26. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 8: ANTÔNIA - 8. A MORTE DE ANTÔNIA

 

8.  A MORTE DE ANTÔNIA

 



Onde encontramos as circunstâncias que acabam resultando na morte de Antônia que, antes de cerrar os olhos, orienta as mulheres o modo de chegar ao sítio Guacyra, e pede que, no caminho, deixem a menina Antônia no Convento da Anunciação. A seguir, seu corpo é levado a Guacyra, onde as outras mulheres o recebem e fazem seu enterro, com muitos elogios fúnebres.


 

1. O ASSASSINATO DE ANTÔNIA




Eulália chegou da feira, e havia algo estranho,
que ela percebeu na casa, e se aproximou
sem fazer barulho, e espiou para dentro,
e o que viu a deixou transtornada, pois ali estava
o homem do posto de gasolina, e Antônia,
sentada seminua na mesa, com a cara apavorada,
paralisada de medo, com terror nos olhos,
 
e o homem se preparava para soltar seu cinto
e abaixar as calças, na intenção de violentá-la,
e Antônia não tinha nem como reagir, ou fugir,
a tal ponto estava assustada, sem saber o que fazer,
e então Eulália irrompeu na cena, dizendo, “Não!,
outra vez isso, não!” e atracou-se ao homem,
e rolaram no chão, ela furiosa como um animal,
o atacou febrilmente, cega de raiva, a dar
mordidas e unhadas, tentando expulsá-lo da casa,
 
mas ele, muito mais forte, a derrubou facilmente,
e então ela tomou uma faca de cima da mesma,
a investiu contra ele sem pensar em nada, mas o homem
tomou-lhe a faca num movimento de defesa,
e deu-lhe sete estocadas certeiras, duas nos braços,
duas no tronco, uma no abdômen, uma no pescoço
e a última em pleno peito, e Eulália desabou
 
no chão, de olhos vidrados e jorrando sangue
por todos os lados, e Antônia gritava em desespero,
e logo chegaram as outras mulheres, e o homem
escafedeu-se e sumiu por um atalho que saía do terreno,
enquanto as meninas tentavam socorrer Eulália,
pondo-lhe panos nas feridas, trazendo água,
sem saber como agir, a quem pedir ajuda,
 
mas Eulália abriu os olhos, e lhes disse, com voz
serena, “Irmãs, estou morrendo”, e, tomando
uma folha de caderno e um lápis de sobre a mesa,
escreveu uma instrução breve e um endereço,
dizendo, “Vão ainda hoje embora daqui, tomem
por esse caminho diferente, que só eu conheço,
e encontrarão um carreteiro com sua carroça,
que as levará a um lugar certo, onde possam viver
em paz, com os ensinamentos que lhes passei,
 
todas vocês, menos Antônia, minha querida amiga,
que deverá ir para outra parte, num Convento,
onde fui criada, e onde a aguardam com ânsia
e respeito”, e chamando Antônia ao pé de si,
segredou-lhe ao ouvido, calmamente, “Antônia,
esse é o meu nome, que você não entende agora,
mas compreenderá, quando os eventos acontecerem,
e nós duas somos uma, e por isso nos encontramos
desse jeito, e agora eu preciso ir embora,
 
para que você viva a sua vida, que é a minha,
e que acontecerá para você de um modo seu,
que não será a vida que eu vivi, mas que será
uma vida só sua, e você terá suas experiências,
como as está tendo agora, e suas lembranças,
e você será feliz, muito feliz, e esteja certa, de que
te espera um destino que não é qualquer, e que
você honrará, pobre como somos, e negra e mulher.” (6-5-25)

 



2. O MAL NÃO É  UMA ESSÊNCIA




 
 O mal não é uma essência, ele é um acidente,
e tropeçamos nele vida afora, como numa pedra,
como num degrau ao descermos distraídos pela calçada,
como a eterna casca de banana ou coisa mais bizarra,
o mal é um acaso na vida, e nos abraçamos a ele
como a uma pessoa amada, em cujo colo caímos,
 
e nos afeiçoamos a ele, e lhe dizemos “fica comigo”,
e “não me deixes”, e “não te abandonarei jamais”,
e outras juras, e nos esquecemos de nosso estado,
de nossa natureza original (que um dia fomos crianças,
e que olhávamos o mundo como uma grande festa,
e nada havia que não fosse puro, e em nós
não havia maldade alguma, apenas um coração
 
que, de inocente, acolhia cada coisa como se não houvesse
sujeira, imundície, maldade, dissimulação, ódio,
ignorância, perversidade e todo o rol de coisas
que o diabo nos põe na cama, para que com elas
durmamos um sono descuidado, enquanto respiramos
e o mundo se infiltra em nossos pulmões), e esquecemos
 
que sempre nos será possível olhar atrás, voltar atrás,
restaurar aquela condição de infância, aquela pessoa
que nascemos, antes de nos cobrirmos de máscaras
e fantasias de toda espécie, antes de nos tornarmos atores,
e trocarmos de personagens como trocamos de roupas,
antes que esse homem velho, que Paulo disse, cobrisse
nosso próprio homem novo, a face que tínhamos
 
quando Deus nos criou, e disse “é a cara do meu Filho”,
esse homem novo, interior, que espera calado
que o encontremos, não ao acaso, como o mal,
mas como uma necessidade de nossas vidas,
porque Deus não nos deu dores, pois ele não odeia
nem se defende, ele nos deixa, que corramos
pelos prados, e nos desnudemos, afinal,
e atiremos ao fogo, para que queimem, essas vestes velhas,
 
e nos cubramos com nossos próprios corpos,
renovados que seremos, porque toda a criação
será refeita desde o início, e Cristo será tudo em todos,
porque, enquanto houver um único homem em suplício,
ele não descerá de sua cruz, pois não estará completa
sua natureza, seu rosto, não se terá consumado seu sacrifício,
porque nosso Deus não é um fantasma, nem um astro,
nem uma ideia, nem uma abstração, nem coisa qualquer,
mas é um ser humano, de carne, alma e Espírito,
um homem como nós, e assim era desde o início. (25-4-25)
 
 



3. A VIAGEM





Com a ajuda do mensageiro, Edilene e Marisa
colocaram na carroça o corpo de Eulália, embrulhado
em quantos panos, jornais e sacos foram encontrados
 e subiram todas à carroça, e mais Antônia, Michely
e Patrícia, e iniciaram uma jornada que levaria dias,
durante os quais se alimentaram do que o mensageiro
trazia, e bebiam em regatos, e dormiam ao relento,
tendo apenas uma lona com que se cobrir, e o alento
 
de que estavam a caminho de outra vida, e assim
foram, até que no entardecer de um dia chegaram
ao Convento da Anunciação de Maria, que era bem
como Eulália – Antônia – lhes havia descrito,
e somente a pequena Antônia parecia conhecer
em detalhes todo o edifício, e atirou-se aos braços
da velhíssima superiora, Madre Maria do Egito,
 
que a recebeu em lágrimas, e beijou-a, e acolheu
a todas, e ordenou banhos quentes e roupas limpas,
e recolheu o corpo de Antônia morta, e lavou-a,
perfumando-a com essências raras de mirra,
e colocou-a na capela, para espanto da Freiraria,
e para ali ia a pequena Antônia a toda hora,
a olhar para si mesma, ali quietinha, tão bonita,
com uma expressão serena e límpida, e a menina
 
passava horas em oração, a meditar, como podia
ser possível tudo aquilo, mas ela sentia em si,
no fundo da sua alma, alma que dividira com aquela
que ali jazia, que Antônia e Antônia eram a mesma
menina, mas que o futuro que a aguardava
não seria o mesmo que Antônia havia tido,
e que cabia a ela, Antônia, Antoninha se quisessem,
ser senhora da sua existência, pobre, preta, mulher,
 
e dar sentido a tudo isso, com suas próprias mãos,
e agradecer a Antônia, que era também ela,
pela coragem e determinação com que a procurara,
e pela generosidade com que se deixou morrer
na hora em que o egoísmo falaria mais alto
do que qualquer outro poder, mesmo o poder do amor,
mas Eulália, Antônia, naquele instante, não hesitou
por um segundo sequer, e deu sua vida por ela,
 
e por isso o círculo não se fecha, mas, como uma espiral,
outra volta começa onde aquela volta terminara,
e a história não haveria de se repetir, mas seria nova,
e a mesma Antônia ali surgia, no lugar daquela
deitada na capela, na luz mortiça das velas,
como a dormir de um longo sonho, que era só, e só dela,
 
e ali as mulheres passaram três dias, e puderam saudar
o grande Cristo da cozinha, e conhecer Maria,
de quem Antônia lhes contara tantas histórias,
e também as Irmãs brancas, tão bonitinhas,
com sua fé um pouco manca, mas sincera,
 
e, pela primeira vez na vida, dormiram todas
em camas quentinhas, e tomaram café novinho
com pão saído do forno, e geleia e bolo, e tudo
para elas era tão novo que assustava, como poderia
aquilo tudo ser real, mas era, e ao quarto dia
o mensageiro anunciou que deveriam partir,
e que só Antônia ficasse, para que se cumprisse o fado,
mas que não se entristecessem, pois o lugar
 
que as esperava era ainda melhor do que supunham
ser possível existir sobre essa terra, da qual elas até então
só haviam conhecido a pobreza, a penúria, a miséria,
nunca o menor luxo, nunca um capricho, e no entanto
haviam aprendido com Antônia a superar tudo isso,
e entender que, no calor como no frio, a alma é só uma,
como uma é nossa relação com Deus, para quem ama,
para quem tem a consciência do aconchego do Santo Espírito. (4-6-25)
 





4. EM GUACYRA






 
Ao cabo de mais um tempo, que parecia infinito,
a carroça fez uma curva na estrada, e viu-se o sítio,
e as meninas vieram correndo, já sabendo da notícia,
e todas se abraçaram, e se apresentaram, e tomaram
o corpo de Antônia, choraram e o levaram para a casa,
e o puseram na sala, e ali ela esteve outros três dias
deitada, como entre amigas, irmãs de verdade,
e toda a casa parecia perfumada de mirra,
 
e ao quarto dia abriram-lhe uma cova pequenina,
sob o pé de ipê-roxo mais lindo, e puseram ali o corpo
tão jovem, tão marcado e vivido, e na terra fincaram
uma cruzinha, feita de madeira da floresta, com um Cristo
pequenino, entalhado, pintado de preto, como sempre
a acompanhara o Cristo negro da cozinha, com quem
ela conversava todas as noites, como também agora
certamente o faria, e estiveram todas em oração,
 
Joana Batista, Tecla, Amatou, Ana e Dita, Cananeia, Teodora e Maria
(nesse paradoxo do tempo-espaço que se desenrolava e se abria),
e Rosa, Rosalva e Rosália, Margô, Alda e Margarita,
Moema e Iracema, e também Edilene, Marisa, e as pequenas
Michely e Patrícia, cada qual com suas lembranças
de Antônia, doce Antônia, que por cada uma delas
daria a vida, se preciso fosse, como a deu, e se entregou
ao seu estranhíssimo destino, para que agora
pudessem estar todas elas ali, desfrutando das coisas
que a vida traz, mas, principalmente, conscientes
de que a paz de Cristo está além das coisas desse mundo,
 
e Margarita correu até dentro da casa, e voltou de lá
carregando a pesada mala que Antônia trouxera
do Convento, e, abrindo-a, pediu que cada uma das presentes
escolhesse um texto, dentre os livros, diários, cadernos
folhas de almaço, pedaços de papel e guardanapos,
e que o lesse como homenagem à irmã e amiga,
que tanto trabalho tivera em reunir tudo e salvar
do incêndio do Convento da Anunciação de Maria,
e assim o fizeram, e começaram a leitura, enquanto
o dia chegava lentamente ao fim, e o sol já se ia,
e Joana Batista tomou a palavra, e, contendo o pranto,
disse, “como há séculos tantos Pedro Damasceno escreveu,
 
O Senhor disse aos apóstolos, ‘Eu lhes dou a minha paz’,
e acrescentou, ‘não como o mundo a dá’,
que significa que ele não a deu simplesmente
como os homens deste país, quando se saúdam uns aos outros
dizendo, ‘Esteja em paz’, nem como disse a Sunamita, ‘Paz a você’,
e também Eliseu, quando disse a Giezi, ‘Você lhe dirá: paz a você’
(ou seja, ‘paz ao seu marido, paz ao seu filho’),
 
mas Deus concede a paz que ultrapassa toda inteligência,
e ele a concede aos que o amam de toda sua alma,
para os combates que sustentaram e os perigos
que enfrentaram antes de possuí-la, essa paz
em que Antônia vivia, que parecia estar sempre a dizer,
como disse Cristoque ‘vocês conhecerão as aflições do mundo,
mas tenham coragem, eu venci o mundo’ – isso era tão ela! –
por numerosas que fossem as aflições que nos assaltavam,
por numerosos que fossem os perigos em que nos colocavam
os demônios e os homens – dizia ela, quem trouxesse em si
a paz do Senhor consideraria tudo isto como nada –,
 
e ela falava, ‘estejam em paz umas com as outras’,
e isso será tudo em suas vidas, ‘pois a alma está em paz com Deus
quando ela está em paz consigo e se entrega inteiramente a Deus,
pois o mesmo fruto é colhido quando ela está em paz
com os outros humanos, quaisquer que sejam
os males que esses a façam sofrer, e assim,
 
ignorando o mal, a alma não se perturba com nada,
mas abarca a tudo, deseja o bem de todos,
ama a todos os seres através de Deus e da natureza,
e ela, a alma, chora pelos descrentes,
por causa de sua perdição, como fizeram o Senhor e os apóstolos,
e também chora e sofre pelos fiéis, e assim
recebe a paz dos pensamentos e conduz o intelecto
à contemplação e à prece pura voltadas para Deus[1]’,
 
Antônia, querida Antônia que me tirou do bojo do Amável Donzela,
e que agora, estou certa, desfruta da paz, da contemplação
mística, e da prece pura diante da face de Deus, que é a face dela.” (4-6-25)

 



[1] Pedro Damasceno, 24 Discursos Sinóticos Cheios de Conhecimento Espiritual.






5. DESPEDIDAS





 
Então Alda se levantou, e pediu a palavra, e se dirigiu a todas,
dizendo, “Somos todas devedoras de Antônia, por nossas vidas
e nossos destinos, e falo por mim e por essas que para cá
vieram comigo, nós, as meninas perdidas da beira da rodovia,
e vou começar por Joana, que a conheceu anônima
na barriga hedionda do navio, e em seu lugar foi Antônia
vendida, correndo todos os riscos, para levá-la ao Convento
de Madre Maria do Egito, e dar-lhe uma nova vida, para depois,
tão moça ainda, Antônia ser levada pelo vento do destino,
e ir parar pelo Espírito na fazenda do Albuquerque Matos,
onde foi torturada e chicoteada por dias seguidos, e cuspida
e humilhada, e de onde tirou Tecla, doentinha, e a enviou
 
a salvo, para o mesmo edifício, Tecla que com Joana
construiu a Capelinha que o Capitão-do-Mato destruiu
depois que Tecla libertou Amatou, que aqui chegou
desde o início, que não conheceu Antônia, mas que
mesmo assim, recebeu dela o benefício de ser livre,
por outras mãos, é certo, mas nesse lugar, longe
de toda e qualquer forma de suplício, Tecla, entregue
aos cuidados da nossa amada Maria do Egito,
 
por quem ela foi cuidada, e agora está aqui, como Ana, que tem
a história mais estranha de todas, que está ligada ao resgate
de Maria, daquele cabaré em que todas nós vivíamos, do qual
nos tirou Antônia, e pagou com a dor extrema e sua virgindade
pela ousadia, e foi refugiar-se prenhe no Rio de Janeiro, no
Recolhimento, onde lhe nasceu essa menina, Ana, a quem
encarregou-me que levasse comigo, pois Antônia não poderia,
em sua missão, ser mãe como gostaria, e por isso, Ana,
eu peço perdão a você, por nunca ter lhe contado como deveria,
 
mas quando Antônia levou Cananeia ao Convento, e viu ali
você, mais velha do que ela, cuidando de sua cozinha,
ela se desfez em pranto, e não há no mundo quem seja capaz
de imaginar o tamanho da dor que então sentia...,
e, ao mesmo tempo, a alegria imensa de ter te visto viva,
 
e depois disso temos ainda a história dessa Teodora,
Teodora!, Alzira, violada, vilipendiada e violentada, sem família,
que Antônia recolheu, sem saber como sobreviveria, e a trouxe
a esse sítio, até que, curada e fortalecida, a pequena pudesse
tomar em suas próprias mãos a vida, no Anunciação de Maria,
 
de Maria, ah!, Maria!, que ela foi buscar no fim do mundo,
onde ninguém imaginava, e de lá nos enviou aqui a nós todas,
as meninas perdidas, numa Kombi!, por mais de mil milhas,
e que nos ensinara tudo o que sabemos, nos contou maravilhas
e fez de nós mulheres, não chocalhos pra tocar na banda errada
de loucos que frequentavam aquela porcaria, e, finalmente,
depois de percorrer essa inenarrável trilha, exausta e firme,
 
Antônia encontrou a si mesma, menina ainda, na distante favela
de Carapicuíba, e naqueles dias tão duros e frios e cuidou dela
e de si mesma como se o impossível não existisse, e acolheu também
em seu barraco em pedaços a essas outras mulheres e suas crias,
que aqui agora estão, ao redor dessa laje fria, mas aquecida
pelo amor que por todas nós teve, esse amor, que só não foi maior
do que o amor que por Cristo ela tinha, esse amor que lhe deu
a paz maior do que toda paz do mundo, como está escrito
há muito tempo” – e Edilene leu num pergaminho amarelado
e puído pelo tempo, pelas voltas do mundo e seus caprichos – que
 
o Senhor, o Deus Homem, disse aos Apóstolos antes da cruz,
‘Eu lhes deixo minha paz, eu lhes dou a minha paz’,
e ‘Eu lhes disse essas coisas para que vocês tenham paz em mim’,
e ‘Este é meu mandamento, que amem uns aos outros’,
 
e ‘assim todos saberão que vocês são meus discípulos,
se amarem uns aos outros’, pois ‘como o Pai me amou,
assim também eu os amei, e assim permaneçam em meu amor,
e estejam certos, de que se vocês guardarem meus mandamentos,
vocês permanecerão em meu amor,
assim como eu guardei os mandamentos de meu Pai
e permaneci em seu amor’, e depois, logo após a Ressurreição,
ele voltou muitas vezes, em diferentes momentos,
para dar a sua paz, e apareceu aos seus e disse,
 ‘A paz esteja com vocês’, e por isso podemos dizer
não sem razão que por meio destas maravilhosas virtudes
reveladas nascem em nós três outras virtudes admiráveis,
que são a purificação da alma, a iluminação e a perfeição”,
 
e Edilene falou, “Essas coisas que Antônia buscou
a vida inteira, acreditando nelas cada minuto do dia,
 
‘e, se quisermos examinar a coisa com exatidão e clareza,
encontraremos que por intermédio desta corda
de três fios e como que indestrutível se desenvolve
e é tecido todo o amplo manto real das virtudes
criadas por Deus, pois a vida em Deus é, com efeito,
como uma cadeia preciosa, uma corda de ouro
 
na qual com toda pureza uma virtude depende da outra,
e onde todas se reúnem num mesmo lugar, pois, múltiplas,
elas compõem uma obra única, que é deificar o ser humano
que vive com elas na pureza, e, como os nós e laços desta trama,
enriquecê-lo com a invocação salvadora do nome
do Senhor bem-amado Jesus Cristo, na fé,
 
na esperança e na humildade, e ainda com a paz
e o amor; esta é árvore de três troncos
que Deus plantou verdadeiramente, e que dá a vida,
pois a quem ela alimenta a seu tempo
e concede naturalmente seus frutos,
esse não colhe a morte, como a primeira criatura,
mas a vida eterna que jamais perece[1]’,
 
essa vida que é caminho e verdade, e na qual
Antônia, por toda sua existência, cria.”



[1] Calixto e Inácio Xanthopouloi – Centúria Espiritual.





6. O OFÍCIO FUNERAL





Então Cananeia falou, “Tenho poucas palavras,
mas lerei o que me vai no coração, irmãs queridas,
que ‘o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência,
bondade, benevolência, fé, mansidão e domínio de si,
e contra essas coisas não existe lei, pois os que pertencem
a Cristo crucificaram os instintos egoístas junto
com suas paixões e desejos, e assim, se vivemos pelo Espírito,
caminhemos também sob o impulso do Espírito, e não sejamos
ambiciosos de glória, provocando-nos mutuamente
e tendo inveja uns dos outros[1]’,
 
inveja, cobiça, despeito, essas coisas que Antônia,
sabemos, nunca teve, nunca quis, nunca abrigou em si”.
 
E Ana falou, ao lado de Dita. tendo nas mãos um papelzinho
com anotações numa caligrafia bonita, “Mãe querida,
 
essa misericórdia, que vai até o amor pelos inimigos,
que se expressa através de orações por eles,
acompanhadas de lágrimas
(essa misericórdia que você tinha),
conduz a um conhecimento vívido da Verdade,
 pois a Verdade é a Palavra de Deus, o Evangelho;
a Verdade é Cristo, e o conhecimento da Verdade
introduz na alma a justiça divina,
 
depois de ter expulsado daí a justiça humana
decaída e corrompida pelo pecado,
porque a justiça divina dá testemunho
de sua entrada na alma pela paz de Cristo,
(essa paz que tornou minha mãe)
 ao mesmo tempo templo e sacerdote do Deus Vivo
como está escrito, ‘O lugar onde Ele reside é a paz,
e sua morada está em Sião, e dali Ele partiu a força
do arco, do escudo, da espada e da guerra[2]”.
 
E Tecla se adiantou, e leu esse trecho,
 
Quando o intelecto e o coração estão unidos na prece,
e os pensamentos da alma não estão mais dispersos,
o coração se enche de calor espiritual
no qual a luz de Cristo começa a brilhar,
enchendo de paz e de alegria o homem interior por inteiro[3]”.
 
E Teodora disse, “Ela estava sempre repetindo para nós,
quando estávamos reunidas, e tínhamos dificuldades
em compreender no que consistia, afinal, o Caminho,
e aqui eu encontrei esse capítulo de Paulo Apóstolo, que diz,
 
‘Irmãs, peço que tenham consideração
para com aquelas que se afadigam
em dirigi-las no Senhor e admoestá-las,
vocês devem tratá-las com muito respeito e amor,
por causa do trabalho que elas realizam,
queridas minhas, vivam em paz entre si,
e, por favor, irmãs: corrijam as que não fazem nada,
encorajem as tímidas, sustentem as fracas
 
e sejam pacientes com todas, cuidem
para que ninguém retribua o mal com o mal,
mas procurem sempre o bem umas das outras
e de todas, e estejam sempre alegres, rezem sem cessar
– rezem sem cessar, ela repetia
e deem graças em todas as circunstâncias,
porque esta é a vontade de Deus
a respeito de vocês em Jesus Cristo.
 
E além disso não extingam o Espírito,
não desprezem as profecias, mas examinem tudo
e fiquem com o que é bom, fiquem longe
de toda espécie de mal e que o próprio Deus da paz
conceda a vocês a plena santidade, e que o espírito,
alma e corpo de vocês sejam conservadas
de modo irrepreensível para a vinda
de nosso Senhor Jesus Cristo,
pois quem chamou vocês é fiel
e realizará tudo isso, irmãs queridas,
rezem também por mim, saúdem
todas as irmãs com o beijo santo,
e assim sendo, que a graça de nosso Senhor
Jesus Cristo esteja com vocês[4]”.
 
Então Marisa tomou a palavra, e falou com doçura,
“Quem somos nós, as que chegaram por último, para desfrutar
dessa alma do futuro, que nos trouxe um pequeno pedaço
do Paraíso, no lixo em que vivíamos? E essas crianças, não é, 
amiga, as pequenas Michely e Patrícia, quanto, ah, quanto
temos a agradecer a Deus por ter colocado Antônia em nosso
caminho e nossas vidas, e por isso vou fazer o meu discurso
com o que mais aprendi dela, quando nos ensinou a orar,
e, lendo com certa dificuldade palavras que pouco conhecia, disse,
 
A união com Deus não pode ser realizada fora da prece,
pois a prece consiste numa relação pessoal do homem com Deus,
e a união deve se efetuar nas pessoas humanas,
ele deve ser pessoal, portanto consciente e voluntária.
 
‘A virtude da prece realiza o sacramento
de nossa união com Deus (disse São Gregório Palamas),
pois a prece é a ligação das pessoas racionais
com seu Criador’, ela é mais perfeita
do que o exercício das virtudes,
por ser ‘a condutora do coro das virtudes’,
e o próprio conjunto das virtudes
deve servir à perfeição na prece,
e, por outro lado, as virtudes não podem ser estáveis
se o espírito não estiver constantemente orientado para a oração[5]’,
 
essa oração que Antônia pacientemente nos ensinou,
‘Senhor Jesus Cristo, filho de Deus, tem piedade de mim,
pecadora, e restaura-me, para que te acolha”.
 
Finalmente, Maria adiantou-se e disse, “Meninas, o que vou
dizer, disse-o João, o teólogo e evangelista, mas não sei
colocar em palavras melhor do que ele o fez, e por isso
apenas repetirei sua sabedoria, dirigindo-me a vocês, e leio,
 
amadas, amemo-nos umas às outras,
pois o amor vem de Deus,
e toda aquela que ama,
nasceu de Deus e conhece a Deus,
e quem não ama não conhece a Deus,
porque Deus é amor,
e nisso se tornou visível o amor de Deus
entre nós, a saber, Deus enviou o seu Filho único
a este mundo, para dar-nos a vida por meio dele,
 
e assim é que o amor consiste no seguinte,
e se lembrem, meninas, não fomos
nós que amamos a Deus, mas foi ele
que nos amou, e nos enviou o seu Filho
como vítima expiatória por nossos pecados,
amadas, vejam que, se Deus nos amou a tal ponto,
também nós devemos amar-nos umas às outras.
 
Ninguém jamais viu Deus,
mas, se nos amarmos umas às outras,
Deus estará conosco, e o seu amor
se realizará completamente entre nós,
e nisso reconheceremos que permanecemos
com Deus, e ele conosco, pois ele nos deu o seu Espírito,
e nós vimos e testemunhamos que o Pai enviou
o seu Filho como Salvador do mundo, e portanto,
 
quando alguém confessa que Jesus é o Filho de Deus,
Deus permanece com ele, e ele com Deus,
e nós reconhecemos o amor que Deus tem por nós
e acreditamos nesse amor, porque Deus é amor,
e quem permanece no amor
permanece em Deus, e Deus permanece nele.
 
Nisto se realizou completamente o amor entre nós:
o fato de termos plena confiança no dia do julgamento,
porque tal como Jesus é, assim somos nós neste mundo,
e no amor não existe medo mas, pelo contrário,
o amor perfeito lança fora o medo,
porque o medo supõe castigo, e por conseguinte,
quem sente medo ainda não está realizado no amor,
e assim, quanto a nós, amemos,
porque ele nos amou primeiro, e então,
 
se alguém diz, ‘Eu amo a Deus’,
e no entanto odeia sua irmã, essa tal mente,
pois quem não ama o seu irmão, a quem vê,
não poderá amar a Deus, a quem não vê,
e este é justamente o mandamento
que dele recebemos: quem ama a Deus,
ame também o seu irmão[6]’,
 
como Antônia fez, com o exemplo de toda a sua vida,
com todo fervor e de todo coração”.
 
Elas então escreveram sobre a pedra do jazigo de Antônia,
 
Você não derramou óleo na minha cabeça;
ela, porém, ungiu meus pés com perfume
e por essa razão, eu declaro a você,
que os muitos pecados que ela cometeu
estão perdoados, porque ela demonstrou
muito amor, e Jesus disse à mulher
 
‘Seus pecados estão perdoados’,
e então os convidados começaram a pensar,
‘Quem é esse que até perdoa pecados?’,
mas Jesus disse à mulher, ‘(Antônia)
sua fé salvou você, vai em paz!’[7].”
 
E Joana leu a oração final,
 
Ó Deus dos espíritos e da carne,
que triunfaste sobre a morte
e aboliste o poder do mal,
dando a vida ao mundo,
concede o repouso à alma da Tua serva Antônia,
que partiu, num lugar luminoso
e de verdes pastagens, refrescante,
 
onde não exista dor, nem tristeza,
nem lamentação, e como Deus bondoso
e amoroso, perdoa todos os pecados
que ela possa ter cometido em palavras,
ações ou pensamentos, pois não há vivo
que não tenha pecado, e somente Tu
és sem pecado, e Tua justiça
é uma justiça eterna, e Tua palavra
é a verdade, pois Tu és a ressurreição,
 
a vida e o repouso de Tua serva Antônia
que partiu, Cristo nosso Deus,
e a Ti oferecemos glória, juntamente
com Teu eterno Pai que não tem começo,
e Teu santíssimo e vivificante Espírito,
agora e sempre, e pelos séculos dos séculos[8]”.



[1] Gálatas 5: 22-26

[2] Cf. Salmo 75: 3-4, in Inácio Briantchaninov, Escritos sobre a Prece de Jesus.

[3] São Serafim de Sarov, Escritos Espirituais.

[4] I Tessalonicenses 5: 12-28.

[5] Vladimir Lossky, Ensaios sobre a Teologia Mística da Igreja do Oriente.

[6] 1 João 4: 7-21.

[7] Lucas 7: 46-50.

[8] Ofício Fúnebre, Oração Final.




7. A CARTA DE ANTÔNIA



Mas por aqueles dias chegou outra carta de Antônia,
E pegou a todas de surpresa, mas Edilene e Marisa
as tranquilizaram, pois conheciam a história,
e elas leram avidamente o que estava escrito,
 
Pela graça de Deus sou mulher, preta e cristã,
por ações grande pecadora, por estado peregrina
sem abrigo, da mais baixa condição, sempre errando
de lugar em lugar, e como pertences, trago
sobre os ombros um saco com pão seco,
em meu bolso a santa Bíblia, e isto é tudo[1]”.
 
O texto se interrompia ali, e ela voltava a escrever,
passados alguns dias de sua caminhada sem alívio,
“Quando deixei novamente o Convento,
essa que vos escreve, filha de mim mesma
e de mim própria revestida, Antônia, lembrando-me
do caminho que tomara naqueles dias
em que não sabia do que me advinha,
chegando à mesma forquilha da estrada, tomei
para o outro lado, e em pouco tempo me vi
nesse lugar inusitado, num tempo que não vivi,
mas com o coração alegre e o peito desanuviado.
 
‘Mas eis como vou agora, dizendo
sem cessar a prece de Jesus,
que me é mais cara e doce do que tudo no mundo,
e assim, às vezes, eu caminho mais de setenta quilômetros
num dia e nem sinto que estou indo,
eu sinto somente que recito a oração.
 
Quando um frio violento me colhe,
eu recito a prece com mais atenção
e logo me sinto aquecida, e se a fome
fica muito forte, invoco mais vezes ainda
o nome de Jesus Cristo e já não me lembro dela,
e se me sinto doente ou se minhas costas
ou minhas pernas me supliciam,
eu me concentro na prece e já não sinto dor.
 
Quando alguém me ofende,
eu não penso senão na benfazeja oração
de Jesus, e logo desaparece a cólera
ou a pena e eu esqueço tudo,
e assim eu me tornei um pouco esquisita,
pois não tenho necessidade de nada,
nada me ocupa, nada do que é exterior
me retém, e eu gostaria de estar todo o tempo a sós.
 
Como hábito, eu não tenho senão um cuidado,
que é recitar a oração sem cessar, e, quando o faço,
estou feliz, e Deus sabe o que se passa dentro de mim,
embora, naturalmente, tudo isso não passe
de impressões sensíveis ou, como se diz,
do efeito da natureza e de um hábito adquirido,
mas eu não ouso ainda dedicar-me ao estudo
da prece espiritual no interior do coração,
pois ainda sou demasiado indigna e embrutecida,
 
e por isso aguardo de Deus esta hora,
esperando que venha da prece esse benefício,
 e assim, ainda não alcancei a prece espiritual
do coração, automática e perpétua;
mas, graças a Deus, compreendo agora
claramente o que significam as palavras do Apóstolo
que ouvira naquele dia: Orai sem cessar.[2]
 
Nova pausa, como se se passassem mais dias, e ela
prosseguia, com a letra embargada pela emoção,
“Amadas irmãs, que essa carta chegue às suas mãos,
com tanto amor quanto a escrevi, e que seja para vocês
um bálsamo e uma bendição, da forma como foi para mim,
 
de sua irmã Antônia, nesse mundo que parece não ter fim.
 
Dada aos 16 dias de Janeiro em Marataiama, Cananeia,
à beira do Mar Pequeno, no ano da Graça de Nosso Senhor de 1531”.



[1] Anônimo, Relatos de um Peregrino Russo, Primeiro Relato.

[2] Ibid.

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