36. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 12: TCHISSOLA - 12.1. TCHISSOLA
Onde Antônia e Eulália encontram a menina Tchissola, cativa
do bispo de uma cidade próxima, e a resgatam. O bispo envia matadores para
recapturar a pequena, e eles acabam por encurralar as três mulheres junto a um
precipício, de onde elas caem para a morte. Mas elas sobrevivem e são cuidadas
pelo Menagn, que as devolve à vida e lhes ministra a Eucaristia.
e Eulália disse, “Irmã, estou com fome,
haverá nesse lugar alguma comida?”,
e elas olhavam as casas com suas janelas
apagadas, até que lhes chamou a atenção
um sobrado bastante grande, onde bruxuleava
a luz de alguma vela atrás das cortinas
do que parecia ser uma cozinha, e então
e perscrutaram dentro, para ver o que havia,
e Eulália teve que conter um grito, pois viu
ali dentro uma grande mesa, e atrás dela,
de pé, um senhor muito gordo, em vestes
de bispo, e sobre a mesa, deitada uma
menina negra, ainda uma criança ou quase,
com suas roupas arrancadas e jogadas
ao lado, e o senhor, rosnando entre dentes
verás quanto te há de custar tua desobediência,
mas primeiro hei de marcar-te a carne, para
que saibam todos que és minha”, e, tomando
nas mãos um ferro em brasa, aproximava-se
da pretinha, quando Eulália, saltando
uma pesada panela de ferro que estava
sobre o fogão a lenha, e, como toda força
desferiu um golpe sobre a cabeça do homem,
que desabou no chão, sangrando efusivamente,
agarraram a menina com sua trouxinha
de roupas, trêmula e paralisada de terror,
deixando caído, exangue e espumando
pela boca o velho pervertido, tonto e furibundo,
que já não lhe valiam, mas, virando a cabeça
os sentidos, as duas mulheres que, tão depressa
quanto entraram, voaram pela mesma janela,
levando sua escravinha, e não sem antes pegarem
um grande pedaço de toucinho que defumava
e um garrafão de vinho que havia sobre a mesa,
e cercas, e só pararam quando já não se via
nem a vila, nem as casas, nem cheiro ou fedor
da figura sinistra do bispo. (27-1-26)
despertou ao dia seguinte, com a cabeça latejando
de dor, com os olhos injetados de ódio contra tudo e,
em especial, contra sua pequena escravizada
e as duas mulheres misteriosas que o assaltaram
na noite anterior, levando, além da menina,
e um garrafão de muito bom e raro vinho, e tratou
de se levantar gemendo, gritando pelos demais
negros da casa, e assim fez-se limpar a ferida
e trocar as vestes ensanguentadas, ante os escravos
curiosos, mas que não ousavam perguntar nada,
tomar, dirigiu-se à sede da Municipalidade, onde
entrou ruidosamente chamando pelo alcaide,
e reunindo-se com ele, fez um relato do ocorrido,
carregando nas tintas (embora sem mencionar
a violação frustrada da menina), como se estivesse
inocentemente servindo-se de um vinho quando
e revirando a mesa da cozinha, raptaram a pobre
coitada, que ele tentara proteger com sua vida,
rendendo-lhe uma pancada na cabeça, à traição,
que o deixou semimorto (assim ele dizia), enquanto
as duas diabas se evadiam com a pequena,
que tentara se livrar de suas algozes, gritando
seu nome, enquanto ele desmaiava de dor,
imediatamente prestar essa queixa, e que se tomem
todas as providências para localizar e prender
as três mulheres, e que as trouxessem à sua frente,
para que se lhes aplicassem os mais duros castigos,
que ainda seriam poucos, pela gravíssima ofensa,
não apenas contra o proprietário da orfãzinha,
mas, mais ainda, contra sua dignidade de bispo. (27-1-26)
o dia todo, sem dizer palavra, Antônia na frente,
que parecia conhecer todos os caminhos,
e, chegado o final da tarde, detiveram-se
sobre um outeiro de onde se divisava longe,
e então sentaram-se em círculo, e tomaram
cada qual um pedaço do toucinho, e só então
Eulália perguntou à menina, “Como te chamas?”,
e completou, “Quem são vocês, de onde vieram,
como puderam entrar no sobrado e me tirar
das mãos do homem gordo que punha sobre mim
toda a sua cobiça?”, e Antônia falou, “Joana,
Joaninha, não procures ainda por essas respostas,
mas tratemos, o quanto antes, de dar-te um destino,
pois viestes até aqui conosco sem alternativa,
ser-te-á duro demais, pois vivemos no fio
de uma lâmina por demais cortante, e não quero
que te arrisques mais, vindo conosco até onde
não deverias”, e Eulália acrescentou, “Sabemos
de muitos quilombos nessas cercanias,
e, com certeza em algum deles encontrarás
família, que não tens, ou a tens perdida, pois,
do contrário, não estarias na casa do bispo
a servir-lhe de daminha para seus caprichos.”
“Sinto tanta vergonha, sua santidade me disse
que muitos eram os meus pecados, e que eu
teria que me curvar aos seus desígnios,
para purificar minha alma e escapar ao fogo
dos infernos, que me aguardava ao final
do meu caminho”, e corando, completou,
e que eu desencaminharia muitos homens
santos, e que, por causa dessa blasfêmia
contra os servos de Deus, muito mais ainda
eu deveria sofrer, e que, com dor, ele me puniria”,
e voltou a chorar, soluçando, com sua inocência
rasgada como um pano, e a dor sincera de quem
foi pisada, sem saber como, por que, nem quando.
nós duas estamos aqui, e vamos ajudá-la
no que for preciso”, disse Eulália, e a menina
falou, “Meu nome não é Joaninha, era assim
que o bispo me chamava, ‘minha Joaninha,
minha Joaninha’... mas eu me chamo Tchissola,
que na minha língua quer dizer ‘alegria’, alegria
de pesadelo, com aquele homem sempre
atrás de mim, até que vocês chegaram”,
e Tchissola voltou a chorar, “Por favor,
não me devolvam a ele, eu prefiro a morte
do que passar de novo pelo que passei”,
e Antônia lhe disse, “Tchissola, Alegria,
irmã minha, fica conosco, não te deixaremos
sozinha, e vamos defendê-la, custe o que custar,
e ainda que nos custe nossas vidas”. (27/28-1-26)
que montasse uma patrulha, para sair à caça
das três fugitivas, sendo que a fama das duas
ainda não havia chegado à sua comarca,
de modo que logo juntaram-se quinze homens,
armados e dispostos, e puseram-se em campo
à procura de qualquer pista que os levasse
a localizar as negras e a escrava fugitiva,
o que lhes renderia, ademais, um bom dinheiro,
uma soma que nenhum deles desprezaria.
embrenhavam-se mais e mais fundo na mata,
e Tchissola se lamuriava, “Como é possível
que um homem de Deus seja tão mau?”,
e elas então fizeram uma pausa, e Antônia
explicou, com muita calma, “Acontece,
menina, que João disse, que a Lei foi dada
por Moisés, mas a graça e o amor foram
feitas por Jesus Cristo”, e essa graça divina
consiste em tudo o que Deus concedeu
ao homem, através do Santo Espírito,
do homem, como o amor, a liberdade,
a sabedoria, enquanto a Lei, que começa
em Moisés, acaba por caminhar por vias
tortas, mesclando-se pouco a pouco
com as leis estatais (desde Justiniano),
acabando por fundir a lei divina
com a humana, criando finalmente
o que chamamos de ‘religião’, que,
o ‘eu’ do ‘outro’, o ‘nós’ do ‘eles’,
os ‘quer serão salvos’, dos ‘condenados’,
e tudo isso foi assumido pela Igreja
como o muro por excelência
da Cristandade, dentro do qual
cada um constrói sua própria mureta
particular, dentro da qual é rei, reizinho
de nada, mas feliz da vida pelo poder
que lhe foi dado, e cada qual forma
seu próprio exército de opiniões
e apaniguados, e seguem alegremente
autocomplacência e comodidade,
e assim ‘Sua Santidade’, que você
bem conhece, esse homem podre, maldito,
que manipula os outros à sua vontade,
enquanto, do lado de fora nós buscamos
nossas própria liberdade, e procuramos
o divino, livres que somos, e esperamos
que a graça do Santo Espírito habite
em nós, e nos dons que a Deus oferecemos,
e nos caçam como malfeitoras, mas somos
apenas mulheres que assumiram
sua própria liberdade, da qual não abrimos
mão, e lutaremos por isso por onde quer
que vamos, e custe o que custar,
e tanto quando o pudermos”, e então,
ouviu-se um tiro e um grito, e a menina
caiu ao chão, jorrando sangue do peito,
e Antônia e Eulália, tomadas de susto,
levantaram-se rapidamente e, agarrando
Tchissola pelo braço, mergulharam
em meio aos arbustos, em correria,
e avançaram entre galhos, espinhos,
urtigas e os gemidos da menina,
onde se detiveram, e foram logo
alcançadas pela milícia, que com
sorrisos arreganhados, avançaram
sobre elas, que se abraçaram,
protegendo com seus corpos a menina,
que disse num suspiro, “Não deixem
que me levem de volta, por favor! Vocês
não imaginam do que o homem mau é capaz,
eu prefiro morrer, do que isso!”, e,
protetoras, deu um impulso com o pé,
e as três precipitaram-se no abismo,
cuja goela se abriu, engolindo-as,
e elas sumiram-se no espaço vazio,
e se fizeram em pedaços no fundo,
e ali estiveram, inertes, enquanto
seus perseguidores perscrutavam
as profundezas, até desistirem,
a uma queda dessas, vamo-nos daqui,
e Sua Santidade estará alegre com
a nossa empreita, e nos recompensará,
sem que tenhamos que lhe levar,
seja as cabeças, seja as orelhas”,
e riram-se pra valer, e voltaram
para a vila, pra lá de satisfeitos. (28-1-26)
e escarrapachou-se em sua espreguiçadeira,
e adormeceu, com a alma leve e o coração
tranquilo, sem suspeitar do que acontecera
fora das vistas de toda gente, e que nenhum
de seus homens testemunhara, nem ninguém
naquela terra sem dono, imaginaria,
contava-se a história da maldição que havia
sido rompida, e a fama se espalhou, e Dom Bernardo
se viu alçado à figura de herói, e grande homem, quase
santo, por ter vencido o embate com o próprio diabo
que, na pele daquelas negras se escondia.
e quase não se reconhecia, nem sabia
onde estava, nem o que acontecia ao redor seu,
mas viu que flutuava, como bêbada, dentro
de um caldeirão enorme, que fervia, e junto
dela percebeu os corpos de Eulália e Tchissola,
e deu um grito, pois estavam descarnados,
e eram apenas ossos que boiavam num caldo,
ao olhar as mãos, com seus carpo, tarso
e metatarso, e o braço feito de rádio,
cúbito e ulna, e viu suas costelas, e a bacia,
e os ossos das pernas, sem carne alguma,
e noutra panela ferviam músculos, olhos,
nervos, órgãos de todo tipo, e das sombras
emergiu uma estranha figura, que Antônia
reconheceu, e a quem, com sua voz de caveira,
chamou, “Menagn!”, e a figura se aproximou
e ela viu que era o mesmo homem de palha,
e subitamente ela se acalmou, e, fechando
os olhos, adormeceu, e sonhou, sonhou, sonhou.” (28-1-26)
aos ouvidos de Antônia, enquanto diante
de seus olhos seu próprio esqueleto dançava,
gargalhando de forma grotesca, enquanto
declamava claqueteando a mandíbula
da caveira descarnada, sinistra e desvairada,
do homem e de criação da existência espiritual”,
berrava o tambor com uma voz que reverberava,
“...Mas também material, a carne, a carne”,
Antônia gritava, e a caveira girava em torno dela,
e ia e vinha, e uma fogueira se acendia e apagava,
“E tudo acontece na perfeição da criação
e na união amorosa com o Criador”, e Antônia
respondia, “A carne, a carne!, a realidade,
o que faço com ela?”, e pensava, “O que sinto, de fato,
minha experiência real, vivida, a dor que sinto
abandonada, onde está a sinergia entre o eu e Deus,
ó meu Deus, onde participo nas tuas ações incriadas,
onde nelas sou santificada?”, e Antônia ria-se
às gargalhadas, “Tu te aproximas do teu arquétipo
para imitá-lo, afastando-te da influência trágica
e alienante dos ímpios”, e em seu sonho dançavam
agora, como se fosse um circo, bispos, senhores, sinhás,
capitães-do-mato, todos vestidos de trapos, e a cena evanescia,
e voltava a caveira, agora com as tranças do Menagn,
que proclamava, “Mas acabas efetivamente por ser
comparada, pela Graça, a Deus, destino da sua criação!”,
encardido e esfarrapado, “Façamos o homem à nossa imagem
e semelhança, desse Deus Único, Supremo Conhecer,
Pai, que se expressa através da sua Palavra gerada,
em Espírito Santo, Divindade em uma substância
com três pessoas, Pai Filho e Espírito Santo”,
e o Menagn ecoava de seu canto, “Onipotente, onisciente,
infinito, sem forma, sem espécie, pré-eterno, eterno,
livre, absoluto, perfeito, bom, incompreensível, fonte de tudo,
aquele que tudo contém, ele mesmo amor, Amor absoluto
e perfeito, que abole toda divisão e a ele une os universos,
pois Um é Deus, ‘O Senhor nosso Deus é um ’”,
e Antônia repetia as lições aprendidas, “Deus criou
com Sua Palavra ‘E Deus disse: haja.. e Deus chamou ’,
‘e Deus disse: façamos o homem ’, como no Evangelho,
‘No começo a Palavra já existia: a Palavra estava
voltada para Deus, e a Palavra era Deus, no começo
ela estava voltada para Deus, e tudo foi feito por meio
dela, e, de tudo o que existe, nada foi feito sem ela ’...”
...E de inopino surgiu à sua frente o rosto disforme
de Jeremias, o bruto, o bronco, o bom, que lhe dizia,
“Mas também tudo veio do Espírito Santo que anima,
que vivificou a criação, ‘e a terra era invisível e vazia,
e as trevas estavam sobre o abismo, e o espírito
de Deus soprava sobre as águas ’, e assim
o Pai se expressa através da Palavra gerada
em Espírito Santo, Deus Trinitário, Um em Três,
e Três em Um, um Deus, uma Natureza
e Ser Divino, um Deus, uma Ação e Vontade
Divina, um Deus: um Conhecimento e Amor
Divino, as Três Pessoas Divinas, o Filho gerado
do Pai, e o Espírito procedente do Pai – e na mesma
ação atemporal e eterna do próprio ser do Pai”,
e a caveira o interrompia, prosseguindo o raciocínio,
“Ó Deus incompreensível, imaterial e sem forma,
que por Seu Amor, e por Seu Amor-Palavra gerado
se fez carne e nos foi nomeado Jesus, ‘Deus conosco’,
ungido diante de nossos olhos ‘Cristo’ para abolir
o diabo falso e divisor, o diabo, o diabo, o atravessador,
a causa da negação e da remoção do homem da fonte
de vida de onde ele veio, tornando-se escravo da morte”,
um após o outro, e ela distinguiu ali seus abusadores,
os comparsas do Russo, e os carrascos de cada fazenda,
os homens de Albuquerque de Matos, o rapaz do posto
de gasolina com sua faca, os cães do bispo Bernardo,
e à frente de todos fugia, desabalada, Tchissola
e ela própria, Antônia, menina ainda, e Eulália,
e a caveira dizia, “De forma que, para que existissem,
a morte tinha que ser abolida, e essa foi também a razão
da encarnação do Verbo Filho de Deus, como um homem
entre os homens! E então a humanidade demonstrou
com precisão a sua natureza gananciosa, quando Ele
ensinou e curou, quando foi amado e odiado,
perseguido, traído, torturado, julgado e crucificado,
morrendo como homem e ressuscitando como
um Deus-homem assumido com sua única natureza,
carregando as duas naturezas, a Divina e a natureza
humana que recebeu com sua encarnação”,
a caveira prosseguia, tomando-a pela mão,
“Pois foi com a Sua encarnação que o Filho e Verbo
de Deus assumiu toda a natureza humana,
na sua existência espiritual e material, e a regenerou
e divinizou, Ele mesmo se tornando o caminho,
sendo a Verdade e a Vida”, e a caveira, num impulso,
atirou-se com ela ao precipício, sem interrupção,
continuando a recitar, cada vez mais alto e bom som,
entre Deus e o homem, o caminho do arrependimento”
e Jeremias gritava aos seus ouvidos, “A mudança da mente
e da direção!”, e a caveira prosseguia, “A pureza da alma,
a iluminação do intelecto, a santificação do ser”,
e agora era Lúcia, com seu rosto muito branco
e uma voz rouca e doce, que lhe falava, “E através
da Ressurreição, a ressurreição com Sua Ressurreição,
a conquista da vida eterna na presença e Unidade de Deus,
porque tudo foi criado para existir”, e agarrando-a
pela cintura, como quem baila embriagada, Lúcia a beijava
com paixão, e Antônia se desprendia de seus braços,
e voltava a despencar no vazio, enquanto Lúcia
gritava lá de cima, da borda do despenhadeiro...
estão os dois mandamentos dados por Cristo,
‘Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração,
com toda a tua alma, com todo o teu entendimento
e com toda a tua força’”, e Antônia repetia o segundo
mandamento, “Ama teu próximo como a ti mesmo”,
e pensava, “Não existe outro mandamento mais importante
do que esses dois ”, e em seu raciocínio aparecia
esse enunciado, “Que se refere ao ser total
de homem, a mente, o comportamento, a vida,
tanto com Deus como com cada pessoa, onde não cabe
nenhum tipo de divisão e separação, nem com Deus,
nem com as pessoas”, e outra vez era Moisés
todo o mal, não apenas como obra, mas também
como pensamento, tanto a nível pessoal como a nível social
e mundano, desde que o vínculo do amor não seja fingido”,
e Jeremias, Jia, anunciava, “Paz para todos e alegria,
não a paz do mundo, que nunca é paz, mas a paz
como um estado interior de cada um que se expressa
tanto a nível individual como a nível global, essa Paz
que também é fonte de alegria”, e agora a caveira
lhe mostrava um espelho quebrado, onde se lia
“Façamos o homem à nossa imagem e semelhança ”,
e da sua liberdade que faz parte da sua natureza,
ninguém pode privá-lo dela, e é por isso que Cristo diz
‘Se alguém quer me seguir... ”, e o Menagn repetia,
“Pois mesmo a salvação do homem não lhe é imposta,
mas é-lhe oferecida pela sua boa vontade, porque
a salvação do homem não pode ser um ato de uma só parte,
mas de sinergia entre Deus e o homem, e é por isso
com o livre arbítrio do homem”, e então à frente dela
estavam Maria do Egito, Soeur Madelèine, e Fatumata,
Ana, Tecla, Teodora, Maria, Dita, Amatou, e Rosa,
Rosalva e Rosália, Margô, Alda, Margarita, Moema,
Jurema, Iracema, Elizabete, Valquíria, e Edilene
e Marisa, e Eulália, Tchissola e ela própria, Antônia
menina, que cantavam todas em coro,
do Espírito Santo que é o patrocinador da vida, como foi dito,
‘O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo
a cobrirá com sua sombra e por isso, o Santo que vai nascer
de você será chamado Filho de Deus, pois para Deus
nada é impossível’, e Antônia então disse: “Eis a escrava
do Senhor. Faça-se em mim segundo o teu desígnio .”
e olhando ao redor, viu que se encontrava
numa espécie de caverna, e que a seu lado
Eulália e Tchissola estavam adormecidas,
mas já não encontrou o caldeirão, nem o fogo,
nem a panela, nem sinal algum de gente
que ali tivesse estado, e, esticando-se
e ela se apalpou, como a se certificar
de sua própria materialidade, e então acercou-se
das duas outras que dormiam, e com cuidados
infinitos despertou-as, beijando-lhes
as pálpebras, para que voltassem do sonho,
e elas abriram os olhos como quem vem
por estarem ali, naquela gruta, tão longe
dos seus perseguidores, do abismo
em que caíram, e da vertigem que sentiram
enquanto seus corpos flutuavam no ar,
sem esperança nem consolo, apenas
aguardando que se cumprisse seu destino. (28-1-26)
pois ele está em cada ser, cada coisa, cada um,
e está no vento, e nas gotas de chuva, no raio de sol,
nas folhas que caem das árvores, no gato sobre o muro,
no cachorro que late, no galo que canta, está
em toda parte, e no dia, no sol, na noite, na lua
e nas estrelas, está em todo o mundo criado,
com suas energias criadas, mas principalmente
e na sabedoria, que são as energias de sua própria
essência, anteriores a que se fizesse o mundo,
e das quais todos nós, filhos de adoção, participamos,
pois a todos nos foi dada a condição de herdeiros,
pois em nós existe algo, que é também anterior
à própria Criação, porque a nós foi dada a imagem
e a semelhança, e no próprio Cristo reside
“Deus, ninguém jamais o viu; quem nos revelou
Deus foi o Filho Unigênito, que está no seio
do Pai ”, ele, Jesus Cristo, que está envolvido
no Pai, como uma baía abraça o mar que a rodeia,
sendo da mesma natureza do mar, pois sabemos
que os santos estão nas “mãos” de Deus, mas
de Deus, por ser da mesma substância e natureza,
e assim Cristo nos “explica” Deus, ainda que
a essência de Deus permaneça desconhecida,
e é por isso que nosso espelho é Cristo, pois ele
disse “Quem me vê, vê o Pai ”, e nos deu tudo
o que necessitamos, que se refere a Deus,
todas as coisas necessárias para que entendamos
que Deus é nosso Pai, ainda que adotivos sejamos,
sendo o único Filho Jesus Cristo, o Unigênito. (30-1-26)
porque o nosso Criador é um poeta, um poeta
e um músico, e um dançarino, um escultor,
versado em todas as artes, que fez o mundo
como uma pintura de si mesmo – e por isso
usando para isso a tela do não-ser, trazendo
tudo à existência, e adornando o ser humano
com todo o seu carisma, presenteando-o
com o que de mais caro tinha, ou seja,
da sabedoria, e – posso afirmá-lo com segurança –
da alegria, essa alegria que é você, Tchissola,
livre, amorosa, sábia Tchissola, que preferiu
morrer a voltar ao cativeiro do bispo, e com isso
agradecemos agora com nossa própria forma
de loucura, amor e pitadas de sabedoria, pois
também nós fomos libertas de um círculo
do qual já não tínhamos saída, e o mundo
mais prementes, mais prementes, mais urgentes,
e sim, sabemos que é preciso libertar nossa gente,
sabemos que sem nós você mesma estaria agora
entre correntes, queimada mais uma vez
ou que outra forma de demência queira ser chamado,
mas hoje, depois da morte que tivemos, no abismo
que nos engoliu e vomitou, acordamos como
de um sonho, e nos sentimos mover em outra terra,
como se nossas mãos colhessem frutos de árvores
que crescem sem sementes, como se nossos olhos
assistissem a passagem do sol, da lua, dos planetas
como num teatro onde a plateia está vazia, e o palco
nos acolhe entre suas cortinas e cenários, para que
de outro lado, das estrelas, quem sabe de nós
mesmas, quem sabe – quem sabe quem somos,
quem sabe onde estamos, quem sabe aonde vamos,
quem sabe, quem sabe, quem nos dirá, quem? (30-1-26)
ou não é Deus coisa nenhuma,
porque ou ele explode nossa consciência,
ou permanece gago e mudo,
porque ou ele rasga nosso coração,
ou não passa de uma razão degenerada e impura,
ou bem segui-lo nos levará a outra costa,
a outras ilhas, outro mar, ou ficaremos
aqui, a acender velas num altar enferrujado,
coberto do pó de séculos de enganos,
expulsando os leprosos, acorrentando
os loucos, lapidando a adúltera,
recusando à cananeia a menor migalha
caída ao chão de nosso banquete permissivo,
condenando a prostituta, deixando
que por mais 38 anos espere o paralítico,
ou não passa disso, e se Deus é isso,
talvez seja preferível adorar o sol,
que existe, do que um ente imaginário
que nos dita a regra do que é admissível,
e nos promete um céu risível, onde anjos
nos aguardam com sua monotonia de hinos,
que nos trouxe até aqui, e mergulharmos
no que outros chamam “morte”, mas que,
para nós, será a vida, a vida plena,
o caminho e a verdade a ser vivida. (1-2-26)
Antônia chamou Tchissola e deu a ela
um pequenino pedaço do pão seco
embebido em vinho, dos que lhe foram presentes
de Moisés e do eremita, e lhe disse,
“Toma, come desse pão molhado
no vinho, nele está contido o verdadeiro
corpo e o sangue do nosso Ancestral,
Jesus Cristo, o primogênito da raça
espiritual que herdamos, coma-o,
que se fará carne em ti e contigo,
santificando a matéria de que és feita,
esse corpo que pulsa em ti, que é sagrado,
porque partilhas agora de sua santidade,
porque através de um corpo como o teu
foi Deus também encarnado”, e,
colocando na boca de Tchissola
a pequena partícula, esperou que ela
engolisse, e Tchissola então falou,
do que o que me dizes, pois como é possível
que esse corpo meu, tão ínfimo,
possa se tornar morada do infinito? Justo
esse corpo, que até a pouco era um corpo
de dor e de agonia, o trapo negro nas mãos
do bispo, e de qualquer homem que o quisesse,
o corpo habitado por uma menina sem rosto,
sem história, sem sonhos, sem desejos,
sem direito a nada, o corpo que para Tchissola
era quase uma maldição, que tantas vezes
na morte – misericórdia que esperei a cada dia –,
que rezei para que me acontecesse,
que me levasse o anjo derradeiro, sem nome,
que me libertasse do inferno em que esse corpo
me tinha prisioneira, esse corpo, que quanto mais
desejassem os homens mais eu odiaria,
esse corpo marcado a ferro, fogo e saliva,
que se cravava mais fundo na alma,
na minha carne de menina, em que
cada pulso trazia consigo o medo, o terror,
a desesperança de que o outro dia seria o mesmo,
de uma vida que não tinha saída alguma,
senão suportar mais uma vez, e outra, e outra,
que minha boca já não emitisse o menor gemido,
apenas quieta, sob o peso do último macho
que fizesse de mim o que queria, e agora!”,
e Tchissola abria muito os olhos, “Agora me dizes
que aquele que tenho dentro de mim
é esse Ancestral bendito, que pregou o Amor
no mundo, e que foi escarnecido, amaldiçoado
e ferido, e morto!, morto, como fui eu cada dia,
e que olhou por mim quando o chamei
(coisa que nem eu sabia), e que veio
e se abrigou em meu seio, e pulsa
nas minhas veias, e acaricia meu ventre,
e aquece minha alma e minha carne,
e me reconcilia comigo mesma, e eu olho
para meus braços e os vejo belos,
e passo a mão nos meus cabelos, e os acho
macios, tenros, e minha boca é uma fruta
que minha língua e meus dentes saboreiam,
que me penetra o ser desde os pés pousados
na terra bendita desse Paraíso novo,
que experimento algo, pulsando e subindo
pelas palmas das minhas mãos, enchendo
meus seios com o mesmo leite da Virgem Maria,
Antônia, que carne é essa, que sangue é esse,
que vida nova, que nova pessoa, que desconheço,
que me toma nessa hora, que me arrebata
e me transforma, que fizeste comigo, Tonha,
que estou tonta, Tchissola, essa menina
que transmutastes dessa maneira mágica,
com uma migalha de pão e uma gota de vinho?”
e esteve por longos minutos em silêncio,
e por fim levantou-se, dizendo, “Irmãs,
peço que não estranhem se pelos dias próximos
eu permanecer em silêncio, pois preciso sentir
a presença desse Deus em meu íntimo,
e conversar com ele, e ouvi-lo, pois creio
que cada palavra sua será para mim um alento,
um conforto e um alívio, e que, pela primeira vez
encontrei um homem – que não é um homem –
a quem eu não temerei, nem terei nojo, nem desprezo,
e a quem poderei sempre chamar de amigo
esse homem Jesus Cristo, primogênito
dessa nova raça nascida do Espírito.” (8-2-26)
que ela sentia dentro de si, e colocava
seu melhor ouvido a escutar a resposta
de cada pergunta que fazia, e pensava,
“Esse Ancestral bendito, Deus-homem
solitário, com sua bandeira de Amor,
montado num jumentinho baio,
a percorrer a terra em favor da humanidade,
olhou para nós mulheres, rompendo
as barreiras de tudo o que havia,
que com suas mãos simples ergueu
do chão as inconformadas,
as desprezadas, as adúlteras,
as prostitutas e as vadias, esse Deus,
modelo, bússola, sem nunca ter
constrangido ninguém, por um instante
que fosse, sem ameaças, sem brandir
alguma lança que inspirasse medo ou terror,
mas atraindo a gente apenas com seu Amor,
tornando-se corpo e sangue, encarnado
no ventre de uma mulher como eu,
que o gerou e amamentou, e acompanhou
por toda a vida, até vê-lo agonizar na Cruz
e despedir-se desse mundo num gesto
último de perdão, esse Deus, que feito carne
no meu ventre, na minha mente, nos braços,
nas minhas pernas para caminhar com ele,
e no coração que já não bate só,
mas compartilha seu pulsar com o pulsar
da própria criação, que pulsa nele,
quando jorrou o sangue e a água benfazejos
sobre o solo seco do Gólgota, fazendo brotar
instantaneamente no Centurião o primeiro fruto
de sua benevolência, esse Deus encarnado
como só o fazem os amigos do peito
que respeitam nossos silêncios, esse Deus,
que já não sei viver sem ele, esse Deus
que eu contenho em mim e me ultrapassa,
que me encanta e me arrebata, para além
das possibilidades de meu próprio ser,
com a sua presença, que a seus olhos
me faz mais bela, como a mais bela virgem,
mais do que Betsabé e Madalena, ah!,
esse Deus, meu Deus-homem, em mim
mulher, como eu sou, que me abraça
sem me constranger, que me aperta
contra si com tal carinho, que me deixaria
morrer em seu colo, mas não, porque
essa vida de onde emana toda Verdade,
que é uma Via se desenrolando
em nosso ventre, em nossas veias,
nosso sangue, essa Via que nos leva
até ele, e junto com ele, que conosco anda,
como o fez em Emaús, essa história antiga
que só hoje entendo, e espero que comigo
parta aquele pedaço de pão, para que
eu o veja inteiro, tal como é, irmão, amigo,
parente de minha alma, nunca estrangeiro.” (9-2-26)
que desconheço, alma indescritível,
que nunca ninguém viu nem conhece,
alma que não passa de uma palavra
para representar o impulso que nasce
da carne e sobe aos céus, e mais além,
inexplicavelmente, alma sem cor,
nem forma, nem verso ou reverso,
que a carregue, e se funda nela,
como fusão e fundamento, alicerce
para que construa sua cela e nela habite,
alma que já não distingo de minha pele,
pele dos meus avós e bisavós,
que o Espírito presenteou a mim,
quando ingeri seu corpo e sangue,
que me identificou com toda a história,
e me trouxe de volta minha própria cor
e minha verdade, despida das mentiras
disseminadas há séculos por outras raças,
que se querem portadoras de uma pureza
inexistente, porque a verdadeira repousa
nos pés sujos que caminham sobre a terra,
no rosto cansado ao fim da jornada
de cada dia, nos olhos que se erguem
ao céu estrelado sobre o manto negro
da noite bendita, e veem, na transparência
de que só a escuridão é capaz, o rosto
universal do ser humano, esse deus caído,
que em cada uma de nós, em cada homem,
uma só coisa, uma Trindade, indivisível,
para caminhar sobre essa terra,
e espalhar por toda ela um Amor divino
e sensível, de que somente somos capazes,
mulheres e homens que nascemos,
para sermos isso somos, uma unidade
inseparável, de espírito, alma e carne.” (9-2-26)
que o senhor bispo condenava e apostrofava
com os impropérios piores que sua boca apodrecida
pronunciava, enquanto se deitava sobre mim,
negrinha e bela para seu deleite, corpo
que eu renegava, enquanto minh'alma dele fugia
a toda pressa, para não assistir o espetáculo
da degradação escatológica que me trazia,
corpo, carne humilde sem quem intercedesse
por sua dor, seu enojo, corpo que,
para sobreviver, já não sentia, corpo
que fugiu com quantas pernas tinha,
e Antônia, corpo que recebeu, magrinho,
o corpo do próprio Cristo, criador de tudo, corpo
que hoje brilha mais que o mundo, que traz
em seu bojo de vísceras e sangue o divino,
corpo meu, Tchissola, corpo que reconheço meu,
corpo de Tchissola, corpo de Alegria." (9-2-26)
que faz de tudo uma só coisa,
espécie de teia milagrosa
a cobrir a criação inteira
que faz com que tudo exista
num mesmo universo – ainda
que haja outros, que serão
ainda o mesmo – e que tudo
coexista, porque todo corpo
no mesmo Espírito, esse Espírito
que habita o homem e o envolve,
(como dirá o poeta, um dia,
“Fico a pensar no Espírito disperso,
que unindo a pedra ao gneiss
e a arvore à criança,
como um anel enorme de aliança,
une todas as coisas do Universo ”),
ser devolvido, e que temos
por nosso, embora o tenhamos
recebido, que, por ser permanente,
torna sempiternos a alma e o corpo
que nele existem, por neles residir,
mesmo a menor coisa, e que destrói
o pior diabo e faz dele cordeirinho,
esse Espírito que amolece
o coração de pedra, e endurece
a alma de manteiga dos tímidos
e dos desentendidos, Espírito
que nele depositou as sementes
de todos os que antes de mim
existiram, e me presenteou
Espírito que me coloca aqui,
no presente, no passado, e me lança
no futuro desconhecido, Espírito
e me destinou a ser Alegria,
por onde quer que eu ande, ao longo
do longo caminho dessa via,
que por vezes me absorve, óbolo
obscuro, pedaço já podre de pão duro
que o miserável recebeu na estrada! ”.
em brasas, ante a fatalidade
que me oprime, julgo ver esse Espírito
sublime, chamando-me do sol
com suas asas... ”). (10-2-26)
Antônia e Eulália ouviam Tchissola
a dar risadinhas consigo mesma,
enquanto acompanhava a caminhada
das duas pela mata fechada, embora
a menina seguisse em silêncio,
como dissera, e não dissesse palavra,
mesmo à noite, quando se sentavam
à roda da fogueira, e as duas mulheres
conversavam sobre vários assuntos,
e falavam de Deus e dos mundos,
e eventualmente a ouviam murmurar
pedaço já podre de pão duro hihihi...”
e continuava, baixinho, “...essa sou eu,
hihihi, mas Jesus Cristinho está comigo,
aqui dentro, e Alegria é o meu nome,
e em Seu nome eu sou invencível,
as legiões de anjos, porque fui feita
de carne, alma e espírito, e nisso
sou maior que o mais alto Querubim,
que já nasceu espírito, já nasceu
sabendo, que não teve que subir a escada
que leva do inferno ao firmamento,
feita a mim mesma, de que serei um
minha própria guia, pelas mãos de Deus,
na caminhada que escolhi, eu,
essa bolinha de carne e sebo que derrete
ao sol do meio-dia, tão pequenina,
e tão imensa, porque contenho em mim
o Amor de Cristo, que me faz Alegria,
e subo ao céu que aqui existe, aqui,
nessa terra, que até outro dia
eu pedia que me engolisse, e hoje
sinto que é minha, minha casa,
que divido com ele, na frente da qual
pusemos uma plaquinha, “Aqui vive
Tchissola, com seu Cristo, e essa casa
é o meu pedaço de Paraíso.” (11-2-26)
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