2. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 1: AS SETE IRMÃS - 1. O CONVENTO

                                              VIDA DE ANTÔNIA


PARTE 1


I.                  O CONVENTO

 


Onde conhecemos essa pequenina e ardorosa freira, Maria do Egito, e acompanhamos sua luta pela fundação de um Convento de Irmãs nos recônditos fundões do Brasil, em pleno século XVIII.

Seremos ainda apresentados a Dom Bento Nepomuceno do Castelo e Vasques. Bispo de Alcântara da Serra das Lavras, e responsável pela autorização para que Maria do Egito – por quem nutria secreta e proibida paixão – fundasse sua Casa.

Alimentado por esse sentimento confuso e, digamos, vergonhoso, Dom Bento recebe Maria do Egito na Diocese e, na esperança de vislumbrar na pequena e morena Irmã um sinal qualquer de afeto, dispõe para que o Convento recém-fundado receba regularmente provimentos que sustentem seu bom funcionamento.



MARIA DO EGITO

 

Ao tempo de Antônia, a Madre Superiora era velha,
tão velha que nunca ninguém a vira chegar,
e, quando cada uma delas partia, ela ainda estava lá,
nos seus afazeres, quietinha, com a autoridade
de quem só queria o bem de suas meninas,
e deixava que as coisas acontecessem por si sós,
e continuava, simplesmente, a vigiar e orar, sem nunca interferir,
sem dar uma ordem, sem dizer palavra, apenas com suas mãos postas
e uma enorme ternura no olhar,
 
Madre Superiora, que nem se sabia que nome tinha,
a que algumas chamavam Mãe, outras Madre, outras Tia,
(e que na verdade se chamava Elmira, e de nome
Maria do Egito, ou Egipcíaca, ou Egípcia)
e a todas ela atendia, na sua minúscula cela, na sala da Diretoria,
onde havia uma mesa, uma vela, duas cadeiras,
um crucifixo quebrado e uma imagem de Maria. (22-10-24)
 


I.1. A FUNDAÇÃO DO CONVENTO

 1.       O PARAÍSO

 

Existem duas maneiras de ver a natureza:
uma, através dos óculos das ciências, que a dissecam e classificam,
e a entendem ao sabor das nossas conveniências,
e a tornam objeto, seja por sua utilidade, seja por nossa concupiscência,
e a dominam, dirigem, manipulam e dela extraem seus frutos
para nosso benefício, para o progresso ou o que for,
para o sustento da civilização,
e outras coisas da mesma competência,
 
e outra, que pasma diante de sua beleza, de sua imponência,
do mistério que encerra cada folha, cada inseto
ou pássaro, e árvores, montes, rios, mares,
fenômenos atmosféricos, movimentos telúricos,
brisas, furacões, ventos e eventos de todo tipo,
e os luminares do dia e da noite, e todo o mais que se passa,
e que nos deixa estarrecidos e aplastados diante de sua magnitude e grandeza.
 
Maria do Egito escolheu a segunda, e, quando deixou o Convento da Ordem
para fundar uma nova casa, buscou embrenhar-se no oco do mundo,
onde a presença do homem fosse nada,
onde essa mesma natureza se apresentasse
com todo o sagrado contido nela, ainda não conspurcado
pela razão humana, mas presente, de tal forma,
que todo joelho se dobra, e toda língua entoa
um canto de honra ao autor da Criação,
 
e assim orientou os guias, a que encontrassem esse lugar santo,
ainda que estivesse coberto por um véu,
ainda que, de tão longe, nada se soubesse,
ainda que se ocultasse sob o manto de mil mistérios,
de mil arcanos, que somente Jesus Cristo habitasse
entre seus montes, matas e encantos,
 
e assim chegaram, próximo a uma vila esquecida pelo século,
onde uma pequena ermida assinalava um testemunho de fé,
e ali Maria do Egito determinou construir uma casa
onde somente as orações se ouviriam, onde as mãos postas arderiam
de amor a Deus, e os olhos perscrutariam dia e noite,
a buscar a face do divino, onde estivesse,
e os joelhos jamais se cansariam de tocar o chão
que um dia pisou o Senhor, quando ali ainda era o jardim
do Paraíso. (17-11-24)
 
“O Paraíso é duplo, tanto sensível como inteligível.
Existe o Paraíso enquanto Éden e o Paraíso da graça.
O lugar do Éden é muito elevado, o terceiro antes do céu,
como dizem os que o descreveram. Ele está semeado
por Deus com todas as espécies de plantas olorosas.
Ele nem é totalmente incorruptível nem totalmente corruptível:
ele foi criado como um intermediário entre o corruptível e o incorruptível.
 
Ele está sempre coberto de frutos e não cessa de se carregar
de flores que se abrem e de frutos verdes e frutos maduros,
de árvores mortas e de frutos maduros que caem sobre a terra
e se transformam num solo perfumado, e não sofrem a corrupção
como as plantas de nosso mundo. Pois a superabundância
e a santificação da graça transbordam todo o tempo neste lugar[1]”.

                      

 

2.       O CONVENTO

 


A pequenina Freira chegou ao lugar onde seria o Convento
da Anunciação de Maria, e, com suas próprias mãos, e de alguns operários,
pôs-se a erguer paredes, a colocar portas, janelas, travessas e telhados,
e, com poucos meses e muito trabalho, viu-se sozinha, no meio daquele mato,
e adentrou decidida no edifício, decidida a abandonar o mundo, a vida,
o próprio Cristianismo de Estado,
e se dedicar por inteiro à única fé que a movia,
a fé em Cristo, no Deus-homem que ela vira em sonhos,
e que era tão distinto de tudo quanto havia antes conhecido,
 
e se prometeu conduzir àquele aprisco quantas ovelhinhas pudesse,
e para isso conseguiu permissão especial do Bispo,
para manter um Convento pequenino, onde umas poucas Irmãs
pudessem oferecer seu sacro ofício.
 
E juntou os poucos recursos que tinha, e, à custa de esmolas e donativos,
aparelhou o seu Convento, e deu início ao seu ensinamento,
mesmo sabendo o quanto seria difícil,
porque o Cristo que ela ensinava não era o da Igreja,
como todos esperavam, mas um Cristo outro,
que habitava sob a pele, nos vãos das telhas,
nas pedrinhas do regato, e nos olhos de quem o via,
de quem tivesse o condão de ver além,
de ver o divino, onde se apresentava o homem,
e de ver o único, onde tanta coisa havia.
 
 

3.       DEUS

 


Não, Deus não é uma ameaça, como quer o Antigo Testamento,
nem é preciso que uma religião o acalme, através de sacrifícios,
de jejuns, de vigílias, de culpas e sofrimentos, de expiação e asceses,
Deus não é nada disso, nem é um projeto de poder,
nem jamais se uniu ao Estado para controlar o mundo,
Deus está muito além, e nossa jornada para o céu acontece
 
no fundo de nós mesmos, quando a pessoa retorna à pátria
que nela está implantada desde antes da criação do mundo,
quando ela entra em si mesma, e recebe de volta sua condição primeira,
antes da queda, a posição para a qual foi criada, e sua alma contempla,
e nessa visão alcança o mais alto ponto que se pode almejar,
 
além da própria luz, a neblina de Deus, sua escuridão,
além de todo brilho, ali, onde penetrou Moisés,
porque não existe visão da substância de Deus,
e onde ele está só resta o Amor, e todo conhecimento se dissipa,
e nada resta, senão esse mesmo Amor, que tudo explica,
e do qual nada se pode dizer, senão estar ali, como se nunca houvesse
 
outro lugar, outra presença, outro modo de ser e de viver,
nesse mundo e em qualquer outro, pois a casa do Pai tem muitas moradas,
mas em cada uma delas habita o mesmo Espírito da Vida,
e ali estaria, presente, mais do que em qualquer Igreja,
o Espírito da Verdade, da Esperança, da Caridade,
o Caminho do próprio Amor, seu Filho.

 

 

4.       A CASA NOVA

 


Em meio às colinas e matas, próxima ao riacho que murmurava preces
só dos animais ouvidas, ergueu-se primeiro uma capelinha,
uma ermida em honra de Nossa Senhora, que ali permaneceu incógnita,
a orar com suas paredes brancas e uma cruzinha no frontão,
e um altar pintado de azul, onde a imagem da Santa velava noite e dia,
 
e vizinha a ela, foi surgindo uma casa nova, feita de suor e fé,
e brotaram do chão uma sala, uma cozinha, um refeitório, quatro quartos,
um depósito, e lá fora uma retrete e um quartinho, e do outro lado um poço d’água,
e uma horta, e árvores frutíferas para um pomar, e tudo cercado com capricho,
e um pátio para as galinhas, chiqueiro para porcos, e até um aprisco
com duas cabras e um bode, e tudo muito bem-feitinho,
e organizado, tudo muito pobre, muito simplesinho, mas para Maria
era o suprassumo, e Deus ali se sentiria à vontade,
 
mesmo pregado à sua cruz, que ganhara do Arcebispo,
um lindo Cristo, em seu eterno martírio, de uma vez por todas sacrificado,
esse Cordeiro misterioso, que ninguém explica, e que foi posto
na ermida pobrezinha, logo ampliada para servir de capela,
onde se pudesse celebrar Missa algum Domingo, prouvesse a Deus,
e onde pudessem se ajoelhar as filhas, que haviam de chegar,
como chegaram logo uma, duas, três, não mais do que quatro ou cinco,
 
e ali passaram a viver a mais simples vida jamais vivida
nesse mundo novo, onde a natureza parecia engolir tudo com sua grandeza,
mas onde cada pássaro louvava a Deus com sua melodia,
e cada coaxar de sapo, balido, uivo, esturro de onça, gemido,
parecia compor uma sinfonia, que se somava à música das estrelas,
milhões delas que giravam na abóboda celeste, conduzindo os pensamentos
às alturas mais sublimes, bastando que se visse a Deus em cada coisa,
e em cada dia se recebesse a visita do Pai, do Espírito Santo e do Filho.

 

 

5.       DOM BENTO

 


Bento Nepomuceno do Castelo e Vasques, Arcebispo de Alcântara da Serra das Lavras,
flanava gordamente pelos jardins do Paço, quando, sem exatamente nenhum por quê,
lembrou-se da Freira, quase adolescente, que anos atrás lhe pedira licença
para fundar um Convento – onde mesmo?, já não lembrava, mas, de qualquer modo,
muito distante – e ele, comovido por uns olhos castanhos, uma tez de jambo
(uma Freira mestiça?, o que era aquilo?, branca, negra, indígena, o que era isso?)
e uma silhueta que adivinhava sob o hábito espesso, e naquele 1716 longínquo
autorizara, sem nem pensar direito na burocracia eclesiástica, nos provimentos,
na documentação exata, nas autorizações da Corte, na conveniência local,
 
enfim, não pensara em nada, e a voz da Irmã Maria do Egito ecoava ainda em sua mente,
doce como mel, firme como aço, e aqueles olhos, ah!, aqueles olhos,
que se ali mergulhasse não haveria o que o impedisse de se afogar, uma, duas,
três mil vezes, e nada mais quereria, e abjuraria da fé, do cargo, do poder e das mordomias,
 
por uma hora que fosse entre aqueles braços castanhos de frutas não colhidas,
cujas pequeninas mãos se moviam com uma graça e elegância que ele jamais vira,
e Dom Bento persignou-se, e se lembrou de que nunca mais a vira, e, consultando o Secretário,
certificou-se de que não fôra um sonho, e que ali estava sua assinatura e timbre,
e logo abaixo, escrito Irm. Mª. Egipto, da Irmandade da Anunciação,
de que ele jamais ouvira, mas que pouco importava,
 
quando aqueles olhos se fixavam nos seus, e ele então faria qualquer coisa,
qualquer coisa para tê-los por perto mais alguns minutos,
quem sabe algumas horas, quem sabe uma noite, quem sabe um dia.

A paisagem das montanhas ao pôr-do-sol o fez nostálgico,
e Dom Bento sentou-se à escrivaninha, e de próprio pulso se pôs a escrever uma carta,
"Minha muy estimada filha...", e não sabia o que dizer,
e a responsabilidade do cargo se misturava ao apego que sentia,
uma espécie de desejo - santo, é claro - de rever a freirinha,
de olhar firme e inocente, de uma santidade que o feria,
 
a ele, velho e astuto Bispo, de tantas peripécias na vida, mas que se acoelhava agora,
diante da enormidade que seria redigir a missiva, pois tinha a impressão
de que a qualquer palavra impensada poderia expor sua pessoa apaixonada,
que despertara com a lembrança do vulto da menina,
e que permanecera insone dentro de si, apenas aguardando o momento de vê-la
entrar pelas solenes portas do Paço, esplêndida e pequenina,
derrubando os móveis e os quadros das paredes com um simples gesto
de seus dedos finos, que ele beijaria, casto, em pleno gozo da santidade,
e que haveriam de oler a mirra e a perfumes da melhor qualidade.
 
Dom Bento chamou o Secretário, e lhe ordenou que terminasse a carta,
pedindo notícias do Convento - como era o nome, mesmo? -
e que fosse o mais impessoal possível, apenas para saber notícias,
se estava tudo em ordem, se lhe faltava algum provimento ou amanho, enfim,
essas coisas que fazem com que um Bispo seja um Bispo,
e que suas ovelhas sejam seu rebanho, cada fiel uma ovelhinha,
 
e depois de muito procurar o Secretário encontrou o endereço, uma vila de nome apagado,
além do último sertão conhecido, por onde passara um dia algum viajante,
dando novas de um minúsculo Convento, sob a direção de uma Freira, quase uma criança,
Maria de Qualquer-Coisa, já não recordava qual,
 
e assim se foi a cartinha, que Dom Bento teve ímpetos de beijar,
mas apenas assinou, apondo o sinete ao timbre,
e escrevendo com a melhor letra que tinha,
S. Em. Ss. D. Bento Cº Vª, Arcebispo de Alcântara da Serra das Lavras
e, logo abaixo, sem resistir ao ardor que o queimava, rabiscou
C.t.m.Aº, que secreta e febrilmente soletrou para si,
"Com todo meu Amor", e lá se foi à carta, como um pássaro,
até pousar naquelas mãos cuja memória o incendiava. (5-11-24)
 

 

5.1. A CARTA

 


A carta do Bispo chegou ao Convento num dia de muita chuva e neblina,
e, ao pousar seus olhos no lacre, a Madre Superiora teve um sobressalto,
pois jamais imaginou receber a atenção da Cúria,
e menos ainda, de que Sua Santidade, do alto de sua hierarquia,
viesse, por um acaso, a se lembrar dela, de seu humílimo Convento,
e de sua pequena confraria de Irmãs, em número tão menor
do que todos os demais Conventos e Irmandades que,
nessa nova terra, de tantos e tamanhos horizontes, se conhecia.
 
E, em meio a essa outra neblina, abriu a carta, muito formal,
que apenas pedia notícias, e enumerava algumas obrigações que deviam ser seguidas,
pedia a contabilidade desses anos todos, e encerrava desejando paz,
saúde e alegria em Cristo, e vinha assinada por Dom Bento, e, abaixo da assinatura,
uma misteriosa cabala, "C.t.m.Aº", que ela, absolutamente,
nem imaginava que significado teria.
 
Mas recolheu-se ao seu escritório, e se pôs a revirar papéis e guardados,
para atender às exigências exaradas na missiva,
e, de tanto procurar, encontrou tudo o que era exigido, e encontrou também
um bilhete, onde a mesma mensagem cifrada estava escrita, mas já tão apagado,
que só se lia a data, e mais nada havia para ser lido
 - mas o papel era da Cúria, e vinha sem lacre nem sinete,
e ela não se lembrava nunca de o ter recebido,
e ali já se passavam dez anos, e só agora ela percebia
ser o mesmo remetente, e que aquela assinatura estranha
vinha diretamente das mãos do Bispo.
 
E pousou seus olhos castanhos no horizonte nevoento,
onde a mata pingava de chuva tristezas e alegrias,
e lembrou-se de um momento, no Paço Episcopal,
em que Dom Bento aproximou-se dela, tocando-lhe de leve o hábito,
e deixou cair em seu bolso aquele bilhete,
em que falava de olhos, de braços, da santidade do desejo,
e de outras coisas que ela não compreendia,
mas que mantivera em segredo, por todo esse tempo,
como num baú onde guardamos as coisas que não têm serventia.
 
E a Madre Superiora dobrou cuidadosamente o bilhete,
e queimou-o na chama da vela sobre a mesa,
e reuniu os papéis requisitados, envelopou tudo,
e se dispôs a levá-los em mãos ao Episcopado,
e avisou as Irmãs, e preparou a bagagem, e partiu na manhã seguinte,
junto com o emissário, e desapareceu na neblina,
mistério afora e madrugada adentro. (6-11-24)

 

 

5.2. OS GRILHÕES

 


Por que essa sensação de grilhões nos pés?,
por que esse frio no torso, como se estivesse nua,
atada ao poste do pelouro?, por que essa dor súbita,
esse desfalecimento, por que jorra o sangue, e escorre em tiras,
manchando o hábito branco, imaculado,
conquanto suado dos dias sob o sol causticante,
das noites ao sereno, da longa viagem desde o Convento até o Paço,
à distante Alcântara da Serra das Lavras,
até estar na presença do Bispo, ela, Maria do Egito,
 
que não sabe onde esconder as mãos, onde enrolar os pés,
que queria não ter olhos para olhar,
nem corpo para ser olhada, que se movia como uma estátua,
e cada mínimo gesto seu era uma espada
enfiada no seu flanco, de onde ela sentia jorrar sangue e água,
por que, em sua mente, giravam as letras misteriosas,
C.t.m.Aº, que significavam tudo e nada, essas letras
pelas quais, no fundo, deixara ela o Convento nas mãos da Irmã Jesuína
e empreendera aquela viagem?
 
E o Bispo recebeu-a em seu gabinete, e pareceu-lhe enorme,
e santo, e outras coisas que não sabia,
e Maria do Egito queria apenas sumir-se em qualquer buraco,
desaparecer, enquanto os olhos de Dom Bento
a faziam crescer, além de toda medida,
e seus olhos castanhos evitavam os dele, negros, soturnos e estranhos,
e havia ali um embate inexplicável, em que as partes não sabiam
de que maneira, uma, que era o amante, outra, que era amantíssima,
porque o Amor, o terceiro termo, não existia.
 
Mas os olhos de Maria venceram o desafio, e os de Dom Bento baixaram,
e ficaram em silêncio, enquanto o Secretário atarefava-se,
indo de um a outro lado, sem entender nada
do que se havia passado, e os papéis passaram de mão para mão,
e Dom Bento se desmanchou ao ver-lhe a pele suave,
os dedos mágicos, e tentava adivinhar por sob o hábito
as formas da mulher, sem no entanto atrever-se a ir tão longe,
e por isso só a contemplava de soslaio.

E Maria rendeu-se ao pelourinho,
e deixou-se fustigar pelo rebenque,
desde que não a tocasse o carrasco,
que não a enlaçasse o capitão-do-mato,
que não a raptasse o senhor das terras,
que não a submetesse ao leito de pecado,
e as gotas de sangue, em sua mente, escorriam-lhe pela face,
e os grilhões lhe rasgavam a pele,
e sua roupa se fazia em frangalhos, e, de repente,
ela se sentia desnuda, enquanto os criados da casa se deleitavam,
embevecidos com a beleza virginal da jovem no suplício.
 
"E vejo que está tudo em ordem",
a voz de Dom Bento trovejou nos seus ouvidos,
"e que a graça de Deus está nesse belo edifício,
que erigistes com tanto cuidado, tanto sacrifício...",
e Maria sentia que se lhe recosturava o hábito,
"e assim, filha minha, renovo meu compromisso...",
e os grilhões se abriam, "e dou minha bênção...",
e as feridas se fechavam, "e assim sendo,
segue teu caminho", e o pelouro se desfazia,
"e leva contigo meu timbre...",
e ela era outra vez livre.
 
E Dom Bento, tomando o lacre, apôs seu selo, e assinou embaixo
e entregou o documento a Maria, que mal teve coragem para ler,
mas apenas o suficiente para perceber, em letras miúdas,
sob o pomposo nome do Bispo,
Dom Pedro Nepomuceno do Castelo e Vasques,
Arcebispo de Alcântara da Serra de Lavras,
aquelas mesmas letrinhas, que ela sabia o que eram,
ainda que não entendesse, C.t.m.Aº,
porque ali estava a explicação de tudo,
embora ninguém nada dissesse. (7-11-24)

 

 

5.3. CULPAS

 


Maria do Egito, não a Santa, não a Superiora, não a Madre,
não a Freira, nem a Irmã, apenas Maria, nascida Elmira,
meio branca, meio negra, meio indígena – brasileira –
arranchada sobre o burrico que a carregava,
deixava que a chuva lhe lavasse a alma e a capa,
puxando o capuz sobre o rosto, para que nem o vento
contemplasse o rubor que o tomava,
 
e a ela, Maria do Egito, que pedia a Deus que, não um, mas mil leões
a guardassem, e afastassem as legiões que a cercavam
e a assaltavam a cada curva do caminho,
ela, com o coração aos pulos, o fôlego cortado,
a estranhar-se em tudo e por tudo, a sentir calores e frios,
calafrios e tremores, e seu mundo, tão arrumado,
girava como um caleidoscópio,
 
e as imagens santas se misturavam ao demais de tudo,
e, pela primeira vez em anos, ela sentia
a carne que reclamava seu tanto, e um pulso que lhe tomava o corpo todo,
que ela sentia latejando, e Maria se deu conta de que, sim, também ela
era humana, e que esse sangue que subia à face era o mesmo
que percorria cada célula de seu corpo, o mesmo sangue
que correu nas veias de Cristo, esse sangue
 
que escorreu de suas feridas, de sua identidade humana,
que ela agora sentia, e que lhe infundia uma humildade nova,
essa, de se saber parte da humanidade caída,
de se saber parte do resgate, de se saber Maria, Elmira,
 
a que pecou sem haver pecado,
que pediu um perdão que já lhe havia sido dado,
que recebeu do Deus-homem o carinho
que ele próprio reservou às virgens sábias,
aquelas, cujo azeite não era por certo mais puro
do que o das virgens tolas, mas que, por razões que ela, Maria, não sabia,
mantinha eternamente a chama desse Amor,
que jamais, em tempo algum, se apagaria. (7-11-24)
 

 

5.4. O RETORNO

 


Madre Superiora retornou ao Convento, depois de uma ausência de dez dias,
e chegou com o corpo todo dolorido,
como se tivesse levado uma surra a cada jornada,
mas foram apenas alguns dias no lombo do burrico,
onde lhe pesava mais o temor, na ida,
e o tremor, a cada passo do bichinho,
na longuíssima viagem de volta, e assim desmontou,
e a receberam as meninas, e lhe dispuseram um banho de tina,
e roupas limpas e secas, e lençóis lavados, cheirando a flores do campo,
e um chá, e torradas, e uma geleia que a cozinheira Fatumata
– a negra Joana Batista – preparara,
acompanhada de bolo de fubá e tangerinas.
 
E, tão logo se recuperou, correu à Capela, e prostrou-se diante do altar,
e, com o rosto por terra, derramou todas as lágrimas que tinha,
sobre as pedras, que, silenciosas e solenes,
sem responder, a ouviam, enquanto Maria confessava
o que havia ou não havia sido,
o que sentira ou nunca havia sentido,
o que se passara e o que nunca houvera acontecido,
 
e em seu peito havia uma mistura de arrependimento e terror do Juízo,
e todo seu corpo convulsionava, e ali,
diante do Cristo, tão branco e imaculado,
com seus olhos tristes, seu corpo flagelado
(por nós, seres humanos, para expiação de nossos pecados),
ali ela vomitava sua alma, com a certeza assustadora
de que seu pecado, imenso e pavoroso,
jamais poderia ser perdoado.
 
Levantou-se, entretanto, e o silêncio lhe disse que era já noite,
que todas se haviam recolhido, e que mesmo os santos, nos seus quadrinhos,
bocejavam, enfastiados e aborrecidos,
e Maria, tomando uma vela, se dirigiu à cozinha,
vazia como tudo, àquela hora,
e ali sentou-se à mesa, e ficou a olhar os bichinhos
na sua faina noturna, correndo por entre as frestas do piso,
 
e, erguendo os olhos, deparou-se com o Cristo,
que fôra um dia branco, mas hoje negro de fuligem, pregado
na sua eterna cruz, junto ao teto, esse Cristo,
que, sabia ela, nunca adormecia, e mirou seus olhos,
e nele viu todo o carinho, de quem sofreu por, pelo e para o Amor,
e viu, naquele rosto enegrecido, uma ternura
que nunca havia antes conhecido, e um afeto,
de que nem todos os bispos e arcebispos, nem todos os religiosos do mundo,
 
e mesmo o Papa, nenhum deles
seria capaz, um afeto divino, que lhe banhou a alma
com o frescor da brisa de seus tempos de menina,
quando Deus ainda era um besouro iridescente
que ela tomara em suas mãos, e que inconsciente de sua própria beleza,
realizou o milagre de se tornar indelével ao seu coração de criança,
e de passar a viver ali, por toda a sua vida. (7-11-24)

 

 

5.5. O PROVIMENTO

 


Dom Bento dava voltas na cama, sem conciliar o sono,
como se as sete pragas do Egito o acossassem, a ele,
pobre faraó inadvertido, cujo crime foi o de se apaixonar
como um menino, como se fosse coisa do destino,
como se não fosse ele adulto, e cercado da santidade
que lhe atribuíam (ele se ria), justo a ele, um poço de pecados,
 
de ganância, de arbítrio, de sede de poder, de avareza, cupidez,
de tudo o que de pior há no mundo, e, dentre os piores,
a hipocrisia, de se passar por aquilo que nunca foi,
o homem respeitável que ostentava seu título, e que agora
se via desmontado de todo o teatro que urdiu cuidadosamente,
e se via incapaz mesmo de comer, de beber seus bons vinhos,
de dar os conselhos que tinha guardados para cada ocasião,
para cada um que o procurasse, ou mesmo de tramar
junto às demais autoridades, sobre o rumo que tomariam as minas,
o quinto devido a Portugal, a partilha do que restasse,
 
tudo aquilo, desconstruído no tempo de um raio,
por um único olhar feminino, um olhar inocente, sério e felino,
impenetrável, e cheio de doçura da cana-de-açúcar, da água ardente
que transbordava dos engenhos, pagando-lhe cada qual o dízimo,
e aquele olhar castanho mascavo não lhe pagava nada, devedor ele
de cada mirada, e as mãos pequeninas que receberam o papel assinado
(terá ela visto seu sinete, e abaixo dele rabiscado C.t.m.Ao?),
 
e Dom Bento, varada a madrugada, suava em bicas, e rastejava
entre o céu e mil infernos, cada qual mais aguçado,
e dava cambalhotas na mente, a pensar em como se livrar
daquilo tudo que o assolava, e assim veio a manhã,
e, logo cedo, chamou o Secretário, e determinou que àquele Convento
desconhecido, mísero e inencontrado, fosse provido todo o necessário,
enquanto existisse o mundo, e assim velas e incensos, e azeite, e toucinho,
e panos, e aviamentos, e pavios, e vinho, e um padre para as missas
(no mínimo a cada três meses, e mais se possível),
 
e mandou que se instalasse paróquia na vila vizinha,
e que não faltasse carne seca, e bons braços para servi-las, às Irmãs,
e à Madre Superiora, aquela Maria do Egito, e que Deus
assim o perdoasse, e que ela, se não chegasse a amá-lo,
ao menos encontrasse nele um bom amigo. (8-11-24)

 


 

 


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