3. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 1: O CONVENTO - 1.2. CONVERSAS - 1. FATUMATA, A COZINHEIRA
1.2. CONVERSAS
Onde encontramos Maria do Egito ainda atrapalhada com a
efusão de sentimentos que acontecera por ocasião de seu encontro com Dom Bento,
e,
indo conversar com a cozinheira Fatumata, negra de África,
acaba por se abrir e contar-lhe suas questões mais íntimas, chegando as duas a
expor suas concepções a respeito de Cristo, e, em especial, do grande Cristo
pendurado na cozinha do Convento, que enegrecera com os anos, devido à fumaça,
fuligem e carvão do fogão a lenha logo abaixo.
A conversa acaba por girar em torno do verdadeiro rosto de
Cristo, cuja aparência certa ninguém conhece, mas cujo rosto é o
rosto-de-todos-os-rostos, conforme acabam por concordar as duas mulheres, que
encontram ainda nesse diálogo um forte sentimento de sororidade.
1. FATUMATA, A COZINHEIRA
e ainda com o coração aos pulos, tendo que arrumar
toda a sua casa interior, fortemente abalada pelo que passara
(ainda que a maior parte nada mais fosse do que sua própria imaginalha),
a Madre Superiora mandou chamar Fatumata, a escrava da cozinha,
à sua sala, sem sequer saber por que fazia isso, e ela entrou,
e a fez sentar-se, e começou a lhe falar, de igual para igual,
como se a si mesma falasse (como se vomitasse),
de Cristo, e da Igreja, e de todas as coisas acontecidas
desde o início dos tempos, como se lhe recitasse o Catecismo,
como se todos os anjos e santos se houvessem reunido ali
para sacudi-la de toda uma vida sofridamente passada
entre a fé e a hesitação, entre a certeza e a dúvida,
e, aos poucos, sentiu-se transportar pelo vento, como num vórtice,
e ouvia sua própria voz, num devaneio, e sentiu que confessava sua vida,
e que Fatumata, negra e escrava, uma desconhecida, a escutava
como nenhuma outra filha, e respondia,
e as duas, como irmãs verdadeiras, entrelaçavam naquela sala seus destinos,
como se na palma de cada uma estivesse a outra inscrita
e falavam quase ao mesmo tempo, numa mesma língua,
e falavam de Cristo como de uma pessoa íntima,
e do Amor que em seu rosto havia, aquele Cristo misterioso,
que pairava sobre a cozinha, cuja mesa era o altar
onde ele próprio se dava em alimento, pelas mãos de alguma sacerdotisa,
ainda que africana, que negra, que escrava, que vinda do finisterre,
cuja sabedoria secreta fazia de cada pão seu corpo,
de cada uva uma vinha, e de cada vinha seu sangue,
e sua presença – a de Cristo – preenchia tudo, e tornava tudo perfeito,
inclusive as manchas de azeite e gordura, os restos de comida
que as galinhas bicavam pelo chão, e saíam correndo enxotadas,
e toda aquela fuligem que subia do fogão ao teto,
e recobria de negrume o corpo, a veste e o rosto de Cristo,
deixando à vista apenas os olhos, com os quais ele falava em silêncio,
em seu sereno suplício, e Maria perguntou a Fatumata,
se referindo a ele, o Ancestral de toda a gente,
se ela, de África, o via como branco, que ele era,
ou como negro, como aparecia, e a negra Fatumata respondeu
(a negra, a tímida figura, que Maria do Egito olhava agora,
que a ela aparecia como aquilo que era, uma princesa,
herdeira de tudo o que era nobre, extraída do chão sagrado
de sua aldeia distante, Fatumata, que preparava a comida,
que lavava o chão, que cuidava da horta e das galinhas,
Fatumata, que não era digna de atenção, de quem nada se sabia,
Fatumata, que diante dela, naquele dia consagrado,
se erguia, imensa, ancestral, antediluviana,
trazendo na pele os pigmentos que também a pintavam,
a ela, Maria, cor de canela, que nunca conhecera
de onde viera, que só sabia de si para onde iria,
Fatumata, com olhos firmes de sofrimento e altivez,
Fatumata, a cozinheira, que guardava consigo
a sabedoria da terra, os saberes das águas,
o conhecimento dos ares, dos mares, os segredos
de cada bicho vivo, de cada pedra enterrada,
dos ossos dos antepassados, esse conhecer
que em parte alguma era encontrado,
Fatumata, que ela via agora com olhos que nunca pensara,
Fatumata que, antes de tudo, ela agradecia nessa hora
por tê-la encontrado, por tê-la chamado, por ouvi-la dizer,
como se falasse para uma amiga, de longa data reencontrada),
"Nem branco, nem negro, nem de cor alguma, minha irmã,
nem com nenhuma figura: Jesus Cristo é transparente",
e acrescentou, "É por isso que nele vemos o Amor,
o Amor divino e verdadeiro, puro, sagrado, único,
uno, inteiro e transcendente". (7-11-24)
1.1. O ROSTO DE CRISTO
o rosto ancestral e verdadeiro, o rosto-sem-rosto,
nós só o vemos se estivermos na presença de Deus,
face a face, mas não será nem a nossa face, nem a dele,
mas a face da luz, que não tem forma, nem cor, nem figura,
que não tem som, nem passado, presente ou futuro,
esse rosto, Maria, Madre minha, que buscamos toda a vida,
e que perseguimos a cada dia, cuja jornada
nos ilumina e santifica, e que a oração pura nos indica
como um Caminho sem palavras, uma rota sem atalho,
a prece ininterrupta, que é a verdadeira lembrança de Deus,
que não tem sílabas, que não se detém nem um segundo,
que mergulha em nós mais e mais adentro, e mais fundo,
como uma apneia da alma, que entrega tudo,
para se afogar nos braços de Deus, que nos acolhe e conforta,
e nos tira desse mundo sem que deixemos a carne,
que, na verdade, sustenta a vida, carne que não pode ser desprezada,
porque fomos criados em espírito, antes da criação,
para nos encarnamos no mundo, cada qual com sua biografia,
que é santa e nos santifica, se a vivermos para entendê-la
naquilo que ela realmente significa,
esse rosto Maria, que nos olha de dentro, ele é o ser humano verdadeiro,
para o qual nascemos, pelo qual vivemos,
e por meio do qual seremos um dia justificadas
por tudo o que passamos, e, de tudo o que passamos,
senhora, aquilo que, em nós, fica.” (8-11-24)
1.2. ESSE ROSTO
e mostras claramente a glória de teu rosto,
cai sobre mim um tremor que me invade toda, por te ver,
tanto quanto pode a pequenez da minha natureza,
sou tomada pelo temor e, cheia de medo, eu digo:
‘Acima de minha compreensão está tudo o que te pertence, meu Deus,
pois eu sou impura, absolutamente indigna
de ver-te, Tu, o Mestre puro e santo, que os anjos veneram
e servem tremendo, e cuja face sacode toda a criação’.
Por isso eu exalto tua incompreensibilidade
e, proclamando tua bondade, clamo a Ti:
‘Glória àquele que tão e tanto glorificou nossa essência,
Glória, meu Salvador, à tua incomensurável condescendência,
Glória à tua misericórdia, glória à tua potência,
Glória a Ti!’, pois sendo imóvel e sem mudança,
inteiro imóvel és Tu, e inteiro sempre em movimento,
inteiro estás fora da criação e inteiro em cada criatura,
e a tudo Tu preenches, Tu que inteiro estás fora de tudo,
acima de tudo, ó Mestre, acima de todo princípio,
acima de toda essência, acima da natureza mais nativa,
acima de todos os séculos, acima de toda luz, ó Salvador.
Tu não és nenhum dos seres, mas superior a todos os seres,
pois deles és Tu a causa, criador que és de todos,
e por isso deles estás apartado, Altíssimo,
para o nosso pensamento, acima de todos os seres,
invisível, inacessível, impalpável, intangível,
e, escapando a toda compreensão, permaneces sem alteração,
Tu és simplicidade, e és Tu toda variedade,
e nosso espírito é totalmente incapaz de sondar
a variedade de tua glória e o esplendor da tua beleza.[2]”
1.3. FATUMATA, A IRMÃ
e, ao final, falou, "Querida irmã, não me trate como senhora;
se um dia fui, esse dia eu amaldiçoo, e já não sou;
nem tenho esse direito, nem me considero como tal,
e nunca mais haverá nesse Convento pessoa escrava,
e desde já vosmecê é livre, para ficar ou ir-se,
ninguém lhe dirá o que fazer,
ninguém lhe imporá sua vontade,
vosmecê não é mais serva nessa casa, mas Irmã,
igual em tudo a todas, igual a mim, senão superior,
e não o digo por clemência, por favor,
por mera condescendência, mas aqui aponho meu selo,
e assino, eu, Maria do Egito, Superiora desse Convento,
sua serva, minha irmã, minha amiga, para servi-la
como quem paga uma dívida, como quem resgata
um amor perdido, eu, Maria do Egito,
diante de ti me ajoelho e te bendigo.
Hoje eu desperto de um sonho,
que por tanto tempo foi em mim inculcado
que se me tornou natural, muito embora
eu mesma tenha vivido o mesmo pesadelo,
mas suavizado, pois minha pele morena,
mesmo vista com desdém, é ainda tolerada,
e entendo, finalmente, o tamanho do meu erro,
e o modo como a ele fui levad
E Maria do Egito tomou as mãos de Fatumata,
beijou-as e continuou, com sincera admiração na voz:
“Não conheci conhecimento mais profundo,
e entendo agora por que vim a esse fim de mundo,
viver entre essas paredes de absurdo,
como se fosse uma prisão dos pensamentos,
como se todas estivéssemos condenadas
a uma vida de renúncia, uma existência privada de sentido,
uma recusa do mundo, em que apenas a dor substituiria o pecado,
que nenhuma de nós sabia onde estava, quando nos assaltava,
ou quando alguma de nós a ele sucumbiria,
e agora vosmecê me mostrou o rosto de Cristo, que tanto busquei,
esse Cristo que escolheu se esconder de nós na sua cozinha”,
e Maria do Egito sorriu, cúmplice e tímida, e prosseguiu,
“esse rosto definitivo, esse rosto misterioso, transparente,
feito de amor e carinho, o rosto verdadeiro, que não é humano,
o rosto divino, que não pode ser retratado, e por isso
o Cristo da cozinha (ah!, quanto o amo!), negro como um abismo,
é mais verdadeiro que o do altar, branco, com seus olhos azuis,
por alguém a ele atribuídos, e sua expressão de gente,
um Cristo doce, também, mas demasiado branco
para que seja também universal, para que possa abarcar
todo o tempo e todo o espaço dessa terra e do universo”,
e, arregaçando as mangas, mostrou os braços morenos,
“enquanto o Cristo negro é como o véu da noite,
onde a escuridão responde em silêncio
as nossas questões, nossas dúvidas, angústias, nossas indagações
a respeito do destino último da espécie humana,
essa pergunta sem resposta do pensamento,
respondida apenas pelo amor e o silêncio, a ausência de palavras,
na cor negra desse rosto, que nos olha de sua cruz,
sem que saibamos por que e como".
E Maria do Egito abraçou Fatumata num abraço apertado,
e sentiram bater num só compasso os corações,
e no mesmo fôlego misturaram-se os hálitos,
e assim estiveram por um tempo, e depois Fatumata levantou-se,
e a Madre Superiora a abençoou, e foram-se as duas à cozinha,
de mãos dadas, onde as esperava o Cristo de seu teto pendido,
e um cesto de batatas, toucinho para ser preparado,
e um tanto de chá, esperando para ser servido. (10-11-24)
“...pois todos vocês, que foram batizados em Cristo,
se revestiram de Cristo, e assim já não há mais diferença
entre judeu e grego, entre escravo e homem livre,
entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo.[3]”
1.4. SORORIDADE
os laços que fazemos ao longo da vida, que não escolhemos,
e apenas nos damos conta de que sempre estivemos ligados
àquela pessoa, que sequer conhecíamos, e que, de repente,
representa para nós o espelho necessário, em que nos refletimos,
ainda que a imagem de pele negra que vemos, esteja tão distante
de nós mesmas, e, ao mesmo tempo, tão próxima,
que é como se fôssemos ela, sem deixar de sermos nós,
e somos as duas uma só pessoa, e nos reconhecemos,
e somos como irmãs, mãe e filha, parentes tão próximas
que já não são necessárias palavras, e todos os sinais
são evidentes, assim que nos vemos?
E a partir desse então, a Madre Superiora se tornou Maria,
e entre ela e Fatumata – Joana Batista – já não havia segredo algum,
e tudo entre elas era partilhado, e cada degrau da escada
era motivo de alegria, de um e outro lado, e elas subiam,
sabe-se lá como, assim como podiam, trocando as vivências,
as experiências e as conversas com Deus, que cada qual tinha,
como irmãs que eram verdadeiramente, e se reuniam na cozinha,
sem que as demais Irmãs soubessem, e ali oravam a Cristo,
que, do alto de seu martírio, tinha sempre nelas um refrigério.
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