33. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 10: POST SCRIPTUM - 10.4. O MENAGN
11.4. O MENAGN
Onde Antônia, Eulália e Moisés encontram o estranho
personagem chamado Menagn, um santo etíope, protetor das matas e da natureza.
1. O HOMEM DE PALHA
produz o desleixo, e o desleixo leva ao erro,
e foi assim que os fazendeiros, à custa de perderem
um negro após outro, entenderam o padrão,
e montaram uma tocaia muito bem-feita,
e quando Antônia e Eulália se moviam na noite,
circulando a senzala, de repente um cão latiu,
e se atiraram sobre elas, que, rápidas
como gazelas, fugiram para a mata próxima,
correndo a mais não poder, mas cada vez
mais acuadas, e os cães-fila se aproximavam
e elas os podiam sentir nos calcanhares,
que o terreno aberto era uma sentença de morte,
e galgaram uma enorme sapucaia que estendia
seus braços ao céu, enquanto os cães ladravam
como loucos, e aos poucos os homens chegavam,
e, vendo-as no alto da árvore, carregaram
lá de cima, e as duas mulheres se encolhiam
agarradas aos galhos como podiam, e ouviu-se
um primeiro tiro, que passou muito perto,
e um segundo que atingiu Eulália, quase
a derrubando, e um terceiro, mas enquanto
as duas se abraçavam indefesas, viram elas
que Antônia juraria conhecê-la, uma aparição,
um preto velho, de cabelos emaranhados
em tranças que lhe desciam até os pés,
e instantaneamente os cães silenciaram,
e os homens se voltaram para o homenzinho,
como para agarrá-lo e tomá-lo como presa,
na clareira e na mata um relâmpago fortíssimo,
que cegou tudo ao redor, e quando se extinguiu
já não havia mais homens na clareira, e os cães
lambiam as mãos do homem, e se deitavam
aos seus pés, e ele os acariciava, e assim fez
amparou Eulália, e as duas chegaram ao chão,
e ficaram como que paralisadas, até que
o homenzinho se adiantou, fez uma mesura
sem ensaio, e, sem dizer uma palavra,
estendeu-lhes a mão. (17-1-26)
2. PAI, PAINHO
“Pai, Painho”, disse Antônia, “foste tu
que me deste a comunhão no caminho
de Emaús, de que trago ainda as migalhas
das quais por nada me separo, ainda que tenha
Moisés, o grande santo, nos presenteado
com sua bênção na forma de pão consagrado,
nessa mata infinita, e nos encontrastes
por alguma desconhecida magia?”, e
o velhinho respondeu, enquanto sem aproximava
de Eulália e examinava sua ferida, “Filhas”,
disse ele, tragam-me água, para que eu possa
lavar o machucado, que não tem perigo agora,
o corpo-alma delicado dessa menina”, e
Antônia correu até o riacho e trouxe numa folha
uma mancheia de água, que o velho abençoou
enquanto pronunciava estranhas palavras,
e a aspergiu sobre o ferimento de Eulália,
foi retirando dali os fragmentos de pele
e da bala que se alojara, enquanto seguia orando,
e, aos poucos, Eulália voltou a sorrir, e,
segurando a mão do velho, beijou-a, sem saber
como poderia ser tão agradecida, mas o homenzinho
apenas sorriu, e, enquanto as duas irmãs
se abraçavam com lágrimas nos olhos, sumiu. (17-1-26)
3. NOVO ASSALTO
A história das duas negras e do relâmpago
que as salvou do cepo, dos cachorros amansados
que lhes lambiam os pés e silenciavam
quando elas se aproximavam das senzalas,
do misterioso gnomo que surgira do nada
e se sumira sem que pudesse mais ser achado,
tudo isso virou lenda, e era contado em cochichos
pelos negros escravizados, mas também
pelas sinhás que suspiravam para a lua,
e pelos sinhozinhos, e pelos capitães-do-mato,
sumia-se uma negra, desaparecia um negro,
e a fama das duas mulheres – quem eram elas? –
crescia, e os fazendeiros já organizavam nova caçada,
com mais homens, e cães vindos de fora,
porque os cachorros daquelas plagas, de mansos,
estavam inutilizados, e mais uma vez montaram
armadilhas, e se puseram nas encruzilhadas,
penetraram na mata, em silêncio e sem estardalhaço,
até se depararem com um local que denotava
presença humana, e ali perto arrancharam, na espera
de que surgissem as moças, ou alguém que fosse,
e ali ficaram um dia, dois, três, quatro, até que
no quinto dia, Antônia e Eulália adentraram a clareira,
nas águas do riacho, sem se dar conta de que eram vistas,
sem perceber que estavam cercadas, e, quando deram
por isso, já era tarde, e foram agarradas e espancadas,
antes de que pudessem reagir, e os homens, excitados
pela beleza dos corpos das irmãs, dispuseram-se
a brutalizá-las, antes de as arrastarem para o suplício
e atiraram-nas ao chão, amarrando pernas e braços
a espeques cravados na terra, mas quando se preparavam
para iniciar o ato maldito, Antônia e Eulália gritaram
com tanta força quanto puderam, “Jia! Jia!”, e todos
pararam por um momento, e então viram surgir do mato
sem rosto, com as mãos em forma de chagas,
que se atirou sobre eles, e, com força acima do humano,
lançou-os por todos os lados, quebrando os braços a um,
rompendo o crânio àquele, o queixo ao outro, e atrás dele
surgiu ainda um negro descomunal, de batina ou coisa assim,
que varreu o resto da clareira, e os homens que ali estavam
antes tão seguros e satisfeitos, só pensavam agora
em correr pelas suas vidas, batidos e estropiados,
de suas cadeias, e as cobriam com suas roupas,
e, como criados fiéis, postaram-se, um de cada lado,
à espera de que o barulho da tropa em fuga
se desvanecesse ao longe, e que tudo aquilo
passasse a fazer parte do passado. (17-1-26)
4. COMO SE FORMAM AS LENDAS
Ao retornarem da expedição de captura
à fazenda grande, os homens se reuniram
no terreiro, contando os feridos e os quebrados,
e decidiram que tudo aquilo só poderia ser
posto na conta do diabo, e que as duas negras
eram endemoniadas, e que tinham pacto
um monstro sem rosto e com as mãos em chagas,
e um monge imenso, que varria os homens
com um crucifixo em brasa, e logo os olhos
das assombrações brilhavam no escuro,
e os urros semelhavam o esturro da onça,
e a cada relato cresciam as deformações,
as estranhezas, o aspecto medonho, a feiura,
e só ressaltava, ao contrário, a beleza das irmãs,
verdadeiras Yaras em terra seca, ante quem
e as obedecia, e lambia-lhes os pés, e jamais
voltavam à sua ferocidade de antes,
e quanto mais as histórias cresciam, em magnitude
e detalhes inacreditáveis, mais sonhavam
as senzalas, tremiam os sinhozinhos, e as sinhás
elas, levadas nas noites pelas moças negras,
que as libertariam também de seus cativeiros,
da vida medíocre que não escolheram,
mas à qual se viram, malgrado si mesmas, forçadas.
e não mais se fizeram excursões, e tudo ficou
por conta da lenda, das duas irmãs negras
e seu séquito de monstruosidades, que padre algum
poderia compreender, nem benzer, nem exorcizar. (17-1-26)
5. SEDE ÁRVORES
Enquanto estavam os quatro reunidos,
e Eulália e Antônia se abraçavam e beijavam
as mãos de seus salvadores, uma voz se ouviu,
“Minhas filhas, minhas adoradas filhas,
que purificais todo o ar dessas matas
com sua simples presença física,
eu vos trago uma mensagem, que vem
dos tempos imemoriais do santo Jardim:
‘Sede Igrejas, sede Paraísos, sede árvores’”,
e todos se voltaram e se depararam
com o homenzinho de palha, que surgiu da mata
e se juntou ao grupo, sentando-se no chão.
ajoelhando-se diante dele, e o homem
o abençoou com sua cruz, tocando sua testa
por três vezes, depois esfregando suas mãos
nas bochechas, pescoço e novamente a testa,
entoando palavras de bênçãos e soprando
sob ele, e logo Jeremias e as duas mulheres
o imitaram, e então o homenzinho se dispôs
a falar, e começou repetindo, “Sede Igrejas,
ou não sabeis que ‘o vosso corpo é templo
do Espírito Santo, que em vós está, e que vos foi
dado por Deus; por isso, já não pertenceis
a vós mesmas, pois alguém pagou
um alto preço pelo vosso resgate; então,
glorificai a Deus nos vossos corpos’,
que têm no centro de sua constituição,
como nos templos, o santo dos santos,
a Arca da Aliança (onde acampa o próprio Cristo
enquanto viverdes vós também nesse acampamento
a que viestes), e ao redor do recinto sagrado,
se ergue o círculo do coração, que recebe
a Eucaristia, e que é cercado por outro círculo
mais amplo, o local do cântico, sob o teto
abençoado da pessoa humana, envolvido ainda
pelo muro construído com as pedras do caminho,
que pisotearia a floresta sagrada, se lhe fosse
franqueado o ingresso, esse muro santo,
que abriga as cobras, lagartos e insetos
que nos protegem, esse muro que permite
que em seu interior cresçam as árvores,
e que essa Igreja – que sois vós – seja
como a Arca, onde toda a criação se abriga,
o último abrigo da vida selvagem, a salvo
do Dilúvio que a humanidade preferiu para si,
que erode a vida e enaltece a morte,
que desertifica o Jardim, enquanto vós
sois o lar dos insetos polinizadores,
das plantas que conduzem a água ao subsolo,
e trazem as águas subterrâneas para lançá-las
outra vez às nuvens do céu, das plantas
que curam, que aliviam as dores, que salvam,
que Deus pôs na terra pelas mãos de Cristo,
e sois a igreja no centro dessa mata,
e sois a mulher no centro dessa igreja,
a esposa de Cristo, que Dele vos revestistes,
e sois assim, ainda, esse mistério, que fez
de Deus um ser humano, e do ser humano
fez um Deus, pela Graça, coerdeiras do Reino,
e rainhas do Paraíso”, e então, dizendo isso,
o homenzinho se tornou diáfano,
tossiu, fechou os olhos e desapareceu. (20-1-26)
6. O JUÍZO MORA NA CAMINHADA
Jeremias ficou perplexo, Eulália soltou um grito,
Antônia se surpreendeu, mas Moisés apenas sorriu,
e disse, “Não vos assusteis, esse meu amigo
é um Menagn da Etiópia, minha terra, um ser
que está logo abaixo dos anjos, um guardião
das florestas, um ser abençoado, e digo mais,
apenas os mais espiritualizados desses homens
– porque homens são – são capazes da invisibilidade,
como acabastes de ver”, e prosseguiu, “Filhas minhas,
e Jeremias, meu irmão, tudo aqui está feito
para vossa instrução mais elevada, para que
vossos espíritos estejam preparados para a jornada
que vos aguarda no fim desse mundo, que não é
o fim da terra, nem da raça, mas simplesmente
o fim de um modo de ver as coisas, de um desvio
de visão que arrasta para o nada toda a gente”.
e afirmou, com todas as letras, que sois a Arca,
e também que sois a mata, e a própria Igreja,
encerada em vossos corpos jovens, em vossas
almas puras, que não distinguem mais o mal,
e apenas desejam a salvação pela bondade
a todo o mundo, como as árvores dão sombra
e frutos a quem delas se aproxime, e não perguntam
de onde vieram, nem para onde vão, nem quem são
seus pais, nem quem serão seus filhos, e assim Deus,
do santo, e ama os que vão aos céus, como os que descem
aos seus próprios infernos, pois para Ele são todos iguais
com seu Amor desmesurado, esse mesmo Amor
que nos mantém vivos e acordados, esse Amor
que sentis em vossos corações, que se espalha
por todo lado, e sentis uma pela outra, se um modo
tão inocente, sincero e extremado, e por esse Amor
tudo o que fizerdes, filhas minhas, está perdoado,
e caminhareis ainda quando vier o fim de tudo,
e estareis ainda de mãos dadas, a puxar uma fila
que se estenderá desde vós até a alvorada dessa raça
que se originou em Cristo, passando por todos
os que o seguiram e creram nele, e que agora
encontra em vós, filhas minhas, mulheres e negras,
a epítome de seus ensinamentos, e é nessa mesma
ignorância que mostrais pela dimensão de vossa pureza,
que reside a chancela divina, que vos afasta
do orgulho e da soberba, e vos mantém humildes
e felizes, como rainhas de um povo numeroso
que não se dão conta de sua própria realeza”. (21-1-26)
7. SEDE IGREJAS, SEDE PARAÍSOS
"Agora vou explicar-vos as palavras do Menagn,
para que entendais o que significam os dizeres,
‘Sede Igrejas, sede Paraísos, sede árvores’,
até porque por que já sois isso, ainda que
não tenhais inteira consciência da grandeza
e da beleza dessa conquista, porque, como disse
o Apóstolo, vosso corpo é Templo, e por isso,
o Santo dos Santos, onde repousa tabot,
a Arca da Aliança, onde somente a santidade
pode penetrar, e ao seu redor fica o meqdes,
onde é dada a comunhão, e além está
o círculo maior, qine mehelet, o lugar do cântico,
e todos esses lugares ficam sob o teto da igreja,
que circunda toda a área, cercado pelo muro,
cuja distância do edifício corresponde
à envergadura de quarenta anjos”, e Moisés
deu uma discreta risadinha, “e ao atravessar
essa barreira, estareis entrando em solo sagrado.”
a mata, que, sem que saibais, protegeis
com vossa presença pura, e assim o círculo
ao redor da igreja se amplia indefinidamente,
onde quer que estiverdes, e aí cada árvore,
animal ou eremita encontra seu abrigo seguro,
a criação tal como era no princípio, a memória
profunda, a serviço da teia da vida.”
que pisoteia os brotos e as ervas nascentes,
mas ao mesmo tempo ela é porosa, pois
os humanos sempre podem se aproximar de vós,
a qualquer hora, para contemplar, orar
ou coletar as sementes que distribuís
tão singela e generosamente, e assim
vosso tabot é como uma pedra atirada
na paisagem de um lago, que irradia, enviando
ondas concêntricas de santidade para o mundo.”
“Em vossa Arca, todos os animais e plantas
encontram abrigo, enquanto se alastra o Dilúvio
causado pelos homens, e a pergunta que fica
é, como conseguir desacelerá-lo?, como deter
a erosão constante de vida?, e a resposta
está em vós mesmas, na vossa esperança
teimosa que se recusa a desesperar,
que se recusa a aceitar aquela apatia
cansada do mundo à qual tantas pessoas
do mundo atual caíram vítimas.”
disse nosso Menagn, pois a floresta simboliza
exatamente essas transformações contínuas,
e assim também as corrupções e degradações,
associadas ao corpo vivo: do crescimento
à decomposição e, eventualmente, à morte,
e por isso, em outras palavras, diante de nós
e à vista de todos, eles apresentam exatamente
aquilo do qual queremos nos distanciar,
mas que nos faz humanos, e coerdeiros e,
em última instância eternos, imortais.”
é como uma pessoa nua, uma pessoa desonrada,
e por isso eu repito, vós vos cercais dessa mata
mística que carregais convosco, mítica, mística,
sagrada e, acima de tudo, selvagem, para cuidá-la
e vesti-la, como um lugar de culto, devoção,
contemplação de oração, onde tudo está
interconectado e nada existe por si só,
e se preferirdes apenas as criaturas de que gostais
e se destruíres as outras, perdereis tudo.
Lembrai-vos de que aquilo que amais está ligado
a muitas outras coisas, e deveis respeitar essa coexistência.”
Isso é mais do que apenas resumir componentes,
vai além disso, pois essas propriedades emergentes
de uma floresta, todos os frutos floridos – é tão
complicado e sofisticado, essas interações
vós não conseguis explicar, de verdade, não
podeis ver isso. É como as orações dos eremitas,
que também fazem parte das propriedades
emergentes da floresta, invisíveis ao olho destreinado.”
se vos ocultais, não é para escapar da sociedade,
mas para orar pela cura do mundo, e por meio de vós
o mundo é mantido em existência, por meio dede vós
também a vida humana é preservada e honrada por Deus,
e por isso o Menagn disse que vossa presença
purifica todo o ar e a atmosfera ao redor.”
que importa, o que importa é o pertencimento
e a bênção”, e dizendo isso Moisés levantou-se
e cutucou Jeremias, que estava como petrificado,
e os dois homens se curvaram numa reverência e,
tomando por um caminho, foram-se pela mata,
e durante um bom tempo Antônia e Eulália
escutaram seu assobio, que entoava
uma canção há muito tempo deslembrada. (21-1-26)
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