27. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 9: SUMÉ - 9.1. E AGORA, O QUE EU FAÇO?

9. SUMÉ 






Onde somos confrontados com o inesperado, e encontramos Antônia mais uma vez nas proximidades de Cananéia ao tempo da fundação da vila. Ali ela encontra um estranho personagem, Sumé, cuja história surpreendente remonta a séculos, desde os primórdios da Era Cristã.

 




Na mente de Deus, num momento fora do tempo,
ele criou o homem à sua imagem e semelhança,
de modo pessoal, tendo por dote o nous e o coração
capazes de abarcar toda a criação visível e invisível,
com a mesma eternidade de Deus, e assim
 
o homem foi feito rei da criação, e na sua face
estão resumidos todo o mundo visível e o invisível,
e Deus colocou essas coisas na natureza humana,
com todas as suas características, dirigidas
para alcançar a visão da natureza de Deus,
 
a face de Deus, para cuja contemplação
foi criado o homem, mas o homem perdeu isso,
a visão de Deus, que tinha o poder de expandir
seu coração, com sentimentos de gratidão e amor divinos.
 
Mas o homem ficou tão encantado com isso,
que esqueceu-se de que era criatura, e caiu
na desobediência e ingratidão, ele quis ser Deus,
não pelo amor, mas por autonomia e rebelião,
perdendo sua face iluminada, trocando-a
pelo peso dos sentidos corporais, e assim
 
o coração perdeu a visão de Deus e empedrou,
nous perdeu a memória das experiências
sobrenaturais da graça, porque essas coisas
não têm fundamento material, e então
o homem se tornou prisioneiro do mundo visível,
 
e, esquecendo-se de Deus, sentiu um vazio irreparável
e uma insegurança assustadora, que torturam sua alma
e enchem sua hipóstase de paixões, perdendo as pegadas
de Deus e as condições de amar, afastando-se de Deus,
do próximo e da própria razão de ter sido criado.
 
Separado de Deus, o homem se viu trancafiado em si mesmo,
deserdado, seco e decompondo-se até a morte, seu espírito
tornado prisioneiro do medo da morte e da filáucia,
na inútil tentativa de sobreviver a si mesmo.
 
Exilado de seu coração, de Deus e do próximo,
o homem perdeu seu poder junto à criação,
poder que advinha da imagem de Deus nele,
perdendo seu destino profético de reinar
sobre o mundo e de entregar a Deus toda a criação,
ampliada e espiritualizada para a eternidade.
 
Mas o chamado de Deus não pode ser retirado
nem recusado por Deus, e por isso a morte é inaceitável,
porque o homem foi criado para a eternidade sem dissolução,
e por isso a morte é contra a natureza e contra o destino humano,
pois ela faz com que a vida não tenha sentido, e faz
com que o homem viva como num deserto árido e infrutífero,
 
e assim Deus cria, todo o tempo, diferentes situações
para resgatar o homem, para que ele possa abrir
seus olhos e ouvidos para escutar os suspiros da criação[1],
que, por sua causa, foi colocada nessa situação sem saída,
 
e, ao tomar consciência disso, o homem adquire
a “memória da morte”, essa certeza de que a morte é vida,
essa lembrança da celebração da verdadeira vida, e com ela
toda a história da humanidade aparece como um espelhamento,
como uma brincadeira de cabra-cega e uma galhofa,
e assim finalmente, quando percebemos isso
e deixamos de nos dissolver nas coisas, e na esperança
falsa e absurda de uma duração inexistente, recolocamos
toda a criação no recôndito de nosso coração,
e esse é, assim, o começo da salvação do homem[2].

 



[1]  “Sabemos que a criação toda geme e sofre dores de parto até agora. E não somente ela, mas também nós, que possuímos os primeiros frutos do Espírito, gememos no íntimo, esperando a adoção, a libertação para o nosso corpo. Na esperança, nós já fomos salvos. Ver o que se espera já não é esperar: como se pode esperar o que já se vê? Mas, se esperamos o que não vemos, é na perseverança que o aguardamos. Do mesmo modo, também o Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza, pois nem sabemos o que convém pedir; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. E aquele que sonda os corações sabe quais são os desejos do Espírito, pois o Espírito intercede pelos cristãos de acordo com a vontade de Deus” (Romanos 8: 22-27).

[2] Cf. São Sofrônio, Sobre uma Homilia de São Silouane.




9.1.  E AGORA, O QUE EU FAÇO?

 

 

1. À BEIRA DO MAR PEQUENO




“Daqui até onde a vista alcança é um mangue só,
e ao fundo, recortando o céu, alteia-se uma serra
cujos picos azulados se elevam além das nuvens,
e quando por lá se põe o sol, o perfil das montanhas
ganha linhas de ouro e prata que parecem remeter
a um outro mundo, quem sabe o Paraíso prometido.
 
À minha frente, o mar é infinito, as ondas quebram
tranquilas na areia interminável, onde alguém poderia
compor poemas à Virgem, que ficariam para sempre
preservados, tão mansas são as ondas, tão tímida
a maré, tão sóbrio o vento, que as palavras
nunca se dispersariam, e sua memória ficaria
para sempre gravada nesse estranho pergaminho.
 
Deus envia seus pássaros para me lembrar
de que existem outros seres vivos, e seu canto
agudo e ponteado ecoa nos meus ouvidos,
e sinto uma espécie de arrepio quando respondo
com a oração que tenho decorada, que corre
nas minhas veias, nos meus nervos e à flor da pele,
e que faz com que meus olhos vejam com mais cores
a realidade multiforme desse país imenso, que,
de onde estou, e nesse momento, parece desabitado.
 
Sou Antônia, a que viveu e sobreviveu a mais de uma vida,
e que traz no corpo e na alma as marcas do sofrimento
e das muitas alegrias que passei, nessa busca por Deus,
que parece cada vez mais infinda, pois quanto mais
caminho, mais a estrada se abre à minha frente,
e mais se alargam os horizontes, e mais desejo sinto
de prosseguir na marcha, ainda que, para tanto
seja preciso caminhar sobre brasas, seja preciso
galgar montanhas, seja preciso transpor abismos.
 
Ontem vi pegadas na praia, de pés descalços,
e hoje pela manhã a linha azul do mar se pontilhou
de velas brancas, que me parece se aproximarem,
e por essas coisas será mais prudente ocultar-me,
pois a presença humana, que para alguns é benfazeja,
tem se mostrado para mim uma fonte inesgotável
de sustos, de perigos, maldades e torpeza.
 
Amanhã voltarei a essa faixa de areia comprida,
para observar o movimento, se novas pegadas surgirem,
se as velas se transformarem em barcos, e os barcos
em gente estrangeira, e essa solidão em que vivo,
há pouco tempo, é verdade, se povoar dessa multidão
que os homens levam sempre consigo, para onde vão,
mesmo que sejam poucos, porque parecem sempre
estar acompanhados de uma legião de pensamentos
maus, de afazeres egoístas e de propósitos escusos
que sempre acabam por servir apenas aos seus proveitos.
 
Passarei a noite nesse abrigo pobrezinho que erigi, feito
de folhas de palmeira, troncos e galhos, mas estou
acostumada a piores condições, mais extremas e precárias,
e estou certa de que o Santo Espírito saberá aconselhar-me
e há de me guiar em seu desígnio, nesse projeto inusitado
que me coube cumprir à risca, mesmo periclitando
minha existência, mesmo na dor, no desamparo e no frio.”
 
Aos 20 dias de Julho em Marataiama, Cananeia,
à beira do Mar Pequeno, no ano da Graça de Nosso Senhor de 1531. (8-6-25)
 

 


2. A CONSTRUÇÃO DA VILA




Para não correr riscos, Antônia preferiu se recolher
ao seu abrigo improvisado, e vigiava a praia de tempos em tempos
acompanhando a movimentação das pessoas, que começavam
a construir uma vila, toscamente, junto ao canal que costeava
distante poucas braças do oceano, com casebres de taipa,
à moda de algumas construções indígenas, um molhe mal-e-mal,
uma cerca de troncos de pau, e derrubaram o mato ao redor,
fazendo queimadas, e ali começaram algumas atividades,
hortas de feijão, abóbora e milho, e pelas redondezas caçavam,
e produziam carne de sol, e por ali ficaram, deixando passar os dias,
e pareciam aguardar alguma coisa, que não acontecia, e assim
a pequena vila vivia, mês a mês, numa letargia que nunca mudava,
 
mas Antônia não estava minimamente disposta a se aproximar,
pois, além de mulher era negra, o que desaconselhava mostrar a cara,
e ela já sabia, pelas experiências por que passara, que a pior coisa
que podia lhe acontecer, nesse momento, era ser outra vez escravizada,
e assim ela preferiu penetrar na mata, e apagar os sinais de sua presença,
e se manteve apartada, ainda que tivesse a curiosidade de saber
de que maneira se daria o povoamento daquela região da costa,
mas ela tinha mais no que pensar, que era seu caminho para Deus,
e, no fundo, era só isso, e tão somente isso, que a preocupava.
 
De Cananeia, aos 16 dias do mês de Agosto do Ano da Graça
de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1531 (9-6-25)
 

 



3. SUMÉ





Antônia deu um salto de susto com a presença estranha
que não esperava, e deparou-se com um homem alto,
nu, marrom da cor do couro curtido e molhado,
com uma estranha capa a lhe cair dos ombros, barbado,
cabelos brancos trançados muito longos e um olhar penetrante,
que ao mesmo tempo divagava, e ela se encolheu,
tremendo, mas ele se aproximou e lhe disse, “Não tema,
não vou lhe fazer mal algum, também eu sou viajante
e me encontro nessas paragens há muito tempo,
 
e conheço cada légua que percorre daqui até o horizonte,
e mais além, se quiser, até Jerusalém, até Zebulon e Neftali,
na Galileia dos gentios, e dali ao Paraíso, se for o caso”,
e riu-se o homem, e de repente ficou calado, e apontou
para uma obra de taipa e pedras que se erguia
na vila, lá embaixo, junto ao Mar Pequeno, onde
os brancos portugueses fizeram sua pequena vila,
e a chamaram Cananeia, e a dedicaram a João Batista,
 
e o homem disse, “Veja a loucura dos homens,
que deixaram sua terra em busca – do que? – em busca
disso, da febre dos trópicos, dessa Pindorama selvagem,
que até pouco tempo talvez nem existisse sequer,
nem na imaginação do mais exaltado, e agora os vemos,
com suas mulheres cansadas, a erigir monumentos
a um Deus que desconhecem, do qual só sabem
que os punirá severamente, como pai algum o faria,
e esperam com essas paredes grossas o amansarem,
 
e acenderão muitas velas, e queimarão perfumes,
e se porão de joelhos, a implorar por qualquer coisa
que lhes passe pela cabeça, riqueza, prestígio, poder,
tesouros, e se recolherão depois às suas casa, essas choças
miseráveis, onde insetos os picam toda a noite,
onde a doença ronda, a loucura está sempre presente,
onde não há esperanças, nem no rei, nem no papa,
afinal, o que querem eles?, mais dormindo que acordados,
 
vivendo esse sonho que mal conseguem traduzir
em palavras, para morrerem à mingua e serem
enterrados com seu nome e seu passado numa cova rasa,
e apodrecerem sem deixar rastro de sua passagem
por esse mundo, e sem levar daqui sequer um prego,
para pregar na cruz dos seus desvios, seus erros,
aquilo a que chamam ‘seus pecados’, e esperam
por um dia fatídico qualquer, em que um juiz togado
 
os condenará a um castigo eterno, que não sabem
se merecido ou não, porque há, em tudo isso
alguma espécie de segredo, secreto e bem guardado”,
e piscou para Antônia, e concluiu, “Mas não você,
pequena mulher, você nasceu para outro fado,
e eu aqui estou para acompanhá-la, não me pergunte
por que nem como, mas não tema, as coisas são assim,
você sabe como é!”, e Antônia, refeita do susto,
perguntou ao homem, estranho personagem, “Qual é,
afinal, seu nome?”, e ele respondeu, “Sumé”. (9-6-25)
 
Cananeia, aos 26 dias do mês de Fevereiro do Ano da Graça
de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1534 (9-6-25)
 

 


4. E AGORA, O QUE EU FAÇO?




“Sumé! São Tomé, Santumé, Suntumé, Sumé,
o mítico apóstolo que correu o mundo,
que pregou na China e na Índia, que deixou
sua pegada na pedra, nos arredores de Pernambuco,
o Sumé dos povos originários brasileiros,
Sumé, com seus longos cabelos, com seus dedos
que tocaram a chaga de Cristo, o primeiro
que falou, ‘Meu Senhor e meu Deus![1]’,
 
Sumé, de quem não sou digna de servir
de escabelo aos seus pés descalços,
Sumé, à minha frente, com seus olhos serenos
e sua voz tranquila, a dizer-me,
como fôra a coisa mais normal do mundo,
"Não me pergunte por que, nem como",
 
Sumé que me tira o ar e o fôlego, que detém
meu coração em descompasso,
Sumé, que posso alcançar com meu braço,
um homem de carne e osso, surgido diante de mim,
vindo de um passado lendário, Sumé,
Sumé!, e eu, agora, o que faço?" (10-6-25)

 



[1] João 20: 28.



5. SUMÉ FALA




O homem, com muita calma, respondeu,
como se algo lhe tivesse sido perguntado,
"Antônia, serena Antônia, que sabe
que o nictêmero[1] não é uma contagem aritmética
da passagem inexorável do tempo,
que a meia-noite não é um momento,
 
mas um portal sem portal, que conduz
de um dia passado ao seu parente (sim,
os dias são uma família de energias,
que nascem e se transmutam na matéria
daquilo a que chamamos tempo), Antônia,
que foi si mesma e outra que si,
enquanto era a outra e a mesma,
 
Antônia, que adormece em 1915, em Buriti,
e desperta em 1660 em Minas do Catirité,
com a mesma cara bonita, e o corpo esguio
coberto de tatuagens-cicatrizes na sua pele negra,
Antônia, que vem aprendendo toda sabedoria
dos homens e dos espíritos, Antônia,
de quem não sou digno de catar os piolhos,
 
eu, Sumé, São Tomé (eu me rio dessa santidade
que me deram), que vim dar a essa terra estranha
onde há gente que canta e samba sua fome,
sua sede e sua miséria, enquanto sonha
com um Deus que fizeram de retalhos,
dos pedaços de Jesus Cristo, que o mar
trouxe a essas praias, do naufrágio do Cristianismo
que já não podia ser salvo, Antônia,         
 
que viu tudo isso em sua própria alma,
Antônia, que eu hesito tocar as chagas
cicatrizadas pelo sopro do Espírito, Antônia,
que me perguntou, ‘Quem você é?’, Antônia,
que atravessou incólume o tempo e o espaço
Antônia, que faz meu peito indagar,
‘E eu, agora, o que faço?’",
 
e o homem riu um riso fácil, e Antônia riu
com ele, e sentaram-se a contemplar
mais abaixo a azáfama dos homens,
com sua correria sem nexo, sua visão curta da vida
e suas esperanças de algum dia serem salvos,
de quem, de quê, ali, dizer ninguém saberia. (10-6-25)



[1] Nictêmero: o ciclo dos dias e das noites.




6. AGORA, VAMO-NOS DAQUI





"E você, Antônia, vagueia por esses brasis,
onde se refugiaram as almas que se recusaram
a adormecer, enquanto não lhes fosse concedida
a liberdade extrema, prometida
pelo mais gentil dos deuses mais gentis,
esse mesmo Cristo, a quem vão os pequeninos,
e elas andam por esses campos e matas,
dissolvendo-se lentamente na matéria
que não puderam, ou não quiseram deixar,
 
e atrás delas vieram legiões de diabos,
que farão ainda todo tipo de estrago,
de que foste testemunha, linda menina,
que tiveste a flor arrancada à força, ainda que
ainda permanecesse virgem em teu espírito
intocado e puro, e deste à luz tua filha,
e a embalaste no colo e lhe deste o seio,
e a amaste como se tivesse sido a criança
mais desejada dentre todas nascidas,
 
tu, Antônia, que é para mim mistério, peregrina,
a rodar por essas terras sem dono, você,
moça sem cerimônia, mulher, preta, pobre,
sem onde cair morta, que se debruça a essa janela
que é o mundo, ao mesmo tempo
em que busca, em Deus, a porta que lhe abrirá
o segredo dos que vivem além da vida,
e muito além das aparências da morte,
você é isso tudo, Antônia, e muito mais ainda."
E Sumé se levantou e disse, "Agora, vamo-nos daqui". (10-6-25)
 
Cananeia, aos 13 dias do mês de Outubro do Ano da Graça
de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1545 (9-6-25)
 





7. O SONHO DE ANTÔNIA





 
Antônia teve um sonho, em que Sumé
se transformava num cavalo, que ela montava
e cavalgava por campos floridos, e se deitava
na relva, e ele a inseminava de um desejo erótico
por tudo o que fosse divino, e ela sentia sua alma
encher-se de um amor estranho, celeste, elíseo,
que ela não compreendia, e Antônia despertou suando,
sem saber onde estava, o que se passara ou o que havia.
 
E, despertando, viu ao seu lado, na rede,
aquele homem alto e magro, que dormia,
e aconchegou-se ao seu peito, aninhando-se
como ao colo de um pai faria sua filha,
e adormeceu novamente, para só acordar
quando já ia alto o dia, e Sumé já não estava,
 
mas preparava uma fogueirinha com brasas,
e sobre elas um peixinho, e aquilo lembrou
a Antônia, algo que já vira, na beira de algum outro
mar, e ela sabia agora que o que estava a procurar
não haveria de achar nas páginas de qualquer livro,
mas se escondia na fumaça que subia do fogo,
da queima daqueles galhinhos, e pensou
que o Filho é gerado do Pai, mas que o Espírito
do mesmo Pai procede, e se expressa
através do Filho, do mesmo modo como
o fogo é gerado pela madeira, mas o fumo
procede dela, através do fogo que ardia. (12-6-25)
 
 




8. OS HUMANOS 






Na manhã gelada, os homens lá embaixo prosseguiam
em construir a pequena igreja da vila, dedicada
a João Batista, na verdade uma fortaleza, atarracada,
de grossíssimas paredes e janelas nenhumas, ou quase,
onde cabia toda a gente em caso de ataque, e Sumé
observou, com rosto triste, “Veja, Antônia, imaginam
eles um lugar de adoração, mas o que constroem
 
é um forte, a separar um certo ‘divino’ de um mundo
que os ameaça todo o tempo, não porque seja
um mundo ardido e rancoroso, mas porque se trata
de um mundo invadido, e eles são estranhos aqui,
e embora se digam catequistas, ou como tal
são pretendidos pela Coroa, são na verdade
embusteiros, que, sob o manto desse falso Cristianismo,
escondem seus arcabuzes, numa guerra de conquista,
 
enquanto acendem velas, como se aos santos
agradasse tal pantomina, como se a Cristo as houvessem
dedicado ante a Cruz de seu martírio, mas sabemos
que somente a prostituta o louvou como se devia,
lavando a ele os pés com seu perfume, enxugando-os
com suas próprias tranças, e eu lhe digo, Antônia,
essa é a adoração que é devida, o resto não passa
de superstição, como se paredes orassem, como se
separar-se do mundo significasse estar no Espírito,
 
mas não, é o contrário, podemos não ser do mundo
mas nele estamos, e seria blasfemo separarmo-nos
como se o mundo representasse o pecado, como se
não tivesse ele sido feito por Deus, mas pelo diabo,
e o que vejo agora?, essas muralhas grossas, argamassadas,
onde deveria haver respeito pelo próximo, e um abraço
entre seres humanos de verdade, não essa falsa caridade
que olha o próprio umbigo, enquanto que a outra mão,
armada, prepara todo tipo de mal e de atrocidades”. (12-6-25)
 
Cananeia, aos 8 dias do mês de Abril do Ano da Graça
de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1561 (9-6-25)
 





9. O DEUS-HOMEM





 
“Entre todas as coisas existem diferenças,
que podem ser absolutas, como a que existe
entre o criado e o incriado, ou relativas,
como as diferenças entre os seres, pois
cada um é cada um, embora sejam todos eles
da mesma substância feitos, e é assim que
entre Deus e o mundo há uma diferença
absoluta, porque Deus é infinito, e o mundo
é finito, porque o criado é um ‘ser’, e Deus
é um ‘não ser’, e, na verdade, Deus não existe,
 
porque nenhuma definição de existência
se aplica a ele, e é por esse mesmo motivo
que as Escrituras não podem ser usadas
como ponte para Deus, porque tudo o que
há nela, os termos e os pensamentos, são
extraídos das coisas criadas no mundo,
que não têm relação com a substância
divina, porque somente as coisas criadas
podem ser descritas, enquanto que Deus
 
não pode ser descrito, e todos os nomes
que lhe atribuímos são extraídos da experiência
humana, e assim, quando se chega a experimentar
a deificação, descobre-se que Deus não tem nome,
porque diante da visão de Deus, toda palavra
é anulada, e assim, da mesma forma, Deus não é
nem Unidade, nem Trindade, porque se ele
não é palavra, tampouco número será,
nem mesmo sujeito, muito menos objeto,
 
e quando dizemos que o Pai ama o Filho
não há nisso uma relação de sujeito e objeto,
porque o Pai não é o sujeito do amor,
e o Filho não é o objeto do amor, porque
ele é gerado, não criado, e entre eles
não há subordinação, como entre os humanos,
porque as relações entre os homens
não são como as relações de Deus com eles,
e assim não pode existir um Deus pessoal,
um Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó,
 
e somente pela Encarnação foi possível, e é,
nos relacionarmos com Deus, mas através
de Cristo, Deus-homem, teo-antropo, porque
temos uma semelhança ontológica com o Filho,
que, pela Cruz, criou para nós essa relação
especial com o Pai, e com Cristo somos
co-ícones de Deus, esse Deus que se manifesta
para nós como Deus-Amor, porque o Amor
dos Evangelhos é, em essência, uma energia
viva e incriada da divindade também incriada.” (9-6-25)
 
 




10. A LUZ, A VERDADE E A VIDA






“A verdade é a coisa mais difícil de encontrar
nesse mundo, não há um só homem que não minta,
do berço à tumba, e alguns levam ainda além a mentira,
fantasiando-se de santos, profetas, imperadores,
enquanto são levados à sepultura, acompanhados
nesse féretro carnavalesco, teatro de vilanias,
pelo choro e ranger de dentes de carpideiras,
essas sim, profissionais à altura para rendê-los dignos
de pelo menos algumas lágrimas fingidas, falsas,
mas bem representadas, perante as demais criaturas,
 
e me arrisco a dizer, menina Antônia, que foi por isso
que Deus permitiu que você passasse por tudo aquilo,
e que fosse espancada, batida, cuspida, humilhada,
e que sofresse a fome e o frio, e a doença, e ainda fosse
açoitada, violentada, esbofeteada, chutada e amassada,
arrancada de si mesma e transformada em sua dupla,
até que sua carne se transformasse em outra carne,
e que todo seu ser emergisse dessa sopa de sangue
e ossos quebrados para uma nova vida, e que até hoje
sua existência seja essa corda de equilibrista, tensa,
lisa, turbulenta e escorregadia, sobre o abismo, onde
 
você pisa a morte a cada dia, mas seus olhos já não temem
a realidade, nem sua mente a encobre com pensamentos,
nem seu coração acolhe os intentos ocultos do entendimento,
e assim Deus a preparou para que o conheça um dia em Cristo,
que não sei quando será, nem lhe prometo, mas você o verá então
com olhos outros do que aqueles que tem nesse momento,
e você entenderá que esse Deus, que você busca sem descanso,
é o mesmo que ilumina a terra, o mesmo que faz crescer
cada pequeno ente, que faz levantar cada elemento,
 
que está presente em toda parte, e que, por suas energias
torna todas as coisas plenas, sem que a cada uma falte
sequer um átomo, por meio de seu Espírito Santo,
 
e que a esse Deus conhecemos por seu Filho, que desceu
e se apresentou a nós, para que o saibamos, e que estará
no meio de todos, no dia do Juízo, pois ele foi homem
como Deus foi, também ele, e desde o princípio,
e é essa linha, que está presente nele, como um de nós,
e que une a tudo o que existe desde antes dos dias até o final
 
desse precipício, esse homem contínuo e reto, que é
a Luz, a Verdade e a Vida, que exclui toda mentira,
e que não podemos olhar de frente, por causa da nossa
indignidade e hipocrisia, e por isso nos curvamos
diante dele, e lhe lavamos os pés, e derramamos
nossas lágrimas de alegria, por ali estarmos, e por ali
podermos permanecer, até o esgotamento dos dias.” (12-6-25)

 


 



11. A HISTÓRIA DE SUMÉ






“E digo isso pensando em tuas irmãs, também, cada qual
tão sincera em suas existências guerreiras, de Fatumata,
que sobreviveu ao mar e ao navio tumbeiro, de Tecla,
espancada e quase morta pelos capangas do capitão Jereno,
de Ana, separada de sua mãe, como você sabe, Ana
que sonhava e tinha visões, de Cananeia, perseguida
e ameaçada por uma vila inteira, de Teodora, órfã desde criança,
violentada quando mal ainda saíra dos seus dias de inocência,
de Maria, ah!, Maria, que pagou com a cicatriz da faca
a coragem de ser si mesma, e de enfrentar seus demônios
e fantasmas no ermo amazônico do trecho traiçoeiro,
 
de todas essas, cada qual perfeita e merecedora
da visão de Deus, que alcançarão, estou bem certo,
e de todas a que chegou por último foi você, Antônia,
e que chegou também primeiro, e que foi a que
mais mistérios viveu, a que mais ultrajes sofreu,
e foi provada por inteiro, e resistiu, e está aqui, de pé,
com seu coração que ainda busca o Pendurado,
que o vê onde nem mesmo eu vejo, que não desiste,
e por tudo isso, Antônia, seus olhos me ferem o espírito,
 
a mim, Sumé, Tomé o Dídimo, que levei a palavra do Senhor
a Malabar, na região das Índias, e que lá fundei as igrejas
de Cranganor, Coulão, Niranam, Nilackal, Kokkamangalam,
Kottakkayal em Paravoor, Palayoor em Chattukulangara e
a meia-igreja de Thiruvithamkode, que atravessei o oceano
para vir pregar no finisterre, eu, de quem o diabo disse
 
Em qual terra devo me refugiar do justo?, eu
que instiguei a Morte para que os Apóstolos assassinassem,
e, por suas mortes, de suas investidas eu escapar,
mas fui duramente atingido: o Apóstolo que matei
em Índia subjugou-me em Edessa, e aqui e lá ele está
em sua plenitude, pois lá fui eu, e lá estava ele,
e aqui como lá, para minha aflição, o encontrei’[1],
 
eu, que passei por tudo isso, que aprendi mais
de quatrocentas línguas, que sentei-me ao lado
de ministros, de patriarcas, de sacerdotes
de todas as cores, credos e etnias, dos altiplanos
do Tibet, às terras áridas da Síria, até essa Pindorama
que tanto amo e admiro, eu, Tomé, martirizado pela turba
enfurecida pelo destronamento de suas pretensas verdades,
 
eu, que disse a caminho de Betânia, ‘Vamos todos,
pois poderemos morrer com Ele[2], eu que há mais de mil e tantos
anos vivo, a contemplar na Criação cada segundo do sopro divino,
eu, que quando a miro, Antônia, sinto-me mais imperfeito, eu,
que duvidei de Cristo, e que pressinto, e creio sem o ver,
que em você se esconde um mistério para o qual os homens
ainda não criaram uma palavra, e é melhor assim, porque
o que existe em você não pode ser descrito.” (12-6-25)

 



[1] Adolph Medlycott, India and the Apostle Thomas: An Inquiry, with a Critical Analysis of the Acta Thomae, 1905, cap. II.

[2] João 11: 16.



12. A HISTÓRIA DE SUMÉ




 
“Então vou lhe contar um pouco de minha vida,
pois fui enviado à Índia muito contra minha vontade,
mas o Senhor apareceu-me em pessoa, e me enviou
a Habban, ministro do Rei de Gondophares, em Malabar,
que buscava um arquiteto capaz de construir-lhe o palácio novo,
e assim segui, na qualidade de escravo, por mar, até a Índia,
onde fui apresentado ao soberano, e iniciamos a construção
do edifício, e eu, trabalhando com afinco, pus-me a levar a fé
em Cristo àquele povo, conforme está descrito,
 
O apóstolo Tomé, ao partir para a Índia,
separando-se dos apóstolos, chorou
e os levou às lágrimas, e pediu-lhes
que implorassem a misericórdia de nosso Salvador
para ajudá-lo e apoiá-lo em suas pregações,
dizendo, 'Vou agora para uma terra escura
como arquiteto, e oro para que eu possa
erigir um palácio que possa se elevar
ao Reino de acima, e assim juntem-se a mim
em oração, para que meu prédio não seja
derrubado pela enchente’, e assim
meu Senhor enviou-me como uma tocha
para iluminar a terra envolta nas trevas do erro,
 
e de mim foi escrito, ‘Ó abençoado,
tu saíste como um raio de sol
para dissipar a noite escura da Índia,
ó abençoado Tomé, a quem o noivo celestial
enviou para unir a ele a noiva escura
que tu purificaste e tornaste mais branca que a neve[1],
 
e também, ‘Que morador da terra
já foi visto, como Tomé, o apóstolo do Senhor,
na terra, projetando e uma morada
no céu erguendo?, ou na terra quem tão sábio
foi encontrado, pois aqui está seu ensaio genial,
o que no céu uma coroação garante?[2]’.
 
Mas, por ter convertido a filha do rei Mazdai,
ele ordenou que quatro soldados me levassem
para fora da cidade, e que me perfurassem
com suas lanças, (mas não antes de ter ordenado
Sifur presbítero e um diácono entre seus nobres
convertidos) e eles me golpearam todos juntos,
e eu caí e morri, e os irmãos choravam todos juntos,
e trouxeram roupas bonitas e muitas roupas de linho,
e me enterraram no sepulcro em que
os antigos reis mais ilustres foram enterrados.
 
E quando o Arcebispo de Ctésifo, Mares,
chegou ao país dos huzitas, e encontrou crentes lá,
e ouviu falar da conversão dos persas, seu coração
se encheu de alegria ao encontrar uma pequena quantidade
de trigo em extensos campos de joio, e então ele pregou
por todo aquele país e converteu muitos, e daí desceu
ainda mais e foi ainda mais longe, até que o perfume
de Tomé, o Apóstolo, foi soprado para ele,
e lá também ele acrescentou um grande número
ao rebanho e deixou para trás um discípulo
chamado Jó, para ministrar a eles, mas Habbân,
o comerciante, trouxe meu corpo e o colocou
em Edessa, a cidade abençoada de nosso Senhor[3].
 
E então aconteceu de o Mazdai procurar meus ossos,
com os quais pensava curar um filho doente, mas
eles já haviam sido levados para o Ocidente, e então
o rei usou a poeira da terra da tumba, e seu filho
foi salvo, e assim eu apareci a ele, que foi levado
ao presbítero Sifur para pedir orações, e Mazdai
se tornou crente e Sifur e seus irmãos oraram por ele[4].
 
Mas aprouve ao Senhor reunir meus ossos,
e revesti-los novamente com sua carne e nervos,
e trazer a mim, pobre Tomé, através dos oceanos,
a essa terra de formosura, não para pregar,
isso não sei, mas para custodiar os nativos,
enquanto fosse possível, e assim estou eu aqui,
e recebi esse nome Sumé, feito de carinho,
e, vendo-te chegar dessa maneira, percebo
 
que minha espera se cumpriu, e que a pessoa
que aguardei por mais de um milênio
está agora comigo, e que temos toda uma oração
a fazer, uma oração sublime, para deixar
como testemunho aos que vierem depois,
para que também eles possam seguir
por esse caminho que é Verdade e Luz,
a única, oculta e definitiva Via, porque
eu já passei sobre a terra, e caminhei, e hoje
eu sou uma lenda, menina, mas você,
Antônia, é uma pessoa viva.” (13-6-25)
 
Cananeia, aos 30 dias do mês de Maio do Ano da Graça
de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1572 (9-6-25)



[1] Hinos de Santo Efrém o Sírio, Breviário, tomo IV.

[2] Hinos de Santo Efrém o Sírio, Breviário, tomo II.

[3] Vida do Arcebispo São Mares de Ctésipho, ed. J.B. Abbeloos, Bruxelas, 1885. Tb. Anecdota Oxoniensia, E. A. Wallis Budge, Oxford, Clarendon 1886 vol 1, parte 2

[4] Atos de Tomé, versão grega, cf. Attridge, 1992, Enslin 1962.




13. A SANTIDADE




Os homens e mulheres na vila estavam empenhados
em terminar a construção da igreja-forte, e havia
muitas discussões e dissensões entre todos, e Sumé
disse a Antônia, “Veja, na verdadeira assembleia
toda separação deve ser superada, para que exista
ali uma só boca e um só coração, numa metamorfose
universal e total das almas e dos corações, mas
 
quando as pessoas estão fechadas em si mesmas
não é possível criar a irmandade, e não existe Igreja,
pois essa pressupõe um desejo de vida em comum,
a união das pessoas como as pedras que vemos
colocarem na construção desses muros, para que
o edifício seja rígido, e assim como cada pedra
tem seu lugar no muro, e recebe um igual peso,
mas de acordo com sua posição, tamanho e geometria,
 
assim somos nós, como inquilinos de Deus, e pagamos
a ele com nossas ações, cada qual de acordo com
a pessoa que é, desde que percebam todos
que a santidade é o que está em causa, como disse
meu irmão Pedro, ‘como é santo aquele que vos chamou,
sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver,
porquanto está escrito: sede santos, porque eu sou santo[1]’,
 
e é preciso saber que o santo é também uma pessoa
de alma e carne, mas que, pela Graça de Deus, é mudada
de dentro para fora misteriosamente e nessa metamorfose
ela se torna sem começo e eterna, e percorre um caminho
que não tem fim, dentro da Luz de Deus, mas para isso é preciso
lembrar também que o batismo formal, e até a ordenação,
se exterior, podem ser muito humanísticos, mas não produzem
a santidade, nem promovem diretamente seu caminho,
e que mesmo o conhecimento não leva a nada, se não for
orientado para a visão de Deus, e que é preciso
 
revestir-se de Cristo, para que sejamos batizados em Cristo,
pois somente em Cristo nos relacionamos com a Trindade,
já que ele é o único com o qual temos semelhança,
por ser o Deus-homem, e é por isso que carregamos em nós
seu nome, e somos ‘cristãos’, e temos como propósito
somente a santidade, essa coisa esquecida de nossos dias,
apesar de Cristo ter dito, ‘sejam perfeitos como é perfeito
 o Pai de vocês que está no céu[2]’, e isso deveria ser a Igreja,
 
um laboratório de santidade, essa santidade que deve
ser vivida no dia-a-dia, na luta por seguir os mandamentos
de Cristo, nas atitudes que ele nos legou nas parábolas,
nos ditos, nos comportamentos, nas beatitudes, todas
essas atitudes que deveriam formar o caráter permanente
do cristão, como está em Mateus, Marcos e Lucas,
como um código e um guia para seguir a Graça de Deus
no ethos de Cristo, que vem, como em João, ao coração
de cada um como frutos do Santo Espírito, como uma fonte
de água viva que jorra para a vida eterna, pois esse é,
disse Marcos o Eremita, o ato verdadeiro de nossa liberdade,
 
e por isso Jesus disse, ‘não fique perturbado o coração de vocês,
mas acreditem em Deus e acreditem também em mim,
porque vou preparar um lugar para vocês, e quando eu for
e lhes tiver preparado um lugar, voltarei e levarei vocês comigo,
para que onde eu estiver, estejam vocês também, e para onde eu vou,
vocês já conhecem o caminho’”, e Sumé piscou para Antônia,
e disse em voz baixa, “Venha, vamos seguir nosso caminho.” (13-6-25)
 
Cananeia, aos 9 dias do mês de Junho do Ano da Graça
de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1577 (9-6-25)

 



[1] 1 Pedro 1: 15-16.

[2] Mateus 5: 48.




14. NOVA CARTA DE ANTÔNIA






No dia menos pensado, chegou ao sítio nova carta
de Antônia, extensa e rebuscada, que dizia assim:
“Queridas irmãs, tenho notícias de que vos preocupais
com as coisas do mundo, e penso em vós com cuidados
em minh’alma aflita, e vos digo, o conhecimento verdadeiro,
o conhecimento de Cristo, não é o conhecimento do mundo,
e repito aqui as palavras de Santo Isaac, o Sírio, que há mil anos disse,
 
quando o conhecimento segue o desejo da carne,
ele traz com isso as seguintes tendências, a saber,
riqueza, vaidade, adorno, descanso do corpo,
avidez pela sabedoria dessa lógica
que serve para a administração do mundo,
e ele está constantemente fazendo novas descobertas
tanto em habilidades como em conhecimento,
e abunda em tudo o que configura o corpo
como coroamento do mundo visível,
e como resultado disso, ele se torna oposto à fé,
porque ele se separou de qualquer preocupação com Deus,
e torna a mente irracional e impotente,
porque ela fica dominada pelo corpo,
e toda sua preocupação está confinada a este mundo, e assim
 
ele pensa que tudo é objeto de sua consideração,
seguindo aqueles que dizem que o mundo visível
não está submetido a nenhuma direção,
e ele é incapaz de escapar de um medo
e uma preocupação contínua pelo corpo,
e assim sendo, a angústia, a tristeza e o desespero
tomam conta dele, e ele se preocupa com a doença,
com suas necessidades e com a penúria,
com o medo e com a morte, porque ele não sabe
como entregar suas preocupações a Deus,
na segurança da fé em Deus, e daí por diante
ele se envolve em processos e embustes
em todos os seus assuntos, e assim,
quando os processos não são efetivos por qualquer razão,
ele não percebe a providência secreta, e luta
contra as pessoas que o estão obstruindo ou se opondo a ele[1]’,
 
e por quê?, porque perdemos a noção do espírito e da alma,
porque nos esquecemos de que a alma em si não é um ser humano,
mas é chamada de ‘alma humana’, e do mesmo modo o corpo
não é chamado de ser humano, mas de ‘corpo humano’, apesar
de que o humano não é nenhum dos dois, mas a combinação
dos dois é chamada de humano, e Deus chamou o humano para a vida
 
e a ressurreição, e não chamou uma parte, mas o todo, que é a alma
e o corpo, e assim é completamente impossível para o corpo e a alma
existirem ou serem chamados de corpo e alma sem estar relacionados,
ou independentemente um do outro[2], e é assim que,
quando Cristo se tornou homem, ele recebeu um corpo humano
e não a forma de um anjo, e se tornou um Deus-homem,
 
não um Deus-anjo, e dessa forma, ela deve guardar sua origem,
inteiramente associada a Deus, e ela deve olhar apenas para Deus,
adornar-se constantemente com sua lembrança e contemplação
e com o mais cálido e ardente amor por Ele, e então, irmãs,
 
lembremo-nos de que, ‘com seu divino poder, Deus nos concedeu
todas as condições necessárias para a vida e a piedade,
através do conhecimento de Jesus que nos chamou
por sua própria glória e virtude, e por meio delas nos deu os bens
extraordinários e preciosos que tinham sido prometidos,
para que com esses vocês se tornassem participantes da natureza divina,
depois de escaparem da corrupção que o egoísmo provoca neste mundo[3],
 
e somos, assim, chamadas a uma outra realidade, a vida em Cristo,
pois o propósito da sua encarnação foi a nossa libertação
da morte eterna, nossa completa e eterna união com Ele
na condição de paz que é constituída precisamente
pela mais completa união amorosa entre Ele próprio e nós,
uma condição na qual vivemos Sua total justiça e divindade
em união com Ele, pois Cristo introduziu na sua pessoa divina
 
toda a decadência da natureza humana devastada pelo pecado,
assimilando-se à realidade histórica na qual a encarnação teve lugar,
e é por isso que a vida terrestre de Cristo foi um rebaixamento
contínuo, e sua vontade humana renunciava sem cessar àquilo
que Lhe era próprio por natureza e aceitava o que era contrário
à humanidade incorruptível e deificada: a fome, a sede, a fadiga,
a dor, os sofrimentos e, por fim, a morte sobre a cruz,
 
mas a humanidade de Cristo constituiu uma natureza deificada,
penetrada pelas energias divinas desde o momento da encarnação,
da mesma forma como o ferro é penetrado pelo fogo, e se torna
fogo sem deixar de ser ferro pela natureza, e assim como a espada
levada ao rubro pelo fogo corta e queima ao mesmo tempo,
pois Cristo corta como ferro e queima como fogo[4].
 
Portanto, nesta verdade, exultais! Mesmo considerando que agora,
e por algum tempo ainda, tenhais de ser afligidas por toda espécie
de provação, pois assim acontecerá para que a sinceridade da vossa fé
seja atestada, muito mais preciosa que o ouro que se corrompe,
ainda que refinado pelo fogo, resultando em louvor, glória e honra,
quando Jesus Cristo for revelado[5].”
 
Dessa irmã que por vós tanto se aflige, Antônia,
 
De Cananeia, aos 16 dias do mês de Agosto do Ano da Graça
de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1578 (9-6-25)



[1] Santo Isaac o Sírio (séc. VI), Tratado Místico, 6

[2] Cf. São Justino o Mártir, Obra.

[3] II Pedro 1: 3-4

[4] Cf. Vladimir Lossky, Ensaios sobre a Teologia Mística.

[5] 1 Pedro 1: 6.




15. CHOVE PRA VALER






E, em seguida a essa carta, logo chegou outra, com notícias:
“Aqui chove pra valer, quase um dilúvio, e nessas horas,
sem abrigo onde me esconda dos pingos grossos como frutas,
olho para o céu e indago de Deus por um alívio, e peço por vocês,
que andam por aí meio perdidas nesse sítio distante, como se
estivessem no mundo, quando na verdade nos determinamos
 
a fundar nesse ermo nossa assembleia, a união em torno
dessa guia que é Cristo, nossa Igreja, mulher e santa, preta e pobre,
e é certo, Irmãs minhas, tão queridas, vocês se dão conta de que,
em nosso isolamento, não nos resta outro recurso nesse momento
do que nos recriarmos e a essa Igreja fora do tempo, para que vivamos
a plenitude de nosso Amor por esse Deus ciumento,
que nos colocou longe do mundo, para sermos outra vez
a humanidade que ele criou, e assim, nesse Paraíso
 
tão pequeno, iremos erguer um altar que não será abalado,
onde poderemos adorar, praticar e fazer crescer, com
a liberdade que nos legou o Criador, que nos criou
antes de ter criado a criação, o mundo e o tempo,
onde poderemos estabelecer entre nós esse Cristianismo
que aprendemos e praticamos tanto tempo, embora
eu veja que, nesse momento, nos desviamos trilhando caminhos
da matéria, esquecendo-nos do Espírito Santo, aqui,
como entre vós mesmas, enchendo-nos das preocupações
mundanas, e que, desse modo, não somos dignas
de nada disso, e então peço ao Pai que ao menos
nos purifique dos pecados, e que nos banhe nessa água santa,
 
e sei que ele não o fará por nós, mas por Seu santo Nome,
que certamente profanamos, em nossa ignorância de lei, pois
quando nos pusemos como se estivéssemos entre as nações,
perdemo-nos e O apresentamos sem pensar, diferentemente
de Sua essência, e assim criamos outro Deus, que na verdade
serve a nós, não nós a Ele, e eu supliquei pelo nosso entendimento,
e, de Sua montanha santa, ele respondeu,
 
Não é por vossa causa que estou agindo assim,
ó pequenas filhas minhas, mas por causa
do meu nome santo, que vocês profanaram
no meio das nações onde fostes parar,
voluntária ou involuntariamente, pois creio
que não o fizestes por maldade ou maus preceitos,
e por isso, vou santificar o meu nome grandioso,
que foi profanado entre as nações,
 
porque vocês o profanaram entre elas,
e então as nações que vocês criaram entre si
ficarão sabendo que eu sou o Senhor,
quando eu mostrar a minha santidade em vocês
diante delas, e vou tomar vocês do meio das nações,
vou reuni-las e levá-las para a sua própria terra,
(que vocês deixaram sem mesmo sair do sítio).
 
Mas porque se entregaram ao mundo profano
e esqueceram o Espírito, eu derramarei sobre vocês
uma água pura, e vocês ficarão purificadas,
eu digo que vou purificar vocês de suas besteiras
e seus ídolos, e darei a vocês um coração novo,
e colocarei um espírito novo dentro de vocês,
 
e tirarei de vocês o coração de pedra,
e lhes darei um coração de carne,
e colocarei dentro de vocês o meu espírito,
para fazer com que vivam de acordo
com os meus estatutos e observem
e coloquem em prática os meus mandamentos,
e então vocês habitarão na terra que vos dei
em séculos passados, (essa terra em que Joana
e Amatou pisaram primeiro), o Paraíso que preparei,
 
e vocês serão o meu povo, e eu serei o seu Deus,
e livrarei vocês de todas as suas impurezas,
e convocarei o trigo e o multiplicarei,
e nunca mais vou lhes deixar com fome da Graça,
e multiplicarei os frutos das árvores,
dons do Espírito, e a produção das roças,
para que vocês não passem mais a vergonha
da fome dos frutos divinos entre as nações.
 
E só então, assim purificadas, vocês se lembrarão
de seu comportamento perverso
e de suas más ações, e sentirão nojo de si próprias,
por causa de suas maldades e abominações,
e então saibam que não é por causa de vocês
que estou fazendo isso, mas fiquem envergonhadas
e confusas, por causa do seu comportamento,
 
ó vocês, filhas, essa minúscula Igreja que
fundei no deserto dessa era, e quando
então eu as purificar dos seus erros,
só então farei com que suas cidades
sejam repovoadas e suas ruínas reconstruídas
e a terra devastada será de novo cultivada,
depois de ter ficado deserta à vista de quem passa.
 
E então, quem passar por aí, dirá,
‘Esta terra estava deserta, mas agora
parece o jardim do paraíso,
e as cidades que estavam destruídas,
arruinadas e demolidas, estão agora
habitadas como se fossem fortalezas!’,
e as nações que sobrarem na sua vizinhança
ficarão sabendo que eu reconstruo
o que estava demolido e cultivo de novo
o que estava deserto, e digo e faço,
 
e ainda farei isto, pois permitirei
que a essa nova casa de vocês
suplique meu favor, e as multiplicarei
como um rebanho, um rebanho de ovelhas
consagradas, e como ovelhas em Jerusalém
durante a festa, assim se encherão de gente
as cidades arrasadas, e então, e só então,
ficarão sabendo que eu sou o Senhor[1]
 
De Cananeia, aos 30 dias do mês de Setembro do Ano da Graça
de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1565 (9-6-25)

 



[1] Cf. Ezequiel 36: 22-38.



16. AS VIRGENS






Sumé ausentou-se da cabana sem dar explicações
e depois retornou no oitavo dia, trazendo um estranho colar
feito de fibras de buriti, no qual havia mais de cem nozinhos,
muito intrincados, que ele entregou a Antônia, e explicou
que aquilo lhe serviria de guia para a prece contínua, e que
cada nó representava uma oração, e que ela deveria
aplicar-se à sua prática todos os dias, e depois completou,
alertando-a para a seriedade do que estava por vir,
e lhe disse, olhando-a de um modo que a transpassou
até os limites mais profundos de sua alma, a essa altura
eletrizada pelas palavras que ouvia, e Sumé falou,
 
Na parábola das virgens sábias e tolas,
quando faltou azeite para as virgens tolas,
foi dito a elas: ‘Vão e busquem no mercado’,
mas quando elas retornaram do mercado,
a porta da câmara nupcial já estava fechada
e elas não puderam entrar, e por isso
algumas pessoas dizem que a falta de azeite
nas lâmpadas das virgens tolas significa
a falta de boas ações em suas vidas.
 
Mas esta interpretação não é corret
a pois, por que faltariam as boas ações,
uma vez que elas eram virgens, ainda que tolas?,
veja, a virgindade é uma virtude suprema,
um estado angélico, que sozinho supera
todas as demais boas ações, e por isso
penso que o que lhes faltava era a graça
do Espírito Santíssimo de Deus, uma vez
que essas virgens haviam praticado as virtudes,
 
mas em sua ignorância espiritual imaginaram
que a vida cristã consistia simplesmente em fazer boas ações,
e ao fazer o bem, pensavam estar fazendo as obras de Deus,
mas não se preocuparam em saber se aquilo lhes traria
a graça do Espírito de Deus, e assim, esse modo de vida
 baseado apenas em fazer o bem sem verificar
se este bem traz a graça do Espírito de Deus,
é mencionado nos livros, em que está escrito,
‘Existe outro modo de fazer o bem, que funciona
no princípio, mas que termina nos infernos’.
 
Muitos monges e virgens não têm ideia
das diferentes formas de vontade que agem no homem,
nem sabem que somos influenciados por três vontades:
a primeira é a vontade de Deus, perfeita e salvadora;
a segunda é nossa própria vontade humana
que, quando não é destrutiva, tampouco é salvadora;
 
e a terceira é a vontade do demônio,
que é totalmente destruidora, e essa terceira forma
de vontade ensina o homem tanto a não realizar
boas obras – ou a fazê-las apenas por vaidade –
quanto a realizá-las em nome da virtude,
mas não em nome de Cristo, enquanto
a segunda forma, nossa própria vontade,
nos ensina a tudo fazer para satisfazer
nossas paixões, ou nos ensina, como a outra,
 
a fazer as coisas em nome do bem
sem nos preocuparmos com a graça
que poderia ser adquirida com isto,
mas a primeira, a vontade salvadora de Deus,
consiste em fazer o bem apenas
para adquirir o Espírito Santo, como um tesouro
eterno e inexaurível cujo valor sequer conseguimos avaliar.
 
E é essa aquisição do Espírito Santo
que está representada no azeite que faltou
às virgens tolas, e elas são chamadas de tolas
porque esqueceram o necessário fruto da virtude,
a graça do Espírito Santo, sem a qual
ninguém pode ser salvo, pois ‘toda alma
é estimulada pelo Espírito Santo e exaltada
pela pureza e misticamente iluminada pela Unidade Trinitária’.
 
Esse é o azeite das lâmpadas das virgens sábias
que queima e brilha luminosa e longamente,
e são estas virgens com suas lâmpadas acesas
que podem penetrar na Câmara Nupcial
para encontrar o Noivo, que chegará à meia noite,
enquanto que as virgens tolas, embora tendo corrido
ao mercado para comprar azeite quando viram
que suas lâmpadas se apagavam, não conseguiram
retornar a tempo, e encontraram
a porta fechada, pois o mercado é nossa vida,
 
a porta da Câmara Nupcial que se fechou
e barrou a entrada às virgens tolas é a morte humana,
e as virgens, tolas ou sábias, são as almas cristãs,
e o azeite é a graça do Espírito
que pode ser adquirida por meio das boas obras
e que transforma as almas de um estado em outro
– ou seja, da corrupção para a incorruptibilidade,
da morte espiritual para a vida espiritual,
das trevas para a luz, do estábulo de nosso ser
(onde as paixões permanecem amarradas
como animais estúpidos e bestas selvagens)
para o Templo da Divindade, na Câmara luminosa
da eterna alegria em Jesus Cristo nosso Senhor,
o Criador e Redentor, o eterno Noivo de nossas almas.[1]” (14-6-25)



[1] São Serafim de Sarov, Uma revelação maravilhosa para o mundo, 1831.




 17. A NUDEZ DE ANTÔNIA






Choveu de repente, e Antônia e Sumé, que voltavam
de colher raízes e ervas na madrugada, encharcados
correram a se abrigar na palhoça que construíram,
e fizeram um fogo sob o precário dossel de folhas e
de palmas de palmeira, e ali se encolheram, Antônia
tremendo de frio, e conversavam, e Sumé ia dizendo,
“Hoje, querida Antônia, você traz o Reino do Céu
como se fosse um cântaro de farinha, cheio até a borda,
e isso é bom, pois com a farinha se fazem muitos pães,
e a terra se há de encher deles, mas eu digo a você,
 
o Reino do Céu é como uma mulher que trazia
nos ombros o mesmo cântaro de farinha, mas a asa
do cântaro partiu-se, sem que ela percebesse, e
no caminho para sua casa, aos poucos toda a farinha
perdeu-se, e ao chegar em casa ela depositou-o
no chão, e percebeu que o cântaro estava vazio[1]’,
 
e assim também você caminha, Antônia,
por essa terra bendita, e está longe de tudo
o que antes conhecia, e o cântaro que você traz,
do teu entendimento, aos poucos, bem aos poucos
se esvazia, na medida em que você mesma
se enche de Deus, e que os pães que você faria
já não são aqueles que o mundo pede e necessita,
 
e então, erga suas mãos e diga, ‘Ó Luz bendita,
pois o sol, como uma lâmpada, surgiu nas trevas,
e iluminou a terra, escurecida pela fumaça
dos sacrifícios[2]’, e entenda o que está dito, que
aquele que conseguiu compreender o mundo
encontrou somente um cadáver, e que quem
encontrou um cadáver, esse é superior ao mundo[3]’,
 
mas Antônia tremia de frio, que parecia não incomodar
o velho, que seguia alheio a toda a intempérie, mas
voltou-se para ela, e falou-lhe, “Tire suas roupas
para secar, e aqueça-se ao calor da fogueira, porque
de outro modo cairás doente, menina, e não se importe
comigo, que vejo as coisas todas de outra maneira”,
e Antônia, a princípio muito espantada e tímida,
 
acabou por despir-se de seus trapos e andrajos,
que mal lhe cobriam a nudez, e nua não sentiu vergonha,
mas um carinho terno por aquele homem,
velho como o século e moço como um menino,
que a tratava com consideração como nenhum outro
tivera, e ali deixou-se estar, sentada junto ao braseiro,
e deixou que sua pele e seu corpo recebessem o vapor
quente, que subia da fogueira, e sentiu-se aquecida
até as entranhas, e Sumé prosseguiu em sua fala, dizendo,
 
“E saiba que, quando os discípulos disseram a Jesus,
Quando tu te revelarás a nós e quando te veremos?’,
Jesus disse: ‘Quando vos despirdes de vossas vestes
(e me refiro aqui àquelas vestes da alma, as roupas
de couro de animais, trocadas pelo espírito, que Adão
e Eva passaram a usar quando deixaram o Paraíso)
sem vos envergonhardes e tomardes vossas vestes
e, colocando-as sobre vossos pés, pisardes sobre elas
como criancinhas, então vereis o filho daquele que vive
e não tereis medo[4]’, e isso é tudo o que tenho
a lhe dizer, e recomendo a você que passe alguns dias
no mais absoluto silêncio, pois o Mestre de todos
disse, ‘Reconheça o que está diante de teus olhos,
e o que está oculto a ti será desvelado, pois não há
nada oculto que não venha ser manifestado." (12-6-25)



[1] Evangelho Apócrifo de Tomé XCVII.

[2] Hinos de Santo Efrém o Sírio, XII.

[3] Evangelho Apócrifo de Tomé, LVI.

[4] Evangelho Apócrifo de Tomé XXXVII.




18. VOCÊ TAMBÉM BRILHA




 E Sumé prosseguiu, em tom sério e conciso,
‘Vou lhe dizer algo ainda, para que você possa entender
de modo mais claro o que significa a graça de Deus,
como reconhecê-la e como se manifesta sua ação,
particularmente naqueles que são iluminados por ela,
pois a graça do Espírito Santo é a graça que ilumina
o homem, e toda a Santa Escritura fala disto, como quando
Davi disse, ‘Sua Palavra é lâmpada para os meus pés, e a luz
do meu caminho[1]’, e: ‘se Sua lei não fosse minha meditação,
eu pereceria em humilhação[2]’, e assim, em outras palavras,
 
a graça do Espírito Santo que está expressa na Lei
pelas palavras dos mandamentos do Senhor são
minha lâmpada e minha luz, e se a graça deste Espírito
não me iluminasse em meio às trevas das responsabilidades
que são inseparáveis das altas obrigações de minha realeza
de ser humano, onde poderia eu obter uma faísca de luz
para iluminar o caminho de minha vida que foi entenebrecido
pelas vontades distorcidas de meus inimigos?[3].
 
E Antônia retrucou, “Mas, como poderei saber
se estou na Graça do Santo Espírito?”, e Sumé disse,
Todas as coisas são simples para aqueles que buscam
o conhecimento divino[4]”, e é esse conhecimento,
que está cheio do amor a Deus e ao próximo, que conduz
todos os homens à salvação, assim como é desse conhecimento
que disse o Senhor que Deus, que ‘deseja que todos os homens
sejam salvos, e que alcancem o conhecimento da verdade[5]’,
e da falta deste conhecimento ele falou aos Apóstolos,
Vocês ainda não entenderam?[6]’, simples assim”.
 
E, com um gesto largo, Sumé apontou o mundo ao redor,
o céu, as árvores, o mar ao longe, os animais e os pássaros,
dizendo, “Nós dois estamos no Espírito de Deus agora,
minha pequena Antônia, por que você não olha para mim?”,
ao que Antônia lhe respondeu, “Eu não posso olhá-lo,
amado Sumé, porque seus olhos brilham como raios,
sua face está mais radiante do que o sol, e minha vista dói”,
e Sumé falou, “Não se assuste, porque também você brilha,
ainda que não tenha percebido, e está no Espírito de Deus
comigo, caso contrário, não teria podido me ver como sou”,
 
e, inclinando-se, disse ao ouvido de Antônia, “Essa graça
de Deus, como uma mãe amorosa, lhe foi concedida
para confortar seu coração contrito, pela intercessão da Virgem,
e assim, por que, filha minha, você não olha nos meus olhos?,
apenas olhe, e não tenha medo, o Senhor está conosco!”.



[1] Salmo 118: 105.

[2] Salmo 118: 92.

[3] São Serafim de Sarov, Op. Cit.

[4] Provérbios 8: 9 LXX.

[5] 1 Timóteo 2: 4.

[6] Mateus 15: 16.




19. O QUE DEUS PREPAROU PARA AQUELES QUE O AMAM






Então Antônia mirou-o, e sentiu uma enorme veneração,
pois ela via o centro do sol, na luz ofuscante dos raios
do meio-dia, e naquele centro o rosto de um homem
falando com ela, e via os movimentos de seus lábios
e as mudanças de expressão de seus olhos, ouvia sua voz,
sentia que alguém segurava seus ombros; mas não via essas mãos,
sequer enxergava a si mesma ou sua figura, mas apenas
 
uma luz cegante espalhando-se ao redor por muitas dezenas
de metros e iluminando com seu halo o chão da floresta,
e mesmo os raios de luz que caíam sobre tudo, e o Ancião,
Sumé, lhe perguntou, “Como se sente agora?”, e ela disse,
“Sinto uma calma e paz em minha alma, que não há palavra
alguma que seja capaz de expressar”, e Sumé prosseguiu,
 
“Isso, bem-amada, é a paz da qual disse o Senhor
aos seus discípulos: ‘Eu lhes dou a minha paz;
não a paz que o mundo dá, mas a que Eu dou[1]’, e
Se vocês fossem do mundo, o mundo amaria o que é dele;
mas porque eu os escolhi fora do mundo, o mundo odiará vocês[2]’,
e também, ‘Mas não desanimem: eu venci o mundo[3]’,
e para aquelas pessoas a quem o mundo odeia,
mas que foram escolhidas pelo Senhor, o Senhor
concede esta paz que você sente agora, a paz que, segundo
as palavras do Apóstolo, ‘ultrapassa todo entendimento[4]’,
 
e Antônia disse, “Sinto ainda uma extraordinária doçura”,
e Sumé falou, “Essa é a doçura da qual se fala
na Sagrada Escritura, ‘Eles ficarão inebriados com a gordura
de minha casa; me eu os farei beber da torrente de minhas delícias[5]’,
e agora essa doçura inunda nossos corações e corre por nossas veias
com inexprimível delícia, e nossos corações se confundem
nesta doçura e ambos estamos cheios de uma alegria
que a língua não é capaz de contar. O que mais você sente?”,
 
“Uma imensa alegria no coração”, disse Antônia, e Sumé
prosseguiu, “Quando o Espírito de Deus desce até o homem
e o cobre com a plenitude de sua inspiração, a alma humana
transborda com inexprimível alegria, porque o Espírito de Deus
enche de alegria tudo o que toca, mas, por mais reconfortante
que seja a alegria que você sente em seu coração, ela não é nada
em comparação com aquela que o próprio Senhor mencionou
pela boca de seu Apóstolo, descrevendo-a como aquela
que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração
do homem não percebeu, e foi isso que Deus preparou
para aqueles que o amam[6]’”, e olhou para ela.



[1] João 14: 21.

[2] João 15: 19.

[3] João 16: 33.

[4] Filipenses 4: 7.

[5] Salmo 35: 8.

[6] 1 Coríntios 2: 9.




 20. A PLENITUDE DO ESPÍRITO SANTO





E Antônia disse ainda, “Sinto agora
um estranho calor, apesar de nua no frio da manhã,
e um perfume indescritível”, e Sumé disse,
“É absolutamente verdade, querida menina,
a mais suave fragrância terrestre não se compara
àquela que você sente agora, pois estamos envolvidos
na fragrância do Espírito Santo de Deus, e assim,
o que na terra poderia ser igual?, e observe, amada,
que você disse que ao nosso redor está cálido, e veja
 
que nem sobre você, nem sobre mim, cai o orvalho,
nem sob nossos pés, porque o calor não está no ar,
mas em nós, e é sobre este calor que o Espírito Santo
nos ordena clamar ao Senhor: ‘Aqueça-me no calor
de seu Espírito Santo!’, e foi por meio dele que os eremitas
de ambos os sexos foram mantidos aquecidos e não temeram
o frio do inverno, cobertos, como se vestissem peles,
por um manto de graças tecido pelo Santo Espírito”,
 
e ele continuou dizendo, “De fato, é assim que acontece,
porque a graça de Deus habita em nós, em nosso coração,
conforme disse o Senhor: ‘O Reino de Deus está dentro de vocês[1]’,
e como ‘Reino de Deus’ devemos entender a graça
do Espírito Santo, esse Reino de Deus está agora dentro de nós,
e a graça do Espírito Santo brilha sobre nós e nos aquece
também por fora e enche o ar ao redor com fragrâncias odoríficas,
acaricia nossos sentidos com delícias celestiais e enche
nossos corações de uma alegria indizível, e assim nosso estado
atual é aquele a respeito do qual o Apóstolo disse,
 
O Reino de Deus não são comidas e bebidas, mas a justiça,
a paz e a alegria do Espírito Santo[2]’, pois nossa fé não consiste
em palavras plausíveis de uma sabedoria terrena,
mas na demonstração do Espírito e de sua força[3], e é
neste estado que nos encontramos agora, e é dele
que o Senhor disse: ‘Existem alguns que aqui estão
e que não verão a morte antes que o reino de Deus
venha com seu poder[4]’, e é isto que significa estar
na plenitude do Espírito Santo, sobre a qual
 
São Macário do Egito escreveu: ‘Eu próprio estava
na plenitude do Espírito Santo’, essa plenitude de seu
Espírito Santo com a qual o Senhor encheu
até o transbordamento essas pobres criaturas, e então,
amada menina, você não precisa mais perguntar,
como saber se está na graça do Espírito Santo, e você
se lembrará sempre desta manifestação sensível e clara
da inefável misericórdia de Deus que nos visitou”.



[1] Lucas 17: 21.

[2] Romanos 14: 17.

[3] Cf. 1 Coríntios 2: 4.

[4] Marcos 9: 1.



21. O QUE DEUS NOS PEDE






“O que Deus nos pede é a fé verdadeira Nele
e em seu único Filho, e em troca a graça do Santo Espírito
é abundantemente concedida desde o alto, pois o Senhor
procura um coração cheio de transbordante amor por Deus
e ao próximo, e é neste trono que ele deseja sentar-se
e no qual Ele aparece na plenitude de Sua glória celestial,
 
conforme está dito, ‘Filho, dê-me seu coração e o resto
lhe será dado em acréscimo[1]’, pois é no coração humano
que o Reino de Deus pode ser contido, e é assim que
o Senhor ordenou aos seus discípulos: ‘Busquem primeiro
o Reino de Deus e sua justiça, e o resto lhes será dado
em acréscimo[2]’ porque o Pai celeste sabe que nós
precisamos dessas coisas, e nada nos será negado”.
 
“Então, filha minha, o que quer que você peça a Deus
você irá receber, se for para a glória de Deus
ou pelo bem de seu próximo, porque o que fazemos
pelo bem do próximo é feito por Sua glória, pois ele disse,
Aquilo que fizerem ao menor desses, a Mim o terão feito[3]’,
e assim, não tenha dúvidas de que o Senhor Deus atenderá
os seus pedidos, se eles forem para a glória de Deus
ou para a edificação e benefício dos seus irmãos,
 
e mesmo que algo seja necessário para sua necessidade,
uso ou benefício, também o Senhor graciosamente
o enviará a você, desde que seja de extrema urgência
e necessidade, porque o Senhor ama aos que o amam,
e ele é bom para todos, ele dá abundantemente
para os que clamam por seu nome, e sua bondade
está em todas as Suas obras, e ele atenderá os desejos
dos que o temem, ouvirá suas preces e cumprirá
com seus projetos, e assim ele atenderá todos os seus pedidos”.
 
E Sumé ergueu-se, e sem dizer palavra, enveredou
pela mata, deixando Antônia a sós, ainda tremendo
por causa da experiência vivida, e da forma
como o Espírito Santo agira sobre ela, e permaneceu
ali, sentada, quieta como um livro fechado, a moer
não tanto as palavras, mas o que havia nelas
de um sentido oculto, que se mostrara na Luz
misteriosa que envolvera a ambos e a tudo,
 
essa luz incompreensível, que cala todo discurso,
e perante a qual a sabedoria humana é inútil,
e tudo o que buscamos no mundo se desfaz,
e só nos resta uma alegria infinita, indizível,
e um calor no coração e na alma, que faz com que
se justifique a criação, e toda a história do homem,
e todas as coisas existentes, e todo o mundo visível[4].

 



[1] Provérbios 23: 26; Mateus 6: 33.

[2] Mateus 6: 32-33.

[3] Cf. Mateus 25: 40.

[4] O relato acima (Capítulos 17 a 21) foi baseado em trechos extraídos da obra citada de São Serafim de Sarov, Uma revelação maravilhosa para o mundo (1831) no seu diálogo com Nikolai Motovilov.




22. TEU VULTO AO MEU LADO




 “Vai lá fora nessa madrugada
a chuva metafísica,
a soma incalculável de cada um de seus pingos
estatelando-se contra o solo
de seu destino.
 
Na penumbra dessa cabana
os átomos se organizam como podem.
 
Tudo é um excessivo mistério,
mas olho teu vulto ao meu lado
e estou em paz,
essa paz inexplicável da alma
sob a chuva.
 
Olho teu vulto ao meu lado
e esse contorno se enche de ser,
e de repente você existe,
existe ainda mais do que a chuva e os átomos,
existe mais do que tudo,
e mais do que existir,
você é.
 
Eu te olho na escuridão incompreensível
e sei que estás aí,
e isso me basta.
 
De repente, a chuva cessa.
Os infinitos pingos se tornam explicados,
e tudo lá fora está molhado de vida,
enquanto aqui dentro eu te ouço respirar
levemente,
e de súbito toda a choça se enche de vida,
e eu sei que te amo,
e isso me basta.
 
Daqui a pouco estaremos acordados
e mais uma vez nos olharemos
como em toda manhã,
e outra vez se renovará
o mistério infinito do amor,
inexplicável como as crianças.
 
Dar-nos-emos as mãos
e tudo ao redor se aquietará.
Eu te direi ‘te amo’
e você me responderá com um sorriso,
suave como a chuva,
suficiente como a paz,
e pleno como a vida.
 
Te amarei para sempre,
meu bom santo.”
 
Antônia, de Cananeia, aos 5 dias do mês de Outubro do Ano
da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1565. (8-7-25)







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