37. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 12: TCHISSOLA - 12.2. GRILO

 12.2. GRILO

 



Onde as mulheres encontram um degredado, Grilo, e Tchissola se apaixona por ele, decidindo-se a viver em sua companhia, enquanto Antônia e Eulália prosseguem seu caminho.






1. SOU TEU SERVO NESSA HORA






Tchissola saiu a buscar troncos e gravetos
para o fogo, e entretida que estava, não se deu conta
quando à sua frente surgiu um homem, muito alto
e queimado do sol ardente, tendo à cintura
um resto de pano preso, os cabelos longos desgrenhados
e um sorriso na boca, que mostrava os dentes alvos,
e um olhar curioso e complacente, e Tchissola
 
soltou um grito de tamanho susto,
que o homem recuou alguns passos, fazendo
um "não" com os dedos, mas seu rosto
era de tal modo estranho e inocente, que Tchissola
acalmou-se, e timidamente perguntou, "Quem és?",
e o homem respondeu, "Me chamo Jean, eremita,
perdido e bucaneiro", e arrematou, "E tu, és quem?",
 
e ela disse, "Meu nome é Tchissola, Alegria,
e sou ninguém que interesse a pessoa alguma",
e o homem, cuja pele coberta de tatuagens
denotava uma vida aventureira e fora da lei,
falou, "Alegria, por teu nome vejo que importas mais
ao gênero das pessoas humanas, do que todos
os homens que conheci, e ainda também
 
do que várias mulheres, ao longo de minha vida
errante e mundana", e continuou, "Onde moras?
Deixa-me ajudar-te com esse peso", e
sem esperar resposta, tomou sobre as costas
o fardo de lenha, sorriu mais uma vez, e disse,
"Guia-me, sou teu servo nessa hora", e Tchissola
não teve outro remédio do que conduzir o inusitado personagem
até o acampamento, onde a esperavam Eulália e Antônia. (11-2-26)
 





2. QUEM ÉS TU?






Eulália e Antônia tiveram um sobressalto
ao verem Tchissola chegando com um estranho,
mas logo se acalmaram, vendo que ali não estava
nenhum agressor, dos que já se acostumavam,
mas, aparentemente, um homem bom,
que só por ser homem não implicava maldade,
e que se mantinha um pouco afastado de Tchissola,
como a respeitar-lhe um território imaginário,
que ele não invadiria, nem que fosse a isso forçado,
 
e elas lhe fizeram sinal de que se aproximasse,
e, após as perguntas de praxe – “quem és tu?,
teu nome?, tua praça?” – disseram-lhe
que se sentasse, e ele se ajeitou sobre um toco,
e Antônia lhe disse que contasse sua história,
e o porquê de andar por aquelas paragens.
 
E o homem falou, com acento na voz, “Eu sou Jean,
chamado Grilo pelos irmãos que arrepanhei na vida,
e fui embarcadiço durante muito tempo, na caravela
Esperança de Maria, que fazia o caminho das Índias,
levando e trazendo produtos e especiarias,
até o dia em que fomos atacados por piratas, e,
por meus conhecimentos de astronomia, fui poupado
do trágico destino de ser engolido ali mesmo pelas águas,
 
servindo de pasto aos animais marinhos, e levado
aos porões do barco assassino, fui jogado em meio
à carne apodrecida que levavam, e ali me deixaram
esquecido, só me retirando para perguntar-me
de qualquer aspecto do véu, que seu timoneiro,
eventualmente, desconhecia, e nesse ritmo senti
que entravam em novos combates, pelos canhões
e a gritaria, pelos homens feridos que desciam
ao porão, estropiados, feridos, condenados,
 
até que um dia atiraram lá para baixo um prisioneiro,
a que chamaram de “Bizantino”, e o conservaram
vivo, por falar muitas línguas, sendo por isso
muito prestativo, e assim foi a viagem, e o chamavam
a interpretar o que era dito quando negócios havia,
e com ele acabei por fazer amizade, e conversávamos
noite e dia, com ele me falando de homens antigos,
de uma profunda sabedoria, que conheciam
a Deus e as estrelas, e o destino da raça humana,
 
e muitas outras coisas que me contava, e repetia,
como se fôra a coisa mais importante de todas,
que é preciso orar, orar sempre, pois nada ao homem
é tão benéfico, necessário e preciso, e ele tirou
de sua bolsa um terço muito comprido, feito de lã,
em que as contas eram outros tantos nozinhos,
 
e deu-mo, com a recomendação de que orasse
tendo-o sempre em mãos, initerruptamente,
e ensinou-me uma oração muito curta, em favor
de nosso Senhor Jesus Cristo, a qual pratico
até hoje, com grande fervor, e na qual, mais
do que tudo, e acima de tudo, acredito.
 
Mas houve um dia em que sentimos um solavanco,
e a nau adernou um pouco de lado, e a âncora
foi lançada, e repousamos numa enseada, e então
aportamos terra, e os piratas nos desembarcaram
num lugar ermo, desabitado e desconhecido,
 
e nos ordenaram que ali ficaríamos, e que fizéssemos
morada, e que tratássemos de caçar e secar a caça,
e que costurássemos suas velas rasgadas, e
que consertássemos toda espécie de coisas quebradas,
e disseram que seríamos doravante seus bucaneiros,
que “bucan” era o nome que davam ao charque
 
seco ao sol e ao vento, com o qual se alimentavam
quando iam pelos quatro mares adentro, e partiram
logo, e ali ficamos, eu e meu companheiro, e pusemos
mãos à obra, porque a desobediência a um pirata
acarretava castigos piores do que o suplício
pior, a dor mais extraordinária, a morte mais lenta.” (11-2-26)
 




3. TCHISSOLA E O ESTRANHO ANIMAL MARÍTIMO






 “Mas em pouco tempo meu companheiro veio a morrer,
e o enterrei na praia, fazendo as melhores exéquias que pude,
e fiquei a sós com meus pensamentos, e lembrando-me
de suas lições de vida e sabedoria, pus-me a orar,
 
diligentemente, enquanto me desincumbia das tarefas
impostas pelos flibusteiros, caçando, secando a carne
ao sol e ao vento, e costurando as velas, consertando
remos, calafetando salva-vidas e outras coisas
para as quais tive que inventar engenho, mas o fato
 
é que passou-se um ano, e dois, e três, e ao final
do quarto ano cheguei à conclusão de que algo
haveria de ter acontecido aos meus carcereiros,
e abandonei a enseada em que me haviam deixado,
 
e passei a percorrer a costa, que a essa altura
já conhecia bem, assim como seu interior tão vasto,
e por fim arranchei-me sobre um outeiro, de onde
podia avistar o mar, de onde vigiava os horizontes,
à procura de um sinal qualquer que me alertasse.
 
Mas foi-se o tempo, ligeiro, e aborrecido resolvi
construir uma capelinha, onde pudesse orar,
como me havia resolvido, e o fiz, e a adornei
com tudo o que podia, e dos restos de naufrágios
que davam àquelas praias fiz suas vigas, e caibros,
batentes, e bancos, e um pequeno altar, e um dia
 
o mar me trouxe um grande crucifixo, com seu Cristo
pendurado, enegrecido pela maresia, e o pus
sobre a mesa santa, onde pudesse contemplá-lo,
e essa tem sido a minha vida, entre a oração
e o trabalho, e convido as nobres senhoritas
a que me deem a honra de conhecer esse lugar
 
que para mim é mais sagrado do que Roma,
do que qualquer dos muitos lugares santos
pelos quais algum dia eu possa ter passado.”
 
E Eulália olhou para Antônia, que olhou
para Tchissola, que olhava para o homem
como se nunca tivesse na vida visto
algo parecido, como se visse
pela primeira vez algum tipo de anjo,
de pássaro mítico, de fascinante,
exótico e proibido animal marinho. (11-2-26)

 




4. ANTÔNIA E O CRISTO





Grilo levantou-se, e convidou as mulheres a segui-lo,
e embarafustaram pela mata, ele à frente,
e nos seus calcanhares Tchissola, que não conseguia
afastar-se do estrangeiro um só instante,
e atrás Antônia e Eulália, cuidadosamente, prontas
 
a saltar sobre o homem ao menor sinal de desvio
de seu pensamento, e caminharam por horas
entre a vegetação densa, ora subindo, ora descendo,
vadeando córregos, equilibrando-se em troncos
escorregadios lançados sobre abismos, atentas
às cobras e outros bichos, até que chegaram
 
a uma tapera, um ranchinho muito simples
e limpo, com um terreiro à frente e, mais adiante,
o que parecia ser uma capela, rústica, quase uma ruína,
feita de tábuas velhas, com um telhado de palha,
cuja porta, orientada para os lados do mar,
bebia da brisa salgada e refrescava-se aos alísios.
 
E, penetrando na obscuridade da minúscula igrejinha,
logo os olhos se acostumaram, e divisaram,
pendente do teto, sobre o altar, como um bicho,
um grande crucifixo de navio, de madeira enegrecida
pelo tempo e o ambiente marinho, no qual repousava,
em seu acostumado martírio, a figura de Cristo,
preto que nem breu, e Antônia deu um grito,
 
"Meu Cristo! Meu Cristo! O Cristo da cozinha
do Convento, que sempre julguei negro da fumaça
e da fuligem, mas que vejo agora, é negro de travessia,
de ter caminhado sobre mais mares do que ele
próprio poderia, meu Cristo adorado, que foi
embranquecido em algum restauro, mas recuperou
sua tez, sua tez verdadeira, sua e minha melanina,
a melanina ancestral da raça madrinha,
meu Cristo, nosso Cristo, eterno, universal
e bendito, meu Cristo, meu adorado Cristo!",
 
e, atirando-se ao chão com o rosto por terra, irrompeu
em soluços, incontrolavelmente, a ponto de que Eulália e Grilo
colocaram-se ao seu lado, e a consolavam como podiam,
até que Antônia levantou-se lentamente, segurando
o pequeno crucifixo que trazia sempre ao peito,
e, com voz embargada, disse, "Esse não é
o menor milagre que eu vi em vida!", e, voltando-se
para o Senhor crucificado, declarou em alta voz:
 
Nenhum dos que estão ligados pelos desejos
ou paixões da carne é digno de vir a Ti,
aproximar-se de Ti ou servir-Te, ó Rei da glória!
Pois, servir-Te, é uma função grande e temível,
mesmo para os Poderes celestiais. E por causa
da Tua inexcedível e inefável filantropia,
sem alteração ou corrupção, Te fizeste homem
e exerceste para nós o pontificado.

 
E, como sumo sacerdote nosso, confiaste-nos
o ministério desse sacrifício litúrgico e incruento,
pois Tu és o único Senhor, ó Deus nosso,
que Te assentas sobre o trono Querúbico, e reinas
sobre o céu e a terra; Tu és o Senhor dos Serafins
e o Rei de Israel; só Tu és Santo e repousas
entre os santos. Rogo, pois, a Ti que és bom
e receptivo: volve Teu olhar para mim, pecador
e indigno servo; purifica minha alma 
e meu coração de toda consciência maliciosa;

 
e, tendo-me revestido da graça do sacerdócio,
fortalece-me com o poder do Espírito Santo
e torna-me digna de me aproximar da Tua santa mesa
e celebrar o Teu Corpo santo e imaculado
e o Teu Sangue precioso. Aproximo-me inclinando
a cerviz e imploro-Te: não desvies de mim a Tua face,
nem me exclua dos Teus filhos, mas torna-me digna,
a mim pecadora e indigna serva, de oferecer-Te estes dons
.”
 
Pois és Tu que ofereces e és oferecido, recebes
e és distribuído, ó Cristo nosso Deus; nós Te damos glória
juntamente com Teu Pai eterno e com o Teu santíssimo,
bom e vivificante Espírito, agora e sempre,
pelos séculos dos séculos. Amém
.”
 

 


5. EIS AQUI A SERVA DO SENHOR





Em seguida, Antônia caiu novamente por terra,
pálida e desacordada, e assim esteve por largo tempo,
até voltar a si, e encontrar Eulália, Tchissola e Grilo
ao redor dela, e viu que a haviam coberto
com muitos trapos velhos, para que se aquecesse,
 
e lhe deram água, e Grilo buscou na mata
algumas folhas verdes, que lhe esfregou
nas têmporas, e ela sentiu-se melhor, e falou,
"Peço que nada me indaguem agora, pois estou
diante do maior mistério de minha vida, e precisarei
de muitos dias, senão de uma existência inteira,
 
para chegar à menor compreensão daquilo
que ante mim descortinou-se, nessa capela
humilde e sagrada, e a mim, nesse momento,
resta-me somente confessar, eis aqui a serva do Senhor,
faça-se em mim segundo a sua vontade
!". (12-2-26)
 
 



6. UMA LITURGIA DESCONHECIDA






E Grilo falou, “Agora estou entendendo
algumas coisas que o Bizantino fazia,
e porque ele rezava rezas como essa,
e se recolhia no mato, e de lá voltava
com uma estranha aura, pois, ouvindo
 
essa moça falar no sacrifício, vejo
que também ela – de um modo que
não entendo – é alguma espécie
de sacerdotisa, de um tipo que a Igreja
não pensou que existisse, e que ela
está diante de um altar místico,
 
que não vemos, e celebra uma Liturgia
que não sabemos onde começa,
nem quando termina, e que uma santidade
de uma espécie desconhecida, corta
transversalmente seu destino, que ela
carrega como se fosse um fardo leve,
 
quando, na verdade, poucos homens
teriam a força e a vontade, a pureza
e a castidade (a verdadeira) que lhe
infunde o Espírito”, e Grilo fez menção
de ajoelhar-se diante de Antônia,
que o afastou com um gesto manso,
sorrindo, e pousando em sua testa
um beijo suave como uma bênção,
como o faria uma avó ao seu menino,
 
e Antônia então ergueu-se, e, deixando
o recinto, dirigiu-se para a densa mata,
sumindo-se em poucos passos
por um estreito caminho. (12-2-26)
 




7. O CRISTO NAVEGANTE






 Cristo flutuava no mar de desespero do naufrágio,
e à sua cruz agarravam-se homens condenados
às ondas inclementes, que salvam ou condenam
aleatoriamente, não por méritos presentes, futuros
ou passados, mas ao acaso e ao sabor da sorte
que couber a cada um na hora desse mau presságio,
 
e com seus braços fortes, ainda que pregados,
abraçava-os a todos, enquanto mantinha-se
à superfície do oceano, subindo e descendo as ondas,
e apontando com sua coroa de espinhos uma terra
nem próxima, nem distante, para a qual levava
sua carga de sonhos, clamores e esperanças,
 
na carne pânica e trêmula de homens ontem valentes,
a quem já ninguém valia, senão aquele Deus-homem
silente, mudo, com sua face amorosa, a resistir
às vagas que se sucediam, furiosas por haver
sobreviventes à borrasca que o céu da criação às vezes
mandava, para aplacar o orgulho dos navios
que singravam as águas a os desafiavam, e assim
 
despejaram-se numa enseada, mais mortos
do que vivos, mas vivos de qualquer forma,
enquanto o grande Cristo de madeira em sua cruz
deles se despedia, e tornava ao oceano, flutuando
silenciosamente, ao desígnio da maré, em busca
talvez, de mais um náufrago, de outra embarcação
virada, de outro destroço, outro derelito, quem sabe
de uma carcaça humana, no minuto derradeiro,
resgatada para uma vida nova e inesperada
antes que expirasse seu último suspiro, e assim,
 
com sua pele tostada e enegrecida pelo sol e o sal,
pelos anos ou milênios de suas travessias, Cristo
veio dar à enseada onde Grilo, sem o saber, aguardava
que chegasse, ao dia seguinte da partida do companheiro
cujo destino até então desconhecia, mas que,
sem sabê-lo, mudaria sua vida segundo um plano
misterioso, oculto aos homens, e divino. (12-2-26)
 




8. A ÚNICA PRECE






Enquanto Antônia embrenhava-se na mata
em busca de suas respostas e de suas perguntas,
Eulália acercou-se de Grilo a perguntar-lhe
de que modo optara por levar a vida obscura
e triste de eremita, longe de tudo e todos,
a orar diuturnamente em sua capelinha,
diante daquele Cristo negro, estranho e imprevisto,
que olhava o mar distante, como se desejasse
voltar à ventura do resgate daqueles homens,
a terceira categoria de homens, nem vivos,
nem mortos, mas homens que estão no mar .
 
E Grilo respondeu, “Ah!, irmã, a oração!
Pronunciar o nome de Jesus de um modo
sagrado é um auxílio suficiente e que ultrapassa
a tudo para qualquer vida humana. Devemos
chamar por Jesus Cristo em nossa mente, até que
o nome do Senhor penetre em nosso coração,
descendo até suas maiores profundezas.
Quando o nome de Jesus se torna o centro
de nossa vida, ele carrega tudo junto consigo
”.
 
“Mas – veja bem, irmã – o Nome de Jesus não é
um talismã ou uma “fórmula mágica”, pois
ninguém pode usar este Nome efetivamente se não
possuir uma relação interior com o próprio Jesus
”.
 
Pois a Prece de Jesus não é isolada, mas pressupõe
a vivência total da vida Cristã em todas
as suas variadas formas – a prece comum,
a recepção dos sacramentos, a leitura das Escrituras,
os atos pessoais de serviço e compaixão.

 
A Prece de Jesus é um livro para ser aberto e lido
apenas com um espírito evangélico de amor
humilde e autodoação. E ela não torna desnecessária
a Cruz para a qual todo Cristão batizado está convidado:
não imaginemos que a invocação do Nome
é um atalho que dispensa da purificação ascética
”.
 
O ‘caminho do Nome’ é aberto a todos,
mas ninguém é obrigado a adotá-lo, e ele
não desfruta de nenhum monopólio:
não devemos gritar com fervor doentio:
‘Esta é a melhor prece’, e menos ainda:
‘Esta é a única prece
’”.
 
Apenas para os que receberam uma ‘vocação
especialíssima’ a Prece de Jesus se tornará o método
ao redor do qual toda sua vida interior se organizará
”.
 
Seria um erro ‘forçar’ essa prece, elevarmos
a voz interiormente, para tentar induzir intensidade
e emoção. Devemos banir toda sensitividade espiritual.
E talvez os momentos em que não sentimos consolação
emocional ao orarmos, sejam especialmente preciosos
aos olhos de Deus. Não estamos buscando ‘experiências’,
estamos buscando apenas a Jesus Cristo
.”
 
Grilo calou-se, enquanto Tchissola parecia suspensa
em suas palavras e seus lábios, com os olhos marejados
de lágrimas emotivas a contemplar o homem como
nunca vira, nem sonhara, e Eulália afastou-se
discretamente a contemplar daquelas alturas
o oceano distante, tentando divisar, quem sabe,
o que via ali o Cristo negro do altar, que a intrigava
mais do que tudo o que dissera Grilo, embora a oração
fosse também para ela o que de mais valioso existia. (12-2-26)






9. FALAR DO CAMINHO NÃO É FAZER O CAMINHO






“Mas o senhor bispo falava que devemos obedecer
somente o que dizem os livros sagrados da Escritura...”,
começou a dizer Tchissola, e Grilo esperou ouvindo,
enquanto ela contava os sermões de Dom Bernardo,
e depois falou, “Os livros sagrados, sim, os livros,
mas o que são os livros, senão as palavras que tentam
traduzir o que de outro modo nossa mente não seria
capaz de relatar?, mas estamos falando da mente,
 
enquanto que na oração tratamos de outro tipo
de compreensão, de um mergulho profundo naquilo
que as palavras não expressam, nem a mente entende,
mas somente o coração, e estou certo de que
o ‘senhor bispo’ sabia de cor e salteado todo o conteúdo
do ‘livro sagrado’, mas não compreendia seu significado,
ou não faria o que fez, nem você seria esse passarinho
assustado”, e Tchissola admirou-se, porque nada dissera
a Grilo de sua vida, nem de sua experiência passada,
 
e isso só fez aumentar nela o encanto que sentia
por esse homem calmo e tatuado, um homem que,
pela primeira vez em sua vida, escutava o que ela dizia,
e Grilo prosseguiu, “O Cristianismo é como uma ave,
que não tentamos compreender, mas voar com ela,
e assim atiramo-nos dos mais altos picos, esperando
que algum bater de asas nos leve pelo céu, e então
 
nos despedaçamos nos abismos, apenas para
nos levantarmos outra vez, como num transe,
e voltamos a buscar as alturas, e vemos a ave
que plana a milhares de metros, e mais uma vez
nos atiramos no vazio, e outra, e outra, e outra vez,
até que nos damos conta de nosso único voo acontece
 
no vácuo de um coração vazio, que já não espera nada
de seus esforços, mas aguarda, apenas e pacientemente,
a visita que lhe faça nosso Senhor Jesus Cristo,
pela intercessão de seu santíssimo, bom e vivificante
Santo Espírito. E as alturas que alcançaremos então
superam em muito as planuras dessa ave do paraíso.” (13-2-26)
 

 


10. A MOITA DE ESPINHOS






Antônia caminhava sem rumo pela mata,
como se nada mais lhe importasse,
e repetia para si mesma, qual ladainha,
Senhor, Deus onipotente e único santo,
que aceitas o sacrifício de louvor
daqueles que Te invocam de todo coração,
acolhe as súplicas de nós que somos pecadores
e dirige-as para o Teu santo altar.

 
Torna-nos dignos de nos oferecermos a Ti
juntamente com estes dons e sacrifícios espirituais,
pelos nossos pecados e pelos erros devidos
à ignorância do Teu povo. E concede-nos,
Senhor, que possamos encontrar graça
diante de Ti, para que o nosso sacrifício
Te seja agradável; e que o Espírito de bondade
de Tua graça acampe em nós, sobre esses dons
que Te oferecemos e sobre todo o Teu povo
”.
 
E, proferindo essas palavras, deparou-se
com uma grande touceira de espinhos,
que lhe barrava o caminho, e então,
despindo-se, fez com as roupas uma trouxa
que amarrou sobre a cabeça, e lançou-se
corajosamente contra as agulhas,
que lhe laceraram a pele, cortando-a
e perfurando-a em todas as partes,
desde as plantas dos pés, deixando
um rastro de sangue a cada passo que dava,
 
até que emergiu do outro lado, como
um sacrifício cruento, uma ovelha negra
preparada sobre o altar de si mesma,
exangue e exausta, e então clamou
aos ventos, ao horizonte e ao mar,
 
A Ti, Senhor filantropo, entregamos
toda nossa vida e a nossa esperança;
invocamos-Te, pedimos e Te suplicamos:
torna-nos dignos nessa hora de partilhar
com a consciência pura, dos Teus celestiais
e temíveis mistérios, desta Tua santa
e mística Mesa, para a remissão dos pecados,
o perdão das nossas culpas, a comunhão
do Espírito Santo e para a herança o Reino
dos céus; para que nos apresentemos confiantes

 
diante de Ti e não como causa de juízo
ou condenação
”, e, sentindo-se perder
os sentidos novamente, tomou por outra
picada, e após algumas horas de marcha,
avistou o sítio onde Grilo erguera sua capela
ao lado do casebre onde vivia, e para lá
se dirigiu, enquanto ainda lhe valiam as pernas. (14-2-26)
 




11. É DIGNO  E JUSTO






Quando Eulália viu Antônia aproximar-se,
nua e ensanguentada, assustou-se
além de toda medida e correu para ela,
amparando-a com o máximo cuidado,
pois havia ainda muitos espinhos cravados,
e assim a deitaram sobre velhos panos
molhados com a água da bica próxima,
e ela e Tchissola puseram-se a lavá-la,
 
e a retirar-lhe as agulhas, espetos e farpas
da carne, e nisso demoraram longo tempo,
enquanto Antônia permanecia em silêncio,
e nada lhe perguntaram, até que, finalmente,
ela adormeceu exausta, e a colocaram na rede,
toda enfaixada como folhas e trapos, e ela
deixou-se ali ficar, até o dia seguinte.
 
Então vestiram-na o melhor que puderam,
trouxeram frutas e água, e Eulália beijou-lhe
os olhos, cuidando para não tocar em nada
que pudesse piorar ainda mais o seu estado,
e Antônia balbuciou, quase inaudivelmente,
É digno e justo que Te cantemos, Te bendigamos,
Te louvemos, Te agradeçamos e nos prostremos
em todo o Teu Domínio, pois Tu és um Deus
inefável, incompreensível, invisível, inapreensível,
sempre existente e sempre o mesmo, Tu,
 
Teu Filho unigênito e Teu Espírito Santo, Tu,
que nos tiraste do nada para a existência,
e depois da queda levantaste-nos de novo
e não cessas de tudo fazer para nos reconduzir
ao céu e fazer-nos dom do Teu futuro reino;
por tudo isto nós Te damos graças, a Ti,
ao Teu Filho unigênito e ao Teu Espírito Santo,
e por todos os benefícios concedidos conhecidos
e desconhecidos, visíveis e invisíveis
”.

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