31. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 10. POST SCRIPTUM - 10.2. EULÁLIA

 11.2. EULÁLIA



 

Onde vemos o encontro de Antônia com Eulália e o início de uma forte amizade. Entretanto, o capanga mandado em perseguição a Eulália encontra as moças e, em meio a um ataque frustrado, acaba por se tornar como que seu guardião, prometendo-lhes fidelidade eterna.




1. EULÁLIA 







Cautelosamente, as duas mulheres se entreolharam
e se aproximaram passo a passo, estudando-se mutuamente,
cada qual com suas roupas brancas de algodão cru
a denotar sua origem nas senzalas, e as cicatrizes
que cada uma levava nas costas, nos braços, no semblante,
contavam histórias delas muito conhecidas, e traziam
 
lembranças de tempos feitos para ser esquecidos,
e de experiências que nunca mais se apagariam,
e confrontando-se uma tocou a outra, como se se visse
num espelho ou num fantasma de si mesma,
e houve um estremecimento entre elas, que suspiraram
aliviadas ao constatar que eram iguais, e a mesma pessoa
em corpos outros e vidas separadas, e seus olhos
eram duas ilhas nos mares revoltosos da violência,
da desdita e da sorte dos condenados dessa vida.
 
“Eu sou Antônia”, disse uma, “e não me pergunte mais,
pois não terei como lhe responder aquilo de que já não sei nada”,
e a outra respondeu, com a mesma voz de cansaço e susto,
“Eu sou Eulália, e isso é tudo, e mais não sei, senão
que a vida me trouxe até aqui pra te encontrar, como se
para isso eu tenha existido até hoje, uma vida de ti separada”.
 
E, inclinando-se para frente, seus rostos se aproximaram
e se tocaram, como duas irmãs que, depois de milênios,
voltavam a se ver e abraçar, naquele fim de mundo, para onde
o destino de uma e outra, cuidadosamente, as haviam levado. (1-1-26)
 




2. A HISTÓRIA DE EULÁLIA





Ao fim de algum tempo, Eulália começou a falar,
e contou ter sido escravizada numa certa fazenda,
e que dali dera fuga tempos atrás, e que passara
peripécias e acontecimentos, e que em sua andança
incerta topou com seus perseguidores, e, fugindo deles
escapou embrenhando-se na mata, correndo
a mais não poder, sentindo nos calcanhares
o latido dos cães-fila, os gritos da patrulha,
os impropérios do capitão-do-mato, e ela corria,
 
mais uma vez fugindo do pior-que-a-morte,
sem nunca dormir, olhando apenas para frente,
até que os ruídos dos seus perseguidores foram rareando
e ela pôde, finalmente, descansar à margem
daquele regato, onde Antônia foi dar também,
como se o acaso existisse, como se fosse possível
que, do nada, se encontrassem as pessoas
que o destino destinara uma à outra.
 
E, antes de que Antônia lhe respondesse,
Eulália viu o tambor, exclamando: “Um Ndembo!
Achava que nunca mais eu veria um desses”,
e explicou que na sua pátria esses tambores
era usados para a cura de estados chamados “de aflição”,
e que eles faziam parte estrutural e estruturante
da própria sociedade, e que respondiam
pelo modo como as pessoas se reconheciam
e prosseguiam sendo elas próprias partes
de um todo maior, que abarcava toda a vida presente
e mais toda a natureza, e os antepassados.
 
E tudo isso acontecia ao som de cada toque,
que curavam as pessoas e curavam a aldeia,
e a linguagem que o tambor falava era um momento
de suspensão da vida, fora do espaço e do tempo,
e que eram esses instantes que renovavam o mundo
a cada vez que o tambor cantava, e a cada ponto
se refazia a natureza, e tudo se calava, porque
o tambor estava falando, e toda gente deixava
o que estava fazendo, e, em silêncio, o escutava. (2-1-25)
 




3. OS NDEMBO




 
E assim, contou ela, nas noites e madrugadas
das festas permitidas pelos senhores da casa grande,
os Ndembo cantavam sua ancestralidade,
e Eulália, apesar de mocinha, conhecia
todas as variantes, os pontos e os chamados,
 
e ela disse que eram esses toques que mantinham
a identidade das pessoas de sua raça, que de outro modo
seriam dissolvidas no caldo grudento da aculturação
forçada, como se não bastassem os falsos nomes
que receberam da tal “cristandade”, que para ela
era nada, embora fossem todos obrigados
 
a assistir as missas na capela da fazenda,
“rezadas pelo senhor vigário, que da vila vinha
de muito má vontade, e recitava um palavrório
interminável, numa língua que ninguém conhecia,
e ao final arrematava com uma arenga moralista
 
que nenhum dos senhores seguia, pois faziam ali
caras muito compungidas, mas assim que
o burrico do padre na estrada desaparecia,
voltavam à brutalidade de sempre, espancando
os homens, perseguindo as mulheres, e tratando
as próprias esposas e filhas como se de nada valessem”,
 
e assim ela, Eulália, que então se chamava Luzia,
(mas seu nome era Imani) se perguntava, “que Deus é esse?”,
que ao invés de unir desata os piores demônios
de dentro da gente estúpida e cegada pelo ódio,
a volúpia, a concupiscência, a usura, a avareza,
a inveja, a gula, a preguiça, e saiba-se lá
quais outros tantos tipos de vilanias,
 
que pareciam não ter fim, nem se acabar,
ainda que satisfeitos num dia, para voltar
ao dia seguinte, e com mais força, sordidez e baixeza,
“que Deus é esse? É isso uma Igreja?, se o próprio padre,
sabia-se toda a vila, mantinha concubina de cama e mesa,
e roubava do dízimo, e enriquecia, esperando apenas
 
que lhe chegasse a aposentadoria, para voltar a Portugal,
ao Rio, ou à puta que o pariu, para desfrutar
de uma vida parasita, como foi aqui, desde o dia
em que, pela primeira vez, desmontou de seu burrinho
com um olho no corpo das negras, e outro,
já quase cego, no livrinho da missa”. (2-1-25)
 
 




4. EULÁLIA E O CRISTO BRANCO






 E Eulália contou das vezes em que entrava na capela
da fazenda e, sozinha diante do Cristo, indagava
à grande figura de madeira que se erguia em seu crucifixo,
“Senhor, quem és, afinal, que tantos filhos tens,
que são todos como bandidos, de onde vem essa gente
que nos trata como bichos, embora tenhamos todos
o mesmo rosto, as mesmas mãos, e pés e pensamento
 
e um bucho que precisa ser enchido, quem és tu,
que não compreendo o que fizestes para que te chamem
Deus, para que te tratem como um rei, muito embora
tenha eu ouvido dizer que fostes mendigo, e que andavas
com gente pobre, com os tortos, os aleijados, leprosos,
com as prostitutas, os alucinados, os cegos, e vai-se lá saber
com quais outros tipos, quem és tu, se não igual a mim,
 
mas branco como a porcelana que se põe à mesa,
quem és tu, por que não te fazes preto como as frigideiras
da cozinha, quem és tu, que te dizes homem, e por que não
mulher, como sou e existo, se és Deus, que te importa
a forma como me apareces, se o que vejo não sinto
dentro de mim, por que não desces daí, para que Luzia
te abrace, se és amor de verdade, por que não vens a mim,
como vim a ti, eu, Imani, preta e criancinha?”. (5-1-26)
 




5. A FUGA




 
Mas Eulália – Luzia, Imani – crescia em formosura
e se tornou objeto das atenções dos senhores da casa,
do velho fazendeiro e seus dois filhos,
que passaram a persegui-la e abusavam dela
a cada oportunidade que aparecia, e tanto
e de tal maneira, que a pequena negrinha
não viu outro remédio do que fugir daquilo,
 
e, numa noite em que os dois rapazes
a tinham maltratado com especial selvageria,
armou-se de coragem e, num momento
de descuido dos moleques, tomou de um deles
a arma que trazia à cintura, e com dois disparos
ficou o velho fazendeiro sem a quem deixar
sua herança, e a moça desembaraçou-se
de suas cadeias, e voou noite adentro,
 
e não parou até se ver distante do inferno aquele,
e mais correu ainda, varando regatos
para despistar os cães farejadores,
sem comer ou dormir por dias a fio,
enfrentando toda espécie de dor, cansaço
e desatino, até chegar a uma fazenda,
onde, segundo lhe haviam dito, reinava
uma bondosa senhora, que libertara os seus,
 
uma fazenda onde viviam todos como iguais,
sem açoite, sem cepo, sem pelourinho,
e ali a negrinha pediu guarida, que lhe deram,
e a levaram à grande dama branca,
que reinava sem ser rainha, e administrava
a enorme fazenda, viúva, nobre e riquíssima,
que a adotou, e lhe deu o nome de Eulália,
 
“em homenagem a uma amiga”, e a trouxe
para viver no casarão, onde ela passou a trabalhar
junto com todas as pessoas, inclusive a grande dama,
que parecia ser sempre a primeira a acordar
e a última a dormir a cada dia, e nessa fazenda
os negros tinham suas festas, e o padre,
quando vinha, se limitava a conversar com a senhora,
e lhe dava a eucaristia, e assim transcorreu a vida,
 
até que Eulália começou a sentir que a dama
se aproximava cada vez mais dela, e a tinha sempre
perto de si, e a acariciava, e a colocou para dormir
no quarto ao lado do seu, e uma noite ela acordou
com o perfume da senhora junto a si, e viu
o corpo muito branco que se aninhava ao seu,
e, sem saber o que fazer, deixou-se ali a ficar,
 
e a senhora tratou-a com tanto carinho e zelo,
que Eulália perdeu o fôlego e o sentido do tempo,
e quando despertou no dia seguinte, não sabia
o que se passara, nem nada do que havia sido,
e assim transcorreu o dia, e à noite repetiu-se
a mesma cena, as mesmas carícias, e assim
a cada dia, e Eulália já não sabia o que fazer,
 
até que se decidiu a fugir, mais uma vez,
e se fez passarinho, e se embrenhou na mata,
sem destino, seguindo seu instinto, até cruzar
por acaso, com o velho capitão-do-mato
de seu antigo senhorio, que imediatamente
pôs-se em seu encalço, e chamou outros homens
e cães, com a promessa de recompensá-los
 
pela captura da negra assassina dos filhos
do grande fazendeiro, cuja fazenda ela deixara,
percorrendo aqueles caminhos, que a haviam levado
à bondosa dama branca, cujo amor a sufocara
de tal modo, que ela só pensava em sair dali,
ainda que, entre aqueles lençóis suaves,
houvesse tido pela primeira vez, em muitos anos
a sensação de ser querida e ser amada. (5-1-26)
 
 



6 ENCONTRO COM ANTÔNIA





E assim chegou Eulália àquela clareira
junto ao curso d’água, onde se deparou
com Antônia, que pregava aos ventos,
e bradava seu desespero perante Deus
para que toda a criação a ouvisse, e, quem sabe?,
compadecido, o Espírito a escutasse e recebesse
a mão que ela lhe estendia, e assim, quem sabe?,
a consolasse com suas asas e nela instilasse uma gota,
um átomo de sabedoria, um mínimo que fosse e nada além disso.
 
E Eulália disse a Antônia, “Irmã, há muito
ouvi alguém dizer que existem palavras
que são como flores, e como flores alegram
e nascem pela manhã e morrem ao dia seguinte,
mas deixam em nós seu perfume, a vista de suas cores,
a felicidade que trazem de berço, e se renovam
e outras flores delas que morrem brotam,
e assim prosseguem, por ciclos e ciclos,
 
e tudo o que disseste, eu ouvi como palavras floridas,
e as guardarei comigo, agora e sempre, e muito mais
contigo quero aprender, e peço que me contes o que sabes,
porque ao mesmo Deus a quem falaste falei eu,
sem conhecê-lo, nem compreendê-lo, nem saber dele
quase nada, senão que foi bondoso em seu tempo,
mas deixou atrás de si uma Igreja que pregou o seu contrário,
e sua doutrina caiu no esquecimento, a menos
de uns poucos, os loucos que levam consigo
como um jardim florido, suas lições, esses poucos
que são os jardineiros do seu ensinamento”. (5-1-26)
 
 



7. A OUTRA IGREJA





Mas Antônia respondeu a Eulália,
“Não te iludas, irmãzinha, porque
se há uma Igreja sem Deus, e um Deus
sem Igreja, isso não significa que um
possa existir sem o outro, e o curso
da história nos mostra que, apesar
dos desmandos e desvios, foi a Igreja
que ajudou a conservar vivos os ensinos
 
de Cristo, que, de outra forma,
teriam se perdido... Porém, para mim,
como para você, como para muitos,
Cristo se apresenta de outro modo,
revestido na sua forma original,
pois já atravessamos o Jordão necessário
e nossa canoa deixamos à margem,
e agora seguimos a sós pelo deserto,
bebendo da água que dali trouxemos.”
 
“Mas temos essa água, e o que extraímos
dela, que a outros não sacia, é isso
que nos aproxima de Cristo, essa água
que não se esgota, vinda do poço sem fundo
dos ensinos do Nazareno, e quando cavamos
novos poços nesse deserto, ela volta a brotar
de dentro sempre mais límpida, fresca e clara,
e dá a paz a quem dela toma, e ilumina
nossos corações, e dissipa as trevas da mente,
e nos leva mais adiante, ainda que tropecemos,
porque tropeçar também ajuda a andar pra frente.”
 
 
 
 
 
 
 8. A COISA E A PESSOA






"Mas não te esqueças, da vida que tiveste,
que as mulheres e os homens que encontraste
(com as raras exceções de praxe), pertencem
todas e todos a essa raça decaída, que abandonou
o paraíso a elas dedicado por Deus, para mergulharem
no poço fundo do desconhecimento do sagrado,
onde não há luz, nem estrelas, nem entendimento,
 
e eles não são capazes de nos ver, irmã,
como seres, porque cortaram tantos cadáveres
na procura vã de sua vã ciência,
que só enxergam pedaços de carne
para onde olham, e não compreendem
que, para além da matéria de que somos feitos,
em cada ser existe uma unidade, de corpo e alma,
e que essa unidade se funde à unidade total das coisas,
 
que cada um é uma célula viva
mergulhada num organismo divino, e que em cada uma
batem as badaladas do relógio cósmico sagrado,
cujas ondas sonoras conduzem de Deus até o último dos seres,
e da menor coisa até o Infinito, eles não são capazes
de ver o coração que bate em cada qual,
pessoa única, radical e indivisível,
porque o mataram ao arrancá-lo do peito
onde se aninhava, para contar as pulsações mecânicas
 
da engrenagem imaginária, que supõem sustentar a tudo,
e todas as coisas, como numa forma de vida inanimada,
e a nós, pobres frutos de sua ganância e concupiscência,
sequer eles nos veem como mulheres, como humanas,
como donas de nossas vidas, de nossas almas
em eterna boda com nossos corpos,
 
eles só nos veem como as máquinas
que lhes fornecerão trabalho de graça,
e receberão os açoites que lhes agradem
e lhes darão o sexo que nos rapinam
ao bel-prazer, e não importa o que tenhamos que sofrer
para isso, porque para eles só eles existem realmente,
pois cada um vive apenas em sua prisão,
feita da mente que pensam ser tudo, e esse seu viver
é nada, e os cadáveres são eles, que já estão mortos por dentro..."
 
e dizendo essas palavras, Antônia viu Eulália à sua frente,
em toda sua pessoa e plenitude, e ela então sentiu
uma comoção enorme de sentimentos, e ela toda estremeceu,
como se a visse pela primeira vez, e, tomando as mãos de Eulália,
beijou-as e se ajoelhou diante dela, chorando a mais não poder,
e assim estiveram as duas irmãs, até o sol se pôr e uma lua cheia,
enorme, brilhante, senhora, nascer. (7-12-25)
 
 




9. A TRINDADE HUMANA






“Cada uma de nós contém em si uma Trindade,
menor, é fato, mas em cada uma habita
uma supraconsciência, uma palavra e uma verdade
relativa, assim como o Pai é a consciência suprema,
que se expressa no Filho, a Palavra, e essa Palavra
contém e transmite a Verdade – o Espírito da Verdade –
como foi dito, e somente ela, e não pode haver aí
 
nenhuma espécie de erro, ou não seria a Verdade, Verdade,
nem a Palavra, Palavra, nem a Consciência, Consciência,
e assim somos nós por consequência, ainda que errantes,
ainda que hesitantes, ainda que imprudentes
– e quanto o somos! – ainda que pequemos a cada passo,
e não saibamos a fronteira entre essa terra e o espaço,
e nos confundamos todo o tempo, como agora por exemplo,
 
que me confesso aos céus e a tudo o que há de sagrado
que te contemplo em minha frente, e meu sentimento
vai do mais terreno ao celestial, e te vejo como anjo,
mulher e meu próprio demônio, e tua presença
e tua beleza são infinitas, são uma taça, são a bebida
que há na taça, e essa bebida é doce, é amarga,
é um bálsamo e um veneno, e tudo o que há em mim
 
me estranha nesse momento, e nada há que eu faça
que me explique o que sinto, nem meu pensamento,
e nesse turbilhão, que vai da razão pura ao sentimento,
eu beijo tuas mãos e pés, como as mãos e pés
do Cristo que me atormenta, me liberta e me sustenta,
Eulália, que contém em ti mesma a Verdade de que falei,
o Amor unívoco, o único Amor, o Amor-mais-que-Amoroso,
esse Amor-Verdade que busco e recuso, e que, por mais
que o persiga, está sempre além, muito além, mais além.” (8-1-26)
 





10. O AMOR QUE NÃO TIVERA





 
Antônia deixou-se cair num desfalecimento,
com o coração a sair-lhe pela boca, confusa,
contraditória e apaixonada, como não se sentira
jamais, e preferiu fechar os olhos, para não ver
o que se descortinava à sua frente, o objeto
de um Amor que até então não tivera,
 
que lhe fôra negado todo o tempo, algo
além do que era capaz de compreender,
que não sentira em Lúcia, nem em Sumé,
nem em coisa ou pessoa alguma que passara
por sua vida, à exceção de Ana, sua filha,
e esse algo a enchia agora com uma força plena
que estava além de sua própria força,
além de sua virtude, de seu pecado,
de sua resistência, e ela ficou assim,
 
de olhos fechados, esperando que o espírito
se recompusesse, e colocasse no lugar
a mobília de seu coração, toda revirada,
as gavetas abertas, as coisas todas no chão,
e uma ventania incoercível que entrava
por todas as janelas, e a enchia de medo,
de esperança, de conflito e de paixão. (8-1-26)
 
 




11. A TERRA FÉRTIL






Mas Eulália inclinou-se para frente, tomou-lhe a mão
e a ergueu, e olhando-a fundo nos olhos, aproximou seu rosto
e beijou-lhe os lábios, suavemente, um beijo de brisa, a escorrer
a água límpida do regato da alma, a deitar a mais tímida gota
do orvalho matinal, cujo brilho de leve oscila e cai,
 
e fertiliza todo o solo com o amor nela contido, minúsculo,
mas tão grande quanto o mundo, ligeiro, mas trazendo
consigo os séculos dos séculos, um beijo de mulher
que continha todas as mulheres e os homens desde
o começo dos tempos, e tudo não durou mais do que
um segundo, e elas se afastaram à distância de um respirar,
 
e assim permaneceriam até o dia do Juízo, se nada mais
interrompesse o idílio, assim como nada poderia romper
aquele pacto, onde toda a verdade do amor se manifestava,
esse Amor que nenhuma delas conhecera, e que ali
se afirmava como a terra fértil sobre a qual elas haveriam
de erguer a espiral infinita que as levaria ao céu,
 
ao sagrado manto que a tudo cobria, ao próprio Amor
de Cristo, que ali se fez como elas, que sem o saber
estavam reunidas em Seu nome, e as palavras que diziam,
por puras, por sinceras, por agradecidas, por verdadeiras,
eram as mesmas palavras floridas que coloriam toda a Criação,
 
tornando o mundo, naquele instante, uma efusão de tons,
de sons, da música das estrelas, do brilho de mil sóis,
da noite escuríssima dos olhos negros que se cruzavam
e se diziam, sem sequer emitir um som, as coisas
que cada uma delas, desde sempre, já sabia. (8-1-26)
 
 



12. O ASSALTO





Ao dia seguinte, Antônia saiu para buscar mais gravetos,
enquanto Eulália permaneceu junto ao regato,
a acalentar a fogueira, mas, vendo ali o tambor,
tomou-o nas mãos e percutiu o couro, e logo brotaram
dele os ritmos de sua raça, e o Ndembo cantou e cantou,
 
e Antônia ouvia de longe o pulsar ancestral, marcando
tempos que já não se contavam, elevando aos céus
uma mensagem desde muito guardada, no seio
africano de Imani, de Eulália, que subia e subia,
e enchia a mata dos matizes sonoros de suas raízes,
até que, de repente, cessou o som e Antônia
 
sentiu um pressentimento e um calafrio, e tornando-se
disparou pelo caminho que fizera, e aproximando-se
do regato viu, na praia, Eulália que lutava em desespero
contra um homem imenso que a subjugava facilmente,
ajoelhado sobre a jovem, enquanto a segurava pelo pescoço
com uma das mãos, e com a outra buscava violar seu corpo,
 
e teria conseguido, mas de súbito sentiu dentes ferozes
que lhe arrancavam a orelha, e uma mão pequenina e forte
que lhe tapava os olhos, e, levantando-se, o homem
tentava se livrar de Antônia que o agarrara com fúria indômita,
e nesse movimento ele desequilibrou-se, e desabou
caindo com as mãos e o rosto sobre o fogo, cujas brasas
se lhe prenderam aos olhos e à face, e ele, urrando de dor,
 
desatinou a rodopiar, sem noção nem rumo, tentando
agarrar-se a qualquer coisa com as mãos descarnadas,
e nisso Eulália se recompôs e, erguendo-se, acertou-lhe a cabeça
com um pesado lenho que retirara da fogueira, e o homem,
perdendo os sentidos, estendeu-se de corpo inteiro sobre a terra,
e ali ficou inerte, como sem vida, a respirar pesadamente,
inútil e cego, a queimar-lhe o rosto os últimos fulgores
das brasas que morriam lentamente, deixando as marcas
que jamais se apagariam, fosse em sua carne, fosse em sua mente. (8-1-26)
 
 




13. JEREMIAS






Ao voltar a si, o homem se deu conta que já não enxergava,
e que seu rosto ardia como se mil demônios o fustigassem,
e, sentando-se – sem saber que as mulheres o estavam vendo –
mugiu de dor, e se pôs a gritar todos os impropérios que conhecia,
com a boca e a língua comidas pelo fogo do braseiro,
amaldiçoando a tudo e a todos, e em especial àquelas diabas
que o haviam de forma humilhante derrotado, tornando-o
um aleijão cego, sem destino, condenado a morrer na mata,
sem que pudesse recorrer a nada nem ninguém que o amparasse.
 
Mas ele ouviu uma voz, que lhe perguntava, “Quem és, infeliz?”,
e o homem, reunindo forças contra a dor que sentia, balbuciou,
embora lhe queimassem os lábios e a língua, e respondeu
que se chamava Jeremias, que era capataz da Fazenda Quinhão,
que seu patrão era o Major Felismino, de quem haviam morrido
os dois filhos, mortos a tiros por uma escrava fugida, em captura
de quem ele saíra, e mesmo quando desistiram os demais
homens da quadrilha, prosseguira a esmo, até que, escutando
 
o tambor, seguiu-lhe o som e deparou-se com a negra na clareira
junto ao rio, e, sem pensar duas vezes, atirou-se sobre ela,
para capturá-la, amarrá-la e fazer-lhe outras coisas que pensara
pelo caminho, e haveria de levá-la arrastada ao seu senhor,
que a faria em pedaços no pelourinho, mas enquanto tentava
imobilizar a jovem que se contorcia, sentiu apenas que o atacavam,
e numa fração de tempo estava mergulhado com o rosto
na brasa ardente, e a seguir sentiu uma pancada forte, e é só isso
que recordava, e que despertara em meio a uma dor lancinante,
cego, perdido de toda gente, quando ouviu a voz que o chamava,
e estava ali a responder – que para mais não prestava, cego, maneta,
e assim, o que restaria a ele, além do mais, fazer? (8-1-26)
 





14. A PROMESSA





 
Antônia e Eulália arrastaram o homem para a beira d’água
e o lavaram como puderam, e o deixaram estendido
como morto, a choramingar coisas incompreensíveis,
mas ele logo perdeu novamente os sentidos, e delirava,
e foi acometido de uma febre fortíssima, que o fazia suar,
tremendo todo, e nesses momentos ele rolava pela areia,
e urrava como um bicho, e logo outra vez desmaiava,
 
e assim esteve por três dias, sem comer nem beber,
e as duas mulheres pensaram seus ferimentos com barro
e ervas, e lhe fizeram uma máscara de terra e folhas,
e aplicaram às suas mãos extratos de cipós e plantas,
e aos poucos a febre cedeu, e suas feridas começaram
a se curar, e o homem voltou a enxergar – pouco, mas
um pouco que era muito – do olho direito, e já conseguia
segurar coisas com as mãos, e ele olhava as duas negras
 
e vendo-as chorava como uma criança, a ponto de que
elas imaginaram que ele perdera a razão, mas lentamente
ele começou a se expressar, e em comoção disse a elas
não entender por que haviam cuidado dele, que só
lhes desejara o mal, e o teria feito, se algum bom espírito
não o tivesse impedido, aplicando-lhe merecido castigo,
jogando por terra sua força e seu orgulho, tornando-o
meio-homem, que teria morrido, cego e indefeso,
 
naquela mata sem dono nem destino, mas elas lhe disseram
que não perguntasse mais nada, pois nenhuma resposta
poderia ser-lhe dada, e tampouco elas compreendiam
o que as levara a cuidar de seu quase assassino,
e que ele agradecesse apenas aos céus, que o haviam
colocado de frente para consigo mesmo, arrancando
de sua velha pele o homem decaído, para revesti-lo
de um homem novo, cujas cicatrizes eram agora
a armadura invencível do bem, triunfante sobre
todos os males que antes o haviam acometido.
 
Ao cabo de algumas semanas Jeremias sentiu-se curado,
e, levantando-se, se dispôs a seguir seu caminho,
dizendo às mulheres, “Nunca as vi, nem percebi qualquer rastro,
nem tenho ideia de por onde andei, só sei – e isso eu juro –
que tropecei sozinho e caí sobre a fogueira que eu mesmo fiz,
e que de agora em diante, viverei da esmola e da bondade
dos homens, e meu destino será esse, e com Deus irei,
pedindo a Ele que me desperte a cada dia, e que me sustente
com sua misericórdia, que é maior ainda do que a compaixão
que vós tivestes para comigo”, e beijando as mãos de Eulália
e os pés de Antônia, com os lábios em carne viva carcomidos
ele disse ainda, “Por tudo o que há de mais sagrado,
 
eu, Jeremias Tenório, juro, que, se por qualquer desdita,
agouro, perigo, risco de vida, sentirem vocês que não há
quem as ampare, gritem por mim, como todas as forças,
chamem-me ‘Jia’, como me chamava minha mãe, no tempo
em que fui feliz e que ninguém tinha morrido, e eu estarei
ao seu lado, não sei como nem de que maneira”, e, tomando
seus pertences, o homem embarafustou pela mata,
e, em pouco tempo, seus passos deixaram de ser ouvidos. (8-1-26)

 

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