, jogos de poder,
imposição de posturas, promessas de vida eterna,
descrições fantasiosas do diabo, do paraíso, do Reino,
do Santo Espírito, e do próprio Cristo, que já foi branco,
preto, ruivo, moreno, amarelo, azul, verde, arroxeado,
e, de qualquer forma, magro, para ser na cruz pregado,
e que não quis dizer nada daquilo, e a quem pouco importava
se se sentasse com prostitutas, paralíticos, ladrões, cegos, doidos convictos,
e leprosos, e não que tivesse por eles qualquer preferência mórbida, não,
eram apenas pessoas, como os soldados que ele perdoou
no último grito, já na cruz, abandonando o corpo para resgatá-lo
mais adiante, antes que se evanescesse seu último suspiro,
esse Jesus, que vamos encontrar sentado ali, ao pé de um pé de oliva,
pensativo, aguardando nossa chegada,
para que, sujos da poeira de tantos pergaminhos, lhe demos aquele abraço,
pedindo perdão pela demora,
porque custamos tanto a compreender que tudo o que ele queria de nós
era que o víssemos, tal como ele é,
Deus, homem, junto e misturado, como nós próprios,
que tampouco nos reconhecemos fora da carapaça macia de nossas máscaras,
e que, só por isso, por colocarmos um "eu", deslocado e sem sentido
antes de tudo, nos perdemos no caminho,
nos embaraçamos em qualquer armadilha,
e desperdiçamos nossas vidas a esperar que aquele velho eu,
que o vento leva, nos conduza através do deserto,
mas ele não fará nunca isso,
porque é poeira, e em poeira ele nos dispersa,
porque nos é indiferente, embora diga o contrário,
porque ele próprio é pó da terra,
e no próprio pó que ele é, ali mesmo ele nos enterra.
no princípio de tudo, Cristo, depois os apóstolos,
depois os discípulos, depois meia dúzia de famílias,
e as comunidades, e os concílios, a primeira Igreja, em Antioquia,
e depois Jerusalém, Alexandria, Constantinopla e Roma,
uma Igreja que se expandia em sínodos,
batendo-se contra renovadas heresias,
dando nascimento à segunda Igreja, à terceira, à quarta, à quinta,
crescendo em cânones, em teólogos, ensinamentos,
patrística e patrologia, em bibliotecas incalculáveis,
em ritos mais e mais complicados,
e depois em cismas, separando-se logo o Ocidente, e em seguida
subdividindo-se esse ao sabor das opiniões de uns e outros,
pulverizando a doutrina, e tudo isso ao longo de milênios,
em negociatas com o poder de reis, imperadores, cônsules e rainhas,
ao calor das fogueiras, das guerras e dos armistícios,
formando uma maçaroca indescritível,
a que se deu o nome de Cristianismo,
enquanto Cristo, acuado e abandonado em seu aprisco vazio,
é constrangido a se calar, com o risco de não ser ouvido, e,
quando escutado, ser mal compreendido,
e quando entendido, mal interpretado,
e quando interpretado impõe-se de imediato o desastre,
que resulta em que o único vencedor é o inimigo.
*
E quem haverá com coragem para perfurar essa crosta,
e atravessar as camadas superpostas de intrigas,
desentendimentos, verdades absolutas,
mentiras simples, outras refinadas, jogos de poder,
imposição de posturas, promessas de vida eterna,
descrições fantasiosas do diabo, do paraíso, do Reino,
do Santo Espírito, e do próprio Cristo, que já foi branco,
preto, ruivo, moreno, amarelo, azul, verde, arroxeado,
e, de qualquer forma, magro, para ser na cruz pregado,
e que não quis dizer nada daquilo, e a quem pouco importava
se se sentasse com prostitutas, paralíticos, ladrões, cegos, doidos convictos,
e leprosos, e não que tivesse por eles qualquer preferência mórbida, não,
eram apenas pessoas, como os soldados que ele perdoou
no último grito, já na cruz, abandonando o corpo para resgatá-lo
mais adiante, antes que se evanescesse seu último suspiro,
esse Jesus, que vamos encontrar sentado ali, ao pé de um pé de oliva,
pensativo, aguardando nossa chegada,
para que, sujos da poeira de tantos pergaminhos, lhe demos aquele abraço,
pedindo perdão pela demora,
porque custamos tanto a compreender que tudo o que ele queria de nós
era que o víssemos, tal como ele é,
Deus, homem, junto e misturado, como nós próprios,
que tampouco nos reconhecemos fora da carapaça macia de nossas máscaras,
e que, só por isso, por colocarmos um "eu", deslocado e sem sentido
antes de tudo, nos perdemos no caminho,
nos embaraçamos em qualquer armadilha,
e desperdiçamos nossas vidas a esperar que aquele velho eu,
que o vento leva, nos conduza através do deserto,
mas ele não fará nunca isso,
porque é poeira, e em poeira ele nos dispersa,
porque nos é indiferente, embora diga o contrário,
porque ele próprio é pó da terra,
e no próprio pó que ele é, ali mesmo ele nos enterra.
6.
VIDA
APÓS A MORTE
Há muito que a Madre Superiora, Maria do Egito,
deixou de se preocupar com o post-mortem,
com as penas e recompensas, com o inferno,
o purgatório (seja lá o que for isso) e o paraíso,
com o Reino e o dia do Juízo,
e ela passou a se fixar tão somente em Cristo,
seu Amor, seu sacrifício enquanto Deus e homem vivo,
enquanto protótipo para nossas vidas,
enquanto o modelo oculto do novo homem
que trazemos, cada qual, no peito, escondido.
Todas aquelas coisas, ah!, questões de quem não vive com afinco,
de quem passa o tempo a julgar, a si próprio e a tudo ao redor,
de quem se imagina dono de seu destino, de quem pensa
ser capaz de forjar sequer seu próximo passo sem a intervenção do divino,
seja essa visível ou não, sensível ou não, ou seja ela apenas
como as coisas que acontecem sem que pareçam ter qualquer sentido
além de serem o que são, como se fossem banais, corriqueiras,
sem nenhum propósito ou objetivo conhecido – mas não,
nada existe no mundo que aconteça, como os dois pardais na feira,
como cada cabelo de nossas cabeças, sem que ali esteja o Espírito,
sem que um sopro do mais alto intervenha, como que por acaso,
como se nessa fogueira ninguém precisasse colocar mais lenha,
porque ela queima indefinidamente, e cada fagulha, cada faísca
nasce, se lança e morre e se eterniza, naquele momento.
*
Estamos, a cada momento, nessa terra e no Paraíso,
estamos no Reino, no inferno, onde quisermos, pois somos humanos,
e assim nos fez Cristo, como ele próprio, antes de que houvesse o tempo,
antes de que houvesse o mundo, quando o criado era ainda um porvir imenso,
e já dormíamos em seu seio, e já éramos à sua imagem, à semelhança
de seus herdeiros, nós, os homens, que caímos mas permanecemos inteiros,
nós, os vasos de barro e seu conteúdo precioso, nós, que o crucificamos
e descemos em pranto do Calvário, lamentando a perda daquele Deus,
que nos amou primeiro, que nos amou até o fim, que nos amou
como se merecêssemos, que nos amou, enfim, para que crescêssemos,
e o amássemos, e de nossas vidas fizéssemos o moto desse Amor,
e mais nada, e para que, desse Amor se fizesse cada dia,
e que cada pessoa desse mundo se fizesse Amor, amante e amada. (4-11-24)
“Quando, pela perseverança na prece, as palavras do salmo descem
a carregar consigo, como rosas, a contemplação dos incorpóreos,
como lírios o flamejamento dos corpos, e como violetas
a diversidade e o difícil discernimento dos juízos de Deus,
a chama ligada à matéria carrega consigo a luz.
Mas a alma desembaraçada da matéria carrega em si a Deus.
Uma é levada a se consumir naturalmente; a outra
é levada até seu cumprimento no amor divino[1]”.
deixou de se preocupar com o post-mortem,
com as penas e recompensas, com o inferno,
o purgatório (seja lá o que for isso) e o paraíso,
com o Reino e o dia do Juízo,
e ela passou a se fixar tão somente em Cristo,
seu Amor, seu sacrifício enquanto Deus e homem vivo,
enquanto protótipo para nossas vidas,
enquanto o modelo oculto do novo homem
que trazemos, cada qual, no peito, escondido.
Todas aquelas coisas, ah!, questões de quem não vive com afinco,
de quem passa o tempo a julgar, a si próprio e a tudo ao redor,
de quem se imagina dono de seu destino, de quem pensa
ser capaz de forjar sequer seu próximo passo sem a intervenção do divino,
seja essa visível ou não, sensível ou não, ou seja ela apenas
como as coisas que acontecem sem que pareçam ter qualquer sentido
além de serem o que são, como se fossem banais, corriqueiras,
sem nenhum propósito ou objetivo conhecido – mas não,
nada existe no mundo que aconteça, como os dois pardais na feira,
como cada cabelo de nossas cabeças, sem que ali esteja o Espírito,
sem que um sopro do mais alto intervenha, como que por acaso,
como se nessa fogueira ninguém precisasse colocar mais lenha,
porque ela queima indefinidamente, e cada fagulha, cada faísca
nasce, se lança e morre e se eterniza, naquele momento.
*
Estamos, a cada momento, nessa terra e no Paraíso,
estamos no Reino, no inferno, onde quisermos, pois somos humanos,
e assim nos fez Cristo, como ele próprio, antes de que houvesse o tempo,
antes de que houvesse o mundo, quando o criado era ainda um porvir imenso,
e já dormíamos em seu seio, e já éramos à sua imagem, à semelhança
de seus herdeiros, nós, os homens, que caímos mas permanecemos inteiros,
nós, os vasos de barro e seu conteúdo precioso, nós, que o crucificamos
e descemos em pranto do Calvário, lamentando a perda daquele Deus,
que nos amou primeiro, que nos amou até o fim, que nos amou
como se merecêssemos, que nos amou, enfim, para que crescêssemos,
e o amássemos, e de nossas vidas fizéssemos o moto desse Amor,
e mais nada, e para que, desse Amor se fizesse cada dia,
e que cada pessoa desse mundo se fizesse Amor, amante e amada. (4-11-24)
“Quando, pela perseverança na prece, as palavras do salmo descem
como lírios o flamejamento dos corpos, e como violetas
a diversidade e o difícil discernimento dos juízos de Deus,
a chama ligada à matéria carrega consigo a luz.
Mas a alma desembaraçada da matéria carrega em si a Deus.
Uma é levada a se consumir naturalmente; a outra
é levada até seu cumprimento no amor divino[1]”.
[1] Elias de Ecdicos, Florilégio de Sentenças, 78-79, Filocalia dos Padres Népticos, Tomo 1, Volume 3.
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