28. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 9: SUMÉ - 9.2. O DESFECHO

9. SUMÉ



Onde Antônia se despede de Sumé, e reencontra, num naufrágio, os capangas do cafetão que a atacaram naquele longínquo bordel da Amazônia.




9.2. O DESFECHO



1. DESDE A NOITE DESPONTA MEU ESPÍRITO



 

 
De seu precário abrigo, no alto do morro, Antônia
descortinava todo o horizonte, e ali ela se sentia protegida,
pois não havia quem pudesse se aproximar sem que ela visse,
e assim ela seguia seus dias, concentrada nos ensinamentos
de Sumé, na prática da oração e na vida litúrgica cotidiana
que era sua proposta de entendimento das coisas do mundo,
desse mundo da matéria, o mundo físico, mas, principalmente,
daquele outro mundo, celestial e etéreo, o mundo do Espírito,
 
e assim, numa manhã, após uma noite de ventos e tormentas
que pareciam a goela do fim, o sol se levantava do horizonte infinito,
e havia tantas cores no ar, e perfumes, e gotas de orvalho
que nasciam da madrugada e se evanesciam em brilhos diamantinos,
enquanto colibris e outros pássaros faziam malabarismos,
e os gritos das gaivotas, lá embaixo, anunciavam os cardumes
de peixes, e um dia de azáfama no permanente mercado dos bichos,
com sua roda sempre a girar, sem nunca chegar a nenhum destino,
e tudo parecia girar num caleidoscópio de beleza mística,
e Antônia ergueu os olhos para o céu, e de todo coração disse,
 
Desde a noite desponta meu espírito até a ti, ó Deus,
porque teus mandamentos são luzes; ensina-me, ó Deus,
a tua justiça, os teus mandamentos e os teus direitos, ilumina
 os olhos de minha mente, para que não me suceda
adormecer em erro, e afasta todas as trevas
de meu coração; concede-me o Sol da Justiça
e mantém minha vida isenta de influências, com o selo
do Espírito Santo, dirige meus passos pelos caminhos da paz,
concede-me o raiar e o dia repletos de alegria, para que a ti
eu eleve as orações matutinas[1]”, e ela sentiu-se cheia de amor,
aquele estranho amor de que Sumé lhe dizia, que chegaria
a ela, sem que percebesse, mais dia, menos dia.



[1] Ofício de Matinas, Terceira Oração Mística.




 2. O NAUFRÁGIO




Firmando a vista, Antônia percebeu que na praia abaixo
uma embarcação à deriva havia naufragado, e que seus pedaços
encalharam na areia, e, vestindo seus trapos apressadamente,
ela deixou a segurança de seu lugar, sem pensar nas consequências,
e correu a socorrer quem por ali houvesse, ainda que
com risco de sua própria existência, e chegou à praia
em tempo de ver o casco que afundava na arrebentação,
derramando seus mastros e velas na água, e na popa
se podia ler o nome da embarcação, “Espírito de Justiça”,
 
e Antônia ainda estava tentando entender o que havia,
quando, sem que visse, dela se aproximaram pessoas,
que eram os náufragos do pequeno navio, e quando ela se voltou
e os viu, teve que abafar um grito de terror, porque
naquelas pessoas naufragadas, exaustas pela borrasca,
surradas pelas ondas e pelo terror gélido da morte
que tão de perto viram, desgrenhadas, esfarrapadas,
encharcadas e famintas, naqueles homens Antônia viu
 
os mesmos que a espancaram e a violentaram
naquele dia distante, quando era Eulália,
no bordel em que conhecera as meninas,
que libertara do cafetão, e pagara caro
por sua ousadia, e também eles a reconheceram,
e por um momento estiveram como que paralisados,
como se tivessem visto um fantasma, uma assombração,
 
uma alma penada, uma criatura do outro mundo, e então
caíram todos de joelhos, e choravam convulsivamente,
pedindo clemência ao vulto desencarnado, fantasma
que, pensavam, teria vindo para que o inferno
os engolisse, por tudo o que fizeram contra ela,
 
e havia com eles duas mulheres, que Antônia conhecia,
que eram Elizabete e Valquíria, e com elas todos
se arrojaram aos seus pés, e pediam-lhe perdão,
de todas as formas possíveis, sem que ela ou eles
compreendessem nada do que havia ali (embora
Antônia já tivesse se acostumado a essas manobras
da vida), e assim ela ordenou que todos se levantassem,
 
e perguntou a eles como tudo havia acontecido,
e então um deles tomou a palavra e disse, “Ó irmã,
espectro, Nêmesis, fogo fátuo, fantasmagoria,
não somos dignos de lhe dirigir a palavra, pelo tanto
de mal que a nós é imputado, que nos atirou ao inferno
desse barco, que não sabemos como nos foi dado,
 
apenas que comemorávamos sua morte naqueles dias
de maltrato, num outro cabaré à beira da estrada,
quando apagou-se a luz, e ninguém mais enxergava nada,
e entre os gritos e a algazarra, nos vimos atirados
ao convés dessa chalana, em meio à tempestade,
que durou por dias intermináveis e terrores indizíveis,
e em pouco tempo a navioneta começou a adernar,
 
quando nos aproximávamos da barra, e logo as ondas
a empurraram a um banco de areia, e partiu-se o casco,
e ela começou a afundar, e só tivemos o tempo
de nos atirarmos ao mar, e nadarmos até essa praia,
onde estivemos estirados na areia, até que você surgiu,
 
assim, do nada, alma penada e encarnada,
e se você está surpresa com isso, mais ainda
estamos nós, que a vimos morta ou assim
pensávamos, e agora a encontramos nessa praia,
que não sabemos onde fica, nem em que dia estamos,
nem o que tudo isso significa”, e completou, “Meu nome,
é Julião, eu fui motorista do Russo, e esses que aqui estão
 
são Gonzaga, Mateus, Queiroz, Dedeco, Carlos, Raimundo,
Orestes e Firmino, todos nós, os nove, seus assassinos,
pelo que pedimos seu perdão, pois vemos que você
fez tudo o que devia, naquela ocasião, e que errados
estávamos nós, que a batemos e agredimos,
mas como poderíamos reconhecer nosso próprio crime?,
se aquilo tudo era o normal da vida, da vida que levávamos,
sem Deus, sem fim, sem arrimo, sem razão e sem tino!”.
 
 



3. VELHOS CONHECIDOS





Então adiantou-se um outro homem, muito ruivo, que falou,
“Irmã Antônia, eu sou o Russo, que morreu tentando
matar-te, que quase matei Maria, e o teria feito,
se não fosse o tiro certeiro que me atingiu no peito
e me tirou instantaneamente a vida”, e a seguir
aproximaram-se as duas mulheres, que se apresentaram,
 
“Eu sou Elizabete, a cafetina, e essa é Valquíria,
que denunciou você à quadrilha, e que morremos as duas,
mãe e filha, e acompanhamos Russo, meu filho,
em sua descida infernal, para acordarmos nesse dia
incompreensível, nesse naufrágio, nessa praia, nessa ilha,
e te encontrarmos, inteira e bem viva, e estou certa
 
de que o perdão que te pedimos é sincero, de cada um
desses corações que se dobram diante de ti, implorando
sua misericórdia por tudo o que fizemos, e que nunca,
nunca deveríamos ter feito o feito, e para o que já não existe
nesse mundo, nem no outro, nenhum tipo de remédio”,
e Antônia tomou-a pela mão e a fez levantar-se, e disse,
 
“Mãe Elizabete, que me acolheu em sua casa, que posso
dizer-lhe? Passei lá dias intensos, em que a alegria não faltou,
em que a tristeza passava longe, e só posso dizer a você,
agora, que suas meninas estão bem, muito bem e a salvo,
num lugar longe daqui, que não pode ser alcançado,
nem no tempo, nem no espaço, e que eu
– quem sou eu?, para condenar você, Valquíria,
 
ou qualquer um desses condenados, que no seu desvario
de violência me atacaram, mas que, no fim, me deram
uma filha, que é a luz dos meus olhos, e o amor
da minha vida, e assim – que posso dizer-lhes, senão,
que não há perdão tão grande em mim quanto eu gostaria,
que apague todas as suas penas, e que lave de seus olhos
toda lágrima, e que apague seus pecados, como somente
Cristo o faria, e o fará, estou certa, pois acredito
 
na sinceridade de sua metania, e quero dizer a vocês
que uma nova vida irá se iniciar aqui, que será para vocês
um espanto, mas hão de acostumar-se a ela, e em breve
hão de esquecer-se dos dias em que a noite era tudo
o que havia, e os dias eram contados nos trocados
que ganhavam de homens maus na sua lida”. (15-6-25)
 



 
4. CERTIFIQUEM-SE DE QUE SUA CONVERSÃO SEJA COMPLETA






Então todos se puseram de joelhos na areia,
e Antônia, de pé, disse uma oração em agradecimento
pela salvação daquelas pessoas, que milagrosamente
chegavam até ela, em mais um transe inexplicável
do destino, e então ela falou assim, “Glória a ti,
revelador da luz, glória a Deus nas alturas e paz na terra,
para os homens a benevolência[1]”, e dizendo isso,
 
voltou-se para aquelas pessoas e continuou em alta voz,
Hoje se realizou a salvação do mundo, louvemos Aquele
que ressuscitou do sepulcro, o que conduz nossa vida,
porque pisou a morte com a morte, dando-nos a vitória
e a grande misericórdia[2]”.
 
“Certifiquem-se”, disse ela, “de que sua conversão
seja completa, vão até a vila que fica ao norte daqui
e ali se apresentem como náufragos, e trabalhem
na construção daquela igreja, e sejam os mais diligentes, fieis
e agradecidos a Deus pela graça que alcançaram,
 
e não retornem nunca às suas vidas de pecado, e serão
felizes, malgrado as perdas que tiveram em seus dias
e tudo aquilo para o que não irão mais retornar,
porque vocês se transformaram em pessoas novas,
e, como tal é com isso que doravante irão lidar,
para que sua fé seja efetiva e se concretize, e não mais
se abale ou estremeça, a partir desse ano da Graça
de nosso Senhor Jesus Cristo, de 1577”.



[1] Divina Liturgia de São João Crisóstomo, Doxologia.

[2] Divina Liturgia de São João Crisóstomo, Simeron Sotiria.




5. NOVOS MORADORES CHEGAM À VILA




Então Antônia falou, “Sigam por esse litoral na direção
do norte, e dentro de algumas horas de marcha
encontrarão uma vila de portugueses, onde está sendo
construída uma igrejinha, e apresentem-se a eles
como náufragos que são, e não lhes digam mais nada,
e se perguntarem finjam que não se lembram,
que perderam a memória no afundar do barco,
 
inventem o que quiserem, mas não falem de si
porque haverão de tomá-los por loucos, porque
estamos em outra época, que vocês não imaginam,
e o Brasil mal foi descoberto ainda, e é nesse tempo
que vocês hão de viver doravante, de modo que
o que lhes resta é arrependerem-se de tudo o que
fizeram, e, para começar, ajudem na construção
da capela, com todo afinco que puderem, e fixem
sua residência aqui, e nem pensem em voltar
 
para o lugar de onde vieram, pois isso não está
ao alcance de ninguém, somente do Espírito,
esse mesmo ‘Espírito de Justiça’, que lhes está
dando essa chance de redirecionarem suas vidas
para uma existência decente e digna, com Cristo,
e confessem seu santo nome, como está dito,
Portanto, todo aquele que der testemunho de mim
diante dos homens, também eu darei testemunho
dele diante do meu Pai que está no céu[1]’, e então
 
tornem-se o que sempre deveriam ter sido,
pois vocês são homens bons que optaram,
em algum momento da vida, pelo descaminho,
mas que estão aqui como crianças, e como crianças
comecem agora a trilhar a via de seu verdadeiro destino,
 
e não mencionem meu nome, nem que se encontraram
comigo, e nada digam do que eu lhes disse, é isso
tudo o que peço”, e abraçando a cada um deles,
despediu-os, e vendo-os seguir pela praia, voltou
ai seu abrigo, vigiando, e ali esteve o resto do dia,
pronta para deixar a palhoça e sumir-se no mato,
em busca de Sumé, para lhe contar o acontecido.
 
“Quantos terão, realmente, se arrependido?”, pensava,
“Quantos não terão expressado senão o terror que sentiram?
Quantos não esquecerão em poucos dias suas promessas
e voltarão, mais que depressa, ao vômito de suas antes vidas?
E o que me resta, senão depositar neles a esperança,
a confiança de que agirá o Espírito, de que, nessa aldeiazinha
que ora nasce, frutifique toda uma geração arrependida
capaz de viver em paz e harmonia, de dar a seus filhos
e às gerações futuras um novo tipo de amor
que faça dignos seus moradores do amor de Cristo?”
 
E, lembrando-se da menina Cananeia,
que ela salvara da turba enfurecida,
ali mesmo, naquela mesma freguesia,
pensou, “Qual o quê! Deixemos que Deus
lhes conceda a vida que querem,
que desejam no fundo, e que mereçam”,
e Antônia suspirou dizendo a si mesma, “Afinal,
não nos preocupemos com o amanhã, pois
o amanhã trará as suas próprias preocupações,
Basta a cada dia o seu próprio mal[2]”. 15-6-25)



[1] Mateus 10: 32.

[2] Mateus 6: 34.




6. SÚPLICA




Então Antônia recolheu-se à cabana de palha, e
diante do sol que declinava, com os olhos cheios
de lágrimas e a voz que lhe saía num suspiro, orou assim,
Deus Santo, que repousas entre os santos, tu que és louvado
três vezes santo na voz dos Serafins, que és glorificado
pelos Querubins e adorado por todos os Poderes celestes,
 
tu, que tudo fizeste passar do nada à existência,
criando o ser humano à tua imagem e semelhança,
adornando-o com todos os teus dons, tu, que dás
sabedoria e inteligência a quem pede e não desprezas
o pecador, mas que estabeleceste a metania como via
de salvação, tu, que nos concedeste, a mim tua humilde
e indigna serva, a graça de estar nessa hora
face a face com o glorioso e santo altar da tua criação,
e prestar a honra e a adoração que te são devidas,
 
tu, Soberano, recebe de meus lábios, de mim
que sou pecadora, o hino três vezes santo
– Santo Deus, Santo Poderoso, Santo Imortal –
e visita-me com a tua bondade, perdoa-me as faltas,
voluntárias e involuntárias, santifica minha alma
e meu corpo e concede-me a graça de servir-te
santamente todos os dias de minha vida[1].
 
E a lua surgiu imensa para os lados do oceano,
e ela pensou que aqueles homens e mulheres,
que tão estranhamente arribaram àquele lugar
daquela maneira, se tornariam, pela graça do Espírito,
os melhores, e talvez os únicos cristãos verdadeiros,
por loucos em que se tinham convertido,
a erguer a pequenina igreja da vila, dedicada
a São João Batista, justamente aquele que veio
 
para anunciar a vinda de Cristo, o Filho do Homem,
o Filho de Deus, o salvador do mundo, a quem
agora se erguia aquele mínimo altar, como uma súplica
em meio ao torvelinho de tormentos da vida
daquelas pobres pessoas, presas naquele século,
naquele mundo sem sentido, naquela aldeia. (15-6-25)



[1] Liturgia de São João Crisóstomo, Trisságio, Oração Mística.




7. O TESOURO




Antônia deitou-se, exausta pelas emoções daquele dia,
e teve sonhos estranhos, em que se misturavam sóis
maravilhosos e abismos, pássaros que cantavam
e répteis horríveis, que a ameaçavam, e tudo se mesclava
no rosto de Sumé, que ia e vinha, e a enchia de amor
e de esperança, enquanto lhe dizia, “Abre-nos a porta
das entranhas da misericórdia, bendita Mãe de Deus,
pois esperando em ti não nos desviaremos, por meio de ti
seremos livres das provações, pois tu és a salvação dos cristãos[1]”,
 
e Antônia despertou banhada em suor, apesar do frio
da madrugada, e compreendeu que é nas entranhas
do criado que se oculta o invisível e o incriado, que é
sobre o feminino da carne da terra que se deita Deus,
com todo seu peso, que é sua presença total e sua glória,
e ele fecunda seus óvulos feitos de futuro com o esperma
pré-eterno do Espírito, e ela dá nascimento a esse Jesus,
 
esse outro homem, não nascido da matéria dura, mas
misturando o humano e o divino, na medida do possível,
e que essa é a verdadeira pessoa, aquela que vive
no interior de cada ser nascido de mulher nesse mundo,
e que há na mulher esse caráter sagrado, que ela própria,
Antônia, conheceu ao dar à luz sua filha Ana, essa criança
por ela tão amada, que a explicou como mulher,
 
como preta, pobre e só, que foi sua esperança, que fez
de seus dias, dias novos, e a fez acreditar em si mesma
de outro modo, e agradecer a Deus, apesar de tudo,
pelo que ele lhe concedera, e pelo que entendia agora,
que existe, para além do mundo que vemos, outra coisa,
e que é nessa coisa que se esconde a razão de tudo,
que é o que devemos buscar, e que a encontraremos,
na medida em que depositarmos nela nosso “outro”,
como o fazemos com as coisas mundanas, mas dessa vez,
teremos a certeza de que ali se oculta nosso real tesouro. (16-5-25)



[1] Liturgia de São João Crisóstomo, Entrada.




8. O CAMINHO PARA DEUS




 Antônia compreendeu que o caminho para Deus
é repleto de contradições, de marchas e contramarchas,
que o mais santo dos santos dá um passo à frente
e dois pra trás, que a vida é assim, que o ser humano
é assim, que a isso se chama “a carne é fraca”, porque é,
e que, quando buscamos o Espírito, estamos sujeitos
a todo tipo de armadilha, e que é por isso que é preciso
 
que nos entreguemos em suas mãos, pois, “do mesmo modo,
também o Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza, pois
nem sabemos o que convém pedir, mas o próprio Espírito
intercede por nós com gemidos inefáveis, e aquele que sonda
os corações sabe quais são os desejos do Espírito, pois
o Espírito intercede pelos cristãos de acordo com a vontade de Deus[1]”,
 
e ela deitou-se na rede e, com os olhos fechados, entregou-se
à oração, com todo o fervor, fazendo com que saíssem
de sua cabeça e seu pensamento todo tipo de ideias e sugestões,
boas e más, e deixando apenas um vazio ali, para que o Santo
Espírito encontrasse a sala vazia, para preenchê-la a seu modo,
e que a presença de Deus em sua pessoa se fizesse
tal como Deus o determinasse, e que ela, Antônia, fosse apenas
 
o receptáculo daquele esperma sagrado, e ela disse, “Eis a serva
do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”, e ao dizer
essas palavras, o anjo que com ela ali dialogava, a deixou,
e Antônia se levantou, e viu que o dia brilhava, e que acima
de tudo pairava o rosto inefável de Deus, em suas energias,
e ela, ofuscada, caiu de joelhos e foi invadida por algo
tão grande, que ela mal compreendia, mas que a transformava
e a lançava em outro mundo, no qual já não existia nem dor,
nem sofrimento, nem treva, nem desatino, nem fome, nem frio. (16-5-25)



[1] Romanos 8: 26-27.




9. IRMÃS AMADAS, NÃO SE DEIXEM ABATER






“Irmãs amadas, tenham coragem e não se deixem abater!
Lembrem-se das palavras do Apóstolo quando disse,
‘Aquele que está em vós é maior do que aquele que está no mundo[1]’,
e assim, agora vocês podem ver por experiência própria
que não existe tentação que esteja acima das nossas forças, pois
com a tentação Deus prepara também uma saída feliz[2], e assim
é pela esperança no auxílio do Senhor que se sustentaram os santos
que não apenas passaram a vida a rezar, mas que procuraram,
por amor, ensinar e esclarecer os outros, e então vejam o que diz
a respeito santo Gregório, natural de Tessalônica,
 
Não nos basta orar sem cessar em nome de Jesus Cristo
conforme o mandamento divino, mas é preciso expor
este ensinamento a todos, monges ou leigos,
inteligentes e simples, homens, mulheres e crianças,
a fim de despertar neles o zelo pela prece interior[3]’,
 
e o bem-aventurado Calixto Telicoudas
expressa-se do mesmo modo,
 
A atividade espiritual (ou seja, a prece interior),
o conhecimento contemplativo e os meios
para elevar a alma não devem ficar guardados
apenas em si, mas é preciso comunicá-los
pela escrita ou por discursos para o bem
e o amor de todos, e a palavra de Deus
declara que o irmão ajudado por seu irmão
é como uma cidadela grande e forte[4],
e assim é preciso apenas fugir,
com todas as forças, da vaidade e vigiar
para que as boas sementes do ensinamento
divino não sejam levadas pelo vento[5],
 
e por isso, amadas, é preciso que deixemos registrado
tudo o que aprendemos, para que as gerações que vierem
num futuro próximo ou não, saibam que por esse mundo
passaram essas mulheres, que viveram o que o diabo preparou,
mas que, pela graça do Espírito, foram conduzidas ao contrário
dos desígnios malignos do ronca-e-fuça, do sete-peles,
do capirotinho, esse ser infeliz e desprezível, que terá
 
sua hora no Juízo divino e que (temos certeza) será, também ele,
perdoado pelo Filho, pois não poderá haver, na eternidade
e no infinito, a menor parcela de imperfeição, e assim
todo anjo caído será recuperado, como outras tantas ovelhas
perdidas, que serão todas encontradas, pelo abraço bondoso
e universalmente caridoso de Jesus Cristo, que é todo Amor,
e no qual não resta espaço algum para nenhum tipo de prejuízo.
 
Dada nos contrafortes dessa grandiosa Serra do Mar,
no lugar chamado Paranapiacaba, aos 14 dias de Fevereiro
do Ano da Graça de nosso Senhor Jesus Cristo, de 1584.”



[1] 1 João, 4: 4.

[2] Cf. 1 Coríntios 10: 13.

[3] São Gregório Palamas, Homilias.

[4] Cf. Provérbios, 18: 19.

[5] Anônimo, Relatos de um Peregrino Russo, Segundo Relato.




10. SEJAM SANTOS, PORQUE  EU SOU SANTO




“Diz o Salmo, ‘dai-me a alegria da tua salvação
e sustém-me com um espírito hegemônico[1]’,
esse espírito que é a fonte de nossa força interior,
que dá sentido aos acontecimentos, que regula
nossa posição frente às coisas que acontecem,
para que a imagem de Deus em nós seja
a imagem da Verdade, e que não lhe falte nada
do Arquétipo (pois não há semelhança onde há
falta ou carência, e sem a semelhança não há nada),
 
e, assim como a substância de Deus é incompreensível,
também o será a imagem, que imita o protótipo,
e portanto será ela incompreensível do mesmo modo,
o que equivale a dizer, afinal, que o próprio ser humano
é incompreensível, em todas as suas instâncias
e manifestações, desde que represente ele também
a imagem, à qual nada falte, do Protótipo.
 
E essa imagem, essa imagem misteriosa, se expressa
na face da pessoa humana, transitória e permanente,
e que é reflexo do homem interior, o cerne do coração,
que os gregos chamaram ‘nous’, o Espírito Santo
que habita dentro de nós, e que em nós traça
um caminho, que começa na purificação da pessoa,
 
esse esforço conjunto entre ela e o Espírito, como disse
Cristo, quando falou ‘Segue-me’, ele, o Deus-homem,
a quem corremos para que nos torne homens-Deus,
por meio da Cruz – pois é nessa cruz, onde ele se encontra
pregado, que o encontraremos, e essa será nossa condição
existencial, na imobilidade de um pertencimento a ele
que hoje não compreendemos – e pedimos de joelhos
 
ao Santo Espírito que nos ilumine então, pela compreensão
dos ensinamentos crísticos, ‘que ele se digne, segundo
a riqueza da glória do Pai, fortalecer a todos no seu Espírito,
para que o homem interior de cada um se fortifique, e que
ele faça Cristo habitar no coração pela fé de tal maneira que,
enraizados e alicerçados no amor, nos tornemos capazes
de compreender, com todos os cristãos, qual é a largura
e o comprimento, a altura e a profundidade, de conhecer
o amor de Cristo, que supera qualquer conhecimento,
para que estejamos repletos de toda plenitude de Deus[2]’,
 
para não repetirmos o primeiro de todos os erros,
que foi nos separarmos de Deus, ainda no Paraíso,
para depois nos separarmos da humanidade, e no fim
nos separarmos de nós mesmos, essa duplicidade
que nos define e nos condena, como disse Tiago,
o homem de ânimo duplo é inconstante e instável
em todos os seus caminhos e todas as suas veredas[3]’,
essa duplicidade que é o caminho antinatural do eu,
 
e para que possamos seguir as palavras que rezam,
sejam santos, porque eu sou santo[4]’, santo, essa palavra
que significa não nascido nessa terra, mas em outra,
nossa pátria verdadeira, e ‘sejam perfeitos, como
perfeito é o Pai[5]’, perfeito, pleno, completo, assim
como disse o Salvador, quando tomou o vinagre
e pronunciou: ‘Tudo está realizado’, e, inclinando
a cabeça, entregou o espírito[6], o Salvador, perfeito
homem e perfeito Deus, perfeitos corpo e alma,
 
um ser inteiro, uno e indivisível na sua unidade,
não duas coisas díspares reunidas, que uma vai
e outra fica, mas uma só, não terrestre, perfeita e inteiriça,
o Protótipo, a imagem que nossa imagem busca
contemplar, como num espelho, fiel mas invertida,
a semelhança que buscamos nessa humanidade
de Cristo, que é anterior à própria Criação, essa busca
que fazemos por nossa vontade, pois fomos criados
com a mesma liberdade que Deus tem e tinha
desde sempre, esse Deus que É mas não existe,
 
pois a ele não se aplica nenhuma definição
que à própria existência se aplique,
e porque Deus É nós existimos, e existir
é uma experiência pessoal, intransferível,
como é pessoal a experiência de Deus desde Noé,
e então repetimos, ‘dá-me a alegria da Tua salvação’,
a alegria que temos quando aquilo que nos sustenta,
que nos fomenta, é aquela força interior e hegemônica,
que nos comanda e dirige, que não vem da mente,
mas do coração profundo, além de todo sentimento,
 
quando nos tornamos o espelho límpido, sem mancha
do rosto de Deus, e ouvimos, ‘Não fique perturbado
o coração de vocês, mas acreditem em Deus e acreditem
também em mim, pois existem muitas moradas na casa
de meu Pai, e se não fosse assim, eu lhes teria dito,
porque vou preparar um lugar para vocês, e, quando eu for
e lhes tiver preparado um lugar, voltarei e levarei vocês comigo,
para que onde eu estiver, estejam vocês também, e
para onde eu vou, vocês já conhecem o caminho[7]’, e também,
 
Por isso é que eu lhes digo: não fiquem preocupadas
com a vida, com o que comer; nem com o corpo,
com o que vestir, pois afinal, a vida não vale mais
do que a comida?, e o corpo não vale mais
do que a roupa? Olhem os pássaros do céu:
eles não semeiam, não colhem, nem ajuntam
em armazéns e no entanto, o Pai que está no céu
os alimenta. Será que vocês não valem mais
do que os pássaros? Quem de vocês pode crescer
um só centímetro, à custa de se preocupar com isso?
E por que vocês ficam preocupados com a roupa?
Olhem como crescem os lírios do campo:
eles não trabalham nem fiam, mas eu lhes digo:
 
nem o rei Salomão, em toda a sua glória,
jamais se vestiu como um deles. Ora,
se Deus assim veste a erva do campo,
que hoje existe e amanhã é queimada no forno,
muito mais ele fará por vocês, gente de pouca fé!
Portanto, não fiquem preocupadas, dizendo:
O que vamos comer? O que vamos beber?
O que vamos vestir?, pois os pagãos
é que ficam procurando essas coisas.
 
O Pai de vocês, que está no céu, sabe
que vocês precisam de tudo isso.
Pelo contrário, em primeiro lugar busquem
o Reino de Deus e a sua justiça,
e Deus dará a vocês, em acréscimo,
 todas essas coisas. Portanto, não se preocupem
com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã
terá suas preocupações. Basta a cada dia a própria dificuldade[8]’.
 
De Maniçoba, aos 31 dias do mês de Dezembro do Ano da Graça
de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1592” (9-6-25)



[1] Salmo 51: 14.

[2] Efésios 3: 16-20.

[3] Tiago 1: 8.

[4] 1 Pedro 1: 16.

[5] Mateus 5: 48.

[6] Cf. João 19: 30.

[7] João 14: 1-4.

[8] Mateus 6: 25-34.



11. UMA CONFISSÃO



“De que me serve a religião?,
se eu não puder me transformar agora,
pra que tanta demora?, se não puder
senti-la nas minhas entranhas, não em minhas ideias,
 
não quando oro, mas quando estou distraída,
a olhar o nascer do sol, e, de repente,
sobe aquele calor da alma,
que ferve por dentro e vira o estômago
de cabeça pra baixo, de que serve
 
a religião, se não for isso, bem ao contrário
daquela promessa inverificável de um Paraíso
do qual ninguém nunca voltou, para assegurá-lo,
dizendo ‘venham por aqui, conforme demonstrado’
de que serve a religião, se não for
 
para me religar no instante presente,
agora, que estou viva e aqui, consciente,
e não para depois de falecida, de vestido e laço de fita,
como se fosse entrar, não no Céu,
mas numa cerimônia de posse de algum juiz,
sei lá, um rei, um presidente?
 
De que serve a religião, se não for
para bem mais do que me tornar
nada além de uma pessoa, como direi, ‘decente’?
De que serve a religião, minha gente?” (22-6-25)
 
De Cuzco, Província do Peru, aos 4 dias de Março
do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1654.


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