30. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 10: POST SCRIPTUM - 10.1. EU, ANTÔNIA

 

11.1. EU, ANTÔNIA

 


Onde voltamos a Antônia, que se encontra num tempo e lugar desconhecidos, e relata suas experiências de vida. Ao final, ela encontra outra mulher negra, Eulália, que fugia do cativeiro e se perdera nas matas daquela região.



1. DESNUDA




“Eu, Antônia, desnuda diante do paredão das dúvidas,
que com precisão implacável reflete meu rosto,
eu Antônia, que creio e caio,
eu Antônia, que cresço e caio,
eu Antônia, que fixo meu preço no mercado
da santidade, na barraca das sobras e do rebotalho,
eu Antônia, que experimentei Deus,
com sabor de especiarias e alhos,
 
o gosto pecaminoso do prazer que em mim trago,
ainda que à revelia, ainda que revelando
a mim mesma meu fracasso, essa índole humana
que é um fato incoercível, uma sina e um fado,
eu Antônia, despida da túnica que me teci
com os retalhos de um ou dois momentos
de sinceras revelações, de olhos espantados,
 
eu Antônia, enfim, de mãos postas e joelhos dobrados,
eu Antônia, que, se existo, é por meus pecados,
com os quais me apresentarei, Senhor,
diante de ti, no dia em que todos os humanos,
fracos como eu, como eu errados,
nós apresentaremos diante de ti, apenas para referendar
a sentença com a qual, desde sempre,
por humanos que somos, fomos perdoados.” (12-12-25)
 
 



2. A ÚLTIMA DEGRADADA





“Atirei-me na lama, rolei
na areia da praia, arrastei
meu ventre no pó da estrada
e bebi até a última gota
da água turva dos manguezais,
das poças, das sarjetas, alimentei-me
de restos apodrecidos e de carcaças,
roí os ossos de criaturas descarnadas,
 
eu Antônia, a última degredada,
que o bojo do tumbeiro vomitara,
eu Antônia, que a raça humana recusava,
eu, atirada aos abutres e aos chacais
dessa gente civilizada, a quem foram recusadas
mesmo as migalhas que disputam os cães,
eu Antônia, entretanto mais plena, mais feliz,
mais livre que essa gentalha
que diz de si qualquer coisa,
para o riso do século futuro e o escárnio do passado,
 
eu Antônia que entretanto tenho os pés gretados
de um caminho que é tão longo que não se acaba,
eu Antônia queimada pelo frio e pelo sol,
pela chuva e a geada, que ergo os olhos aos céus
e enxergo um azul além das nuvens
e das criaturas aladas, eu Antônia,
que a Deus entreguei meu destino,
 
Antônia, a esfarrapada, que tem de si
só aquilo que cobrem esses trapos,
eu Antônia, que contenho em mim
o menor verme, esse arbusto, aquele riacho,
as cordilheiras alterosas e a revolução dos astros.” (12-12-25)
 
 



3. O MAR OCEANO





“Arranquei de mim a carne, o sangue, os nervos
e espalhei meus ossos embranquecidos nas areias desérticas
para que outra vez os reunissem Deus,
e me refizesse, e também por isso atirei-me
com sede e sofreguidão à mais extrema pobreza,
à miséria absoluta, para que não restasse
em mim traço de humanidade, nada que me lembrasse
da vida que vivi e vivo, para que a morte
me despertasse desse sonho da alma
a que chamamos mundo, e assim, entre a fome, a sede
e o desabrigo, pudesse eu desencarnar-me
e lançar-me aos céus, em busca de mais perigos.
 
E atirei-me, assim, ao mar oceano,
agarrada a qualquer pedaço de convés que me restou,
e aqui estou, mais uma vez, cegada pelo sol atlântico,
incapaz de divisar sequer um horizonte,
e bebo a água da chuva, e me alimento
da ideia do Reino futuro, e essa é toda a minha vida,
passada ao sabor das ondas, tendo por minha também
nada além de uma oração nos lábios
e a certeza e a dúvida de que estarei ainda flutuando
sobre os abismos e os sargaços, quando amanhã se erguer
novamente o dia, e Deus
novamente me enlaçar em seu abraço.” (13-12-25)
 




4. SAL




 
“Sal, sal, sal, tudo o que me resta
é esse sal que me greta a pele, e que espalha
sua brancura seca sobre a melanina,
e mistura o vermelho do sangue com a água viva.
 
Seco. Seco.
A vida que ainda resiste em mim
mal dá para balbuciar uma prece,
e somente a presença de Deus sobre essa terra
parece alimentar minhas células,
como a sombra fresca de uma nuvem
a trazer chuva para a criatura esturricada.
 
Então bebo essa água bendita que me lava,
que leva meus erros consigo,
sinto seus pingos grossos, gelados
que tocam meu rosto, meus cabelos,
que descem pelo meu corpo, que banham minha pele,
que me devolvem a mim, e meus olhos se abrem,
 
e vejo súbito o rosto de Deus
em sua benevolente bondade, sorrindo-me
enquanto me lava da secura que me tornara,
estendendo-me a mão camarada, como a dizer
"Antônia, filha minha, filha amada", e nada além
dessas palavras, e isso me basta,
 
e sou eu outra vez Antônia, e essa é a minha cara,
e percorro com os olhos a paisagem esplêndida
dessa praia, e toda a beleza supra real
que até hoje não vira,
que talvez não aceitara,
na qual, quem sabe, não cresse,
essa beleza que me toma de assalto,
e me faz, de repente, rir às gargalhadas,
 
e sou outra vez Antônia,
e sinto todo o tesão de estar viva, aqui,
por inteiro, na plena Criação que nos deu Deus
para que, vivendo, com ele estejamos,
para que com ele caminhemos na vertigem desse amor,
de peito aberto e de mãos dadas.” (13-12-25)
 
 


5. O BANQUETE





 
“O Senhor disse esta parábola: ‘Um homem
deu um grande jantar e convidou a muitos.
À hora do jantar, enviou seu servo
para dizer aos convidados: 'Vinde,
já está tudo pronto'. Mas todos
começaram a se desculpar.
 
O primeiro disse-lhe: 'Comprei um terreno
e preciso vê-lo; peço-te que me dês por escusado'.
Outro disse: 'Comprei cinco juntas de bois
e vou experimentá-las; rogo-te que me dês por escusado'.
E outro disse: 'Desposei uma mulher,
e por essa razão não posso ir’.
 
Voltando, o servo relatou tudo ao seu senhor.
Irado, o dono da casa disse ao seu servo:
'Sai depressa pelas e ruas e becos da cidade,
e introduz aqui os pobres, os aleijados,
os cegos e os paralíticos'.
 
Disse-lhe o servo: 'Senhor, o que mandaste
já foi feito, e ainda há lugar'. O senhor disse então
ao servo: 'Sai pelos caminhos e cercados,
e convence irrefutavelmente as pessoas a entrarem,
para que a minha casa fique repleta.
 
Pois eu vos digo que nenhum daqueles
que haviam sido convidados provará o meu jantar'.
Com efeito, muitos serão convocados,
mas poucos serão escolhidos[1]’.
 
E eu, que comprei bois, terrenos, que me casei,
sou por isso escusada? Ou serei eu cega,
aleijada, pobre, paralítica – ainda que não o seja?
 
Por que flutuo dessa maneira?
Por que me desconheço? Por que sucumbo?
Por que, em tão átimo tempo, vou do céu
ao inferno mais profundo?” (14-12-25)
 




6. O TAMBOR






 Antônia sentiu bater-lhe com força o coração,
algo como se lhe falasse, como se quisesse apontar
um sentido, uma direção, um caminho,
e ela se pôs a caminhar, seguindo-o
pelas veredas na mata, até dar na praia de um rio,
e ali o coração pareceu aquietar-se, e seu pulso acalmou,
e Antônia sentou-se na areia, e ali se deixou ficar,
e em pouco tempo adormeceu e sonhou,
sonhou que o coração lhe segredava uma prece,
e que sob ela movia-se o chão, e despertou,
e se pôs a cavar com as mãos a areia fina,
e logo alcançou o barro, e continuou, e pouco abaixo
deu com uma espécie de toco, e puxando-o para fora,
arregalou os olhos, e viu que era um tambor.
 
Antônia tomou o tambor e correu ao rio,
lavando-o nas águas, como se o devolvesse à vida,
e, acendendo um fogo com gravetos que por ali havia,
o colocou a secar, lentamente,
aproximando e afastando do calor, até senti-lo pulsante,
e o fez vibrar, ouvindo-lhe o som das entranhas,
e nele reconheceu o pulso do seu próprio músculo cardíaco,
com suas diástoles, sístoles, ritmos e silêncios.
 
E assim esteve todo o resto do dia, tocando-o
e fazendo-o falar, e escutava sua voz, e respondia
num murmúrio cantado, aprendendo com ele
o intervalo entre o pensamento e seu contrário,
sentindo-lhe o silêncio como o som mais preciso,
o mais necessário, tal como lhe falava Cristo,
desde sua cruz, que ela tinha no pescoço pendurado. (15-12-25)






7. UMA PRESENÇA





O tambor falou do silêncio a Antônia,
e ela então percebeu então que praticava a prece,
mas que lhe fugia sempre a presença de Deus,
por mais que o perseguisse, e se deu conta
de que era ela quem falava, para que Deus a ouvisse,
e que afinal talvez fosse ela mesma que respondia,
 
e aceitou aquietar-se, e permaneceu em silêncio
por alguns dias, e lentamente entendeu
que Deus estava lá, que o silêncio que agora a cercava
não era vazio, como uma ausência de ruído,
mas que esse silêncio estava pleno e povoado,
não como algo de negativo, mas cheio e positivo,
 
uma presença, a presença de Deus
que ali se oferecia para ser conhecido
no silêncio que criava nela, e Antônia descobriu
que a prece renascia de modo natural,
mas que já não era o tipo de tagarelice
com que enchia o ar de palavras, todo o ruído
que ela mesma produzia, e em meio do qual
 
Deus, tímido que só ele, não encontrava brecha
através da qual se mostrasse a ela,
através da qual se fizesse conhecido,
e Antônia calou sua mente, e o tambor
lhe emprestou seus silêncios e seu ritmo. (15-12-25)
 




8. EMAÚS




 
A caminho de Emaús[2], Antônia sentia-se a caminhar
ao lado do próprio Cristo, e ouvia dele as palavras
maravilhosas, que seu próprio silêncio espantado
acolhia, e caminhando, não sentia o peso nem a fadiga,
mas lentamente começou a dar por falta de algo,
algo que ali não havia – mas, o que seria isso? –,
 
se tudo se passava como se o próprio céu a acompanhasse
e a guiasse pelo deserto de sua vida solitária,
ela, Antônia, percorrendo os horizontes infinitos
desse Brasil que parecia nunca se acabar,
com seu coração batendo, o peito em chamas,
e esse passo que não se detinha, então – o que havia? –
 
por que lhe parecia que nem esse Cristo lhe bastava,
e que suas lições tão sábias volatilizavam sob o sol,
como seu próprio suor que surgia e evaporava,
e não deixavam marcas em sua alma, em seu corpo,
e que apenas sua memória as guardava?, onde alcançaria ela
 
um momento de parada, um descanso, o conforto provisório
de um instante de meditação, de contemplação a sós,
somente ela e essa mente inquieta que não se detinha
diante de nada, e não temia sequer o infinito, o oitavo dia,
nem a dissipação de todo o criado?, e então Antônia se deteve,
 
mas Cristo prosseguiu, como se não a houvesse notado,
e ela chamou-o, mas ele seguia à frente ainda, e ela correu
ao seu encalço, mas esbaforida e exausta caiu ao chão
e esteve por vários tempos prostrada, e ao erguer-se
deu de cara, à sua frente, como uma figura esquisita,
misto de gente, monge, eremita e boneco de palha,
 
que lhe estendeu a mão, e Antônia estendeu-lhe as suas,
e nela colocou o velho um pedaço de pão e uma taça de vinho,
dizendo que o tomasse e o comesse, e que dela bebesse,
e entendesse que o Cristo que ela acalentava
em seus silêncios e suas palavras, abrigava-se em verdade
naquela carne e sangue, o pão e o vinho do milagre,
 
e, enquanto Antônia os recebia de suas mãos, o eremita
desapareceu ante seus olhos, e subitamente
quem lhe partia o pão era o próprio Cristo,
era ele próprio que lhe dava o vinho, e naquele instante
ela compreendeu por que e como lhe ardia o coração
quando ele lhe falava, e que naquele corpo e sangue verdadeiros
estava todo o segredo que buscava, a materialidade
do ensinamento do Espírito, que nela, agora, se fazia carne. (16-12-25)

 



[1] Lucas 14: 16-24, Mateus 12: 14.

[2] Vide Lucas 24: 13-35.



9. O INFERNO




“Onde o inferno, senão em mim mesma?,
quem é o demo, senão eu própria?,
e no entanto eu sou o céu, eu sou o sol,
e os anjos se ajoelham diante de mim,
porque fui feita mulher, humana, e criada
à imagem e à semelhança, e minha natureza
espírito-somática é a prova da minha capacitação
como filha, não serva, como herdeira,
não escrava, como deusa, não da raça
dos que caminham nas trevas,
 
e fui, de boa ou má vontade, despojada
da velha pessoa que havia em mim,
o “homem velho” de Paulo, e de suas ações,
e, malgrado minha fraqueza, fui revestida
de uma nova mulher que, através desse conhecimento
que minha ignorância expressa, vai se renovando
à imagem do seu Criador, e aí já não há em mim grego
nem judeu, circunciso ou incircunciso, estrangeiro ou bárbaro,
escravo ou livre, mas apenas Cristo, que é tudo em todos[1].
 
E sinto vestir-me de compaixão[2], essa compaixão
que vem das entranhas, a compaixão de Cristo
ao ver a viúva que enterrava seu filho[3],
ou diante de Lázaro morto[4], a compaixão
que sentiu em sua natureza divino-humana,
de que somente um Deus encarnado é capaz,
 
e da qual somos capazes por participação a ele,
pela mudança de nossa natureza, transformada
pela divina Graça, para que amemos a Cristo
e sejamos amadas por ele, para que vejamos a Luz
com que manifestou sua pessoa no Tabor[5],
essa Luz que somente os puros de coração hão de ver[6].” (17-12-25)


[1] Colossenses 3: 9-11.

[2] Colossenses 3: 12.

[3] Lucas 7: 13.

[4] João 11: 35.

[5] Mateus 17: 2, Marcos 9: 3, Lucas 9: 29.

[6] Mateus 5: 8.




10. O VÉU BRILHANTE





Antônia caminhava por uma estreita vereda
na floresta fechada, que algum dia percorreram homens
e mulheres, um caminho que a muito não se pisava,
e, chegando a uma pequena clareira, sentou-se
a meditar, pensando, pensando, e de repente
 
sentiu-se pensando em nada, e sentiu
que tudo ao seu redor se iluminava, de uma luz
que nunca vira, que de parte alguma provinha
e a parte alguma ia, uma luz sem sombras,
como se a história houvesse parado,
uma luz fora do tempo e do espaço, e assim
 
esteve por um tempo indeterminado,
sem que sua consciência disso participasse,
e um entendimento mudo, sem palavras,
a penetrava, e uma compreensão nova,
que não era desse mundo, iluminava seu coração,
como se este próprio mundo, em que ela estava
e não estava, fosse também o outro mundo,
 
e que Deus, como um imenso véu brilhante,
a cobria e cobria toda a criação, e que ele próprio
ali estava e não estava, e havia nisso um milagre
renovado, e tudo, sem explicação, se explicava,
e Antônia deu por si novamente, e banhou
seu rosto em lágrimas, de alegria, de paixão,
de amor e de um sentimento pleno de perplexidade. (17-12-25)
 
 



11. ONCOTÔ




 Antônia olhou ao seu redor: afinal,
onde ela estava? Reconhecia a mata,
as cores, as árvores, os cheiros, perfumes
tão gratos à sua alma, e os bichos e pássaros,
sim, tudo familiar, com se sempre ali
houvesse estado, mas que lugar era aquele,
 
em tudo semelhante a qualquer outro,
desde que subira essa serra,
vinda de uma praia onde dera,
como de um naufrágio, de que não se lembrava,
como se lembrava de ter comido areia
e bebido da água do mar, e de ter estado
debaixo de um sol que a matava devagar,
 
e se lembrava da chuva, de dias e noites
a caminhar sem rumo, e do encontro
com o velho do pão e do vinho
 – pão esse de que guardava ainda um pedaço –
e olhando suas roupas lembrou-se
da senhora de engenho de quem as ganhara,
há tanto tempo, essa roupa que um dia foi branca
e essas sandálias que já nem o nome mereciam,
ou mereciam, por sua fidelidade. (17-12-25)
 
 
 


12. ESTOU FARTA DE DEUS





Antônia tomou o tambor e bateu nele
com força, e arrancando suas vestes, gritou
a plenos pulmões, como se a ouvisse a natureza,
como se toda a criação fosse uma plateia,
como se o próprio Deus inclinasse seu ouvido
e, perplexo e compadecido, a escutasse.
 
“Ah!, estou farta de Deus!, desse Deus
que os homens fizeram, esse Deus minúsculo,
homúnculo ridículo, esse Deus patético,
impotente, incapaz de se apresentar
ao tribunal dos pensamentos, que seres menores
do que ele instituíram para julgá-lo,
 
ou emular sua pretensa presença, seu poder
indemonstrável, ah!, estou farta, farta
de buscá-lo onde nunca está, no meio
dos alfarrábios imprestáveis, que nunca
mudaram um centímetro da história humana,
sequer um milímetro da estrada de cada um,
 
estou farta desse Deus inútil, que só ocupa espaço
com sua ética, sua moral por nada,
sua rigidez social, sua negação da realidade,
porcaria de Deus que engolimos
sem darmos em troca sequer um mísero
amém sincero, um seja-feita-sua-vontade,
 
um faça-se-a-luz – que luz? – que não sabemos
o que seja, qualquer luz que nos exploda,
que nos arranque da inação de sermos,
estou farto desse Deus incapaz de mudar o homem,
de tirá-lo da mesmice do mesmo, eu quero
um Deus lisérgico, que dissolva o mundo sensível
num céu cheio de diamantes, que nos abra
as portas da percepção a ponto de enlouquecermos
 
e não darmos por isso, e não nos importarmos
com o que vamos comer, o que vestir, nós,
os lírios do campo, que não tecem nem fiam,
nós, as aves do céu, os anjos caídos,
que chafurdamos nessa coisa lógica
inventada pela mente, que calamos o coração,
que silenciamos o canto das sereias,
a música das esferas, que entramos em guerra
 
contra a natureza, nossa própria natureza
meia-Deus meia-gente, estou farta!,
farta, entendem, dessa resposta impertinente
à pergunta que fiz e faço, para a qual
resposta alguma é bastante, nenhuma explicação
é suficiente: Pai, por que, afinal, nos deixaste
abandonar-te para sempre?” (25-12-25)
 
 



13. NÃO SEI NADA





“Não sei nada, não me lembro
de que algum dia eu tenha sabido
seja lá o que fosse ou o que tivesse sido,
 
ah!, a temível hora em que conheci a Cristo!,
o dia inefável do meu desmoronamento,
da volatilização de todas as certezas,
 
o dia em que todas as figuras de linguagem,
as espirituais palavras polvilhadas na toalha
se dissolveram à minha frente sobre a mesa,
 
o dia em que me dei conta de uma imensidão
muito além dos limites de minhas minúsculas grandezas,
traduzidas em expressões vazias e frases feitas,
 
o dia em que estremeci diante dos significados infinitos
do ‘venha a nós’, ‘do seja feita a vossa vontade’,
do ‘faça-se em mim a sua morada’,
 
e tive que jogar fora a compreensão miserável
que eu tinha de cada coisa, como se a glória de Deus consistisse
 
em que os anjos tivessem bons modos à mesa,
que erguessem o dedinho ao segurar a chávena de chá,
 
e só comentassem em voz baixa acontecimentos pífios,
a repetição monótona da mesma parábola,
servida com licor e sequilhos após o café,
pedindo vênia a cada vez, fazendo mesuras
 
e limpando-se com o guardanapo imaculado, branco,
impoluto, com o monograma INRI bordado,
 
ah, não!, desmontou-se todo o meu pobre cristianismo,
assim mesmo, com ‘c’ minúsculo, tão estreito
quando meu desejo de autojustificação e complacência,
 
incapaz, eu, incapaz de perceber
que o Amor que é esse Deus, se Deus é Amor,
há de ser maior, mais, incomparavelmente maior,
mais grande, se quiserem, do que qualquer coisa
 
que eu própria seja capaz de chamar ‘amor’,
com o ‘a’ minúsculo que convém a nós seres humanos
(essa ridícula imagem e semelhança só-que-não)
 
que esse Amor deva ser tão!, tão gigantesco
que nenhuma capacidade humana o defina,
e que toda compreensão que possamos ter
 
de seja lá o que for, reduz-se a pó diante dele,
de sua infinitude, deve sua imensidão sem fronteiras,
de sua grandeza sem medidas,
 
e é por dar-me conta disso, da existência dessa coisa
para a qual nem nome temos,
que posso afirmar, certamente e sem nenhuma certeza,
 
que não sei nada de coisa alguma, nem nunca soube,
nem tenho esperança de que algum dia
venha eu, pobre mortal, a saber.” (28-12-25)
 
 



6. A VERDADEIRA RELIGIÃO






“Ao longo dos milhares, milhões, bilhões de anos
em que existe a humanidade, sempre houve
mulheres e homens que sabiam à perfeição
o que é o Amor, o Amor total e pleno
(esse que não tem nome),
 
e que nem por isso eram melosos, pegajosos,
melados como açúcar no sol,
mas eram pessoas simples, que viam o mundo
de forma direta e sem rodeios, que mergulhavam
no caldo real das coisas, que bebiam da fonte
 
maravilhosa da vida, e davam em troca suas vidas
por uma gota de orvalho, um dedo de néctar,
um milímetro de raio de sol, um pingo de chuva,
um grão de areia, um brilho nos olhos, e isso tudo
mesclado ao desprendimento do fluxo incompreensível
das coisas que não tentavam agarrar para dominá-las,
que não tentavam entender, e assim
 
inventaram, sem saber, a verdadeira religião,
por se ligarem a Deus antes de colocá-lo em palavras,
antes de criar esse abismo racional, lógico e silábico,
que retira do sagrado aquilo que ele tem de vivo, a densidade
de seu mistério único, pois ligar-se a Deus
 
nunca implicou compreendê-lo, mas deixar-se
levar por ele, pelas sendas que escolher,
e acompanhá-lo por onde se dirigirem seus passos,
que são os passos de todos os que caminham ao nosso lado, e assim
 
já não vivemos para nós apenas, mas para esse cosmo
feito de barro, bichos e gente, onde Deus está presente,
e tão intenso, tão imenso, que só caiba no ventre
de uma menina, para se apresentar em carne e osso
ante a assembleia sonolenta de senhores indiferentes,
 
a gritar o óbvio sem que se entenda
o que é dito, que é não mais e tão somente
que, em cada pessoa desse mundo
brilha o universo inteiro, e que somos um e o mesmo com Deus,
e que é isso que nos faz gente.” (29-12-25)
 
 



7. O VERBO E O PALAVRÓRIO




 
“Eu não sei quando nem como isso começou,
mas houve um momento em que o que era Verbo
se tornou palavrório, um tempo em que as pessoas
passaram a se satisfazer com a esmola de uma frase,
repetida mecanicamente, como se bastasse dizer
 
‘Ele está no meio de nós’, para que isso acontecesse,
sem que ninguém fosse capaz de definir, de sentir,
de experimentar esse ‘Ele’, esse ‘estar’, nem mesmo
esse ‘no meio’, e muito menos o ‘de nós’,
mas todos se davam por contentes, pois já não se queimavam
os crentes estoicos, nem eram jogados aos leões
dos tempos heroicos, e assim todos podiam se dizer cristãos
 
sem ter disso a menor vivência, enquanto se buscavam
mecanismos mais fáceis que justificassem a existência
dessa doutrina esquisita, que fazia do céu uma antessala
da sala de visita de Deus, onde os carpetes estavam sempre limpos,
e as sandálias que pisavam o chão luziam, e os camisolões
arrastavam a poeira de diamantes das estrelas, e sorrisos
alvares enchiam a atmosfera de aleluias, uma vez, é claro,
 
que tivessem sido ultrapassados os tormentos e castigos
pelo mau comportamento dos anos antigos, antes
de que nos convertêssemos ao vazio de uma existência
normativa, em que a liberdade de ser, de amar, de cantar,
dançar, pecar, brincar era substituída pelo zelo
em não cruzar uma linha de perigo, repetindo em baixa voz,
‘Ele está no meio de nós’, a cada domingo, a cada dia festivo
 
em que a alegria consistia num sacrifício, no cilício
que nos aproximaria de Deus, abandonando Cristo,
esse moço tão difícil, com sua doutrina impossível
de um amor real, a ponto de amar os inimigos, Cristo,
esse não-sei-que-diga, mestiço de Deus com mendigo,
que não se deixa pegar, nem definir, e que insiste em que o sigamos,
a Ele?, a quem?, e como?, se nem sequer entendemos isso.” (29-12-25)
 
 



8. A IGNORÂNCIA






 “E eu não compreendo nada disso,
nem entendo o céu e o inferno,
nem sei nada sobre como me comportar,
 
e já fiz tanta coisa errada,
que não as posso enumerar,
e não consigo decorar as orações,
 
senão uma única, tão curta
que a posso escrever na ponta do dedo,
e essa uma eu repito, e recito e recito,
 
como se nela estivesse contido
todo o conhecimento de Deus
e do mundo, o não-conhecimento,
 
a ignorância absoluta, que conhece
todas as coisas, mas pelo lado de dentro,
assim como a semente explica a fruta.” (29-12-25)
 




9. EM BUSCA DA RESPOSTA




 
“Sei apenas que torturamos nossas mentes
em busca de qualquer resposta que nos permita
construir um Deus que nos umidifique a existência
e nos conforte na aridez de nossas vidas, na secura
de vermos logo ali o fim da linha, e o que conseguimos?,
 
um bricabraque quebrado, cheio de engrenagens
que giram ao contrário umas das outras, e nos contentamos
com os farrapos e retalhos do que deveria ser o esplendor,
o cimo da criatura humana abraçada ao Criador,
 
contentamo-nos com versos de pé quebrado
caídos do supremo Poema da Criação,
notas de rodapé descartadas, que não ilustram nada, nem explicam,
nem sequer exemplificam, e, munidos desses escombros,
deleritos, restos de naufrágios,
 
erigimos uma existência medíocre sobre esse planeta,
sem vislumbrarmos a luz que vibra todas as cores
da noite profunda ao mais pleno dia,
sem saborearmos as gotas de chuva e o orvalho,
que secamos com nossas ideias
antes de que cheguem ao coração,
 
esse coração que, só ele, guarda as chaves do entendimento,
essas mesmas que jogamos fora quando decidimos,
em péssima hora, por nossa independência mal fabricada,
em que, ingratos, dispensamos o presente místico de Deus,
para nos satisfazemos apenas com um futuro malcozido
e com nosso doloroso passado.” (30-12-25)
 
 



10. BEBENDO ÁGUA, LEMBRE-SE DA FONTE





“E, no entanto, sabemos que o Verbo estava no mundo,
ou seja, em todas as coisas visíveis e invisíveis
das quais o mundo é feito, e ele estava no mundo,
não acima dele, mas no céu e na terra em Espírito,
 
e Paulo diz que “Ele não ficou sem dar testemunho de si
através de seus benefícios, e mostrou sua bondade
enviando-nos a chuva do céu e as colheitas,
dando alimento e alegrando os corações dos homens”,
 
e assim, como posso eu não crer, não ver, não contemplar
a grandeza divina que se esparge em toda parte,
para que O conheçamos, para que O recebamos,
para que O aceitemos e O agradeçamos,
 
por meio de Cristo, porque conhecer é um ato pessoal
e um encontro, e por isso Deus nos enviou o Filho em carne,
para que o recebêssemos em nosso coração, nosso mundo,
 
para que bebendo água nos lembrássemos da fonte,
porque a presença de Deus está em toda parte, em todas as coisas,
e em todas as pessoas que nos trouxeram até aqui.” (30-12-25)
 
 
10.  Antônia desabou sobre o solo, exausta,
com lágrimas que lhe brotavam dos olhos,
o corpo coberto de suor, as mãos tremendo
e um sentimento de profundo esvaziamento,
como se lhe houvesse escapado toda a vida
por entre os dedos que arrancavam a grama ao redor,
 
e ela mergulhou o corpo nas águas do ribeiro,
e deixou-se estar, sem que um único pensamento
pesasse sobre sua cabeça, mas repetindo sem palavras
a oração a que se habituara, que era por si só
a presença desse Deus incompreensível
que a preenchia e acompanhava.
 
E Antônia levantou-se devagar, sentou-se na praia,
colheu suas roupas, vestindo-as para que ao vê-la nua
a própria natureza não se espantasse, e persignou-se
disposta a seguir caminho, como se a algum lugar
a levasse seu destino, do qual sabia nada,
e olhando ao redor viu, entre a folhagem,
que uma jovem negra, espantada, a olhava e olhava. (31-12-25)







 

 


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