25. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 7: ANTÔNIA - 6. FATUMATA E O TUMBEIRO
6. FATUMATA E O TUMBEIRO
Onde descobrimos que a saga de Fatumata encontrara Antônia
já no bojo do Amável Donzela, o navio tumbeiro que a trouxera escravizada de
África. Antônia inicia Fatumata nos mistérios e, trocando de identidade com
ela, remete-a ao Convento da Anunciação, enquanto ela própria é vendida no
mercado de escravos no Rio de Janeiro.
vindo do chão imundo e de corpos tristes, sujos e suados
que se espalhavam por toda parte, quase empilhados,
e ouviam-se gemidos, choro e ranger de dentes,
e dir-se-ia que o inferno estava ali presente,
com todos os seus demônios, a pisar a humanidade
na forma de uma pobre raça escravizada, negra
como o carvão, mas nobre como o céu da noite,
coroado de estrelas, e Antônia procurou entender
onde estava, exatamente, e que gente era aquela,
de que ouvira tanto falar, embora fosse difícil
avaliar a extensão e a profundidade da dor
e do sofrimento, entre mulheres, homens, crianças,
todos arrancados de suas vidas, e atirados à sanha
de capitalistas ensandecidos, na busca do lucro
fácil, nem que para isso fosse necessário
que morressem quantos fosse preciso, ou
que enlouquecessem, ou que se esvaíssem
em pranto, pragas, amaldiçoamentos, desde que
se lhes garantisse o retorno financeiro e o dinheiro
aplicado nas guerras por despojos e nas travessias,
ao sabor dos ventos e das marés, e quantos
não chegariam?, ah!, “e existe um povo
tanta infâmia e cobardia!..., e deixa-a
transformar-se nessa festa em manto
impuro de bacante fria!...[1]”, e Antônia
semimortos, acordados e adormecidos,
enquanto suas mãos tateavam o assoalho,
em busca de um sinal, um raio de luz exangue
que iluminasse por um instante o martírio
em que estava mergulhado aquele povo
inocente, cujo crime fôra nascer do lado errado
do mar, num continente subjugado pela fome
de riqueza de estrangeiros sem Deus nem pátria,
que transformavam em negra carne de mercado
sonhos, vidas, amores, habilidades, gênios,
atados a correntes implacáveis, que mal lhes permitiam
mover-se, por semanas a fio, sem esperanças,
sem saber o que os aguardava ao fim do caminho,
ou quem eram seus algozes, ou os novos senhores
que esperavam para arrematá-los em leilões
como se fossem menos do que bichos,
mera força de trabalho, forçados a viver no exílio,
“Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta”,
“que impudente na gávea tripudia?!...
Silêncio!... Musa! chora, chora tanto
que o pavilhão se lave no teu pranto...[2]”,
da Bahia de Todos os Santos, ou para o Rio
de Janeiro, qualquer porto serviria, onde
aportasse em pouco tempo, para abortar,
de seu ventre escuro, a carga humana,
como um feto indesejado e impuro. (29-5-25)
[1] Castro Alves, Navio Negreiro,
Tragédia no Mar, IV.
[2] Ibid.
quem a chamava no meio da noite daquela viagem
de tortura, que começara no porto de Cacheu,
na Guiné africana, e parecia não ter fim, quando já
mais de doze dos embarcados haviam morrido,
e então Fatumata sentiu que lhe tocavam o braço,
e a voz lhe disse, na sua língua natal,
“Fatumata, ouça-me!”, e ela respondeu,
“O que queres?”, e a voz disse, “Sou eu, Antônia,
que não conheces ainda, mas que vim a ti,
porque és tu que és aguardada num certo lugar,
para onde irás, porque assim o quer o destino
(chama-o como quiseres), que para ali te levará,
tão certo é como sobreviverás a essa viagem
de horrores, pois terás uma missão em terra,
que cumprirás com todo teu zelo, e saberás
quando vier a hora, quem te enviou, e o que
de ti se espera. Mas, por ora, ouve-me,
e voltarei a cada dia para instruir-te em segredo
nas horas mortas da noite (mas não existem
outras no ventre desse negreiro), nas artes
de uma antiga tradição, que terá em ti guardiã,
e darás nascimento a uma nova era.” (29-5-25)
3. A VOZ
de Fatumata, tocou-lhe o braço, e disse baixinho,
“Ouve-me: tu serás separada de tudo o que conheces,
separada de teus parentes, de teus irmãos,
cada um atirado para os cantos mais distantes, separada
de teu nome, de teu passado, das tradições
dos teus antepassados, da tua própria língua,
dos espíritos que trazias no corpo quando dançavas
nos rituais, nas festas e nos ritos de passagem,
significando-te em tua aldeia e significando-a em ti,
tudo aquilo será riscado da tua pessoa, arrancado de ti
como de tua própria pele, esfolada viva sem tua gente,
e tu serás reduzida a nada, e teu corpo, belo como a noite,
que antes era o veículo de toda a tua história passada,
teu corpo desenhado, que se movia de acordo
com cada passo de tua mãe, tua avó, cheio de vida ancestral
da mãe de tua avó e da avó dela, teu corpo que é teu,
já não o será, porque pra te destruir destruirão teu ser,
tudo o que és, tudo a que pertences, todos os significados
que o mundo vem tendo para ti desde que nasceste[1],
pois é assim que te tornarão escrava, coisa, nada,
não digna de carregares a condição humana,
essa condição que se espelha em tudo o que és,
e no ubuntu pleno de tua raça e de tua aldeia,
para que sejas reduzida apenas a mãos que trabalham
e a um corpo negro para desfrute dos senhores
que dispuserem de ti como melhor lhes apeteça,
e é por tudo isso, para que não desapareças
soterrada no não-ser que te espera, por tudo isso,
Fatumata, que te trago as palavras mágicas
que hão de reconstruir-te a alma espedaçada
e conduzir-te doravante como pessoa inteira
(porque não posso mudar tua história),
enquanto viveres nessa nova terra, de que não sabes nada,
apenas sabes o que perdestes nessa travessia
e na caminhada que se abre à tua frente, por tudo isso,
irmã, Fatumata, princesa guerreira, te transmito agora
a guia que te há de acompanhar quando tudo o mais
se perder na poeira das estradas, e nas pedras
desse cais da terra-do-nunca onde atracarás,
sem mais poder olhar para trás, sem que possas mais
dizer, ‘Eis-me ali, criança, no pátio dos meus ancestrais’,
pois teu passado se apagará junto com tudo o que te define,
e doravante serás apenas a pessoa a olhar cansada
para onde vai dar essa estrada, e a caminhar por ela
com os olhos voltados para a frente, e, se olhares
para ti mesma, verás teu corpo, que é o mesmo,
mas outro, por que te há de faltar aquilo que o completava,
ou seja, teu povo todo, as árvores em que te embalançavas,
e aquela África imensa, que deixaste para trás, arrastada
pelas correntes desse cativeiro, que te mordem hoje a carne,
mas que eu te juro, irmã, te juro, não hão de sempre durar.”
[1] “Os seres humanos não acessam
diretamente o mundo natural que os circunda, antes, têm contato primeiramente
com o mundo cultural e, através do contato cultural experienciam o mundo natural
(...) Gesto e ritual, um conhecimento prático e tácito, adquirido em processos miméticos,
em cujas imagens atos rituais e gestos sociais são incorporados. Rituais e
gestos criam comunidades. Sem rituais, não haveria o social. A esse respeito,
os seres humanos são seres sociais, que necessitam da comunidade e engendram-se
nesses rituais”. (Júlio Macuva Estendar, Rituais Bantu do Efico e Ekwendje,
in Teologia Negra Brasileira, 2025)
E a voz, prosseguiu, com doçura e certeza,
antes de tudo, muito antes de que houvesse
uma divisão absoluta entre as naturezas de Deus
e do ser humano, um abismo intransponível,
uma separação tristíssima e dolorosa para ambos,
mas esse Ancestral comum a toda a raça veio e,
de puro espírito que era, se fez homem de carne,
e assim criou um elemento comum às naturezas
divina e humana, de modo que, a partir dele
a humanidade partilha com Deus, no Ancestral,
uma natureza divino-humana, teantrópica,
e assim é que pronunciamos seu nome
e ao fazê-lo invocamos a ligação nossa com Deus,
esse Deus que É, como uma pessoa e não uma ideia,
esse nome que é também o encontro místico
com Deus, no coração do homem, o olho da alma,
o lugar onde acontece todo o entendimento
que está acima da mente, das ideias e do sentimento,
esse nome final, que não pode ser descrito,
que só pode ser entendido por quem o experimenta,
porque o semelhante atrai o semelhante, e assim
a Pessoa de Deus se faz conhecida, não pela mente,
mas por uma ‘pessoalidade’ que se exprime
como Amor, esse Amor que tanta falta faz na terra,
e assim nos transformamos, se amarmos o Ancestral,
como disse ele, quando falou aos seus discípulos,
‘Quem me ama, segue a minha palavra, e meu Pai
dos segredos da criação e dos sacramentos divinos.” (29-5-25)
E Fatumata escutou a voz que lhe falava
com tanta certeza e autoridade, como se
todo o resto, as correntes, o cativeiro,
o ser arrancada de sua terra, o sofrimento,
o navio escuro, a dor dos companheiros,
das irmãs que dividiam com ela o horror
desse destino contrário a tudo, essa sentença
de morte em algum canavial, mina, serviço
desumano, e o chicote, e o tronco, e tudo
o mais que se lançava sobre aquele povo
negro, nada fosse, e a voz, de forma estranha,
a levava de volta aos terreiros de sua infância,
quando ela olhava os mastros ancestrais
fincados na praça da aldeia, e brincava
ao seu redor, e riam as crianças de suas caras
feias, assustadoras e benevolentes, aqueles
velhos de quem eram todos descendentes,
e que não foram o bastante para protegê-la
no momento mais difícil de sua vida, quando
foi agarrada, manietada, amarrada, espancada
e nua jogada naquele navio, Amável Donzela,
nome maldito que a perseguiria pela vida
como um pesadelo, a tempestade no mar,
os gritos de pavor em meio à procela.
[1] João 14: 21-24.
Fatumata e Antônia falavam sobre a liberdade,
e sua aldeia dizimada numa guerra fratricida, a mando
dos comerciantes portugueses, que pagavam
com ouro e prestígio aos que se vendiam a eles
de bom grado, enquanto traíam seu próprio povo,
sem se importar com os grilhões que o sufocavam,
e sem perceber que esses mesmos grilhões
lhes perfuravam a alma, reduziam a pó
sua própria humanidade, tanto quanto
a dos brancos, e de todos os que formavam
esse colar de amaldiçoados, capazes de separar
mães de filhos, amantes de amados, famílias,
futuro, presente e passado, gerações inteiras
atiradas ao nada pela ganância de uns poucos,
em nome do dinheiro, da abastança e do poder,
que era ostentado nas ruas de Lisboa, de Luanda,
da Bahia ou do Rio de Janeiro, por homens
feito animais selvagens, só que bem-vestidos,
que, por baixo das sedas e veludos, passeavam
a sífilis adquirida nos pardieiros de má fama,
onde outros demônios vendiam a beleza
e a sensualidade de mulheres forçadas a isso,
pela fome, pela ilusão, por uma peça de cetim
barato, uma joia falsa, uma pulseira de prata
de pureza duvidosa, um pó colorido, e assim
gira o mundo, num carrossel de pervertidos,
enquanto povos inteiros são arrancados
de seu destino natural, e atirados aos chacais
que os devoram, e lhes arrancam a pele,
o rosto, o coração e os intestinos, e tudo isso
resumido no ventre abjeto do navio negreiro,
por ironia e desprezo batizado Amável Donzela,
que singrava aos solavancos o mar oceano
aberto nas entranhas da terra, como se
todo o Atlântico fosse secado para que
o transpusesse esse cargueiro de maldade,
a pisar a humanidade com seu casco de inferno.
“Que mundo? que mundo é este? Do fundo seio dest’alma
eu vejo... que fria calma dos humanos na fereza!,
vejo o livre feito escravo pelas leis da prepotência,
vejo a riqueza em demência, postergando a natureza,
vejo o vício entronizado, vejo a virtude caída,
e de coroas cingida a estátua fria do mal,
vejo os traidores em chusma, vendendo as almas impuras,
remexendo as sepulturas por preço de áureo metal,
vejo fidalgos d’estopa, ostentando os seus brasões,
feio enxerto de dobrões nos troncos da fidalguia,
vejo este mundo ás avessas, seguindo fatal derrota,
enquanto farfante arrota podres grandezas de um dia![1]” (30-5-25)
[1] Luiz Gama, Que mundo é esse?,
Trovas Burlescas, 1859.
6. O ESPÍRITO É LIVRE
uma casa eterna não construída por mãos humanas,
e por isso, suspiramos neste nosso estado, desejosos
de revestir o nosso corpo celeste, mas isso só será possível
se formos encontrados vestidos, e não nus, pois nós,
que estamos nesta tenda, gememos acabrunhados,
porque não queremos ser despojados da nossa veste,
mas sim revestir a outra por cima desta, para que,
desse modo, aquilo que é mortal seja absorvido
pela vida, e quem para isso nos preparou foi Deus, o qual
nos deu a garantia do Espírito[1]’, por meio do Ancestral,
ele, o único livre, porque liberto da condição humana,
não de cadeias de ferro ou bronze, mas do fato
de ter nascido homem, e rompido com a lógica
que nos guia a todas e todos ao mesmo abismo,
da ignorância e do erro da matéria e do individualismo,
separados da graça divina, que nos fecha as portas
e as janelas da alma para o sagrado, que está acima
de todo entendimento desse mundo, por ser Amor,
Amor que não existe aqui, onde irmãos se esfolam,
onde o ser cósmico que somos ignora o mais profundo
conteúdo da existência, o Amor, semelhança com Deus,
o homem secreto oculto no coração, essa pessoa
capaz de ver através do espírito humano as limitações
de seus erros e ignorância, para que alcancemos
a compleição ancestral pela graça, pois é no Ancestral
‘que habita, em forma corporal, toda a plenitude
a serem conformes à imagem do seu Filho, para que
este seja o primogênito entre muitos irmãos[3]’”. (30-5-25)
[1] 2 Coríntios 5: 4-5.
[2] Colossenses 2: 9.
[3] Romanos 8: 29.
8. AS NOVE ORDENS
e se tornou como nossas almas empedernidas,
e perdemos a capacidade de amar, de participar,
de compreender, e nos revestimos de roupas
falsas, que mascaram a nossa natureza, e perdemos
a visão de Deus, que tínhamos, antes dessa era
de incertezas, quando nossa alma se tornou desértica,
apesar de em cada uma de nós estar impressa
a verdade que desde o princípio estava no Arquétipo,
a bondade, que é a característica de Deus, que faz
com que a alma possa subir até a abside do céu,
para, de lá, contemplar e compreender as coisas
divinas, que não podem ser faladas, as coisas
cuja lembrança a alma carrega, desde quando
preexistia, coisas que ela sabia no não-tempo,
quando participava das nove ordens angélicas.” (30-5-25)
9. UMA PROFECIA
essa experiência que perdemos em nossa queda no mundo,
e por isso são bem-aventurados os que choram, porque
estão de luto pela perda de sua conexão com o divino,
e serão consolados, e receberão os dons do Espírito,
e experimentarão a Deus, e o conhecerão, pois Deus
é a experiência de Deus, não é uma ideia, um mito,
uma filosofia, uma ‘piedosidade’ ou um puritanismo,
e uma doutrina que não nasça dessa experiência
equivale a uma ‘não-verdade’, pois a doutrina não pode ser
como um castelo construído sobre uma nuvem,
mas um castelo solidamente plantado no chão,
como plantada no chão estava a cruz que recebeu
o corpo sagrado do nosso Ancestral, e todo o seu martírio,
e é por isso, Fatumata, que somente teu povo é capaz
de compreender o que eu digo, porque você sentiu
mais dores, e mais profundas, e mais intensas, e conjuntas,
do que toda a humanidade reunida, e esse sofrimento
a faz igual aos santos que viveram, e receberam na carne
o peso do suplício do Ancestral, que com ele dividiram
em sua caminhada, pois a questão com as verdades divinas
é que elas não podem ser entendidas pela razão,
porque são sobrenaturais e têm que ser vividas,
numa super-realidade acima de toda nossa existência,
conforme foi dito, ‘Ama a Deus’, mas não como a ti mesma,
para não rebaixar Deus ao nosso amor humano e restrito,
esse amor ao próximo, ‘como a ti mesmo’, para que
nos tornemos todas uma só pessoa humana, sentindo
a dor do outro, que, sabemos nós, se em nós a nossa dor
dói tanto, no outro sua dor nos é quase insuportável,
pelo amor que lhe temos, que é ainda maior por ele
do que o nosso próprio Si, pois quem ama assim o irmão
se torna realmente um só com toda a humanidade,
assim como nosso Deus, que é Pai, Filho e Santo Espírito,
são três Pessoas numa só essência, chamada Trindade,
existente antes de tudo, consubstancial e indivisível.”
E, passando os braços ao redor de Fatumata,
abraçou-a fortemente, aquecendo-a com seu calor,
e assim ficaram por horas as duas, em silêncio,
sentindo bater os corações suavemente,
até que frestas de luz penetraram no porão do navio,
e Antônia sumiu-se entre os sacos da carga,
deixando Fatumata adormecida, a sonhar com África,
e uma terra nova da qual nada sabia, onde pássaros
estranhos cantariam numa língua que ela não conhecia. (30-5-25)
[1] São Gregório de Nissa, Teologia
Mística.
10. A LIBERDADE
“Se a liberdade não pode estar enraizada
em nenhuma espécie de existência,
em nenhuma espécie de natureza,
em nenhuma espécie de substância,
então só resta um caminho
para a afirmação da liberdade,
que é o reconhecimento
de que a fonte da liberdade está no nada,
a partir do qual Deus criou o mundo,
pois a liberdade se manifestou
antes da existência e ela determina
por si só o plano da existência,
ela pertence a uma ordem e a um plano
diferentes da ordem e do plano da existência,
e a liberdade é absolutamente real,
mas não no sentido em que o mundo é real,
pois a liberdade só se revela
na experiência da vida espiritual,
ela não se revela na experiência
da experiência do mundo,
e é dentro de uma experiência espiritual
que podemos discernir que,
se é verdade que a liberdade
está enraizada em alguma coisa,
ela terá que estar enraizada no nada,
terá se manifestado antes da existência,
antes da criação do mundo.[1].” (30-5-25)
[1] Nikolai Berdiaev, O problema
metafísico da liberdade, IV.
11. OS BRAÇOS MACIOS DA IRMÃ
e pelos braços quentes e macios, braços
de irmã, em que ela se encolhia e aninhava
como se eles fossem uma nova e outra pátria,
onde ela voltava a ser criança, e brincava
entre as árvores do quintal da aldeia,
a colecionar bichinhos e pedras coloridas,
e espantar-se com o fogo da fogueira,
e admirar-se com os pingos de chuva,
a se perguntar de onde vinham,
e de onde vinha o vento, que passeava
as nuvens sobre o azul do céu, e o sol
e a lua, de onde vinham?, para onde iam?,
e todas essas questões se transformavam
dentro dela, em novas perguntas e respostas,
e ela entendia, dentro do sofrer imenso
do teatro horrível do Amável Donzela,
que outro mundo a abrigava, ainda que
sem que o compreendesse ou soubesse,
mas sentia, a cada noite, que existia
um lugar de promessa, que se traduzia
nas palavras misteriosas que lhe eram ditas,
e no colo macio e quente que a acolhia,
nos braços que a enlaçavam, nos dedos gentis
que lhe percorriam os cabelos, e no perfume
doce que tudo aquilo lhe trazia aos sentidos,
um perfume que ela sentira pela última vez
no seio de sua mãe, sob o céu de África,
sua última lembrança de quando ainda
se sentia viva, como agora pressentia
uma nova vida que se abria para ela,
ainda que cada minuto fosse dolorido,
entre as suas dores e as dores dos seus,
que partilhavam a travessia medonha
no bojo infecto do navio negreiro, à espera
de um futuro que nenhum ali quereria. (31-5-25)
12. A CHEGADA AO BRASIL
o tom era outro, e ela ouviu que lhe falavam,
“Estamos chegando ao fim dessa viagem, esconda-se
tanto quanto puder, e vamos trocar de lugar,
eu serei você de agora em diante, e você irá
para onde eu lhe disser, e não faça perguntas,
você entenderá quando chegar a hora,
mas, por agora, tome minhas roupas,
e quando o navio aportar, suma-se no meio
da carga, e só desça quando houver silêncio,
e então pule para o lado do mar, e nade
até o cais, além dos guardas, e ali
a estará esperando uma pessoa, que a receberá
e a levará para bem longe, e não se preocupe
comigo, porque sei o que faço, e assim é
o seu e o meu destino, seja firme, Fatumata,
e não se desvie do caminho que traçamos
juntas nesse inferno por que passamos,
estamos vivas, e é o que importa, e de agora
em diante, a espera a nova vida de que lhe falei,
e eu a encontrarei num momento
que você menos espera, e estarei junto
contigo, e novamente a receberei em meus braços,
e recordaremos juntas esses momentos,
que para mim já se tornaram preciosos,
como o mais valioso dos tesouros
que recebi em toda a minha vida”,
e a voz se calou, e Fatumata percebeu
que tinha no colo as roupas de outra pessoa,
e que a pessoa lhe beijava docemente os lábios
e a deixava a sós com seus pensamentos,
e ela vestiu-se rapidamente, enquanto o navio
atracava ao porto, e havia uma correria
e gritos que vinham do tombadilho e de terra,
e cordas e tábuas rangiam, e havia gemidos
por toda parte, e ela se enfiou no meio dos sacos
e caixotes da carga, e esperou tremendo
que se desfizesse o nó do destino
que a trouxera até ali, e, quando se fez silêncio,
ela deslizou até uma escotilha, e dali
saltou para as águas, como lhe fôra dito,
e nadou para longe do barco, até um ponto
em que conseguiu subir à praia, e ali
encontrou o mensageiro, que a cobriu
e a colocou em sua carroça, e com ela
partiu, a toda pressa, no dia que raiava,
e sumiu-se por entre o emaranhado de ruas,
até ganhar as aforas da cidade do Rio de Janeiro,
e embarafustar por estradas imaginárias
rumo a uma distância que Fatumata não viu,
pois estava completamente exausta,
e sentindo-se ali, amparada, cerrou os olhos,
encolheu-se sob a proteção da carga, e dormiu. (31-5-25)
13. O REENCONTRO
bispo da Igreja do Maranhão, que, ao invés de levá-la
consigo, por desavenças com o Governador da Província,
entregou-a a Dom Manoel da Ressurreição, que a enviou
ao Arcebispado da Bahia, e dali para o Recolhimento
de Santana da Chapada, no norte de Minas, aos cuidados
de Dom Bento Nepomuceno do Castelo e Vasques,
Arcebispo de Alcântara da Serra das Lavras, o qual,
por suas ligações com Madre Maria do Egito,
enviou-a para o Convento da Anunciação,
aonde ela chegou na madrugada do mesmo dia
em que ali chegava Fatumata, de sua longa
e lenta viagem com o mensageiro, em sua carroça
desengonçada, vagarosa e bendita.
“Fatumata! Fatumata!”
Fatumata acordou na sua cama de sacos e caixotes,
e por um segundo pensou que ainda estava no bojo
do Amável Donzela, o tumbeiro que a trouxera
de sua terra até esse lugar distante, para ser escrava
de uma gente cruel e indiferente, e esfregou os olhos
e levantou-se, e viu diante dela, não o carcereiro,
mas uma negra jovem, de olhos meigos e brilhantes,
e, meio sem acreditar no que estava acontecendo,
disse: “A voz!, a voz!, era você a voz que me falava
no ventre horroroso do negreiro? Era você, você,
os braços que me abraçavam, o calor que me aquecia,
as pernas que se entrelaçavam às minhas, era você
que transformou aquela viagem de martírio num tempo
indefinido, e fez pairar sobre a minha cabeça pássaros
de uma espécie desconhecida, era você o tempo todo,
você que trocou de lugar comigo, que se ofereceu
em leilão, para que a comprassem e consumissem,
era você todo o tempo, você que eu encontro aqui,
nesse lugar que não sei, encruzilhada de destinos,
era você minha irmã, minha rede, meu desatino?”
e Fatumata atirou-se a Antônia com toda força,
como se não se vissem há meses, anos, milênios,
e deixou-se ficar abraçada a ela, como se fosse ali
seu seio, e passava-lhe a mão pelos cabelos,
e beijava seu rosto, como se não houvesse
no mundo mais ninguém, como se estivessem a sós,
como se sentiam a cada noite no navio negreiro. (31-5-25)
14. A VIAGEM DE ANTÔNIA
e Guiné, no recém-inaugurado Cais do Valongo, para onde
eram levados agora os escravizados, passando pelas ruas
do centro do Rio, acorrentados, vendo outros irmãos de cor
atarefados, a transportar tonéis de água, e senhores brancos
nas suas cadeirinhas e serpentinas, negros a prestar todo tipo
de serviços, descalços pelas ruas de chão batido, pretos,
ferramentas descartáveis e substituíveis, anunciadas
nos armazéns, “negros bons, negros fortes, trazidos
na última nau”, “aceitamos abatimento de preços”,
“sem risco de transmissão de sarna ou varíola”
– os grandes temores da população – e de como
foi arrematada por Dom Antônio de Pádua e Bellas,
arcebispo da Igreja do Maranhão, e repassada
com pequeno mas seguro ganho, a Dom Manuel
da Ressurreição, já velho e doente, onde permaneceu
por quase um ano, até a morte do velho Bispo
do Rio de Janeiro, que a deixou aos cuidados
do Arcebispado da Bahia, que a colocou no Recolhimento
de Santana da Chapada, para depois cair nas graças
de Dom Bento, em Alcântara da Serra das Lavras,
que, frustrado em seus intentos de seduzi-la,
enviou-a ao Convento da Anunciação de Maria,
que era onde estavam agora, ela, Antônia,
passando-se por Fatumata, e Fatumata, no papel
de si mesma, e que agora poderiam trocar
suas identidades, e Antônia seguir sendo Antônia,
e Fatumata encaminhar-se ao Convento, onde seria
apresentada à Superiora, Madre Maria do Egito,
para trabalhar como cozinheira, e onde conheceria
a Irmã Jesuína, mameluca carijó, convertida, muito cristã
e um pouco macumbeira, que a introduziria por si só
no Cristianismo, um Cristianismo próprio, esotérico,
estranho à maioria dos povos, à sua maneira. (1-6-25)
a Maria do Egito, que as recebeu em seu gabinete, e perguntou
tudo o que queria saber, e leu a carta que lhe enviava Dom Bento,
com recomendações da cozinheira, e olhou para Antônia,
com olhos inquisidores, sem entender muito bem o que fazia
ali essa outra negra, que não tinha nome, nem eira, nem beira,
tão segura de si, calada, mas com uma presença imponente,
que denotava uma autoridade oculta, que Maria pressentia nela,
sem coragem de questioná-la, tanto respeito impunha
com seus grandes olhos serenos, sua postura e seu modo de ser
ao mesmo tempo humilde, silencioso e eloquente,
e levou Fatumata à cozinha, e apresentou Jesuína a ela,
e deixou-a aos cuidados da mameluca, e, voltando-se
depois para Antônia, disse, “Eu a conheço, perdoe-me,
minha filha, mas já nos encontramos no não-tempo,
que você sabe onde fica, e nos veremos ainda muitas vezes,
e eu desejo a você que a acompanhe sempre o Divino,
e que nunca se esqueça da missão que lhe foi dada,
e que volte a esse Convento, quando chegar a hora,
e que essa hora não tarde, porque um ou dois séculos
nada são, quando se vive fora do tempo”, e então
Maria abençoou Antônia, e disse, “Vá agora, em frente,
coragem, pois te aguardam ainda muitas coisas,
que viverás e que já viveste, e terás dores e alegrias,
com Cristo, por Cristo e em Cristo, que a acompanhará
a cada dia, ainda que por mais estranho te pareça,
e lembre-se sempre, de que o anjo disse às mulheres,
‘Não tenham medo, eu sei que vocês estão procurando
ressuscitou, como havia dito!, venham ver o lugar
onde ele estava, e vão depressa contar aos discípulos
que ele ressuscitou dos mortos, e que vai à frente de vocês
para a Galileia, e lá todos o verão[1]’, é o que tenho
e negras, que primeiro verão o Salvador, para depois contar
a toda gente tudo o que se passará, e o que se passou”,
e Antônia ajoelhou-se aos pés da Superiora,
que lhe deu um vidrinho de água benta, e um terço
de contas de sementes, e pôs a mão sobre sua cabeça,
e a seguir despediu-se, e sumiu-se por um corredor,
enquanto Antônia saía ao pátio do Convento, e daí
atravessou o portãozinho, e se pôs outra vez
a caminhar pela estrada, que tão bem conhecia,
e desviou por um atalho no mato, e dali
apertou um pouco o passo, e mais uma vez
penetrou no redemoinho, e acordou um pouco tonta
em outra história, outro espaço e outro tempo. (1-6-25)
Comentários
Postar um comentário