38. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 13: FIM

 13. FIM
 
 



Onde chega ao fim a saga de Antônia e Eulália, e elas adquirem um sitiozinho  num sertão qualquer, onde passam a levar uma vida simples, até sua extrema velhice.






1. AS VOZES DO VENTO E DA MARESIA





Nos dias que se seguiram, Antônia alternou
momentos de lucidez e de delírio, enquanto
seu organismo lutava contra as toxinas
injetadas no corpo pelos espinhos, e ficava
 
horas na rede, semiadormecida, com os olhos
sempre postos no Cristo negro, que se via dali
sobre a mesa da Capela, e ela juraria,
para qualquer um que perguntasse, que ele,
 
o Mestre, a aconselhava e lhe sorria, e que
entre ele e ela um diálogo mudo se estabelecia,
em que olhares eram trocados, e vez por outra
um leve sorriso pontuava uma frase não dita,
 
mas percebida entre as vozes do vento
e da maresia que trazia levas de ondas
às areias brancas da enseada que repousava
entre palmeiras, gaivotas e um céu imenso,
 
nuvens peregrinas e o manto do silêncio
que compunha a oração verdadeira,
que só ela ouvia, e arremedava num sussurro
em seus lábios de África, formosos e feridos. (14-2-26)
 
 




2. SE ASSIM QUISESSE O DESTINO





Quatro dias depois de sua caminhada
no meio dos espinhos, Antônia ainda sangrava
por diversos cortes fundos, abertos na sua carne,
que Eulália ia pensando com unguentos e mezinhas,
tudo preparado com raízes e folhas que Grilo trazia,
e Tchissola permanecia muda ao seu lado,
sem compreender nada do que havia se passado,
 
e para ela Antônia apenas sorria, e passava a mão
no seu cabelo, com carinho pela irmãzinha,
ao mesmo tempo assustada e feliz, por tudo
o que havia acontecido com elas, e por ter
encontrado aquele homem quase mítico,
que lhe ensinava tanta coisa, e ao lado de quem
ela viveria toda a vida, se assim quisesse o destino. (15-2-26)
 
 




3. A DESPEDIDA





Um mês depois, ou algo assim, Antônia
e Eulália reuniram-se com Tchissola,
e decidiram que era hora de se lançarem adiante,
para onde quer que as levasse o Espírito,
e dispuseram-se a parir, tão logo preparassem
uma trouxa com mantimentos e outras coisas
básicas para enfrentarem mais uma vez
 
o destino, mas Tchissola tomou a palavra e,
apesar da pouca idade, disse com segurança
na voz, e uma grande força de coração, “Irmãs,
sabeis que eu fui a pessoa menos amada desses Brasis,
e que só conheci compaixão e empatia depois
que vos conheci, e por isso serei eternamente grata,
e por tudo o que me ensinastes, e o que vivemos
juntas e por tantas outras coisas que já perdi a conta,
 
e por tudo isso eu seria a primeira a me levantar
e seguir-vos, com a Alegria que é meu próprio nome,
mas hoje sinto que algo novo me prende a esse sítio,
e a esse homem que nunca pensei que existisse,
e por isso meu desejo é o de permanecer aqui,
com ele, numa vida de aprendizado e devoção,
ao seu lado, entregando todas as minhas horas
a Deus, e a ele um grande amor, e por isso vos peço
 
que me deixeis ficar por aqui, pois outro não é
meu desejo, e estejais certas de que para sempre
me hei de lembrar de vós, que me salvaram a vida
tantas vezes, e me apresentaram a esse mundo
onde impera um Amor que eu não suspeitava
a existência, e então, com essas palavras,
que me embaraçam a boca e a língua, eu vos
beijos as mãos e os pés, e a vós entrego
 
minha alma, que a leveis convosco, na forma
da saudade imensa que terei, e só espero
que o Espírito que tantas vezes nos valeu,
continue a acompanhar vossos passos, com a graça
e a benevolência de nosso Senhor Jesus Cristo”,
e, dizendo isso, ajoelhou-se e cobriu de beijos
 
os pés de Antônia e Eulália, por mais que
elas tentassem levantá-la e, erguendo-se
correu para a tapera, cono a esconder-se
nos braços de Grilo, que a esperava ansioso,
por amor a ela e respeito às duas irmãs, de quem
veio logo em seguida despedir-se, com a promessa
de que tudo faria por Tchissola, e de que cumpriria,
ainda que à custa da própria vida, os votos que
fizeram os dois, um ao outro e a Deus, na madrugada
da noite que foi, para Tchissola, a mais feliz de sua vida. (17-2-26)
 
 



4. UMA ENCOMENDA





Antônia chamou Grilo, abraçou-o longamente,
e, desejando a ele e a Tchissola todas as bênçãos
do mundo, disse ainda, “Moço do coração de ouro,
farás por mim uma coisa que te peço?”, ao que
ele respondeu, “Peça, e seja o que for, eu atenderei”,
 
e então Antônia completou, “Esse Cristo negro
que encontraste na praia não é teu, mas pertence
a uma outra história, da qual és apenas um elo,
um intermediário. Deverás, então, tomá-lo
sobre teus ombros, e levá-lo até uma encruzilhada
que te mostrarei, e ali aguardarás com Tchissola
 
por três dias inteiros. Ao final do terceiro dia, vereis
aparecer três homens, sendo dois etíopes, monges,
um negro, imenso, e um pequenino, parecendo
feito de palha, com cabelos trançados que se arrastam
até o chão, e um terceiro homem, desgrenhado,
com um rosto irreconhecível banhado pelo fogo,
que lhe destruiu ainda a pele das mãos e dos braços.
 
Você entregará esse Cristo a eles, que hão de levá-lo
a Bento Nepomuceno do Castelo e Vasques,
Arcebispo de Alcântara da Serra das Lavras,
no distante interior desse país, com ordens expressas
de restaurá-lo e enviá-lo para o Convento da Anunciação
de Maria, aos cuidados de Madre Maria do Egito”,
 
e Antônia correu ao casebre e trouxe de lá
um estranho objeto, que ela entregou a Grilo,
e explicou, “Trancei essa coroa com os espinhos
que me ficaram na carne quando atravessei
a touceira de maricás selvagens; coloque-a
na cabeça de Cristo, pois essa é a minha vontade
e a minha homenagem àquele que sofreu
 
mais do que eu sofri em toda a vida”, e pontuou
ainda, “Dom Bento deve mandar pintar de branco
o Cristo, porque ele há de enegrecer novamente,
dessa vez não pelo sol e a maresia, mas pelo trabalho
e o suor de mulheres como eu, que hão de amá-lo
e de aprender com ele, muito mais do que eu o fiz.” (17-2-26)
 
 




5. A EUCARISTIA SECRETA





 
Antônia e Eulália despediram-se se Tchissola
e Grilo, com recomendações de tias preocupadas,
mas a menina apenas sorriu e deu o braço ao marido,
que a olhou com tal ternura, que as duas mulheres
despreocuparam-se de todos os cuidados, e Antônia,
antes de ir-se, virou-se dizendo, “Esquecia-me,
 
mas vocês devem pedir aos monges que os abençoem,
e eles hão de consagrá-los a uma vida santa e
a um sacerdócio que vocês não imaginam o modo
nem a profundidade! Recebam das mãos deles
a Sagrada Eucaristia, na forma do pão e do vinho
consagrados por suas mãos e transubstanciados
no Corpo e no Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo,
a fim de que sejam, para vocês que os receberem,
 
‘a purificação da alma, a remissão dos pecados,
a comunhão do Teu Espírito Santo, a plenitude
do Reino dos céus, a confiança em Ti e não causa
de juízo e condenação, e não se esqueçam de oferecer
ainda essa adoração espiritual por aqueles que
encontraram o repouso na fé: antepassados, pais,
patriarcas, profetas, apóstolos, pregadores, evangelistas,
mártires, confessores, ascetas, e por todo espírito justo
falecido na fé[1]”, e assim falando deu a mão a Eulália,
e elas arrumaram as trouxas às costas e desapareceram
como por encanta no mato, deixando atrás de si um estranho
perfume de essências místicas, amadeiradas e florais. (17-2-26)
 
 
 

 
 

6. O SÍTIO NOVO






E as duas mulheres caminharam por dias e dias,
e aqui e ali descortinava-se alguma paisagem,
como se fosse um local propício, mas não,
alguma coisa ainda as impelia para frente,
e agora surgia uma pequena vila, e adiante
a torre de uma igreja, e logo mais os arrabaldes
de uma cidadezinha, e elas seguiam andando,
 
até que, num fim de tarde, ouviram sons de tambores,
e cantos de salmodias, e jaculatórias, e havia
um ar de festa e fé por toda parte, e se aproximaram
até onde estava um aglomerado de casinhas,
e uma minúscula igreja, e pela estreita rua que conduzia
até ela, duas fileiras de gente encapuçada, com chapéus
pontiagudos a lhes cobrir a cara, portando tochas acesas
que iluminavam o entardecer, e Antônia, dirigindo-se
 
a uma pessoa da assistência, que cantava com fervor
especial, perguntou-lhe “Quem são esses?”,
e a pessoa respondeu, “Esses são os farricocos,
os ‘ninguém’, os fiéis seguidores de João Batista,
que nessa procissão santa sacrificam seus ‘eus’,
para seguir apenas as palavras do Precursor,
quando disse, ‘Arrependei-vos’, e assim cada um
deposita aos pés do Senhor sua própria vontade
e seus desejos, e caminha com pés descalços,
trocando todo orgulho pelos tropeços do caminho”,
 
e Antônia e Eulália entreolharam-se, e se disseram,
“Irmã, não existe lugar outro que mais queiramos”,
e ali mesmo dispuseram-se a encontrar um sítio,
afastado e ermo, onde pudessem se estabelecer,
e desaparecer da história, e se tornar elas também
‘farricocos’, ‘ninguém’, para poderem se aproximar
o quanto fosse possível, de Deus, e dedicar a Ele
todo seu tempo, suas vidas, suas devoção e alegria,
 
e Eulália tirou da sacola seu Ndembo,
e fez vibrar-lhe o couro, e a cada procissão
marcava o ritmo dos passos com seus toques,
e toda a África seguia com ela, e João Batista
fazia que ‘sim’ com a cabeça, e olhava
para Nosso Senhor, que lá do altar seguia
o corso, a marcar com seus pés pregados
o compasso da fé, com seu Amor imenso,
inefável, incompreensível e misterioso,
 
e assim entregaram num pequeno altar erguido
no pequeno sítio, os despojos de seus ‘eus’,
trocando o efêmero pelo eterno, para que todo dia
pudessem orar, com todo o coração, alma, força e desejo,
 
“Ó Cristo, nosso Deus, Tu que és a plenitude da Lei
e dos Profetas, e que realizaste integralmente
o plano do Pai para a nossa salvação, enche
os nossos corações de alegria e de júbilo,
agora e sempre, e pelos séculos dos séculos”. (18-2-26)
 






7. AS IRMÃS






Não demorou para que Antônia e Eulália
se integrassem na pequena comunidade,
predominantemente africana, que rodeava
a igrejinha do Batista, e logo puderam ocupar
umas terras junto ao córrego, no pé da serra,
onde havia uma antiga tapera, para onde
se mudaram, e se instalaram como possível,
 
e ali começaram a plantar feijão, abóbora
e milho, e logo criaram umas poucas galinhas,
e às tardinhas deitavam-se na rede, depois
das Ave-Marias, a descansar, se amar
e fumar um pito, e a cada dia aparecia gente
a dar bom dia, a puxar prosa, a falar do clima,
da chuva, das coisas da vida, e sempre aparecia
alguém precisando de uma ajuda, e elas corriam
 
à roça, a buscar mandioca, uma hortaliça,
ou cebolas, ou qualquer coisa do tipo, e outras vezes
eram conselhos, uma palavra, uma ladainha,
e as pessoas se habituaram a se dirigir ao sítio
das “irmãs”, como eram chamadas, onde, ademais,
foi erguida uma capelinha, e ali havia sempre velas
acesas, para a Virgem, os santos, o Deus-menino,
que Eulália esculpiu em terracota, com seu crucifixo,
 
e aquele se tornou um lugar de devoção e paz,
e todo os anos as irmãs saíam na Procissão do Fogaréu,
com seus chapéus pontudos e as tochas nas mãos,
e ali elas eram ‘ninguém’, com todo mundo, e assim
sentiam-se parte do todo, do pleno, do plano de Deus,
o plano que ele traçou para os seus filhos, coerdeiros
do Reino, juntamente com nosso querido Senhor,
Jesus Cristo, e seu santo, bom e vivificante Espírito.
 
De todos, no entanto, Antônia e Eulália esconderam
seu passado, e para a vila eram apenas ‘as irmãs’,
mulheres pretas, simples e muito devotas, que para ali
se haviam mudado, vindas de não-sei-onde, não-sei-como,
e que ali encontraram seu lugar de ser e de viver,
e assim iam-se seus dias, entre o raiar e o por-do-sol,
alegremente e de tudo despreocupadas não-sei-porquê. (18-2-26)
 
 




8. UMA COMUNIDADE





 
“Sim, todos nós da vila e das redondezas
conhecemos as irmãs pretas, Antônia e Eulália,
elas possuem um sitiozinho no pé da serra,
muito organizadinho, e ali plantam de um tudo,
e criam galinhas, e estão sempre dispostas
a ajudar quem delas precise, e são muito quietinhas
 
e nunca se ouviu de suas bocas palavra alguma
que não fosse de amor e de carinho por todas
as pessoas, não importando quem fossem,
de onde viessem, estando sempre prontas
a qualquer hora da noite e do dia, e a irmã
Antônia tem o corpo e o rosto cobertos
de estranhas cicatrizes, como se tivesse
estado numa chuva de navalhas, tantas
e tão finas são as marcas, mas ela segue
sempre muito alegre, e não se importa nada
 
com nada disso, e agora, recentemente, elas
ergueram uma pequena capelinha ao lado
da casa em que moram, e passam ali horas
a rezar sozinhas, até que a lua esteja alta
no céu, ou que as estrelas desapareçam ao raiar
de um novo dia, e as pessoas gostam muito delas,
pela bondade de seus corações e a simplicidade
com que levam suas vidas, sempre quietinhas,
e não há um que lhes aponte a menor avaria,
 
e, sim, todos da vila se reúnem vez por outra
na capelinha ou no terreiro em frente a ela,
a cantar salmodias e ladainhas, com grande fé,
e elas puxam a cantoria, e são muito afinadas,
como se fossem uma só boca e uma só voz,
o que aumenta muito em nós nossa alegria”. (17/18-2-26)
 





9. AS TIAS






 “Claro que sei quem são as tias Antônia e Eulália,
que chegaram aqui ainda novas, e puseram horta
e criação no sítio em que moram ainda, as duas
sempre sozinhas, e dão conta de tudo, e cuidam
de suas plantinhas medicinais, e o povo da vila
está sempre a visitá-las, por qualquer doença,
enfermidade, quebranto e até casos de família,
 
e elas têm um modo engraçado de rezar, diferente
de tudo o que estamos acostumados aqui,
nas missas e atendimentos do Padre Zezinho,
que é muito bom conosco, mas que não cura,
e nos manda à farmácia de ‘seu’ Chico Antonino,
que cobra caro e nem sempre resolve os problemas,
enquanto que as tias nos recebem sorridentes,
e vão logo preparando suas mezinhas, dizendo
 
‘Nós Te damos graças, ó Rei invisível, que pelo Teu
imenso poder concebeste todas as coisas, e pela
Tua infinita misericórdia tudo chamaste do nada
à existência. Mestre volve Teu olhar do alto dos céus
sobre todos os que inclinam suas cabeças, não diante
da carne e do sangue, mas diante de Ti, o Deus temível.
 
Tu, Senhor, aplaina e endireita tudo o que encontramos
pela frente, segundo as necessidades de cada um.
Navega com os navegantes, acompanha os que caminham
e todos os viajantes.  Cura os enfermos, ó Médico das almas
e dos corpos[2]’, e vão recitando e pondo os chazinhos
a ferver, e nos dão de beber sem cobrar nada por aquilo,
e se despedem como se fossem elas agradecidas
por nos deixarmos curar pelas suas mãos santas,
sempre sujas de terra, mãos santas e pequeninas’,
 
e é fato que suas garrafadas curam, e que seus conselhos
mitigam as dores de quem as procura, e que as orações
que fazem encontram sempre em Deus ouvidos
que as ouçam, e muitos milagres se contam das irmãs,
ou pelo menos é o que dizem, é o que diz o povo,
e o povo, como sabem, tem sempre suas razões”.  (17-2-26)
 
 
 



10. VÓ TONHA, VÓ LÁLIA






O emissário do Bispo chegou ao sítio onde moravam
Vó Tonha e Vó Lália, e, sem pedir licença, foi entrando
pela casa, perscrutando cada canto com um olho
de urubu e outro de águia, e perguntou às duas anciãs
que espécie de coisa faziam elas ali, pois havia
rumores de blasfêmia e heresia nos seus atos,
 
e não se podia admitir que no Arcebispado se deixasse
passar uma coisa assim, esses arremedos falsos
de Cristianismo, com rezas e hinos desconhecidos,
com orações inventadas por elas mesmas, como aquela,
como é mesmo?, que recitavam após cada pretensa
cura, vejamos se me lembro, algo nunca ouvido
na santa Igreja Católica, embora citando a Virgem e
Cristo como é mesmo?, e as duas falaram assim,
 
“Agradecemos-Te, ó Senhor filantropo e Benfeitor
de nossas almas, porque no presente dia, Te dignaste
fazer-nos participantes de Teus Mistérios Celestes
e imortais. Endireita o nosso caminho; confirma-nos
todos em Teu temor; guarda a nossa vida; assegura
os nossos passos, pelas orações e súplicas da gloriosa
Mãe de Deus e sempre Virgem Maria, e de todos os Santos[3]”,
 
e o emissário rapidamente anotou tudo num papel,
e começou a fazer-lhes inúmeras mais perguntas,
sobre a Trindade, e o Espírito Santo, e a virgindade
de Maria, e os anjos, o Reino e o Juízo, e Vó Tonha
e Vó Lália repetiam a cada vez, “Nada sabemos disso,
‘santidade’, somos mulheres fracas, analfabetas,
não tivemos estudo, não conhecemos as letras...
 
só queremos amar a Deus em nosso canto, e, quando
alguém nos pedem, fazemos uma outra oração,
que ouvimos de criança, quando ‘santidade’ nem havia
ainda nascido, e tudo aqui ao redor era uma terra
de bugres, desolada e esquecida”, e ao final de horas
de interrogatório exaustivo, o emissário acabou por
se retirar, convencido de que estivera na presença
 
de duas pobres coitadas, doces mulheres
que o destino esquecera e as deixara em paz
naquelas lonjuras perdidas, e de volta à cidade fez
um relatório ao Bispo, inocentando as velhinhas,
ignorantes mas inocentes, com sua piedosa
e mesma ladainha, “Disso nada sabemos, somos
pobres e fracas velhas analfabetas, não conhecemos
letra nem escrita, tudo o que sabemos são histórias
de crianças da nossa meninice, muito, muito antigas”.
 
Mas antes de se despedir, mais calmo e enternecido,
o emissário do Bispo fez uma última pergunta
às irmãs, dizendo, “Vi que vocês têm um jumentinho
muito manso, que nem amarrado fica, nem preso,
como é o nome dele? É só uma curiosidade, de um
pobre emissário que por vós duas tomou-se de apreço”,
e Vó Lália e Vó Tonha responderam ao mesmo tempo,
como se já soubessem que viria o questionamento:
“O nome do jumentinho, que fiel nos acompanha
desde que, da vida, perdemos todo o temor e todo
medo, o nome do jumentinho é ‘Segredo’.”  (18-2-26)
 
 




11. AQUELE A QUEM O FILHO QUISER REVELAR






Naquele tempo, Jesus disse: ‘Eu te louvo, Pai, Senhor
do céu e da terra, porque escondeste essas coisas
aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos.
Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Meu Pai entregou
tudo a mim. Ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai,
 
e ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho e aquele
a quem o Filho quiser revelar. Venham para mim todos
vocês que estão cansados de carregar o peso do seu fardo,
e eu lhes darei descanso. Carreguem a minha carga
e aprendam de mim, porque sou manso e humilde
de coração, e vocês encontrarão descanso para suas vidas.
Porque a minha carga é suave e o meu fardo é leve’[4].” (17-2-26)
 
 




12. ÚLTIMAS PALAVRAS





“Os atributos de Deus não levam artigo
– não o amor, mas Amor, não a sabedoria,
mas Sabedoria – porque os atributos de Deus
são intrínsecos a Deus, não objetos exteriores,
extrínsecos, como são para o homem.[1]


[1] Dom Nicholas de Moreas, Teologia de São João Apóstolo.

 




 
De Piracicaba, aos 18 dias do mês
de Fevereiro do Ano da Graça de Nosso
Senhor Jesus Cristo, de 2026
 
 
 
[1] Divina Liturgia, Epiclese, Oração Mística.
[2] Divina Liturgia, Pai Nosso, Oração Mística.
[3] Divina Liturgia, Comunhão dos Fieis, Oração Mística.
[4] Mateus 11: 25-30.

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