24. VIDA DE ANTÔNIA - PARTE 7: ANTÔNIA - 5. TEODORA E GUACYRA
5. TEODORA E GUACYRA
Onde Antônia encontra Teodora, a órfã Alzira, que fôra
abusada por um homem e expulsa de casa, e a conduz até o distante sítio
Guacyra, para onde já haviam se recolhido as meninas do prostíbulo amazônico.
Ali Alzira, chamada de Teodora – um presente de Deus – se recupera do trauma
sofrido, e a seguir Antônia providencia que ela seja levada ao Convento da
Anunciação.
que alguém chorava baixinho, atrás do mato,
e ela rastejou com cuidado, e se aproximou
e viu uma menina negra, muito nova ainda
que soluçava, com suas roupas simples
rasgadas e ensanguentadas, e uns olhos
a confusão, a perplexidade e o inconformismo
daquela criança, jogada ali, por entre as moitas
e os espinhos, ferida e humilhada, e Antônia
apareceu a ela, que se assustou, mas se acalmou
vendo que era negra, como ela, e mulher,
e Antônia a tomou nos braços, e a aqueceu
enquanto a menina, que se chamava Alzira,
se recompunha devagar, e seu pranto ressentido
se transformava num silêncio, que Antônia
não quis quebrar, e assim ficaram até cair a noite,
e então se levantaram, e puseram-se a caminhar.
toda dolorida, com as pernas bambas,
mal conseguindo se colocar em pé,
num estado de choque, como quem
não acredita no que se passou consigo,
e, de vez em quando, a pequena
soltava um fundo suspiro, e choramingava
baixinho, como se não quisesse ser ouvida,
de pau-a-pique, com telhado de sapé,
e dali saiu uma senhora muito assustada
que foi logo gritando com a menina,
“Onde você estava? Pra isso deixou sua mãe
você comigo? Será que você não aprende?
Que desgosto ainda falta você aprontar
comigo? O que você quer, afinal?”, e,
sem deixar que a menina se explicasse,
tomou de um pedaço de couro e começou
não suportando aquilo, interveio, e se pôs
entre a tia e a menina, tomando-lhe o rebenque
das mãos, e admoestando-a, em vista do que fizeram
com Alzira, tão mocinha, mas isso só enfureceu
mais ainda a mulher, que entrou para dentro da casa
e de lá veio com uma trouxa muito malfeita,
ao chão, dizendo, “Suma daqui, sua perdida!
Se não andasse à toa, exibida, nada teria havido.
A culpa é toda sua, porque não controla
seus desejos carnais, pecadora renitente,
não a quero mais perto de mim, vá você
e essa que está aí, vão as duas, quer saber?,
para o mais fundo inferno, e nunca mais
apareçam por aqui!”, e, dizendo isso, voltou-se
e entrou na casa, batendo a velha porta,
a noite caía, e a menina chorava, agora
convulsivamente, como se o mundo todo
lhe desabasse nas costas, como se tudo
houvesse acabado, como se houvesse
acabado sua própria vida, e com os olhos
marejados, voltou-se para Antônia,
e disse, “O que vou fazer agora? O que
me resta de mim? Não sou mais nada,
tudo o que fui um dia já não serve, ah!,
se ao menos eu tivesse minha mãe por perto,
irá me aceitar como estou agora, desse jeito,
perdida para sempre, sem salvação nem guarida?”,
e Antônia a tomou em seus braços, e falou,
vamos primeiro nos acolher onde possamos
passar a noite, vamos lavar essas feridas,
vamos orar a Deus sob as estrelas, e amanhã
veremos o que fazer, pois não importa
toda treva se dissipa, e o sol brilha,
nos mostrando a direção, e apontando
nosso caminho, o trilho da luz,
da verdade e da vida.” (24-5-25)
logo ao pé de si, a carroça conhecida
e o mensageiro, silencioso como sempre,
que lhe sorriu e colocou as duas para cima,
e, dando um repelão na rédea, pôs em marcha
o burrinho, e, sem dizer palavra, conduziu
as duas mulheres por um longo e sinuoso
caminho, que parecia não acabar,
sobre elas, para que dormissem, e fazia um fogo,
e esquentava uma sopa com pedaços de algo
que não se sabia se era frango, porco ou batatas,
e preparava um chá muito quente e forte,
e ao dia seguinte retomava a marcha,
sempre por caminhos desconhecidos
e atalhos dos quais ninguém sabia, e assim
sobre a qual uma tabuleta dizia “Guacyra”,
e o mensageiro disse, “Chegamos”,
e elas desceram e enveredaram por uma picada
até uma casinha muito pobre, toda branca,
e Antônia bateu palmas, e de dentro saíram
as meninas, Rosa, Rosália e Rosalva, Margô,
Alda e Margarita, Moema e Iracema,
que fizeram uma gritaria, a tal ponto
que Joana Batista, que estava na cozinha,
veio ver o que se passava, e, dando com tudo aquilo,
a preparar um café, e bolinhos, e sentaram-se
todas em roda da mesa, esperando pelas histórias
que Antônia teria a lhes contar, enquanto
se revezavam em se sentar ao seu lado,
e cobri-la de afetos, abraços e carinho,
e perguntavam por Maria, e queriam saber
tim-tim por tim-tim tudo o que acontecera
desde que se despediram no dia fatídico
em que elas deixaram o velho pardieiro,
e correram dali para sua nova vida. (25-5-25)
mas depois levantou-se, decidida
a tomar em suas próprias mãos a vida
que lhe fora roubada duplamente,
primeiro, pelo abusador rufião
e depois, por sua própria tia,
e apresentou-se na cozinha
a Joana Batista, que a beijou,
abençoou, e colocou em suas mãos
um cesto de cebolas, e lhe disse,
e, chorando, vai lavar a sua alma
do que resta de rancor, e só então
você poderá aproveitar seu dia”,
e entregou uma enorme faca a Alzira,
recomendando, “Aproveite para rezar,
assim você santifica o seu trabalho,
e tudo ficará melhor, e passará
mais rápido, experimente, e me diga”,
a balbuciar uma Ave Maria, mas
Joana Batista, Fátima, a interrompeu,
“O que você está fazendo? Não é assim
que se reza!”, e, firme mas com delicadeza,
tomando a menina pelo braço, mostrou-lhe
o fogão a lenha, que passava os dias aceso,
“Veja, veja o fogo! Cada uma dessas brasas
está orando a Deus pelo Espírito Santo,
com mais ardor e fervor do que
todas nós juntas somos capazes de fazer,
todas juntas, para manter o calor,
para se consumirem até que não reste
mais do que as cinzas, para expiarem
todos os seus pensamentos de madeira,
veja como ficam em silêncio, veja
como respiram o fogo, como se dão,
como se entregam em seu labor
de auxiliar na feitura da refeição,
para o preparo das mais deliciosas
combinações de sabor, veja como
se alegram, e assim ficarão, mesmo
que terminemos o preparo, elas
aí continuarão, no recolhimento do fogão,
a entreterem-se mutuamente, a animar
umas às outras, até que todas queimem,
o humilde calor que emana dos pratos
servidos à mesa de outrem que não elas,
até porque elas não comem da mesma coisa,
mas se alimentam da luz que lhes dá o Espírito,
e exalam em troca seus perfumes, e
essa fumaça que sobe, e o chiado da água
que ferve, e da gordura das frituras, veja,
menina Alzira, essa é a verdadeira oração,
e por isso, eu digo, reze, faça o que quiser,
reze como souber, mas não se esqueça
de que a oração mais perfeita, a que nasce
do coração, não tem palavras nela,
mas tem sabor, calor, perfume, fumaça
e cheiro, e há mais santidade nessa prece
do que tudo o que acontece aqui,
em nossa mente, incapaz de entender
o milagre que acontece em cada uma dessas
humildes, simples, puras e analfabetas panelas”. (25-5-25)
o que ela queria dizer com aquelas coisas
que dissera à pequena Alzira, aliás Teodora,
e ela, ao pé do fogo e sob as estrelas, respondeu,
“É preciso exceder, é preciso ir além do que vemos,
se quisermos alcançar os céus que existem
dentro de nós, de cada ser humano, porque
como pensam alguns, mas a união com Deus,
que é o pico dessa subida que empreendemos,
passando pela própria visão do divino, esse pico
que se chama ‘não-conhecimento’, a união
que acontece quando deixamos para trás
a visão, a teoria, as revelações – coisas das quais
necessitamos, mas que são insuficientes – e que
a união com Deus cancela, do mesmo modo
desaparece quando chega ao coração,
pois devemos nos lembrar que a teoria e a revelação
não escapam às coisas materiais, por causa
da mistura de corpo e espírito de que somos feitas
(e é por isso que o corpo reage quando o Espírito
se manifesta – como Paulo, que ficou cego – até que
ambos, corpo e espírito, entendam o que acontece),
é preciso penetrar numa forma de conhecimento
que é similar à dos anjos (muito embora
o conhecimento do ser humano seja superior
ao dos anjos, porque é adquirido, enquanto que
nos anjos ele é inato), esse conhecimento
que é dado por Deus a nós, através do Santo Espírito,
no próprio ser humano, e é nisso que consiste
a divinização desse ser humano, pois foi para isso
que ele foi criado, o homem universal, que sente
e ora com todo o universo como se fosse ele mesmo,
pois Adão possuía todos os dons de Deus,
inclusive a liberdade divina, mas errou ao escolher,
ao passo que os anjos abdicaram dessa liberdade
para cumprir apenas a vontade de Deus (exceto
os demônios, que recusaram essa vontade
e, por causa disso, se tornaram escravos), e é por isso
seu protótipo é Cristo, e é por isso que ele pode
se unir a Deus, numa forma de conhecimento
que é empírico, que não pode ser expresso
por nenhum sistema filosófico ou acadêmico,
porque Deus, embora seja ‘explicado’
na Escritura por meio de coisas desse mundo,
o vento, o fogo, a rocha, a montanha, a luz,
o homem deve despertar com todo o seu ser,
mente, sentidos, sentimentos e todo o resto,
para alcançar o inexplicável, que se manifesta
em nós como paz, alegria, luminosidade,
glorificação e iluminação, e então
de nós mesmas, pela confirmação do próprio
Espírito Santo e nossa própria confirmação,
pois ‘o Espírito testemunhará em vosso espírito
o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis
(gemidos, entendem?, não pensamentos),
e aquele que sonda os corações sabe quais são os desejos
do Espírito, pois o Espírito intercede por nós de acordo
com a vontade de Deus[2]’ e ‘quem nos fortalece
em nossos corações a garantia do Espírito[3]’, como
e prometida em casamento, ‘Ele, o Espírito
porque não o vê, nem o conhece, enquanto que
vocês o conhecem, porque ele mora com vocês,
e estará com vocês[4]’, filhas minhas, como prometeu
o Espírito não falará em seu próprio nome, mas dirá
o que escutou e anunciará para vocês as coisas
que vão acontecer, e esse Espírito da Verdade
manifestará a minha glória, porque ele vai receber
daquilo que é meu, e o interpretará para vocês[5]’,
amadas minhas, e será preciso que vocês tenham
olhos para ver o vento, ouvidos para escutar
as plantas, mãos para apalpar a noite, língua
para provar a luz e olfato para sentir o amor.” (27-5-25)
[1] Romanos 8: 16.
[2] Romanos 8: 26-27.
[3] 2 Coríntios 1: 21-22.
[4] João 14: 17.
[5] João 16: 13-14.
5. ALZIRA, ALIÁS, TEODORA
as flores que cresciam à beira do caminho,
e via as irmãs atarefadas cada qual no seu canto,
a cuidar das coisas desse mundo, que é também
o outro, enquanto seus pés se misturavam
ao barro e ao pó do chão, a mesma terra
que pisavam as formigas e os besourinhos,
e seus olhos se enchiam de céu, e as nuvens
passeavam nos seus ouvidos, sussurrando
gotas de chuva aqui e ali, enquanto a porteira,
tão antiga quanto o mundo, rangia nas dobradiças,
embalançada pelo ritmo do dia, e o sol corria
sua rota do oriente ao ocidente, tão distantes
um do outro quanto nos coloca Deus distantes
dos pecados humanos a quem o ama de verdade,
e Alzira pensava que tudo era alguma forma
de dádiva, de presente dado pelo Pai eterno
àquelas moças, que tanto sofreram no passado,
e a ela própria, que recebia esse presente agora,
junto com esse nome novo, mágico, esse nome
que traduzia tudo numa só palavra, Teodora. (27-5-25)
Parada na encruzilhada, a menina refletia
e como não sabemos quem somos,
de onde viemos, para onde vamos, e ondas
de mistério se formavam no oceano
de seus pensamentos, e pássaros estranhos
voavam ao redor, e mergulhavam em busca
dos mais variados peixes, que traziam
no bico, e os depositavam aos seus pés,
numa praia imensa, que se estendia
além de todos os horizontes, e Teodora
caminhava lentamente, e viu ao longe
alguém que fazia uma fogueira, e assava
um peixinho na brasa, assoprando a fumaça
e cantando baixinho palavras que ela não entendia,
enquanto se aproximava, e a pessoa se voltou
para ela, e ela viu que a conhecia, que já a havia
visto na cozinha do sítio, ou teria sido
nalguma capela de beira de estrada?, enfim,
a pessoa olhou-a bem de frente, e lhe disse,
“A paz esteja contigo”, e Teodora sentou-se
ao lado dela, como ao lado de uma amizade antiga,
e estiveram assim a conversar e entreter-se
por longas horas, enquanto, no horizonte,
o sol subia e descia no seu ritmo de sempre,
e dividiram um pedaço de pão, e a pessoa
parecia divertir-se muito com tudo aquilo,
e falava de quantas vezes jogamos a rede
para o lado errado do barco, e de como
é no outro bordo que acontece o milagre,
que não está em coisas atrapalhadas,
nas belas palavras dos eruditos,
mas nas coisas que vivemos todo dia,
como quando olhamos as coisas,
como quem não quer nada, e vemos
que em cada coisa criada existe uma razão,
um anjo e uma liturgia, porque,
se o momento da criação é o início do mundo
(quando criou Deus o céu e a terra),
o Verbo é ainda mais antigo, porque
no princípio era Ele, que estava em Deus,
e Ele era Deus, e assim o mundo
teve três começos, o Verbo
(gerado, não criado), a Criação
e a Encarnação, que representa o início
da ascensão de tudo o que foi criado
de volta ao seio de Deus, que É,
sem nunca deixar de ser ou de ter sido,
e Teodora escutava a tudo atentamente,
e ao final se despediram com um adeuzinho,
“Preciso voltar para o sítio...”, e a pessoa permaneceu
ali, serenamente, como estava desde o início,
enquanto ela ia embora, deixando na areia
as marcas efêmeras dos seus pezinhos,
e quando Teodora se voltou para vê-la,
já não havia praia, nem pessoa, fogueira ou peixinho,
e ela viu que estava de volta ao caminho, na mesma
encruzilhada, e que os pássaros que voavam
não traziam peixes no bico, mas cantavam
e ela entendia tudo o que diziam, que era
uma prece por toda a Criação, uma melodia
maravilhosa que ela nunca tinha ouvido,
e ela voltou para casa, repetindo os sons,
e cantava sem palavras, porque as palavras
dos passarinhos eram seus próprios pios. (28-5-25)
7. CONHECENDO
com um coração puro, como os bem-aventurados,
e é assim que o conhecemos aqui, e se não o fizermos,
como poderemos reconhecê-lo no céu,
quando chegarmos (“Olá, acabo de chegar,
procuro por Deus, um barbudo com um filho
e um passarinho pousado, vocês o viram?”),
e assim, é preciso que sejamos como sua mãe,
Maria, que “guardava no coração suas palavras[2]”,
palavras que só ela ouvia, porque ouvia além
do que estava dito, porque Maria não era só mãe
de Cristo, ela era toda a humanidade,
e em sua ascendência havia de tudo, santas e santos,
reis e rainhas, pecadoras empedernidas,
pecadores renitentes, todo tipo de gente,
e por isso recebeu Cristo dela a carne,
que continha tudo o que era humano, para que
fosse ele também humano do início ao fim,
ou até antes do início, quando Deus criou
o mundo, e Jesus estava lá, como está dito,
“fostes resgatados pelo sangue do Cordeiro,
da fundação do mundo[3]”, e assim sabemos
que o Reino foi preparado para nós
desde o tempo em que tempo não havia,
mas já existiam a doçura, a amabilidade,
a benevolência, o sacrifício do Filho por Amor,
que, mesmo sendo Deus, Jesus sentia
em suas entranhas, como quando cruzou
com a viúva que levava a enterrar seu menino,
e Cristo o ressuscitou, por ver nela e nele
o resumo de tudo o que um ser humano
poderia ter vivido, toda a dor, o desamparo,
o desespero, que só encontra guarida
nos braços do Senhor, no seio de Maria,
e isso é Deus, afinal, esse porto
ao qual nos dirigimos, porque no mar
a tempestade é inevitável, e aqui existe paz,
e gaivotas, e redes que estão sendo consertadas,
e tavernas, onde as pessoas cantam e esquecem
das dores de que o mundo é feito, e se aquecem
no Amor mútuo, que é o dom daqueles
que encontraram no caminho o único meio
de seguir em frente, e levar adiante o peso
leve de sermos humanos, tão únicos cada um,
e todos, tão parecidos a Deus, e seus herdeiros. (28-5-25)
[1] Simeão o Novo Teólogo, Versos
Espirituais.
[2] Lucas 2: 51.
[3] 1 Pedro 1: 19-20.
8. AS ENERGIAS DE DEUS
e lhe perguntou, curiosa, a razão de que houvesse
tanta variedade de coisas no mundo, que era mais
do que a vista alcançava, e do que a mente compreendia,
e todas as coisas pareciam misturadas numa mesma harmonia,
que não se explicava, mas simplesmente existia,
e Antônia disse, “São as energias de Deus, contidas
em tudo o que há, e repartidas em coisas variadas,
e essa energia una se torna muitas, mas sem deixar de ser uma,
e por isso ela está presente em toda a criação,
uma energia que é única, mas que produz resultados
sempre diferentes e variados, e assim existe uma união
das energias incriadas com as criaturas, e por isso
elas são todas diferentes entre si, porque a unidade
não quer dizer que haja igualdade nem monotonia,
pois em cada ser existe uma palavra de Deus presente,
e cada palavra diversa provém da mesma Palavra, que é Cristo,
e todas são atraídas a ele, ao final, e quando tudo
chega nesse ponto, já não há mais palavras,
mas apenas o amor, ‘cala a boca e me beija’,
como diziam os apaixonados de antigamente,
pois Cristo cancela todo o dito, e o transforma
em puro Amor, amor ilógico, impossível
e intraduzível, que só pode ser vivido, pois
não podemos conhecer a Deus, mas podemos
nos conhecer umas às outras e a nós mesmas,
e através de nós à pessoa oculta no coração,
que não é múltipla, mas sempre a mesma,
aquela que É, sem forma, sem imagem,
onde só o Verbo permanece como Amor,
a Palavra derradeira, e por isso pedimos,
‘eu não sou digna de que entreis em minha casa,
[1] Mateus 8: 8-9.
9. O MUNDO MINÚSCULO
num bicho tão pequenininho?”, perguntava-se
Teodora, olhando a joaninha sobre a folha,
“Como é possível que ele faça com arte
cada pedrinha do rio, cada gota de orvalho,
como ele faz faiscar a água quando bate o sol,
como pinta o amanhecer e o crepúsculo
com cores que só existem nessas horas,
como pode Deus ser tão minúsculo,
a ponto de misturar-se às formigas,
e chocar os ovos dos caramujos, como pode
que o Criador de tudo se faça humilde
desse jeito extremo, apenas para nos trazer
seu modo bonito de fazer as coisas, cada qual
com seu capricho, com tanto amor,
tanto carinho, como pode ele nos consolar
e penetrar lá no fundo do dedo mindinho
do nosso coração apertado, e cochichar
as palavras certas, na hora certa de ouvi-lo,
como pode Deus, de tão grande, se fazer
assim miudinho, como pode ele olhar
do alto do mais alto céu, e ver, perdida
entre essas folhagens, essa menina,
e gostar dela, e fazer por ela o que ninguém
mais no mundo poderia, que foi devolver
o amor que eu tinha, e aquecer minha alma
de um jeito que ninguém podia, e fazer
com que meus olhos voltassem a ver,
sem as lágrimas que me impediam de enxergar,
como pode Deus ser assim, tão meu amigo?”. (28-5-25)
e faziam círculos na superfície líquida lá embaixo,
quando se aproximou uma pessoa, e lhe pediu
um pouco de água para beber, e Teodora se assustou,
e se encolheu para trás, querendo se esconder,
mas a pessoa lhe falou, em tom sereno, “Calma, Teodora,
se você conhecesse o dom de Deus, e quem lhe está pedindo
de beber, você é que lhe pediria. E ele daria a você água viva”,
e ela retrucou, “Não tens um balde, e o poço é fundo,
de onde vais tirar essa água viva?”, mas a pessoa disse,
“Quem bebe desta água vai ter sede de novo,
mas se você beber a água que eu vou dar,
nunca mais terá sede, e a água que eu lhe darei,
vai se tornar dentro de você uma fonte de água
que jorra para a vida eterna”, e Teodora disse,
“Dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede,
para que eu a leve às minhas irmãs, e não precise
vir aqui para tirar”, e a pessoa mais uma vez respondeu,
“Se você quiser, pode ir lá as chamar, mas não é preciso”,
e Teodora falou, “Elas estão na capela agora, e só mais tarde
virão, quando terminarem a adoração”, e a pessoa falou,
“Teodora, menina, acredite em mim, porque já está
chegando a hora em que vocês não adorarão o Pai,
nem sobre qualquer montanha, nem em capela alguma,
e eu lhe digo, as pessoas se ajuntam em igrejas, a repetir
o que não conhecem, mas vocês irão adorar o que irão conhecer,
nas festas, nas Congadas, no Divino, nas vaquejadas,
nos embates da Mouraria contra a Cristandade,
na lavagem do Bonfim, nos carnavais e nos Círios,
nas danças suadas, nas chinelas gastas, nos pés descalços,
nas mãos postas calejadas, nos olhos fechados em sincero amor
por Jesus Cristo, nas velas sobre os altares das rezadeiras,
das parteiras, das ervanistas, das tias Ciata de todos os dias,
nos olhos marejados dos jangadeiros que sabem
que é doce morrer e amar, dos boiadeiros que tocam
suas boiadas até o sol raiar, dos pescadores nos rios,
com suas redes, de todos os que se persignam
com fé e a certeza reta, e dizem, com a liberdade
de quem abandona esse mundo pelo divino, do fundo
da alma, com todo o coração e seu ser todinho, ‘Jesus Cristo’,
porque é daí que virá a salvação, pois está chegando a hora,
e é agora, em que os verdadeiros adoradores vão adorar
o Pai em espírito e verdade, porque são estes os adoradores
que o Pai procura, porque Deus é espírito, e aqueles que o adoram
devem adorá-lo, repito, em espírito e verdade”, e Teodora replicou,
“Todos dizem que vai chegar um Messias, e que, quando ele chegar,
ele nos vai mostrar todas as coisas”, e mais uma vez a pessoa falou,
“Ele é esse que fala a você[1]”, e a menina arregalou os olhos,
a tal ponto que não viu a luz do sol, ofuscada pela surpresa,
e quando voltou a enxergar, estava sozinha no poço,
com o balde vazio nas mãos, e saiu correndo para a casa
para contar às outras o que se passara, e elas disseram,
“Ficamos felizes que também você a tenha encontrado,
essa pessoa santa, que nos acompanha de perto,
que nos aconselha e logo desaparece, através da qual
elevamos ao céu as nossas preces, e você agora sabe,
porque a viu e conhece, e compreende que amamos a Deus
de um modo que o mundo ignora, pois para cada uma de nós
já soou aquela hora, em que, com toda a liberdade, amamos
a Deus em espírito e verdade (pois só livres podemos fazê-lo,
pois livres fomos feitas para esse momento de agora),
e essa pessoa, que nos guarda e acolhe, se homem ou mulher
não importa, a ela chamamos Nonô, Yayá, Nhô, Nhá, Senhor
ou Senhora, como quiser você chamá-la, ela será a mesma pessoa
que desde sempre te acompanhará, ela, que te trouxe aqui,
sem que você soubesse pra que, ela, que te chamou Teodora”. (29-5-25)
[1] Passagem extraída cf. João 4: 4-42.
11. AMO, LOGO EXISTO
e sua respiração se tornava ofegante,
e seus olhos percorriam toda parte,
sem se fixar, e ela andava a esmo, tonta,
sem saber para onde ir nem aonde chegar,
e Alda a viu assim, e se aproximou dela,
e lhe disse, “Teodora, não se assuste,
todo esse terremoto tem nome, e esse nome
é o Amor de Cristo, que você sente sem saber
que está sentindo, agora que você o viu,
e já não duvida, mas tem a certeza
de que ele mora em você, e está contigo
todos os dias, horas e minutos da sua vida,
e isso é a essência de sermos humanas,
porque o ser humano foi criado para isso,
e somente cara a cara com Cristo se pode amar,
porque Deus é Amor, e a verdadeira pessoa
só existe quando encontra a Deus, porque daí
ela se torna fixa, não um caniço tocado pela brisa,
e ela pode dizer, ‘Amo, logo existo’, pois é então
que Jesus coloca suas leis no seu coração,
e as inscreve no caminho de entrada para o entendimento,
e ele já não se lembra dos nossos erros, e então oramos
em liberdade, pois onde o pecado foi remido
já não se faz oferenda pelo erro, porque o sacrifício
único e definitivo foi o de Cristo, e dele participamos
em nossa jornada para o céu, pois a mudança
de ‘coisa’ para ‘pessoa’ já foi plantada em nós,
desde quando entramos em nós mesmas, e recebemos
de volta nossa posição primeira, antes da queda,
e vemos a Deus, que passeia às tardes pelo Paraíso,
quando a brisa está fresca, e existe uma neblina
que nos impede de vê-lo inteiramente, mas sentimos
seu perfume, mansa e amorosamente, pois
é pelo amor que nos unimos a Cristo, pois o amor
não pensa, ele não tem empecilhos, ele não tropeça
nas palavras, no vaivém das virtudes, ele não tem
rugas nem interstícios, e nesse ponto a oração
já não depende da nossa vontade, porque
quem ora em nós é o Santo Espírito, e nos esvaziamos
de nós mesmas, para entrar com a Virgem
no Santo dos Santos, porque nos tornamos
templo de Deus, a mistura secreta do criado
com o Criador – com o incriado – a quem Jesus
se mostra, segundo a fraqueza de cada uma,
e ele transfigura nossa alma, para que ela
encontre a Deus pela oração pura, essa oração
que é encontro e união, que faz com que
nosso entendimento se transforme em Deus
pela graça, que faz com que a pessoa interior
se una a Deus, essa oração que é presença,
que faz com que o entendimento contemple
a Deus, como contempla a si mesmo, pois
Deus é tudo em todas e todos, e assim vemos
o Cristo encarnado, e entendemos o desígnio
de Deus para o homem, antes dos séculos,
pois é por seus ensinamentos que ele atrai
o nosso entendimento, a tantas esferas
quanto as possuía a Divindade antes
do começo dos tempos, antes da criação
do mundo, quando o ser humano existia
na mente de Deus, como um pensamento
a herança dos céus e um intento”. (29-5-25)
12. É CRISTO QUE VIVE COMIGO
que não era por ninguém, mas por todo mundo,
e toda a gente que existe, existiu e há de existir
um dia, sobre a terra ou fora dela, e por todos
os bichos, e os rios e lagos, montanhas e ilhas,
e mares, cavernas, campinas, colinas e prados,
peixes, pássaros, mamíferos, répteis, víboras,
animais míticos e serpentes marinhas, sereias,
dragões, unicórnios, gnomos, ninfas, demônios,
e um sem-número de coisas que não existem,
e ela sentia bater o coração num novo ritmo,
na medida em que a oração envolvia seu corpo
e sua mente numa mesma harmonia, e ela
parecia ser maior do que tudo, mas tudo
mexia com ela, e ela era pequenina, e girava
num torvelinho de calmarias, como pairam
as grandes aves nas alturas infinitas, a rodar
em círculos de ar quente ascendente, a olhar
de longe esse mundo de homens em desvario,
que correm por todo lado, como se isso resolvesse
a menor coisa, como se com isso pudessem
acrescentar um só fio de cabelo à sua calvície
de ideias, de entendimento, de sabedoria,
pobres seres humanos, como ratinhos de circo,
como sapos ao redor do banhado, coaxando
uns para os outros suas vãs teorias sobre nada,
quando a única coisa importante, que os salvaria
desse imenso tédio da existência, é o Amor, esse
que não dedicamos a um ou outro ou uma ou outra,
mas que nos preenche como o ar que respiramos,
como o sangue que nos mantém vivas, falo por mim,
eu, Teodora, que havia morrido, e que agora vivo,
mais do que nunca, pois já não vivo eu sozinha,
mas desde sempre e para sempre, em cada segundo,
dia, mês, ano, infinito, é Cristo que vive comigo. (29-5-25)
“pois quando falamos do amor, falamos de nós,
desse ‘eu’ que somos falsamente, que tudo quer
para si mesmo, enquanto o Amor verdadeiro
é entrega, é a face de Deus que cada uma de nós
tem consigo, pois quem nos salva, disse o Profeta,
‘não é um enviado ou mensageiro, mas o próprio
toma-nos consigo e carrega-nos em todos os dias[1]’,
dentro da espessa neblina, quando pedimos
‘basta que nos olhes com Tua face[2]’, quando oramos
‘levanta sobre nós a luz de Tua face[3]’, para que
‘pereçam os ímpios ante a face de Deus[4]’, pois
o Amor será para nós o dia em que ‘não mais haverá
e do Cordeiro, e seus servos lhe prestarão culto,
e verão sua face, e seu nome estará sobre suas frontes,
e não haverá mais noite, ninguém mais vai precisar
da luz da lâmpada, nem da luz do sol, porque
o Senhor Deus vai brilhar sobre nós, e reinaremos
para sempre[5]’, e essa será a nossa felicidade,
de puro amor, que tínhamos na infância,
quando éramos, simples, e cada uma de nós
era feliz, feliz verdadeiramente e não sabia,
porque esse amor de que eu falo não é algo
que atingimos ou alcançamos, mas algo que desce
a nós e nos envolve, que é o Espírito Santo.” (29-5-25)
[1] Isaías 63: 9.
[2] Salmo 90: 8.
[3] Salmo 4: 7.
[4] Salmo 67: 3
[5] Apocalipse 22: 3-5.
14. O SACRAMENTO OCULTO
de nossa fé nele, para que possamos entender
o sacramento oculto, o mistério que sempre
esteve escondido em Deus, a multiforme
sabedoria de Deus, conforme o projeto eterno
que ele executou em Jesus Cristo nosso Senhor,
esse sacramento oculto que é tudo o que
está implicado em Cristo desde o princípio,
a encarnação, a deificação, a salvação, porque
‘a nós foi dado conhecer os mistérios do Reino[1]’,
‘os mistérios do Reino de Deus[2]’, enquanto que
aos de fora, ‘tudo acontece em parábolas[3]’,
e por isso, menina, é preciso vigilância, vigiar
a si mesma, na progressiva experiência de Deus
através da oração criativa, porque a oração
é um ato do Espírito Santo, que é criativo em si,
para que nossa vida inteira se torne oração,
para caminharmos com Cristo, que está presente,
sempre presente, mesmo quando os ausentes
somos nós, porque vamos encontrar nossas orações
na vida eterna, se conservarmos a lembrança
do sabor desse Amor dele, esse Amor que não pode
ser contaminado pelo mal, que une de todos os lados
a alma, os sentidos e todas as coisas humanas,
num Amor não falado, que é inteiro e sem partes,
que nos amalgama ao Santo Espírito, e nos
faz ser a imagem eficaz de Deus, agora e sempre,
e pelos séculos dos séculos, o que significa
que estamos afirmando a penetração do ‘agora’
no tempo eterno, e vice-versa, o tempo imóvel
de Deus, a interpenetração entre o finito e o infinito,
como foi dito, ‘Eis (cá e agora) aqui (eu) a serva
(a mais baixa condição) do Senhor (a mais alta instância)[4]’,
nessa relação com Deus, que é sempre pessoal,
através da oração, a hora íntima e amorosa,
a lembrança de Deus, até que ela se torne
uma segunda natureza, a presença de Deus,
acima mesmo da nossa consciência, de nossa ciência
e de tudo o que pudemos um dia chamar de ‘meu’”. (29-5-25)
[1] Mateus 13: 11.
[2] Ibid.
[3] Mateus 13: 13.
[4] Lucas 1: 38.
e dele partem e a ele chegam os raios imprevisíveis
do Espírito, que comanda o universo, o sagrado
que contradiz os elementos desse mundo, e revela
a penetração nele de outra coisa, que é o Santo,
o contrário do mundo, a participação em Deus,
que retira a pessoa desse lado da criação,
e transforma a natureza com a presença do divino,
o templo que transforma o ser humano, o tempo
e o lugar, que torna a moeda falsa em autêntica,
que retira do tempo seu aspecto ilusório, matemático,
e faz dele um tempo sublimado, em que as relações
com Deus estão mútuas e presentes, quando
“tudo está perfeito[1]”, como disse Cristo no final do enredo,
Guacyra, um lugar que não existe nesse mundo,
esse lugar que sacraliza a carne, que, de profana
se torna semelhante, pois é a pessoa interior
que aqui se renova a cada dia, enquanto o homem
exterior se corrompe a cada passo, e tudo existe
ao mesmo tempo, como Cristo, “no sepulcro em carne,
e no céu existias, junto com o Pai e o Santo Espírito,
tornando assim plenas todas as coisas, ó inefável[2]”. (29-5-25)
16. A PARTIDA
das meninas, e subiram na carroça do mensageiro,
que, com um dar de rédeas, instigou o burrinho
e se pôs em marcha pela estrada, na direção
contrária à que haviam tomado quando vieram
para estar uma temporada no sítio, enquanto
a menina Alzira se curava das suas feridas,
e nascia Teodora, dona de outro destino.
Mas é a mesma dor, a sentida na separação,
e Teodora a sentia outra vez, como se isso fosse
uma sina, seus pais primeiro, depois a inocência,
a infância e por último a família, ou o que restava
dela, na figura de sua tia, ingrata e traiçoeira,
que a deixara sozinha com seu martírio,
sem se importar com o que lhe acontecesse,
desde que longe de si, ou com o que sucedesse
desde que ela não ficasse sabendo, e assim
Teodora se encolheu na caçamba da carroça,
com seus pensamentos, e consolou-se
com a lembrança de Deus, que a socorrera
quando tudo parecia um desmoronamento,
e a levara até aquele canto do mundo,
tão fora e tão perto dele, Guacyra, tão pequena,
onde lhe parecia ter estado toda a sua vida,
no meio das meninas, sempre sorridentes,
e na companhia do riacho, das matas,
do poço, da encruzilhada, e daquela pessoa
que parecia aparecer sem hora marcada,
e a levava por caminhos de surpresa,
onde se revelavam novas realidades,
que ela nunca pensaria, mas que agora
tinha a certeza de que foi tudo de propósito,
e que nada lhe acontecera, desde que chegara,
e que, fosse como fosse, sua nova casa
lhe traria tantas alegrias como aquele retiro
onde passara os melhores dias de sua vida,
e assim viajaram por dias, nem muitos,
nem poucos, e houve um momento
em que Antônia lhe disse, “É aqui que eu fico,
irmã querida, daqui pra frente é com você,
e esteja certa de que alguém lá em cima,
você sabe quem, está olhando, e que tudo
o que vier pra você a partir de agora, será
como um dom de Deus, como você foi
para todas nós, suas irmãs, Teodora”,
e o mensageiro deteve a carroça, e Antônia
saltou com sua trouxinha, e as duas
se abraçaram muito e muito apertadas,
e Antônia enxugou uma lágrima do rosto,
e outra do rosto de Teodora, que lhe segredou
baixinho, “A ninguém contes o que passastes,
senão a Cananeia e à Madre Maria do Egito”,
e, dando um passo para trás, sorriu-lhe cúmplice
e amorosa, e desapareceu no mato, enquanto
a carroça rangia nos eixos, e logo após a curva
já se divisavam os muros brancos do Convento,
que seria, até o final dos tempos, o novo lar
e uma ponte para o entendimento de Deus
que se abria para a futura noviça, a Irmã Teodora. (29-5-25)
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