32. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 10: POST SCRIPTUM - 10.3. MOISÉS, O NEGRO

 

11.3. MOISÉS, O NEGRO

 



Onde as duas moças encontram o misterioso monge Moisés o Negro, ou Moisés o Etíope, homem santo que peregrina pelo Novo Mundo na sua busca de iluminação espiritual.




1. O NEGRO MOISÉS




As jovens se entreolharam: “O que aconteceu aqui?”,
e permaneceram por alguns momentos imóveis,
de mãos dadas, respirando compassadamente,
como se fossem uma só pessoa, e, de repente,
o mato se moveu à sua frente, e dali saiu um negro
gigantesco, vestido com uma túnica esfarrapada,
usando uma longa barba, já embranquecida,
e ele parou, fez uma mesura diante das mulheres que,
apavoradas, não sabiam o que fazer, e ele disse,
 
“Não temais, minhas filhas, não vim para vos ofender,
meu nome é Moisés, o Etíope, e fui enviado
por alguém de vós conhecido, Tomé, que Antônia,
mais do que ninguém, sabe quem é”, e Eulália
olhou para Antônia, admirada, e em seus olhos
havia uma enorme pergunta sem palavras,
mas o negro Moisés prosseguiu, dizendo,
 
“Acalmai-vos, crianças, pois vou contar-vos
uma história, para que vos tranquilizeis,
e para que confieis em mim, esse velho homem
que vaga pelo mundo a serviço do único Deus,
aquele que foi, que é e que será tudo para mim.”
 
“Eu era um homem cheio de escuridão e confusão
espiritual que, na agonia de seu coração estava em busca
do ‘verdadeiro’ Deus. Eu habitava entre os pagãos
que adoravam o sol, e falava com o sol e perguntava
sinceramente: ‘Ó sol, se és realmente Deus, avisa-me’.
Mas tudo o que eu fazia eram excessos físicos, bebida,
comida, adultério e atos de violência, e meus caminhos
eram impuros, impuros e – vejo-o agora – possivelmente
fisicamente viciantes, pois isso me assombraria aquando
das guerras espirituais quando eu muito desejava abandoná-los.
 
Mas tão compulsivo quanto meus desejos físicos
era meu desejo obsessivo de conhecer o ‘verdadeiro’ Deus.
Hoje me parece que meu juízo não faltou completamente,
Pois eu estava sempre em busca de algo que talvez fosse
gratificante em minha vida, e nunca tive uma dureza de coração
completa nem recusei aceitar a misericórdia do Deus
que antes desconhecia, e ainda que meu coração
alimentasse maldade sobre maldade, creio que nunca fui
completamente capturado, e talvez meu maior trunfo
tenha sido o coração forte, e não a força para cometer atos violentos.”
 
Moisés interrompeu sua narrativa para dar algumas baforadas
no tosco cachimbo que trazia em alguma parte, e filosofou,
“Costuma-se dizer que o coração é o centro
de toda consciência, a base do intelecto
e o lugar onde a vontade do homem é forjada.
Certamente”, disse, olhando para as duas moças,
“é o lugar de onde a vida espiritual deve seguir.”
 
“Fui ladrão, assassino, liderei setenta e cinco bandidos
e em meu tempo aterrorizei todo o Vale do Nilo;
eu nasci no ano de 330 de nosso Senhor Jesus Cristo,
e em certa ocasião tive que fugir sem meu bando daqueles
que me perseguiam para matar-me, e me refugiei
num mosteiro em Wadi El Natrum, perto da cidade
de Alexandria. Ali encontrei-me com Santo Isidoro,
que não me rejeitou, nem me condenou, e me levou
até São Macário, ambos cheios de bondade divina,
ambos fortes na fé, capazes de ensinar, pregar
e viver a vida pelo exemplo e pelo amor ao Senhor.” (9-1-26)
 





2. MOISÉS, ANTÔNIA E EULÁLIA






“Cada um, individualmente e ambos, coletivamente,
poderiam expulsar o mal do coração de um homem
que nunca conheceu o Senhor Jesus Cristo
e permitir que a misericórdia e a graça de Deus
o permeassem a cada batida do coração.
Em El-Natrum encontrei uma comunidade de irmãos,
que viviam em tal paz e harmonia, que me espantei
como fosse possível, em meio a tanta pobreza,
que houvesse pessoas felizes assim.”
 
“E me disseram que sua companhia era Cristo Jesus,
e então decidi-me a abandonar o homem velho que eu era
e conhecer esse novo homem, renascido em Cristo,
nem que isso durasse uma vida inteira, pois já estava farto
de tantas mortes e desgraças que semeei ao longo de meu caminho,
e desde então converti-me e fui batizado por São Macário
e passei a me dedicar à existência monástica pelo restante
de minha vida terrena, e hoje sei que, a menos que o coração
seja forte e o arrependimento esteja completo, o Espírito Santo
não pode residir permanentemente nele.”
 
“Hoje, passados mais de mil anos, tenho certeza de que
o Espírito Santo residiu em meu coração, pois a maldade
e o mal não retornaram para ocupar sua morada, e a graça
e misericórdia de Deus tornaram meu coração forte
mais forte e mais violento, pois, como disse Clemente
de Alexandria, ‘O reino pertence preeminentemente
aos violentos, são eles que colhem esse fruto da investigação,
estudo e disciplina, para que possam se tornar reis,
explicando que ‘os violentos que invadem o reino’ não são
pessoas argumentativas nos discursos e que exigem muitos sinais.
Diz-se, na verdade, que ‘o tomam à força porque continuam
em uma vida reta e em orações incessantes. Assim,
apagam as manchas deixadas por seus pecados anteriores[1]’."
 
“Depois de muitos anos de lutas espirituais, cheguei
a fundar um mosteiro com mais de quinhentos monges,
para afinal morrer em combate contra salteadores
que desejavam profanar nosso templo, e desde então
vago por esse mundo, a buscar as almas que atendam
ao verdadeiro chamado de Cristo, e aconselhando
às que possuem esse Amor escondido, que nunca,
nunca prejudiquem ninguém, que não pensem mal
de pessoa alguma, que não desprezem aqueles
que fazem o mal, nem deem ouvidos aos que detratam
seu próximo, nem acolham em seu coração
os que espezinham os irmãos, pois é isso tudo
que implica o mandamento ‘morrer pelo próximo’,
 
e se aqui estou agora, é porque as tenho seguido
e acompanho essas desventuras, que por pouco
não resultaram na morte dessas duas bravas meninas
(embora eu jamais permitiria isso), e admirei-me
de vossa caridade para com o homem que as queria mal,
e admirei-me mais ainda de ver o Amor entre vocês,
esse Amor que é o primeiro passo no Caminho sagrado
que leva, por curvas, precipícios e atalhos, daqui até Deus.” (9-1-26)

 



[1] Sayings of St. Clement of Alexandria.




3. ISSO SOIS VÓS




“É preciso que vocês compreendam, filhinhas,
que o que vos acontece não veio do acaso,
mas da providência divina, e então ouvi,
para que tenhais uma direção certa a seguir,
e para que entendais em que ponto estais
vós ambas do Caminho”, e sentando-se na areia
muito à vontade, arrepanhou o hábito gasto,
reacendeu seu cachimbo e disse, com voz rouca,
 
“Saibam que João, o Teólogo, escreveu,
‘Apareceu um homem enviado por Deus,
que se chamava João. Ele veio como testemunha,
para dar testemunho da luz, a fim de que
todos acreditassem por meio dele. Ele não era a luz,
mas apenas a testemunha da luz. A luz verdadeira,
aquela que ilumina todo homem, estava chegando ao mundo.
 
A Palavra estava no mundo, o mundo foi feito por meio dela,
mas o mundo não a conheceu. Ela veio para a sua casa,
mas os seus não a receberam’. Até aqui, amadas filhas.
é a história mais do que conhecida, mas eis que nesse ponto
o Teólogo muda o tom, e afirma com todas as letras,
‘Ela (a Palavra), porém, deu o poder de se tornarem
filhos de Deus a todos os que a receberam’, percebem?,
‘a todos’, ou seja, não com exclusividade a cristãos,
não a judeus, não a gentios, romanos, pagãos, não
aos homens, ou às mulheres, aos velhos ou às crianças,
 
não aos aleijados, aos paralíticos, aos cegos, aos leprosos,
às prostitutas ou aos desajustados, não aos excluídos, a ninguém,
a nenhum grupo, povo, raça, etnia, agrupamento, a nenhuma
categoria em especial, mas a todos, e mesmo às pedras
da calçada, se elas assim o desejarem, pois ela (a Palavra)
o concedeu livremente a cada um – cada uma, entendem? –,
por oposição ‘aos seus’ que não a receberam, pois receber
 
não é ouvir dizer, perceber é introjetar, é sentir nas entranhas,
como vós sentis, e uma pela outra, e ambas por aquele homem,
receber implica a conexão que cada qual tem com Cristo
quando fazem de si Sua morada, como disse Paulo,
‘não sou eu que vive, mas Cristo que vive em mim’[1],
isto é, retomando João, ‘àqueles que acreditam no Seu nome’
esses receberam o poder, o direito, a autoridade, o grau,
a capacitação necessária para se tornarem ‘filhos de Deus’.
 
E Moisés elevou a voz, “Por isso, filhas, por tudo o que sois,
por todos os vossos pecados que já foram mais do que perdoados,
pelos vossos corações puros, por vossas almas brilhantes,
fazeis parte dessa descendência mística, eterna, divina,
dos que ‘não nasceram do sangue, nem do impulso da carne,
nem do desejo do homem, mas nasceram de Deus[2]’.
E isso sois vós.” (9-1-26)



[1] Gálatas 2: 20-21.

[2] João 1: 6-13.



4. O QUE NASCE DO ESPÍRITO






E Moisés prosseguiu, “Penso que os sofrimentos
do momento presente não se comparam com a glória
futura que deverá ser revelada em nós. A própria criação
espera com impaciência a manifestação dos
filhos de Deus. Entregue ao poder do nada – não
por sua própria vontade, mas por vontade daquele
que a submeteu –, a criação abriga a esperança,
pois ela também será liberta da escravidão da corrupção,
para participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus.
 
Sabemos que a criação toda geme e sofre dores de parto
até agora. E não somente ela, mas também nós,
que possuímos os primeiros frutos do Espírito,
gememos no íntimo, esperando a adoção,
a libertação para o nosso corpo. Na esperança,
nós já fomos salvos. Ver o que se espera já não é esperar:
como se pode esperar o que já se vê? Mas, se esperamos
o que não vemos, é na perseverança que o aguardamos.
 
Do mesmo modo, também o Espírito vem em auxílio
da nossa fraqueza, pois nem sabemos o que convém pedir;
mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis.
E aquele que sonda os corações sabe quais são os desejos
do Espírito, pois o Espírito intercede pelos cristãos
de acordo com a vontade de Deus.[1]
 
“Pois disse Jesus, ‘ninguém pode entrar no Reino de Deus,
se não nasce da água e do Espírito. Quem nasce da carne
é carne, quem nasce do Espírito é espírito. Não se espantem
se eu digo que é preciso vocês nascerem do alto.
O vento sopra onde quer, você ouve o barulho,
mas não sabe de onde ele vem, nem para onde vai.
Acontece a mesma coisa com quem nasceu do Espírito.[2]” (9-1-26)

 



[1] Romanos 8: 18-27.

[2] João 3: 5-8.




5. A PROFISSÃO DE FÉ




Antônia adiantou-se, dizendo, “Sim, Mestre,
aguardamos e trabalhamos pelo Espírito,
em íntimo desejo e oração silenciosa,
e erigimos nossas vidas com fundamento
na sinceridade do reconhecimento
de nossa fraqueza, na confissão consciente
dos nossos erros, na consciência
de nossos desvios, e esperamos ser perdoadas,
pois jamais desejamos o mal a ninguém,
como sabeis, e não nos assoberbamos
com as pequenas conquistas que alcançamos
pela Graça do Espírito Santo, em cujas mãos
entregamos cada dia de nossas vidas”,
 
e o grande santo respondeu, “Deus não ouvirá
nossas orações a menos que nos reconheçamos
como pecadores, e fazemos isso quando refletimos
apenas sobre nossos pecados, e não sobre os do próximo.
Quando socorrestes o desventurado Jeremias,
apresentastes diante de Deus vosso coração puro,
como está escrito: ‘O objetivo da nossa profissão de fé,
é o reino de Deus, mas seu propósito imediato, porém,
é a pureza de coração, pois sem isso não podemos
alcançar nosso objetivo, pois para viver com Jesus
precisais lutar, com humildade e oração incessante.
Estas são suas ferramentas para o caminho difícil
que tereis pela frente’.”
 
“Pois se vossas ações não estiverem em harmonia
com vossa oração, vão será o trabalho, e assim
será a humildade a maior de todas as vossas conquistas”.
E Moisés levantou-se, e sua sombra projetou-se
sobre as duas amigas, e ele falou: “Deixo-vos, portanto
um conselho, e que seja esse vosso sustento,
a água pura que as dessedentará na árdua marcha
que tendes pela frente: ‘Lembrai-vos de que vós jejuais,
mas Satanás não come, e de que trabalhais fervorosamente,
mas Satanás nunca dorme. A única dimensão com a qual
podeis superar Satanás é adquirindo humildade,
pois Satanás não tem humildade...[1]’”.
 
“Aqui vos deixo, filhinhas, pois minha viagem foi longa
de Alexandria até aqui” – e Moisés deu uma risadinha – mas
estejais certas de que vos acompanharei, como vos tenho
próximas a mim, como se fôsseis minha própria carne.
Sigo atrás desse Jeremias, pois tenho muito que conversar
com ele, esse bom homem mau, que ainda havereis de encontrar.
Minha bênção, a bênção de um velho ladrão arrependido,
deixo convosco, e só vos peço que não mudeis
um passo sequer de vosso caminho, pois ele foi escrito
 
pelo Espírito, e, embora não o possais ler, estejais certas
de que cada coisa será para vosso progresso,
nesse sendeiro louco que escolhestes, para nele seguir
acompanhando os passos do Mestre de todos nós,
esse Deus que se fez carne conosco, Jesus Cristo,
nosso Rei (embora ele não aprecie o título), Senhor e Deus”. (9-1-26)



[1] The Sayings of Saint Moses the Ethiopian.




6. A CEIA MÍSTICA




Moisés deu alguns passos e parou,
como se fosse se retirar, mas, mudando de ideia
e buscando qualquer coisa entre os panos de sua vestimenta,
logo retirou dali um pedaço de pão seco,
tingido de algum modo de vinho, como se fosse
tão velho como a aurora dos tempos, e dele
extraiu um pedaço menor, não maior
do que um dedo, e do pedaço maior retirou
duas partículas, do tamanho de um milímetro,
e, chamando pelas duas, fez um sinal com a mão
e a cada uma deu uma partícula, dizendo,
 
“Isso que vos dou, deu-mo meu Mestre,
São Macário do Egito, e é isso o corpo e o sangue
de nosso Senhor Jesus Cristo, portanto
tomai, comei (e bebei, pois esse tom violáceo
é o mais puro vinho), para a vida eterna
e a remissão dos pecados!”, e completou
“Levem convosco esse bocado, e comunguem
dele a cada vez que sentirem fraquejar sua fé,
seu amor, sua coragem, pois esse é o alimento
verdadeiro, que sustenta a alma e o corpo,
e faz da pessoa humana portadora dessa forma
de vida, única e rara, que eleva nossa condição
de imagem ao estado de semelhança, desde que
tenhamos consciência de nossa salvação,
e de onde viemos, e para onde vamos.”
 
E recitou, “À beira do mar, aquele que se mantém
longe das ondas, abarca a tudo com seu olhar
e contempla abertamente; mas, se ele mergulha
e entra na água, quando mais ele vai fundo,
mais abandona a visão do que está fora. Assim
são os que comungam da luz divina: quanto mais longe
vão no conhecimento divino, mais profundamente
se abismam na inconsciência[1].”
 
E, ministrando a Antônia e Eulália a Eucaristia
santa, fechou os olhos, orando, “Da sua ceia mística
aceita-me hoje, como participante, ó Filho de Deus,
pois não direi o Teu segredo aos Teus inimigos,
nem Te darei o beijo como Judas, mas confesso-me
a Ti como o ladrão, dizendo, lembra-te de mim,
Senhor, no Teu reino”, e a seguir abençoou-as
com as mãos em cruz, e começou a falar. (12-1-26


[1] São Simeão, o Novo Teólogo – Centúrias.




7. OS DONS




Agora que recebestes esses santos dons,
podereis compreender o que vos tenho guardado.
De fato, a fé em Cristo, a teologia e os dogmas sobre Cristo
e suas relações com o Pai e o Espírito Santo,
se propõem essencialmente a conduzir a humanidade
à purificação e à iluminação do coração, ou seja,
à cura do próprio centro da personalidade do homem; e
à glorificação ou deificação, também chamada theosis,
que é a perfeição da personalidade na visão de glória
e do reino incriado de Cristo com os santos do Senhor,
membros de seu Corpo que é a Igreja[1]”.
 
“Pois a fé, a prece, a teologia e o dogma são métodos
terapêuticos (podemos chamá-los assim?) e como que
sinais indicadores sobre o caminho da iluminação
e até da perfeição, a qual, uma vez atingida, abole a fé,
a prece, a teologia e os dogmas, pois seu objetivo está
precisamente em sua própria abolição, na glorificação
e no amor desinteressado[2]. Com efeito, somente
os iluminados e os glorificados são membros
do Corpo de Cristo e templos do Espírito Santo.”
 
“E por quê? Entendam que Jesus Cristo, antes
de seu nascimento da Virgem e Mãe de Deus,
é, em Sua Pessoa incriada de Anjo de Deus,
de Anjo do Grande Conselho, de Senhor da Glória,
Aquele que revelou a Deus em si próprio
aos patriarcas e aos profetas do Antigo Testamento.
E esse é o testemunho bíblico e patrístico sobre a glorificação,
da qual cada criatura participa, e cada santo comunga
o logos que se faz presente em cada um, multiplicando
de modo visível sua glória incriada: ela está presente
em sua totalidade e em cada um, mas não como
uma parte para cada um. É isso que Cristo ensinou 
e que foi experienciado no dia de Pentecostes.”
 
“Essa é a glória que o Pai e o Espírito aportam ao Logos.
Isso significa que não existem universais em Deus
e que ele sustenta não apenas as espécies,
mas cada porção singular da existência,
em todas as suas múltiplas formas. Assim,
o indivíduo jamais é sacrificado por Cristo
para um pretenso bem comum, mas, ao mesmo tempo,
o bem comum é o bem de cada qual em particular.”
 
“A consequência do mistério da ascensão de Cristo
em sua própria Glória e de seu retorno para junto
de seus discípulos no Espírito de glória, no dia de Pentecostes,
consiste em que daí por diante ele está plenamente
presente em cada etapa da iluminação e da glorificação.
Assim, vede o que acaba de acontecer convosco:
ao partilhar o pão eucarístico que é um, e o cálice
que é um, cada membro do Corpo de Cristo – cada uma
de vós – recebe não uma parte de Cristo, mas Cristo por inteiro,
e se torna aquilo que ele já é, um templo ou uma morada
do Pai e do Espírito Santo no Logos encarnado,
em comum com os demais membros do Corpo de Cristo.[3]
E é isso que é preciso que entendais, para que
possais mergulhar e ir fundo, abandonando,
como foi dito, a visão de tudo o que está fora.” (12-1-26)



[1] Jean Romanides, Teologia Empírica.

[2] Cf.   I Coríntios 13: 8-10.

[3] Excertos de Jean Romanides – Teologia Empírica.




8. AS ENERGIAS DIVINAS




“Então, olhai e vede ao vosso redor,
o mundo em que estais, como criaturas,
e contemplai a maravilha, pois Deus criou,
sustenta e salva a criação, não por meios criados,
mas por Sua própria graça ou energia vivificadora,
e somente Deus pode ser a fonte e o sujeito
de Suas energias criadas, uma vez que as energias divinas
não são nem a essência de Deus (porque isso implicaria
que Deus age por essência e não por vontade),
nem são entidades individuais, porque isso reduziria
Deus a ser, seja um mero agregado de ideias, seja
uma fonte de emanações criadas, o que levaria
a confundir o Filho e o Espírito com essas emanações.”
 
“As energias divinas não são criaturas, mas a glória
criadora, vivificante, justificadora e incriada de Deus.
O homem não pode nem manipular, nem distribuir
essa graça, mas apenas tomar parte nessa luz incriada
de Deus, através da vida concreta de amor desinteressado,
na carne de Cristo, manifestada localmente e formada
pelo próprio Deus, num povo real, aqui e agora.”
 
“Ora, é nesse estado de iluminação, é nele que o amor
interessado se transforma em amor desinteressado,
e esse estado vos prepara – discípulas que sois – para que
vejam em Cristo a divindade da Santa Trindade como glória
e não como fogo consumidor. A aquisição do dom
do amor desinteressado é a condição prévia
para que sejais conduzidas em toda verdade pelo espírito de Cristo.
Pois existe em vós, como humanas, uma memória de Deus,
não funcional ou subfuncional, que reside no coração
e que quando é restaurada no seu funcionamento
resulta na normalização de todas as outras relações,
ao transformar o egoísmo e o amor-próprio baseados no medo,
num amor desinteressado e livre de ansiedade.”
 
“A responsabilidade primária de vós que atingistes
o estado de iluminação é a de iluminar as outras pessoas,
de modo a que elas possam viver e trabalhar unidas
por meio do amor desinteressado e não utilitário,
e ao mesmo tempo se preparar para a experiência
eterna que todos terão. Tende em mente que vós,
assim como o profeta e o teólogo, se formam
pela purificação, a iluminação e a glorificação
do coração, no qual a operação do Espírito satura
e sobrepuja a inteligência e as paixões, transformando
assim o amor-próprio interessado em amor
desinteressado pelo próximo.”
 
“Foi por causa da tirania da morte que o homem
se tornou incapaz de viver o amor desinteressado,
sua predestinação primeira. Desde que nasce,
o homem encontra enraizado nele o instinto
de autoconservação. Vivendo no temor da morte,
ele busca a segurança, tanto física como psicológica,
que o inclina ao individualismo e ao utilitarismo.”
 
“O pecado é, assim, o fracasso do homem, sua total
inaptidão em conhecer uma vida verdadeira,
feita de amor desinteressado, conforme seu destino
original. Esse amor, que não busca seu próprio bem,
é impedido de ser vivido pela doença da morte.
Mas a vida de amor desinteressado e o combate
vitorioso contra os poderes da morte e do diabo
são impossíveis sem a comunhão com a carne
do Senhor, vivificante e ressuscitada.[1]” (12-1-26)



[1] [1] Excertos de Jean Romanides – Teologia Empírica.




9. A COMUNHÃO EUCARÍSTICA




“E é porque sois capazes desse Amor, que eu
vos digo, que a principal característica humana
é seu espírito de amor, concreto e desinteressado,
assim como sua unanimidade na fé. A fé e o amor
mútuo são uma só e mesma realidade,
como o começo e o fim da vida em Cristo.
A unidade mútua no amor é uma imagem
e uma manifestação de imortalidade.
Aqueles que vivem em Cristo, no amor mútuo
e desinteressado, se tornam ‘pedras do templo do Pai,
esquadrejadas para o edifício de Deus Pai, erguidas
até o alto pelo elevador de Cristo, que é a Cruz,
tendo o Espírito Santo como corda’. Vós vos tornais
portadoras de Deus e do templo, de Cristo
e de Sua santidade, ornadas pelos Seus mandamentos”.
 
“E eu vos digo que sois como gemas raras, porque
o amor desinteressado, que é condição para a salvação,
não é algo que se possa adquirir por uma simples
decisão intelectual; nem por uma inclinação
sentimental por uma ideia do bem geral; nem
pela convicção psicológica de que, doravante,
tendo recebido uma graça irresistível, estejamos
predestinados à salvação. Ao contrário,
o verdadeiro amor não utilitário e desinteressado
não tem como se formar senão graças ao poder
da glória incriada de Deus e por um intenso esforço
de abnegação na ascese espiritual e na guerra total
contra Satanás (!). A unidade do amor desinteressado
em Cristo, amor de uns pelos outros e de todos os santos,
constitui um fim em si – não um meio com vistas a outro fim.”
 
“Por isso vos dei a comunhão. A carne ressuscitada
e vivificadora de Deus é a âncora da fé e do amor
desinteressado; ela é dada pela graça do Espírito de Deus.
Nessa união eucarística, Deus nos concede participar
de Sua energia vivificadora e incriada, pela carne de Cristo,
e nos revela a verdade por meio de Seu Santo Espírito.
‘Quando Ele vier, o Espírito da Verdade’, Ele vos conduzirá
em toda verdade (...) ele tomará aquilo que é Meu e o revelará a vós[1].”

 



[1] [1] Excertos de Jean Romanides – Teologia Empírica.

 



10. O AMOR DESINTERESSADO




“Mas vejam bem! Todos os homens conhecerão a Cristo
como verdade, mas nem todos participarão da glória
de Deus em Cristo, pois do ponto de vista de Deus,
não existe diferença alguma entre a danação eterna
e a glorificação eterna: Deus ama a todos os homens igualmente.
Nesse sentido, o Paraíso e o Inferno são a mesma coisa;
apenas do ponto de vista da criatura, do homem e dos anjos,
eles são diferentes. Sua diferença radical está na vontade
da criatura, que aceita ou não aceita se elevar
nos diversos graus do amor desinteressado.”
 
“É por isso que uma teologia – e também uma filosofia
ou uma ideologia – que não busca a transformação
do amor interessado em amor desinteressado,
constitui uma falsa doutrina e um perigo espiritual
para aqueles que a seguem. Ademais, toda teologia
– filosofia ou ideologia – que ensina essa transformação
sem apresentar resultados ou sem saber como enraizar
tal amor nos fiéis, deve também ser considerada como enganosa.
Por isso, antes de me apresentar a vós, primeiro assisti,
oculto no tempo e no espaço, no não-lugar do coração,
o modo e a intensidade como demonstrastes esse amor,
atestando que caminhais pelas veredas da verdadeira
teologia, ainda que não vos destes conta disso.”
 
“A iluminação e o começo da deificação consistem assim
em se libertar inteiramente de toda influência estranha,
e se dedicar à lembrança incessante de Deus, ou seja,
à prece perpétua. Esse estado é um dom de Deus,
ao qual um pai espiritual que o possua deve conduzir
seus filhos espirituais. Essa libertação pela memória
contínua de Deus desenraiza da personalidade
o amor a si próprio e o orgulho, e os substitui pela
 humanidade e o amor desinteressado. Os que pertencem
a essa tradição acreditam que esses graus de iluminação
e de deificação constituem o próprio método utilizado
por Cristo para guiar, não só os apóstolos,
como também os profetas.”
 
“Quando a faculdade superior da mente se identifica
exclusivamente com a lembrança incessante de Deus,
trazendo-a em si, o intelecto, a memória, o corpo
e as paixões continuam a agir, mas, em lugar de serem
dominados pelo meio, são dominados apenas
pela faculdade superior, totalmente liberta.
Uma vez atingido esse estado, o amor já não é egoísta,
mas desinteressado, e o indivíduo, que alcançou
esse grau de perfeição, não ama somente a Deus,
mas a todos os homens e a toda a criação.
Ele está mesmo pronto a abdicar de sua salvação
em benefício dos demais. A verdadeira glorificação
transborda da faculdade superior, enche a alma
e o corpo e santifica o meio, vale dizer,
a criação material e a sociedade.[1]” (12-1-26)



[1] Excertos de Jean Romanides – Teologia Empírica.




11. DIVIDIR UM PEIXINHO




O grande santo ergueu-se, mais uma vez,
ensaiando uma despedida, como se lhe custasse
partir da companhia das irmãs, ainda tontas
com tantas coisas que lhes dissera, mas
reunindo as ideias, apagou o cachimbo e,
com um beijo na testa, disse um adeus tímido,
completando, “Estarei sempre convosco,
ao alcance de um suspiro!”, e sorrindo
para elas voltou-se, e seguiu seu caminho.
 
Antônia e Eulália permaneceram na praia,
sentadas na areia à beira do riacho,
mudas, com o coração descompassado,
e uma sensação de tontura e irrealidade,
como se tudo o que houvesse passado
– o ataque de Jeremias, o longo tempo
de cura e resguardo, as palavras que disse
ao se sentir recuperado, e logo a aparição
do santo negro, e tudo o que ele lhes falara,
 
e ainda o que sentiam intimamente
uma pela outra, esse amor, que se puro,
se inconfesso, se desinteressado,
quem saberia? – como se tudo aquilo
fosse alguma espécie de sonho, de delírio,
de presságio, e então, ainda trêmula,
Eulália viu o Ndembo na areia e, tocando-o
de leve com os dedos, o fez soar, como
nos tempos de sua aldeia, de sua meninice,
dos contos dos avós no terreiro, e Antônia
sentiu ali também os ritmos da periferia
em que fôra criada, e a moça de África
e a de Carapicuíba se viram irmanadas
 
numa única história, numa mesma vida,
saída da miséria existencial de um passado
dolorido e triste, para um instante presente,
todo feito de simplicidade, de amor, da alegria
que só sentem aqueles que se sentaram
com Cristo, à beira do Tiberíades, para com ele
dividir um peixinho, o mesmo que tinham ali,
sobre as brasas da fogueira, pronto para ser repartido. (13-1-26)






12. SEGUINDO O CAMINHO





Durante os meses seguintes, Antônia e Eulália
seguiram sua caminhada, por sendas ignoradas,
evitando as vilas, as pessoas, as tropas de burros,
e, vez por outra, introduzindo-se à noite nas fazendas,
furtivamente, a libertar escravos do tronco
e assaltar despensas, levando toucinhos e queijos,
pães e vinhos, uma panelinha de ferro, uma moringa,
 
e fazendo-se lendas a respeito das figuras noturnas,
que não se sabia serem gente, bicho ou miasma,
assombrações que, juravam alguns, moviam-se
sem tocar o chão, atravessavam paredes, quebravam
cadeias apenas com o toque dos dedos, e havia quem
as descrevesse como seres alados, outros como
a própria personificação da noite, mas todos
concordavam serem negras, e deslumbrantes,
 
com olhos de fogo e mãos de seda e veludo.
com uma aura de vagalumes que as acompanhavam
como véus ao redor da lâmpada, e contavam histórias
de como iludiam os soldados e os fazendeiros,
como deixavam impotentes os capitães-do-mato,
incapazes de resistir a tanta formosura, bravura
e beleza, e escravos sumiam-se madrugada adentro,
 
sem que restasse a menor pista de seu paradeiro,
e as buscas pelos campos e matas resultava em nada,
e mesmo nos quilombos que havia, não se sabia
o que era inventado e o que era verdadeiro, mas o fato
é que algo acontecia, e o mistério só crescia,
enquanto Eulália e Antônia seguiam seu destino,
e Antônia ensinava à irmã tudo o que havia aprendido. (15-1-26)

 

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