4. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 1: O CONVENTO - 1.2. CONVERSAS - 2. A VISITA DO ESPÍRITO

 

2.       A VISITA DO ESPÍRITO

 


Onde temos a visita ao Convento de um monge peregrino, que presenteia Maria do Egito com diversos volumes da Patrística, da Patrologia e de muitos autores do Cristianismo Ortodoxo – incluindo os sete volumes da Filocalia dos Padres Népticos – além de alguns ícones de Cristo, da Virgem e de Santos variados, indo-se a seguir por seu caminho errante.


2.1. O CAMINHO

 


Ao Convento conduzia um carreiro, estreito e esburacado,
por onde, vez ou outra, algum carroceiro passava, algum viajante perdido,
um escravizado fugido, à procura de sua África e sua família 
 – que sempre encontrava no Convento uma cama e uma guarida –,
ou um cachorro errante, um fantasma, uma alma penada,
uma assombração de vidas passadas, mas no mais só o vento,
as águas da enxurrada, quando uma tempestade visitava a casa
em meios aos trovões e às orações das Irmãs, que se reuniam
 
na Capela, a pedir pela proteção de São Jerônimo, Santa Bárbara,
de Santa Clara – para trazer o sol – e de qualquer outro que pudesse
lhes inspirar coragem, ou afastar o medo, ou lhes trazer o consolo
por assim estarem, aconchegadas umas às outras, como se se aquecessem,
como se os ventos ficassem de fora, e as águas não pingassem do teto,
nem penetrassem no edifício pelas frestas das janelas e por debaixo das portas.
 
E o caminho seguia vazio, dias a fio sem pés que o honrassem com sua passagem,
sem olhos que contemplassem suas paisagens, sem uma presença humana
que o dignificasse, caminho que era, a ligar lugares, viessem de onde viessem,
fossem para onde fossem os que o frequentassem, a ninguém o caminho perguntava
 
por quem eram, de onde vinham, para onde dirigiam suas vidas,
que por ali deixavam suas marcas e pegadas no barro, até a próxima chuva,
que as lavassem, enviando ao esquecimento seus sonhos, seu dia-a-dia,
suas histórias, seus rostos, e quem eram, e seus antepassados,
e sua descendência, que em qualquer lugar no futuro os aguardaria.
 

 

2.2. O MONGE

 


Velhíssimo, barbudíssimo, descabelado, estrábico, malcheiroso e gago,
passou o monge pelo Convento, vindo de não se sabe onde,
e seguindo a estrada em direção ao nada, e arrastava atrás de si
uma carriola que se fazia em pedaços, cheia de livros velhos,
que veio oferecer ao Convento, como o mais precioso tesouro
que alguém, nesse mundo, jamais encontrara,
 
e deteve-se ao portão, tocando a sineta, e de lá vieram as Irmãs,
muito solícitas, a lhe oferecer um pão, uma sopa, um agasalho,
e que passasse ali a noite, que haveria de chover – não vê as nuvens? – e
que se pusesse à vontade, e que havia um quartinho fora,
onde vivera o hortelão um dia, meio empoeirado, mas melhor que o relento,
pois, velho daquele jeito, o monge ia acabar resfriado.
 
E veio a Madre Superiora, a quem ele ofereceu os livros que tinha,
em encadernações de couro do século retrasado, comidos de traças,
embora ainda conservados, alguns com os nomes em letras douradas,
nomes de santos desconhecidos, que escreveram páginas de sabedoria
há muito tempo guardadas nos porões de algum Mosteiro de além-mar,
de onde viera ele, em peregrinação ao Novo Mundo, onde tudo era novo,
e tudo ainda estava por ser inaugurado, sacramentado e vivido,
 
e agradeceu a hospitalidade, deixou ali a carriola com os livros, e,
leve como um pássaro, afastou-se caminho afora, como se fosse voar,
e voaria, decerto, não fosse humano como toda gente, mas voaria,
porque asas tinha para seguir em frente, e a sabedoria que o trouxera até ali
tinha já domicílio, e a Madre Superiora levou os livros todos para a biblioteca
quase vazia, do Convento, e ali ajeitou uma cadeira, uma mesa e uma vela,
uma caneca e uma moringa, e mergulhou numa estranha viagem mística
em que a teologia se misturava com a vida, e onde a oração fazia as pontes
que buscara desde menina, e agora encontrava, ali, no seu coração,
onde sempre vivera a pessoa que dela se ocultava, que era ela mesma,
a pessoa a quem Cristo sorria, a cada vez que lhe aparecia,
ou que ia-se embora, e que, magicamente, voltava a cada dia. (4-11-24)

 

 

2.3. OS ÍCONES

 


No meio dos livros deixados no Convento
pelo velhíssimo e barbudíssimo monge, havia um pacote
muito bem embrulhado e amarrado, e dentro dele
meia dúzia de imagens pintadas em madeira de tábuas,
que mostravam Cristo, a Virgem, Miguel e Gabriel, João Batista
e mais dois ou três personagens, que a Madre Superiora desconhecia,
 
e eram figuras estranhas, pintadas com técnica,
mas esquisitas, pois pareciam alheias ao mundo,
e seus olhos estavam fixos em quem as olhassem,
como se viessem de outra vida, como se ali estivessem,
mas do outro lado, como se viessem do céu,
trazendo alguma mensagem, que apenas seu olhar traduzia,
 
olhares os quais pareciam reproduzir o mais perfeito e divino,
o olhar de Cristo, sereno e límpido, que em cada um deles luzia,
e Maria do Egito se perdia a contemplá-los,
pois não tinha como defini-los, e lhe parecia
que buscavam se aproximar do rosto-sem-rosto de Cristo,
tão longe estavam das emoções humanas aqueles olhos,
 
que remetiam a realidades não vistas antes
 - pelo menos, não naquele Convento - e Maria devolveu-os
ao seu embrulho (menos a Virgem com seu Menino),
e guardou-os sobre o maleiro do armário,
num lugar onde não seria visto,
 
e o quadro da Virgem, pequenino, este deu-o a Fatumata,
que o tivesse em seu quartinho, onde ela, Maria do Egito,
iria visitá-la, quando sentisse saudades,
ou quando se lembrasse do olhar com que olhava Maria,
ao mesmo tempo, pra fora do quadro,
e para seu filho e Deus, ainda tão pequenino. (15-11-24)
 

 

2.4. MONGE, MONGE

 


E Maria lembrou-se de suas palavras:
“Monge é aquele que é puro do mundo
e que somente com Deus se entretém;
ele o vê, por ele é visto, ele o ama e é amado,
e se torna luz, por ser iluminado de modo inefável;
íntimo, é como um estrangeiro
– estranha e inexprimível maravilha!
 
Por causa de minha infinita riqueza sou como um mendigo
e penso nada ter, quando a tudo possuo,
e digo, ‘Tenho sede’, em meio à água abundante,
e ‘quem me dará’, aquilo que em abundância possuo,
e ‘onde encontrarei’, àquele que meus olhos veem cada dia.
‘Como poderei captar’ aquele que está dentro de mim,
e fora do mundo, sendo totalmente invisível?
 
Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça
E em verdade compreenda as palavras do iletrado![1]

 

 



[1] Simeão o Novo Teólogo – A Prece Mística, Hino 

 


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