25. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 7: ANTÔNIA - 7. ANTÔNIA E CARAPICUÍBA

 

7.   ANTÔNIA E CARAPICUÍBA

 

 


Onde somos surpreendidos com o encontro de Antônia consigo mesma, transportada para o tempo de sua infância em Carapicuíba. Tomando a criança, que é ela mesma, sob seus cuidados, ela encontra mais duas mulheres e juntas vão morar num barraco paupérrimo à beira de uma rodovia. 



1. ANTÔNIA E ANTÔNIA




A criança olhava para Antônia com ar de espanto,
estatelada no asfalto, no meio da rua, como se viesse
do nada, uma cara amarfanhada, as roupas antiquadas
em perfeito desalinho, de sandálias de couro, de um tipo
que nunca antes ela vira, e essa pessoa inusitada
olhava para ela com o mesmo ar estupefato, e uma cara
de quem não sabia de onde era, nem onde estava,
 
e a moça perguntou a ela, “Em que ano estamos?”,
e a menina respondeu “1987”, e a moça coçou a cabeça,
dizendo, “Lá vamos nós de novo...”, e sorriu para ela,
indagando, “Onde estão seus pais? E sua casa,
onde fica? Pode me levar até eles?”, mas a menina
retrucou, “Meus pais morreram, de tiro, já faz um ano,
e desde então eu ando por aí, e durmo onde consigo,
não tenho casa, vivo como posso, ao desabrigo,
só confiando no Senhor, que não me nega nada,
que me sustenta e me afasta de todo perigo”,
e Antônia então percebeu que ela estava, de fato,
muito suja e magra, cheia de pequenas feridas,
 
e, de súbito, deu-se conta de que estava diante
do maior de todos os mistérios que havia vivido,
e sua memória encheu-se de imagens de infância,
de uma casinha na periferia, de gatos e cachorros,
de brincar com a filha da vizinha, dos pais, sempre
um pouco alterados, de um modo que ela não entendia,
e do dia em que apareceram em casa uns moços,
que os levaram num carro, e só depois ela soube
que haviam morrido ali mesmo, nalgum terreno baldio,
porque ficaram devendo dinheiro a quem não se devia,
 
e Antônia observou a menina muito de perto,
e seu coração disparou, porque era igualzinha a ela própria,
quando tinha a mesma idade e a mesma biografia,
e ela perguntou à menina, com medo imenso da resposta,
porque ela estava no meio de um redemoinho, uma troika
que a atirava aos espaços infinitos, e a enchia de agonia,
“Qual é o seu nome, minha filha?”, já sabendo que o caos
se abatia sobre a Babilônia daquele dia, e a pequena
respondeu, num fio de voz que mal se ouvia: “Antônia”. (1-6-25)

 




2. RETRATO





“A número, número 1 em baixa renda da cidade,
comunidade zona sul é dignidade,
tem um corpo no escadão, a tiazinha desce o morro,
polícia, a morte, polícia, socorro,
 
aqui não vejo nenhum clube poliesportivo
pra molecada frequentar, nenhum incentivo,
o investimento no lazer é muito escasso,
o centro comunitário é um fracasso,
 
mas aí, se quiser se destruir está no lugar certo,
tem bebida e cocaína sempre por perto,
a cada esquina cem, duzentos metros,
nem sempre é bom ser esperto
 
Schmidt, Taurus, Rossi, Dreher ou Campari,
pronúncia agradável, estrago inevitável
nomes estrangeiros que estão no nosso meio
pra matar, pra matar,
 
como se fosse ontem ainda me lembro
sete horas sábado, quatro de dezembro,
uma bala uma moto com dois imbecis
mataram nosso mano que fazia o morro mais feliz,
e indiretamente ainda faz, mano Rogério esteja em paz,
vigiando lá de cima a molecada do Parque Regina.[1]


[1] Racionais MC, Fim de semana no Parque, 1993.




3. OUTRA VEZ, UMA VIDA NOVA




Antônia e Antônia, aliás Eulália e Antônia,
uniram seus destinos, como fossem deserdadas
da sorte, e juntas buscaram por um lar ou um abrigo,
qualquer lugar que lhes permitisse escapar do perigo
das noites sem resguardo e dos dias tormentosos,
e acabaram por encontrar um barraco, abandonado
e em ruínas, no meio de um bananal, na beira
da rodovia, e ali se acolheram, como puderam,
 
e se arranjaram, e fizeram fogo numa panela
que era uma lata velha, e cozinharam água
e umas batatas da xepa da feira, e abóbora
que encontraram no mato, e se deram
por bem satisfeitas, e naquela noite dormiram
em pedaços de papelão sobre o chão duro,
e se aqueceram com jornais velhos, e se abraçaram
para enganar o frio da madrugada, e adormeceram
 
e Antônia, a pequena, sonhou que estava num barco,
que atravessava um rio, e do outro lado alguém aguardava,
mas antes que ela visse, estava acordada, e ficou
com as imagens sonhadas na cabeça, e contou a Eulália,
e as duas saíram a buscar qualquer coisa, e a pedir
nos bares um café, um pão sem manteiga, e nesse dia
 
voltaram para o barraco, sua nova casa, trazendo
um colchão que acharam numa calçada, e um cobertor
de campanha, bastante surrado, mas muito melhor
dos que os jornais usados antes, e nessa rotina,
vivendo de sobreviver cada dia, viveram um tempo,
e pediam dinheiro no semáforo, e tomavam banho
de torneira, e lavavam as poucas roupas sem nada,
 
e a pequena sonhava com seu rio e seu barco, e a cada vez
acordava antes que resolvesse o mistério de quem
a aguardava do outro lado, e assim, num dia incerto,
conheceram outras mulheres, que viviam também
de catar cacarecos, e uma tinha duas filhas, e fizeram
um concerto entre elas, e foram morar todas juntas,
pra dividir a miséria, que compartida dessa maneira
se torna menos dorida, porque, mesmo na pobreza
e na carência absoluta, não dá pra levar a vida tão a sério,
 
e assim eram três mulheres e três meninas, e se chamavam
Eulália, Edilene e Marisa, e as crianças eram Antônia,
Michely e Patrícia, que onde cabem duas, cabem três,
e quatro, e cinco e seis, e cada uma sabia onde encontrar
um resto de comida, uma panela quebrada, um frasco
de álcool, e fósforos, e cigarros – que Edilene fumava –
e logo conheceram a comunidade da igreja próxima,
que as acolheu e ajudava, e seguiram a vida, em paz,
por quase um ano, sem pensar no que o futuro guardava. (2-6-25)

 



 4. A VIDA EM CRISTO



Mais uma vez Antônia tergiversava consigo mesma,

lembrando-se dos livros e dos autores que tinha na mala,
que nela sempre buscava nos momentos em que,
sozinha, precisava decidir se estava louca, se maluca,
ou se seu coração estava certo e sua cabeça ainda funcionava.
 
“A concepção espiritual do universo é incompatível
com um sistema estático de leis morais naturais,
bem ao contrário, o mundo é concebido
como um campo de ação e de combate
entre pessoas vivas, pois um Deus vivo
e pessoal está na origem de toda a criação,
e sua onipresença não exclui outras vontades,
 
elas próprias criadas por ele com o mesmo poder
até de rejeitar a vontade de seu Criador,
e é por isso que o Diabo é capaz não apenas de existir,
mas ainda de aspirar à destruição das obras de Deus,
e ele o faz tentando atrair a criação para o nada,
nada do qual ela saiu, e assim, a morte,
que é um “retorno ao nada”, constitui
a própria essência do poder diabólico
sobre a criação, mas a ressurreição de Cristo
 
na própria realidade de sua carne e de seus ossos,
não apenas constitui a prova
do caráter “anormal” da morte,
mas a designa como o verdadeiro inimigo,
e então se a morte é um fenômeno anormal,
não pode haver nela nada parecido
com uma “lei moral” inerente ao universo,
e se assim não fosse, o Senhor Jesus Cristo
teria se entregado em vão
por nossos pecados, a fim de nos resgatar do século[1],
 
e essa é a essência do que é preciso saber para escapar
à armadilha das religiões morais, puritanas e desérticas,
essa é a essência do viver, do simples e espiritual viver,
ainda que longe dos altares, das adorações compungidas,
das lágrimas derramadas, fingidas, de uma piedosidade
armada para confundir os anjos, da falsidade
das intenções baratas, do verniz exterior das atitudes
calculadas, pois viver em Cristo é outra coisa,
é um mergulho para além de todo esse nada,
 
é um encontro e um compromisso, uma reviravolta
na vida, a mudança de direção, rumo e intenção
capaz de tirar a pessoa desse abismo, e levá-la
ao mais alto céu, ainda antes da morte, nessa vida,
ou melhor, numa nova forma de vida que é como
deve ser a vida em Cristo, nossa ressurreição. (2-6-25)



[1] Johannis Romanides, A Vida em Cristo.





5. O DIVINO E O HUMANO





O livro continuava a falar em sua mente,
colocando em palavras certas as palavras
que pensava, organizando as prateleiras
das ideias, tirando o pó das gavetas,
colocando os cabides nos armários,

 

Na verdadeira humanidade está revelada
não apenas a natureza do homem, como o próprio Deus,
mas as categorias sociais de dominação e poder
foram transferidas a Deus, e nisso está
um antropomorfismo maligno, quando, na verdade,
Deus não é um dono, nem alguém que exerce o poder com autoritarismo.
 
A ideia errada de um Deus cósmico
transferiu as categorias de poder a Deus,
mas Deus, certamente, não é nenhum “poder”,
no sentido natural dessa palavra,
e a adoração a Deus como “poder”
é uma forma de idolatria.
 
E Deus não é um ser,
para que se possa transferir a Ele
a categoria de pensamento abstrato,
Deus é o não-ser, que está acima do ser,
Deus é o Existente, mas não um ser,
Deus é Espírito, mas não um ser,
pois o Espírito não é um ser,
 
e o entendimento de Deus como um Espírito
concretamente existente deriva
de uma profunda experiência espiritual
e não de uma experiência natural e social
limitada e objetivada, que aplica erroneamente
um cosmocentrismo e um sociocentrismo à ideia de Deus,
e por isso devemos sempre nos lembrar
de que no estrato subconsciente de cada homem,
mesmo do homem contemporâneo,
a alma de seus antepassados ainda sonha,
remontando aos tempos mais primitivos.
 
Onde, então, se situam essas crenças
da alma primitiva, às quais só uns poucos têm acesso?[1]
 
“Onde estão as nossas ‘almas primitivas’, irmãs queridas,
disse Eulália às amigas, numa noite de chuva fina,
onde estão essas almas, Edilene, Marisa, a pequena Antônia,
Michely, Patrícia, essas crianças, que melhor do que nós
encontram com Deus em cada esquina, no voo
do passarinho, na fruta que cai na terra e apodrece,
nos bichinhos que a digerem, na madeira que queima
sob essa lata onde fervemos a água que faz nosso café,
e olhamos o vapor que sobe, acocoradas ao redor,
 
a esperar para sorver o líquido quente partilhado
nessa única xícara de asa quebrada, que nos aquece
o ventre, que sobe aos pulmões nessas manhãs geladas,
nossas almas reunidas nessa casa improvisada,
que é um lar apesar de tudo, e nos aconchega
quando chegamos à noitinha, vindas da quebrada,
e em nós sonha a alma dos antepassados, essa ideia
de Deus, que está além do tempo e do espaço,
 
que vemos nos olhos de nossas crianças,
na vontade de viver de cada uma delas, e em nós,
que não abandonamos o barco, que nos juntamos
pelo maior de todos os acasos, porque buscávamos
o mesmo lixo no mesmo buraco, perdidas para o mundo
mas encontradas nesse abraço, esse é o Deus vivo,
 
que nos aperta nos braços, que estreita os laços
que nos unem na sobrevivência comum e no desejo
inato de nos movermos para frente, para cima,
para um Reino bendito onde sejamos nós mesmas,
como Deus nos criou, antes da criação do mundo,
antes de que houvesse a história, a civilização
e tudo o que os homens chamam de ‘isso’,
esse Reino que preexiste em nós, e ao qual,
com toda verdade, damos o nome de Jesus Cristo”. (2-6-25)



[1] Nikolai Berdiaev, O Divino e o Humano.




6. A ENCARNAÇÃO





“Porque Deus, através de Cristo, seu Filho,
adquiriu a nossa carne e a santificou, e o Filho
demonstrou isso mais de uma vez, abrindo
suas entranhas para a compaixão, como fez
com Lázaro, ou no enterro do filho da viúva,
e dessas entranhas partilhamos nós, por nossa
própria encarnação, que é uma imitação
daquela que ele teve pela Virgem Maria,
 
tornando-se nossa raça humana, para que
também nós, nascidas de mães humanas,
e por suas mãos, nos tornemos irmãs em Cristo,
e umas das outras, porque está escrito, ‘Amai-vos
umas às outras, como eu vos amei[1]’,
(ah, ele disse ‘uns aos outros’, mas aqui
estamos só nós, as mulheres, e aqui somos
umas pelas outras, e só contamos ‘conoscas’...)
esse é o novo mandamento, ‘Como eu vos amei,
deveis vos amar umas às outras[2]’, e também
Ama à tua próxima como a ti mesmo[3]’,
 
e tudo isso se torna uma mescla de amor,
amor humano e divino, porque não podemos
amar como Deus nos ama, porque Deus É Amor,
mas podemos amar como Cristo nos amou,
dando nossa vida umas às outras, para que
não reste em nós nenhum traço de egoísmo,
como fazemos com nossas filhas, e morreríamos
 
por elas, se soubéssemos que com isso seriam
elas mais felizes, e daríamos nosso próprio coração
se assim fosse preciso, e é esse o Amor, amor de dar,
amor sem esperar nada, amor só por amar, que é
a essência de nossa vida, pelo qual todo fardo
é leve, e nenhuma estrada é comprida, e essa
é a nossa oferenda, que fazemos a Cristo,
nossa própria existência, e por isso dizemos
 
Ó Deus, nosso Deus, que mandaste Jesus Cristo
nosso Senhor e nosso Deus, o Pão do Céu,
alimento de todo o mundo, Salvador, Redentor
e Benfeitor nosso que nos bendiz e santifica,
abençoa Tu mesmo essa oferenda de nossas vidas,
e recebe-a em Teu altar celestial, lembra-Te
dos que a oferecem e daqueles pelos quais é oferecida,
pois Tu és bom e misericordioso, e conserva-nos a nós
sem reprovação, na celebração dos Teus divinos mistérios[4]’”.



[1] João 15: 12.

[2] João 13: 34.

[3] Mateus 22: 39.

[4] Divina Liturgia, Oração da Prótese, Final.




7. QUEM É ANTÔNIA?




As mulheres perguntaram a Eulália,
conforme o nome que de si ela lhes dera, porque
ela parecia não se importar com nada,
e passava frio e fome e miséria, como se tudo
fosse indiferente, como se ela tivesse algo
dentro de si, que carregava no fundo dela mesma,
e que ninguém via, nem compreendia,
porque ela não falava, nem se vangloriava,
nem parecia cuidar de si, como se esperava,
 
mas cuidava mais delas, e de Antônia,
e das crianças, e estava sempre alegre,
ainda que carregasse o fardo de toda a pobreza
do mundo, e de uma vida em dificuldades sérias,
sempre disposta e ver o melhor em tudo,
sempre agradecendo a Deus, do fundo
de seu coração, e isso era visível nela,
e, para elas, nada parecia fazer sentido,
e elas diziam, “Já faz três anos que estamos
contigo, e juntas passamos por cada coisa!,
 
e você só nos fala de Deus, de amor, de coisas
que não entendemos, mas pressentimos, e temos
tanto a te agradecer, a você que nos recolheu,
a nós e a essas crianças, que dividiu seu barraco,
que fez dele um barco nesse mar de horrores
que é o mundo, e contigo navegamos seguras,
e você nos deu tudo o que temos e não tínhamos,
sua comida, suas roupas e suas esperanças,
e tudo sem que te compreendamos, e sabemos,
porque tens tantas cicatrizes, que passaste
por poucas e boas, e dores e sofrimentos, e vimos
agora te perguntar, Eulália, por que, por que tanto?”
e Eulália lhes respondeu, sorrindo, “Por quê?,
 
ah, por que Deus é Glória, e Cristo veio à terra
para que Deus seja glorificado, e ele revelou
o Nome de Deus aos homens[1]’ (apesar de que
Deus não tem um ‘nome’, mas ele é o que o nome
indica, que é a Glória), e essa era sua missão,
e então ele retornou a Deus ‘para ter a Glória
que ele tinha antes da própria Criação[2]’, como dito,
‘subiu ao Céu e sentou-se à direita do Pai[3]’,
 
e Cristo então separou os seus do mundo, aqueles
que sabem ‘que tudo o que me deste provém de Ti, ó Pai’[4],
e ‘creram que me enviaste[5]’, porque esses receberam
o Espírito Santo, ‘o Espírito de Adoção, que confirma
com o nosso espírito[6]’ – é claro, se formos conscientes
dessa adoção, se tivermos a consciência de nossa
conexão com o Santo Espírito, e é a consciência
de que somos filhas de Deus que representa
o sinal de que nos preparamos para entrar no Reino –
 
e é por isso, por sermos nós, ‘as que me destes[7]’,
por isso eu acredito que não somos feitas de carne[8],
não dessa carne de que é feito o mundo, mas somos
espírito, e coerdeiras com Cristo, porque temos
as mesmas dores, vale dizer, a compaixão que queima
as entranhas, e por isso seremos também glorificadas,
naquilo que fazemos – mas não no que dizemos –
 
porque Cristo roga por nós junto a Deus
– não pelo mundo, ‘mas por aqueles
que me deste, porque são teus[9]’ –
e ele disse, ‘todas as coisas minhas são tuas,
e nessas pessoas eu sou glorificado’[10],
e nisso eu creio, de toda alma, de todo coração
e com todo o meu ser, e por isso eu vejo
 
em vocês, amadas irmãs minhas, não partes
separadas de mim, mas as sinto com as entranhas,
e sinto queimar por vocês, e por essas meninas,
tanto amor, e tamanho, que não tenho medidas,
e é isso que me move, e que me aquece
nas noites frias dessa cidade, à beira dessa via,
no meio das bananeiras, sob a chuva fina,
e me apazigua o apetite quando tenho fome,
e me mata a sede, e enche todas as horas
do meu dia, pois nesse amor eu converso
com Deus a cada hora, cada átimo do tempo,
 
porque dele vem toda dádiva e dom perfeito,
do Pai das luzes, e a ele rendemos glória,
graça e adoração[11], e eu digo a vocês, pessoas
queridas, que quando sentirem o mesmo que eu,
vocês hão de orar em palavras, como o fazem,
mas haverá gemidos nos seus corações,
e o Santo Espírito estará ali falando a Deus,
não do que nos falta, não dos sentimentos,
mas nos apresentaremos ao Pai com a mente
vazia de pensamentos, a ponto de contemplarmos
 
dentro de nós a guerra entre o homem novo
e aquele a quem combatemos, e nesse ponto
iremos criar – e criarão vocês, com certeza –
uma condição doce e pacífica, a paz de Cristo,
que habitará para sempre – embora nunca cesse
a luta – com vocês, e suas vidas se tornarão,
daí para frente, uma contínua e ininterrupta prece”. (3-6-25)

[1] Cf. João 17: 6.

[2] Cf. João 17: 5.

[3] Credo Niceno Constantinopolitano.

[4] João 17: 7.

[5] João 17: 8.

[6] Cf. Romanos 8: 15-16.

[7] João 17: 6.

[8] Cf. Romanos 8: 9.

[9] João 17: 9.

[10] João 17: 10.

[11] Divina Liturgia, Prece Final.




8. O CRUCIFIXO






 As meninas chegaram da feira exultantes,
com a sacola cheia de verduras, um pouco estragadas,
mas era o que se podia obter, àquela hora,
e era de graça, bastando catar no chão o que sobrava,
e Antônia vinha na frente, com os olhos brilhantes
e correu a mostrar a Eulália algo que encontrara
na sarjeta, encoberto pela lama, sujo e enferrujado,
 
um velho crucifixo, que alguém perdera,
muito antigo, a julgar pela aparência,
preto de imundície acumulada, e Antônia disse,
“Veja, tia Eulália, esse Jesus Cristo é dos nossos,
pretinho como nossos avós, que até parece
o retrato que eu vi do Vô Bentinho, que ficava
na gaveta de mamãe, que se perdeu quando
tudo veio abaixo, no dia em que eles sumiram,
e agora eu o encontrei, meu Cristinho bento,
e vou chamá-lo de Nonô, Nozinho, que era
o modo como mamãe falava do pai dela,
e por ele ela tinha muita saudade e muito carinho”,
 
e mostrou-o a Eulália, sorrindo, e Eulália,
instintivamente, levou a mão ao peito,
onde estava pendurado, numa correntinha
que nunca abandonava, o mesmo Cristo
que a menina lhe mostrava, e Antônia,
vendo isso, exclamou, “Olha, veja só!,
é igualzinho ao meu!”, e olhava para um
e para outro, achando naquilo a maior graça,
 
enquanto os olhos de Eulália se enchiam de lágrimas,
à lembrança daquilo que ela mesma passara
na infância, e do dia, em especial, em que,
voltando da xepa da feira, encontrara,
caída na sarjeta e meio enterrada, aquela mesma
cruz que agora estava no seu peito, e
ao mesmo tempo diante dela, e ela caiu
de joelhos, enquanto Antônia corria para fora
para mostrar às amiguinhas seu novo amigo,
aquele Cristo crucificado, que a acompanharia
por toda a vida, pendurado ao seu pescoço,
pretinho, pretinho, tal como o havia encontrado. (3-6-25)

 

 


9. O PACOTE DE BALAS





Antônia chegou no barraco com um pacote de balas,
mas, “Quem te deu?”, “Ah, foi o moço do posto
de gasolina, ele sempre me dá algum presente,
acho ele fofo e bonito”, “Mas, Antônia, não se deve
aceitar coisas de quem não é muito amigo”, “Ah, não,
mas ele sempre me diz que ele é muito meu amigo,
que ele gosta de mim, e me acha esperta e bonita”,
“Não, Antônia, pode parar com isso, aceitar coisas
assim, pela rua, ainda mais vindo de homem, acaba
sendo um perigo”, “Tá bom, tia Eulália, não farei
mais isso, mas ainda acho que ele é um homem bom,
e acho que ele se importa sinceramente comigo”,
 
e Eulália foi dormir com aquilo no pensamento,
e no dia seguinte rondou o posto, que ficava
na margem da rodovia, e observou o movimento
e os que trabalhavam ali, e viu carros e caminhões
chegando e partindo, e não chegou a nenhuma conclusão,
e pensou que talvez fosse cisma dela, e que, afinal,
a pequena não era tão boba assim, e saberia distinguir
as intenções de quem se aproximava dela, e no fim,
acabou por esquecer o problema, e deixou as coisas
correrem, na confiança de que Deus de tudo sabia. (4-6-25)

 

 


10. O ANÚNCIO DA PARTIDA





“Favela é barraco, comunidade é cooperação, diálogo,
comunicação”, disse Edilene, “e por isso esse lugar em que vivemos,
para mim, se tornou um lar, porque temos tudo em comum,
e respiramos o mesmo ar, e somos como uma sendo, e buscamos
juntas uma sobrevivência que vai além da pobreza que vem
e vai como o vento, porque hoje somos conscientes, de que
nossa presença nesse mundo é apenas para saborearmos
a experiência espiritual que nos espera – mas que já temos –
e cada dia vivido aqui é um dia fora do tempo, em que vemos
brincar as meninas, e as vemos crescendo, e crescemos nós
também, Eulália, com o que você nos ensina, e sabemos
que não é da boca pra fora que você diz essas coisas,
mas que são coisas que você de fato viveu, e que vêm de dentro”,
 
e Antônia falou, “Vocês bem sabem de que maneira me comportei
durante todo o tempo, desde o primeiro dia em que cheguei,
e que servi ao Senhor com toda humildade, com lágrimas
e no meio das provações que sofri, e sabem que nunca deixei
de anunciar aquilo que pudesse ser de proveito para vocês,
e que as convidei a se arrependerem diante de Deus
e a acreditarem em Jesus nosso Senhor, mas saibam agora
também que, prisioneira do Espírito, vou para além, sem saber
o que me acontecerá, e só sei que a cada momento o Espírito Santo
me adverte, dizendo que me aguardam cadeias e tribulações,
mas que mesmo assim, de modo nenhum considero minha vida
preciosa para mim mesmo, contanto que eu leve a bom termo
a minha carreira e o serviço que recebi do Senhor Jesus,
ou seja, testemunhar o Evangelho da graça de Deus.
 
E saibam também que agora tenho certeza de que vocês
não verão mais o meu rosto, todas vocês entre as quais
passei pregando o Reino, e assim, eu lhes digo, irmãs queridas,
cuidem de vocês mesmas e sejam seu próprio rebanho,
pois o Espírito Santo as constituiu como guardiães de si,
para que se tornem cada uma a Igreja de Deus, que ele adquiriu
para si com o sangue do seu próprio Filho, e saibam, além,
 
que, depois da minha partida, aparecerão lobos vorazes
que não terão pena do rebanho, e que, mesmo do meio de vocês
poderão surgir coisas pervertidas, para as arrastar ao mundo vão,
e, portanto, fiquem vigiando e se lembrem de que durante esses anos,
dia e noite, não parei de admoestar com lágrimas a cada uma de vocês,
 
e agora, pois, eu as entrego ao Senhor e à palavra de sua graça,
que tem o poder de edificar e de dar a vocês a herança
entre todos os santificados e lembrem-se de que ademais,
não cobicei prata, nem ouro, nem vestes de ninguém, e vocês mesmos
sabem que estas minhas mãos providenciaram o que era necessário
para mim e para vocês, que estavam comigo, e que em tudo mostrei
a vocês que é trabalhando assim que devemos ajudar os fracos,
recordando as palavras do próprio Senhor Jesus, que disse:
Há mais felicidade em dar do que em receber[1]”, e após dizer isso,
 
Eulália ajoelhou-se e rezou com todas eles, e então todas começaram
a chorar muito, e, lançando-se ao pescoço dela, a beijavam, e estavam
muito tristes, principalmente porque Eulália havia dito que elas
nunca mais veriam o seu rosto, e a mais triste de todas era Antônia,
cuja vida fôra inteiramente transformada, desde o feliz dia de seu encontro. (4-6-25)



[1] Cf. Atos, 20: 18-36.





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

1. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 1: AS SETE IRMÃS - INTRODUÇÃO

13. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 3: AO TEMPO DE TEODORA - 3.2. TEODORA, AS ALMAS E AS PESSOAS

5. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 1: O CONVENTO - 1.2. CONVERSAS - 3. NOVOS APRENDIZADOS