35. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 11: O COMEÇO DE UMA TEOLOGIA

 
11. O COMEÇO DE UMA TEOLOGIA






Onde Antônia e Eulália trocam afetos e conhecimentos, ensinando uma à outra os mistérios do Amor verdadeiro e da união com Deus.





1. A UNIÃO COM DEUS





 
“E a Palavra se fez carne e acampou entre nós,
e nós contemplamos a sua Glória, Glória
do Filho único do Pai, cheio de Graça e de Verdade ”,
e O contemplamos como num teatro, nós,
os que o recebemos e acreditamos no Seu Nome,
Ele que acampou entre nós, que provisoriamente
tomou a forma humana e se revestiu de humanidade,
tornando-se familiar a nós, para que o víssemos,
nós que também estamos acampados nessa vida,
 
porque de Sua plenitude todos nós recebemos,
sem acepção de pessoa, raça, gênero, credo, profissão e fé,
e uma graça que corresponde à Sua Graça, que enriquece
e perfecciona, um pedaço que pegamos da inefável
riqueza e perfeição, e que nos concede a remissão
dos pecados, a adoção e a vida eterna e bem-aventurada.
 
A união com Deus é um sacramento e um mistério,
ela não diminui a Personalidade, nem a vontade,
nem as características físicas, mas nega o individualismo,
e é assim que o homem, usando de sua liberdade,
ao negar as coisas egoístas, se replena de Graça,
porque só o que é feito de forma livre e consciente
tem valor pessoal, mesmo a ascese e os sacrifícios,
 
e a chama da Graça – que é a casa do Espírito Santo –
acesa em nossas almas, nos torna capaz de iluminar
como lâmpadas diante de Jesus Cristo, porque
esse fogo divino e incriado ilumina incorporeamente
e ao mesmo tempo testa a alma como o ouro no cadinho,
e transforma a natureza dos que o veem, a luz interior,
o Pentecostes de cada um, a experiência mística
em que Deus aparece e é conhecido como Luz,
o sacramento do oitavo dia, que pertence ao século futuro.
 
“E é só isso que importa, minha irmã amada”,
disse Antônia a Eulália que repousava em seus braços,
“e esse amor humano deu-nos Deus para que, do alto
da Cruz que carregamos nesse mundo, possamos
contemplar o mundo novo, onde o Amor final
espera todos os seres, e onde não mais haverá
distinção, pecado, reprimenda, culpa,
mas soerguimento, amor e compreensão.
 
‘Pois é Jesus o sumo sacerdote de quem
tínhamos necessidade: santo, inocente,
sem mancha, diferente dos pecadores
e elevado acima dos céus, ele que não precisa,
como precisam os outros sumos sacerdotes,
oferecer diariamente sacrifícios, antes
pelos próprios pecados e depois pelos pecados
do povo; porque ele, oferecendo-se a si mesmo,
fez isso uma vez por todas, e assim sabemos que
a Lei constitui como sumos sacerdotes homens
sujeitos à fraqueza humana; mas a palavra
do juramento, que veio depois da Lei,
constitui o Filho, que é perfeito para sempre ’.
 
E O contemplamos, o homem novo, vivo após tudo isso,
poque não é a Cruz que salva, mas a Ressurreição. (24-1-26)
 




2. QUEM SOMOS NÓS?






“Ó Deus, quem somos nós? Nós duas,
mulheres, pretas, miseráveis, perdidas
nas selvas desse mundo enorme, desse país
que os homens de Europa invadiram
em busca de riquezas e fama, a que deram
o nome de Brasil, e o encheram de minas,
de fazendas, de moendas, de vilas,
de cadeias, senzalas, pelourinhos,
que cobriram de matanças e de igrejas,
 
quem somos nós, caminhando errantes
pelo seu grande sertão, por suas veredas, 
quem somos nós, a quem incumbiu o destino
que vivamos o que vivemos, a quem quis Deus
que libertássemos os cativos e os enfermos,
que percorrêssemos todos os seus infernos,
sempre correndo, sem ter onde repousar
a cabeça, sem um minuto de descanso,
sempre acompanhadas pelo medo,
 
medo dos bichos, dos homens, medo
da chuva, da seca, dos tormentos, medo
do tronco, da chibata, da dor, dos ferimentos
com que nos cobriram a pele, e profanaram
nossa carne, medo, alerta, desconfiança,
nós duas, mulheres sem proteção, atiradas
ao degredo da sorte, perseguidas, desamadas,
odiadas, desprezadas, cobiçadas como caça,
como presa, como mero objeto de desejo,
 
que fomos agredidas, espancadas, vilipendiadas,
violadas de todas as formas, e não há
um centímetro de nossa pele que não arda,
não há gota de nosso sangue que não tenha
sido derramada, e pisada no pó da terra,
e cuspida e profanada, dia após dia, noite
atrás de noite, em pleno sol, nas tempestades,
nas ventanias, nos crepúsculos e madrugadas,
 
a correr pelos quintais dos fundos, a roubar
a carne que seca ao vento nos varais,
uma camisa deixada a quarar, e legumes
das roças, e frutas de cada pomar, sempre
esquivas, furtivas, abaixadas, para não sermos
vistas, nem ouvidas, nem cheiradas pelos cães
que tantas vezes nos morderam os calcanhares,
a uma, a outra, que nos protegemos mutuamente,
e uma dorme enquanto a outra monta guarda,
 
e somente a nós confiamos nossas vidas
e uma somente à outra confia sua alma,
e nossos corações aprenderam a bater em sintonia,
e só quando estamos sós nos sentimos em companhia,
e o caminho que escolhemos, o que nos escolheu,
é longo, inusitado, perigoso, difícil e árduo,
e o único alento que temos é o carinho
que sentimos uma pela outra, e o sabermos
que a cada negro ou negra que libertamos aumenta
nossa dívida para com o divino, e assim nos deu Deus
que possamos nos amar, para que saibamos
 
do fundo de nós duas, no profundo de nossas carnes
que amor há, essa realidade sagrada que Cristo
trouxe ao mundo, para que houvesse, pelo menos
uma gota aqui, outra acolá, essas gotas que somos
malgrado nosso estado, essa graça que recebemos
de não estarmos em pecado, pois jamais Jesus
condenou os que se amavam, e se sentimos
o que sentimos, a cada passo que damos, temos
a certeza de que nos aproximamos um centímetro
do aprisco celeste, onde não existe grego, judeu,
nem homem, nem mulher, e onde Cristo é tudo
em todos, onde o mundo todo está salvo e resgatado.” (25-1-26)






 3. AS CICATRIZES






“Antônia é tão corajosa, tão forte, Antônia
que já viveu mil vidas, que conheceu todos
os cantos da terra, o fundo do coração
e da maldade de todos os homens, Antônia
que não descansa, que está sempre acesa,
 
Antônia coberta de cicatrizes sobre a pele negra,
Antônia tão bela, tão serena, Antônia
tão verdadeira, que ao seu lado me envergonho
de minhas evidentes fraquezas, e procuro
disfarçar minha tibieza sendo valente,
mostrando-me também dura como o lenho,
 
mas sou fraca, fraca, e tudo o que quero
é saber orar a esse Deus que ela adora,
e aninhar-me em seu braços, e adormecer
em seu regaço, Antônia, que me envolveu
em seu fado, que não compreendo,
mas abraço, pelo amor que lhe tenho,
 
e por amor a Deus, que aprendo, a cada dia
ao seu lado, eu, pobre Eulália,
que nada conheço desse mundo no qual
fui atirada, malgrado minha vontade, eu
que a busco para que me explique a vida,
eu, ávida de paz, que encontro nas migalhas
que caem de minhas orações, enquanto
procuro uma razão, um modo de me aproximar
 
desse Deus, que ela tem tanta certeza,
e a vejo conversar com essas pessoas
que saem da noite, da mata, do nada
e se sentam à nossa mesa, e a tratam
com a familiaridade de quem se conhece
desde o começo das eras, e que depois se vão
e surgem novamente, para meu desconcerto,
 
e a vejo aproximar-se de mim, e em seus braços,
em seus beijos, encontro o que nem sei que procuro,
mas que ali tenho, e nesses momentos meu peito
treme, a vida se preenche, e eu aguardo em meu seio.” (25-1-26)






4. O AMOR DE EULÁLIA





 
“Eulália, é tão doce, tão frágil, e por mim
se faz mais forte, e se ergue e combate,
e não hesita em se colocar em frente
às flechas, às balas, às lanças e às facas,
para me proteger, Eulália que as marcas
 
da chibata quero aliviar com minha saliva,
que as lágrimas quero secar com meus suspiros,
que a infância dolorida, a adolescência roubada
quero resgatar com meus carinhos, Eulália
que escuto cantarolar cantigas de meninas
 
de alguma aldeia de África, que terá ou não
conhecido em seus sonhos, Eulália que sinto
que me conduz a Deus, quando a vejo
e me sumo no abismo de seu corpo negro,
de seus olhos fundos como o oceano,
de cada gemido seu, como uma melodia
 
e um hino a Deus, Eulália cujo amor
me devolve o amor que me foi negado
a cada vez, Eulália, irmã minha que poderia
ser também minha filha, Ana, essa criança
que foi feita em mim, filha de todos os homens,
 
da violência masculina do mundo, filha
de cada puteiro em cada estrada da terra,
onde, como eu, mulheres são conspurcadas
em sua dignidade ancestral, e transformadas
na pior parte da humanidade total, onde eu
decidi-me a lutar enquanto me durar a vida,
 
e que me conduza o Espírito onde lhe aprouver,
e só peço a Deus que me conserve, e que
proteja Eulália, e que eu a tenha ao meu lado
para tudo o que der e vier.” (25-1-26)






5. OS HIPÓCRITAS





“Estou farta dessa sociedade de hipócritas,
dessa igreja maldita, dessa gente malvada
que nos esmagou, nos humilhou, que nos tratou
como se fôssemos baratas no piso da cozinha,
prontas para sermos destroçadas sob seus pés
e seus pênis, para sermos silenciadas para sempre,
 
para sermos reduzidas apenas a corpos negros
– ou brancos, ou de qualquer cor que seja – mas
corpos fracos, sujeitos à imposição da vontade
de outrem, sem direito à autodeterminação
– e penso em Betsabé, estuprada seguidamente
pelo Rei Davi, viúva à força, sem opção de amar,
mero útero para gerar a sabedoria de Salomão,
 
cancelada na própria genealogia do Messias,
nominada apenas como “aquela que foi
esposa de Urias – nós, Eulália e eu, condenadas
a essa vida de fugas e correrias, sem parada,
que escolhemos libertar nossa raça
como a única forma de resistência que nos foi
deixada escolher, e ainda assim, perseguidas,
 
penso em nós, movidas pelo amor a Deus,
às nossas irmãs e irmãos, e a nós mesmas,
que, de outra forma, jamais saberíamos
no que consiste esse mistério que estrutura
o mundo, o Amor de Deus, supremo e desmedido,
 
de que saboreamos uma pitada em nossas línguas
que se entrelaçam num abraço, quando, em transe
quase hipnótico, sagrado, elevamos ao céu
a prece que nos é permitida, esse desejo da alma
por Deus, esse impulso ao divino que chamamos beijo.” (26-1-26)
 





6. UMA TEOLOGIA IMPROVÁVEL






“Por isso minha teologia é de tal modo etérea
e se move entre o improvável pó das estrelas
e se recusa a descer a essa terra de homens
e a pisar o chão das igrejas,
 
por isso minha teologia é matéria,
e se oculta entre as folhas das palmeiras,
e voa nas asas de pássaros selvagens
que se arremessam dos ares à captura
de suas presas,
 
por isso minha teologia é pedra
que rola pela ribanceira, e despedaça
os edifícios cuidadosamente erguidos,
obras de uma vida inteira,
 
por isso minha teologia é fumaça de fogueira
e queima minhas mãos, quando tento
captar seu corpo sutil de neblina
e colocá-lo nas páginas dos livros sobre a mesa,
 
por isso minha teologia peca,
e abre as pernas quando não devia,
e abriga entre suas coxas os cegos, os leprosos,
os coxos e os paralíticos,
 
por isso minha teologia ama e não condena,
e só pousa seus pés onde encontre
esse amor absoluto e sereno,
desconhecido dos homens,
 
por isso minha teologia se cala
ante os braços que trabalham, mais do que
ante as mãos postas que apedrejam,
 
por isso minha teologia é heresia pura,
o caminho torto do desvio,
que conduz a um céu descaminhado
e maldito, por isso
 
minha teologia viverá em meu seio,
agonizante entre os santos dos santos,
e receberá em seus lábios que anseiam, o pão e o vinho,
e só então morrerá, e descansará em Cristo,
e ali repousará eternamente comigo.” (26-1-26)
 





7. Ó FILÓSOFOS!






67.        “Por isso, deixem-nos em paz, ó filósofos,
que já filosofaram tudo o que há para filosofar,
ó teólogos, que já teologaram tudo o que há
para teologar, ó grandes administradores
dessa instituição paquidérmica e falida
a que chamam de ‘religião’,
 
ó homens do mundo, ó lacaios da razão
e do dinheiro, deixem-nos em paz, a nós,
e ao nosso amor desmesurado, deixem-nos
vivê-lo, pois sabemos que Cristo
se esconde nas dobras de nossos pecados,
 
à espera apenas de perdoar-nos, de surpresa,
quando, em meio ao maior dos erros,
sentimos sua presença, e a eles elevamos
a prece muda com que o coração negro se alegra
 
e se recreia, deixem-nos então, sábios da terra,
palmatórias do mundo, pelourinhos
do amor alheio, deixem-nos, porque
na hora menos pensada, quando pousarem
suas pesadíssimas consciências sobre os travesseiros,
 
estaremos dentro de suas casas, na noite escura,
a lhes roubar os escravizados, e junto
suas correntes de ferro, em penhor
de sua liberdade alegre e preta,
e uma ou outra bolsa – que a eles daremos –
de seu rico dinheiro, e essa é a nossa religião,
 
feita de gente livre, de gente amorosa,
que traz no corpo uma pulsação antiga,
como se o relógio do tempo parasse à sua passagem,
e estivéssemos outra vez na câmara alta
daquele velho sobrado, em alguma esquina
da cidade Santa de Jerusalém.” (26-1-26)
 





8. AS IRMÃS PRETAS






Antônia e Eulália se moviam em meio à mata,
e a cada passo, cada respiração, movia-se
dentro delas a mesma prece, o sonho da alma
desterrada e esperançosa, que via em cada vela
no horizonte a nau que a resgatara dessa ilha
de palmeiras tão altas e eretas, e homens rasteiros
e um povo de serpentes, sempre pronto a morder
e injetar seu veneno, Antônia e Eulália moviam-se
 
em silêncio, e cada uma sabia o que se passava
dentro de si, no coração profundo, onde jazia
guardado o segredo da vida, o amor compartilhado,
que, sem saber por que, as impelia para frente,
como se algum porto as aguardasse, com um povo
diferente, onde as tabernas do cais se enchessem
não de bêbados, mas de equilibristas, de mágicos,
de palhaços e bailarinas, de moças trapezistas
e rapazes fortes, e um mestre de cerimônias
 
sempre a sorrir, com sua voz de trovão, a anunciar
ao respeitável público a próxima atração, vinda
das terras distantes do degredo, e que seriam elas
“as incríveis e formosas irmãs pretas”, com seu número
de ilusionismo, que embasbacara capitães-do-mato
e inúmeros fazendeiros, para êxtase da plateia
que não pagara ingresso, porque nesse circo,
como no mundo inteiro, tudo era de graça, tudo
era livre de impostos e taxas, e cada um que chegasse
conhecia seu lugar, sua função, seu amor, seu poleiro. (26-1-26)
 




9. O OITAVO DIA






E, no entanto, tudo isso não passa de utopia,
e não existe esse circo, nem esse picadeiro,
e os personagens que nele se movem são gente
real, com todos os seus problemas, que adquiriram
apenas porque nasceram, e não há no mundo
solução para a raça humana e seu labirinto,
no qual se encontra enredada há tanto tempo.
 
Mas há um segredo, que somente conhece
o ilusionista, que faz surgir do nada uma carta
em sua manga, e nos mostra o tempo, esse mistério
incompreensível, que Cristo decifrou para nós
ao ressuscitar ao terceiro dia, após o Sabbath,
transformando aquele dia no oitavo dia, para
reaparecer novamente, pela primeira vez
aos discípulos, mais uma vez depois de oito dias.
 
Cristo rompeu com a marcha da semana,
deslocando-a de um dia, e assim ele criou
algo que não existia, o século futuro, que está
sempre um dia à frente, dia que vivemos
sem nos darmos conta, mas cuja consciência
tem o dom de mudar tudo, a começar pelo ritmo
da própria existência, que abandona sua batida
aritmética para elevar-se a outra potência.
 
É no oitavo dia que fica o Reino, é onde termina
esse mundo e começa o mundo novo, para aqueles
que o recebem e aceitam, essa é a Terra sem Males,
mas que só existem para os que a veem, e ela requer
lutos e abandonos, mas recompensa com o regozijo
de podermos viver ao ritmo cardíaco, supra-lógico,
que entorta e inutiliza os ponteiros do relógio, e faz
com que todas as coisas se alinhem em desalinho,
que o tino todo se torne desatino, e faz com que a mente
se mova num terreno outro, loucura para os gregos
e escândalo para os judeus. (26-1-26)






10. A DIVINA EMBRIAGUEZ




 

As palavras de Cristo não podem ser entendidas pelos sóbrios,
elas requerem um mínimo de embriaguez - ou melhor,
um máximo - elas requerem que mergulhemos
num universo caótico e fabuloso,
onde virgens partejam, cegos enxergam, andam paralíticos,
loucos se tornam lúcidos e leprosos se curam,
um mundo onde os mortos ressuscitam e os vivos caminham sobre as águas,
 
e, se não caminharmos nós também por essas vias do absurdo,
nenhuma condição teremos de compreender o que está dito,
pois somente a embriaguez, ou a loucura, permitem
que tais e tantas coisas façam sentido, e que,
ignorantes que somos, ouçamos o que é aos sábios interdito,
para que batamos às portas do Reino, essa nova pátria
 
onde só os alucinados vicejam, pois é preciso que deixemos esse mundo,
com sua lógica menor, tão pequena, para abraçarmos
o impensável, o impossível, no fim das contas, o inefável,
o infinito, para que nos enchemos - como Lorca - de orvalho imortal,
abrindo-nos de todo diante da noite negra,
 
onde os olhos que não vêem, vejam,
e os ouvidos que não ouvem, ouçam,
onde nos juntaremos a comboios de virgens
com suas lâmpadas que queimam eternamente, nesse aprisco,
brilhando como estrelas sobre o mundo do intelecto,
sobre os nossos corações e mentes,
 
e falaremos a língua dos anjos e dos bichos,
e entenderemos que não há mais inimigos,
e nos daremos as mãos, aos sujos, aos imorais, aos mendigos,
e percorreremos o caminho entre risos, com a leveza
de quem tem a certeza de estar remido,
 
e nos juntaremos a Cristo numa praia, junto à fogueira
que ele preparou para comermos juntos,
e lambermos os dedos, e cantarmos juntos velhas canções
que falam de amor, de encontros, de emoções esquecidas,
e de monstros que se perderam no mar,
e já não mais precisam ser temidos. (26-1-26)
 





11. A LOUCURA LENTA






“Talvez por isso Eulália e eu temos vindo
enlouquecendo devagar, devagarinho,
e vemos o mundo às avessas, e não tememos
a morte, a tortura, o pelourinho, talvez
por isso cantamos antigas cantigas
quando nos aproximamos nas noites sem lua
das senzalas, onde se dorme o sono dos oprimidos,
 
talvez por isso ouçam, da casa grande,
como se fosse um assobio, como se vozes
murmurassem no vento, talvez por isso
os senhores e as sinhás acordem,
transidos de medo, com os olhos arregalados
a lhes pularem das órbitas, talvez por isso
 
corramos sorrindo quando nos perseguem,
e deixamos que fujam os que libertamos
enquanto nos embarafustamos por outros atalhos,
de nós duas só conhecidos, a desorientar os cães
que nos vêm lamber as mãos e cheirar
nossos vestidos, sempre brancos, talvez
 
por isso nos creiam fantasmas, criaturas
das encruzilhadas, talvez por isso nos deixem
oferendas pelas estradas, talvez por vivermos
na companhia só de Cristo, nos vejam
como ameaças, e nos temam, como mensageiras
de uma nova ordem, que somente a eles ameaça." (26-1-26)

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